domingo, abril 29, 2007

Mente e fisiologia, parte 2: Homúnculos.

O argumento do homúnculo é uma falácia que explica algo por si próprio. É recorrente nos argumentos dualistas. Explica a sensação de ver da seguinte forma: o cérebro processa a informação visual, apresenta-a à alma, e a alma tem a sensação de ver. É como um homenzinho minúsculo que está nos nossos olhos a ver a imagem projectada na retina.

O leitor «Leprechaun» dá um exemplo deste argumento ao propor que o cérebro é análogo a um receptor de rádio (1). Lesões cerebrais afectam a recepção, e é isso que altera o comportamento do corpo; a consciência é imune a estes problemas. É uma hipótese atraente porque parece conciliar os problemas neurológicos com uma alma imortal. É tudo problema de comunicação. O braço não mexe porque não recebe as ordens da alma. O paciente está cego porque o cérebro não transmite a imagem à alma. Mas não explica nada. Como é que se cria consciência? O cérebro passa a informação ao homúnculo e o homúnculo cria a consciência. Muito obrigado... Além disso levanta o problema da interacção entre o homúnculo e o cérebro. Se o homúnculo é imune aos AVCs porque há de sentir dor quando pisam o pé ao corpo?

Além de inútil, a hipótese do cérebro como mero interface entre corpo e a alma é incompatível com muitas observações. A perda de memória exige que seja o homúnculo a esquecer-se das coisas. A dupla consciência do paciente com o cérebro dividido implica que há dois homúnculos a conduzir aquele corpo. O tratamento farmacológico de maníaco-depressivos mostra que o homúnculo é afectado pelo Lítio no sangue.

Falha nos detalhes, e é nos detalhes que as teorias mostram o que valem. Uma lesão na região occipital privou um paciente das cores. Não só deixou de ver cores, mas deixou de conseguir imaginá-las. Uma malformação vascular lesou uma área na parte posterior do cérebro de uma mulher. A paciente perdeu a visão de objectos em movimento. Via perfeitamente o que estava parado, mas qualquer coisa que se movesse tornava-se invisível para ela. Noutro caso, uma mulher sofreu danos cerebrais por inalação de monóxido de carbono e perdeu a capacidade de distinguir linhas horizontais de linhas verticais e não era capaz de identificar objectos a partir de desenhos. No entanto não tinha dificuldade em enfiar um envelope numa ranhura horizontal. Não conseguia distinguir horizontal de vertical mas conseguia orientar um objecto de acordo com a posição da ranhura (2). A teoria da mente no cérebro explica todas estas observações porque podemos identificar no cérebro os sistemas independentes que processam diferentes aspectos da nossa consciência. O homúnculo não encaixa aqui nem a pontapé, porque assume que a consciência é algo uno, indivisível, e imune ao que acontece ao cérebro.

O homúnculo dá uma história bonita. Uma alma imortal que sofre de ressacas mas não de tromboses. Mas é nos detalhes que se vê se a história aguenta. Eu e o «Leprechaun» concordamos que os modelos presentes da consciência vão ter que ser alterados no futuro para acomodar os dados que estão sempre a surgir. Mas o homúnculo tem um futuro tão risonho como a alquimia dos quatro elementos ou o geocentrismo.

1- São modelos, senhor...

2- Estes exemplos foram tirados das páginas 256 e 257 do livro Fundamentals of Human Neuropsychology, de Bryan Kolb e Ian Q. Whishaw. É um livro algo denso e técnico, mas tem centenas de páginas de dados concretos que refutam qualquer homúnculo.

Episódios anteriores:
Mente e fisiologia, parte 1: o dualismo.

11 comentários:

  1. devo dizer que admiro a tua paciência para explicar tudo em detalhe a pessoas como o «leprechaun» que claramente não faz muita ideia do que fala... keep up the good work!... :-)

    uma analogia que por vezes eu acho útil é a do ar na sala onde nos encontramos. tem uma descrição microscópica, a sua constituição molecular, formalisada no contexto da física estatística; e uma descrição macroscópica, as suas propriedades de fluido gasoso, formalisada no contexto da termodinâmica. o ponto chave é que as variáveis úteis na descrição deste sistema são distintas conforme a prespectiva que temos: micro ou macro. o exemplo canónico é o da temperatura: uma molécula não tem temperatura. mas uma colecção muito grande de moléculas --o ar na sala-- já tem. a temperatura é uma propriedade termodinâmica, ou emergente, de uma colecção muito muito grande de objectos microscópicos que, precisamente, não possuem essa propriedade.

    o caso cerebral é semelhante. um neurónio não apresenta inteligência. uma colecção suficientemente grande destes, já pode possuir propriedades emergentes que nós poderemos conotar com inteligência (o fenómeno é mais complexo do que o caso do ar numa sala, pois no caso neuronal existe uma propriedade microscópica extra, o feedback nas interacções, que desempenha também um papel determinante, mas a ideia é a mesma).

    quem sabe um post nessas linhas também possa vir a ser útil! :-)

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  2. Oi Ricardo,

    Era para ser o 2, sobre qualia, mas tive que meter este pelo meio.

    Mas há uma complicação aí. Nota que da descrição microscópica das moléculas consegues deduzir as propriedades macroscópicas (pressão, etc).

    No entanto da descrição de processos neurológicos não consegues deduzir o que se sente ao ter esses processos. Parece-me que é impossível fazer essa dedução.

    Mas enquanto no primeiro caso tens duas descrições, descrição de moléculas e descrição de pressão, no segundo tens uma descrição e a coisa descrita. Também não se consegue deduzir o prédio das plantas da arquitectura. Se queremos o prédio temos que o construir, não deduzir.

    Mas não quero estragar já o post :)

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  3. sim sim, eu concordo que a ideia é apenas qualitativa. tornar a coisa mais quantitativa é um processo altamente complicado que muito provavelmente passa por compreender quantitativamente a "complexidade", especialmente em redes com feedback...

    mas nota que mesmo na física o passo "física estatística" -> "termodinâmica" é altamente não trivial (e requer a identificação de conjuntos canónicos, microcanónicos, etc).

    claramente aplicar estas técnicas de forma rigorosa ao cérebro é uma ciência apenas na infância; o que não quer dizer que estas ideias não sejam úteis para ter uma ilustração simples do processo micro -> macro nas nossas cabeças!

    espero então pelo seguimento do post...

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  4. leprechaun30/04/07, 05:21

    O leitor «Leprechaun» dá um exemplo deste argumento ao propor que o cérebro é análogo a um receptor de rádio.


    No, no! Não é bem isso o que eu digo, e creio que até referi que essa NÃO era a minha posição, mas apenas a utilizei pela sua maior facilidade de exposição e compreensão.

    Deveras, volto a salientar que não defendo qualquer dualismo, mas sim o muitíssimo mais radical idealismo monista, o qual é perfeitamente concordante não só com todos os achados neurológicos acerca do funcionamento do cérebro humano, mas ainda com a mais avançada ciência de ponta, mormente ao nível da física quântica.

    Aliás, a este respeito convém não esquecer a "gnose de Princeton" e as teorias de Penrose, já que não estamos neste caso a falar de meros delírios metafísicos inconsequentes, certo?!

    Num espaço de 8 anos, o reputadíssimo físico e matemático inglês Roger Penrose escreveu 3 livros onde defende a sua concepção da "consciência quântica": " The Emperor's New Mind", " Shadows of the Mind" e "The Large, the Small and the Human Mind". Este tipo de especulação - já que talvez ainda só se possa qualificá-lo assim - tem tido outros seguidores, nomeadamente o físico quântico, Amit Goswami, autor de "The Self-Aware Universe", "The Visionary Window", "Physics of the Soul" e "Quantum Mechanics", entre outros, onde defende a íntima relação entre o modo como se processa o conhecimento consciente no cérebro e o colapso da onda de um objeto quântico.

    Volto a salientar que estamos em terreno altamente especulativo e não passível de qualquer verificação experimental conclusiva, para já, tal como aliás acontece com os mais avançados modelos para unificar a física clássica e a física quântica, numa explicação única da realidade observável - Teoria das Supercordas e Teoria dos Brana.

    Isto não significa, naturalmente, que tais construções teóricas caiam assim do céu por "revelação divina" ou súbita iluminação. É óbvio que têm algum suporte experimental e se baseiam também num raciocínio matemático sólido, afinal estamos a falar de professores universitários em estabelecimentos de reconhecido mérito, Oxford e Oregon neste caso.

    Mas claro, "magister dixit" já passou à história... e ainda bem! Tudo deve ser devidamente comprovado por cada um, segundo a recomendação final de Buda a Arjuna:

    Crês no dharma porque o Buda to ensinou ou porque tu próprio o experimentaste?

    Por fim, a própria Bíblia exorta à comprovação prática da verdade, na 1ª Espístola aos Tessalonicenses:

    Prove all things; hold fast that which is good.

    O modelo materialista da consciência, a que a ciência ainda tanto se apega, cairá inevitavelmente para dar lugar a uma concepção, já emergente, muitíssimo mais vasta do Ser Humano. É só uma simples questão de tempo e nada mais.

    E, claro, as implicações de um tal reconhecimento alastrarão inevitavelmente a todo o modelo da ciência, implicando um novo paradigma em que o papel do transcendente... beyond Space and Time!... será de novo evidente!

    E atenção, que talvez nem falte tanto tempo assim para que estas ideias, ainda muito revolucionárias, se comecem a infiltrar no "mainstream" da ciência.

    Olha, e eu faço de João Baptista...

    Rui leprechaun

    (...proclamo os novos tempos à conquista!!! :))

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  5. Ludwig,

    Desculpe a curiosidade mas, você é neurocientista?

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  6. leprechaun30/04/07, 06:56

    Olá, fero Ricardo! ;)

    Mas eu faço ideia do que falo sim... ou que seria de mim! :)

    Anyway... essa analogia do neurónio e da rede neuronal é até perfeita para exemplificar dois tipos de raciocínio de facto antagónicos. Bem, mas como o Ludwig também pôs objecções a esse raciocínio dedutivo, a minha refutação já não tem tanto impacto. Logo, fico-me pelas generalidades...

    Melhor ainda, esses dois exemplos - do ar na sala e dos neurónios - fizeram-me agora lembrar um conceito que até já teve a sua importância na ciência positivista, mas que agora está quase só relegado para essas franjas místicas e "esquisitas": refiro-me ao holismo, com a sua afirmação de que "o todo é maior do que a soma das partes".

    Falando da medicina, é uma grande pena e uma perda ainda maior para os pacientes que se tratam pela quimioterapia convencional, que a moderna medicina científca tenha esquecido, pelo menos na prática, uma verdade tão simples e auto-evidente, no que se refere ao funcionamento do corpo humano.

    Ao atomizar-se - contrariamente às medicinas tradicionais - numa miríade alucinante de especialidades e sub-especialidades, tratando a parte e esquecendo o todo, a ciência médica olvida por completo não só os princípios hipocráticos que a fundamentaram e aos quais ainda jura fidelidade... lip service, obviously!... mas também aquilo que Augusto Comte considerava a importância do espírito de síntese sobre o espírito de análise.

    Não pondo em causa os inegáveis e maravilhosos progressos da técnica e da investigação ao serviço da saúde humana, é uma pena que não pareça já existir essa alargada visão de conjunto que o filósofo francês afirmava ser essencial para uma compreensão adequada da ciência em si e do seu valor para a existência humana.

    Logo, depois protestam por haver cada vez mais gente a procurar as "crendices" esotéricas e outras que tais das homeopatias e demais. Pois, mas é que aí ainda se faz essa síntese corpo, mente e alma, sem divisões excessivas, como se os diversos órgãos funcionassem por si próprios e estivessem separados dos demais, a exemplo desse conto que ilustra a revolta dos órgãos contra o estômago, que era o único que comia, ora bolas!

    Pois seria, mas no fim todos ficaram esquálidos e lá compreenderam que trabalhavam em conjunto para um fim comum, a manutenção da vida que a todos beneficiava, cada um com a sua função própria, claro.

    Mesmo dando de barato que as tais terapias alternativas são crendices de outrora desajustadas agora, enquanto a medicina que se reclama de única científica prosseguir esta via míope e autista, não será de estranhar que as outras medicinas bem mais humanizadas vão ganhando adeptos, afinal. É que, não é só o corpo mecânico que intervém na cura, mas muito mais ainda a mente e a consciência, decisivas nesse processo psicossomático, logo holístico, que nos restitui a saúde para além da mera terapia física, por importante que ela seja.

    Isso mesmo! Mais neurónios...

    Rui leprechaun

    (...em vez de tantos cifrónio$! ;))

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  7. Caro Rui leprechaun,

    Pelo que me lembro de Penrose (já lá vão uns anos), a tese principal dele era que o nosso raciocínio não é computacional. A fraqueza era a premissa que nós poderiamos resolver pelo nosso intelecto problemas não computáveis como o halting problem. Não me lembro de Penrose defender um monismo idealista.

    Mas penso que o quer falta para perceber a sua posição nisto é que a enuncie claramente. O seu monismo é metafísico (só existe mesmo a mente e tudo o resto, incluindo o cérebro, é ilusão) ou epistémico (existe o resto mas só podemos conhecer a mente)?

    A posição que só existe Atman e tudo o resto é ilusão é trivialmente compatível com qualquer conjunto de observações (serão ilusão e pronto), mas é inutil para prevê-las e não é explicação.

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  8. Caro Bruno H,

    Não... trabalho em bioinformática, e tenho formação em informática e bioquímica. O resto é hobby.

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  9. Li a "Mente Virtual" do Penrose e ele mostra lá, com toda a clareza, o seu ponto de vista: é materialista e repete-o explicitamente várias vezes.

    Depois do que li dele, imagino que não gostasse nada que o seu nome fosse usado para defender a existência da alma...

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  10. leprechaun01/05/07, 00:02

    Que o Penrose é materialista já o sei, pois creio também ter-me referido às conferências e debate com Hawking, publicadas em "The nature of space and time", onde o físico de Cambridge se mostra bem mais ousado do que o seu colega de Oxford.

    Mas referi Penrose já que terá sido o 1º a especular mais profundamente acerca da possível natureza quântica envolvida no fenómeno da consciência humana. A questão da aplicação destas ideias à computação é, a este nível, muito secundária, interesso-me pouco pela AI... para já! :)

    O certo é que essas teorias, que outros aliás refutam, foram um campo fértil para posteriores especulações já de índole bem idealista para explicar o fenómeno da consciência, tanto numa base da física clássica - o macro sistema cérebro - como da quântica - os micro processos envolvidos na transmissão neuronal.

    Uma vez que ainda não o fiz, posso tentar resumir - o que não é fácil! - a ousada teoria de Goswami, outro físico teórico, que ele apresenta muito pormenorizadamente em "O universo autoconsciente" e outras obras posteriores que não li.

    Note-se que, segundo o autor, esta explicação que assenta numa base filosófica puramente idealista - à Platão e à Berkeley e monismo oriental, óbvio! - soluciona a questão da possível telepatia e outros fenómenos parapsicológicos, vistos com muita desconfiança pela ciência oficial. Mas como as teorias também devem ser suportadas por alguns indícios experimentais, Goswami alude a algumas experiências inovadoras, mormente o célebre experimento de Grinberg-Zylberbaum, que se poderá considerar equivalente à experiência-teste de Aspect no que concerne à não-localidade, neste caso entre cérebros e não fótons.

    Obviamente, uma tal conclusão, a ser válida, abre caminho à admissibilidade teórica de fenómenos como a telepatia, por exemplo. É que na ciência não basta a evidência empírica, é preciso a teoria. Pior ainda, sem teoria até se nega ou põe em dúvida a evidência, já que só se vê aquilo que se teoriza, it seems!

    Por fim, do ponto de vista meramente filosófico ou metafísico, Goswami propõe-se explicar, com base nos paradoxos quânticos, o difícil problema do "Eu" individual separado da Consciência universal - atman e paratman - que é um problema bicudo no idealismo monista puro.

    Tecnicamente, consideramos o sistema quântico cérebro-mente como um macrossistema formado de numerosos componentes que não só interagem através de interações locais, mas são também correlacionados à maneira da EPR (correlação de fase).

    A propósito, para o físico, a correlação EPR corresponderia a uma influência do potencial não-local entre os objectos.

    O cérebro-mente é um sistema interactivo com componentes clássicos e quânticos. Esses componentes interagem dentro de uma estrutura idealista básica, na qual a consciência é fundamental.

    Em seguida, um breve sumários desses dois componentes:

    O componente quântico do cérebro-mente é regenerativo e, seus estados, multifacetados. É o veículo da opção consciente e da criatividade. Em contraste, uma vez que precisa de longo tempo de regeneração, o componente clássico do cérebro-mente pode formar memória e, dessa maneira, servir como ponto de referência à experiência.

    Goswami apoia-se em David Böhm e Auguste Comte para sustentar um princípio de incerteza que opera no caso do pensamento. Ou seja, há uma complementaridade entre o aspecto (conteúdo) e a associação (movimento) do pensamento que corresponderiam à posição e momentum dos objectos quânticos.

    As experiências meditativas ou a simples associação livre, por exemplo, parecem validar facilmente este conceito. Além do mais, há também saltos quânticos nos processo mentais, mormente no fenómeno da criatividade.

    Logo, em resumo, é este o quadro teórico básico em que Goswami se apoia para desenvolver uma teoria muito ousada e com implicações bem inovadoras... caso se revele correcta, claro está!

    Por fim, para que haja de facto alguma coerência naquilo que o físico sustenta, é evidente que são necessárias alguns indícios, no mínimo, da possível não-localidade da acção da mente, um campo que ele cobre com referência a várias experiências, algumas bem recentes, no domínio da psicologia experimental.

    Ora bem, ficamos por aqui para já...

    Rui leprechaun

    (...mas 'inda hei-de voltar cá! :))

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  11. Ankor Tourack31/10/07, 19:27

    "O homúnculo não entra nem a pontapé".
    Certamente que não! Se não dá pra acomodá-lo, com jeito e paciência, com as mãos; não seria com a estupidez de um pontapé que as coisas se encaixariam.
    Tiradas de humor à parte, o homúnculo – mestre ou engenheiro interior para antigos sábios orientais e escolas herméticas – era um start interessante para a compreensão da mente, à luz da consciência (que é uma função da própria mente) humana do século XXI; o qual [start] as áreas cognitivas da ciência perderam e hoje estão sem rumo.

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