sexta-feira, abril 27, 2007

São modelos, senhor...

O leitor que assina «Leprechaun» afirma:

«enquanto considerarmos a consciência como [...] mero subproduto da matéria altamente organizada, neste caso o cérebro, tudo aquilo que observarmos... por muito anómalo que seja [...] será interpretado nessa base filosófica que ainda enferma a ciência actual.»

Os modelos surgem milagrosamente no avental do cientista, meros frutos dos pressupostos que ele enuncia e imunes às evidências. Já me cansa repetir que esta história está ao contrário. Vou ver se resolvo isto com um post; não elimina a ideia mas sempre fico com uma coisa à mão para copiar e colar. Talvez mande fazer um carimbo...

É verdade que os modelos científicos são rígidos e limitam a interpretação das observações. Mas são tão rígidos que se partem quando as observações não encaixam. Consideremos a consciência como mero subproduto da matéria pouco organizada, neste caso as unhas. Esta hipótese é tão científica como a do cérebro, apenas noutra parte do corpo. Mas não se encaixa qualquer observação nesta «base filosófica». Corto as unhas, não perco a consciência, e vejo logo que o modelo é treta.

Um modelo cientifico não é uma «base filosófica» que permita interpretar tudo e mais alguma coisa. É um conjunto de afirmações precisas que só pode corresponder a um cenário bem definido. Afirmar que a massa do protão é 938.272 MeV não dá margem para anomalias. Ou é aquilo, ou está errado.

Os modelos são rígidos, mas a ciência progride porque não se prende a um modelo. Não anda milhares de anos a tocar o mesmo disco riscado. Arremessa os modelos contra as observações, parte quase todos, cria novos modelos e repete enquanto houver financiamento. E os modelos que sobrevivem não são menos frágeis. Estão é encastrados na realidade e apoiados nas evidências, e só por isso é que ainda não se partiram.

O modelo do cérebro consciente será refutado se alguém mostrar que pensa sem actividade cerebral. E não só, porque este modelo não é apenas uma afirmação vaga. É o modelo do córtex visual, do papel do hipocampo na formação de memórias, da regulação de comportamentos pelo córtex pré-frontal, dos efeitos da norepinefrina na depressão clínica e muitos outros detalhes. É um modelo que sobreviveu ao massacre de inúmeros modelos alternativos. Não por ser uma «base filosófica», não por interpretar tudo o que calhar ou por ser poesia vaga. Este modelo sobreviveu porque concorda com a realidade ao pormenor.

E vai-se partir. A ciência exige cada vez mais dele e vai revelando as suas falhas. Partes do modelo serão substituídas e daqui a uns anos teremos modelos bem diferentes para o funcionamento do cérebro. É este o processo. Os modelos que este processo produz não são edifícios construídos sobre os pressupostos que nós escolhemos. Pelo contrário, são as pequenas pepitas que sobram depois da realidade desbastar o lixo que é a maior parte dos pressupostos que inventamos.

10 comentários:

  1. Simulação a 10% da velocidade normal de metade não estruturada do cérebro de um ratinho. Mais 3 anos e temos o rato dento do computador. Uploading, anyone?!?

    http://www.openthefuture.com/2007/04/the_early_signs_of_the_long_to.html

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  2. http://sciencenow.sciencemag.org/cgi/content/full/2007/413/2

    Uma prova de como até os modelos mais rígidos são postos em causa quando nos apetece. Este não partiu porque os dados encaixam como uma luva.

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  4. Caro Ludwig Krippahl muito bom post! Admiro a sua paciência para explicar estas coisas às pessoas mais desinformadas que andam para aqui a mandar umas bocas. É que destes posts até os mais informados re-aprendem o que é a ciência. A divulgação que faz é de facto extremamente importante. Cumprimentos e a continuação de um bom trabalho neste blog

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  5. vale ainda a pena dizer que é um modelo muito bem testado, por exemplo através de ressonância magnética nuclear...

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  6. leprechaun29/04/07, 10:47

    O modelo do cérebro consciente será refutado se alguém mostrar que pensa sem actividade cerebral.

    Bem, pensar pensa... mas se já não tem actividade cerebral, corpo não tem também! ;)

    Ora vejamos se eu explico de novo um provável ponto de vista, que inverte ou reverte essas relações de causalidade que, ao nível das experiências aqui relatadas, pretendem demonstrar que a consciência humana está dependente do funcionamento do órgão "cérebro" e da sua actividade neuronal e electro-química.

    Pois bem, retomando o exemplo clássico do rádio, de que já falei noutro tema, se eu andar por lá a mexer nos diversos componentes - válvulas e transistores e condensadores e fios e altifalantes e sei lá que mais -, é evidente que vou modificar... para pior!... as condições de recepção do aparelho, podendo mesmo deixar de ouvir seja o que for. E sem rádio... ou sem cérebro!... é que não oiço mesmo nada de nada, no way!

    E que conclusão posso tirar dessas experiências nos diversos componentes do aparelho de telefonia? Bem, eu diria apenas que são essenciais para uma boa recepção, nada mais. Ou seja, não estamos ao nível da criança ou do primitivo que pensa que as figurinhas que vê na televisão estão dentro daquela caixa, certo?!

    Do mesmo modo, o facto de lesões diversas ao nível do cérebro produzirem alterações da consciência não pode ou deve ser imediatamente interpretado como se a mente consciente fosse um produto desse órgão ou de qualquer uma das sua partes! É que essa relação de causalidade é, a este nível, inteiramente prematura!!!

    Note-se que a mente ou consciência, mais todos os seus componentes - inteligência, raciocínio, memória, atenção, etc. - não são entidades materiais redutíveis a átomos e moléculas ou partículas elementares, bem, pelo menos no nosso actual estado de conhecimento acerca da fisologia do sistema nervoso central.

    Todos os estudos que continuam a ser feitos sobre a mente e consciência humanas, como os de António Damásio, por exemplo, podem sem dúvida demonstrar que existem relações entre ambas e o órgão físico cérebro, mas continuo sem ver de que forma representam alguma prova de que não há consciência sem actividade cerebral, já que o mais que se pode concluir é que, no estado actual da ciência, é impossível provar que a consciência é independente do cérebro e tão somente isto!!!

    E esta NÃO é uma distinção despicienda, atenção, já que tem subjacente uma filosofia inteiramente díspar, como tenho vindo a dizer.

    Para concluir, relembro apenas que muitas das grandes teorias científicas, como o conceito do átomo de Demócrito ou a existência de organismos microscópicos, só puderam ser comprovadas por vezes vários séculos após terem sido formuladas, apenas porque não existiam instrumentos científicos ou outros métodos capazes de as validar satisfatoriamente.

    Em suma, o actual modelo mecanicista do cérebro produtor da consciência ainda vai servindo a ciência e como tal é quase universalmente aceite. Mas, como se diz no post: Este modelo sobreviveu porque concorda com a realidade ao pormenor.

    E logo a seguir: A ciência exige cada vez mais dele e vai revelando as suas falhas. Partes do modelo serão substituídas e daqui a uns anos teremos modelos bem diferentes para o funcionamento do cérebro.

    Exactamente, de acordo! Mas a substituição que eu antevejo não será nenhum mero aperfeiçoamento, antes uma autêntica revolução de paradigma em que a mente/consciência poderá ser reconhecida como independente e anterior à actividade cerebral e, obviamente, sobrevivendo-lhe quando aquela cessa definitivamente.

    E sim, este é um modelo filosófico frontalmente oposto ao paradigma do realismo materialista que ainda guia os cânones científicos vigentes, mas que terão de ser abandonados à medida que aprofundarmos os nossos conhecimentos da realidade.

    And it seems we are getting there... sowly but fair! :)

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  7. leprechaun:

    De acordo com esse modelo, ao longo da vida a nossa alma não aprende nada.

    Se o cérebro é um "receptor" da alma, todas as alterações que sofre (desde o Alzeimaer até à bebedeira ocasional) são alterações na recepção. Então não pode existir aprendizagem, visto que a aprendizagem é exactamente isto: as nossas grelhas de neurónios alteram-se e ficamos com melhor acesso a alguma informação (e por isso pior acesso a outra).

    Isto não se aplica apenas a aprendizagem de conhecimento académico: aplica-se a aprendizagem emocional, aplica-se a todas as mudanças que acontecem na nossa personalidade. Para acontecerem tais mudanças ocorrem esquecimentos, e tais esquecimentos são parte integrante dessas mudanças. Mas como esses esquecimentos são fisiologicamente equivalentes a outras formas de perder informação naturais, as quais são supostas apenas alterar a recepção, então a nossa alma não tem acesso às mudanças que acontecem ao longo da noissa vida.

    Como a nossa personalidade muda completamente, transforma-se, aprende, vive experiências emocionais, sociais, académicas, que a definem, é curioso entender que na teoria do receptor nada disto acontece à alma.
    Isto quer dizer que "quem nós somos" tem pouco a ver com a alma, então.

    Nesse caso, o que resta à alma de nosso?

    Temos outro problema: todos os alegados indícios da existência de almas se tornam ainda mais ténues se nós tivermos em conta esta questão: almas que não se alteraram com a experiência de vida dos seus donos.
    E na questão das religiões, enfim: ser recompensado por aquilo que foi feito em vida é algo que não faz sentido numa alma que não muda. Seja para reencarnar, seja para ser julgado, para uma alma imutável não há esperança de rendenção nem perigo de queda.

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  8. leprechaun30/04/07, 07:16

    Ena, João... grande cérebro da nação! :)

    Em 1º lugar, como já expliquei, esse exemplo do rádio foi apenas utilizado pela sua simplicidade, mas não corresponde aos modelos mais actuais que pretendem refutar o cérebro como sede ou "produtor" da mente e da consciência, por assim dizer.

    É que a primazia absoluta da mente sobre a matéria não é assim muito fácil de explicar... e muito menos sequer de admitir, convenhamos!

    Aliás, isto é até igualmente válido para o pensamento religioso tradicional, o qual será dualista a este respeito, pelo menos no que se refere às religiões do "Livro". Mas ainda espero ter tempo e oportunidade para ir metendo a minha lança em África... com jeitinho e sem provocar muito sangue! :)

    De acordo com esse modelo, ao longo da vida a nossa alma não aprende nada.

    Exacto, é mesmo isso! Pelo menos, de um ponto de vista inteiramente idealista, nada aprendemos e tão somente recordamos o que já sabemos, as tais "ideias puras" platónicas. É esse o verdadeiro conhecimento para Platão, a intuição directa e imediata do mundo supra-sensorial, que está à disposição da mente que consegue apreender as Formas imutáveis e perfeitas. Note-se que esta visão do sábio grego colocaria a ciência ao nível de mera "opinião", já que o mundo dos sentidos ou o universo material é mutável e daí sempre sujeito a uma percepção errónea.

    Já agora, é interesante que talvez a este nível a matemática seja a ciência pura e perfeita, e são deveras os modelos matemáticos que têm feito progredir enormemente as ciências físicas, no nosso tempo.

    Logo, o velhinho Platão regressa em força...

    Rui leprechaun

    (...e a ciência que se acautele que ele faz mossa! :))

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  9. No tempo de Platão podia-se usar a matemática para deduzir, dos tais axiomas auto evidentes de Euclides, a geometria do espaço e do plano, e assim por diante. Dava a sensação que por puro raciocínio conseguiamos saber como o universo funcionava.

    Hoje em dia sabemos que esses axiomas são tão arbitrários como qualquer outro, e que a matemática serve tanto como a gramática para saber o que se passa no mundo. Com a gramática posso dizer «a molécula de água tem dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio» mas também posso dizer «a molécula de água é feita de cães e rabanetes».

    A matemática funciona da mesma forma. O que sai depende totalmente do que lá metemos.

    O problema é que a realidade é apenas uma infima parte de tudo o que a razão pura pode gerar. Por consequência, 99.99999+% do que a razão pura pode gerar é disparate e fantasia.

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  10. Investigações recentes vieram confirmar aquilo que os criacionistas há muito diziam:
    o DNA não é "junk", como os evolucionistas sustentavam. Ele é inteiramente funcional.

    Na sua compreensão distorcida pelo modelo evolucionista, os evolucionistas sustentavam que o DNA era maioritariamente composto por "lixo", resultante do processo evolutivo.

    Diferentemente, os criacionistas, como acreditavam ter sido o DNA criado por Deus, sustentavam que ele seria inteiramente funcional.

    Mais uma vez se mostra que 1) o modelo criacionista permite fazer previsões científicas e 2) que essas previsões podem ser objectivamente confirmadas.

    Na verdade, os estudos mais recentes, amplamente divulgados pela imprensa nacional e internacional, demonstram que o DNA é um sistema operativo cuja complexidade relega todo o poder computacional gerado pelo ser humano para o estatuto de simples brincadeira de bebé.

    O DNA é um sistema de armazenamento e processamento de informação esmagadoramente sofisticado.

    Como poderia um softweare tão complexo e com tanta capacidade de armazenamento de informação ter sido o resultado de um processo evolutivo aleatório?

    De onde veio toda essa informação, com todas as instruções para o fabrico de plantas, animais e seres humanos inteiramente funcionais e interdependentes?

    Que diria Darwin se conhecesse a sua complexidade e não estivesse erradamente convencido que as células são mero protoplasma indiferenciado?

    Na verdade, para além de DNA com genes codificadores de proteínas, percebe-se a existência das mais diversas e variadas formas de RNA, com uma complexidade até agora inabarcável.

    Isto levou Tim Hubbard, do Wellcome Trust Sanger Institute, a a afirmar: "The surprising results, transform our view of the genome fabric.”

    Até então entendia-se que a actividade do genoma se "limitava" aos 22 000 genes que fazem proteínas, os blocos funcionais das células, juntamente com outro DNA que controla e regula os genes.

    De acordo com o entendimento tradicional, 97% do genoma era visto como “junk” DNA, na medida em que se entendia que não tinha função.

    Gradualmente, os números foram sendo alterados, à medida que se descobria a função.

    Presentemente, o Dr Hubbard afirma: “We are now seeing the majority of the rest of the genome is active to some extent.”

    A inteira funcionalidade do DNA estava longe de constituir uma previsão evolutiva.

    No entanto, ela era prevista pelos criacionistas e é inteiramente consistente com o modelo criacionista.

    A única coisa verdadeiramente "junk" em todo este processo é a teoria da evolução e as suas previsões.

    Mesmo as alegadas similaridades entre os chimpanzés e os seres humanos baseiam-se num conhecimento do DNA totalmente imaturo e desadequado.

    Como se vê, os criacionistas não têm que negar a ciência para defender a sua posição.

    Antes mobilizam a ciência para demonstrar que só a ideia de uma criação inteligente é compatível com a evidência.

    Não é a falta de evidência que leva os evolucionistas a negarem o Criador. É a apenas a sua ideologia naturalista, por sinal destituída de qualquer fundamento empírico.

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