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sábado, fevereiro 16, 2019

Treta da semana: aumentar a vibração.

Nos próximos anos, entre 2019 e 2024, irá ocorrer o Evento. «O Evento é o avanço por compressão [...] quando as forças da Luz acima e abaixo da superfície do planeta se encontram na superfície do mesmo». Várias coisas vão suceder nesse Evento. Algumas à escala galáctica, como «uma grande onda de Luz ou flash, de Energia Divina, de luz do Sol Central Galáctico diretamente para a superfície do planeta. (O Sol Central Galáctico é um objecto na constelação de Sagitário)». Outras mais modestas, como «Detenções e desmantelamento das organizações criminosas que operam a nível planetário (prisão em massa da cabala)» (1). Mas atenção: «O planeta irá passar de um planeta de 3.ª para 4.ª densidade (daí as alterações climáticas, terramotos, etc), portanto irá elevar a sua frequência, portanto os humanos também terão de o fazer, se desejarem permanecer cá, sendo que a Época Dourada começará na Terra». Não podemos deixar que o planeta passe para a quarta densidade sem aumentarmos nós próprios a nossa frequência. Felizmente, não é preciso comprar um martelo pneumático ou uma cadeira de massagens. O autor, informado pelos seres de Luz, diz-nos o que fazer e não fazer. Não devemos comer açúcar, nem beber água da torneira (porque tem químicos, principalmente H2O) e sobretudo evitar «Água ácida». É importante também saber que «as pessoas depressivas sugam-nos a energia, portanto diminuir o contacto com elas». Se tiverem algum amigo que se sinta mais em baixo, cortem relações. Um suicídio a mais ou a menos faz pouca diferença nas estatísticas e sempre poupam o incómodo de aturar gente deprimida. Ironicamente, nessa página está também este aviso: «Internet: se a mesma for usado de forma consciente é bem-vinda, mas a maioria usa a internet obviamente para aquilo que não interessa e ocupa muito do seu tempo livre.»(2)

No YouTube há muitos vídeos a explicar como se pode aumentar as vibrações e até que frequências são boas para vários efeitos. 432Hz cura, aumenta a vibração e energia positiva e ainda traz amor, força e poder (3). Com 963Hz activa-se imediatamente a “Glândula PINEAL” o que, suponho, é bom, mas não explica porque é que o vídeo dura quase quarenta minutos se a activação é imediata (4). Mas parece que o mercado das frequências na nossa língua está dominado por brasileiros. Encontrei apenas dois mestres portugueses desta disciplina do aumento vibracional e um deles, Jorge Silva, parece estar agora ainda menos activo do que estava quando fazia vídeos. Deixo aqui as suas recomendações para aumentar a vibração do corpo ou, pelo menos, para dormir uma sesta:



O outro, achado graças ao Facebook, é Ivo Artur, aparentemente um português que vive no Brasil e que tenta conciliar as duas pronuncias com resultados fascinantes. Sem menosprezar o contributo de Jorge Silva, julgo que Artur causa mais vibrações, especialmente na região abdominal.



Eu gosto de terminar os meus posts frisando a mensagem principal, em jeito de conclusão, mas neste caso não sei o que fazer disto. Deixo-vos apenas mais um vídeo de Artur, que penso ilustrar bem o que conta como explicação e conhecimento nestas andanças. Muitas vibrações para todos, mas só das positivas, uma boa dose de namastés e não bebam água ácida que é só químicos.



1- oevento.pt, O que é o Evento
2- oevento.pt, O que nos faz subir ou descer a nossa Energia, Frequência e Vibração
3- YouTube, Clube de Meditação para Pensamentos Poderosos, 432Hz Frequência de Cura | Aumentar Vibração e Energia Positiva | Atrair Amor, Força e Poder
4- YouTube, Outro Mundo, Glândula PINEAL| 963Hz | ATIVAÇÃO IMEDIATA | Meditação |

quinta-feira, agosto 02, 2018

Treta da semana: incêndios terroristas de geo-engenharia.

Durante a minha ausência, certamente se interrogaram acerca da relação entre os incêndios, a pedofilia e Bruxelas. Não se preocupem mais com isso. Já estou de volta para esclarecer tudo.

Segundo fontes fidedignas que conhecem uma pessoa que foi agente da Mossad (melhor ainda do que ter um amigo na NASA), há pessoas poderosas que querem criar uma Nova Ordem Mundial e juntar todo o mundo num só país, com um só governo. Não é claro porquê. Para quem tem poder e dinheiro dá muito jeito mover capital entre países com níveis de vida diferentes enquanto os trabalhadores ficam presos à sua terra. Só assim podem vender caro num lado o que foi produzido por tuta-e-meia no outro e ainda tratar dos impostos num terceiro país que não lhes cobre nada. Mas a Nova Ordem Mundial é liderada por Nazis e Swiss Octogon Templars, descendentes de atlantes e faraós, pelo devem ter lá as suas razões para querer um só país (1).

Para perceber o que isto tem que ver com incêndios, pedofilia, e Bruxelas é preciso primeiro conhecer a operação Gládio. Ostensivamente, é um termo informal para operações de resistência clandestinas que foram organizadas pela NATO para a eventualidade de invasão soviética (2). Mas, na verdade, é a operação secreta pela qual a NATO controla todo o terrorismo mundial (3). Desta forma, a NATO conduz ataques terroristas para culpar organizações como os Taliban ou o ISIS, que não fazem nada senão ficar com os louros. Bela vida, a de terrorista fajuto. O quartel-general da NATO, e centro de comando da operação Gládio, fica em Bruxelas, que é também onde se desmantelou grandes redes de pedofilia, «o mecanismo principal de controlo da Matriz Global de Controlo»(4). Para criar um governo mundial é preciso começar pelo mais fundamental em qualquer governo. Ou seja, violar crianças. Tudo o resto tem de assentar nessa fundação e, como vêem, está tudo interligado. A NATO gere a operação Gládio em Bruxelas onde pedófilos lançam os alicerces do novo governo mundial. Mas como nem só de pedofilia vive uma ditadura, é também preciso terrorismo incendiário e geo-engenharia.

Um governo mundial só é possível se as pessoas acreditarem no aquecimento global. Porquê, não percebi. Mas é assim. E, para isso, não basta a temperatura aumentar. É fácil os nazis e os templários suíços aumentarem a temperatura porque controlam engenheiros «capazes de fabricar qualquer estado de tempo que desejem»(5). Mas ninguém vai acreditar no aquecimento global só por ver a temperatura aumentar. É preciso incêndios. E a melhor forma de provocar incêndios sem ninguém suspeitar da NATO é a NATO usar aviões especialmente equipados com raios laser que só a NATO tem (6). Se passasse alguém no mato com um isqueiro e uma garrafa de gasolina toda a gente desconfiava da NATO. Óbvio. Quem mais poderia ser? Mas usando aviões secretos e raios laser a NATO fica livre de qualquer suspeita. Ou ficaria, se não fossem os argutos detectives da Internet e os seus conhecidos na Mossad.

Isto não é só especulação. Há evidências sólidas. A tragédia recente na Grécia foi comprovadamente um ataque das forças terroristas e pedófilas da NATO, controladas a partir de Bruxelas, com o intuito de pôr os nazis a controlar o governo mundial. A prova disso está nas fotos de carros carbonizados. «O que poderia ter causado os danos invulgares de ruas cheias de automóveis queimados ao pé de árvores e edifícios que permaneciam ilesos se não AED (Armas de Energia Dirigida)?»(7). Realmente, o que poderia? Uma possibilidade seria a de os carros conterem materiais inflamáveis, como gasolina, plásticos e borrachas, e bastar que algo lhes pegue fogo para que ardam completamente. Parvoíce. A única explicação plausível é que os pilotos terroristas e incendiários da NATO, enquanto disparam lasers para as florestas, gostam também de mandar uns disparos contra os carros para se divertirem e deixarem pistas.

Relendo o texto que escrevi admito que há aqui coisas que podem parecer pouco credíveis. É um dos muitos efeitos das chemtrails que são usadas para a geo-engenharia do estado do tempo (8). Sempre que houver aviões a deixar rasto evitem sair à rua sem o chapéu de folha de alumínio.

1- The Millennium Report, The Power Structure of the New World Order
2- Wikipedia, Operation Gladio
3- The Millennium Report, GLADIO: “The SWORD” Used By The North Atlantic Terrorist Organization Worldwide
4- The Millennium Report, Pizzagate, que refere State of the Nation, Pedogae. 5- The Millennium Report, CALIFORNIA FIRESTORMS: Who’s geoengineering the statewide conflagration and why?
6- State of the Nation, 500 Trillion Watt Laser Created In California (Video)
7- The Millennium Report, FALSE FLAG ATTACK: Greece Targeted With Geoengineered Wildfire Terrorism (Photos)
8- The Millennium Report, Government Finally Admits Chemical Geoengineering Via Chemtrail Operations

quarta-feira, abril 01, 2015

Estou convencido.

Há anos que eu defendo que há um conflito fundamental entre ciência e religião. Sempre me pareceram actividades incompatíveis. Mas, hoje, o Miguel Panão convenceu-me de que, afinal, ele é que tem razão. Não há conflito nenhum.

O meu primeiro erro tem sido pensar que “religião” referia o conjunto de ideias que os religiosos do mundo inteiro têm como religião, conjunto no qual abundam crenças contrárias àquilo que a ciência moderna afirma. No entanto, parece que o significado verdadeiro do termo “religião”, afinal, restringe-se à variante do catolicismo que o Miguel Panão defende, especialmente concebida para não afirmar nada que se possa averiguar se é ou não é verdade.

Eu também julgava que a religião seria incompatível com a ciência por se fundamentar em argumentos de autoridade, algo que a ciência rejeita liminarmente. A crença numa proposição por ser afirmada num livro sagrado, ou por um profeta ou sacerdote, é o contrário do espírito de crítica e verificação independente que a ciência exige. Mas, neste seu último post, o Miguel Panão apresenta um argumento muito persuasivo. Acerca da tese do conflito, o Miguel afirma que «não vale a pena insistir num modelo que não só não tem futuro, como nunca teve passado», e justifica cabalmente esta afirmação citando «o seguinte comentário de um historiador de ciência: “The common belief that … the actual relations between religion and science over the last few centuries have been marked by deep and enduring hostility ….is not only historically inaccurate, but actually a caricature...”». A ciência tem mérito em muitas coisas mas é impotente perante o poder persuasivo de justificar uma afirmação citando um comentador anónimo que afirma o mesmo.

Também me apercebi que, até agora, não tinha conseguido apreciar o progresso que a tal “religião” nos deu. Em 1586, Domenico Fontana, sob direcção do Papa Sisto V, colocou no centro da praça de São Pedro o obelisco egípcio que ainda hoje lá se encontra. Nessa altura, o obelisco estava a umas centenas de metros dali e o transporte e colocação daquela pedra com 25m de altura e trezentas toneladas de peso foi um feito notável para a época. Foi uma cuidadosa operação de cinco meses envolvendo novecentos trabalhadores e 72 cavalos, um grande triunfo da engenharia inspirada e fomentada pela religião do Miguel. Até recentemente, sempre me parecera que o obelisco ter sido erguido originalmente pelos egípcios dois milénios antes de Cristo e ter sido trazido do Egipto pelos engenheiros romanos mil e quinhentos anos antes da grande façanha de Fontana seria evidência de que aqueles séculos de cristianismo não tinham feito grande coisa pelo progresso científico e tecnológico. Mas isto é ver mal as coisas. Se bem que o domínio do cristianismo se caracterize pela estagnação ao nível material, houve grandes progressos em temas importantes. Tais como Deus ser um só mas três ao mesmo tempo, ou como conciliar a hipótese de um ser invisível saber tudo o que vai acontecer com a hipótese de termos vontade livre. Foi um trabalho importante sem o qual, hoje, a teologia e a filosofia da religião não seriam profissões viáveis. Graças à escolástica medieval, temos agora um respeitável corpus bibliográfico de especulações vazias que permite ao teólogo distinguir-se de um perito em mafaguinhos.

Hoje posso concordar com o Miguel e aceitar que o método da ciência é compatível com a atitude de ter fé em hipóteses que não se testou ou que nem se pode testar. Ou que adoptar dogmas pela autoridade de fontes alegadamente infalíveis é compatível com a atitude céptica de quem procura as melhores explicações. Afinal, hoje os investigadores no CERN descobriram que a Força existe mesmo (3) e há indícios sólidos de que os dragões podem voltar (4). Por isso hoje a ciência pode ser compatível com a religião do Miguel. E com a astrologia, o tarot da Maya e as vidências do Professor Karamba. Mas amanhã... bem, amanhã logo se vê.

1- Miguel Panão, O Mito do Conflito entre Fé e Ciência
2- Pruned, Moving the vatican obelisk
3- CERN, CERN researchers confirm existence of the Force
4- Nature News, Zoology: Here be dragons

domingo, março 15, 2015

Treta da semana (passada): a origem da superstição.

Duarte Sousa Lara é padre católico, exorcista e autor do livro «Deus está a salvar-me ... e a libertar-me de todo o mal. Perguntas frequentes sobre o demónio e os exorcismos»(1). O livro é vivamente recomendado por Gabriele Amorth, exorcista da Diocese de Roma, presidente da Associação Internacional de Exorcistas e reputado exorcisador de milhares de casos de possessão demoníaca (2). Segundo este, as quarenta perguntas e respostas que Lara apresenta «São o fundamento da religião e, consequentemente, defesa contra o perigo de qualquer forma de superstição, a qual tem sempre origem no demónio».

Dada a importância do assunto, é natural que o autor disponibilize no site a ligação para a distribuidora, à qual podemos encomendar o livro por €9.85, entregue em cinco dias úteis. No entanto, é estranho que não disponibilize também o texto em formato electrónico. Seria de esperar que não sujeitasse a restrições de cópia as perguntas e respostas fundamentais à defesa contra o demónio. Pode alguém pensar que quer ganhar dinheiro à custa dos possuídos e arriscando a alma de quem não tenha dez euros para dar sem saber ao que vai ou que já tenha pouco espaço nos armários para mais livros em papel.

Mas outros textos do autor dão uma ideia do problema. No prefácio da tradução portuguesa do livro “A Virgem Maria e o Diabo nos Exorcismos”, Lara escreve, citando o catecismo da Igreja Católica, que:

«A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé» e portanto não se encontra no âmbito das hipóteses ou opiniões teológicas. Alguns desses anjos, criados bons por Deus, liderados por Satanás, também chamado Diabo, «radical e irrevogavelmente recusaram Deus e o seu Reino», e portanto deve-se afirmar que «de facto, o Diabo e os outros demónios foram por Deus criados naturalmente bons; mas eles, por si próprios, é que se fizeram maus». (3)

Uma vez solidamente estabelecida a existência dos demónios «que se fizeram maus» pela evidência incontestável de alguém ter escrito que é mesmo assim, Lara enuncia também a importância de Maria nos exorcismos. Baseado «na Sagrada Escritura, no Magistério da Igreja, na experiência dos santos, nas reflexões dos teólogos [e em] palavras e reacções dos demónios durante os exorcismos», defende que «Maria acompanha-nos nos combates desta vida. Nos exorcismos “tocamos” a sua presença materna ao nosso lado e fazemos experiência da eficácia da sua intercessão.» Não sei se será uma das perguntas às quais responde no livro, mas ocorre-me questionar porque é que Maria só intercede na presença do exorcista. Ou até, indo mais longe, porque é que Deus só expulsa o demónio se o exorcista pedir a Maria que interceda. Parece um procedimento demasiado burocratizado para um ser supostamente omnisciente. Por outro lado, talvez partilhe a justificação com a opção de só divulgar as respostas a quem pagar o livro. Se bem que nem só de pão viva o homem, a palavra de Deus também não enche a barriga.

Para que a crítica seja mais construtiva, gostava de terminar com uma sugestão. Pelo que percebo, os exorcistas católicos estão na linha da frente de uma guerra de atrito que já dura há dois mil anos e não parece ter um fim em vista. Os exorcistas exorcizam, os demónios possuem, os exorcistas voltam a exorcizar e é uma gritaria e um gastar de água benta sem que a coisa se resolva. É preciso disseminar algo que proteja verdadeiramente as pessoas. Algo que faça à posse demoníaca o que o flúor na água faz às cáries ou que o iodo no sal faz ao bócio. Uma vacina contra demónios. E penso que encontrei um bom candidato, graças às palavras do padre Amorth. Não sei se a superstição terá mesmo sempre origem no demónio, mas suspeito que o demónio só consiga possuir quem for supersticioso e acreditar nessas coisas. Os ateus, pelo menos, parecem ser muito resistentes às investidas do mafarrico. Podem vomitar de esguicho se tiverem uma intoxicação alimentar, e alguns poderão dizer coisas menos simpáticas aos padres, mas nada daquelas coisas de rodar o pescoço uma volta inteira ou andar a gatinhar pelo tecto.

Fica então a sugestão. Se querem mesmo derrotar o cornudo e acabar de vez com este terrível flagelo, experimentem divulgar o ateísmo. Julgo que se protegerem as pessoas de todas as superstições, incluindo as vossas, o problema fica resolvido logo. Posso até deixar aqui a próxima edição do livro de perguntas e respostas de Sousa Lara, mais levezinho, sucinto e fácil de ler:

Estas coisas dos deuses e demónios, isto é verdade?
Não. É tudo treta.



1- santidade.net
2- Wikipedia, Gabriele Amorth
3- Prefácio a “A Virgem Maria e o Diabo nos Exorcismos” (pdf)

terça-feira, setembro 16, 2014

O que faltou ontem.

Como qualquer circo, o Prós e Contras de ontem teve praticamente de tudo. Mas houve três falhas que tentarei aqui colmatar.

Primeiro, não ficou claro que não existe o direito à cópia privada no domínio digital. O Rui Seabra mencionou isso mas, com pouco tempo para falar e uma linguagem demasiado técnica, a mensagem acabou por não passar. A cópia privada é uma excepção legal que permite a cópia para uso pessoal sem a autorização do detentor do direito de cópia. Por exemplo, tirar uma fotocópia de um livro pode ser legal mesmo que a editora o proíba. É esta excepção que justifica a compensação pela cópia privada, se bem que esse direito só seja reconhecido quando não causa prejuízo, o que faz questionar a necessidade de compensação. Seja como for, isto funciona com livros em papel e cassetes de música mas não funciona com e-books, DVD ou músicas digitais. No domínio digital, a lei proíbe que se contorne mecanismos de restrição de cópia, o que dá aos detentores dos direitos a possibilidade de impedir a cópia legal caso não a queiram autorizar. Sendo assim, no domínio digital não há forma legal de copiar contra a vontade dos detentores dos monopólios, ficando logo excluída a necessidade de compensação.

Faltou também esclarecer que os portugueses não se dividem em vinte e tal mil autores de um lado e dez milhões de “consumidores” do outro. Em primeiro lugar, porque a cultura não se consome. Consumir implica destruir valor, como quando queimamos gasolina ou comemos batatas fritas, mas a cultura tem tanto mais valor quanto mais pessoas a partilhem. Mais relevante ainda, do ponto de vista jurídico, a lei protege todas as obras por igual, quer provenham de profissionais e tenham fins lucrativos quer provenham de amadores pelo simples prazer de criar. E, se bem que o domínio analógico fosse dominado pelos profissionais, o domínio digital é claramente dominado pelos amadores. Como a lei considera tanto autor quem filmou os filhos nas férias ou escreveu um email como quem realizou um documentário ou publicou um livro, a nossa preocupação não pode ser com os vinte e tal mil associados da SPA. Tem de ser com os dez milhões de autores portugueses.

Finalmente, talvez por lapso da produção, faltou o convite à Sociedade de Autores de Culinária e Afins, cujo comunicado me pediram para divulgar e que transcrevo abaixo.

É com pesar, e alguma revolta, que mais uma vez a Sociedade de Autores de Culinária e Afins (SACA) se vê excluída de um importante diálogo sobre a Propriedade Intelectual e os Direitos de Autor. Há anos que pugnamos para esclarecer os consumidores, tal como tentaram fazer os Exmos. Secretário de Estado da Cultura, Presidente da SPA e Vice-Presidente da SPA. De facto, a maioria da população sofre da ilusão de que, quando compram algo, têm o direito de fazer com a sua propriedade o que entenderem. Este é um erro crasso de quem não compreende a diferença fundamental entre ser dono do suporte ou da sua Forma, uma diferença reconhecida já desde o tempo de Platão.

Considere-se, por exemplo, o Pastel de Nata, um dos grandes símbolos de Portugal e, segundo o saudoso Ministro Álvaro Santos Pereira, de todos os bolos com creme o que mais potencial teria para tirar Portugal da crise. Nas lojas, o exmo. Consumidor pode adquirir este produto na sua forma mais simples ou, com um valor ligeiramente superior, acompanhado de um pacotinho de canela. Desta maneira, o autor culinário pode gerir o mercado de forma a oferecer a cada cliente o que este mais deseja. No entanto, muitas pessoas não percebem que a compra daquele suporte de massa e creme onde o Pastel foi instanciado não lhes dá o direito de usufruir do Pastel de formas não autorizadas. Por isso, compram o pastel mais barato para depois usufruir dele com canela comprada nas grandes superfícies. Este abuso dos direitos de usufruto do Pastel é apenas um exemplo dos inúmeros ataques que constantemente assolam a nossa indústria culinária e de restauração.

Com o advento da Internet e das chamadas “novas tecnologias”, generalizou-se a pirataria das receitas. A poderosa indústria dos electrodomésticos, além de ter tomado conta da blogoesfera, tem lucrado milhões vendendo auxiliares de pirataria, que vão de tachos a robots de cozinha, passando por batedeiras e varinhas mágicas. Estamos cientes de que o problema da pirataria é muito diferente de permitir, com a devida compensação, que o comprador do suporte usufrua da obra de formas não autorizadas, seja pela alteração do formato seja pela adição da canela. Mas é importante explicar o contexto que assola uma indústria fundamental para o nosso país. A música e os livros são coisas importantes, com certeza, mas a alimentação tem de vir primeiro. Não se pode permitir que as pessoas continuem a cozinhar e a partilhar receitas sem regras, e que uma indústria tão importante seja arrasada por amadores quando cozinheiros profissionais passam fome. Assim, propomos ao Exmo. Sr. Secretário de Estado da Cultura que estenda a taxa sobre o equipamento digital a todos os condimentos, ingredientes, aparelhos de cozinha e livros. Reconhecemos que há livros que não são de culinária, mas esses são uma rara excepção e não é justo que a indústria livreira lucre à custa dos profissionais da Criação Alimentar.

José Rendeiro da Cunha,
Chefe de Culinária e Presidente da SACA.

domingo, julho 27, 2014

Treta da semana (passada): números pares.

«11:11 – Tem Visto Números Pares Por Toda a Parte?», pergunta o título da notícia no portal Prisão Planetária, na secção sobre “Espiritualidade” (1). A primeira frase do artigo é ainda mais intrigante: «Quantos de vocês já tiveram a experiência em ver números pares (11:11) por todo o lado.» O cérebro insiste que termina num ponto de interrogação e, assim que os olhos finalmente o convencem de que não, que é mesmo uma afirmação, interroga-se como raio 11:11 é “números pares”. O enigma esclarece-se ao perceber que este artigo é uma tradução de um outro no site “Waking Times” (2) que por sua vez se baseia num “estudo” do Uri Geller (3). O potencial para a confusão é assim superior a 8000*.

Resumindo, trata-se do extraordinário, enigmático, assombroso e transformador fenómeno de olhar para o relógio e serem 11:11 da manhã ou da noite. Ou 1:11, que também dá e, aparentemente, também é par. Notem que isto vem de alguém que nos assegura «não sou um viciado em horas». Trata-se assim de um testemunho idóneo, muito diferente das alegações duvidosas de quem estiver viciado numa qualquer unidade de tempo.

Olhar para o relógio regularmente a estas horas (mas sempre sem vício) foi um «um gatilho, género de uma activação» que levou a consciência da autora do artigo original «a despertar e a recolher as informações que eu tinha esquecido antes de minhas experiências com os números 11:11. E é isto que muitas vezes acontece, quando você começa a ver estes números, algo muda dentro de si.» Isto explica porque só agora é que a humanidade está a acordar para a consciência planetária, pois este processo seria impossível com relógios de sol, clepsidras ou relógios mecânicos de ponteiro. Só com o advento do digital é que conseguimos expandir a nossa espiritualidade. Por exemplo, parando o forno de micro-ondas aos 00:01 enquanto trauteamos a música da Missão Impossível.

O artigo do Uri Geller também é muito interessante. 11:11 está relacionado com 11 de Setembro. O nome “Setembro” vem do Latim para sete, septem, de um calendário original de 10 meses. Com a adição de Janeiro e Fevereiro, Setembro passou a ser o mês nove. Por um raciocínio que escapa aos não iniciados, 11:11 passa então a referir o ataque terrorista de 11 de Setembro. Que foi uma coisa boa, segundo Uri Geller, porque «esses ataques teriam sido muito piores se os terroristas tivessem usado uma arma nuclear suja na forma de uma mala-bomba que poderia ter sido colocada em qualquer sítio de Nova Yorque, Los Angeles, Londres ou qualquer cidade populosa. Se isso tivesse acontecido as consequências teriam sido muito mais devastadoras». Por isso é que ele crê que «aqueles que morreram a 11 de Setembro não morreram em vão» e quando vê o número 1111 reza «pelas crianças doentes e pela paz mundial, a reza demora só um momento mas é muito poderosa».

O significado profundo do número 11 é comprovado não só por uma das teorias das cordas propor 11 dimensões mas, mais importante aínda, porque «Brian Greene tem 11 letras no seu nome. Para quem não sabe, ele é um físico e o autor d' O Universo Elegante, um livro a explicar a teoria das cordas». Isaac Newton e John Schwarz também têm 11 letras, e «1 pessoa + 1 pessoa = 2 pessoas = igualdade». Mais outras provas do mesmo género, das quais destaco que «se contar os dedos nas suas mãos em aritmética unária – sem zeros – então 10 dedos, em matemática unária, = 11111111111 – EXACTAMENTE 11 UNS»(3). Em rigor, isto não é verdade. Na aritmética unária usa-se um só símbolo para contar, por exemplo um traço, e para contar 10 escreve-se 10 vezes esse símbolos e não 11. Mas, no contexto, nem é dos maiores problemas.

Os mais cépticos certamente dirão que isto é coincidência. Também eu julguei que seria quando me ocorreu que 11:11 aparece no relógio uma ou duas vezes por dia. No entanto, não é só este número. «Quando comecei a entender e a perceber que ver estes números era significativo, então comecei a ver vários outros números numa base regular. Eu iria passar por um período em que via múltiplos de 5 em todos os lugares, todos os dias. E, em seguida, poderia ver múltiplos de 3, ou 4, ou 6, ou 7, ou 12, e assim por diante.»(1). Um ainda poderia ser coincidência, mas ver vários números ao olhar para o relógio é uma evidência forte de que há aí alguma coisa mais. Depois de ler este artigo fiquei sinceramente desconfiado de que os números que surgem no relógio representam alguma coisa e não aparecem aleatoriamente. Julgo que finalmente estou no caminho para uma «consciência iluminada sobre o potencial para a criação da nossa nova terra.» Ou, pelo menos, para saber ver as horas.

* 9000 foi um erro de tradução. Eu posso gozar com deuses, crenças, política e o resto, mas há coisas que levo a sério.

1- Prisão Planetária, 11:11 – Tem Visto Números Pares Por Toda a Parte?
2- Waking Times, 11:11 – Have You Been Seeing These Numbers Everywhere?
3- Uri Geller, The 11:11 phenomenon

domingo, junho 08, 2014

Treta da semana (passada): para todos os gostos.

A medicina convencional tem uma grande desvantagem. Atola-se nas minudências do nosso corpo físico, também conhecido como corpo real, em vez de abordar de forma holística o nosso ser espiritual, também designado por fictício. Pela necessidade de considerar detalhes de anatomia, fisiologia, bioquímica e afins, os praticantes da medicina convencional têm de focar a sua especialização. Se um médico disser ser cardiologista, pediatra, neurocirurgião, veterinário, farmacêutico, psiquiatra, fisioterapeuta, dentista e oftalmologista achamos estranho.

O praticante de terapias complementares não sofre desta limitação. Apresento, como exemplo, o Paulo Nogueira, especialista em leitura de aura, terapia multidimensional, regressão com reiki, cura reconectiva, cirurgia psíquica, tarot, limpeza espiritual, reiki tradicional, kundalini reiki e terapia vibracional com taças tibetanas (1). A sua missão é tão modesta quanto o seu currículo: «ajudar o ser humano a tomar consciência da sua dimensão espiritual [...] a reconhecer a divindade que habita em si, a ser verdadeiramente livre e a se experienciar como um ser completo.»

No caminho para esta tomada de consciência da divindade no ser humano há também outros serviços mais particulares que o Paulo Nogueira pode prestar. Por exemplo, pela cirurgia psíquica pode extrair «bloqueios energéticos do corpo físico […] Esta técnica bastante eficaz actua dissolvendo os coágulos energéticos decorrentes de eventos negativos fazendo com que a energia vital possa circular de forma totalmente livre pelo organismo, restituindo a saúde física, mental e emocional do paciente.»(2) Os coágulos de energia são um problema quase tão grave como os defeitos na coagulação energética, que podem originar hemorragias de energia vital.

A limpeza espiritual, por seu lado, serve para remover «fluidos de negatividade tais como tristeza, desânimo, desmotivação, raiva, apatia ou vontade de isolamento social sem motivo aparente.»(3) O Paulo Nogueira tem uma concepção física inovadora dos aspectos sobre os quais incidem as suas terapias. Enquanto a energia coagula, a raiva e a desmotivação são fluidos. Podemos assim perceber a importância crucial das terapias do Paulo Nogueira, porque se uma pessoa desmotivada sofre um coágulo energético o resultado pode ser como o de puxar o autoclismo com a sanita entupida. Mas não se preocupe o leitor porque o Paulo Nogueira é tão especializado nestas coisas todas que até limpa fluidos de negatividade à distância. Isso é possível, por Skype ou telefone, porque «Somos espíritos. Somos energia. Para acedermos a um dado espírito, seja em que dimensão estiver (4ª dimensão ou superior), basta focarmos a nossa intenção nele.»(4) Assim, qualquer pessoa que esteja na 4ª dimensão (ou superior) e tenha telefone lá (ou ligação à Internet) pode limpar o seu espírito de fluidos negativos e até remover algum coágulo que esteja a incomodar. Quanto ao pagamento, pode ser por Visa, MasterCard ou PayPal. Somos espírito e energia em muitas dimensões mas nestas três todos temos contas para pagar.

A terapia vibracional com taças tibetanas é uma excepção a esta forma conveniente de limpar fluidos e coágulos à distância. Isto porque «as taças tibetanas são pousadas sobre os chakras do paciente de forma a remover bloqueios. Por essa razão, dado que envolve material físico (as taças), só pode ser realizada presencialmente no espaço Paulo Nogueira Terapias.» Sugeria ao Paulo Nogueira que se especializasse numa variante: a terapia vibracional sem taças tibetanas, que até poderia ser feita remotamente em todas as dimensões do espaço e também do tempo. Bastava gravar um ficheiro mp3 com as vibrações espirituais e depois aplicar sobre os chackras sempre que se quisesse. Tenho a certeza de que teria um efeito tão real como o de qualquer forma alternativa de desbloquear chackras coagulados.

O site do Paulo Nogueira tem muita informação acerca de outras terapias também, como o resgate da criança interior e a Mini Leitura de Aura que, pelo que percebo, está para a Leitura de Aura como estavam para as radiografias aquelas micro-radiografias que tirávamos para rastreio da tuberculose. A maior lacuna é a ausência de qualquer descrição de como o Paulo Nogueira determinou a verdade do que afirma. Como se descobriu os coágulos da energia, como se sabe que a tristeza é um fluido de negatividade e que as taças tibetanas desbloqueiam os chackras, por exemplo. Mas talvez seja por eu não aceder à Internet acima das quatro dimensões. Talvez lendo o site do Paulo Nogueira a partir da quinta ou da sexta dimensão se veja lá isto tudo bem explicado.

1-Paulo Nogueira Terapias
2- Palo Nogueira, Cirurgia Psíquica.
3- Paulo Nogueira, Limpeza Espiritual,
5- Paulo Nogueira, Consultas à distância (por Skype ou telefone)

domingo, maio 04, 2014

Treta da semana (passada): três cabelos.

«Ensine-se aos fiéis que os veneráveis corpos dos santos Mártires e dos outros que vivem em Cristo devem ser venerados, por terem sido membros vivos de Cristo e templos do Espirito Santo (cfr. l Cor 3, 16; 6, 19; 2 Cor 6, 16), que serão por ele ressuscitados e glorificados para a vida eterna, pois Deus tem concedido muitos benefícios aos homens por sua intercessão.» (1)

Felizmente para a paróquia da Calheta, na Madeira, as relíquias dos santos são eficazes para a concessão de benefícios divinos mesmo em quantidades homeopáticas. Assim, estando agora oficialmente outorgada a santidade do senhor Karol Józef Wojtyła, Deus já pode enviar os seus poderes mágicos pelos três cabelos que o santificado Papa tão generosamente doou à Igreja do Atouguia (2).

Tendo em conta que estes três cabelos são as únicas relíquias do Papa João Paulo II em Portugal, eu sugeria que os repartissem pelo menos por três paróquias, triplicando assim o número de potenciais beneficiários dos poderes milagrogénicos da santa queratina. Pelo menos até que a Igreja em Portugal consiga obter mais umas aparas de unhas, pestanas ou outros vestígios do santo padre, que possam ser usados para a canalização da vontade divina. É que está matematicamente comprovado, pela existência de um elemento neutro na multiplicação, que os pedidos de intervenção divina dirigidos a restos orgânicos de católicos santificados são várias vezes mais eficientes do que orações equivalentes dirigidas directamente a Deus.

1- CONCÍLIO ECUMÊNICO DE TRENTO (985).
2- DN, Três cabelos brancos de João Paulo II na Madeira

domingo, abril 20, 2014

Treta da semana (passada): a prova.

No blog Senza Pagare há um post que explica: «Como provar que o Catolicismo é a forma verdadeira do Cristianismo» (1). É fantástico. De um arremesso resolve uma carrada de perguntas que há milénios suscitam discussão, por vezes com violência. Se há vida depois da morte, quem criou o universo, se existem deuses, quais e o que pensam da contracepção. Tudo isso respondido «uma forma simples e rápida». Primeiro, resolve-se o problema de provar que é o cristianismo a única religião verdadeira: «Maomé ou Buda ressuscitaram dos mortos? Não. Portanto isto termina muito rapidamente o debate sobre as religiões do mundo.» Tau! Toma que já levaste.

Depois é preciso resolver o problema das «36,000 denominações que entram em conflito sobre as crenças e moral cristã». Trinta e seis mil denominações cristãs que não são católicas. Como é que podemos rapidamente saber que a católica é a verdadeira? É também muito simples. «Comecem por Martinho Lutero. Lutero fez algum milagre? Fez alguma profecia que veio a acontecer? Não, nada disso.» E já está. Começa-se por Lutero, que vai logo fora porque não fez milagres, e as restantes 35,999 denominações vão fora também por arrasto. Sobra só a católica que, segundo o autor, podemos concluir ser verdadeira porque enquanto Lutero andava sentado nas mãos sem milagrar coisa nenhuma «aconteceu o milagre de Nossa Senhora de Guadalupe (um milagre público) a S. João Diogo e a milhões de Astecas», já para não falar no «missionário Católico S. Francisco de Xavier» que, por essa altura, «estava a pregar miraculosamente aos povos da Índia, Indonésia, etc. nas suas línguas maternas sem as estudar.» Temos também muitos milagres públicos reivindicados pelos católicos nos últimos 100 anos, como as aparições de Maria em Fátima, a água mágica de Lourdes e o Padre Pio que sangrou das mãos e dos pés, um milagre de utilidade dúbia mas aparentemente impressionante.

É um curriculum difícil de superar. Assim de momento ocorre-me apenas uma outra divindade que possa concorrer com Jesus e os seus dois parceiros co-substantivos em matéria de milagres recentes e ressureição. Falo, naturalmente, de John Frum (2). Tal como Jesus, John Frum também fez o milagre de viajar do mundo dos mortos, o mundo dos deuses e dos antepassados, para o nosso plano mortal. Tal como o católicos, também os seguidores de John Frum foram testemunhas de muitos milagres que não conseguiam explicar, e em pleno século XX. É difícil decidir qual dos dois será mais plausível, mas este post que traduziram para o Senza Pagare contrasta marcadamente com a abordagem normalmente enfadonha da teologia e da filosofia da religião. É uma espécie de autoclismo argumentativo. Com uma puxadela vai-se tudo embora. Todas as religiões não cristãs, dezenas de milhares de seitas cristãs não católicas e tudo o resto. Fica apenas o catolicismo, um pequeno resquício desta diversidade toda ainda agarrado à loiça. Demonstra também quão pequena é a diferença que separa o crente do ateu. Metaforicamente, o ateu apenas se distingue do crente por dar uma passagem final com a piaçaba.

PS: Calhou, por acaso ou por mão divina (e se não me falham as contas), ser esta a treta da semana com o número 365. Foram sete anos de rubrica semanal regular, à parte de alguns atrasos quando o trabalho aperta mais. Aqui fica o link para o primeiro post da série, a 22 de Abril de 2007: Treta da semana: o meu horóscopo. Bom resto de Páscoa e desejos de muitas amêndoas e ovos de chocolate para celebrarem o dia em que os judeus pintaram as ombreiras das portas com sangue de carneiro para Deus, no seu infinito amor, só matar os filhos dos egípcios, louvado seja.

1- Senza Pagare, Como provar que o Catolicismo é a forma verdadeira do Cristianismo (Dica: Milagres).
2- Wikipedia, John Frum, e Damn Interesting, John Frum and the Cargo Cults

domingo, março 02, 2014

Treta da semana (passada): a Selenite e a limpeza.

Um problema que eu subestimava, talvez como muitos leigos nestas coisas, é o da limpeza regular das energias que se acumulam nos cristais terapêuticos. Felizmente, o Guia Kármico Mário Portela escreveu alguns textos elucidativos salientando a importância de uma boa higiene energética e vibracional: «Se realmente utiliza os cristais com fins energéticos e terapêuticos é necessário que se esteja atento à saúde energética dos mesmos. O uso de sintonia diária do cristal exige que este seja descarregado e limpo pelo menos uma vez por mês»(1). Segundo consta, se «quando entramos num local e não nos sentimos bem [isso] acontece porque a energia local não tem a mesma vibração que a nossa»(2). Nessas situações desagradáveis em que a nossa energia não vibra com a energia do ambiente, temos de recuperar o «nosso equilíbrio [...] com a utiliza­ção das formas naturais de energia, inclusive os cristaiso». Admito que, numa primeira leitura, achei isto estranho. Não só pela energia vibrar e pelo desconforto vir de vibrar de forma diferente mas, especialmente, por afinal ser um problema de equilíbrio, que parece não ter nada que ver com coisas a vibrar de forma diferente. Mas o Mário explica: «A Física Quântica, por meio das ligações quânticas, explica as sensações energéticas que sentimos e transmitimos a grandes distâncias. A intuição é a leitura dessas ligações quânticas que atravessam o tempo e o espaço…» Pois claro. Restauramos o nosso bem estar equilibrando por meio das ligações quânticas a vibração das nossas energias com as vibrações das energias do meio que nos rodeia. Dito assim nem parece nada treta.

Mas então e a limpeza? pergunta certamente o leitor, agora preocupado com o estado lastimável a que deixou chegar os seus cristais e com o efeito deletério que a imundície vibracional terá nas suas ligações quânticas. Pois se, como muitos, tem recorrido à técnica do paninho macio e limpa-vidros, tem mesmo com que se preocupar. Não é assim que se limpa cristais. O cristal pode ser limpo segurando-o «sobre o fumo do [incenso] tendo o cuidado de não ter pensamentos antagónicos enquanto o faz», mas têm de ser «incensos de sândalo originais Nag Champa Agarbatti»(2). Em alternativa, para quem não tiver à mão o seu incenso de sândalo original Nag Champa Agarbatti, pode também limpar os cristais com Selenite, que «possui características únicas no mundo energético e terapêutico da cristaloterapia».

A Selenite é um cristal de sulfato de cálcio hidratado e tem este nome porque os gregos acharam que os cristais transparentes faziam lembrar a Lua. Como explica o Mário, «É formada pela evaporação da água salgada em lagos ou mares interiores»(3). Daí que possa parecer estranha a afirmação do Mário de que a Selenite «é ainda presença constante nas pedras trazidas do nosso satélite natural: a Lua.» Num plano físico, vulgo “realidade”, não se encontra Selenite na Lua, como é aliás de esperar dada a pobreza deste satélite em matéria de lagos ou mares interiores. As rochas lunares são ígneas, coisa que os gregos antigos que deram o nome à Selenite não sabiam em virtude de não terem consultado a Wikipedia (4). No entanto, é preciso saber interpretar correctamente as explicações do Mário. Num plano metafísico, vulgo “treta”, a composição da Lua é principalmente Selenite e queijo (5).

Além de ter vários atributos úteis – «Alinha a coluna vertebral […] Estimula a fertilidade […] Acalma o sistema digestivo [… e ...] neutraliza os efeitos nocivos das radiações provenientes de aparelhos eléctricos e cursos de água subterrâneos» – a Selenite também limpa cristais porque «tem a energia interna e circular em forma de espiral e esta energia sai de forma linear». Assim, até podemos limpar «várias pedras ou um ambiente [colocando] em frente da selenita um cristal de quartzo, como catalizador». Melhor ainda que uma Swiffer cristalina, a Selenite pode ser limpa destas energias vibracionais e efeitos nocivos «por defumação, fuocos bio-energéticos ou visualização», este último método particularmente apropriado dada a natureza imaginária daquilo que se quer limpar.

Na página sobre a Selenite o Mário Portela tem um vídeo onde explica* estas coisas. Mas como aquela meia hora de vídeo com eco me causa uma dissonância energética insuportável, em vez do vídeo do Mário deixo aqui este da Lívia Maris Jepsen. Não tem nada que ver com o Mário mas, treta por treta, em cinco minutos dá um banho nos cristais, despacha tudo o que é energia negativa e põe logo os raios de luz a passar direitinhos e bonitinhos que é como deve ser.



* “Explica” no sentido metafísico e espiritual de substituir umas coisas que não fazem sentido por uma data de outras que fazem ainda menos sentido. Os textos e vídeos do Mário estão isentos de contaminação por aquela utilização mundana e naturalista do termo para indicar algo que esclarece o que quer que seja.

1- Portugal Místico, Guia Kármico Mário Portela, Limpeza de Cristais e Pedras
2- Guia Kármico Mário Portela, Energia em Pedra
3- Portugal Místico, Guia Kármico Mário Portela, A Selenite ou Pedra Lunar
4- Wikipedia, Moon rock
5- Mas não é Wensleydale, como se pode ver neste excelente documentário britânico sobre a exploração lunar.

sábado, janeiro 18, 2014

Treta da semana (passada): ...entre outros.

A Susana Cor de Rosa é uma mulher excepcional. Ser perito num esoterismo qualquer já é corriqueiro. Reikis, tarots, curas vibracionais quânticas disto e daquilo, já nada disso sobressai porque, nessas coisas, é muito fácil ser perito. O que torna a Susana Cor de Rosa especial entre os seus pares é, além da cor, o número de perícias que acumulou. Tendo «concluído a licenciatura, exercido advocacia e feito uma pós-graduação» decidiu mudar de direcção e «aprender e pôr em prática conhecimentos de física quântica, meditação, cura, xamanismo, pedagogia waldorf, entre outros». Para isso, participou «em formações em Portugal e noutras parte do mundo com cientistas, professores, mestres, terapeutas, pedagogos, coachs entre outros». Agora, o seu «propósito de vida é reeducar os seres humanos para a felicidade […] na área da cura quântica unificada, da inteligência espiritual e emocional, entre outras» recorrendo à sua experiência «como formadora e terapeuta na área da Cura Quântica Unificada, da Inteligência Quântica, Quântica do Coração e para a Alma, crescimento pessoal e espiritual, coaching por valores, entre outras»(1). É, entre outras coisas, um percurso fascinante que tornou a Susana numa profissional muito versátil.

Por um “valor” de apenas 182€, pagável em duas vezes, a Susana pode «corrigir o ADN e instalar nova informação física, e em especial, novos filamentos de luz no seu ADN subtil para implementar novas forças, sentimentos e comportamentos que o beneficiam.» Tal operação tem, alegadamente, muitos efeitos benéficos, desde o «alisamento da pele» à «possibilidade de cura de doenças incuráveis, aumento da criatividade, mais memória e capacidade de concentração, entre outros.»(2) E isto é só para a primeira activação do ADN subtil: «Existem mais dois retiros que pode realizar para fazer as activações de ADN subtil II e IIII». A própria activação é uma entre outras.

A Susana também dá consultas de várias especialidades, desde a cura quântica unificada, na qual «A pessoa é trabalhada na sua energia, através de uma conversa, seguida de um período de descanso em que está relaxada», até à consulta de sucesso, que «é falada e escrita e propicia a interacção entre os participantes». É uma ideia excelente. Muita gente perde tempo com os meios pelos quais pode atingir os objectivos mas a Susana vai directamente ao que interessa. Faz-se uma consulta de sucesso e, zás, já está. Como disse Einstein, «quem tem sucesso tem tudo, e só por 75€ é uma pechincha»*.

Acredita a Susana que «Somos seres ilimitados, poderosos, conectados uns aos outros e à vida, a cada instante, falando uma linguagem comum. […] Segundo Albert Einstein «(...) Tudo é um milagre»...»**. Motivada pela crença no poder ilimitado do ser humano coadjuvado por milagres, a Susana pretende «desenvolver a consciência, expandir o coração, ligar pessoas, revolucionar mentalidades e criar felicidade no mundo» e também fazer uma «ponte entre a ciência, a cura e a espiritualidade»(1). Além de ser uma ponte invulgar, por unir três pontos, acresce a dificuldade de unir a ciência com a tal espiritualidade. A ciência surge de um confronto constante entre, por um lado, a nossa imaginação e capacidade de acreditar, que nos permitem inventar ideias e confiar nas conclusões a que chegamos e, por outro lado, a realidade que nos rodeia e contra a qual se revelam os nossos erros e se desfazem as nossas ilusões. O conhecimento é o resquício das nossas fantasias que ainda é credível depois de embater na realidade. A espiritualidade é metade disto. Tem imaginação, crença, intuição e essas coisas que vêm de nós mas evita qualquer confronto com a realidade. Como terá dito o Einstein desse universo paralelo, «a realidade é uma cena que a mim não me assiste».

Quando se critica este tipo de coisas é comum invocarem que os génios muitas vezes são incompreendidos. Que chamaram louco a Copérnico e se riram de Galileu, por exemplo. Mas pessoas como a Susana Cor de Rosa ajudam-nos a compreender melhor a questão, fazendo-nos lembrar que também chamaram louca à D. Maria I e também se riram do Batatinha.

* OK, Einstein não disse nada disso. Mas nestes assuntos é de praxe citar Einstein mesmo que a citação seja treta.
** Outra coisa que Einstein não disse. Ver Debunking fake Einstein quotes.

1- Susana Cor de Rosa, Apresentação
2- Susana Cor de Rosa, Activação do ADN Subtil. Obrigado pela referência no Facebook.

domingo, novembro 17, 2013

Treta da semana: Ordem de S. Miguel de Ala.

Fundada a 8 de Maio de 1171 por Afonso Henriques, também conhecido por “El-Rei”, consta que é a Ordem de Cavalaria mais antiga de Portugal. Foi fundada depois da vitória sobre os Sarracenos que cercaram Afonso Henriques em Santarém e é dedicada ao arcanjo Miguel « não só na devoção do Monarca pelo Arcanjo S. Miguel, como também por ter sido visto o braço de S. Miguel a combater pelos Cristãos no mais aceso da batalha, e quando estes estavam em alegada desvantagem…»(1) Infelizmente, o relato é omisso quanto ao método usado para identificar o braço do arcanjo.

Depois do regresso relutante de João VI a Portugal, o seu filho Pedro, deixado a cuidar das coisas no Brasil, decidiu que lá é que se estava bem e em 1822 declarou-se independente, a si e ao país, merecendo assim o cognome “o guterres”*. Em 1826, João VI adoeceu subitamente e, tendo nomeado a sua filha Isabel como regente, morreu de forma suspeita. Isabel depois abdicou a favor da sobrinha, Maria da Glória, filha do seu irmão Pedro, para que esta casasse com o outro irmão, Miguel, tio da noiva, deixando assim o país seguro nas mãos de um homem e garantindo um casamento incestuoso, com todos os benefícios genéticos que essa tradição trazia à realeza. Mas o plano não correu bem. O movimento absolutista em Portugal ganhou balanço, Miguel aproveitou para dar o dito por não dito e declarou-se rei, ponto. O Pedro chateou-se por a filha ficar sem reinado e já não casar com o tio (outros tempos, outros costumes), abdicou do trono do Brasil em favor do seu filho, contratou tropas Inglesas, invadiu os Açores e, daí, desatou à batatada ao irmão. Com a ajuda dos liberais derrotou Miguel, pôs a filha no trono e morreu de tuberculose. Um final anticlimático, é verdade, mas as coisas eram assim, naquele tempo, graças à chamada “medicina tradicional”. Mas o que nos interessa aqui é o Miguel. Exilado, sem sobrinha nem reino, decide criar «uma organização secreta(por oposição à Maçonaria) a qual denominou de “Ordem de São Miguel da Ala”. O Objectivo era “confundir” esta organização secreta com a Ordem de São Miguel da Ala, fundada por D. Afonso Henriques.» Criou assim um precedente para outra confusão mais recente.

«A 4 de Agosto de 1981, através de Escritura Pública foi restaurada a actividade social dos Cavaleiros da Ordem de São Miguel da Ala» por iniciativa de Nuno da Câmara Pereira. Durante dez anos, Duarte Pio de Bragança foi considerado “protector” desta ordem (2) mas depois as coisas azedaram. O Duarte reclama o trono por descender do tal Miguel do parágrafo anterior mas o Nuno defende que o verdadeiro rei de Portugal é um Pedro de Mendoça por descender da Ana, outra irmã do Miguel, do Pedro e da Isabel. Com aquela confusão toda, não me admira que quem dê a ponta de um chavelho por estas coisas ainda ande indeciso. Vai que não volta, o Duarte foi mesmo, declarou extinta a associação criada pelo Nuno e, em 2004, registou a sua própria «Real Ordem de São Miguel da Ala». Por muito que as moscas mudem há sempre tradições a manter.

O problema é que Duarte sobrestimou a força legal das suas pretensões a ser importante. Lá por ele declarar extinta uma associação não quer dizer que ela se extinga e como o Nuno tinha registado o nome e os símbolos da ordem no Registo Nacional de Pessoas Colectivas, processou o Duarte por usurpação da sua propriedade intelectual. Agora o tribunal congelou ao Duarte «uma conta bancária com quase 96 mil euros e 17 imóveis e propriedades em seu nome.»(3)

O que me fascina nesta novela, além do ridículo intrínseco, é a forma tortuosa como tudo acaba por encaixar. O monarquismo assenta num ideal de nobreza e superioridade natural dos reis. Afonso Henriques, nobre pai de Portugal e assim por diante. Dizem defender esses valores de nobreza e justiça, que «Toda a Cavalaria é um serviço social e cívico em vista do bem comum da humanidade»(4). Mas o Afonso foi um guerreiro que matou e pilhou para obter terras e poder e toda aquela família era assim, a julgar pelo que fizeram uns aos outros. Pela história vê-se quase sempre a ganância e o apego ao poder como motivação principal para o que os reis faziam. Defender a justiça e o bem comum com base nisto seria uma contradição. Só que a contradição acaba por ser menor porque os seus actos, ao contrário das suas palavras, encaixam perfeitamente nesta tradição de sacanice, cobiça e ganância. O Nuno registou como sua propriedade um nome e simbologia que datam desde a origem de Portugal. O Duarte acha que não precisa respeitar a lei e que pode dissolver associações com um acenar do bigode. E temos um partido e movimento monárquico que nem sequer consegue decidir quem é o rei, se o que diz que é mas que descende do que foi deposto, se o outro que descende da irmã do deposto mas que, aparentemente, nem se quer meter no assunto. Se não votassem nesta gente até dava vontade de rir.



*Errata: aqui confundi o António Guterres com o Durão Barroso. Mas acho que faz pouca diferença (daí a confusão). Ambos ilustram a longa tradição governativa do meh, quero lá saber disto, vou antes por ali.

1- OSMA, Memorial
2- Wikipedia, Nuno da Câmara Pereira
3- Sol, Penhora de 100 mil euros a D. Duarte em julgamento
4- OMSA, Explicação da Cavalaria

domingo, outubro 27, 2013

Treta da semana: Cura Reconectiva®.

Até recentemente, o mundo das terapias alternativas tem sofrido pela excessiva complexidade das várias abordagens, obrigando os terapeutas a “saber” que cristais usar onde, como identificar a azia nas riscas da íris ou a dor de cabeça nas plantas dos pés, ler auras, encontrar meridianos, desbloquear o fluxo de energias ou intuir as combinações de aromas florais indicadas para a doença e personalidade do seu paciente. Já não é preciso. Agora qualquer um pode ser um perito instantâneo da cura «graças a uma nova gama de frequencias curativas e, muito provavelmente, devido a um campo de ondas totalmente novo […]. Permite aceder a luz e informaçao e devolver-nos o equilibrio a muitos niveis, ligando-nos completamente a nos proprios, aos outros, à Terra, ao Universo e à nossa multidimensionalidade como seres humanos». À parte de alguns acentos, parece que a Cura Reconectiva® tem tudo: «A Cura Reconectiva está a ligar as pessoas a um novo conjunto de frequencias vibracionais que estimulam a cura do corpo, mente e espírito, promovendo um regresso ao equilíbrio pela reestruturação e activação do seu ADN.»(1)

Reestruturar e activar o ADN – ou, como se designa na gíria medica, cancro – não costuma ser coisa boa. Mas a Cura Reconectiva® «tende a alcançar resultados mais efetivos do que as técnicas de cura energética». Considerando as propriedades algébricas do elemento absorvente da multiplicação, penso que se pode afirmar com confiança que a Cura Reconectiva® é dezenas ou centenas de vezes mais eficaz que as técnicas de cura energética. E o segredo desta eficácia é que «os seus facilitadores simplesmente não dão atenção aos supostos problemas ou sintomas». Percebe-se assim o enorme fracasso da medicina moderna, que teima em tentar perceber a fisiologia dos pacientes, deslindar a acção dos microorganismos e diagnosticar as doenças quando curar é tão simples como deixar «que a ação de picos de luz, energia e informação, levem qualquer desequilíbrio a vibrar fora do quadro e a conduzir a pessoa de volta ao seu estado natural de saúde perfeita.» Afinal, o melhor remédio não é o riso. É a ignorância.

Neste vídeo, Eric Pearl, o descobridor desta nova gama de frequências curativas e (muito provavelmente) um campo de ondas totalmente novo, explica como a Cura Reconectiva®. Ou, pelo menos, demonstra como é simples enganar certas pessoas.


The Reconnection

1- Almha Terapias, Reconnective Healing® - Cura Reconectiva® (via Facebook) .

domingo, agosto 18, 2013

Treta da semana: especial silly season.

Gonçalo Portocarrero de Almada lamenta que uma tal «dominante moda unissexo» tenha feito perder «a noção da riqueza específica da feminilidade e da masculinidade»(1). É provável que lhe escape a ironia desta preocupação vir de quem abdicou de qualquer relação sexual ou da possibilidade de ter filhos, visto que argumenta que homens e mulheres são fundamentalmente diferentes porque «Deus, quando criou o ser humano à sua imagem e semelhança, criou-o homem e mulher.» O raciocínio deve ser assim: Deus é três pessoas numa só substância; mesmo que as três pessoas de Deus sejam do género masculino, também pode ter duas imagens e semelhanças, uma de homem e outra de mulher, ao mesmo tempo que só tem uma, pois se três é um dois ainda mais facilmente o será; assim sendo, um padre é a melhor pessoa para falar sobre a «riqueza específica da feminilidade e da masculinidade». Se isto parecer não ter lógica nenhuma, melhor ainda. É um Mistério da Fé.

Talvez o Gonçalo se preocupasse menos com este problema se vivesse de forma mais plena a “riqueza específica” da sua masculinidade. Para combater o stress é uma maravilha. No fundo, o que apoquenta o Gonçalo, e muita gente da mesma linha ideológica, tem uma solução trivial. Eis como eu resolvo o suposto drama da alegada «confusão dos géneros». Sou do sexo masculino e sinto-me do género masculino. Gosto de mulheres, repugna-me a ideia de ter relações sexuais com um homem e não tenciono vestir saias nem depilar as pernas. Mas – e esta é a parte importante – se algum homem tiver gostos diferentes dos meus, estou-me nas tintas. Não tenho nada que ver com isso. Pronto, problema resolvido.

Mais interessante é o problema teológico que o Gonçalo inadvertidamente apresenta. Não é que seja especialmente interessante em si, mas estamos em Agosto e, seja como for, qualquer coisa é mais interessante do que preocupar-se com a orientação sexual de desconhecidos. Escreve o Gonçalo que «quando o Pai eterno enviou ao mundo o seu Filho, deu-Lhe uma mãe, Maria, e um pai, José. Graças à feminilidade da donzela de Nazaré e à masculinidade do carpinteiro da casa e família de David, Jesus «crescia em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens». Graças à harmonia conjugada das salutares diferenças da «cheia de graça» e do varão «justo», Cristo não só é Deus perfeito, mas também perfeito homem.»

Perfeito homem. Masculino. Mas se a humanidade é composta por homens e mulheres e os sexos têm as suas “riquezas específicas”, então o Jesus perfeito homem não foi plenamente humano. Nem o Pai nem o Espírito Santo parecem fazer a mínima ideia do que é ser mulher. Esta lacuna na cobertura demográfica pode alienar parte do público feminino, um segmento de mercado cada vez mais importante agora que ser religioso é mais missas e “espiritualidade” e menos perseguir infiéis para roubar terras e viúvas, levando muitos homens a preferir o futebol. Assumir Maria como divindade será difícil, que quatro pessoas na mesma substância já começa a ficar apertado, mas talvez a própria «moda unissexo» que o Gonçalo lamenta possa ajudar o empreendimento católico. Conforme a sociedade se habituar à ideia de que a sexualidade humana é mais complexa do que a mera questão de ter ovários ou testículos, mais fácil será anunciar que o sexo de Jesus afinal era metafórico. Este truque de dizer "é metáfora" já safou a teologia de muitos embaraços. Nem é preciso especificar o que é que a metáfora representa. Criação em sete dias, apedrejar crianças, hemorróidas de ouro (2), se tudo isso pode ser metáfora, também o sexo de Jesus pode ser. O único senão é que teriam de deixar de implicar com os homossexuais. Mas a vida é assim, não se pode ter tudo...

1- I Online, Extinção dos Machos
2- 1 Samuel 6:17-19

domingo, maio 19, 2013

Treta da semana (passada): chemtrails

A combustão nos motores dos aviões produz principalmente dióxido de carbono e vapor de água. É comum este último formar cristais de gelo, devido à baixa temperatura onde voa a maioria dos aviões, deixando assim rastos visíveis por onde o avião passa. A estas nuvens artificiais mas inofensivas chama-se contrails. Os chemtrails são algo mais sinistro e perigoso, pois são «formados por toxinas e metais pesados, dispersos deliberadamente com uma intenção […] através de aviões preparados para o efeito [...] Qualquer rasto de avião que permaneça mais de 1 ou 2 minutos na atmosfera poderá ser considerado como Chemtrail.» (1)

Se bem que o autor afirme que os chemtrails são criados «com uma intenção», parece que as intenções são várias: «geoengenharia como controle climático»; «arma de guerra em Hamburgo – no Reino Unido, durante a II Guerra Mundial e também utilizada no conflito do Vietnam»; e serve também para «criar nuvens inteligentes através da nanotecnologia, com um aumento substancial a partir de 2010». Se lhe parecer azar aquela chuvada mesmo na altura de sair para o trabalho, desde 2010 que há uma boa probabilidade de ter sido de propósito, só para chatear. A conspiração chega a todo o lado. «Muitos dos aviões utilizados para Chemtrails foram modificados interiormente para essa função, muitas vezes sem que essas alterações constem da estrutura de base do projecto do avião comercial havendo, por outro lado, uma constante desinformação a nível internacional sobre a existência deste projecto.»

Apesar deste enorme secretismo, o eterhum, autor do post, conhece a composição dos chemtrails: «São constituidos por produtos perigosos e danosos para a saúde, entre outros produtos o bário, fibras de vidro revestido de nano-alumínio (conhecidas como CHAFF), tório radioativo, cádmio, cromo, níquel, sangue desidratado, esporos de mofo, micotoxinas de fungos amarelos, fibras de polímero (filamentos de silício), EDB (dibromoetano, pesticida químico já proibido) e uma vasta lista de sustâncias não identificadas.» Os mais cépticos poderão duvidar destas alegações, mas o autor apresenta evidências inquestionáveis nos efeitos destes produtos perigosos e danosos: «contaminam o solo dizimando os ecossistemas ao redor do planeta.» De facto, os ecossistemas ao redor do planeta são notoriamente inóspitos. Faz também questão de explicar como podemos confirmar as suas alegações: «Duvida que em Portugal estejam em funcionamento Chemtrails? Basta ir ao Google e colocar “Chemtrails em Portugal” neste motor de busca – poderá ver imagens e filmes que comprovam o contrário…» Reproduzindo esta experiência científica de averiguar a composição dos chemtrails pelo método analítico da pesquisa no Google encontrei um vídeo esclarecedor onde o Nelinho da Arrentela identifica alguns chemtrails criados por «aviões da meteorologia».



Importa também citar este trecho, que dá uma ideia concreta do rigor da investigação do eterhum: «Dentro dos muitos exemplos, mais recentemente o dia 15 de Dezembro/2010. Ao acordar o céu está limpo e nuvens e azul , verifico da minha varanda (moro em Almada) talvez mais de 14 aviões de Chemtrails na zona sul. Provavelmente os ventos levam as toxinas para Lisboa também. Tiro algumas fotografias dos rastos químicos. Nesse mesmo dia o tempo alterou-se, ficando mais frio. Dois dias após apercebo-me de vários agravamentos de saúde física ou psíquica em diferentes pessoas conhecidas.»

Andarem aí aviões da meteorologia a pulverizar nano-alumínio com sangue desidratado e esporos de mofo é preocupante. Mas o que me parece mesmo assustador é a quase omnipotentência dos nossos governantes. Estes homens, como Cavaco Silva, Passos Coelho e Miguel Relvas, conseguem criar uma ilusão perfeita de serem egoístas incompetentes enquanto organizam uma cabala mundial que cria nuvens inteligentes e controla tudo desde fábricas de aviões à comunicação social e desde pilotos a fungos amarelos. Tudo isto para nos causar «flatulência, dores de cabeça, cólicas, secura da pele e das mucosas, tendência para resfriados, ardor ou calor na cabeça (sintoma aliviado pela ingestão de alimentos), azia e uma aversão à carne.» Há pessoas mesmo ruins...

(Adenda) Mais sobre isto, e mais a sério, nestes posts do João Monteiro: Chemtrails I; Chemtrails II; e Chemtrails: a conspiração que paira sobre nós.

1- Eterhum (Portugal Esotérico), CHEMTRAILS em Portugal

domingo, março 31, 2013

Treta da semana (passada): a importância de respirar.

Recebi há dias um email a anunciar um novo curso do «MÉTODO JC - O renascer da essência no retorno à fonte. Um curso para o despertar da luz interna»(1). Criado por Joaquim Caeiro, «tendo por base a sua própria evolução e o seu despertar espiritual», este curso oferece formação em áreas diversas, desde «Como lidar com a energia do dinheiro» até à «Criação de condições para facilitar o Método JC». Como é costume nestas coisas, o curso não tem um preço mas sim um investimento. São 40€ por pessoa para investir neste capitalismo espiritual, onde o capital financeiro serve para gerar capital «nos campos emocionais, mentais, espirituais e/ou energéticos». O Joaquim, facilitador e criador do método, alivia assim aos alunos o fardo espiritual de "lidar com a energia do dinheiro”. É bom ver que ainda há pessoas dispostas a sacrificar-se pelos outros.

O percurso de vida do Joaquim, no qual ele baseou o seu método espiritual e/ou energético, também é notável. Inicialmente gestor de empresas, passou a «Psicoterapeuta da Alma & Life Coach, Orador, Escritor, Professor de Meditação» depois de uma importante descoberta:

«Na tentativa de organizar a minha mente e tudo o que nela se produzia, resolvi [iniciar-me] na meditação, apenas com os livros do grande psiquiatra Brian Weiss. Nesta busca, tive a oportunidade de partilhar momentos inesquecíveis com alunos deste médico, numa meditação guiada no algarve. Após estas vivências, e sabendo que a solução estava na tranquilidade e organização mental, insisti na meditação, e nada resultava. Até que sozinho, descobri que a Respiração se encontrava na base da Vida.»(2)

Foi a partir desse momento que Joaquim Caeiro decidiu entregar-se «à prática constante da respiração», uma decisão ainda mais assombrosa por só ter sido tomada aos 33 anos.

1- Akademia do ser, MÉTODO JC - O renascer da essência no retorno à fonte, com Joaquim Caeiro
2- Joaquim Caeiro, Universo Espirito de Luz

quarta-feira, janeiro 09, 2013

What?...





Via Boing Boing.

domingo, novembro 18, 2012

Treta da semana: Biomusicologia®.

O “Instituto de Ciências do Som e Bioterapias” oferece consultas de Biomusicologia®. Atribuindo a Leonardo Coimbra a afirmação de que «a evolução biológica é a construção progressiva que a direção e a herança tenham feito num tempo determinado pelo conjunto das noções geológicas, físicas e químicas», explica a página no instituto que a Biomusicologia® Terapeutica é «Uma Terapia harmoniosa que permite o funcionamento total de um organismo vivo.»(1) Não percebi o que uma coisa tem que ver com a outra. Nem sequer percebi ao certo o que isto quer dizer. E se bem que o funcionamento total do organismo me pareça uma coisa boa, o vídeo deixou-me na dúvida.



Como qualquer pessoa que tem crianças pequenas a acordar todas as noites, percebo o apelo de fazer barulho enquanto alguém tenta dormir numa cama cheia de cordas e tambores. É uma forma de restabelecer um pouco de justiça ao universo, seguindo o princípio milenar do “lixa os outros como te lixaram a ti”. A dúvida é se é o paciente quem tenta dormir enquanto o terapeuta faz barulhos irritantes. Com o que tenho dormido ultimamente, temo que uma sessão destas acabasse com o terapeuta a engolir os instrumentos da terapia.

Além disso, há aspectos destas ciências do som e quejandos que me deixam preocupado. Por exemplo, que «Somos constituídos por um corpo físico, feito de matéria e por uma aura, mais súbtil, ou seja anti-matéria, que é o que reveste os nossos campos de energia.» Espero que se tenham enganado nisto. Não sei o que é um campo de energia, mas se está revestido de anti-matéria quero-o bem longe de mim. Com E=mc2 não se brinca.

No que toca ao espiritual e transcendente, a Biomusicologia® caracteriza-se pela «experiência de ser agarrado, ou levado por uma outra dimensão da realidade, que está para além da materialidade do ambiente que nos rodeia, e mais relacionada com a ambiente último que é infinito no seu desígnio e inesgotável no seu mistério.»

Peço desculpa. A citação anterior é do Miguel Panão, acerca da religião católica (2). A Biomusicologia® é «apreender a transpessoalidade implicada no sentido da existência. É reconhecer o poder de transformar a consciência que adoeceu ao longo do tempo através do despertar consciênte da imortalidade da alma.»(3) Por alguma razão estranha, às vezes confundo estas coisas.

A Biomusicologia® é tão especial, tal com uma data de outras crendices, porque não se sujeita a testes empíricos e porque ninguém pode provar que é falsa. Por exemplo, «A ciência oculta ensina na sua 3ª Lei A LEI DA VIBRAÇÃO, que a vida é movimento e o movimento é a essência da própria matéria. Tudo é incessante vibração. A substância são modos de movimento, distinguindo-se por diferentes velocidades de vibração.»(4) Esta lei da vibração não é como as teorias da física ou da biologia. Não é para se por à prova ou confrontar com observações. Estas “leis” brotam da contemplação de gurus iluminados cujos umbigos são verdadeiras janelas para os maiores mistérios do universo. Basta um olhar de relance e surgem umas dúzias de terapias, bruxarias e seitas. Para os iniciados, afirmações que ninguém pode verificar mas que ninguém consegue refutar são exemplo de conhecimento, sabedoria e até de Verdade, maiúscula e infalível. Eu chamo-lhes tretas a todas, mas deve ser mania minha.

1- Instituto de Ciências do Som e Bioterapias, Biomusicologia® Terapeutica
2- Miguel Panão, A religião é boa
3- Instituto de Ciências do Som e Bioterapias, Biomusicologia® Regressiva
4- Instituto de Ciências do Som e Bioterapias, Biomusicologia®

domingo, abril 01, 2012

Treta da semana: Team Anormal.

A «Team Anormal» é uma equipa de investigadores, uns do paranormal e outros paranormais (1), criada «com o objectivo de investigar o paranormal […] porque já todos nós vivemos algo que ultrapassava todas as questões científicas e médicas. Por isso decidimos criar a nossa equipa para poder provar ao mundo que existe algo superior.»(2) No site da equipa há uma página com vídeos documentando o seu modus operandi. Infelizmente, destes só tive tempo para ver o primeiro (o mais recente), sobre a investigação de uma casa em Rio Tinto (3). Ao fim de oito minutos de conversa pausada com o corrimão das escadas, os investigadores concentram-se na porta da casa, que, após cuidadosa análise, concluem estar aberta.

No site podemos também ver uma entrevista com a D. Guilhermina Oliveira que, segundo percebi, foi morar para uma casa de dois andares com o marido, a nora, o filho e um inquilino no rés-do-chão, pelo que os passos e barulhos que ouvia de noite só podiam dever-se ao espírito da anterior proprietária, que teria falecido naquela residência (4). Tal como na teologia, também na fantasmologia o testemunho é fundamental para nos revelar os mistérios do inexplicável e nos livrar do facilitismo das explicações mais simples.

Um dos frutos destas investigações e da recolha de testemunhos é o que agora compreendemos sobre os efeitos da morte na capacidade cognitiva dos finados. Como seria de esperar, a decomposição do cérebro afecta negativamente a inteligência. Por exemplo, um relato de “Experiências Pessoais” descreve como uma família perdeu a chave do carro enquanto apanhava cogumelos. Quando voltaram ao pinhal para a procurar, presumivelmente antes de consumir o que tinham colhido, o pai disse ouvir vozes a chamar o seu nome. Seguindo pinhal adentro, atrás dessas vozes que mais ninguém ouvia, acabaram por encontrar a chave (5). Se o espírito que os ajudou tivesse mantido as capacidades intelectuais que teria em vida, este dramático episódio ter-se-ia ficado por um singelo, mas eficiente, boa tarde, olhem que deixaram cair a chave do carro atrás daquele arbusto.

Resta-me deixar à equipa os votos de que, nas suas incursões nocturnas por propriedade alheia, encontrem apenas espíritos desencarnados e não um proprietário assustado de caçadeira em riste.

1- Team Anormal, Nossa Equipe.
2- Team Anormal, Sobre Nós.
3- Team Anormal, Videos. Eu não consegui que os plugins funcionassem em nenhum browser; tive de descarregar os ficheiros pelo endereço no source. Por exemplo, o da casa de Rio Tinto está aqui.
4-Numa página apropriadamente intitulada Relatos Incríveis
5- Team Anormal, Experiências Pessoais.

domingo, fevereiro 19, 2012

Treta da semana: essa é que é essa...

No Jornal de Negócios desta semana, o João Cândido da Silva expõe o problema da pirataria e dos downloads de uma forma tão inteligente quanto original: «Milhares de pessoas que jamais assaltariam um supermercado, uma livraria ou uma loja de discos consideram legal e legítimo fazer descarregamentos de música ou filmes a partir da Internet, sem pagarem um tostão.»(1)

Na verdade, é espantoso como as pessoas podem ser tão inconsistentes e inconscientes. Quando descarregam uma música – ou, pior ainda, quando fazem um descarregamento – e não pagam o tostão, estão a obter informação que lhes permite recriar algo pelo qual talvez pagassem se o quisessem comprar e se não tivessem conseguido obter essa informação. Isso é o mesmo que roubar uma data de tostões. E não é só um problema nas músicas, filmes e livros.

Há também muitas pessoas que jamais assaltariam um restaurante ou uma pastelaria mas que consideram legal e legítimo fazer descarregamentos de páginas de receitas a partir da Internet, sem pagarem um tostão. Recebem assim a informação necessária para recriar, no conforto dos seus lares, aquelas refeições e sobremesas que tanto trabalho dão a confeccionar nos restaurantes e pastelarias circundantes. Com isto, roubam aos cozinheiros, empregados de balcão e investidores da restauração a remuneração que lhes é devida pelo seu trabalho.

O problema, como o JCS aponta, «tem vindo a ganhar a dimensão de um pesadelo», dimensão esta que, presumo, seja grande, a menos que seja a quinta. Diz o JCS que «Um computador, uma ligação à Internet e memória bastante num disco rígido para acomodar o fruto dos "downloads" é o que basta», mas o problema é ainda pior do que isso. Pior do que os descarregamentos é a partilha. Por exemplo, tenho visto muitas vezes pessoas na rua a perguntar as horas a outras que, como se fosse algo legítimo e inocente, lhes dizem imediatamente que horas são. Se esta pirataria se generaliza muita gente deixará de usar relógio e toda a indústria da relojoaria será prejudicada. Como escreve o JCS «É suposto os bens e serviços produzidos por uns serem pagos por quem os consome.» É quem consome a informação acerca das horas que são que deve pagar esse consumo aos relojoeiros que produzem a informação. A partilha indiscriminada de receitas, horas, dicas de como tirar nódoas, álgebra, gramática, história e tanta coisa que se pirateia – até em escolas públicas – é um roubo descarado a todos aqueles que poderiam ganhar fortunas se todos lhes pagassem por esta informação.

E isto tem consequências: «As fortes quebras de receitas registadas pelos sectores que se dedicam aos "bens culturais" ameaçam transformar-se numa sentença de morte». A tragédia que assolou a culinária, o Xadrez e a filosofia, ameaça agora a música, a escrita e o audiovisual. Sem a protecção legal da sua propriedade intelectual, as receitas, jogadas de Xadrez e ideias filosóficas praticamente desapareceram. Se não é possível ganhar dinheiro proibindo a circulação dessa informação, é óbvio que ninguém irá inventar receitas, jogar Xadrez ou filosofar. É isso que vemos acontecer com a cultura. Quem conhece a Internet certamente notou como se torna cada vez mais difícil encontrar textos para ler, músicas para ouvir ou vídeos para ver. Até o Jornal de Negócios se vê obrigado a publicar artigos como o do JCS, tal é a desertificação cultural à qual a pirataria nos levou.

Para terminar, queria manifestar a minha total concordância com o JCS em que todos «têm direito a receber a contrapartida pela sua criatividade e pelo seu labor.» E vou mais longe. Proponho ao JCS que lhes pague. A todos. Que não me venha com a desculpa de que só paga a quem cria as músicas de que ele gosta ou os filmes que ele vê porque isso não faz qualquer sentido. Se quem cria tem o direito de ser remunerado, esse direito não desaparece em função dos gostos do JCS. É um direito, e ele tem de o respeitar, quer goste quer não goste.

Até pode começar já por mim. Fico então à espera do cheque por este post, que muito labor e criatividade levou a produzir para que agora o consumam.

1- Jornal de Negócios, Tributem as facas. Obrigado pelo email com o link.