domingo, agosto 14, 2022

O género.

Eu não sou do género masculino. Eu sinto-me do género masculino como eu o concebo, e sinto como enquadro os outros nas minhas categorias de género. Mas não existem géneros objectivos. Os géneros são algo que cada um sente acerca de si, acerca dos outros e acerca de como se relaciona com os outros. Sendo subjectivos, variam muito de pessoa para pessoa. Por exemplo, eu sinto-me do género masculino porque nasci com pénis e testículos, e sinto que quem nasceu com vulva e ovários é do género feminino. Isto é apenas uma descrição grosseira porque eu não defini nada disto de forma explícita e deliberada. Estou a tentar exprimir o que sinto. E é óbvio que outras pessoas poderão sentir isto de forma diferente. Por exemplo, em 2020 a actriz Ellen Page declarou ser do género masculino e mudou de nome para Elliot. Claramente, Page tem uma concepção dos géneros diferente da minha, tal como as outras pessoas terão as suas.

Não devia ser necessário mencionar isto, mas o fervor ideológico em torno deste tema obriga-me a deixar explícito que não desejo mal algum a pessoas transgénero. Defendo incondicionalmente a liberdade de viverem, de se exprimirem e de se relacionarem com os outros de acordo com as categorias de género que sentem. E condeno sem reservas quem as coagir, ameaçar ou agredir só porque discorda dessas categorias de género. Mas isto não é apenas para pessoas trans. É um direito humano. Ninguém deve ser obrigado a fingir categorias de género diferentes daquilo que sente ou a exprimir-se e relacionar-se com os outros de forma que não lhe seja natural.

Infelizmente, a subjectividade das categorias de género choca com os objectivos políticos de quem quer impor umas aos outros. Uma vez mencionei esta subjectividade num grupo de Facebook e a administradora acusou-me de “violência simbólica”. Para me castigar, decidiu referir-se a mim com pronomes femininos para eu sentir o terrível sofrimento que a minha tese estaria a causar. Não teve o efeito desejado. Mas vamos supor que em vez desta infantilidade alguém sinceramente me categorizava no género feminino. Nem seria muito descabido. Eu não sei conduzir, não ligo ao futebol, não cumpri o serviço militar e não sei caçar. Por outro lado, tenho muita experiência a mudar fraldas, a dar banho a bebés, a cantar para adormecerem e a coser peluches lesionados. Quem conceber os géneros em função destes estereótipos em vez dos genitais pode bem achar que eu sou mais mulher que homem. É-me indiferente. Estou satisfeito com o que sou e não me ralo com as categorias dos outros. E esta talvez seja a maior diferença entre pessoas como eu e pessoas como Page, porque alguém que se submete a cirurgias e tratamentos hormonais para alterar o aspecto do seu corpo provavelmente nem está bem consigo nem é indiferente ao que os outros pensam.

É aqui que surge o argumento da empatia: as pessoas transgénero sofrem tanto que temos o dever de fingir que pensamos nelas no género que elas preferem. Mas ter empatia e pena não implica o dever de ser hipócrita. Elliot Page tem todo o direito de dizer-se a si e a mim no género masculino e colocar Ellen Page no género feminino, de acordo com os géneros como Page os concebe. Mas eu tenho o mesmo direito de sentir que Elliot e Ellen estão ambas no género feminino, como eu o concebo, e que é diferente do masculino em que me categorizo, e ambos diferentes dos que Page concebe. Lamento que Page não se sinta bem com o seu corpo mas isso nada tem que ver com a liberdade de termos categorias de género diferentes. Além disso, esta abordagem da “empatia” é prejudicial porque não distingue entre o normal e o patológico. Que uma pessoa de um sexo sinta que o seu género é outro não é doença nem merece pena. É um sentimento subjectivo. Mas amputar partes saudáveis do corpo, tomar hormonas só para mudar a aparência e viver obcecado com os pronomes que os outros usam são sintomas de patologia. É um erro grave fingir que isto é tudo normal e saudável, ao ponto de se dar hormonas a crianças para impedir a puberdade. Isto não é empatia e até devia ser crime.

À direita, os mais conservadores querem impor categorias de género baseadas no sexo alegando que o sexo é objectivo. Se bem que as características sexuais sejam objectivas, é subjectivo se as usamos para conceber os géneros. Eu uso, mas é legítimo não o fazer. E à esquerda querem dar a certas pessoas o poder de ditar aos outros como categorizar os géneros. Assumem que uma pessoa é objectivamente de um género se disser que é desse género. Mas quando Page diz ser do género masculino está a referir-se a esse género como Page o concebe. Isso não tem nada que ver com o meu conceito de género masculino, que é diferente do de Page. Cada pessoa sente estas coisas de forma diferente e ninguém consegue definir objectivamente o que é ser masculino ou feminino. Portanto, se alguém se referir a mim como “a Ludwig” não está a dizer nada acerca do meu género como eu o concebo. Está apenas a exprimir-se de acordo com as suas categorias de género, que nada têm que ver com as minhas. Não há por isso qualquer justificação para ser eu a ditar-lhe que pronomes pode usar ou como me deve categorizar.

Se admitirmos que as categorias de género são subjectivas todos os problemas parvos que se tem inventado desaparecem. Quando é necessário objectividade, ignora-se o género. Exames à próstata são para quem tem próstata, seja de que género for. No desporto, tal como as categorias de peso dependem do que está na balança e não do atleta se sentir esbelto ou rechonchudo, também as provas femininas devem ser para atletas do sexo feminino seja qual for o seu género. Resta o problema real de quem sofre demasiado com o seu corpo e com que os outros pensam, mas esse é um problema de saúde para os médicos resolverem. Nós temos é de resistir a qualquer tentativa de nos impor conceitos de género ou restringir como os exprimimos. O que cada um sente é consigo e mais ninguém tem legitimidade para mandar nisso.

sexta-feira, agosto 12, 2022

É moeda, só que não.

Hugo Ramos é um guru português da Bitcoin. É o autor do price to time model, segundo o qual cada Bitcoin iria valer $200000 no final de 2021 (1), e de vários canais no YouTube intitulados «F U Money»(2). Em Maio, Ramos reagiu a uma conversa sobre cripto-activos entre Mariana Mortágua e Adolfo Mesquita Nunes (3). O estilo do discurso torna o vídeo doloroso de assistir mas Ramos revela aspectos do evangelismo da Bitcoin que é importante conhecer, especialmente se alguém pensa meter-se nisto. Antes de mais, devo declarar que até há uns anos fui entusiasta desta tecnologia e talvez volte a ser se alguma coisa sobrar depois dos reguladores acabarem com as aldrabices. Mas por agora só estou fascinado a ver o camião do lixo a arder.

Ramos começa por contradizer Mortágua afirmando que a Bitcoin é uma moeda e não um activo financeiro, e explica que só não é moeda porque legalmente não é reconhecida como tal. O que é estranho porque uma moeda distingue-se de um activo precisamente pelo seu estatuto legal. Depois diz que é moeda em El Salvador. Realmente, lá o governo obriga os comerciantes a aceitar Bitcoin e tentou que a população adoptasse a Bitcoin como moeda. Não teve sucesso (4) mas, legalmente, em El Salvador Bitcoin devia funcionar como moeda. No entanto, quando Mortágua apontou que tinham perdido dinheiro por comprar Bitcoin mais cara do que está agora, Ramos disse que não porque só se perde dinheiro com um activo financeiro quando se vende esse activo e, além disso, muitos ganharam porque compraram quando o preço estava inferior ao que está agora. Para quem estiver na dúvida acerca do que é a Bitcoin, é simples: é o que der mais jeito, moeda quando sobe para contar logo o ganho e activo quando desce porque nesse caso só conta como perda se venderem. O importante é que comprem sempre.

Acerca do uso ilegal de activos criptográficos, Ramos aponta que há mais uso criminoso de dólares do que de Bitcoin. Mas isto diz pouco. Não só porque há muito mais valor em dólares do que em activos criptográficos mas, e especialmente, porque o mercado destes activos não é regulado e muito que seria crime em dólares não foi ainda declarado ilegal com Bitcoin. Por exemplo, as transacções de activos criptográficos parecem ser maioritariamente falsas (wash trading), sendo o vendedor também o comprador (5). Isto serve para manipular preços ou dar uma ideia falsa de liquidez e é crime em mercados regulados. Como este mercado não tem regulação legal, ninguém foi preso por isto. Este mercado é regulado apenas pela decência natural que sabemos caracterizar quem quer ganhar dinheiro seja por que meios for.

Outro aspecto interessante da apologia da Bitcoin é uma ideologia libertária que Mortágua descreve como infantil mas que eu julgo ser demasiado hipócrita para tal benevolência. Por exemplo, Ramos defende que o princípio fundamental que justifica a Bitcoin é a liberdade das pessoas criarem o seu dinheiro e não serem oprimidas pelo Estado. Mas ao mesmo tempo Ramos opõe todos os activos criptográficos que não sejam Bitcoin, aos quais chama shitcoins, e aplaude a decisão do governo de El Salvador de obrigar os comerciantes a aceitar Bitcoin quer queiram quer não. A retórica de Ramos acerca da economia também é confusa e contraditória. Insurge-se repetidamente contra o que chama “economia Keynesiana”, ser ser claro o que quer dizer, e protesta contra a inflação apontando que imprimir dinheiro tira valor ao dinheiro que as pessoas têm. Mas depois pergunta porque é que o Estado cobra impostos se pode imprimir dinheiro. Pois é precisamente para mitigar a inflação que de outra forma resultaria ao pagar polícias, professores, médicos e assim por diante. Neste contexto, Ramos alega que a Bitcoin é a forma mais segura de guardar valor porque é impossível de roubar ou confiscar e não depende do Estado. Mas basta aos meliantes uma corda e um barrote para em poucos minutos persuadir Ramos a dar-lhes as chaves criptográficas e assim roubar-lhe irreversivelmente as Bitcoin. Ramos precisa de um Estado que o proteja destas coisas, mais ainda do que se tivesse o dinheiro no banco. A ideologia supostamente libertária que Ramos apregoa parece ser só demagogia para disfarçar o problema da utilidade prática da Bitcoin ter morrido afogada em especulação.

Se se conseguir resolver os problemas de escala, consumo de energia, e regulação, esta tecnologia de transacções distribuídas pode ter alguma utilidade. Mas o valor económico desta aplicação será talvez uma milésima do que alegam ser agora o valor total dos activos criptográficos. O preço de uma Bitcoin multiplicado pelo total em circulação dá quase quinhentos mil milhões de euros. Só que isto nem corresponde ao dinheiro disponível para comprar Bitcoin nem deriva de qualquer negócio que justifique os 23 mil euros por Bitcoin. O preço cai sempre que ao volume regular de transacções fictícias se junta uma fracção a trocar Bitcoin por dinheiro porque para isso é preciso gente disposta a meter dinheiro no sistema. É essa necessidade de aguentar a pirâmide que orienta o discurso dos cripto-evangelistas, as “mãos de diamante” e os olhos de laser.

Eu não tenho qualificações para dar conselhos sobre investimento financeiro. Mas se alguém estiver interessado em investir nestes activos recomendo o esforço de ver o vídeo de Ramos (3). Oiçam Ramos tendo em mente que quem investiu nisto só lucra se outros a seguir investirem mais ainda.

1- YouTube, P2T Model (Bitcoin) Revealed for the First Time on Tone Vays Channel - 3rd Jan 2021
2- Ver mais em fyoumoneypod.com
3- YouTube, F You Money! [#12] Hugo Responde à Amiga Mariana Mortágua Sobre a Bitcoin - Take #2
4- Investing, NBER: El Salvador’s Bitcoin Legal Tender Adoption Failed To Take-Off
5- Pennec et al., Wash trading at cryptocurrency exchanges