sábado, julho 31, 2021

Crianças de alta competição.

Um post de Joana Amaral Dias chama atenção para o problema de Leonor Baptista, uma ginasta de 11 anos, pelas minhas contas (1), que «foi campeã nacional este ano, [...] Tem declaração da federação atestando “atleta de elevado potencial desportivo" [e] treina cinco horas por dia» (2). Por isso, defende Dias, devia ter um lugar na escola Filipa de Lencastre, que fica perto de sua casa. Dias lamenta também que o Estado não apoie a Leonor, que «o desporto que deveria estar no nervo da educação, que é tão importante para a coesão nacional, é assim tratado. As crianças, que são o nosso futuro, desprezadas. Portugal mata o sonho e a realização dos mais novos, desportistas ou não» e assim por diante. Eu acho que todas as crianças deviam ir para escolas próximas de suas casas, dentro do possível, mas discordo que o Estado discrimine crianças pelo "potencial desportivo" ou incentive que as treinem para alta competição.

A prática moderada de desporto é saudável mas o treino de alta competição não visa a saúde dos praticantes. Visa maximizar o desempenho dos atletas na competição. É para ganhar medalhas. Isto não é apropriado para crianças, cujo desenvolvimento pode ser prejudicado pelo treino excessivo e demasiado especializado. Além disso, o dever do Estado é incentivar todas as crianças à prática saudável de desporto e não o treino intensivo de algumas seleccionadas por clubes ou federações pelo seu potencial para ganhar. É uma falácia justificar o treino de alta competição de algumas crianças invocando que o desporto traz saúde a todos.

A competição cria conflitos de interesse entre o atleta e pessoas e instituições envolvidas na sua formação. Se bem que isto seja mais notório nas competições de topo, que geralmente (mas nem sempre) envolvem adultos, seria ingénuo assumir que as crianças que participam em torneios nacionais ou internacionais não estão sob pressão para ganhar. Ou que os treinadores e clubes não estão sob pressão para maximizar o número de troféus que os atletas conquistam*.

Isto é evidente nos argumentos pelos incentivos ao treino de alta competição. Não defendem o desporto pela saúde das crianças. Isso seria exigir aulas de natação para crianças com peso a mais, por exemplo. O que exigem é o treino de crianças com "potencial desportivo" para glória do clube, federação e país. É para "ganharmos" medalhas. Esta instrumentalização dos atletas é admissível com a Patrícia Mamona ou o Jorge Fonseca porque são adultos e sabem no que se estão a meter. Se querem ganhar medalhas e os portugueses querem sentir vicariamente que também ganham, todos beneficiam se o Estado ajudar. Mas com crianças é diferente.

O fabrico de ganhadores é muito ineficiente e as crianças não só são incapazes de avaliar adequadamente o custo de dedicarem anos a treinar cinco horas por dia como não conseguem perceber quão improvável é terem os benefícios com os quais são aliciadas. Se lhes mostram o exemplo da Sunisa Lee vão ficar maravilhadas com o seu percurso e motivadas a imitá-la no esforço e dedicação. Se lhes elogiarem o talento vão ficar convencidas de que podem chegar onde Lee chegou. Mas não vão perceber que por cada Sunisa Lee há centenas de crianças que sacrificaram o mesmo mas nunca chegaram às medalhas. Ou até sacrificaram mais em lesões e outros problemas. Não podemos assumir que uma criança que entra aos sete ou oito anos neste processo o faz de forma voluntária e consciente. Pelo contrário. O mais provável é que vá ao engano, com ilusões irrealistas acerca do seu percurso e empurrada por interesses que não são necessariamente os seus. Sem garantia que o sacrifício é voluntário e consciente não é aceitável que o Estado incentive a transformação de crianças em ganhadores de medalhas.

Esta minha posição tem beneficiado de algumas críticas que me fizeram. Uma é a de ser paternalista. Admito que sim mas proponho que o paternalismo é inteiramente justificado em questões com impacto na vida de crianças tão jovens. Outra é que a alta competição incentiva crianças a praticar desporto, o que é saudável. A essa crítica contraponho que a alta competição não incentiva as crianças a praticar desporto de forma saudável. Será melhor usar outros incentivos. Finalmente, há o testemunho seleccionado de pessoas que devem o seu sucesso ao treino de alta competição ou que competiram e correu tudo bem. O problema desses exemplos é o enviesamento. O enviesamento na amostragem, por seleccionar em retrospectiva os casos mais convenientes, e o enviesamento pessoal análogo a quem defende o direito de dar palmadas aos filhos porque também levou e não lhe fez mal nenhum. Se uma criança treina cinco horas por dias dos 8 aos 18 anos e mais tarde perguntarmos se valeu a pena, é de esperar alguma resistência à conclusão que mais valia ter dado prioridade à brincadeira e outras coisas. Estas críticas não resolvem o problema fundamental: enquanto é de louvar a dedicação extrema do medalhado adulto, o mesmo sacrifício vindo de uma criança de 8 anos, ou 11, ou 15, deixa a dúvida se será realmente voluntário ou se a criança está a ser manipulada contra os seus interesses por quem quer medalhas e glória. Esse risco é suficiente para justificar a mesma prudência com que lidamos em geral com tudo o que afecta as crianças.

Se uma criança quer passar cinco horas por dia a fazer ginástica, defendo que seja livre de o fazer. Se a querem treinar para ganhar medalhas, seria bom mitigar o risco da criança se sacrificar por interesses de terceiros e em detrimento dos seus mas não sei como regular esta forma de trabalho infantil. O que me parece claro é que o Estado não deve incentivar que façam isto às crianças com "elevado potencial desportivo". Não só porque o incentivo à prática de desporto devia ser para todos, e para que praticassem desporto de forma saudável, como também porque incentivos ao treino de competição iriam agravam riscos já significativos para crianças, que por serem especialmente vulneráveis são quem o Estado tem maior obrigação de proteger.

* Os meus filhos mais velhos participaram em competições quando eram pequenos. Não era alta competição. Nem perto disso. Mas mesmo assim a pressão de pais e treinadores sobre as crianças era tão grande, tão ridiculamente grande, que eu disse aos meus filhos que o importante no desporto não é vencer mas sim humilhar completamente o adversário. Os meus perceberam que era piada mas temo que para muitos era a sério...

1- Venceu na categoria de infantis em 2018 e na de iniciados em 2019, GCP, campeões
2- No Facebook

quinta-feira, julho 29, 2021

A ciência não prova.

Em países como o nosso, os crentes religiosos resolvem a contradição entre as suas crenças e a ciência apontando que a ciência não pode provar que não existem deuses, que não há alma e essas coisas*. É uma solução modesta. Acreditar só por não se provar o contrário é pouco exigente. E se bem que isto esteja superficialmente correcto, porque a ciência não pode provar o que quer que seja, no fundamental é uma confusão acerca da prova e do que a ciência faz.

Conseguimos provar que 4 é um número par porque tudo o que é relevante para esta afirmação está sob o nosso controlo. Definimos nós o que são números inteiros, o que é a divisão, o que é um múltiplo de 2 e assim por diante, por isso 4 ser número par não depende de qualquer hipótese acerca da qual haja incertezas. Esta é uma condição necessária para se poder provar algo**. Já agora, aplica-se o mesmo a provar que 4 não é um número ímpar. Se alguém alegar que não pode provar uma negativa, está enganado. Isso não é problema nenhum. O problema é a incerteza inevitável quando lidamos com a realidade. Fora do domínio controlado da lógica e da matemática falta-nos as certezas necessárias à prova. Por exemplo, não podemos provar que a Lua existe porque pode ser uma ilusão criada por extraterrestres, podemos estar a viver numa simulação e assim por diante. Sem controlo absoluto sobre as premissas não se pode provar nada. Portanto, a ciência não pode provar a inexistência de deuses pela razão trivial de não se poder provar seja o que for acerca da realidade. Provar é só para conceitos abstractos.

Sendo fútil tentar provar hipóteses isoladas acerca da realidade, o que a ciência faz é avaliar comparativamente as alternativas em função do que contribuem para as melhores explicações. Esta inferência à melhor explicação lida sem problemas com elementos sobrenaturais, negativas e o que mais calhar. Marcha tudo. Consideremos, por exemplo, o mito grego das estações do ano. Perséfone, filha de Deméter, tem de passar metade do ano com Hades porque comeu sementes de romã quando lá esteve. Isso faz Deméter ficar triste e, como é a deusa da fertilidade, temos o Outono e o Inverno. Quando Perséfone volta a casa Deméter fica feliz e vem a Primavera e o Verão. A ciência não pode provar que esta hipótese é falsa. Tem elementos sobrenaturais, seria provar uma negativa, mas nada disso é o problema. O problema é que não se pode provar nada acerca da realidade. No entanto, a ciência pode comparar esta hipótese com a explicação alternativa de que as estações do ano são consequência do ângulo de 23.5º entre o eixo de rotação da Terra e a perpendicular ao seu plano orbital. E esta explicação é bem melhor.

O ângulo do eixo de rotação pode ser medido de forma independente do seu papel na explicação das estações do ano. Deméter, Perséfone e companhia são postuladas ad hoc para servir a explicação. O ângulo tem de ser mesmo 23.5º para encaixar na duração do dia e da noite ao longo do ano, em cada latitude, e o percurso aparente do Sol no céu. A rábula da Perséfone, Deméter e Hades pode ser adaptada de muitas maneiras. Deméter é a esposa de Hades e Perséfone é amante ou Perséfone fugiu com Hades e a mãe está zangada com ela, por exemplo. Porque entre a narrativa e os dados há uma folga enorme. A orientação do eixo da Terra explica porque é que as estações não são simultâneas nos dois hemisférios. O mito grego pode ser adaptado para explicar isso. Se calhar Deméter tem uma casa na Áustria e outra na Austrália. Mas é outra coisa que tem de ser inventada ad hoc sem confirmação independente. Por estas razões, a orientação do eixo da Terra é uma explicação melhor para as estações do ano. E é assim que a ciência nos permite rejeitar o mito grego. Não por provar que é falso, porque isso seria impossível, mas por mostrar que há explicações melhores.

É teoricamente possível que fumar faça bem à saúde e que todos os indícios em contrário resultem de uma enorme conspiração. Mas o mais plausível é que faça mal. Não podemos provar que a bruxaria não funciona mas a melhor explicação para a ineficácia observada de feitiços e previsões com búzios e cartas é que é tudo treta. É este o problema que a ciência cria aos dogmas religiosos. É um método de comparação de hipóteses que não favorece o que os religiosos gostariam que favorecesse. Por exemplo, a hipótese de termos uma alma imortal e indestrutível não só postula esta entidade sem justificação como exige muitas explicações ad hoc para o efeito observado de lesões cerebrais, que nos podem privar de memórias, impedir raciocínio, tirar vontade e agência e até alterar a personalidade. O cristianismo alega que o criador deste universo se revelou a uma pequena tribo na idade do bronze e encarnou, mais tarde, como fundador de uma seita minoritária dessa tribo. A melhor explicação para o cristianismo é que resulta do mesmo tipo de acidentes sociais e políticos que popularizaram o islão, o hinduísmo, o budismo e por aí fora, que obviamente não podem ser todas a única e verdadeira religião.

As religiões são incompatíveis com a ciência. Não se pode conciliar a procura pelas melhores explicações com a abordagem dogmática de presumir verdades. E este problema não desaparece alegando que são domínios diferentes ou que é impossível provar uma negativa porque a função da ciência não é produzir provas dedutivas. A função da ciência é explicar, que é algo muito mais abrangente e poderoso. É graças a isso que, por exemplo, agora tratamos a epilepsia com medicação em vez de exorcismos. Não por ter ficado provado que demónios não existem mas porque se encontrou explicações melhores para esta patologia.

* Em países como o Irão e a Arábia Saudita ainda recorrem a soluções medievais.
** Mas, como Gödel demonstrou, não é condição suficiente.

sábado, julho 10, 2021

O vestido.

Depois de apreciar o tronco nu do Renato Saches e criticar o vestido da Lenka da Silva, Fernanda Câncio justificou-se como quem quer sair de um buraco escavando o fundo. Explicou que o problema não é o vestido da Lenka mas «O princípio constitucional [...] da igualdade de género [e] "a prossecução de políticas ativas de igualdade entre mulheres e homens" como "dever inequívoco de qualquer governo e uma obrigação de todos aqueles e aquelas que asseguram o serviço público em geral"». É por isto que Câncio quer que o Estado combata os tais «estereótipos de género» regulando o que as mulheres vestem na TV. Mas só as mulheres. Os homens até podem aparecer em tronco nu, que Câncio aprecia, porque «os estereótipos de género não objetificam nem sexualizam os homens» (1). Estranha igualdade.

A igualdade de género que faz sentido é a igualdade perante a lei. Mas para isso bastava fazer como a igualdade de direitos em função da beleza ou da inteligência: omitir da lei qualquer referência a esses atributos. É claro que isto não impede as pessoas de discriminar feios e belos ou burros e inteligentes. Mas isso compete a cada um decidir, bem como se valoriza estas coisas mais numas pessoas que noutras. Câncio parece querer o contrário. Quer regulação intrusiva e discriminatória para combater a «visão diferenciada do que é suposto valorizar-se nas mulheres e nos homens». Que não lhe compete nem a ela nem ao Estado decidir pelos outros. Eu dou mais importância à beleza nas mulheres do que nos homens, reivindico o direito de o fazer e não reconheço ao Estado legitimidade para me regular estes valores. O papel do Estado é garantir direitos. Não é manipular preferências. Se Câncio quer igualdade nisto, então que dê ela mais importância à beleza nos homens. Eles não se vão queixar e evita usar o Estado para forçar as pessoas a terem todas os mesmos gostos que ela.

Além do abuso do poder do Estado, é fútil regular os vestidos na RTP para alterar estereótipos de género. Mesmo que Lenka vá para o Preço Certo de fato de treino e gola alta, continua a ter página no Instagram, as mulheres continuam a vestir-se como querem na rua e há partes da Internet cheias de estereótipos de género em várias posições, combinações e número de participantes. E nem adiantava censurar tudo isso, como evidencia a persistência de estereótipos de género em países onde as mulheres são obrigadas a disfarçarem-se de saco preto. A razão da futilidade está na origem destes estereótipos, que não são causados pelo vestido da Lenka mas sim por milhões de anos de evolução que criaram na nossa espécie dois sexos especializados em aspectos diferentes da reprodução, com estratégias diferentes, preferências diferentes na selecção de parceiros e comportamentos diferentes.

É por isso que não se consegue igualdade de género declarando que não há géneros. Seria o mais prático. Acabava de uma vez a desigualdade, a discriminação e essas coisas todas. Mas não funciona porque os géneros são consequência dos sexos. É algo tão profundo no ser humano, e tão resistente a propaganda e programas de televisão, que há pessoas que recorrem a tratamentos drásticos ou se suicidam por o seu corpo não corresponder ao que concebem ser o seu género. Na verdade, combater estereótipos de género é combater a identidade de género. Cada pessoa tem de conceber e generalizar características que distinguem os géneros para se categorizar e para se relacionar com os outros. Mas essa generalização conceptual exige estereótipos. O que é ser homem ou ser mulher, por exemplo. Câncio quer usar o Estado para alterar a forma como certas pessoas concebem os géneros, violando o dever de respeitar a autonomia de cada um nestas matérias.

Esta ideologia woke é inconsistente, demagógica e até hipócrita. Diz ser pela igualdade e justiça mas a igualdade que defende é injusta. Em vez de ser igualdade nas liberdades quer forçar igualdade de preferências e escolhas, que ninguém deve ser obrigado a ter igual aos outros. Combate estereótipos sem reconhecer que os estereótipos fazem parte de como cada um pensa acerca de si e dos outros. Daquela identidade que dizem defender e que não deve ser alvo de regulação governamental. Combate a sexualização das mulheres de forma claramente discriminatória (o tronco nu do homem não tem problema) e sem perceber que as competições desportivas sexualizam os homens como os vestidos curtos sexualizam as mulheres.

A "objectificação" é mais uma treta. Objectificar uma pessoa é tratá-la como um objecto, em oposição a tratá-la como um ser humano. Mas se bem que quando apreciamos a apresentadora de mini saia ou o futebolista de tronco nu não os estamos a valorizar em toda a sua dimensão humana, a atracção sexual é caracteristicamente humana. Muito mais objectificado é quem recolhe o lixo, desentope sarjetas ou desempenha tantas outras profissões nas quais as pessoas, principalmente homens, fazem papel de coisa e até seriam substituídas por máquinas se ficasse mais barato. E raramente conhecemos alguém com tal intimidade que o possamos apreciar plenamente como ser humano. É o vizinho, o colega, a professora, todos objectificados em maior ou menor grau em função da relação que tenhamos com cada um. O termo "objectificação" como Câncio o usa apenas disfarça o puritanismo desigual com que encara a sexualidade, segundo o qual ser sexualmente atraente é bom para homens mas desumanizador para as mulheres.

Esta esquerda evangélica abandonou a luta por liberdades e direitos e está fixada em usar o Estado para doutrinar. O combate aos estereótipos, a exigência de igualdade em valores e opções e a demagogia envolvente visam politizar opiniões pessoais para justificar restringi-las àquilo que declaram ser correcto. Quem preze a democracia, mesmo que se considere de esquerda, deve opor esta tentativa de eliminar a fronteira entre o Estado e a opinião de cada um.

1- DN, O preço (errado) de uma polémica

sábado, julho 03, 2021

Os ciclos.

Com o aumento de novos casos aumenta também a acusação de falsos positivos. Independentemente do aumento nos internamentos, cuidados intensivos ou óbitos, é tudo falsos positivos porque a um bom conspiracionista os factos não metem medo. Uma variante sofisticada desta alegação é a dos ciclos de amplificação nos testes de PCR. Reza a conspiração que "eles" aumentam o número de ciclos para dar falsos positivos porque o PCR não é fiável acima dos 35 ciclos. É uma boa conspiração porque não só tem os tais "eles" que nos andam a enganar como permite ao conspiracionista passar por entendido sem o trabalho de entender seja o que for. Noutras circunstâncias, esta coisa dos ciclos até teria graça.

O muco que vem na zaragatoa tem células da pessoa testada, bactérias diversas, vários vírus e sabe-se lá mais o quê. Uma forma de testar se a pessoa está infectada com SARS-CoV-2 é usar moléculas que se ligam especificamente a certas proteínas desse vírus. É o que se usa no teste rápido, que assim fica com uma marca visível apenas se a amostra contém essas proteínas do vírus. O problema dos testes rápidos é que a marca só é visível se houver proteína suficiente e, por isso, só são fiáveis num período curto após o início dos sintomas, quando a carga viral é mais alta. Para detectar infecções antes dos sintomas é preciso usar PCR, que aproveita as propriedades do ADN* para conseguir detectar o vírus mesmo em quantidades pequenas.

As moléculas de ADN são longas cadeias formadas pela ligação sequencial de quatro tipos de nucleótidos, as tais letras A, C, G, e T **. Na cadeia de ADN, estes nucleótidos ficam com umas caudas espetadas e há uma forte afinidade entre a cauda de A e a de T, e entre e a cauda de C e a de G. Uma consequência disto é a forte tendência das moléculas de ADN se colarem a moléculas complementares. Se uma tem ACTGAC... vai ficar presa a outra que tenha TGACTG... como um fecho de correr. A outra consequência desta afinidade específica é permitir que enzimas sintetizem uma cadeia de ADN a partir de uma cadeia mãe e um trecho inicial ligando pela ordem certa os nucleótidos complementares. Estas enzimas são as polimerases, o P em PCR.

A ligação entre duas moléculas complementares de ADN é forte mas não tão forte como as ligações covalentes dentro de cada molécula. Por isso, se as aquecermos conseguimos que a agitação as separe sem degradar as moléculas. E quando arrefecem ficam novamente coladas aos pares complementares, porque a afinidade das sequências de nucleótidos é muito específica. Ou seja, podemos separar e juntar os pares sempre que quisermos, bastando aquecer e arrefecer a solução com o ADN. E com isto temos praticamente tudo para o PCR. Faltam só os primers.

O propósito do processo PCR é amplificar trechos específicos de ADN se estes existirem. Dessa forma, mesmo que haja pouco vírus na amostra, com PCR conseguimos aumentar a concentração do ADN correspondente até ser detectável. Para isso vamos juntar à amostra uma quantidade grande de pedaços de ADN, sintetizados artificialmente, cuja sequência encaixa especificamente em partes do ADN viral. Quando aquecemos e arrefecemos a amostra, as moléculas de ADN vão emparelhar e, se houver lá ADN do vírus, vai ficar com esses primers agarrados. Pomos a polimerase a trabalhar e todos os primers que encontraram parceiro vão ser aumentados pela polimerase, sintetizando a partir deles cópias do ADN do vírus. Agora aquecemos e arrefecemos de novo e vamos repetindo o processo. A cada ciclo a quantidade de ADN do vírus duplica, aproximadamente, porque estamos a criar cópias, e cópias de cópias, e assim por diante.

Tipicamente, se a pessoa está infectada com este vírus, ao fim de uns vinte ciclos já há tanto ADN que se nota o sinal de fluorescência no aparelho. Nesse caso o teste deu positivo. Se não houver vírus na amostra, então não acontece nada e ao fim de quarenta ciclos acaba o teste, que nesse caso deu negativo. O tal problema dos 35 ciclos ocorre se o sinal de fluorescência surgir acima deste número de ciclos. Isso é um problema porque sugere que há vírus na amostra mas para o sinal só surgir depois dos 35 ciclos é porque alguma coisa correu mal ou a quantidade inicial de vírus era tão pequena que pode ter sido contaminação. A zaragatoa pode ter tocado onde não devia, alguém espirrou lá perto ou coisa do género. Por isso, nesses casos, manda a DGS que o teste seja repetido do início, incluindo meter outra vez a zaragatoa no nariz do desgraçado que, sem culpa nenhuma, teve um teste inconclusivo.

Em conclusão, se bem que seja verdade que acima de 35 ciclos o resultado positivo não é de fiar, é ridícula a ideia de que "eles" andam a aumentar os ciclos para dar falsos positivos. O número de ciclos depende da amostra. Se não tem nada o teste pára aos 40 ciclos e é negativo. Se houver sinal é no ciclo que calhar. Normalmente é abaixo de 35 e é positivo, mas se calhar acima repete-se. Não há um botão no aparelho para aumentar a taxa de falsos positivos.

* Em rigor, este vírus tem ARN em vez de ADN. Mas o que se faz é usar enzimas que copiam o ARN do vírus para o ADN correspondente, pelo que isto acaba por ser um detalhe irrelevante.
** Adenina, Citosina, Guanina e Timina, mas esta parte não vem para o teste.

domingo, junho 06, 2021

Contradições.

Tenho acompanhado com ambivalência os analistas da Bitcoin. Se por um lado me parece que esta tecnologia pode ser útil, por outro lado o que tenho visto de análises e da conferência sobre Bitcoin em Miami parece-me tele-evangelismo de geração TEDx (1). A defesa irracional da Bitcoin, especialmente atacando as alternativas, cai em tantas contradições que me faz suspeitar das suas intenções. Hugo Ramos é um exemplo português desta religião. Trocámos há tempos algumas impressões cordiais sobre a COVID e desde então tenho seguido a sua análise técnica da price action da Bitcoin (2), em particular o seu price to time model. Este "modelo científico" que Ramos criou traçando uma linha exponencial a partir de dois pontos prevê que na primeira semana de Outubro cada Bitcoin vai valer 282 mil dólares (3). Mas esta abordagem pretensamente objectiva contrasta com o fervor ideológico dos olhos de laser, as mãos de diamante, o desprezo por qualquer outra implementação da blockchain e a recomendação constante de se comprar Bitcoin, se subir porque está a subir e se baixar porque está barata (4).

Outra contradição recorrente dos bitcoiners é queixarem-se de que os tweets do Elon Musk afectam o preço da Bitcoin ao mesmo tempo que apregoam a Bitcoin como robusta e invulnerável até ao poder dos Estados. Isto também destoa do silêncio acerca de outras formas óbvias de manipulação. A mediação financeira é fortemente regulada porque o mediador que vê por quanto cada participante quer comprar ou vender pode aproveitar-se disso para ganhar dinheiro à custa de todos. Também pode manipular o mercado com transacções fictícias ou permitindo que uma entidade venda a si própria para aumentar o interesse aparente por um activo. Estas maroscas são ilegais num mercado regulado mas são certamente corriqueiras na selva dos activos criptográficos (5). Perante isto, a preocupação com tweets é ridícula.

Mais estranha ainda é a cumplicidade silenciosa com o Tether. Falei sobre isto com Hugo Ramos mas ele ameaçou bloquear-me no Facebook. Temendo o terrível castigo, optei por escrever aqui, onde estou mais seguro. Ramos declarou ser «contra a existência do USDT desde 2017!» mas acha que isto não tem nada que ver com as Bitcoin. Para o analista técnico, 60% do volume diário ser em moeda falsa não é um risco (6). Nem acha preocupante que a Bitcoin, auto-regulada, distribuída e transparente, tenha o seu mercado capturado por uma "moeda" emitida de forma opaca, centralizada e sem garantias fiáveis. É quase como se as pessoas que participam neste mercado estivessem mais interessadas no lucro fácil do que nos ideais que apregoam.

A defesa evangélica da Bitcoin também está a deturpar o propósito destes activos. No artigo que inspirou isto tudo a blockchain serve para garantir segurança num sistema de transacções descentralizado, transparente e onde todos podem participar. A Bitcoin, sendo a primeira implementação, está para uma verdadeira moeda criptográfica como o Gopher esteve para as redes sociais. Só permite vinte mil transacções por hora, demora dez minutos a registar cada bloco e o registo é caro. Neste momento uma transacção custa 6 dólares mas em Abril, no pico do preço e movimento, chegou aos 60 (7). É óbvio que não vai destronar a Visa ou MasterCard (8). Mas o progresso tem continuado e há outros activos com transacções mais rápidas e baratas, com algoritmos mais sofisticados e outras funcionalidades. A resposta dos evangélicos da Bitcoin é chamar a tudo isto shitcoins e fingir que o propósito da Bitcoin afinal é outro, o de "guardar valor" em vez de facilitar transacções.

Os irmão Winklevoss defendem que a Bitcoin vai substituir o ouro (9) porque enquanto as reservas de ouro vão aumentando a Bitcoin está limitada a 21 milhões de tokens. Mas isto é falso porque cada ramo da Bitcoin (incluindo Bitcoin Cash, Bitcoin SV e Bitcoin Gold) tem os seus tokens e estão constantemente a surgir novos activos criptográficos. É muito mais fácil criar "criptomoedas" do que ouro. Basta convencer as pessoas, e é provavelmente por isso que os evangélicos da Bitcoin chamam shitcoins às outras. Chamar heresia ou blasfémia seria antiquado e demasiado revelador mas estão obviamente receosos da diluição das suas bitcoins num mercado crescente de activos do mesmo tipo. A tese de Michael Saylor é ainda mais absurda: a Bitcoin é o único activo que realmente garante direitos de propriedade porque terrenos, casas, ouro ou dinheiro podem-nos ser retirados por outros ou taxados pelo Estado (10). Mas Bitcoin também. Por muita segurança criptográfica que o algoritmo tenha, qualquer malfeitor com acesso ao dono das Bitcoin consegue contornar essa protecção. Basta uma corda, um barrote e um alicate. Como reserva de valor a Bitcoin é muito menos segura do que praticamente tudo o resto porque a única coisa que temos é uma chave de autenticação numa rede organizada por desconhecidos. Além disso, o carácter automático e anónimo das transacções torna os donos mais vulneráveis a ameaças, chantagens, roubos ou burlas. Somando insulto ao ridículo, Saylor até alega que Bitcoin é ideal para milhares de milhões de pessoas em países pobres, como se o problema dessas pessoas fosse fugir dos impostos e da inflação em vez de garantir um sítio onde dormir e encontrar comida para dar aos filhos.

Activos criptográficos podem ser bons como moeda de troca mas não como reserva de valor. O problema é que a motivação principal para os comprar tem sido a especulação, naquilo que um dos criadores da Dogecoin chama de princípio do tolo maior (10): por muito caro que eu compre agora, há de haver quem me pagará mais ainda. As atitudes irracionais a que recorrem para manter este esquema em pirâmide impedem a boa utilização desta tecnologia de dinheiro inteligente. Mas tenho esperança que o ciclo corrente de manipulação, insuflação e colapso dos preços seja diferente dos anteriores. Este mercado deixou de estar isolado e a aldrabice já não deverá escapar despercebida dos reguladores.

1- Bitcoin 2021
2- Youtube, Hugo Ramos.
3- O vídeo completo está aqui, mas esta parte é especialmente engraçada: 11m09s. É preciso ver alguns minutos para apreciar o método científico em acção, que boa ciência não se faz à pressa.
4- Aparentemente, vendendo até propriedades para comprar Bitcoin, o que me parece insensato: My house arrived at the exchange! #Bitcoin
5- Um short é uma aposta que o preço de um activo vai descer. Por exemplo, alugo Bitcoin por uns dias, vendo-as imediatamente e compro novamente antes de ter de devolver. Se entretanto o preço desceu tive lucro. Neste post no Reddit pode-se ver o gráfico dos shorts no dia antes ao colapso do preço da Bitcoin no dia 19, evidência clara de que alguém sabia antecipadamente o que ia acontecer: BTC short positions on Bitfinex in days leading up to May 19th.
6- No Facebook, num post que julgo ser público:
31 May at 18:42
7- Ycharts, Bitcoin average transaction fee
8- Há formas de fazer transacções rápidas usando uma blockchain. A rede Lightning, por exemplo, usa um fundo registado na blockchain para fazer uma série de transacções e depois registar o resultado consensual dessas transacções. Mas isso nem é específico da Bitcoin nem resolve inteiramente o problema porque as transacções só ficam realmente seguras quando registadas na blockchain que dá segurança ao sistema.
9- News.com.au, Bitcoin price will increase tenfold, argue the famous Winklevoss twins
10- Bitcoin Magazine, Bitcoin 2021 Fireside: Michael Saylor And Max Keiser
11-Benzinga, Dogecoin Co-Creator Says 99.9% Of Crypto Market Is Driven By 'Greater Fool Theory'

quinta-feira, junho 03, 2021

A palhaçada, parte 1.

Há tempos conversei com uma pessoa que defende que «A ética é uma palhaçada» porque, enquanto «os objetos de estudo [da ciência] continuariam a existir quer existissem humanos ou não», os valores morais não existem «sem sujeitos. Portanto, são subjetivos». Enquanto «a ciência é procurar saber como é a realidade. A ética é sobre como a realidade deveria ser [... e] isso pode decidir-se de muitas maneiras diferentes, e não há forma de demonstrar que umas estão certas e outras erradas.» (1) À primeira vista, parece ter razão. Afirmar que é maldade torturar crianças é associar à tortura de crianças um conceito de “maldade” que não existe no objecto em si e que tem de ser imaginado por um sujeito. Em contraste, afirmar que a Terra é aproximadamente esférica parece ser uma constatação objectiva de um facto. O interessante em qualificar a ética como “palhaçada” por estas alegadas diferenças é errar não só na compreensão da ética como também da ciência.

Tal como dizer que torturar crianças é maldade, dizer que a Terra é aproximadamente esférica também atribui à Terra uma classificação inventada por nós. “Aproximadamente esférico” não está algures na realidade. É um conceito inventado por nós. Até o conceito de “Terra” é inventado. Os átomos nos minerais do solo fazem parte da Terra. Mas se pegarmos em alguns desses átomos, construirmos um robô e o enviarmos para Marte, ou esses átomos deixam de fazer parte da Terra ou esta deixa de ser aproximadamente esférica. Por um juízo de valor, escolhemos a primeira opção. Os robôs em Marte não contam para a forma da Terra. É o que dá mais jeito. Se bem que “maldade” denote um juízo de valor que “aproximadamente esférica” não denota, a escolha dos conceitos em si também resulta de juízos de valor que guiam a ciência.

A ideia de que a ciência só procura «saber como é a realidade» também está errada. Se assim fosse bastaria listar factos. Medir, contar, registar e acumular dados. Mas não queremos a ciência só para dizer como a realidade é. Não basta dizer que a ponte caiu. Queremos saber porque é que caiu, o que poderíamos ter feito para evitar que caísse e como podemos construir a próxima ponte de forma a não cair. Ou seja, queremos também saber como a realidade podia ter sido e como poderá vir a ser. A explicação causal, peça fundamental da ciência, tem de ir além do que a realidade é. Dizer que houve erosão do leito do rio e a ponte caiu apenas descreve a realidade como ela é. Mas afirmar que a erosão do leito causou a queda da ponte implica que sem essa erosão a ponte não teria caído. Explicar é também saber como a realidade podia ter sido e em que condições seria diferente do que é. Em ciência saber isto é mais importante que a mera recolha de factos porque é isto que dá jeito saber. Este juízo de valor é que fundamenta a ciência.

É por isso ingénuo pensar que a ciência apenas procura a verdade como o critério objectivo de correspondência à realidade. Não só pelos contrafactuais, as tais coisas que poderiam ter sido mas não foram, mas também porque nem toda a verdade interessa. Quantas estrelas há na nossa galáxia? A resposta mais útil que a ciência hoje dá é que provavelmente será entre cem mil milhões e quatrocentos mil milhões. Apesar desta resposta poder estar errada, é melhor que infinitas respostas que sabemos ser verdadeiras mas que não interessam. O número de estrelas da nossa galáxia é metade e outro tanto, é o triplo da terça parte, não é a raiz quadrada de 27, não é -23 nem -35 nem qualquer um de infinitos números inteiros negativos. Claramente, ser verdade não é condição suficiente para ser relevante para a ciência. Nem sequer é condição necessária. Sabemos que as gotas de chuva não são esferas perfeitas mas se queremos calcular a sua velocidade terminal fingir que são esferas é muito conveniente. Sem isso é um berbicacho fazer as contas. Sempre que é útil fingir falsidades a ciência não hesita em fazê-lo nem em reconhecer que o faz. É daí que vem uma das invenções mais extraordinárias da história da humanidade, infelizmente menosprezada por muita gente: as margens de erro.

Quem teve paciência para chegar a esta parte do texto pode suspeitar que me converti ao pós-modernismo. Se a ciência não põe a verdade acima de tudo, se até prescinde dela quando dá jeito e se a sua utilidade nem é compreender a realidade como ela é mas fantasiar acerca do que poderia ter sido, pode parecer que a ciência não se distingue de tanta parvoíce que se inventa para enganar as pessoas. Não é verdade. Há uma grande diferença entre a ciência e os disparates das religiões, superstições e crendices várias que fingem dar conhecimento. O que motiva todas estas criações humanas é a nossa compreensão intuitiva de que temos poder para agir sobre o que nos rodeia mas o que nos rodeia também dá de volta. E isso motiva-nos a tentar saber o que podemos fazer, o que acontece se o fizermos e como podemos obter o resultado que queremos. Ler as folhas do chá, pedir favores aos deuses, espetar agulhas em bonecos ou escrever equações sobre campos electromagnéticos são tudo tentativas de resolver este problema. Que é um problema fundamentalmente subjectivo, de valores humanos. O que separa a ciência do resto é sua a honestidade. Se tentarmos resolver este problema sem nos iludirmos com soluções falsas acabamos eventualmente a fazer ciência. Todas as alternativas exigem fingir que encontrámos soluções sem ter resolvido nada.

Em suma, a ciência não é a procura pela verdade ou por «saber como é a realidade». É a melhor ferramenta para atacar o problema humano, e subjectivo, de obtermos o que queremos em vez de deixarmos o universo tramar-nos. É por isso que a ciência escolhe algumas verdades, ou prefere aproximações, ou se debruça sobre cenários fictícios. O que torna a ciência especial é que tenta mesmo resolver este problema em vez de fingir para impingir tretas. E isto torna a ciência muito parecida com a ética. Apenas diferem no problema. Mas isso fica para outro post.

1- Isto foi no Facebook numa conta que é privada, por isso não identifico a pessoa.

domingo, abril 25, 2021

25 de Abril e o fascismo.

Faz hoje 47 anos que os portugueses iniciaram um processo difícil, de vários meses, para substituir uma ditadura por uma democracia. Foi por pouco, mas teve sucesso. Apesar do que defende uma minoria idiota de direita, mesmo admitindo alguns excessos, o resultado foi muito melhor do que a ditadura que havia antes. Quem disser que o 25 de Abril foi má ideia não está a ser meramente ignorante. Está a ser aldrabão. Mas o processo foi imperfeito e o perigo que a promessa da democracia correu nesse período é uma lição importante.

«25 de Abril sempre! Fascismo nunca mais!» é um slogan famoso do PREC ainda hoje apregoado. E ilustra esse perigo que se correu em 1974 e que, em grau muito menor, ainda corremos agora. A vitória da URSS contra o fascismo foi o factor mais importante na projecção internacional do comunismo. A Rússia comunista passou a dominar muitos países e até o comunismo chinês beneficiou dessa vitória. Tendo em conta a ideologia política de partidos como o PCP e o MRPP, que integravam o PREC, é evidente que a escolha do fascismo como alvo veio desta mitologia comunista e do objectivo de conseguir em Portugal uma vitória contra o “fascismo” análoga às de 1945 contra o fascismo na Polónia e por toda a Europa de leste. Não me parece que a escolha deste slogan tenha sido inocente, especialmente considerando que a ditadura portuguesa em 1974 não era um regime fascista. Foi uma falácia para facilitar a substituição de uma forma de repressão por outra e ainda hoje serve esse propósito.

É conveniente para a esquerda rotular de “fascismo” qualquer coisa de direita que queiram condenar porque o fascismo é tão obviamente mau que o rótulo é meio caminho andado para justificar tudo o que se faça em oposição. É este raciocínio falacioso que concede virtude automática a quem diz ser anti-fascista, anti-racista, anti-machista e essas coisas, antes sequer de se questionar o que propõe em concreto. Para muitos em 1974, o anti-fascismo revolucionário justificaria até uma ditadura comunista na linha da URSS ou da China. Mas isso não só seria errado mesmo que Portugal estivesse sob um regime fascista, como estava a Jugoslávia antes de Tito se tornar ditador, como nem sequer é uma caracterização correcta da ditadura Portuguesa.

Não é possível definir “fascismo” de forma consistente olhando para a ideologia. As falanges católicas de Espanha eram ideologicamente muito diferentes dos fasci di combattimento italianos ou dos sturmabteilung alemães. O Império do Japão em 1940 era um regime autoritário, nacionalista, militarista e racista mas não era um fascismo. Era uma monarquia. Ideologicamente, Hitler e Mussolini eram muito diferentes. O primeiro vivia obcecado com o extermínio dos judeus e o segundo considerava essa obsessão uma barbaridade repugnante. Mas os regimes de Mussolini, Hitler e Franco surgiram graças a grupos civis violentos. Isso é o fascismo. É mais o processo do que a ideologia. É isso que Bolsonaro e Trump tentaram imitar, felizmente com muito menos competência. Isto não tem nada que ver com a nomeação de Salazar para Ministro das Finanças pela junta militar em 1926 ou a constituição do Estado Novo em 1933. Muito menos com o que Portugal era em 1974. É por isso incorrecto dizer que o 25 de Abril foi uma vitória contra o fascismo. Foi uma vitória da liberdade. Foi uma vitória contra a ditadura e a opressão. Mas o papão do fascismo foi invocado pela esquerda por razões de propaganda política pelo seu objectivo de substituir uma ditadura por outra.

Este ardil continua a ser usado hoje. Em grande parte, a esquerda continua a definir-se em oposição a perigos empolados e mal definidos como o racismo, o colonialismo, os estereótipos e, ainda, o fascismo, para tentar desviar a atenção de medidas contrárias àqueles princípios de liberdade e democracia que triunfaram após o 25 de Abril. E que triunfaram apesar do esforço de muita da esquerda de então, que idealizava um futuro bem diferente para Portugal. Por isso, sim, 25 de Abril sempre. Temos de defender a democracia e a liberdade, protegendo-as de todos que as queiram substituir pela repressão. Mas “25 de Abril sempre!” com cuidado ao que põem a seguir, porque traz água no bico.