quinta-feira, abril 26, 2007

Mente e fisiologia, parte 1: o dualismo.

«Expliquem-me o Amor». Antigamente Deus manifestava-se na trovoada e na lepra. Hoje estas são descargas eléctricas e micobactérias, e é superstição acreditar que provêem directamente de Deus. Aquilo que se compreende só pode ter uma ligação vaga e ténue a Deus, mais por abstracção teológica que por fé a valer.

Como a sensação de amar é ainda misteriosa parece razoável dizer que Deus é Amor. Só que o mistério não é ser amor, é ser sensação. O papel do amor na nossa reprodução e sobrevivência é claro, tão claro como o papel do espirro na desobstrução das vias respiratórias. O mistério, em ambos os casos, é que os sentimos. Sentimos amor e sentimos comichão no nariz antes de espirrar, mas como é que um corpo feito de células e matéria sente e tem consciência? Esse é o mistério que quero abordar.

Esta série de posts vai ter pouco a ver com a religião, mas tenciono voltar, no final, ao Deus como amor. Entretanto, começo pelo dualismo, a hipótese que é uma mente imaterial que pensa e sente. Descartes chamou-lhe a coisa pensante (em latim parece mais sério, res cogitans).

O dualismo troca um problema por três. Continua sem explicar como é que se sente, e agora tem também que explicar como é que a mente imaterial afecta a matéria e como é a matéria afecta a mente. Como é que o meu braço mexe quando eu quero e sinto dor quando me pisam o pé?

Descartes resolveu os dois últimos problemas recorrendo a Deus. Quando alguém me pisa, Deus cria uma dor na minha mente. Quando a mente quer mexer o braço, Deus vai e mexe-o. Dá pouco descanso a Deus, mas concorda com o dogma religioso e permite a vida depois da morte, o que é muito importante para a Igreja. Por isso foi aceite por todos na altura. Mente de um lado, corpo do outro, Deus pelo meio, e nada de misturas. Mas o problema inicial ficou por resolver. Como explicação, era melhor encolher os ombros e dizer «sei lá».

E a evidência refuta cabalmente o dualismo. O álcool no sangue baralha os pensamentos. Lesões, AVCs, ou doença de Alzheimer tiram-nos memórias, traços de personalidade, ou mesmo a fala. Não é razoável que uma mente eterna e imaterial seja afectada desta forma, ou que Deus lhe destrua partes sempre que um vaso sanguíneo se rompe no cérebro.

Vou focar apenas dois exemplos das muitas evidências contra o dualismo. Primeiro, o cérebro dividido pelo corte do corpo caloso, um feixe de fibras nervosas que une os dois hemisférios. Cortar o corpo caloso impede que os impulsos de um ataque epiléptico se propaguem ao cérebro todo. Tratou-se assim alguns casos casos graves de epilepsia. Mas também impede a passagem de informação, dividindo a mente em duas. É pouco perceptível porque a fala é controlada por um só hemisfério, tipicamente o direito, mas por vezes nota-se comportamentos antagónicos nos dois lados do corpo. Por exemplo, uma mão leva o cigarro à boca e a outra tira-o, repetidamente.

E testes específicos revelam a divisão da consciência. Sem ver, o paciente tacteia um objecto comum, como uma chave ou caneta, e é capaz de seleccionar esse objecto, só pelo tacto, de entre um conjunto de objectos diferentes. Mas apenas se usar a mesma mão. Se primeiro tactear o objecto com uma mão e tentar seleccioná-lo com a outra já não consegue. Ambos os hemisférios compreendem a tarefa e conseguem desempenha-la, mas cada hemisfério controla uma mão e não comunicam entre si. São duas consciências independentes.

Todos os testes feitos a estes pacientes dão o mesmo resultado: são duas mentes diferentes, cada uma controlando metade do corpo, mas só uma com o dom da fala.

O segundo exemplo é a negligência contralateral*, na qual uma lesão cerebral destrói a representação de um lado, tipicamente o esquerdo. Para o paciente o lado esquerdo não existe. Não mexe o lado esquerdo do corpo, não veste essa parte, não come a comida do lado esquerdo do prato, é incapaz de raciocinar sobre esse lado e mesmo quando recorda algo omite o lado esquerdo. Por exemplo, desenha todos os números do relógio no lado direito do círculo.

Estes casos, e muitos outros, mostram que a nossa mente não é una e indivisível. É um conjunto de sistemas independentes e indissociáveis do funcionamento do cérebro. O primeiro passo para compreender o mistério do sentir é rejeitar o dualismo. Seja no amor ou no espirro, a mente não é mais que a actividade do corpo.

*Contralateral neglect. Não sei se esta tradução é Português ou Brasileiro.
Mais informação sobre esta condição aqui, onde podem ver o tal desenho do relógio.
Sobre o cérebro dividido, um texto do Michael Gazzaniga, um dos primeiros a investigar estes casos, e esta notícia de um estudo que encontra casos de lateralização mesmo sem cortar o corpo caloso.

11 comentários:

  1. Não percebi bem o primeiro exemplo. Quer dizer que se escolhermos o objecto com uma mão e o formos buscar com a outra, temos de repetir tudo outra vez para voltar a seleccioná-lo?

    ResponderEliminar
  2. Se o paciente sente o objecto com uma mão, consegue seleccionar esse objecto de entre outros com essa mão mas não com a outra.

    Por exemplo, de olhos vendados damos-lhe uma chave para a mão. Ele sente a chave, e coloca-a num saco com outras coisas, umas canetas, borrachas, etc.

    Se agora ele meter a mesma mão no saco consegue ir buscar a chave. Mas se usar a outra já não. O outro hemisfério não sabe qual é o objecto que o primeiro tinha sentido.

    ResponderEliminar
  3. leprechaun27/04/07, 06:40

    Hummm... parece-me que há por aí uma série de conceitos a precisar de alguma definição, não?!

    Deixando de parte essas concepções de dualismos ou monismos, idealismos e realismos, temos 3 conceitos distintos a considerar. Um deles é um órgão físico, o cérebro, e os outros dois - mente e consciência - encontram-se relacionados com o seu funcionamento. A ciência actual considera-os simples epifenómenos ou propriedades do cérebro, logo sem autonomia própria e cessando a sua existência com a morte cerebral, ou até mesmo antes, por exemplo no coma profundo ou no chamado estado vegetativo, ainda que uma experiência muito recente tenha posto em dúvida esse facto comummente admitido pela ciência médica. Mas adiante...

    Este modo de encarar a relação cérebro-mente/consciência caracteriza o monismo realista que é a base filosófica conceptual da moderna ciência. Em suma, TUDO é matéria e o que dela pode derivar.

    Obviamente, segundo esse modelo rígido não faz sequer sentido algum aventar sequer a possibilidade de a mente ou consciência poderem existir para além da actividade cerebral, uma questão encarada como meramente metafísica - que o dualismo defende - e não científica.

    Antes de prosseguir, faço aqui um parênteses para citar o que Einstein um dia disse a Heisenberg, acerca das suas divergências de interpretação da física quântica, a qual está a ser cada vez mais uma enorme pedra no sapato do realismo materialista contemporâneo:

    It is the theory which decides what we can observe.

    Logo, enquanto considerarmos a consciência como uma mero subproduto da matéria altamente organizada, neste caso o cérebro, tudo aquilo que observarmos... por muito anómalo que seja, por exemplo, êxtases e estados alterados de consciência... será interpretado nessa base filosófica que ainda enferma a ciência actual.

    É deveras interessante meditar acerca disto. É que talvez já esteja mesmo na altura de mudarmos de paradigma e colocar a consciência no seu devido patamar... mas sem dualismos à Descartes, que já não são precisos!

    Regressando à definição dos conceitos, ora bem, o cérebro sabemos o que é, ainda que permaneça o mais misterioso e desconhecido de todos os órgãos. Mas a mente e a consciência, como se poderão definir num plano o mais fisiológico possível, sem recorrer pois a transcendências?

    É curioso salientar como na visão da psicologia convencional, a consciência está num plano inferior à mente, já que é definida como uma qualidade ou atributo desta, sendo o "estado de estar ciente", quer de si próprio (auto-consciência) ou do ambiente. Só para precisar um pouco, o significado etimológico de "consciência", do latim conscientia = cum + scientia é "conhecer com".

    Posto isto, o que é então a mente? Aqui temos uma dificuldade suplementar, já que por vezes este termo é equiparado a "espírito", mormente no vocábulo inglês "mind", provavelmente uma reminiscência do dualismo cartesiano, talvez.

    Anyway... por "mente" entende-se o conjunto das "funções superiores do cérebro humano", normalmente associadas ao funcionamento do córtex cerebral, ou seja, o pensamento, a razão, a memória e a inteligência.

    Deste modo, a mente abrange não só a consciência, ou o "ego", mas também o inconsciente, "id", e ainda o subconsciente, na terminologia freudiana.

    E como isto já vai demasiado longo, por aqui me fico, esperando prosseguir depois estas considerações. Ainda assim, termino apenas dizendo que as "duas mentes" referidas no texto, correspondentes aos 2 hemisférios cerebrais, parecem assemelhar-se ao estereotipo já de há muito descrito de um hemisfério esquerdo racional - predominante em quase 100% (!) dos seres humanos -, responsável pelo pensamento lógico e a comunicação, e um hemisfério direito mais intuitivo, onde predominam o pensamento simbólico e a criatividade.

    So this is it! :)

    Ah! e quanto ao Amor... Love is here to stay, come what may!!! :D

    ResponderEliminar
  4. Leprechaun disse
    «Logo, enquanto considerarmos a consciência como uma mero subproduto da matéria altamente organizada, neste caso o cérebro, tudo aquilo que observarmos... por muito anómalo que seja, por exemplo, êxtases e estados alterados de consciência... será interpretado nessa base filosófica que ainda enferma a ciência actual.»

    Isto é falso. Se observarmos que alguém continua a raciocinar, falar, e agir normalmente mesmo depois de lhe destruirmos o cérebro fica claramente refutado este modelo da mente como actividade cerebral.

    Tal como podemos rejeitar a mente como actividade do rin direito, da orelha esquerda, ou dos pelos do nariz, visto que sem estes a pessoa pensa na mesma.

    Quanto às definições, podem ser úteis para comunicar os detalhes ou se tivermos um modelo detalhado de um fenómeno. Para o meu propósito num post de blog não pareceu útil divagar sobre as diferenças entra alma, mente, consciência, pensamento, espírito, e outros que tal...

    ResponderEliminar
  5. No Républica & Laicidade, a sequência de acontecimentos da carga policial de 25 de Abril:

    http://www.laicidade.org/2007/04/27/«25-de-abril»-reprimido-a-25-de-abril-2/

    Passa o link e a palavra!

    ResponderEliminar
  6. leprechaun27/04/07, 23:27

    Se observarmos que alguém continua a raciocinar, falar, e agir normalmente mesmo depois de lhe destruirmos o cérebro fica claramente refutado este modelo da mente como actividade cerebral.


    It ain't necessarily so... oh no!

    Aquilo que é objectivamente comprovável e que não merece refutação alguma é a existência de uma "trindade", por assim dizer, a que podemos chamar cérebro-mente-consciência. Mas será que a ausência de um desses elementos implica necessariamente que os outros já não esteja presentes?!

    Creio que o exemplo clássico para ilustrar este ponto de vista é o das ondas hertzianas. Note-se que estou a apresentá-lo a título meramente ilustrativo, independentemente de representar ou não a minha opinião sobre o assunto. Ou seja, se equipararmos o cérebro físico a um aparelho de telefonia e as ondas electromagnéticas à mente ou consciência - aqui não tem importância a distinção - uma avaria ou a destruição do rádio pode impedir a captação das ondas e a respectiva audição das estações, claro.

    Bem, este exemplo supõe uma Mente/Consciência universal, algo que está concordante com a ideia espiritual de Deus. Talvez seja assim, mas o "Eu" individual por certo é outro componente para além desse "Eu" universal. As escrituras hindus são muito pormenorizadas acerca disto, mas não vale a pena trazer agora esses conceitos de "atman" e "paratman" para aqui.

    A questão a pôr continua a ser se o pensamento é "segregado" pelo cérebro, à maneira do que acontece com o funcionamento de outros órgãos, ou se o encéfalo é apenas um "instrumento de medição", por assim dizer, que apenas medeia o binómio mente-consciência.

    A este propósito, há pelo menos uma recente teoria proposta por um físico quântico e que pretende reconciliar alguns dos aspectos paradoxais do funcionamento do cérebro-mente, conforme diversas experiências têm posto em evidência nos últimos anos.

    Tal teoria, assente num modelo filosófico do idealismo monista, tem por base os mais recentes desenvolvimentos na física quântica, conjugando-os contudo com o modelo clássico, já que o cérebro é, afinal, uma macro-estrutura.

    Hei-de deixar aqui alguns desses considerandos, muito embora não seja fácil sintetizá-los, já que são algo abstrusos e, principalmente, bem avançados e inovadores... so to speak!

    Em suma: mente e consciência residem na actividade cerebral ou são apenas mediadas por esta... desde o plano transcendente ao imanente?! É que há uma vastíssima diferença entre estas duas opiniões, e o simples estudo da fisiologia cerebral - como os diversos exemplos de lesões, acidentais ou cirúrgicas - não é suficiente para fazer prova da 1ª opinião, sustentada maioritariamente pelo estado actual da ciência médica. Mas será que a Psicologia vai atrás?!


    E se o cérebro apenas mede...

    Rui leprechaun

    (...o real que a mente acede?! :))


    PS: Obviamente, a imaginária comprovação de que a Consciência individual sobreviveria à morte física ou cerebral poria um ponto final na discussão. Ora, mas se fosse assim tão fácil, nem valia a pena e isto da Ciência vs. Religião é sempre um rico e ardoroso tema! :)

    ResponderEliminar
  7. Joao Valle01/05/07, 22:49

    Vilayanur S. Ramachandran é diretor do Center for Brain and Cognition e professor de Psicologia do departamento de Neurociencia da Universidade da Califórnia. Ele apresentou um programa chamado "Secrets of Mind", onde avaliava pessoas acidentadas ou com transtornos neurológicos. Como investigador, seu trabalho é descobrir como ou o que provoca determinados sintomas e mudaças de comportamento destas pessoas.
    No video a seguir, ele fala sobre pessoas submentidas a lobotomia, onde ocorre a cisão do corpo caloso do cérebro. O cérebro é então dividido em dois hemisférios, que provoca uma cisão cognitiva. Estas pessoas são então questionadas por "hemisfério cerebral", cobrindo um dos olhos e apresentando um questionário. Interessante é que pessoas crentes quando questionadas no hemisfério direito do cérebro em relação a sua crença em Deus respondem sim, enquanto do lado esquerdo respondem não. Então se esta pessoa morre, metade dela vai para o céu e a outra metade vai para o inferno?
    http://www.youtube.com/watch?v=_DCSJdhy3-0

    ResponderEliminar
  8. Não é só esse, como uma série de videos sobre essa conferência, que são extremamente interessantes!

    Obrigado pela referência.

    ResponderEliminar
  9. A obra mente - estrutura & gênio, inicia, com bastante clareza, o desvendar dessa questão milenar, a mente humana (sem entrar em aprofundamentos: qualia, autopoiese, etc.) e de quebra instância a consciência – sem um domínio dessa função mental, que nos faz perscrutar o mundo, não é possível compreender a própria mente.
    Para quem, como Damásio, acredita que o “desvendar da mente é um limite a ser transposto pelas ciências da vida”, vale a pena conferir.

    ResponderEliminar
  10. Olá Ludwig, sou estudante de Biologia na UFRN e estou fazendo minha monografia e, possivelmente, toraná-la uma tese de mestrado e, quem sabe, sequencialmente, um doutorado.
    Me atrai o tema mente/consciência - cérebro ; ” o pensamento é segregado pelo cérebro à maneira do que acontece com o funcionamento de outros órgãos? ” ; dualismo x monismo ; filosofia e neurociência ; o poder da mente …
    O que vc, aconselha?
    Dentre outros temas pouco estudados, ainda tido como mistérios na neurociência, o que recomenda?

    Obrigada,

    Vanessa

    ResponderEliminar

Se quiser filtrar algum ou alguns comentadores consulte este post.