Treta da Semana: O ADN telepata.
Dupla hélice de ADN. As duas moléculas de ADN estão representadas com cores diferentes. Fonte: Wikimedia Commons.
O Jónatas Machado relatou, com típica contenção e ponderação, «ÚLTIMA HORA! PROPRIEDADES “TELEPÁTICAS” DESCOBERTAS NO DNA!» (1). Segundo o Jónatas, «As últimas descobertas científicas mostram que o DNA tem capacidades “telepáticas” consideradas cientificamente impossíveis e inexplicáveis. [...] Esta descoberta acerca das capacidades de leitura à distância do DNA foi recentemente publicada no ACS’ Journal of Physical Chemistry B. Os autores do estudo foram os cientistas Geoff S. Baldwin, Sergey Leikin, John M. Seddon, Alexei A. Kornyshev ».
Este artigo foi publicado em Janeiro de 2008 (2). Num contexto bíblico pode ser “recentemente” mas, em ciência, é mais “só agora é que repararam?” E isso do cientificamente impossível e inexplicável nem sequer é exagero. É treta.
Cada molécula de ADN tem uma cadeia de açucares fosfatados à qual se ligam bases que interagem com as bases da outra molécula de ADN na dupla hélice (ver figura). A elucidação desta estrutura, por Watson e Crick, revelou como uma molécula de ADN pode reconhecer a sua parceira em função das sequências de bases. Também se sabe que uma molécula de ADN sozinha pode encaixar no sulco que se forma onde as bases da hélice dupla emparelham. Como as bases de uma molécula podem interagir com as bases do par já formado, percebe-se que esta interacção também depende da sequência de bases. A novidade no artigo de Baldwin et al foi comprovar experimentalmente que a interacção de dois pares de moléculas de ADN também tem alguma especificidade. Esta situação é diferente porque entre duas hélices duplas as bases não podem interagir.
Em solução, as cadeias duplas de ADN encostam-se formando esferas de cristal liquido, estruturas organizadas mas fluidas. Os autores prepararam uma mistura de cadeias duplas de ADN com duas sequências diferentes, cada uma marcada com um corante fluorescente diferente. Quando se agregavam, as cadeias duplas do mesmo tipo segregavam-se espontaneamente na estrutura do cristal líquido. Em vez de uma mistura das duas cores viram os corantes separados em regiões diferentes (3). Ou seja, mesmo emparelhadas numa hélice dupla, as moléculas de ADN interagem preferencialmente com outros pares da mesma sequência.
Mas esta descoberta não foi “cientificamente impossível e inexplicável”. Como os autores explicam na introdução, esta selectividade já tinha sido sugerida por estudos teóricos «prevendo que a dependência entre a estrutura da cadeia principal do ADN e a sua sequência pode afectar as interacções ADN-ADN e até resultar em reconhecimento de sequências homólogas sem abrir a hélice dupla»(3). Já desde 1998 (4) que se sabe que a sequência de bases afecta a estrutura da cadeia de açucares fosfatados. A experiência que o Jónatas mencionou como mostrando um mistério inexplicável foi a confirmação de uma hipótese com mais de uma década.
Tanto cientistas como criacionistas gostam de resultados intrigantes, mas a semelhança acaba aí. Para os cientistas, um dado inesperado é uma oportunidade para melhorar explicações e encontrar novas pistas acerca do funcionamento do universo. Para os criacionistas, um mistério é um buraco escuro onde podem guardar o seu deus. Rezam para que se mantenha misterioso e maldizem quem acender a luz.
«The most exciting phrase to hear in science, the one that heralds new discoveries, is not ‘Eureka!’ but ‘That’s funny …» Isaac Asimov.
1- Comentário em Darwin na FCT.
2- ACS News Service Weekly PressPac, January 23, 2008.
3- Geoff S. Baldwin, Nicholas J. Brooks, Rebecca E. Robson, Aaron Wynveen, Arach Goldar, Sergey Leikin, John M. Seddon, and Alexei A. Kornyshev, DNA Double Helices Recognize Mutual Sequence Homology in a Protein Free Environment, J. Phys. Chem. B, 2008, 112 (4), pp 1060–1064.
4- Olson WK, Gorin AA, Lu XJ, Hock LM, Zhurkin VB, DNA sequence-dependent deformability deduced from protein-DNA crystal complexes. Proc Natl Acad Sci U S A. 1998 Sep 15;95(19):11163-8.
