Já confirmei alguns detalhes com os organizadores. A entrada vai ser livre, por isso se estiverem em Braga sem nada para fazer na próxima quarta feira à noite dêem um salto à Faculdade de Teologia e venham assistir ao debate entre evolução e criacionismo.
Se não vierem perdem o espectáculo ao vivo mas o debate vai ser gravado. A publicação da gravação depende da autorização dos intervenientes mas penso que pelo menos a minha apresentação poderei disponibilizar.
O debate vai ser moderado pelo director da Faculdade de Filosofia da UCP, que nos sugeriu elaborar uma página resumindo os três pontos principais dos nossos argumentos. Achei a ideia excelente e deixou-me mais optimista. Apesar de violar o meu limite auto-imposto para o tamanho dos posts, decidi pôr aqui o meu resumo na integra.
Teorias e EvoluçãoHá séculos que a descoberta de explicações naturais tem criado conflitos entre a ciência e religiões que propõem explicações sobrenaturais alternativas. Saliente na nossa sociedade é o conflito entre a ciência e o criacionismo evangélico cristão, que defende uma interpretação literal da Bíblia. Esta doutrina alega que o “Darwinismo” é uma filosofia naturalista e propõe substituí-la pelo criacionismo ou design inteligente. O criacionismo assenta num entendimento incorrecto da ciência enquanto método, enquanto corpo de conhecimento e da forma como a teoria da evolução se insere na ciência moderna.
O naturalismo científico.
Não foi por dogmatismo ou premissa que a ciência rejeitou as explicações sobrenaturais. Pelo contrário, no passado a intervenção divina foi a explicação fundamental para muitos fenómenos e a teologia era a “rainha das ciências”. O criacionismo bíblico foi aceite pela biologia até ao século XIX e Newton explicou a gravitação universal pela acção de Deus. Sem esta, defendia Newton, a matéria inanimada nunca poderia atrair-se à distância.
Quando a relatividade de Einstein substituiu a teoria de Newton fê-lo por explicar fenómenos que a última não cobria e por fazer previsões correctas onde a teoria de Newton falhava. E, ao mesmo tempo, fez desaparecer o mistério que Newton explicava pela acção de Deus. Esta tem sido a norma na ciência dos últimos séculos. Novas teorias científicas vingam por prever melhor e com mais rigor gamas mais abrangentes de fenómenos e por se integrarem melhor umas com as outras. E sempre, até agora, as teorias melhores são as que têm menos de sobrenatural.
Nada obriga a ciência a rejeitar Deus a priori. Foi a sistemática demonstração que as teorias naturalistas são melhores modelos deste Universo fez cair da ciência o sobrenatural.
A evolução da teoria.
Darwin deu um contributo importante à biologia. A teoria da selecção natural elucidou o mecanismo que guia a variação de características numa população tornando os organismos mais aptos a prosperar no seu meio ambiente e substituiu a ideia de espécie como um arquétipo fixo pela noção de espécie como conjunto fluido de populações.
Mas em século e meio muito mudou. A selecção natural de Darwin é hoje uma pequena peça numa teoria da evolução que inclui genes, efeitos moleculares, deriva, mutações neutras e modelos matemáticos detalhados. Darwin não podia imaginar os enormes avanços na microbiologia, genética, bioquímica e biologia molecular que confirmaram e expandiram a sua teoria. Enquanto o criacionismo opõe um mito com vinte e cinco séculos a uma teoria com 150 anos, a teoria da evolução cresceu muito para além da ideia inicial e continua a expandir-se, a revelar novas questões e a desvendar novos mistérios.
A unidade da ciência moderna.
O progresso científico não tem dado apenas explicações melhores e mais detalhadas. Igualmente importante tem sido a unificação das várias áreas do conhecimento. A teoria atómica juntou a química à física. A síntese de compostos orgânicos e a biologia molecular mostraram que a matéria viva se rege pelas mesmas leis naturais que a matéria inanimada. A descoberta da radioactividade resolveu os conflitos entre a astronomia, a geologia e a biologia. São apenas alguns exemplos do encaixe firme entre as teorias científicas modernas. O criacionismo não se opõe apenas à teoria de Darwin mas a toda a biologia moderna, à bioquímica, à física que determina a idade das rochas, à geologia, até à astronomia que nos mostra estrelas cuja luz viaja à milhares de vezes o tempo que o criacionismo permite.
Este conflito desigual põe de um lado a interpretação literal de um mito antigo e, do outro, todo o edifício da ciência moderna, um edifício construído ao longo de séculos de investigação cuidadosa, análise crítica e testes rigorosos às hipóteses propostas.
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