sexta-feira, janeiro 05, 2007

O verdadeiro Escocês.

- Nenhum escocês põe açúcar nas papas de aveia.
- Mas o meu tio Angus gosta de papas de aveia com açúcar.
- Ah, mas o verdadeiro escocês não põe açúcar nas papas de aveia.

Foi assim que em 1975 Antony Flew ilustrou a falácia que ficou conhecida como no true scotsman (1). Este erro de raciocínio é usar um termo que refere um grupo de entidades (os escoceses) como se fosse um conceito de definição rigorosa (por exemplo, triângulo equilátero), e suportar uma afirmação alterando arbitrariamente a definição.

O António Parente comete o mesmo erro na sua resposta (2) ao post (3) onde apontei diferenças entre o que o António dizia dos católicos e o que eu observara:

«O Ludwig começa por criticar a minha afirmação do que é "ser católico". Com certeza percebeu que é uma definição pessoal e, para além do mais, uma definição idealista. É o tipo de católico que eu gostaria de ser»

O termo “católico” não pode ser definido a gosto, pois já é usado para referir o conjunto de pessoas que adere à fé católica. Se gostam ou não de pôr açúcar nas papas de aveia é irrelevante. O facto é que muitos católicos têm pouco respeito pelos que não crêem em deuses.

(Aviso ao leitor que tenha mais que fazer: O resto deste post ficava melhor como comentário no blog do António, mas o «Crítica da Razão Moderna» não permite críticas...)

O António justifica desta forma o «Não digas disparates» da educadora quando o meu filho de 5 anos disse que deus não existe:

«Aos 5 anos, dizer que Deus não existe não tem significado nenhum, excepto se os seus filhos forem prodígios. Se a professora lhes respondeu dessa forma, afectando a [sensibilidade] das crianças e, como se vê, a do pai, foi porque tomou consciência que as crianças repetiam o que ouviam dizer em casa e que não teriam capacidade para discutir o assunto com uma adulta como a professora.»

Acho interessante a proposta de considerar disparate o que se diz apenas porque se ouviu e acreditou, sem verdadeiro conhecimento. Mas não foi isto que motivou a educadora. Ela nunca disse o mesmo às crianças que falam do Pai Natal, do menino Jesus ou dos anjos só porque ouviram em casa e não têm capacidade de discutir o assunto com adultos.

O António também justifica o sermão do padre quando os miúdos foram deixar brinquedos para os pobres:

«Em seguida, refere-me a visita dos seus filhos à Igreja e a atitude do padre que os atendeu. Não me surpreende nem me indigna o que o padre fez. Fê-lo com certeza de boa fé e não vejo que tenha causado traumatismos irremediáveis aos seus filhos.»

Não é a fé do padre que está em causa, mas a falta de respeito pelos que não a partilham. E o próprio António sugere que é disparate crianças de 5 anos se envolverem nestas coisas. Concordo. Foi um disparate e uma falta de consideração pelos que vão dar os seus brinquedos aos pobres e não querem saber do menino Jesus. O António continua:

«Diz o Ludwig que "os católicos não respeitam os não crentes da mesma forma como respeitam os crentes." E dá um exemplo: "Estou certo que se os meus filhos fossem hindus ou muçulmanos a educadora não tinha dito que Vishnu ou Allah era disparate, nem os tinham posto a beijar o boneco." O seu exemplo não faz sentido. Um muçulmano ou um hindu entregaria os brinquedos dentro da sua comunidade e não num templo católico.»

Primeiro, corrijo um mal-entendido: o exemplo referia-se ao «Não digas disparates», e não à entrega de brinquedos. Mas também faz sentido nesse contexto. A entrega de brinquedos foi organizada pelo infantário, e os miúdos foram com os colegas e as professoras. Reforçando a ideia que estou a transmitir: foi organizado de acordo com a fé católica das professoras, sem consideração pela eventual diversidade de posições das crianças e ainda menos pelo disparate (concordo aqui com o António) que é assumir que miúdos de cinco anos são católicos.

Não é de má fé, nem é para traumatizar. É certamente sem má intenção, e mesmo sem pensar. E é por isso que é uma falta de consideração: fazem-no sem sequer notar o que estão a fazer. Simplesmente assumem que o mais apropriado é ir tudo à Igreja Católica Apostólica Romana, a Única e Verdadeira Religião ®.

«Finalmente termina o seu post com as tretas habituais. Percebo perfeitamente que não tenha capacidade, neste momento, para entender Deus, a Igreja Católica e a sua doutrina.»

Permita-me invocar aqui a sua proposta: é disparate falarmos de algo apenas porque ouvimos dizer, sem verdadeiro conhecimento. Ora tudo o que o António julga saber acerca do seu deus lhe chegou por boca. Nada desse seu alegado entendimento vem de interagir directamente com a divindade. Não falou com a sarça ardente, nem lhe veio um anjo traduzir o livro de Mormon. Ouviu dizer, acreditou, e agora repete.

Para concluir:

«Eu respeito as suas crenças mas o Ludwig não respeita as minhas.»

Claro que não, nem quero que respeite as minhas. Crenças, ideias, pensamentos, isso tudo são coisas abstractas, sem sentimentos. São para usar e deitar fora e não merecem qualquer respeito. O que eu respeito são as pessoas, independentemente das crenças que têm ou não têm, e é isso que espero dos outros. Porque quanto mais respeitamos crenças menos respeitamos pessoas.

Antony Flew, 1975, Thinking About Thinking. Ver também Wikipedia

2-António Parente, 4-1-07, Caro Ludwig

3- Eu, há uns dias, Monstruosa Obsessão

10 comentários:

  1. A propósito de crianças e religião: existe uma verdadeira chantagem desta sociedade que se diz democrata e secular em relação às crianças que não são religiosas, ou pelo menos papagueiem os rituais católícos como o batisado, a comunhão, a catequese e sei lá mais o quê. Essa pressão é exercida pelos educadores, pelos professores, pelos colegas e pelos próprios familiares. Lembro-me quando o meu sobrinho mais velho tinha uns sete anos e começou a sofrer por ser diferente dos outros na medida em que não praticava os rituais que eventualmente o levariam ao paraíso. Esse sofrimento só foi reforçado pela avó que o informou que se não acreditasse no menino Jesus não teria prendas no Natal.
    Felizmente teve prendas, falou com outros familiares que eram da opinião dos pais e recentemente encontrou colegas da mesma opinião o que ainda é mais importante, nem que esses colégas só tenham a mesma opinião por a partir do 5º ano de escolariedade a disciplina de religião e moral não ser obrigatória,logo os putos ateus têm mais tempo livre.
    Ainda bem que também há brindes para os putos ateus!

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  2. Caro Ludwig

    Com a sua resposta dou por encerrado o nosso debate.

    Felicidades.

    António Parente

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  3. PS: andei na escola alemâ, logo a maioria dos meus colegas eram protestantes. Eu morria de inveja por não ser protestante porque eles festejavam o "Namenstag", ou seja, o dia do santo ao qual correspondia o seu nome,e assim recebiam prendas três vezes por ano, ao contrário de mim que só recebia nos anos e no Natal.
    De qualquer modo agradeço aos meus pais de nunca me terem indoctrinado nenhuma crênça, nem se terem aproveitado da religião para me impingirem alguma moral ou ética e se desresponsabilizarem de tentar fazer de mim um ser racional e autónomo.(tentaram, não quer dizer que conseguiram).
    O meu irmão Miguel tentou impingir o cúmulo da desresponsabilização aos filhos dele dizendo-lhes que acreitava piamente no Pai Natal, de modo que se eles não recebessem prendas no Natal a culpa não seria dele. Até a filha mais nova que só tem 6 anos se riu.

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  4. Ludwig,

    O mais importante do post é o último parágrafo. Abordei a questão no meu blog há algumas semanas. Para não me repetir, fica aqui o link:
    http://www.heldersanches.com/2006/11/16/tolerancia-de-ideias-e-pessoas/

    Um abraço,

    Helder

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  5. Ludwig 3 António Parente 0

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  6. Não entendo como num blog onde tanto se fala de religião, nunca se tenha falado da questão das mulheres (por exemplo na religião católica, nas outras nem falo) serem tratadas como seres inferiores, onde não podem decidir nada, nem ter funções importantes, só mesmo seguir ordens...e era tão fácil mudar isso...mas o problema é não se querer...ou se calhar acham mesmo que as mulheres não são igualmente capazes…

    Para algumas coisas evoluem (ex.: os bispos andarem de jacto privado), para outras coisas como uso do preservativo, celibato, respeito pelas mulheres já não…

    Aqui ja não se trata de "será que existe Deus", ou "é tradição da religião, antes era ssim", aqui trata-se do presente!

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  7. Oi Luís,

    Esse blog de que falas é este ou o do António Parente?

    Eu tenho protestado aqui contra a educação religiosa de crianças (rapazes ou raparigas), mas em países como o nosso se uma mulher adulta quer pertencer a uma igreja machista isso é lá com ela.

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  8. Ludwig,

    Tanto se fala do Antonio Parente aqui...tem de concordar que ele é alguem que lhe da alguma "luta". Pena que tenha amuado (sem querer faltar ao respeito) e nao venha mais comentar no seu blog.

    Aqui fala-se muito de religiao (e nao desgosto do tema senao nao vinha), nao so da criançada.
    Eu sei que "isso é la com ela", mas que lá que irrita, irrita...foi por isso que falei...

    Ja sabe como sou, falo quando nao devo, e nao digo nada de jeito, tipo "pedra do sapato" do seu blog. Mas la tem de ser, nada é perfeito;)

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  9. Caro Luís,

    Sim, o António Parente serviu de inspiração para vários posts, e também lamento a relutância dele em dialogar.

    Quanto aos teus comentários (penso que já nos podemos tratar por tu, não? Até já ganhei uns prémios no teu blog :) são sempre bem vindos.

    Só que acho que aqui em Portugal há pouco que se possa fazer pelas mulheres adultas que se sujeitam a religiões machistas. A única coisa que falta é decidirem acabar com a situação, e isso ninguém pode fazer por elas.

    Mas talvez me escape algum aspecto mais sério. Tens algum caso concreto em mente?

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  10. Ludwig,

    Sobre os prémios, ainda não os recebeste nem os vais receber, porque eu sou mesmo assim, prometo e não cumpro.

    Sobre a situação das mulheres eu acho que o mais sério a fazer seria……talvez um referendo? :)

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