Nesta última rodada o Desidério deixou-me um pouco confuso. Começa por afirmar que «Uma verdade é analítica se, e só se, podemos saber a priori que é verdadeira.»(1) Fiquei surpreendido mas estou de acordo. É isso mesmo. Só é verdade a priori se for analítica, e vice versa. Mas baralhou-me que o parágrafo seguinte afirmasse «Pode ser que todo o conhecimento a priori seja conhecimento de verdades analíticas, mas tal coisa não se segue dos conceitos de a priori e de analiticidade.» Parece-me contradizer o «se, e só se».
Mas deixo ao Desidério explicar na próxima rodada se há proposições sintéticas cuja verdade seja justificável a priori, e aproveito para resumir a minha posição e tentar esclarecer as dúvidas do António e do Francisco Saraiva de Sousa (2). Eu proponho que o conhecimento diz respeito* à adequação do modelo simbólico** àquilo que se quer conhecer. Para conhecer X temos que criar um modelo que descreva adequadamente X, e quanto mais adequado for o modelo melhor conhecemos X. Para isto precisamos de raciocínio, porque é preciso lidar com o modelo simbólico, e precisamos de observações (experiências, dirá talvez o Desidério) para que o modelo de X não acerte ou falhe só por sorte. Todo o conhecimento é uma conjunção destes dois aspectos.
A primeira objecção, a que o Desidério levantou, é que há frases cuja verdade é justificável por mais nada que o seu significado. «Nenhum casado é solteiro», por exemplo. E há outras que exigem algo mais, como «nenhum casado é feliz». Eu concordo com a distinção, mas em ambos os casos precisamos de conhecimento para decidir. Precisamos saber o que é solteiro, casado, feliz, ser, e assim por diante. E todo esse conhecimento é do mesmo tipo. Ser a priori ou a posteriori apenas caracteriza a frase conforme o seu significado é suficiente ou insuficiente para determinar a sua verdade. Mas isto não sugere que haja tipos diferentes de conhecimento. Afinal, o conhecimento do significado da frase é do mesmo tipo que qualquer outro conhecimento.
Outra objecção é a matemática. Uma demonstração matemática é uma sequência de passos que substituem expressões por expressões sinónimas. É tudo a priori, no sentido de que a expressão final é equivalente à inicial. E é evidente que a matemática nos dá conhecimento. O erro é pensar que a matemática é só isto.
Imaginem que um génio louco inventa um conjunto de símbolos e regras para os manipular. Dedica a vida a demonstrar complexas transformações, propriedades de famílias de sequências e combinações de regras duma complexidade mirabolante. Por si só, isto não é conhecimento. É tudo a priori, é tão complexo quanto quisermos, mas se não tem significado nenhum não é conhecimento.
É óbvio que a matemática não é assim. O “2” e o “+” e o “=” não são apenas símbolos mas têm significado. E esse significado depende de algo empírico. De contar coisas ou agrupar coisas em conjuntos ou de palavras que se referem a coisas e acontecimentos. A matemática é conhecimento porque é raciocínio e observação, senão era como o jogo do génio maluco. O conhecimento matemático é conhecimento porque é tão empírico como qualquer outro.
Este é um ponto importante, e recorrente, nesta discussão com o Desidério. No último post ele afirma «Por exemplo, não se consegue tornar verdade por estipulação que dois mais dois é sete. O que podemos tornar verdade por estipulação é que a palavra “sete” quer dizer quatro, e nesse caso dois mais dois é sete, mas isto é uma confusão entre linguagem e referência porque "sete" agora quer dizer quatro.»(2). Não é confusão nenhuma. É isso mesmo. Sem o aspecto empírico dos símbolos (o seu significado) não há conhecimento. Nem sequer verdade no sentido que interessa.
Em suma, estes dois aspectos, a observação e a manipulação dos símbolos e conceitos, são indissociáveis no conhecimento. São aspectos diferentes e podemos distinguir exemplos de um e de outro, mas não há dois tipos de conhecimento porque não há conhecimento sem a conjugação de ambos.
* Este “diz respeito” é propositadamente vago. Podemos discutir se o conhecimento é o modelo adequado, se é a adequação do modelo ou se é a informação que nos permite tornar o modelo adequado. Por enquanto não me interessa esmiuçar isto porque, para este efeito, tanto faz.
** Simbólico porque estamos a falar apenas daquele conhecimento explícito que codificamos em palavras, equações, etc. Não estou a falar de saber digerir uma maçã ou saltar à corda. Peço desculpa pelas notas de rodapé, mas na filosofia um tipo tem que ter muito cuidado com o que diz.
1- Desidério Murcho, 5-1-08, Linguagem e a priori
2- A priori, só depois...