terça-feira, janeiro 15, 2008

Como a cerveja criou a Europa.

No Diário de Notícias de ontem, João César das Neves explica como a cerveja «gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico no Ocidente.»(1) De facto, como se pode ver na imagem abaixo, o consumo de cerveja é maior nos países influenciados pelos ideais Europeus de democracia, livre comércio e respeito pelas liberdades individuais (2):

Image:Map of world by beer consumption.png

Como aponta César das Neves, «seria muito estranho não existir uma relação estreita entre esta origem e aqueles efeitos», pelo que é evidente que tudo isto se deve à cerveja. Bem, César das Neves não diz exactamente «cerveja». Ele prefere o termo «igreja». Mas o argumento é o mesmo. É partir de uma correlação e inferir uma relação causal. Até tem um nome em latim e tudo, de tão famosa que é a falácia. Post hoc, ergo propter hoc. César das Neves acrescenta:

«Os avanços conseguidos na chamada Idade das Trevas são impressionantes, todos dirigidos a melhorar a vida concreta (op. cit. c. II): ferraduras, arado, óculos, aquacultura, afolhamento trienal, chaminé, relógio, carrinho de mão, etc. A notação musical, arquitectura gótica, tintas a óleo, soneto, universidade, além das bases da ciência, a separação Igreja-Estado e a liberdade dos escravos (c. III) são também criações medievais. Em todos estes avanços, e muitos outros, têm papel decisivo mosteiros, conventos e escolas da catedral, bem como a confiança da teologia cristã no progresso, contrária à de outras culturas.»(1)

As bases da ciência e a separação de Estado e Igreja datam dos Gregos, pelo menos. Os avanços tecnológicos não têm muito a ver com a Igreja Católica. O primeiro relógio mecânico de que há registo foi oferecido a Carlos Magno pelo califa de Bagdade, Harun al-Rashid (3). Há imagens de carrinhos de mão em murais do século II na China (4). Quanto às coisas que foram mesmo inventadas na idade média, tanto a Igreja como a cerveja tiveram o mesmo papel "decisivo". Estavam lá.

1- João César das Neves, Como a Igreja criou a Europa
2- Wikipedia, List of countries by beer consumption per capita
3- Wikipedia, Clock
4- Wikipedia, Wheelbarrow

26 comentários:

  1. Ludwig

    João César das Neves não afirma que o relógio foi inventado durante a Idade Média.

    Qualquer leitor do seu blogue que se dê ao trabalho de ler o artigo da wikipedia até ao fim dará razão ao João César das Neves.

    Claro que esse leitor não deverá ter um sentimento anti-religioso de tal modo exacerbado que o leve a recusar as evidências.... ;-)

    Já agora a sua tese sobre a cerveja não me parece muito forte. Há ali uns outliers e em termos históricos há países que consomem muita cerveja mas não foram exemplos de respeito pela liberdade... ;-)

    p.s. - as piscadelas de olho não são smileys. decidi humanizar o meu comentário. estou com uma pequena conjuntivite. nada de importante.

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  2. António,

    «João César das Neves não afirma que o relógio foi inventado durante a Idade Média.»

    Eu não domino a arte da exegése. Talvez por isso me tenha parecido que é exactamente isso que ele diz:

    «Os avanços conseguidos na chamada Idade das Trevas são impressionantes, todos dirigidos a melhorar a vida concreta (op. cit. c. II): ferraduras, arado, óculos, aquacultura, afolhamento trienal, chaminé, relógio, carrinho de mão, etc.»

    Note que «Idade das Trevas» refere-se a um periodo da história da Europa, não incluindo a ásia, onde, aparentemente, o relógio foi inventado.

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  3. António Parente16/01/08, 10:40

    Ludwig

    Penso que interpretou mal o pensamento de João César das Neves.

    Eu li "avanço" e não li "invenção".

    Depois segui o seu link para a wikipedia e li-o até ao fim. Foi com base no item 1.3 que divergi nas conclusões que tirei. Por uma questão de gestão do tempo disponível não prestei atenção ao carrinho de mão.

    A tese de João César das Neves não é que a Igreja, ou o Cristianismo, iventou tudo. Procurou rebater a ideia divulgada de que a Igreja teria impedido o "progesso", a "criatividade", etc. Estou de acordo com elè: é um mito.

    Nos últimos 100 anos tivémos o maior progresso técnico e científico da história da humanidade mas nada nos garante que daqui a 2 mil anos os nossos descendentes se riam de nós e escrevem que esta foi a idade das "trevas"...

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  4. Paulo Sustelo16/01/08, 11:09

    Este post fez-me lembrar uma história contada vezes sem conta em cursos de estatística e probabilidades:

    "Em uma pequena cidade portuária na Inglaterra foi constatada uma forte correlação entre a chegada das cegonhas, que construíam seus ninhos sobre as casas, e o aumento na taxa de nascimento de bebés. Durante mais de três anos foi contado, por estudantes de graduação de um curso de biologia, o número de ninhos ao longo do ano e verificou-se que, através de comparação com o registo de nascimento da cidade, nos meses em que se observava o aumento de ninhos também se verificava o aumento no número de bebés. A conclusão de tal estudo foi que as cegonhas obviamente não estavam trazendo as crianças ao mundo, mas INDUZIAM INEXPLICAVELMENTE a taxa de nascimento da cidade."

    Há que fazer chegar, urgentemente, esta mensagem ao Sr. Presidente da Republica !!!

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  5. Ludwig

    Só encontraste esta falha no artigo? Estou desanimada contigo!

    Bem, religião por religião então o islamismo seria uma boa opção pelo domínio da Matemática.

    Mas vamos por partes:

    "segundo a tese comum, a Igreja manteve o continente na obscuridade e miséria durante séculos [...]"

    Quem é que disse isto?

    "a Igreja Católica, vencendo o paganismo obscurantista e civilizando os bárbaros"

    Mmmm... a conversão forçada de civilizações conta?

    "todas as ditaduras exploram o povo para criar obras grandiosas à magnificência dos tiranos" (e depois faz uma série de considerações de grandes obras e tiranias)

    Então e a relativa tirania da igreja? E as grandes obras da igreja? Não vejo em que é que 50 estátuas de um César sejam menos arte que uma igreja toda rococó (ou uma actual, feita por um ateu empedrenido como Siza Vieira).

    Mas ainda se podia dar mais umas voltas a isto.

    Isto da influência da igreja na Europa e no mundo é real e não é muito discutível. Mas só por o subtítulo de um livro de um sociólogo ser "Como o Cristianismo gerou a liberdade, os direitos do homem, o capitalismo e o milagre económico no Ocidente"... não o torna verdade!

    Não sendo verdade todo este exagero, não é também verdade que a igreja seja responsável por todos os males do mundo e arredores. Mas há que pôr as coisas em perspectiva e analisá-las para além dos chavões e frases feitas.

    Por exemplo, a tortura foi (e não há como negá-lo) usada amplamente na Inquisição. Mas sempre foi usada como método de obter confissões em justiça. Ou seja, a tortura possivelmente terá resultado desse modo de pensar dessa mentalidade. QUem faz a igreja são os homens, e para os homens da altura, isso era mais que legítimo!

    O que nos leva... à guerra! A guerra foi sempre um grande motor de grandes desenvolvimentos tecnológicos. Podemos dizer então "como a guerra criou a Europa".

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  6. confundir correlação com causalidade é um erro básico inadmissível em qualquer aluno de 2o ou 3o ano, após uma cadeira de introdução à estatística. que um "professor universitário" de economia (as aspas são por demais necessárias!) o faça apenas nos diz sobre a mediocridade da capacidade académica de tal personagem. e ainda aparece a falar de economia na televisão?? (sigh)

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  7. Agora, um comentário completamente a despropósito:

    Ludwig, tem Tv Cabo? Se tem, vai adorar um canal que eles para lá têm na grelha. É um mimo no que diz respeito a tretas, 24h non stop de balelas. Chama-se "infinito". É doloroso ver um dos programas que lá passam até ao fim, mas aconselho a que experimente. Até o César das Neves lhe parecerá um tipo razoável...

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  8. Caro j.h.

    Tenho TV Cabo, e já tentei ver esse canal. Não consigo. Talvez com o tempo vá ganhando resistências, mas neste momento aquilo é asneira demais para mim. Por enquanto o máximo que aguento é o Gigashopping...

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  9. Nunca percebi qual a capacidade que um cidadão que passa os dias e as noites debaixo de terra a provocar estalidos com os dedos e a fazer faísca com um isqueiro a gasóleo meio gasto, gritando cheio de emoção "big bang! big bang!", tem para avaliar a competência científica de um professor universitário de economia (ou de qualquer outra matéria universitária, whatever).

    Mistérios que a ciência um dia desvendará.

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  10. Bom, se o meu comentário veio a despropósito, então este último...

    A "competência científica" de César das Neves, na sua área, não foi aqui, a meu ver, posta em causa. Por outro lado, professores universitários, independentemente da área ou experiência, não são imunes à crítica, venha ela de onde vier.

    Adicionalmente, não me parece que o artigo de *opinião* de César das Neves venha revestido de qualquer espécie de autoridade científica. Neste caso essa opinião peca pela falta de rigor e pelo tipo de bairrismo que já reconhecemos como característica de JCN.

    E já agora, o cidadão a que se refere, é quem?(/cusquice)

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  11. «Os avanços [...] relógio [...]»

    E quanto é que a Igreja avançou o relógio? Uma hora? :-)

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  12. Não gosto de ver a cerveja assim posta de lado, é muito mais importanto do que as pessoas pensam. Os que sofrem de pedras nos rins se bebessem cerveja ficariam milagrosamente curados :)

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  13. "avaliar a competência científica de um professor universitário de economia"

    É Pá, já não lia nada tão anedótico à ANOS!!!!!!

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  14. António Parente17/01/08, 00:27

    Cláudio

    Tem um apelido girissimo. Há mais de 20 anos que não vi um assim. Parabéns.

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  15. Jh, Cláudio,
    o AP sofre de uma variedade rara do Síndroma de Tourette em prosa, para além de outros desequilíbrios de foro mental. Lamentavelmente, em vez de recorrer a ajuda profissional, decidiu que este blogue lhe pode oferecer a terapia necessária. É um erro, como mostra o facto do seu estado ter vindo a deterior-se rapidamente. Por isso, proponho que só lhe responda quem tem qualificações ligadas à pisquiatria (e uma camisa-de-forças, pelo sim pelo não), não vá este blogue, de resto útil e interessante receber, o rótulo «perigo de vida para quem não pensa e sente raiva a quem o faz» da ASAE, ou coisa assim.
    Cristy

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  16. Chamam-me AP17/01/08, 09:06

    Cristy

    Assim vou apaixonar-me... ;-)

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  17. António Parente17/01/08, 09:21

    Cristy

    Brinquei consigo algumas vezes mas depois de ler o que escreveu fico bastante assustado. Nunca pensei que provocasse tanto impacto. Não é normal uma agressividade desse calibre para com alguém que não se conhece. Extravasa tudo o que é racional. Bem me dizia o meu instinto que não devia responder às suas provocações.

    Tenha calma. Respire fundo. Isto é a caixa de comentários de um blogue. Há mais vida quando desligamos o computador. Pense nisso.

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  18. Olá AP. Tem razão, há mais vida quando desligamos o computador. Aproveite para tomar umas cervejinhas.
    Karin

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  19. Duas notas rápidas, que o tempo hoje não dá para mais:

    «É partir de uma correlação e inferir uma relação causal. Até tem um nome em latim e tudo, de tão famosa que é a falácia. Post hoc, ergo propter hoc.»

    Sim, mas só há correlação? Não há causalidade? Se a Igreja Católica fundou a Universidade na Idade Média, eu vejo aí uma pontinha, já para ser modesto, de causalidade... Se a Igreja, sobretudo a partir de São Tomás de Aquino, impôs a distinção nítida entre Filosofia e Teologia (como curiosamente relembrou o Papa no seu discurso censurado por certos professores e alunos intolerantes da "La Sapienza"), ela fundou, causalmente, os tempos modernos nos quais a procura da verdade por métodos racionais se tornou autónoma de qualquer autoridade, civil ou religiosa. Foi a própria Igreja que fomentou, com a visão clara do tomismo, essa independência.

    Por isso, será só correlação, Ludwig?

    Para terminar, volto a citar a sua frase muito importante e instrutiva:

    « É partir de uma correlação e inferir uma relação causal. Até tem um nome em latim e tudo, de tão famosa que é a falácia. Post hoc, ergo propter hoc.»

    Certíssimo, meu caro!
    Não se aplicará isto, nem que seja um mísero bocadinho, ao facto de se deduzir a macro-evolução a partir das correlações genéticas entre os seres vivos?

    Um abraço

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  20. Do ponto de vista historiográfico, as primeiras universidades - ou instituições de ensino superior - foram fundadas (pasme-se) na Antiguidade: por exemplo o Museon de Ptolemeus Philadeplphus em Alexandria (280 aC) ou a Escola de Filosofia de Atenas (patrocinada pelo imperador Adriano) e por aí diante, e tiveram muito pouco a ver com a igreja católica ou de outra espécie qualquer. E já não falo das Medrassas islâmicas, para evitar ataques cardíacos a alguns dos visitantes mais fundamentalistas do blogue. Ou das academias judaicas na Mesopotamia, como Pumbadita e Sura quando a Europa estava a ser invadida pelos "bárbaros" cono lhes chama o outro.
    De resto, se o único problema do DN fosse o das Neves (não o abominável homem, o da Opus Dei), o DN podia dar-se por feliz.
    Cristy

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  21. "Não se aplicará isto, nem que seja um mísero bocadinho, ao facto de se deduzir a macro-evolução a partir das correlações genéticas entre os seres vivos?"

    A micro-evolução, amplamente observada, pode ter também um "bocadinho" influência na dedução mencionada. O que é, digo eu, mais convincente do que o exposto acerca da origem da Universidade. Não nego a veracidade do que é afirmado, nego é que a Igreja seja responsável pelo que a Universidade se tornou. Pois, na sua origem, há de se lembrar que aquilo que nela era estudado pouco ia além da teologia e do direito canónico e romano.

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  22. chamam-me ap17/01/08, 19:04

    Teologia, medicina e direito, era o que existia naquele tempo.

    Também se estudava o que se designava como o trivium (gramática, retórica e lógica) e o quadrivium ( aritmética, geometria, música e astronomia).

    Quando o Bernardo refere a fundação da Universidade, na acepção moderna da palavra, fala na Europa, obviamente.

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  23. Obrigado pelos vossos comentários.
    Um rápido esclarecimento: quando falo em Universidade, falo naturalmente no modelo europeu, nascido na Idade Média e que ainda vigora.

    Há que ter cuidado, pois não é o mesmo que uma Madrassa ou que uma Academia (em sentido grego).

    Na primeira, seria mais adequado vê-la como um local de estudo corânico. Não há grande espaço para o debate ou para a especulação filosófica ou teológica.

    Na última, a Academia (dita de Platão), na qual leccionou Aristóteles, era um espaço de aprendizagem num certo formato pré-estabelecido, muito "magister dixit", e não havia a tradição de debater abertamente as questões ali leccionadas. A tradição mostra-nos um Sócrates dialogando com os seus discípulos, mas não tomemos isso como modelo de funcionamento da Academia.

    Outra coisa diferente, mas já na Idade Média, é o fenómeno verificado, por exemplo, no Cairo, onde a Al-Azhar se torna célebre como local de confronto, em pleno Islão, da tradição corânica com a tradição filosófica neoplatónica e aristotélica.

    Outra coisa completamente diferente é a tradição universitária europeia, que nasce com base na Universidade escolástica medieval, mas ganha, sobretudo a partir de São Tomás de Aquino, o cariz único de ser um lugar onde o saber TOTAL é debatido e discutido. Não só entre pares, mas também com a participação dos alunos. Não só em Filosofia, em Medicina ou em Teologia, mas entre todas as áreas do saber humano.

    Este é o modelo que potenciou a ciência moderna e a Universidade como a conhecemos hoje.

    Sem as "quaestiones disputatae", introduzidas como paradigma do debate intelectual universitário, não haveria Universidade como a conhecemos hoje.

    Sem também a nítida necessidade de um confronto das ideias abstractas com a realidade empírica, também não haveria Universidade como a conhecemos hoje.

    São Tomás foi um revolucionário: "nada está no intelecto que não esteja primeiro nos sentidos". Esta frase é sua, e é de um espantoso realismo e empirismo.

    Também não podemos esquecer aquele momento, raro no feitio pacato de São Tomás, quando ele perde a paciência com Sigério de Brabante, o escolástico que propunha duas verdades que se poderiam contradizer, uma verdade da Natureza e uma verdade da Fé.

    São Tomás, perante esse erro monstruoso, essa clara ameaça à verdade e à razão, essa afronta ao bom senso, fez a sua derradeira e gloriosa batalha intelectual, para refutar a afirmação chocante de Sigério.

    Hoje, temos ainda os nossos Sigérios, como por exemplo, o Stephen Jay Gould, que defende o conceito "NOM", dos "non-overlapping magisteria".

    Estamos a perder o contacto com a sede de verdade que estava viva em São Tomás, que fez germinar a Universidade, e que deu origem, pela primeira vez na Europa, ao debate de ideias por amor à verdade, fosse ela natural ou sobrenatural, e a uma visão integral e confiante do saber humano. Podíamos afirmar que o humanismo nasceu ali, não fosse o enorme esforço propagandístico para vender a Renascença como o momento de corte, quando se deveria saber que a Renascença não surgiu do vazio, mas sim da sólida tradição universitária medieval.

    Quem olha para a forma de debater de São Tomás não pode negar que é ali que está a raiz mesma do pensar e do agir universitário.

    Nesse sentido, São Tomás funda um modelo em corte radical com as "academias" antigas, fosse as de modelo religioso, como as islâmicas, fosse as de modelo filosófico, como as gregas da Antiguidade.

    Um abraço

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  24. Caro "j.h",

    «Pois, na sua origem, há de se lembrar que aquilo que nela era estudado pouco ia além da teologia e do direito canónico e romano.»

    Só pode afirmar isto quem nunca leu uma obra académica da altura. São Tomás, só para falar do expoente máximo, pode ser conhecido por ter escrito sobre os anjos (num pequeno trabalho intitulado "De Angelis"), mas basta fazer um estudo estatístico aos temas sobre os quais ele escreveu, para ver que caem, em enorme medida, na esfera da Filosofia e das Ciências Naturais. Isto não sucede à toa: São Tomás traz Aristóteles para dentro da Universidade cristã, fundando a Universidade como a conhecemos hoje.

    E, como se sabe, a obra colossal de Aristóteles (rejeitada até então por grande parte da corrente neoplatónica), não é «teologia e do direito canónico e romano». Aristóteles escreveu sobre tudo...
    E o que ele escreveu passou a ser ensinado, após São Tomás, nas universidades medievais.

    Cuidado com o preconceito...
    É melhor limitarmo-nos aos factos históricos.

    Um abraço

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  25. "e não havia a tradição de debater abertamente as questões ali leccionadas"
    isso também se aplica às universidades portuguesas antes do 25 de Abril. Terão sido menos universidades por isso? Não são os conteúdos que fazem a universidade, porque esses estão sujeitos aos condicionalismos dos seus tempos. A ideia de reunir um grupo de adultos para lhes transmitir conhecimentos e "treiná-los" para que ajudem a desenvolver a base de conhecimentos humanos foi igual em todo o lado. E até a discussão das propinas é antiga: Sócrates foi muito vilvificado por cobrar dinheiro aos seus estudantes. Quanto aos objectivos do ensino superior, nada mais moderno do que a primeira universidade de que reza a História: aí por volta de 2100 AC os egípcios criaram uma "escola" para qualificar funcionários públicos que depois entravam para o serviço do Estado.
    De resto, as universidades europeia começaram cedo a tentar a libertar-se da tutela da igreja, exactamente porque a reconheciam como um empecilho ao avanço da ciência. Com uma ajuda do Estado, logo na na Idade Média, pois cedo a igreja foi identificada como concorrente no poder político. Resultado: as universidades tornaram-se um microcosmo da "guerra" entre o poder laico e o poder religioso, e, essa sim, definiu a Europa.

    Cristy

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