segunda-feira, agosto 06, 2007

Muito grave...

N’O Insurgente, o Carlos Pinto insurgiu-se (1) contra a participação de crianças acompanhadas dos pais na Gay Parade de Amsterdão (2). Carlos Pinto comentou:

«A participação de crianças de 11 (!!) anos numa demonstração de cariz sexual seria crime em grande parte dos países ocidentais. Igualmente grave é assumir que uma criança de 11 anos tem já uma identidade sexual definida. Mas claro, isto sou eu que devo ser homofóbico.»

Não se percebe o que é uma «demonstração de cariz sexual». Havia muitos homens vestidos de mulher, mas se se chamasse «Carnaval de Torres Vedras» se calhar o Carlos já não se importava. Também não julgo que assumiram o que quer que seja acerca da «identidade sexual» destas crianças. Se as crianças querem dizer que são homossexuais e ir com os pais à manif, não vejo o problema. Não é por isso que vão passar a ser ou deixar de o ser. Um dos meus filhos, com seis anos, gosta de vestir uma camisola da mãe e fingir que é um vestido. Às vezes põe uma toalha na cabeça para parecer que tem cabelos compridos. Não é homo nem hetero. É criança.

Antigamente (mas nem tanto como isso) forçavam as crianças a escrever com a mão direita para as «curar» de ser canhoto, uma terrível doença. Não adiantava de nada. Nessas coisas nem há nada a fazer nem necessidade de o fazer. E a orientação sexual parece-me que é o mesmo. E esta manifestação, onde também participaram heterossexuais nesta manifestação, era principalmente um protesto contra a intolerância e agressões aos homossexuais. Acompanhar os pais numa manifestação destas contribui para a formação cívica da criança e não faz nada à sua sexualidade.

Mas concordo com a preocupação do Carlos Pinto. É infundada neste caso, porque uma manifestação por ano não vai ter grande efeito na criança. Mas preocupava-me se fosse todos os domingos. Se os pais convencessem os filhos que há um grande Gay no céu a vigiá-los constantemente. Se, do púlpito, um representante do omnipotente Gay ameaçasse com sofrimento eterno meninos e meninas que sequer sentissem atraídos pelo sexo oposto. Se todos os dias rezassem a este Gay, se todos à sua volta falassem Dele como se existisse. Aí concordava com o Carlos que isto era mau para as crianças. Não por fazer fosse o que fosse à sua orientação sexual, mas pelo sofrimento desnecessário que estes disparates lhes iriam causar por toda a vida.

Preocupava-me sobretudo se houvesse pressão para a criança ser desta ou daquela maneira. Penso que não é o caso na comunidade homossexual holandesa. Imaginem que a família chega a casa depois da manifestação gay e o filho diz à mãe que afinal até gosta de raparigas. Imaginem a reacção da mãe. Agora comparem com isto:


Video via Helder Sanches

1- Calos G. Pinto, 6-8-07, Isto é muito grave
2- M&C, 4-8-07, Amsterdam Gay Parade attracts record crowd

26 comentários:

  1. Carlos G. Pinto06/08/07, 13:18

    Dois equivocos:
    - Primeiro: as crianças não foram com os pais à manifestação. Os pais foram com as crianças. As crianças foram levadas à manifestação como homossexuais. Faz toda a diferença.
    - Segundo: uma parada gay é uma manifestação de cariz sexual. Aliás, toda a agenda gay é baseada nesse ponto: de que a única diferença entre eles e os heterossexuais é de cariz sexual. Daí que uma parada gay só pode ser qualificada como manifestação de cariz sexual.

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  2. Caro Carlos,

    Obrigado pelo comentário. Sugiro que no primeiro ponto concordemos simplesmente que as crianças e os seus pais foram juntos à manifestação. Sugiro-o pela dificuldade em determinar objectivamente se uns foram com os outros ou se, pelo contrário, foram os outros com os uns.

    Quanto ao segundo ponto, parece-me que o objectivo da parada gay não é salientar a diferença na orientação sexual mas afirmar a igualdade de direitos apesar dessa diferença. Sendo assim, eu diria que a parada gay é acima de tudo uma defesa de tudo o que torna os homossexuais cidadãos com os mesmos direitos que qualquer outro.

    Eu não considerava uma manifestação pelos direitos das mulheres uma manifestação de cariz sexual, apesar da diferença entre a mulher e o homem ser o sexo. Nem sequer consideraria uma manifestação pela educação sexual nas escolas uma manifestação de cariz sexual. Para mim uma manifestação de cariz sexual, no contexto de não permitir a presença de crianças, seria uma na qual os manifestantes praticassem o acto sexua. Ai já estava mais de acordo em deixar os miudos em casa.

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  3. Lembro-me de ter visto um documentário (uma série sobre sexualidade), onde falava sobre uma festa religiosa chinesa relacionada com sexo. Falos enormes serviam como andores e as mulheres faziam rituais a pêssegos, representando orgãos genitais femininos. Crianças assistiam o evento e lambuzavam chupa-chupas com formas de pénis. Aliás, cá em Portugal existe um lugar qualquer (não me recordo qual, mas deve ser no norte) onde uns bolos com formas de genitais tornaram-se populares.

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  4. Pedro,

    Porquê no Norte, carago? ;-)

    Ludwig,

    Se, realmente, as paradas gays fossem aquilo que tu dizes, concordava contigo. Mas, infelizmente ou talvez não, essas paradas são em grande parte pretexto para os exibicionismos baratos de alguns gays de estimação.
    Nada contra os gays, tudo contra os exibicionistas.
    Não me parece essencial que para a educação contra a homofobia se tenha que levar as crianças a uma parada deste género. Faz-me lembrar aquela mentalidade de os pais levarem os filhos às prostitutas para fazerem deles uns homenzinhos!

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  5. Helder,

    Exibicionismo há no carnaval também. Não há nada de mal nisso.

    E também concordo que não se tem que levar as crianças. Não é obrigação.

    Discordo é que deva ser crime levar as crianças para uma coisa destas. Muito antes de criminalizarem isso deviam criminalizar levar as crianças à missa ou a catequese...

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  6. Sim, sobre esse último parágrafo estamos completamente de acordo. É preferível leva-las a beber um suminho ao Bairro Alto. A um bar de não fumadores, claro. ;-)

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  7. Leitor assíduo deste blog (que bem merece a recente classificação, dada não me lembro por quem - terá sido o Helder? -, de um dos melhores, nacionais ou internacionais), raras vezes sinto a necessidade de acrescentar uma necesariamente modesta contribuição ao muito do que por cá se diz. Hoje é uma dessas raras vezes.

    O Helder (cujas contribuições aprecio, e cujo bar não me dispensarei de visitar um destes dias), comentou:

    "Se, realmente, as paradas gays fossem aquilo que tu dizes, concordava contigo. Mas, infelizmente ou talvez não, essas paradas são em grande parte pretexto para os exibicionismos baratos de alguns gays de estimação.
    Nada contra os gays, tudo contra os exibicionistas."

    Estou de acordo com a última frase, como é evidente. O exibicionismo é deplorável, mas porquê só no caso dos gays? Tenho o maior prazer em conviver com um casal homossexual que restringe o seu comportamento aos ditâmes da civilidade, e fujo a sete pés de um parzinho (hetero) que se comporta como se estivesse no seu quarto privado de hotel. E todos sabemos quantas vez essa fuga acaba mesmo por se impor.

    (Esta apresentação não está bem estruturada. Talvez devesse ter começado por referir que não sou, nem nunca fui, gay? Não me orgulho disso, não reprovo o oposto, e serei o primeiro a passar para o outro lado, no dia em que sentir em mim essa orientação sexual. Até agora, gosto muito de mulheres, e não me interesso por homens, mas isso é tão meritório como ter ou não o nariz grande. Acontece, mas macacos me mordam se tal coisa vale uma medalha).

    Isto dito, talvez valha a pena fazer um esforço para ultrapassar a repugnância que o tal "exibicionismo barato" me provoca, tal como provoca ao Helder, e lembrar-me que esses gays não estão em igualdade de circusntâncias comigo. Eu estou na mó de cima, eles na de baixo. A heterossexualidade continua a ser louvada, a homossexualidade apenas começa a ser tolerada. Não se passou um século desde que pessoas, mesmo elementos eminentes da sociedade, eram condenadas a anos de trabalhos forçados, apenas pela sua orientação sexual "diferente". Recorreram ao reforço da diferença, como forma de pleitear o seu caso, e fazem-no de uma forma que me choca? É uma gaita, de facto, mas não serei eu quem tem maiores razões de queixa.

    Pode ser um preconceito da minha parte, mas frases como "não tenho nada contra os (gays/pretos/ciganos/pescadores de alforrecas), desde que...", chocam-me sempre. Este mundo está cheio de gente que não tem nada contra mim, e não se importaria de o declarar alto e bom som, sem acrescentar nenhum "desde que..." no fim. Eu não tenho nada contra os gays, e pronto. Objecto, caso o comportamento de um deles me incomode, mas isso é a minha atitude normal, já que, por puro egoismo, não gosto de ser incomodado. Mas isso aplica-se a um gay, um milionário, ou o Marquês de Pombal. No universo das pessoas que se incomodam com as paradas gay, vejo muito pouca gente incomodada com o senhor Zéze Camarinha, personagem sobremaneira objectável. E nunca vi os que o aceitam condicionarem, "...desde que".

    Quanto às crianças, estou de acordo com todos vós, pois penso que todos sustentamos o pricípio basilar que é defender as crianças, já que elas não podem defender-se sozinhas. Concordo evidentemente com o Ludwig, a catequese é bem mais grave do que as paradas gay, mas isso não significa que uma delas seja desejável. Mas isso são contos mais largos, e o post já vai extenso.

    Só para acabar, Helder, um dia ainda nos havemos de pegar, por causa da piadinha do bar de não fumadores, e bem sei que nesse dia terei dois pesos pesados contra mim. Mas, como dizia Abraracourcix, c'est pas demain la veille. Até lá, um abraço amigo.

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  8. Nuno Coelho,

    A minha posição em relação aos exibicionistas não tem nada a ver com o facto de eles serem gays.

    Não me parece que seja com paradas gays que se consigam alterar as mentalidades. Da mesma forma que nunca me verás numa concentração ateísta à porta do episcopado.

    Não tenho mesmo nada contra os gays. Nem coloco nenhum "...desde que" em relação a eles que não coloque em relação a qualquer outro grupo. Tem tudo a ver com o que no meu entender deve ser público ou da esfera privada.

    Dou-te um exemplo: mais que uma vez estiveram casais gays lá no bar a beijarem-se nas mesas e nunca me passou pela cabeça tomar qualquer atitude em relação a isso. No entanto, já diversas vezes tive que ir às casas de banho "interromper" casais hetero! Porra, então este pessoal vem para as casas de banho dos bares do BA dar uma rapidinha? Não há pachorra!

    O prblema não seres hetero, gay, bi ou virgem; o problema é o que fazes com a tua opção.

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  9. Nuno Coelho,

    Obrigado pelo comentário, e estou 100% de acordo com isso do Zéze Camarinho.

    Quanto ás crianças na parada, penso que depende das circunstâncias. Pelo que lí na notícia, esta parada foi em parte um protesto contra agressões recentes aos homossexuais. Uma criança de 11 anos pode já ter uma noção que isso é algo contra o qual se deve protestar.

    Finalmente, deixo aqui dois links para o YouTube, um do Zéze Camarinha e o famoso barulho das luzes, e outro de um ilustre desconhecido que também penso devia ser proibido por lei de falar em público :)

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  10. Como o Helder diz, não é só no caso dos homosexuais que o exibicionismo é ridiculo e reprovável. É reprovável e mais nada. Quantas e quantas vezes vou ao Disorder, curtir o meu somzinho e deparo com aberrações que parecem saidas de um filme S&M, ou vestidos como se fossem para o "ataque" tanto hetero como homo.
    Aquelas figuras são deploráveis seja em que contexto for, seja qual for a sexualidade deles(as).
    Aquilo não deve ser exibido a criança nenhuma, para além de não haver forma de explicar tal aberração a uma criança!

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  11. O "ilustre desconhecido" que o Ludwig refere, parece ser o mesmo que foi aos ídolos, aqui.

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  12. António,

    Não acho o exibicionismo difícil de explicar a uma criança. Afinal, mesmo de tenra idade sabem o que é um palhaço.

    O difícil é explicar a circuncisão, ou porque é que pregaram o senhor à cruz, ou até o baptizado...

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  13. Conhecem alguém nesta paragem? 1

    «Porquê no Norte, carago? ;-)»
    (Helder obrigado pelo comentário no blog :) )
    Os tais bolos são típicos em Guimarães, e chamam-se sardões (com forma fálica) e as passarinhas. Antes os rapazes ofereciam os sardões às raparigas, e se essas estivessem interessadas num namoro sério, retribuiam com uma passarinha.
    Para encontrar essa informação, procurei por "doçaria bolos portuguesas com formas sexuais" no Google e depois por "Sardões Passarinhas guimarães".


    E vejam uma das maravilhas que há na América:
    1
    2
    3
    4

    (2 deve ser consequência de 1, o é irónico)

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  14. Ludwig,

    Para os putos um palhaço é uma coisa excelente. Por isso até que vejam o "It" do Stephen King, terei de arranjar outra coisa. :-)

    Aqueles ridiculos são o que faz com que algumas almas menos informadas se deixem influenciar e se tornem preconceituosas. O que é que a generalidade das pessoas que aparecem nas "gay parades" é senão gente normal que não dão nas vistas no dia a dia? Só que basta aparecer um freak para deixar a marca sobre um grupo inteiro...

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  15. Será o exibicionismo sempre assim tão deplorável? Não dependerá isto daquilo que quero exprimir, do interlocutor a quem quero chegar, e da eficácia da mensagem?

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  16. Estou com o José Luís Sarmento nisto: por si aquilo a que chamam "exibicionismo" (homo ou hetero) pode não ter mal nenhum a não ser aquele que tiver na cabeça de quem vê, e muitas vezes por puritanismo puro e duro.

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  17. Admito que a interpretação é subjectiva, e pode ser errada. Mas por exibicionismo eu queria dizer aquilo que alguém faz só para chamar a atenção.

    Não é um homem vestido de mulher porque se sente melhor assim. Esse provavelmente até passa despercebido. É alguém que insiste que olhem para si, seja o Zéze Camarinha ou o José Castelo Branco.

    Mas admito que se for um exibicionismo que me agrade sou muito mais tolerante :)

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  18. O José Luis Sarmento tem razão, mas, temos de enquadrar aqui o contexto... Uma coisa é alguém ser exibicionista por ser bom em algo, e demonstrar abertamente, outra coisa é a questão particular de alguns exibicionismos. Vejam o Video que o Pedro Amaral Couto indicou, e de entre todos os exeibicionismos lá patentes adivinhem quais é que estou a referir-me. :-)

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  19. bem, a conversa aqui parece muito mais estimulante que no insurgente...
    Ainda sobre o exibicionismo do josé castelo branco eu acho que deve agradar a alguns, senão não vendia tantas revistas. E ele por exemplo tem um filho, há-de ter sido criado sempre com aquele modelo de pai. Que diferença lhe faria ir a uma parada gay?

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  20. O maninho diz
    "Mas por exibicionismo eu queria dizer aquilo que alguém faz só para chamar a atenção."

    Ninguém faz nada só para chamar a atenção.

    Chama-se a atenção para colher daí proveitos, seja através de paradas, blogues ou doutoramentos.
    ;)

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  21. Daí a subjectividade...

    O tipo vai nu debaixo da gabardine. Abre a gabardine a frente dela. Se ela lhe dá um estalo, ele é exibicionista. Se o convida para sair, é engatatão.

    Mas confesso que por este critério a maior parte do que faço é exibicionismo :)

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  22. «O tipo vai nu debaixo da gabardine. Abre a gabardine a frente dela. Se ela lhe dá um estalo, ele é exibicionista. Se o convida para sair, é engatatão.»

    Sinceramente duvido que na nossa sociedade esta estratégia funcione muitas vezes...

    E se achas que estou errado, isso pode explicar alguns estalos :p


    Brincadeiras à parte, acho que tens razão nisto. O exibicionismo está relacionado com as respostas sociais (subjectivas) ao comportamento e não só ao comportamento em si.

    Neste sentido, acho que muitos comportamentos que não fazem mal a ninguém são muito penalizados na nossa sociedade, que ainda é cheia de pudores sem sentido.

    Sinceramente, acho que se as pessoas se preocupassem mais com as coisas realmente más, que nos prejudicam a todos - que passando pelas guerras, misérias, mentiras, poluição, etc... ainda são bastantes - e menos em ser púdicas ou críticas face a comportamentos inóquos, ao cumprimento da etiqueta e essas tretas rituais, estaríamos todos melhor.

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  23. E porque não introduzir ainda outro critério? Se a intenção é comunicar, tudo bem. Se a intenção é agredir (como no caso de um adolescente que entra na carruagem do metro com o rádio a tocar rap aos berros e se recusa a pôr os headphones), tudo mal.

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  24. «um adolescente que entra na carruagem do metro com o rádio a tocar rap aos berros e se recusa a pôr os headphones» pode ser bastante incómodo. Por muito que possamos olhar para outro lado, não temos a opção de não ouvir apenas esse som.

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  25. Tenho que concordar com a análise feita neste post. Na verdade, porque é que ninguém se indigna com as lavagens cerebrais que fazem às crianças sobre messias, aparições e coisas afins?

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