quinta-feira, novembro 20, 2008

Monty Python reagem contra a pirataria.

Os Monty Python não querem que os fãs ponham clips dos seus filmes e séries no YouTube para todos verem à borla. Por isso vão tomar medidas drásticas e acabar com essa pirataria das suas obras.



Porque são tipos inteligentes compreendem que a Internet não é uma rede de revenda mas uma forma de comunicação entre pessoas, tão adequada à censura para fins comerciais como o telefone ou as cartas. E porque, excepcionalmente, neste caso são os artistas que controlam os direitos sobre as suas obras, os Monty Python têm a liberdade de se aproveitar disso. Pôr os clips no YouTube é pôr milhões de pessoas a falar deles, a mostrar aos amigos e a descobrir e interessar-se pelos Monty Python. Não são vendas que perdem. São fãs que ganham.

The Monty Python Channel on YouTube

Via The Pirate's Dilemma.

Editado às 11:00:

Também via The Pirate's Dilemma, este aviso no DVD do filme Futurama: Bender's Game.

quarta-feira, novembro 19, 2008

Tolerância Religiosa

O debate de segunda feira com o Alfredo Dinis, na Escola Secundária de Oliveira do Bairro, foi um pouco curto. Tivemos que respeitar os horários da escola e houve primeiro uma apresentação preparada por alguns alunos, pelo que o tempo não deu para tudo. Mas valeu a pena. O auditório estava cheio e a encenação dos alunos mostrou que tiveram cuidado em pesquisar várias religiões e ilustrou a importância desse conhecimento para a tolerância religiosa. Quanto mais cedo se aprende que a religião dos pais é apenas uma entre muitas mais fácil é ser tolerante para com os crentes das outras.

No debate em si, o Alfredo criticou como intolerância aquilo a que chamou de “fundamentalismo ateu”, referindo-se a escrever livros que dizem mal da religião. Não sendo tendencioso, repudiou também o extremismo religioso como atentados à bomba e a tortura de pessoas durante a Inquisição. Eu salientei a diferença qualitativa entre exprimir opiniões e fazer mal às pessoas e defendi que a tolerância é a defesa das liberdades individuais e não o direito de exigir que não se diga mal das coisas que gostamos.

Este é um problema recorrente aqui no blog, onde de vez em quando me chamam intolerante por dizer o que penso. Sempre me pareceu estranho. Exprimir uma opinião, seja em tom neutro ou ofensivo, com ironia, humor ou condescendência, é no máximo um teste à tolerância. Mas nunca pode ser intolerante por si. Intolerante é aquele que se refugia num beiço de ofendido por não ter resposta, reclamando que certas coisas não se dizem. Decidir o que os outros podem ou não podem dizer é que é intolerância.

Mas concordo com o que o Alfredo apontou, que os ateus muitas vezes ridicularizam e caricaturam as religiões, fazendo-as parecer superstições irracionais. Os religiosos raramente tentam fazer isto do ateísmo, pelo menos intencionalmente. Mas há uma razão. É que a maioria das crenças de qualquer religião é mesmo um monte de superstições irracionais. E ridículas. Quando um padre afirma convicto que Maria era virgem está a defender uma hipótese ginecológica que é tão infundada quanto implausível. E baseando-se apenas no testemunho imputado aos amigos do filho que, em nome da decência, se espera não terem estado em posição para averiguar tal coisa. O critério do coração não justifica afirmar que a hóstia virou deus nem o espirito santo consegue mostrar que alguém tem alma. O apego a tais superstições fazem da religião um alvo ideal para a zombaria. Assumindo, é claro, que não se vai para a prisão por isso, que é o que acontece quando se deixa aos religiosos a definição de tolerância.

Obrigado ao Vítor Oliveira pelo convite e pela iniciativa, ao Alfredo Dinis por mais esta oportunidade para conversarmos, à directora e vice-directora da ESOB pela simpatia com que nos receberam e aos alunos do curso profissional de empregado de mesa pelo requinte com que nos serviram o almoço.

terça-feira, novembro 18, 2008

Parabéns

ao Mickey, que faz 80 anos. O mais notável é ainda estar coberto pelo copyright, que supostamente seria um incentivo temporário à criatividade e inovação com o objectivo último de enriquecer o domínio público com obras e ideias que todos pudessem usar.

Parabéns também ao Pirate Bay, que esta semana ultrapassou os 25 milhões de utilizadores simultâneos dos seus trackers de BitTorrent. Há assim esperança que faça pouca diferença mesmo que “protejam” o Mickey durante mais oitenta anos.

Wikipedia, Copyright Term Extension Act

domingo, novembro 16, 2008

Treta da Semana: Centro de Deduções Lógicas.

O Sinn-Klyss, que copiou para aqui um texto esotérico (1) indica no seu perfil no Blogger que a sua ocupação é “Instrutor de Lógica Nuclear” (2). Tentando saber mais sobre esta profissão acabei, via Google, no Centro de Deduções Lógicas do Geraldo Antunes Cacique. Fascinante. O Geraldo formou-se em Engenharia Civil em 1963 e dedicou a sua carreira a projectos de construção até 1998, quando «por não concordar com um artigo sobre aceleração da expansão do Universo, começou trabalhar nas várias questões que tratou como A Dinâmica do Universo, ou seja, tudo o que ocorreu após o Big Bang.»(3) Um projecto ambicioso que teria beneficiado de alguns conhecimentos de física que, infelizmente, se destacaram pela sua ausência.

O Geraldo Cacique dedica várias das suas deduções lógicas a argumentar a favor da força centrífuga, que ele considera injustamente desprezada pela ciência. Critica os físicos que a interpretam erradamente como uma força fictícia que se tem que considerar em referenciais rotativos, expondo com clareza que não sabe o que é um referencial rotativo. Dica para o Geraldo: se o carro está a dar uma curva então está num referencial que não está a dar essa curva porque em relação a esse o carro estaria parado (4).

Mas mais notável é a contribuição do Geraldo para a relatividade geral e cosmologia. Por exemplo, o « O Efeito Cristina ou a instantaneidade da luz nos proporciona a mágica de enxergarmos todo o nosso Universo Visível nas posições reais em que os seus astros ocupam no momento em que os observamos, como se os fótons tivessem a capacidade de se mover de maneira instantânea.» (5) Ou o Efeito Camila, «a propriedade da luz que nos permite formar triângulos retângulos virtuais no movimento relativo v, entre uma fonte de luz e um receptor dessa luz, desde que conheçamos o módulo v dessa velocidade e as posições da fonte e do receptor da luz.»(6) A relevância deste efeito não se restringe à Camila mas abrange toda a física, a julgar pelo que explica o Geraldo:

« Os físicos, por não conhecerem o funcionamento da luz nem o Efeito Camila, para explicar a Relatividade pensam em dilatação do tempo e contração do espaço, acabando sem explicar de uma maneira simples o que é Relatividade.»

O Centro de Deduções Lógicas é um site rico em surpresas, entre as quais a de ter quase tudo menos o que o título sugere.

1- Ciência, especulação e colecção de cromos.
2- Sinn-klyss - Expressão de Uma Mentalidade
3- Centro de Deduções Lógicas, Biografia de Geraldo Antunes Cacique
4- Centro de Deduções Lógicas, O que é força centrífuga e o seu funcionamento
5- Centro de Deduções Lógicas, Efeito Cristina ou Instantaneidade da Luz
6- Centro de Deduções Lógicas, O Efeito Camila

sábado, novembro 15, 2008

Porque importa.

Se escrevo 2+2=5 ou compro o selo do carro fora do prazo violo regras. Mas se pago a multa e o erro algébrico é inofensivo não cometo qualquer imoralidade. Matar alguém é diferente. Mesmo que me entregue à polícia, cumpra a minha pena e acerte as contas com a justiça o meu acto terá sido imoral. Porque este importa enquanto os outros não. Seja o que for a moralidade, o primeiro requisito é que tem que ser algo que importa.

Quando sugeri que a moral nasce de dar importância à subjectividade dos outros alguns leitores sugeriram alternativas. O João propôs a consistência, o José Sarmento os contratos e o Pedro Ferreira as leis, por exemplo (1). Mas nada nestas coisas obriga a que nos importemos com elas. Se não lhes dermos valor moral, leis, contratos e o que mais calhe serão como contas de somar ou o selo do carro. Moralmente irrelevantes. Por isso defendo que um ser é agente moral quando lhe importa a subjectividade daqueles a quem os seus actos afectam e só daqui se pode derivar o valor moral de leis, contratos e afins. Estes são produtos da moral e não a sua origem. A origem da moral é a preocupação com os outros.

Um erro do Ricardo Alves é fundamentar a moral na regra que «Temos deveres perante quem respeita os nossos direitos. Quem os desrespeita perde o respeito.» (2) Qualquer relevância que esta regra tiver deriva da moral e, por isso, não pode justificar a moral. É a moral que tem que justificar a regra. E a regra de só nos preocuparmos com quem se preocupa connosco parece contrária à preocupação que fundamenta a moral.

O outro erro é assumir que um agente moral só se deve preocupar com outros agentes morais. A regra do Ricardo diz que não tenho de respeitar direitos de um bebé que chora e não me deixa dormir porque o bebé também não respeita os meus direitos. Mas o bebé não ser um agente moral não o exclui da preocupação que faz de mim um agente moral. Se eu sou um agente moral tenho de considerar a subjectividade dele mesmo que ele não possa preocupar-se com a minha.

E esta obrigação vai até onde chegar a minha capacidade de avaliar o efeito dos meus actos na subjectividade dos outros. Por exemplo, se eu souber que a fábrica que vou construir libertará poluentes que vão acumular-se e causar deformações a quem nascer daqui a umas décadas eu tenho que considerar essa consequência como moralmente relevante. Se a considerar irrelevante porque os afectados ainda não existem ou porque nascerão tarde demais para respeitar os meus direitos deixarei de ser um agente moral. Uma regra moral não pode excluir arbitrariamente certos sujeitos porque o fundamento da moral é precisamente a preocupação com os sujeitos e não, como o Ricardo parece sugerir, cada um coçar as costas apenas a quem coçar as suas.

Há muitas formas de idealizar, justificar e implementar normas morais, das consequências e utilitarismo ao imperativo categórico ou às virtudes. Mas toda a moral e todo o projecto da ética assentam na preocupação com a subjectividade dos outros. Sem isto é contas ou selo do carro. Excluir de consideração qualquer ser sensível só porque gostamos de bifes ou convém é contrário ao valor que fundamenta a moral: a importância da subjectividade dos outros.

1- Ter direitos.
2- Palavra de animal!

sexta-feira, novembro 14, 2008

O que eu quero este natal



Via The Erin O'Brien Owner's Manual for Human Beings. E aqui um pouco da história desta magnífica invenção.

Debate sobre tolerância religiosa.

Segunda feira, dia 17, vou estar na Escola Secundária de Oliveira do Bairro para um debate com o Alfredo Dinis. O tema é «Será que a tolerância religiosa faz sentido?» Penso que ambos estaremos de acordo que faz, mas possivelmente vamos discordar acerca de quem deve tolerar o quê.

Mais informações no blog QUALIA - a filosofia na esob. Obrigado ao Vítor João Oliveira pelo convite.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Miscelânea Criacionista: a arte de bem citar.

O Jónatas Machado tem defendido aqui a distinção entre “ciência operacional” e “ciência forense” que o Mats também propôs. Resumindo, o Jónatas alega que a «ciência operacional funciona a partir daquilo que é observável e repetível» enquanto que a «ciência forense tenta fazer a reconstrução histórica do passado não observável nem repetível.»(1) Mas o Jónatas diz que esta ideia vem de Ernst Mayr, um dos principais autores da síntese da teoria da evolução com a biologia molecular. O Jónatas cita este trecho de Mayr:

«Evolution is a historical process that cannot be proven by the same arguments and methods by which purely physical or functional phenomena can be documented.» (2)

Convenientemente, “esqueceu-se" de citar o que vinha imediatamente a seguir.

«Evolution as a whole, and the explanation of particular evolutionary events, must be inferred from observations. Such inferences subsequently must be tested again and again against new observations, and the original inference is either falsified or considerably strengthened when confirmed by all these tests. However, most inferences made by evolutionists have by now been tested successfully so often that they are accepted as certainties»

Permitam-me repetir esta parte, não só para frisar o contraste com o tal “não observável nem repetível” mas também para saborear o momento. Estas inferências têm que ser testadas. Uma vez, e outra, e outra. Contra dados novos que poderão refutar ou reforçar a hipótese. E isto foi feito tantas vezes com tantos elementos desta teoria que já podemos ter a certeza que é verdade e passar a outros problemas. Nesta fase só um grande corpo de evidências contraditórias justificaria duvidar da teoria da evolução. Um livrito não chega.

É certo que os argumentos e métodos não são exactamente os mesmos mas isso é trivial. Também a climatologia não usa os mesmos métodos que a sismologia ou a astronomia, mesmo quando tentam prever algo. O contributo de Mayr é mais subtil. Os sistemas aos quais aplicamos a teoria da evolução são tão complexos que os detalhes são dominados por contingências históricas e o melhor que podemos explicar são as tendências mais salientes. Só que isto não acontece só na biologia. Também acontece na física quando se estuda sistemas complexos, razão porque calculamos a pressão dos pneus e não a trajectória de cada molécula de gás. E quando aplicada a sistemas simples, por exemplo em simulações, a teoria da evolução reduz-se a modelos matemáticos simples e elegantes como acontece também com a física.

Como explica Mayr no excerto “inadvertidamente” omitido, o processo de formular hipóteses e testá-las confrontando-as com observações é exactamente o mesmo na biologia e no resto da ciência, contradizendo a distinção absurda entre "ciência operacional" e "ciência forense" que os criacionistas inventaram. Não se trata de especular acerca do inobservável e irrepetível. Trata-se sempre, em toda a ciência, de inferir explicações daquilo que observamos e de as testar «outra e outra vez contra dados novos».

Mas o mais importante, e a razão porque escrevo isto num post em vez de num comentário, é mostrar a arte da citação criacionista. São estes senhores que se arrogam ser os mais perfeitos interpretadores da bíblia.

1- Ciência, especulação e colecção de cromos.
2- Ernst Mayr, 2001, What Evolution Is. Basic Books, NY , pp 13-14

quarta-feira, novembro 12, 2008

Ciência, especulação e colecção de cromos.

O Mats ilustrou assim a alegada diferença entre “ciência operacional” e “ciência forense”:

«Chegamos a uma sala onde estão 4 pessoas. Uma delas tem uma arma na mão e 2 estão amarradas a uma cadeira, cada um na sua. Perto da janela aberta está uma pessoa morta. A ciência operacional, ao entrar em acção, haveria de observar exactamente isso (4 pessoas na sala, 2 delas amarradas, 1 com uma arma, e 1 morta). A ciência forense haveria de lançar hipóteses que melhor [explicassem] os factos.»(1)

Ou seja, a “ciência operacional” tira apontamentos e a “ciência forense” especula sobre o que terá acontecido. Nem como caricatura tem piada. Reunir dados e conceber modelos faz parte da mesma ciência. Bem como usar as previsões para testar os modelos, extrapolar para obter explicações e informação nova, gerar novas hipóteses, testá-las também e assim por diante. Acrescenta o Mats que «A ciência forense envolve a interpretação de factos actuais como forma de se chegar a posição mais correcta em relação a eventos passados». Talvez seja verdade para a “ciência forense” mas para a ciência não importa se é passado ou futuro. A física que diz onde Marte vai estar daqui a cem anos é a mesma que diz onde Marte esteve há cem anos atrás. A teoria da evolução explica a origem das baleias e a proliferação de bactérias resistentes aos antibióticos. Não são ciências operacionais nem forenses. São ciência.

Talvez seja por ignorância que os criacionistas tentem vender a ciência às postas, mas suspeito que seja também para disfarçar um problema embaraçoso. Apesar da criticarem a falibilidade da “ciência forense”, o que os criacionistas fazem não é mais que um coto de ciência. A posta do rabo. O criacionista especula acerca de «eventos passados», um deus que criou isto tudo em meia dúzia de dias, partindo de «factos actuais» como a história que leu num livro. E pronto, fica-se por aí. A ciência também especula mas considera alternativas, selecciona aquelas que explicam melhor os dados e geram modelos mais rigorosos, testa-as, melhora os modelos, revê premissas, dá uso ao que descobre. E não pára. Não sabemos qual será o conhecimento científico de amanhã mas será certamente maior e melhor que o de hoje. O criacionismo será o mesmo. Os mesmos longos comentários alegando que mutações não aumentam a informação.

Se os criacionistas apresentassem a ciência como ela é ficavam com a careca à mostra. Seria óbvio que aquilo que chamam “verdade revelada e infalível” é apenas o que a ciência descreve como “primeiro passo: formular uma hipótese”. E ficar entalado no primeiro passo não é o mesmo que chegar ao destino.

1- Mats, 5-11-08, Demarcação da Ciência: Invenção Criacionista?

segunda-feira, novembro 10, 2008

Ter direitos.

O Ricardo Alves argumentou que os animais não têm direitos porque «quem tem direitos, tem também a responsabilidade de respeitar nos outros os direitos que detém em si. E não vejo os animais (não humanos) a respeitarem os nossos direitos(!).»(1) O erro do Ricardo é pensar que um direito é algo que se detém como prémio por respeitar coisa igual nos outros. Mas ter direitos não é como ter nariz ou chapéu. É como ter dívidas. É estar num lado de uma relação assimétrica com outrem.

Por exemplo, podemos defender os direitos das gerações futuras. Isto não quer dizer que as gerações futuras “detêm” algo. Quer dizer que reconhecemos uma relação entre nós e quem vai nascer daqui a cem anos, relação essa que nos dá deveres para com eles. O dever de não destruir o ambiente, de não pescar o peixe todo, de não cobrir a Terra com sacos de plástico, etc. E isto não implica que quem vá nascer daqui a cem anos tenha deveres para connosco. Isso nem faz sentido.

É verdade que normalmente estas relações parecem simétricas. Ao meu dever de não pisar os outros utentes do autocarro corresponde um dever deles de não me pisar. Ou seja, o meu direito a não ser pisado. Mas esta simetria resulta da reciprocidade de relações assimétricas em que cada relação com o dever de um lado e o direito do outro acompanha uma relação análoga no sentido contrário.

Mas todos estes direitos e deveres derivam de reconhecermos a sensibilidade dos outros e de avaliarmos as consequências dos nossos actos. Eu reconheço o dever de não pisar o outro, e por isso o seu direito que eu não o pise, porque reconheço o sofrimento que isso lhe causa. Se o outro é uma pessoa adulta que não é autista nem psicopata deverá reconhecer uma relação análoga dando-lhe o mesmo dever e o mesmo direito a mim. Se não for capaz disso não retribuirá esta relação mas isso não me isenta do meu dever nem o priva do seu direito. Essa relação sou eu que a reconheço. E que devo reconhecer.

1- Ricardo Alves, Re: Os animais têm direitos?

domingo, novembro 09, 2008

Treta da Semana: trocar privacidade por segurança.

Muitos julgam que mais segurança implica menos privacidade, mas a segurança e a privacidade são interdependentes. Queremos segurança para proteger direitos como a privacidade. Não fecho a porta só por medo de ladrões ou terroristas mas também para tomar duche, ir à casa de banho ou conversar à vontade. Portas e fechaduras dão-me segurança e privacidade. A privacidade é até um meio de ter segurança. Guardo os valores fora da vista alheia, o dinheiro no bolso e não quero que os assaltantes saibam quando vou de férias. Quando tratamos nós da nossa segurança e privacidade não trocamos uma pela outra. Pelo contrário, cada uma contribui para garantir a outra.

E quando delegamos noutros a nossa segurança também não temos que ceder privacidade. Os fusíveis, os cintos de segurança, a licença de porte de arma e de venda de explosivos dão segurança sem tirar privacidade. Tal como ter polícia na rua ou esquadras suficientes para que intervenham rapidamente. Estas coisas custam dinheiro mas não nos custam direitos.

O problema é que os encarregados da nossa segurança vão querer fazer o seu trabalho da forma que lhes convém mais a eles, e não necessariamente a nós. Contratamos pessoas para apanhar criminosos como forma de reduzir o crime. Mas apanhar criminosos não coincide exactamente com o a eliminação do crime. Nós preferimos que o polícia na rua dissuada o criminoso mas o polícia progride na carreira quando apanha criminosos e não quando os crimes não ocorrem. O mesmo para quem passa multas de trânsito, fiscaliza restaurantes ou serve a nossa segurança de qualquer outra forma. Para nós, estas actividades devem servir o objectivo último de proteger os nossos direitos. Mas para cada profissional a sua tarefa é que é o objectivo, subordinando assim os fins ao meios. É por isso que não deve ser o polícia a decidir se pode pôr escutas nem a companhia de telefones a escolher que telefonemas regista. Ambos desempenham um papel importante ao serviço dos nossos direitos, mas ambos têm objectivos que diferem desse propósito.

A tecnologia facilita cada vez mais a violação da privacidade e os órgãos de segurança pressionam para reduzir as barreiras legais à recolha de informação. Isto não nos dá mais segurança. Dá menos. Mas ajuda a progredir na carreira. O registo de telefonemas e ligações de internet não detém terroristas nem reduz os assaltos. Muitos criminosos sabem usar telefones públicos. Mas a prevenção do crime tem menos prestígio que a apreensão de suspeitos. E é mais fácil prender quem copia ficheiros, faz telefonemas insultuosos ou tem blogs que criticam funcionários públicos do que patrulhar as ruas à noite. E então se for tudo com câmaras é que é supimpa.

Também muitos se esquecem que a privacidade não é só o que se esconde do olhar alheio. As compras na farmácia e supermercado, o trajecto de autocarro ou o almoço no restaurante são visíveis a quem lá esteja. Mas seguir alguém agregando esta informação é uma violação de privacidade. Para privar alguém deste direito basta a recolha e cruzamento de dados publicamente acessíveis. Por isso o artigo 35º da nossa constituição proíbe «a atribuição de um número nacional único aos cidadãos» e o parecer da CNPD sobre o cartão do cidadão refere que «a concentração da informação respeitante aos cidadãos [significa] uma restrição dos direitos fundamentais à privacidade e à protecção dos dados pessoais»(1).

A protecção legal da nossa privacidade está a enfraquecer porque a informação dá jeito a polícias, políticos e burocratas em geral. E a seguradoras, bancos e qualquer empresa. É fácil de recolher, barata de guardar e eventualmente será útil para todos. Menos para nós. Infelizmente, muitos não perceberam os riscos. Não estranham que o supermercado peça o nome e morada ou que a Netcabo pergunte as habilitações literárias e situação profissional. Publicam dados pessoais, vídeos e fotos da casa, carro e família e aprovam que se registe toda a sua vida para lhes dar mais segurança. Não dá. Esta informação só serve para saber da vida das pessoas e não para prevenir crimes relevantes. E até ajuda os criminosos.

No ataque de 11 de Setembro morreram 2800 pessoas. Todos os anos, nos EUA, dez milhões de pessoas sofrem de furto de identidade. Uma base de dados com os detalhes da vida de cada cidadão não salvava nenhum dos primeiros 2800. Mas uma coisa dessas é um maná para os criminosos que burlam milhões de pessoas todos os anos.

A privacidade não se troca por segurança. Faz parte da segurança. «O direito à privacidade [...] é um direito fundamental [...] protector dos indivíduos face à actuação do Estado e dos poderes públicos.»(1)

1- CNPD, PARECER Nº 37/ 2006
Vejam também:
Jennifer Granick, Wired, Security vs. Privacy: The Rematch
Owen Bowcott, Guardian, CCTV boom has failed to slash crime, say police
Bruce Schneier, Schneier on Security, Protecting Privacy and Liberty
Bruce Schneier, Schneier on Security, Security vs. Privacy

sexta-feira, novembro 07, 2008

Sempre vigilantes.

O Regulation of Investigatory Powers Act (RIPA) foi introduzido em 2000 no Reino Unido, ostensivamente como legislação anti-terrorismo, para regular a intercepção de comunicações e vigilância por parte de órgãos do estado na prevenção de crimes, protecção da saúde pública, segurança e bem estar económico no Reino Unido (1).

Hoje metade dos concelhos no Reino Unido usam esta legislação para coisas como multar as pessoas que põem o lixo nos caixotes nos dias errados (2).

Sempre que vos parecer boa ideia dar ao estado poderes para vigiar os cidadãos pensem nos burocratas com quem lidam quando declaram o IRS, pedem uma certidão ou tentam resolver algum problema desses. São essas pessoas exercem estes poderes.

Via Schneier on Security.

1- Wikipedia, RIPA
2- Mail Online, March of the dustbin Stasi: Half of councils use anti-terror laws to watch people putting rubbish out on the wrong day

quinta-feira, novembro 06, 2008

Ciência ou certeza.

«Truth is something we can attempt to doubt, and then perhaps, after much exertion, discover that part of the doubt is unjustified.» Niels Bohr

«What is wanted is not the will to believe, but the wish to find out, which is the exact opposite.» Bertrand Russell

A ciência é uma coisa estranha porque contraria as nossas disposições naturais e muito do que aprendemos enquanto crescemos. Desde cedo associamos o conhecimento à certeza. Vemos que os mais velhos são sábios porque não estão com “hmm, deixa cá ver...” ou “talvez seja...”, mostrando que saber é estar confiante das crenças que se tem. O cientista estereotipado na TV exclama que tem que haver explicação porque acredita na ciência. Pessoas como o Marcos Sabino julgam que «Para o cientista é verdadeiro tudo aquilo que está provado ser verdadeiro»(1). E quando explico porque duvido que existam deuses acusam-me de ter certezas injustificadas (2). Para muitos saber é ter certezas, mas a certeza só dá a ilusão de sabedoria isolando-nos das evidências. É a dúvida que dá conhecimento.

Este caminho da dúvida faz-nos descartar muitas ideias, que é outra coisa estranha. Como animal social que somos facilmente aprendemos a ser fiéis aos nossos, a punir traidores e a desconfiar dos indecisos. Mudar de ideias é infidelidade. Isto faz sentido nas relações entre pessoas onde o compromisso e a confiança são tão importantes. Mas não quando opinamos acerca dos factos. Nisso é melhor ser capaz de corrigir erros do que ser fiel a um dogma.

A maneira como aprendemos também nos prepara mal para a ciência. Por necessidade, passamos boa parte da vida a aprender o que os outros já sabem. É uma das nossas maiores vantagens mas exercita precisamente aquelas disposições que menos servem para descobrir conhecimento novo ou corrigir os erros do passado. E custa mudar da atitude de confiança e aceitação necessária à aquisição do conhecimento alheio para uma atitude de dúvida e curiosidade disciplinada necessária à descoberta de novo conhecimento.

O quotidiano também não ajuda. O desafio mais comum ao nosso intelecto é decifrar as intenções e propósitos dos outros. No autocarro não nos preocupa a força que exercemos no degrau ou o torque no varão que seguramos. O nosso cérebro está ocupado a discernir se a pessoa ao nosso lado vai sair na próxima paragem, se o revisor quer ver o bilhete ou se alguém se quer sentar naquele lugar vazio. A procura constante de propósito é útil porque vivemos entre seres como nós. Mas é um empecilho quando espreitamos para fora do nosso cantinho porque a maior parte do universo não tem intenção nem propósito.

A religião leva vantagem em todos estes aspectos. Nenhum cientista honesto pode rivalizar as certezas dos sacerdotes, que apontam sempre a falibilidade da ciência esquecendo que enquanto as dúvidas da ciência são o seu ponto mais forte as certezas das religiões sempre foram pés de barro. As religiões justificam-se por analogia com relações pessoais. Deus é pai, é amor, é alguém a quem devemos fidelidade e respeito. Com deuses notórios pela sua ausência o crente acaba por relacionar-se afectivamente com uma mera hipótese, mas ninguém gosta de abandonar os amigos. Nem mesmo os imaginários. E a religião aprende-se pelo livro, pela interpretação oficial ou pela graça do espirito santo. Que é a maneira normal, consultando uma autoridade infalível. Não é suposto aprender-se corrigindo erros, questionando, duvidando e escrevendo livros novos.

Além disso a religião responde Porquê. O propósito, o plano divino, a utilidade disto tudo. Pouco importa que tal coisa só exista na nossa mente, que seja tão ilusória como os monstros e heróis nas constelações ou as emoções que vemos na tempestade furiosa e no mar calmo. Nem importa que cada religião responda à sua maneira ou que nenhuma resposta faça sentido, porque tudo isto se encaixa naturalmente na nossa maneira de ser.

É por estas razões que a religião é tão antiga como a humanidade e faz parte da vida de quase toda a gente, enquanto que a ciência tem poucos séculos de idade e a maioria das pessoas não a compreende. E como a crença religiosa dá poder sobre os crentes enquanto a dúvida informada favorece a autonomia há muitos que se dedicam a manter esta diferença. Por isso se vos disserem para acreditar, duvidem. Se vos disserem para ter fé, desconfiem. E se vos disserem que um livro tem a verdade infalível dêem uma gargalhada. É treta.

1- Em A ciência é a mesma?
2- Dúvidas claras não são certezas.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Escondam as chaves.

Investigadores em San Diego criaram uma aplicação que pode duplicar chaves a partir de uma fotografia. O perfil de uma chave é determinado por uma combinação de valores discretos que podem ser calculados analisando a imagem da chave. Sabendo qual o fabricante, esta informação é suficiente para reproduzir a chave. Os autores testaram o software com fotografias tiradas com um telemóvel vulgar e também com uma máquina fotográfica com teleobjectiva.

Agora que já nos habituámos a esconder o código do multibanco temos que nos habituar a esconder as chaves de casa. A notícia está aqui e o artigo (em pdf) aqui.

Via Schneier on Security

terça-feira, novembro 04, 2008

A ciência é a mesma?

Num raro exemplo de comentário sucinto e pertinente, o Jónatas Machado escreveu que «A ciência é a mesma para criacionistas e evolucionistas.»(1) Concordo que devia ser mas parece-me que não é. Parece-me até que para os criacionistas a ciência é precisamente o contrário daquilo que é para os cientistas.

Para um cientista a ciência organiza o conhecimento revelando padrões regulares, correlações e mecanismos que sugerem relações causais. Para compreender a relação entre o tabaco e o cancro examina grupos de pessoas, estima correlações e testa os efeitos do tabaco em animais. O tio Jeremias pode ter fumado três maços por dia até aos noventa mas importa mais o padrão que os dados revelam do que as anomalias pontuais.

O criacionista vê a ciência como uma colecção de anomalias. Ignora o enorme conjunto de resultados fiáveis, e o padrão que estes formam, e foca aquela rocha que deu problemas com aquele método ou aquele resultado pontual que não se sabe como surgiu. Enquanto o cientista estuda o cancro o criacionista apregoa, repetidamente, que o tio Jeremias morreu de perfeita saúde.

O cientista procura explicações genéricas que abarquem fenómenos diferentes. A unificação do conhecimento sob esquemas explicativos aplicáveis a muitos casos é um dos objectivos da ciência e uma das suas grandes vitórias. O criacionista não gosta de explicações e prefere explicacinhas. Aqui deus mexericou na radioactividade, ali remexeu a água, acolá deu um empurrão à luz e assim por diante. Cada cor seu sabor.

O cientista investiga para conhecer e ganhar confiança nas ideias que tem acerca da realidade. As hipóteses que formula podem ser verdade mas também podem não ser, e é a evidência que o ajuda a decidir. Nunca de uma vez por todas mas sempre tentativamente e sempre procurando lugar para melhorias. O criacionista só procura lugar onde enfiar os seus milagretes. A verdade, julga ele, já a tem toda, e por isso não lhe interessa um método para a procurar. O que ele precisa é de desculpas para justificar uma crença tão contrária ao que se observa.

Para o cientista a ciência é uma invenção humana excepcional que ajuda a conhecer o universo, corrigir erros e aproximar-nos da verdade. Para o criacionista a ciência é vento no capachinho. Disfarça, diz que segura o cabelo só porque não se quer despentear, mas o desconforto é evidente.

1- Em Miscelânea Criacionista: ciência operacional e ciência histórica.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Miscelânea Criacionista: ciência operacional e ciência histórica.

Recentemente o Mats comentou que eu continuo «a fazer confusão entre a ciência operacional e a ciência histórica/forense.»(1) Não é difícil confundi-las quando são a mesma coisa e a distinção apenas uma invenção criacionista sem nada que ver com a realidade.

Para o criacionista, é ciência operacional assumir que o tempo de meia vida de um isótopo é constante se queremos dosear uma sessão de radioterapia, operar uma central nuclear ou dimensionar as baterias de uma sonda interplanetária. Mas quando medimos a idade de uma rocha então o mesmo princípio passa a ser ciência histórica. A velocidade da luz ser constante é ciência operacional quando serve para o posicionamento global mas é ciência histórica quando mostra que as estrelas existem há milhões de anos. E as árvores filogenéticas são ciência operacional se servem para classificar organismos patogénicos mas são ciência histórica quando revelam ser nossos parentes organismos que os criacionistas não querem na família.

Dividir a ciência em função do inconveniente que causa à interpretação literal da Bíblia faz parte da posição de fé do criacionista. O criacionista não quer descobrir a verdade. A sua fé diz-lhe que já sabe a verdade absoluta e infalível do seu deus. Agora é só apregoá-la e massajar os factos – ou martelar, serrar ou ignorar os menos massajáveis – para que tudo encaixe no que o criacionista crê ser verdade. Um pressuposto do criacionismo bíblico é, além da infalibilidade do seu deus, a infalibilidade dos criacionistas que nele crêem. Porque se os criacionistas se assumissem falíveis de nada lhes adiantava afirmar o seu deus infalível pois tinham que admitir a possibilidade de se enganarem nessa matéria.

E retalhar o conhecimento adequa-se à visão fragmentada e heterogénea que o criacionista tem da natureza, em que cada coisa teve uma criação independente das restantes e função apenas do sagrado capricho divino. Por isso o criacionismo tem uma ou mais explicações independentes para cada fenómeno. Como os milagres, são únicas e irrepetíveis. Os peixes de água doce sobreviveram ao dilúvio porque nessa altura viviam bem em água salgada ou porque havia camadas de água doce no oceano. As estrelas estão a milhões de anos luz mas a luz pode ter andado mais depressa antes ou foi criada já a caminho. A radioactividade acelerou para as rochas parecerem antigas ou deus já as criou com os isótopos nas proporções que têm agora. E assim por diante.

Enquanto a ciência se esforça por unificar fenómenos dentro do mesmo esquema de explicação, o criacionismo tira um milagre da manga cada vez que quer explicar algo e tenta esquartejar o conhecimento para usufruir da tecnologia sem ameaçar as suas superstições. Infelizmente, isso só se consegue com muita ignorância e muito esforço para a manter.

1- Para que serve a teoria da evolução?

domingo, novembro 02, 2008

Treta da Semana: Feng Shui

Considerar categorias como sendo coisas é uma tendência humana comum. Da divisão entre seres vivos e não vivos inferimos que há um élan vital que anima os primeiros. De haver coisas quentes e frias inventámos o calórico. E de considerarmos alguns acontecimentos ou pessoas mais afortunados que outros veio esta ideia que a sorte é uma “energia positiva” que flui, acumula-se e podemos canalizar mudando a mobília de sítio. O erro nos primeiros dois casos já foi corrigido mas o último ainda ilude muita gente.

«Toda a gente sabe que a sorte às vezes vai e vem, o ideal é mantê-la e é isso mesmo que o Feng Shui ajuda cada indivíduo a fazer – manter a sua sorte.»(1)

Assim, para trazer a sorte pela porta e evitar que se escoe pela retrete podem seguir o método das relações das cinco fases (Bagua), o método do tempo e do espaço (Xuang Kong), o método das estrelas voadoras de purpura alva (Zi Bai), o método das oito portas e nove estrelas (Qimen Dunjia) e muitos outros métodos de Feng Shui, todos igualmente (in)eficazes (2). A fotografia abaixo, na Wikipedia, é um bom exemplo de dinheiro deitado ao lixo para arejar a sorte.



Nem é preciso que o disparate afecte arquitectos ou engenheiros. Basta afectar um número suficiente de inquilinos que quem projecta os edifícios terá poucas opções. E este é o problema dos disparates. Qualquer disparate, por muito inofensivo que seja em doses individuais, tem consequências quando um número grande de pessoas acredita.

1- www.fengshuiportugal.com
2- Wikipedia, Feng Shui

sábado, novembro 01, 2008

Isso não se diz...

Há palavras que normalmente são substituídas por bips na rádio ou TV. Todos sabem quais são. Ou sabiam, porque agora há umas novas. A MTV censurou o vídeo da canção «Don’t download this song» do Weird Al Yankovic, mas desta vez os bips foram para palavras como Morpheus, Grokster, Limewire e KaZaA. Admito que estes programas de partilha de ficheiros já estão ultrapassados. Afinal, a música é de 2006. Mas é exagero considerarem-nos palavrões só porque a RIAA não gosta que se partilhe ficheiros.

Pode parecer uma atitude estranha da parte da MTV. Mas faz sentido se considerarmos o esforço concertado de toda esta indústria para se tornar cada vez mais ridícula e absurda.

Podem ver aqui o vídeo da canção, e abaixo a letra sem censura. Não repitam esta linguagem à frente de crianças.

Once in a while maybe you will feel the urge
To break international copyright law
By downloading MP3s from file-sharing sites
Like Morpheus or Grokster or Limewire or KaZaA

But deep in your heart you know the guilt would drive you mad
And the shame would leave a permanent scar
'Cause you start out stealing songs and then you're robbing liquor stores
And sellin' crack and runnin' over school kids with your car

So don't download this song
The record store's where you belong
Go and buy the CD like you know that you should
Oh, don't download this song

Oh, you don't wanna mess with the R-I-double-A
They'll sue you if you burn that CD-R
It doesn't matter if you're a grandma or a seven year old girl
They'll treat you like the evil hard-bitten criminal scum you are

So don't download this song
Don't go pirating music all day long
Go and buy the CD like you know that you should
Oh, don't download this song

Don't take away money from artists just like me
How else can I afford another solid gold Hum-Vee
And diamond-studded swimming pools
These things don't grow on trees
So all I ask is, "Everybody, please..."

Don't donwload this song (Don't do it, no, no)
Even Lars Ulrich knows it's wrong (You can just ask him)
Go and buy the CD like you know that you should (You really should)
Oh, don't download this song

Don't donwload this song (Oh please, don't you do it)
Or you might wind up in jail like Tommy Chong (Remember Tommy)
Go and buy the CD (Right now) like you know that you should (Go out and buy it)
Oh, don't download this song

Don't download this song (No, no, no, no, no, no)
You'll burn in hell before too long (and you'll deserve it)
Go and buy the CD (Just buy it) like you know that you should (You cheap bastard)
Oh, don't download this song


Via ZeroPaid

Editado a 3-11-08: Soube hoje pelo Miguel Caetano que já há algum tempo que o vídeo tinha sido censurado, a pedido da MTV, mas parece que a razão principal era a política da MTV contra a referência a marcas comerciais. Continua a não ser inteiramente razoável mas sempre faz mais sentido que censurar referência a programas de partilha de ficheiros.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Como o conhecimento a priori é empírico.

Obrigado a todos que têm participado nesta conversa que me tem ajudado muito a perceber este problema. Deu-me uma ideia mais clara do que pode ser o a priori e até, ao contrário do que eu tinha defendido anteriormente, de como salvar a noção de conhecimento a priori.

Uma verdade a priori será qualquer estado acessível a pela aplicação de regras de transformação preestabelecidas e partindo de um estado inicial. Aqui uso “verdade” num sentido lato que não exige consciência nem a interpretação desses estados como proposições. Desta forma, se programarmos um computador para seguir certas regras a partir de um estado inicial todos os estados resultantes da aplicação dessas regras serão verdades a priori naquele contexto*. A noção de verdade aqui é simplesmente a de coerência com o estado inicial e com as regras de transformação, por isso uma verdade a priori é sempre relativa ao seu contexto. O conhecimento a priori é apenas o conhecimento de verdades a priori. Conhecendo as regras de transformação da álgebra e partindo do estado inicial de 2+2 eu posso conhecer a verdade a priori, neste contexto, que o resultado é igual a quatro porque essa conclusão segue do estado inicial pela aplicação das regras.

Uma consequência importante é que, nesta definição, o a priori é uma categoria ontológica e não epistemológica como o empírico. Assim percebe-se como saber que 2+2=4 é conhecimento a priori mesmo que se descubra que 2+2=4 experimentando com pedras, dedos e palitos e extrapolando daí uma regra geral, empiricamente. É a priori não pela forma como foi conhecido mas por poder resultar de se aplicar certas regras partindo de um estado inicial. Podemos então falar de objectos a priori, como por exemplo todas as jogadas possíveis do Xadrez, mas não de objectos empíricos pois empírica é a forma de conhecer esses objectos e não propriedade dos objectos em si. Posso conhecer as jogadas do Xadrez construindo peças e um tabuleiro e experimentando seguir as regras a ver o que dá.

A noção de a priori como categoria epistemológica, aquilo que se descobre «pensando somente», faria sentido se a nossa mente fosse um homúnculo algures dentro da cabeça assistindo ao que os nossos sentidos mostram e pensando acerca disso. Fechando o teatro cartesiano o homúnculo continuaria a pensar e a obter conhecimento independente da experiência, que seria definida como o que se passa no teatro e não no homúnculo. Mas esta ideia é errada. A nossa mente é gerada por redes de neurónios interligadas do cérebro aos dedos dos pés. Os neurónios interagem, as redes interagem e a consciência emerge como o borbulhar de sais de frutos. Não há uma res cogitans independente a pensar a priori nem uma divisão entre o sentir e o pensar. Está tudo ligado. Mesmo sem sentidos sentimos recordações, sentimos que somos, sentimos que pensamos. A consciência é empírica, e se o conhecimento exige consciência então o conhecimento será sempre empírico. Mesmo que a coisa conhecida seja tal que a sua verdade se possa justificar a priori, seguindo regras a partir de um estado inicial.

Outro aspecto importante é que a priori é a qualidade de ser resultado da aplicação de transformações especificadas a partir de um estado inicial, por isso nem o estado inicial nem as regras de transformação são a priori no contexto do seu sistema. Daí que não se possa fazer matemática ou lógica a priori. Só depois de feitas, depois de se especificar as regras e os axiomas, é que os resultados serão a priori, e até se pode implementar os sistemas em computadores que apliquem as regras mecanicamente.

Em suma, parece-me que o problema era confundir a forma de conhecer com a propriedade de certos objectos de resultar da aplicação de regras. 2+2=4 é a priori porque é o resultado de aplicar certas regras a partir de um certo estado inicial. Mas isto não tem nada que ver com a forma como conhecemos que 2+2=4, nem com o que nos levou a inventar essas regras ou a escolher essas em vez de outras. Quando dizemos “conhecimento a priori” estamos a qualificar a coisa conhecida e não a forma de a conhecer. A forma como conhecemos os resultados e inventamos e escolhemos regras e axiomas é sempre empírica.

PS: A palestra Higher Order Truths about Chmess do Daniel Dennett sugeriu-me algo semelhante, apesar de não ser directamente sobre isto. Não só pelos avisos aos filósofos mas pela distinção entre as verdades a priori e o nosso conhecimento delas.

* Aqui devia distinguir os processos físicos do aspecto conceptual, mas isso dava mais uma carrada de posts e se calhar é impossível. Ao que tudo indica, o conceptual é um tipo de processo físico que ocorre no nosso cérebro.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Para que serve a teoria da evolução?

Num longo post sobre o debate em Oeiras, o Mats perguntou: «qual é a utilidade da crença que diz que o mundo biológico é o resultado de milhões de mutações aleatórias? O que é que me interessa se o pássaro evoluiu de um dinossáuro? De que forma a ciência progride quando se “sabe” que a mão da minha irmã, a pata do gato dela e as asas dos morcegos tem uma origem natural comum? O que é que isso afecta a forma que eu vivo?»(1)

A teoria da evolução tem muitas aplicações práticas. Para dar um exemplo detalhado da área onde trabalho, é a teoria da evolução que permite modelar a estrutura de uma proteína com base na estrutura de outra que, quimicamente, tem tanto de diferente como de igual (50% de identidade na sequência é suficiente para ter um modelo fiável). À partida isto não devia ser possível, pois com tantas diferenças químicas seria de esperar uma estrutura muito diferente. Mas como sabemos que estes genes descendem de ancestrais comuns e como as alterações que deformam demasiado a estrutura são eliminadas pela selecção natural, podemos concluir que as diferenças químicas entre estas proteínas têm pouco impacto na sua estrutura. E isto funciona mesmo que uma proteína seja de ervilha e a outra de baleia.

A teoria da evolução é fundamental em quase toda a bioinformática, desde estes estudos estruturais à organização e integração de bibliotecas de genes. Sem a teoria da evolução em vez de conhecimento teríamos centenas de milhões de cromos e nenhum sitio onde os colar. Pensar que cada ser foi criado de acordo com a sua espécie não ajuda nada.

A teoria da evolução também é importante na medicina para conceber drogas novas, seleccionar modelos para testar medicamentos ou estudar doenças, prescrever antibióticos ou vacinas, combater epidemias e até, cada vez mais, para compreender a origem de vários problemas de saúde. Também serve para gerir pescas, controlar pestes agrícolas e optimizar o uso de pesticidas, recuperar espécies em perigo de extinção, criar enzimas e antibióticos novos e até para algoritmos de aprendizagem automática.

Mas isto são só aplicações práticas. Mais importante ainda é a teoria da evolução nos dar uma explicação unificadora para as características da vida na Terra. Quando Newton explicou da mesma maneira coisas tão diversas como a queda da maçã, a estabilidade dos edifícios, as marés e a órbita da Lua, só alguém muito pobre de espirito perguntaria “pois, mas para que é que isso serve?”. A teoria da evolução explica da mesma forma todos os organismos que existem e todos os que já existiram. O criacionismo, em contraste, não explica nada. É tudo capricho do deus que criou o leão com dentes enormes só porque lhe apeteceu visto que, supostamente, nessa altura o leão só comia caldo verde e saladinhas.

Finalmente, é melhor crer na verdade do que numa patranha. O valor principal da ciência é dar-nos um caminho para a verdade. O caminho pode nunca acabar, tem buracos e desvios que nos enganam, mas é este o caminho. Em retrospectiva, é óbvio que estamos hoje muito mais esclarecidos acerca do universo do que estava quem escreveu o génesis.

O problema do criacionismo não é desconhecerem as aplicações práticas da teoria da evolução. Nós todos usamos tecnologia sem compreendermos em detalhe de onde vem. O mal do criacionismo é ter os valores invertidos. O criacionista ferrenho recusa a compreensão e a verdade para proteger a sua crendice. E mesmo que não deseje mutações a ninguém deseja contagiar todos com essa ignorância propositada e cegueira mental.

Os criacionistas dizem que o criacionismo é a palavra infalível de um deus omnipotente e omnisciente. Pois então deixem que esse deus fale por si. Com tanta omnicoisa conseguirá certamente explicar o que fez e mostrar que o criacionismo é verdade. Mas não sendo os criacionistas omnipotentes nem omniscientes, não é só por dizerem que têm razão que lhes compro a treta que querem vender.

1- O post é Evolucionismo vs Criacionismo em Oeiras. Obrigado ao – com – por me ter apontado isto.