terça-feira, agosto 26, 2008

O cu e as calças.

«A fim de que os leitores deste blogue não aceitem acriticamente os argumentos do Ludwig Krippahl», o Jónatas Machado comentou algumas afirmações que disse que eu proferi (1). Agradeço o esforço e lamento não poder dar à monografia a atenção que merece por ser o triplo do que me permito escrever num post. Focarei apenas o ponto 4 que alega eu ter defendido «a incompetência do designer argumentando com o sistema digestivo das vacas e os seus excrementos.» É, às vezes, a sensação que me dá. Mas não era esse o destinatário do meu argumento, que nem era sobre o intestino da vaca em si. Era sobre a digestão da celulose (2).

Nos mamíferos falta o pedacito de ADN que sintetiza a enzima que digere a celulose. Há em fungos, bactérias e até protozoários mas não em mamíferos. Daí a complicada digestão da vaca, que precisa de bactérias que lhe digiram erva, e a infeliz digestão do coelho que, por guardar as bactérias junto ao ânus, tem que comer ao pequeno almoço o que comera ao jantar. Literalmente. Argumentei que isto não sugere uma criação inteligente. Mesmo como piada seria um humor infantil. Nessa linha, prossegue o Jónatas.

«Esquece porém que esse argumento, levado às últimas consequências, nos obrigaria a comparar o cérebro do Ludwig com o sistema digestivo das vacas e os pensamentos do Ludwig com os excrementos das vacas. E poderíamos ter dúvidas sobre qual funciona melhor, já que para o Ludwig todos seriam um resultado de processos cegos e destituídos de inteligência.»

Num debate devemos interpretar cada argumento da forma mais favorável a quem o profere. Ao contrário de um julgamento, o objectivo não é safar o cliente nem punir o prevaricador. É apurar a verdade, e isso exige boa vontade. Daí o meu dilema. É que não sei se será pior interpretar isto como um insulto fraco ou se assumir que o Jónatas defende que se pensar e digerir forem processos naturais então o pensamento é excremento. Por isso passo à frente.

«[...] os criacionistas têm uma visão mais benigna do cérebro do Ludwig e dos seus pensamentos. As premissas criacionistas partem do princípio de que o Ludwig é um ser racional porque foi criado à imagem e semelhança de um Deus racional.»

Finalmente uma parte que consegue estar errada. Pode não parecer um grande feito mas, no contexto, sobressai pela positiva. É o problema recorrente (3) das explicações à criacionista. O Mats dá outro exemplo num post intitulado «Deus É a Explicação Mais Lógica»(4), onde um vídeo afirma que como o universo teve um início a melhor explicação é que Deus existe. Mas isso nem sequer é explicação.

Uma explicação é uma proposição que, no contexto do que sabemos, permite concluir o que queremos explicar. Por exemplo, que o copo está partido no chão porque caiu. O que sabemos permite concluir que o copo se parte nessas condições, por isso é uma explicação. E é uma boa explicação porque nos dá informação nova e testável acerca do que aconteceu sem invocar coisas das quais nada podemos saber. Em contraste, “Deus existe” não é explicação porque disto nada se conclui acerca do universo. E “Deus criou o universo” parece uma explicação mas é como “Deus partiu o copo”. Demasiado rebuscada por postular o tal Deus do qual nada se sabe e insatisfatória porque nos deixa na mesma acerca do que aconteceu.

O mesmo se passa com a hipótese de eu ser inteligente porque Deus me criou à sua «imagem e semelhança». Não explica nada. Não tenho maneira de saber como Deus é nem inferir o que tenho de semelhante a Ele. Não devem ser os meus testículos, pêlos do nariz, pés, mãos, fígado ou intestino, que parecem atributos pouco divinos. Nem mesmo a minha inteligência, que é uma ferramenta que uso para antecipar acontecimentos, planear acções e resolver problemas. A um Deus omnisciente que existe fora do tempo isto faz tanta falta como ser sócio do Círculo de Leitores. E mesmo assumindo que Deus tem uma inteligência divina qualquer há o problema da minha não ter nada a ver com isso. Esta “explicação” inventa coisas que ninguém pode saber sem adiantar de nada.

Mas há uma coisa na qual o criacionismo desafia a teoria da evolução. É em explicar como quatro mil milhões de anos de modificação e selecção natural de características herdadas foram dar um disparate tão grande...

1- Comentário em Pegas.
2- Miscelânea Criacionista: Design Incompetente.
3- Inferências
4- Mats, 24-8-08, Deus É a Explicação Mais Lógica

segunda-feira, agosto 25, 2008

Treta da Semana (passada): A democracia é só para alguns.

A ideia que a democracia serve melhor umas culturas que outras ataca pela calada e raramente é defendida por quem se apercebe que o faz. Mas porque há demasiado respeito por culturas e tradições (1) e insuficiente compreensão da democracia esta ideia insidiosa é frequente. O Xiquinho deu um exemplo quando explicou porque é que a democracia é menos importante para a China.

«Se perguntares a [um] chinês médio o grau importância que dá à democracia também és capaz ficar surpreendido pois rapidamente chegarás à conclusão que está tudo muito mais interessado no caroço do que nos direitos humanos. Claro que haverá excepções, mas não me parecem ser significativas. Pode parecer estranho mas o conceito de democracia não é absoluto em todo o mundo nem tão pouco garantia automática de liberdade e justiça. Muito menos na China.»(2)

É verdade que países diferentes implementam os detalhes de maneiras diferentes. Parlamentos, ministros, processos de aprovação de leis e assim. Mas o importante não é isso. Como o Xiquinho reconheceu, «os valores de uns e outros são muito diferentes». O fundamento da democracia é o respeito por essas diferenças. A Declaração Universal dos Direitos Humanos mostra-o bem. Delimita uma esfera de direitos que todos podem exercer sem privar outros de direitos iguais e exclui o Estado dessa esfera. Escolher se rezamos e a quem, com quem vivemos, o que pensamos ou dizemos não compete ao Estado mas a cada um de nós. O Estado é como a administração do condomínio. Trata das partes comuns mas não entra em casa das pessoas.

O Estado democrata intervém apenas na gestão dos interesses comuns e na resolução de conflitos. Porque tem que respeitar os valores de cada um a gestão dos interesses comuns é por voto da maioria ou por representantes eleitos. E, pela mesma razão, a resolução de conflitos tem que considerar igualmente todos os valores, mesmo os minoritários. Daí que seja legítimo a maioria decidir quanto se investe em educação ou saúde mas não que 90% votem para escravizar os outros 10%. A democracia não é seguir a vontade da maioria mas sim respeitar o melhor possível os valores de cada um.

Há quem contraponha que isto é apenas individualismo ocidental e que outras culturas podem dar prioridade à família, sociedade ou nação. Mas na nossa espécie todos os valores vêm do indivíduo. É o indivíduo que dá valor à família, à nação ou a si próprio. Se fossemos formigas inteligentes talvez cada formigueiro pensasse colectivamente ou só as rainhas tivessem valores. Mas não somos. Cada um de nós pode pensar por si, ter os seus valores e concordar ou discordar dos outros. Em rigor, nem a cultura nem a sociedade nem a tradição têm valores. Quem tem valores é cada pessoa. É nisso que a democracia se baseia.

É por isso que defendo a democracia como obrigatória e universal. Não obrigatória para as pessoas. Não faz sentido obrigar alguém a ter direitos. E não como forma de governo porque não há uma só forma de governo democrático. Mais que uma forma de governo, a democracia é o limite do poder legítimo de quem governa. É obrigação do Estado exercer o seu poder apenas com a aprovação dos cidadãos, gerir o que é de todos no interesse de todos e impor-se a cada indivíduo só quando necessário para proteger outros de imposição mais grave. Qualquer governo que respeite isto acaba por ser reconhecível como democracia.

Estes limites à legitimidade de obrigar os outros a fazer o que queremos não dependem da cultura, tradição ou posição no Comité Central. São iguais para todos em virtude precisamente da grande diversidade de valores que seguimos. E são transversais aos problemas da pobreza, violência ou guerra civil. O abuso do poder de quem governa é sempre em benefício dos governantes e sempre em prejuízo dos governados.

1- Treta da semana: Culturalismos.
2- Treta da Semana: A Cerimónia.

domingo, agosto 24, 2008

É uma pena.

Os criacionistas não gostam da ideia que a nossa inteligência evoluiu, como outras características, pela adaptação de populações ao seu ambiente. O Mats disse que não está confirmado que a inteligência seja «uma característica física como penas.» Como não explicou o que serão características não-físicas, vou assumir apenas que as físicas resultam da interacção de átomos (ou moléculas, células, tecidos). E o Jónatas Machado deu uma boa razão para considerarmos que a inteligência está nesta categoria, tal como as penas. As penas «só são possíveis porque o DNA contém instruções precisas e altamente complexas para o seu fabrico.»(1) Exactamente como a inteligência. Quem nascer com ADN de pulga ou de beterraba não vai longe nos caminhos do intelecto*.

E há outros indícios. Do traumatismo craniano ao síndroma de Alzheimer, e do álcool à trombose, há muito que mostra a inteligência como indissociável do funcionamento de um cérebro tão físico como qualquer pena. A inteligência que simulamos com computadores, como jogar Xadrez, demonstrar teoremas e identificar pessoas pela voz, é recriada por processos físicos. E em todo o reino animal, do nemátodo ao humano, a correlação entre o sistema nervoso e a inteligência no comportamento é demasiado forte para ser mera coincidência.

A este sólido corpo de evidências contrapõem-se os relatos de quem diz ter sentido sair a alma do corpo e ver coisas fantásticas nunca vistas por mais ninguém. Numa conversa há tempos, um aficcionado de OVNIs e mistérios afins perguntou-me como se explicava que, durante uns dias, lhe tivesse desaparecido o tórus supra-orbital, aquela protuberância óssea que temos sob as sobrancelhas. Eu disse que se explicava da mesma forma que o desaparecimento das minhas orelhas no dia anterior entre as 10:00 e as 11:00 da manhã. O ar ofendido dele mostrou que percebera o problema. O que se tem que explicar aqui é o relato. O alegado facto relatado é uma possível explicação. Talvez as pessoas relatem sair do corpo porque saem mesmo. Mas há explicações alternativas que se ajustam melhor aos dados, especialmente à ausência de confirmação independente das maravilhas relatadas.

O peso das evidências indica que a inteligência é a actividade física de algo como um cérebro, tal como a corrente eléctrica é o movimento de electrões e a temperatura a agitação das moléculas. O problema é a nossa tendência para atribuir coisas aos conceitos. Esta semana um dos meus filhos perguntou-me se as bactérias causavam doenças porque traziam as doenças dentro delas e as deixavam no nosso corpo. Como bactéria e doença são conceitos diferentes ele achou que deviam corresponder a coisas diferentes. Isto não afecta só as crianças. Na história da ciência temos casos como o calórico (a substância do calor), o flogisto (a substância da combustão) ou o éter (a substância por onde a luz se propaga), em que adultos inteligentes e cultos cometeram o mesmo erro. Quando se fala de inteligência, consciência ou emoção há sempre quem assuma que por estes conceitos serem diferentes do conceito de actividade cerebral então as coisas também têm que ser distintas. Não são.

Outro indício importante é a inteligência animal ser composta por mecanismos especializados em vez de ser uma capacidade genérica. Um computador é uma máquina genérica de fazer contas. Quaisquer que sejam. O cérebro humano é muito diferente. Calcular a raiz quadrada de 24551224 exige uma capacidade de computação insignificante comparada a subir escadas a assobiar enquanto se reconhece a cara da avó num quadro meio às escuras. Mas para nós a segunda tarefa é trivial e a primeira laboriosa e mais sujeita a erros. Tal como nenhum pássaro tem penas genéricas mas sim penas especializadas em impermeabilidade, isolamento térmico ou aerodinâmica, também nós temos um grande pacote de inteligências especializadas em controlar os movimentos do corpo, identificar imagens e sons e assim por diante. E linguagem.

Essa foi a nossa sorte. A capacidade de comunicar por símbolos e copiar ideias surgiu empurrada pelas vantagens que trouxe aos nossos antepassados mas ganhou vida própria. Agora não são só os nossos genes que evoluem mas também as nossas ideias, a cultura, que competem entre si para moldar cérebros e criar pessoas. Os genes são praticamente os mesmos de há cem mil anos para cá mas as ideias mudaram muito e, por este mecanismo, a nossa inteligência tem evoluído muito mais rapidamente que os nossos genes.

E aí está outra pena. A teoria da criação por abracadabra é atraente, como a teoria que as bactérias trazem as doenças lá dentro. Mas o nosso cérebro é capaz de muito mais e é pena que cérebros tão capazes sejam infectados por disparates que os impeçam de compreender as suas origens.

*Mas há abóboras que se safam.

1- Comentários em Pegas

sábado, agosto 23, 2008

Está lá?

Cheguei hoje a casa. Antes de retomar a programação habitual dou só um toque ao problema da privacidade e retenção de dados nas telecomunicações. Como seria de esperar, as empresas de telemóveis não se limitam a guardar a informação acerca de onde estamos e a quem ligamos. A informação vale dinheiro e já muitas empresas a vendem. E também dá jeito à policia. Pôr sob escuta quem é suspeito de um crime é mais seguro mas dá mais trabalho. É preciso encontrar suspeitos primeiro. Em contraste, automatizar as escutas com análises estatísticas dos perfis de chamadas pode estragar a vida a muita gente mas dá-nos uma polícia mais descansadinha.

Short Cuts, no London Review of Books, via Schneier on Security.

terça-feira, agosto 19, 2008

Pegas

Se virmos que a figura no espelho tem um autocolante na cabeça facilmente reparamos que está na nossa e o tiramos. Parece trivial mas exige a capacidade de reconhecer que o espelho representa o que nós somos e poucos animais são capazes de o fazer. Até agora, que se saiba, só alguns primatas e as pegas (1).

É fascinante que a inteligência surja de formas tão diversas na natureza. Mas não é de espantar. Também há muitas formas de revestimento da pele, de membros, de comportamentos e metabolismos. Em cada ser vivo combinam-se as características que ajudaram os seus antepassados a reproduzir-se. São tão diversas e tão úteis porque surgem como solução para necessidades também diversas.

Por isso um deus omnipotente ser inteligente faz tanto sentido como um deus omnipotente ter penas. É certo que, da nossa perspectiva, a inteligência é uma grande coisa. Mas se os morcegos tivessem deuses os deles teriam sonar. Deus de peixe sabe nadar. O facto é que a inteligência é apenas mais uma das muitas características que os seres têm porque ajudam a colmatar alguma necessidade. Penas para não ter frio, dentes para morder, cérebros para pensar. Nós e as pegas conseguimos perceber que a imagem no espelho representa o nosso corpo porque um cérebro capaz desse raciocínio ajuda-nos a sobreviver e reproduzir. Mas um ser omnipotente precisa tanto disto como de pêlos no nariz. Se Deus existe, se lhe colarem um autocolante na testa e lhe mostrarem um espelho Ele não vai saber o que fazer. Para que precisa ele de tal capacidade?

O mesmo se passa com as outras características que Lhe atribuem apenas porque as prezamos como humanos. Deus ama, fala, pensa, compadece-se, zanga-se, castiga e uma data de outras coisas que são úteis para macacos tagarelas como nós mas que não servem de nada a um ser eterno e omnipotente.

E mais triste que esta crença incoerente é o que custa querer acreditar que a natureza foi criada de propósito por algo inteligente. Essa luta contra o óbvio impede de ver a riqueza de formas com que a Natureza, sem querer, cria inteligências.

1- BBC, Magpie can 'recognise reflection'

segunda-feira, agosto 18, 2008

Actos e expressão 2: a propriedade intelectual.

Hoje podemos representar muita coisa com sequências de números que espalhamos num instante por todo o mundo. E a comunicação em massa já não está sob o controlo de alguns agentes económicos ou governos que agora querem regular a informação que partilhamos. O desabafo anterior foi por aplicarem á comunicação pessoal regras próprias de actividades comerciais ou profissionais (1). Faz sentido um código deontológico para o jornalismo mas não para conversas de café. E não importa se o café é virtual ou se tem milhões de pessoas. Como já ameacei, agora refilo pela regulação da criatividade com regras adequadas a uma tecnologia ultrapassada. Porque aplicadas ao meio digital estas têm um efeito contrário ao pretendido e limitam a nossa liberdade de expressão, pelo que mesmo que funcionassem seria demasiado a pagar por discos ou cinemas.

As patentes de software ilustram o problema. Quando um inventor tem uma boa ideia não queremos que a guarde para si. Porque as ideias são mais úteis quando são partilhadas, concedemos-lhe um monopólio temporário sobre a aplicação da ideia em troca da descrição detalhada dessa ideia. Mas as patentes de software consideram que o programa, mesmo o código fonte, é a aplicação da ideia. Na verdade, o programa é uma descrição detalhada da ideia, escrita numa linguagem que o computador interpreta, e a aplicação seria executar o programa. Porque é mais fácil regular a distribuição que a utilização dos programas, a sociedade acaba por conceder um monopólio sobre a própria informação que esta concessão pretendia comprar. É pagar ao merceeiro para que ele fique com as nossas compras. E além de ser mau negócio proíbe a comunicação da ideia.

O copyright tem o mesmo problema. A intenção era incentivar o investimento na industria; os direitos de autor vieram mais tarde para equilibrar um pouco a negociação entre estes e os impressores. Mas a industria da cópia teve sempre a fatia maior, o que era razoável porque custa mais convencer investidores a pagar uma fábrica de livros do que convencer poetas a escrever poesia. E como este monopólio não tinha impacto na vida privada era um preço aceitável para garantir a distribuição das obras.

A transposição cega deste sistema para o meio digital é asneira porque dificulta a distribuição, restringe o acesso às obras, afecta a vida pessoal e mistura a regulação de actos concretos com a proibição de trocar informação em abstracto. O Mário Miguel mencionou a notícia de um “pirata” condenado a pagar setecentas mil libras à Symantec por vender, sem autorização, trinta e cinco mil cópias do PC Anywhere (2). “Pirata” agora tanto é quem monta uma empresa para vender cópias ilegalmente como quem partilha ficheiros em casa sem cobrar nada. É como considerar que cantar no duche é o mesmo que fazer milhões com concertos ao vivo.

Contrariando a tendência recente, procuradorias de vários estados federais alemães declararam que vão ignorar processos movidos contra quem partilhar menos de 3000 euros de conteúdos, cerca de 3000 músicas ou 200 filmes (3). É um passo na direcção certa por tentar distinguir actos com impacto comercial de actos pessoais. Infelizmente, não é legislação feita por representantes eleitos, visa principalmente reduzir os encargos com os processos movidos pelas editoras e ignora o problema principal.

É razoável regular certas actividades económicas para manter o mercado saudável apenas se o que se ganha com a regulação compensar o que se perde por causa das regras. Obrigar quem vende material digital a pagar uma percentagem aos detentores de direitos seria uma regra razoável. O direito de proibir a venda sem licença já tem mais custos que benefícios por limitar a distribuição e exigir mais policiamento. Dar controlo sobre obras derivadas ou sobre a utilização da ideia noutros contextos é um exagero porque além dos custos para a sociedade inibe a inovação, precisamente o contrário do que se quer. E proibir que as pessoas liguem os seus computadores e troquem sequências de números é pôr o disco de plástico à frente dos direitos humanos.

Em suma, a regulação das comunicações digitais deve considerar que já não é preciso pagar a distribuição de ideias e conteúdos, pelo que se justifica reduzir os privilégios que concedemos a quem o faz. E que este é um meio de comunicação pessoal merecedor da mesma protecção que outros como telefones ou cartas. Neste post foquei apenas a distribuição mas parte do argumento aplica-se também ao incentivo da criatividade. A liberdade de expressão é valiosa demais para que se pague com ela músicas ou filmes. Além disso, esta tecnologia estimula mais a criatividade se permitirmos a troca livre de informação do que se a licenciarmos à cobrança. Mas isso fica para a o último episódio da série.

1- Actos e expressão 1: da ameaça ao insulto.
2- Wintech, Pirata Condenado a Indemnizar a Symantec
3- O Miguel Caetano tem a notícia no Remixtures, É permitido partilhar até 3000 músicas e 200 filmes na Alemanha. Eu até soube disto uma semana antes, mas foi por “fontes confidenciais” ;)

sexta-feira, agosto 15, 2008

Spam divino.

O Mats escreveu acerca de um filtro de spam desenvolvido por Alaa Abi-Haidar e Luís Rocha. O filtro (1) baseia-se num modelo da regulação do sistema imunitário de vertebrados (2). Neste modelo, a capacidade do organismo distinguir entre si próprio e invasores emerge da competição entre populações de linfócitos que estimulam (TE) ou reprimem (TR) a resposta do sistema. As referências têm os detalhes mas queria focar o aspecto emergente do mecanismo.

Cada célula reage apenas às condições locais. Um linfócito TE divide-se se encontra o antigénio sozinho ou na companhia de outro TE, aumentando a resposta do sistema. O TR divide-se quando encontra um antigénio na companhia de um TE, inibindo a proliferação do TE e reprimindo a resposta do sistema. Estas populações pendem para uma maioria de TR ou de TE em função da quantidade de antigénio e das quantidades iniciais de cada linfócito. Isto que dá ao nosso sistema imunitário a capacidade de distinguir, na maioria dos casos, entre as nossas células e os agentes infecciosos. Não é um sistema perfeito mas é muito eficaz, e um sistema análogo poderá melhorar os nossos filtros anti-SPAM criando imunidade electrónica a essas pragas. E o interessante é que a propriedade quase inteligente de distinguir o bom e o mau emerge da interacção de agentes, células ou funções, sem qualquer inteligência individual.

O Mats chama a isto «Aprendendo com Deus» (3) porque «os sistemas biológicos não se arquitectaram a si próprios, nem a ciência dentro deles é produto deles mesmos». Eu pedi ao Luís que comentasse esta afirmação do Mats, e ele teve a amabilidade de me escrever: «A minha resposta a este comentário é que quem [o] fez não sabe a diferença entre modelo e realidade. Qualquer modelo é à partida feito por um agente epistémico, por isso, qualquer modelo necessita de ter as suas regras espcificadas pelo modelador. A conclusão de que a realidade será também especificada por um modelador inteligente não pode ser provada ou refutada; necessita de um acto de fé, o que mete a questão fora do âmbito da ciência.»

Sem querer ou de propósito, os criacionistas insistem em confundir o mapa com o território (4). Não há «ciência dentro» do ângulo formado pelos átomos de hidrogénio e o átomo de oxigénio da água, por exemplo. A ciência está em quem quer medir, calcular e compreender porque é que este ângulo tem aquele valor (5). A lagarta come maçã sem saber bioquímica e a chuva chove sem perceber nada do que faz. A ciência é o método pelo qual nós compreendemos os processos.

Eu sou menos generoso que o Luís. A hipótese de um Criador do universo é impossível de refutar, comprovar ou sequer testar. Se só houvesse esta a hipótese não poderíamos concluir nada. Qualquer conclusão seria adivinhar à sorte. Mas há infinitas hipóteses na mesma situação: Deus; a Tia dele; o Supra-Deus que criou Deus; eu, que posso ter criado o universo e depois ter me esquecido, e assim por diante. São todas irrefutáveis e impossíveis de testar. Por isso aceitar uma delas em detrimento das outras é injustificável. Seja por fé seja por um-dó-li-tá. O mais razoável é rejeitá-las todas por omissão até que haja evidências que favoreçam claramente uma delas.

Mas este post é acerca de outra coisa. O objectivo do criacionismo moderno é destruir o “materialismo científico”. «Se virmos a ciência materialista predominante como uma árvore gigante, a nossa estratégia pretende funcionar como uma “cunha” que, mesmo que relativamente pequena, pode rachar o tronco se aplicada nos pontos mais fracos» (6). Isto passa por denegrir o trabalho científico. O Jónatas Machado deu um exemplo com a sua rábula da Mary Schweitzer deixar cair o fóssil ao chão (7) e o Mats quer fazer o mesmo alegando que a ciência está no sistema imunitário.

O sistema imunitário dos vertebrados é interessante porque “aprende” sem qualquer inteligência. Nada neste sistema sugere antecipação inteligente, nem no funcionamento nem na concepção. Pelo contrário; é só geração cega e testes a posteriori. Os genes dos linfócitos são criados ao acaso. Se lhes dá para atacar o nosso corpo são eliminados e se lhes dá para atacar doenças proliferam.

A inteligência está em desvendar e compreender esta complexidade emergente e em abstrair daí modelos que se apliquem a outras situações. Como filtros anti-spam. Os criacionistas querem pôr toda a inteligência no deus deles (e só no deles) e deixar-nos a pasmar boquiabertos. Felizmente ainda há muita gente que prefere pensar que pasmar, senão andávamos a escrever blogs em placas de argila.

1- Abi-Haidar e L.M. Rocha, Adaptive Spam Detection Inspired by a Cross-Regulation Model of Immune Dynamics: A Study of Concept Drift.
2- Jorge Carneiro et al, When three is not a crowd: A crossregulation model of the dynamics and repertoire selection of regulatory CD4 T cells, Immunological Reviews, Volume 216, Number 1, April 2007 , pp. 48-68(21) (preprint em pdf).
3- Mats, 6-8-08, Sistema Imunitário e Spam: Aprendendo com Deus
4- O Mapa e o Território
5- London South Bank University, Water molecule
6- The Wedge Strategy, ver também na Wikipedia.
7- Treta da Semana: Fósseis frescos.. Mas entretanto há indícios que o material orgânico nos fósseis pode ser contaminação bacteriana.

quinta-feira, agosto 14, 2008

Treta da Semana: A Cerimónia.

A China é uma das civilizações mais antigas, tem a escrita mais antiga de todas em uso corrente e é um país imenso. Só etnias minoritárias tem 55 e perfazem 123 milhões de pessoas. Quem já leu as descrições ou instruções dos produtos nas lojas de chineses percebeu a grande diferença entre a nossa lingua e a deles. Por isso talvez a treta desta semana seja um mal-entendido, algo que se perdeu na tradução. Mas suspeito mais da imbecilidade inevitável de seguir uma ideologia sem pensar no que se faz nem prestar contas a ninguém.

Lin e Yang

À esquerda, Lin Miaoke, de nove anos, foi a estrela da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos. À direita Yang Peiyi, de sete, foi quem cantou às escondidas enquanto Miaoke fazia playback. Nos ensaios, um membro importante do Partido terá dito que Peiyi tinha uma voz perfeita mas não servia para o papel porque tinha os dentes tortos. Foi assim que puseram uma miúda de sete anos a cantar às escondidas e outra de nove a fingir que cantava e a dar entrevistas. «O principal foi o interesse nacional. A criança no ecrã deveria ser perfeita na imagem, nos sentimentos e na expressão. Quanto à voz, Yang Peiyi era perfeita, na opinião de todos» (1).

Será que é do interesse nacional da China ser conhecida como a República Popular Milli Vanilli?

1- Telegraph, Beijing Olympics: Faking scandal over girl who 'sang' in opening ceremony

terça-feira, agosto 12, 2008

A Resposta ao falhanço do naturalismo ateu.

Um texto de Constâncio Ladainha, criacionista e gertrudista.

O estimado Perspectiva comentou aqui neste blogue um post do De Rerum Natura (1). Vem a propósito porque ambos os blogues são da autoria de naturalistas ateus e, por isso, compreende-se a resposta num ao que está escrito no outro. Não é, de forma alguma, tentativa de protagonismo. E apesar de não ter nada a corrigir ao comentário esclarecedor do Perspectiva, excepto talvez ele ter omitido Gertrudes, a quarta Pessoa Divina e veículo da criação do Pai, como sei que o dogma naturalista dificulta a compreensão da Palavra achei por bem frisar alguns aspectos que me parecem especialmente notáveis.

O mais importante é que a Bíblia, a nossa Fé, e a Revelação, são a via certa para a Resposta. A Verdade é só uma e, por isso, todas as perguntas têm que ter a mesma resposta. A saber, que é assim pela vontade de Deus e por intermédio de Gertrudes. O post original enumerava alguns mistérios da ciência, questões que a ciência não sabe responder mas que têm uma resposta clara e evidente. Passo a citar o excelente comentário do meu caro Perspectiva:

«1. Porque há qualquer coisa em vez do nada?
Porque tudo o que existe foi criado por um Deus infinito[...]
2. Como surgiu a vida?
Ela foi criada pela Palavra de Deus [...]
Quando Deus criou as galinhas [...]
A consciência [...] é um reflexo do facto de termos sido criados à imagem de Deus [...]
O nosso mundo depende [...] da informação que lhe é fornecida por Deus[...]
O tempo é uma criação de um Deus eterno»


E assim por diante. É esta a resposta: Foi Deus. O Mats, que também tem tentado ajudar o Ludwig e outros ateus a compreender os erros do evolucionismo, salientou várias vezes que as ciências naturalistas usam métodos diferentes para abordar problemas diferentes. Ou seja, a fé no naturalismo faz com que perguntas diferentes tenham respostas diferentes. É uma confusão.

E as respostas científicas são contingentes. Só parecem acertar e ter alguma utilidade porque o Universo é assim como é. Mas se não fosse não serviam para nada. Por exemplo, os evolucionistas alegam que os mamíferos não têm guelras porque os seus antepassados comuns mais recentes já não as tinham. É uma história bonita mas só porque não há mamíferos com guelras. Se houvesse golfinhos ou baleias com guelras o disparate seria óbvio e toda a gente veria esta hipótese como ridícula. É por causa desta fragilidade que as ciências têm que a mudar as explicações com tanta frequência, como se a verdade fosse uma num dia e outra no dia seguinte.

Não é. A Verdade é sempre a mesma. Foi Deus, por intermédio de Gertrudes. Se não há golfinhos com guelras é porque Deus não quis. E se houvesse golfinhos com guelras, pois seria porque Deus queria. Esta é uma hipótese que só pode ser verdadeira. Vou explicar melhor com uma analogia. As ciências tentam construir um modelo da realidade usando várias hipóteses como ferramentas. São chaves de fendas, serrotes, martelos e alicates, cada uma para o seu propósito, cada uma usada se servir ou deitada fora se não for adequada. Mas o criacionismo é Verdade. Serve em todo o lado e molda-se perfeitamente à realidade qualquer que esta seja. É como uma bola de plasticina. Haverá ferramenta melhor do que esta?

1- Os dez maiores enigmas da ciência, no De Rerum Natura, e Até um relógio parado, aqui.

segunda-feira, agosto 11, 2008

Pirate Mascalzone!

Demonstrando mais uma vez que os políticos não compreendem esta tecnologia, na Itália mandaram os ISPs bloquear o acesso ao site Pirate Bay (1). Quando forem à praia cheguem-se à beira mar, façam um risco na areia e digam «Daqui não passas!» Terão uma boa ideia do efeito.

O propósito da Internet, desde que era ARPANET, foi sempre resistir a este tipo de impedimentos. Seja por guerra nuclear, por falha de nós intermédios ou, neste caso, por mera estupidez, se não se consegue ligar por um lado liga-se por outro. Em poucos minutos os gestores do Pirate Bay criaram um domínio especialmente para os italianos (http://labaia.org) e mudaram os endereços IP do site, ultrapassando de imediato as medidas de muitos ISPs. Entretanto a notícia do Pirate Bay já está guardada em cache no Google (2), por isso mesmo quem não conseguir aceder ao site pode ler as instruções para ultrapassar o bloqueio. E é simples. Basta usar os servidores de nomes de domínio da Open DNS (3) em vez dos servidores do ISP.

Por um lado isto é preocupante porque o Pirate Bay nem sequer tem conteúdos protegidos por copyright. É um fórum onde as pessoas trocam identificadores e comentários acerca destes conteúdos, e é um tracker que regista quem partilha ficheiros para que os pares se encontrem facilmente. Mas como não podem impedir milhões de pessoas de trocar dados entre si, tentam impedir que falem uns com os outros acerca disso.

Mas por outro lado é ridículo. A única coisa que vão conseguir é aumentar o número de visitas ao Pirate Bay, como fez a Dinamarca em Fevereiro (4).

PS: Isto aconteceu ontem, mas na Wikipedia já está «As a countermeasure they created http://labaia.org so users in Italy could still access the site.» Wikipedia, The Pirate Bay.

1- thepiratebay.org
2- Fascist state censors Pirate Bay (Google cache).
3- Open DNS, Start
4- TorrentFreak, Danish Pirate Bay Block Breaks EU Law

domingo, agosto 10, 2008

Treta da Semana: Dr. Karadzic.

Radovan Karadzic foi psiquiatra, activista, presidente da Republica Sérvia, genocida, criminoso procurado e, em paralelo com este último, terapeuta de medicina alternativa numa clinica em Belgrado. Deu palestras como perito em «energia quântica humana» e publicou artigos numa revista da especialidade. Como tinha papeis falsos teve que dizer que tinha deixado o diploma de neuropsiquatria com a ex-mulher. Mas não houve problema. A revista apresentou-o como «investigador espiritual»(1).

Se alguém sem qualificações se faz passar por enfermeiro, cirurgião ou até canalizador topam-no num instante. Mas tretas como a medicina alternativa são mais permissivas. Se não há distinção entre o que funciona e o que não funciona qualquer um pode fazê-lo. É claro que depois de estabelecido o negócio vêm dizer que é preciso “regular” a actividade, “certificar” os praticantes e garantir a “qualidade” da prática. Ou seja, querem tachos. Mas continua a não funcionar.

Quando perguntaram à Sra. Chatfield, da sociedade britânica de homeopatas, se havia alguma forma de distinguir entre medicamentos homeopáticos ela respondeu «só pelo rótulo» (2). É que nestas coisas não há mais nada. O ano passado também apanharam por cá um tal Agostinho Coutinho Caridade que se fazia passar por padre. Celebrava casamentos, baptizados, missas e funerais mas não o descobriram por ter falhado a transubstanciação da hóstia ou por a água que benzia não ficar tão benta como a dos outros. Descobriram que o rótulo era falso (3).

Infelizmente, a dependência do rótulo não se limita a casos em que a imitação e o genuíno são o mesmo. O António Raposo foi professor no ensino secundário durante trinta anos, tendo apresentado um certificado falso de licenciatura em economia(4). Segundo os colegas e alunos, sempre desempenhou as suas funções «na perfeição»(5). Chegou até a presidente do conselho executivo, o que não quer dizer muito mas sugere que não era notavelmente menos competente que os seus pares. Aldrabou, mereceu o castigo, mas preocupa-me que a coisa tenha ficado por aí. Porque o que isto nos diz é que o rótulo não é de fiar.

Se o António era incompetente deixaram-no ensinar durante trinta anos sem notar nada. E se o António era competente então admitir professores no ensino secundário só pelo rótulo talvez seja asneira. Possivelmente a correlação entre uma licenciatura e a capacidade de ensinar crianças é muito ténue. E a matéria leccionada no ensino secundário não exige necessariamente formação superior. O problema não é fácil de resolver. Avaliar a qualidade dos professores é uma tarefa complexa. Mas isso não é desculpa para resolver o problema da forma errada só porque é mais simples.

Moral da história, não se fiem no rótulo. Se a única diferença é o que está no papelinho o mais certo é que o resto seja treta.

1- B92, 22-7-08, Karadžić "practiced alternative medicine"
2- Select Committee on Science and Technology, Examination of Witnesses (Questions 520-539)
3- DN Sapo, Falso padre até a casar era burlão
4- Diário IOL, Falso professor condenado a 18 meses de prisão
5-AEIOU, Falso professor apanha 18 meses de pena suspensa

quinta-feira, agosto 07, 2008

Até um relógio parado

está certo duas vezes por dia. O Mats, no seu blog “Darwinismo”, escreveu:

«Não contentes com as já existentes e mutuamente exclusivas teorias naturalistas sobre a origem da vida, os evolucionistas avançam com mais uma para a colecção. (Alguma há-de estar certa!)»(1)

Ora aí está. A “teoria” que o Mats refere é uma hipótese especulativa. Investigadores na universidade de Ulm demonstraram que a superfície do diamante catalisa a formação de moléculas orgânicas complexas em presença de hidrogénio (2). Isto levou-os a propor que este processo terá originado a vida na Terra. É uma hipótese ainda com muito trabalho pela frente.

Mas o Mats tem razão. Os cientistas avançam sempre com muitas hipóteses. Quanto mais melhor. Porque querem encaixá-las umas nas outras e nos factos e precisam de muitas porque as que não encaixam vão fora. E um puzzle tão complexo como a Natureza precisa de muitas peças até que se perceba o boneco. Infelizmente, o mérito é mesmo só das horas. O Mats, como outros criacionistas, desaprova desta coisa de fazer puzzles encaixando muitas peças diferentes. Para eles o puzzle bom só tem uma peça, graças a Deus.

1- Mats, Diamantes e a Origem da Vida
2- Earth Times, We all started out as diamonds in the rough, German scientists say

Printcrime

é o título de uma pequena história escrita por Cory Doctorow. Foi publicada na Nature em 2006, por isso não é novidade. Mas vale a pena ler. E reler.

Printcrime.

Editado: num dos comentários à história encontrei isto. Parece-me que daqui a uns anos vamos ter que pensar ainda mais seriamente se queremos essa treta da propriedade intelectual...

terça-feira, agosto 05, 2008

Crime e castigo à americana.

Em 2001 e 2002, do seu quarto em Londres, Gary McKinnon acedeu a 97 computadores das forças armadas dos EUA e da NASA. McKinnon procurava ficheiros sobre extraterrestres, antigravidade, geração gratuita de energia e outras tretas. E o seu método para cometer o que os americanos chamam «the biggest military hack of all time» foi experimentar palavras-chave que vêm de fábrica em muito equipamento de ligação à Internet. Ou seja, o seu sucesso deveu-se a haver pelo menos 97 computadores nestas redes que ainda tinham as passwords do fabricante.

Os EUA podiam ter despedido os incompetentes que configuraram as redes militares e dado uma medalha ao tipo que mostrou como aquilo estava mal feito (os norte coreanos e os chineses esqueceram-se de os de avisar). Mas para isso era preciso um mínimo de bom senso. Por isso optaram pela alternativa. Pediram a extradição para McKinnon ser julgado nos bons EU da A onde se habilita a 60 anos na cadeia à conta da incompetência americana. Apesar de ter só bisbilhotado e antes do 11 de Setembro, McKinnon é considerado um perigoso terrorista.

Esta semana a justiça do Reino Unido concedeu o pedido de extradição. A menos que o tribunal Europeu dos direitos humanos intervenha, McKinnon vai ser sacrificado numa tentativa inútil de expiar a incompetência americana.

Mais no Guardian, America's cracked code e na Wikipedia, Gary McKinnon. Via Schneier on Security.

domingo, agosto 03, 2008

Bom e barato, VI

Randy Pausch foi professor de informática em Carnegie Mellon e um dos criadores do Alice (1). Em Carnegie Mellon é tradição os professores que se reformam darem uma “última lição” com o que ensinariam se fosse a última coisa que podiam ensinar. A de Pausch foi em Outubro do ano passado, com 47 anos. Não porque se queria reformar mas porque tinha cancro pancreático e apenas alguns meses de vida. Morreu no passado dia 25. É triste mas inspirador, não só a lição mas a forma como lidou com a situação*.

A lição está aqui: Achieving Your Childhood Dreams, e aqui o relato dos últimos meses. Via o blog de borfast e The Lippard Blog.

James Duane é professor na faculdade de direito da Regent University. Nesta palestra, Don’t talk to the police, explica porque nunca devemos dizer nada à polícia se formos suspeitos seja do que for. Georges Bruch, agente da polícia com décadas de experiência em interrogatórios, continua o argumento nesta e dá exactamente o mesmo conselho. O processo penal nos EUA é diferente do nosso mas penso que o mesmo raciocínio se aplica por cá. Segundo o artigo 61º do Código de Processo Penal:

« O arguido goza, em especial, em qualquer fase do processo e, salvas as excepções da lei, dos direitos de: [...]
c) Não responder a perguntas feitas, por qualquer entidade, sobre os factos que lhe forem imputados e sobre o conteúdo das declarações que acerca deles prestar»


Via Schneider on security.


Para terminar num tom mais alegre, um site viciante. TV Tropes é um wiki com uma lista enorme de truques de enredo usados em TV, livros, banda desenhada e até jogos de computador. Alguns exemplos: More Dakka, Imperial Stormtrooper Marksmanship Academy, Growing the Beard, Arbitrary Skepticism.

O único defeito do site é o tempo que nos faz desperdiçar...

* Eu sei que isto parece mal num post com este título. Mas penso que ele preferiria ser celebrado pela sua vida do que lamentado pela sua morte.

1- www.alice.org

sábado, agosto 02, 2008

O custo do CD

Bernardo Macambira foi condenado a quatro meses de prisão «devido à apreensão de um CD pirata» (1) que terá usado para tocar música numa discoteca. Um CD de música custa entre dez e vinte euros e uma discoteca paga em média cerca de mil euros por mês pela licença de tocar músicas, metade à Sociedade Portuguesa de Autores (2) e metade à Passmúsica pelos direitos conexos (3). Tendo em conta o que a discoteca já paga e o valor do alegado prejuízo que o condenado causara, a pena parece injusta e a própria ilegalidade do acto questionável. Mas quero focar outro aspecto.

O propósito destas leis é incentivar e proteger a criatividade artística porque isso beneficia a sociedade. Mas consideremos o custo ao erário desta protecção e incentivo. Do Bernardo Macambira recolhemos a multa de 435€ (1) mas custa ao estado 40 euros por dia enquanto estiver encarcerado (2), uma despesa líquida de 4400 euros. Se ele ganhava aproximadamente o que eu ganho, pagaria cerca de 1000€ em impostos e segurança social por mês se estivesse a trabalhar. Mais quatro mil euros que não recebemos. E quatro meses de cadeia vão certamente reduzir o seu rendimento, e os impostos que pagará, nos meses seguintes. Numa estimativa conservadora o custo directo de o prender é 10,000€ só em despesas e perda de impostos. A isto aínda acresce o custo do processo em si, da fiscalização ao julgamento, e o impacto económico de pôr na prisão quem estava a trabalhar.

Assim, para punir 10€ de prejuízo os contribuintes pagam mais de mil vezes esse valor. E em benefício de quem já estava a receber mil euros por mês pela licença de passar música na discoteca.

Eu proponho uma alteração ao processo. Visando incentivar a criatividade artística, proponho soltar o Bernardo; multar as discográficas em 10,000€, o valor do prejuízo que queriam causar; juntar esta quantia aos 10,000€ poupados por não prender o Bernardo e contribuir os 20,000€ para bolsas de estudo a jovens músicos ou melhor educação musical nas escolas. Seria um investimento mais rentável do que gastar tanto dinheiro a proteger um negócio inútil.

1- IOL, Bernardo Macambira preso por pirataria
2- SPA, tabelas
3- Passmusica. O site é horrível. Têm que esperar que carregue o lixo todo e depois ir a tarifários para ver os preços.
4- Correio da Manhã, Presos Custam Menos 25€/Dia

sexta-feira, agosto 01, 2008

Treta da Semana: o cliente é sempre ladrão.

Antigamente o cliente tinha sempre razão. Agora processam os fãs, “protegem” os CDs para instalar coisas que não queremos e não nos deixar ouvir a música como quisermos (1). As músicas compradas online vem com sistemas de “gestão de direitos” para eles gerirem os nossos direitos por nós. E se a loja fecha temos que comprar tudo outra vez (2).

Os DVDs também nos “protegem” de ver na Europa um filme comprado nos Estados Unidos (3). A premissa é sempre que os clientes são ladrões. O site da FEVIP, e os DVDs que compramos por cá, fazem questão de passar filmes a acusar-nos de ladroagem ou, pior, com um rato a chamar-nos idiotas (4).

O software que compramos vem com dezenas de páginas de “licença” a dizer o que não podemos fazer e o que nos fazem se o fizermos. Acho. Como todos, eu também não leio os EULA. Mas, por norma, estamos proibidos sequer de descobrir o que é que o programa faz ao nosso PC. Nada de bisbilhotar.

Os jogos vêm com sistemas de protecção diabólica (5) e obrigam a deixar o DVD a rodopiar no leitor só para o estragar mais depressa, e pagamos dezenas de euros por uma rodela de plástico. Dizem que o dinheiro é pela licença de utilização, mas um risco na rodela e são mais umas dezenas de euros para uma “licença” nova. Não há protecção contra riscos, mas está tudo protegido contra o cliente que o comprou. Ladrão. E a moda agora já nem é só no digital. Do campo pequeno à costa são cinco módulos mas para a FCT são só quatro. Quando pico um bilhete de quatro módulos o motorista pergunta sempre “Para onde vai?” Compreendo. Devo ter cara de ladrão.

No tempo das disquetes dizia-se que o software original era mais seguro. As cópias podiam ter vírus. Hoje o melhor é deixar o original no pacote e usar a versão pirata- Não “gere direitos”, permite fazer cópias pelo seguro e não pede activações, verificações e afins. Instala-se e funciona. O software original primeiro quer garantias que não somos ladrões. Os filmes sacados da Internet não têm ratinhos idiotas no inicio, mas os DVDs comprados na loja obrigam a gramar idiotices e insultos antes de mostrar o filme pelo qual pagámos. E a música sacada em mp3 toca em todo o lado, sem licenças, incompatibilidads ou “gestão de direitos”.

A semana passada pensei que isto tinha mudado. Sins of a Solar Empire (6) é um jogo de estratégia como eu gosto. Além disso não tem sistemas de protecção e quando fui ver o preço ao site tinha a opção para comprar por download directo. Um click, 25 euros, e tinha o jogo. Foi preciso instalar um programa de distribuição (7), mas isso pode facilitar a vida a quem não se quer preocupar com actualizações ou outros detalhes. E como permite fazer cópias de segurança dos jogos instalados, comprei e descarreguei o jogo.

Mas quando o tentei instalar no PC que usamos para jogos descobri que para recuperar a cópia de segurança também é preciso “validar” o instalador com uma ligação à Internet. Que aquele computador não tem. Após umas voltas descobri que o arquivo é apenas um zip com extensão diferente e cifrado com uma palavra passe que é o nome do utilizador (deve ser mesmo só para chatear). Mas é uma imagem do jogo como está instalado e uns ficheiros à parte com a informação do registo, bibliotecas no sistema e coisas dessas. Vinte e cinco euros, um giga de download e uma carga de trabalhos para pôr aquilo a funcionar onde quero. Felizmente há o Pirate Bay (8).

O problema não é competirem com o gratuito. O problema é serem chatos como o raio. Não me custa dar o preço de um jantar por um jogo que me vai entreter dezenas de horas (se vou ter tempo para o jogar é outro problema...). Mas custa-me esbarrar com obstáculos idiotas ou exigências disparatadas apenas porque assumem que sou ladrão. Ainda por cima sabendo que se não lhes pagar tenho todo o proveito sem nenhuma chatice.

A maior ameaça à economia de informação não é a quebra dos monopólios. É tornarem o comércio, que era uma troca voluntária para beneficio mutuo, em algo mais parecido com cobrança de impostos ou rusga policial. Os videos da FEVIP dizem que «combater a pirataria é um dever cívico». Treta. Dever cívico é não aceitar que vendam carros que só andam à quarta feira ou televisores que só funcionam na cozinha. É exigir que quando pagamos por algo o possamos usar como entendemos. E é não lhes comprar mais porcaria nenhuma enquanto não respeitarem os clientes.

1- Wikipedia, Sony BMG CD copy prevention scandal
2- Miguel Caetano, Remixtures, Yahoo reembolsa clientes que compraram música com DRM
3- About.com, DVD Region Codes - What You Need To Know
4- FEVIP. Façam refresh no site para ver outro filme. Há 3 diferentes, passam ao acaso.
5- Boing-Boing, Anti-copying malware installs itself with dozens of games
6- www.sinsofasolarempire.com
7- Wikipedia, Impulse
8- Pirate Bay

quinta-feira, julho 31, 2008

Razões para crer. 3- E para descrer.

«[O] pensamento claro e o respeito por indícios concretos – especialmente os indícios inconvenientes que contrariam os nossos preconceitos – são cruciais para a sobrevivência da espécie humana no século XXI»
Alan Sokal, «O que é a ciência e porque é que isso interessa?»(1)

«Deus que Se dá a conhecer na autoridade da sua transcendência absoluta, traz consigo também a credibilidade dos conteúdos que revela.»
João Paulo II, «Fides et ratio»(2)

Alguma da filosofia do último século ajudou a compreender a ciência, especialmente pela demarcação entre o que é e não é ciência. Popper propôs a falsificabilidade como característica fundamental; a hipótese científica tem que admitir que algo observável a possa refutar. Assim o criacionismo fica de fora porque o que quer que se observe é compatível com um criador omnipotente, e a hipótese que permite tudo não serve para nada. Mas Kuhn apontou que falsificar é pouco vulgar na ciência. O mais comum é resolver problemas. Quando um astrólogo falha numa previsão encolhe os ombros e segue para a próxima. Mas um astrónomo, quando falha, tem mecanismos para verificar os cálculos, reconsiderar premissas e confirmar observações até encontrar o problema e resolvê-lo. E só quando o problema é muito profundo é que há uma «mudança de paradigma».

Lakatos tirou a ênfase da hipótese isolada e mudou-a para as hipóteses em conjunto, o «programa de investigação». A biologia tem hipóteses centrais acerca da evolução e parentesco de todos os seres vivos. Estas não costumam ser postas à prova. São as hipóteses periféricas como a existência daquela forma intermédia ou a classificação deste organismo que são normalmente sujeitas a testes directos. Como se pode sempre proteger as hipóteses centrais sacrificando as periféricas, a questão principal não é a falsificação da hipótese isolada mas o desempenho do programa como um todo. Ou seja, se as revisões permitem prever melhor e resolver novos problemas ou se, pelo contrário, apenas disfarçam os falhanços com desculpas retrospectivas.

Isto é um resumo grosseiro de um tema complexo mas serve os objectivos deste post (até porque incluem não adormecer o leitor). Um é mostrar que a ciência é o caminho para o conhecimento. A verdade tem que ser claramente distinta da treta e o conhecimento só o é se resolve problemas ou responde a perguntas. E as hipótese que não se conformam ao que observamos devem ser corrigidas de maneira que permita compreender cada vez mais e cada vez melhor. No conhecimento, e na ciência, não há lugar para mistérios insondáveis, verborreia confusa ou desculpas teimosas em nome da fé.

Outro objectivo é desmascarar o truque de qualificar este conhecimento de “científico” para, enquanto o público olha para essa mão, a outra tirar do bolso o “conhecimento” teológico, transcendente, revelado, a priori ou o que mais calhe. Esses não são conhecimento. A premissa que um Deus perfeito escreveu a Bíblia permite inferir que a Bíblia é a verdade revelada. E as regras do Xadrez permitem inferir que o cavalo anda em L. Nem uma nem outra dizem o que quer que seja acerca da realidade. São meros jogos de lógica abstracta, e o conhecimento tem que ser mais que isso. Tem que confrontar o que observamos, responder a perguntas e levar-nos a compreender coisas que desconhecíamos.

Principalmente, quero contrapor a ideia que não podemos afirmar não haver deuses. Segundo a Enciclopédia Católica, «que tal afirmação é irrazoável e ilógica não precisa de demonstração porque é uma inferência injustificável pelos factos ou pelas leis do pensamento». É exemplo típico de duplicidade de critérios, de terminologia vaga (nunca explicam que “leis” são essas) e um erro flagrante se “leis do pensamento” se referir à atitude crítica e de respeito pelos factos que nos conduz ao conhecimento.

Há uma razão forte para descrer dos deuses. Muito mais forte que qualquer prova deduzida de axiomas tirados do chapéu. É que as hipóteses da existência de deuses só atrapalham. Ou contradizem a realidade ou não dizem nem sim nem não e, quer num caso quer noutro, não servem para compreender nada. Tal como não é preciso uma demonstração matemática para tirar a pedra do sapato, também não é preciso uma prova irrefutável para deitar fora os raciocínios circulares, a retórica obscura e as hipóteses inúteis que dificultam a caminhada. É que mesmo que nunca cheguemos ao conhecimento perfeito só temos a ganhar com os avanços na direcção certa.

1- O texto completo está aqui (em pdf). Recomendo.
2- Texto integral aqui.
Episódios anteriores:
Razões para crer. 1- Conhecimento.
Razões para crer. 2- Dois é companhia.

quarta-feira, julho 30, 2008

(Mais um) milagre do Sol.

Maria gosta de aparecer no Sol. Pelo menos, é o que disseram em Fátima e em Erumeli, na Índia. Em Fátima tiveram mais sorte, com o dia nublado. Em Erumeli já cinquenta pessoas ficaram cegas com danos irreversíveis na retina por tentar ver a aparição milagrosa no Sol.

Telegraph, Dozens blinded in India looking for Virgin Mary

terça-feira, julho 29, 2008

Adenda ao post anterior.

Tenho mais medo de quem me ameaça com uma faca do que de quem me possa mandar prender por eu ameaçar alguém com uma faca. Mas tenho menos medo de quem diz mal de mim do que de quem me possa mandar prender por eu dizer mal de alguém. É verdade que preferia que ninguém ameaçasse, ninguém dissesse mal e ninguém mandasse prender ninguém. Mas não podemos escolher leis na ilusão que vão pôr o mundo tal e qual nós preferimos. Temos que as escolher conscientes que trocamos o risco de ser vítima do crime pelo risco de ser vítima do castigo.

segunda-feira, julho 28, 2008

Actos e expressão 1: da ameaça ao insulto.

A minha irmã sugeriu que trouxesse para um post mais recente a discussão sobre calúnias, injúrias e liberdade de expressão (1). E ocorreu-me que um problema desta discussão é confundir a regulação de actos com a restrição da liberdade de expressão. Isto também se aplica à propriedade intelectual, mas vou fazer um esforço e deixar esta de lado por enquanto.

A liberdade de expressão é um direito fundamental na nossa sociedade. Em teoria. No entanto, não hesitamos em condenar quem grita “Fogo!” para lançar o pânico num cinema cheio de gente, quem mente no tribunal ou até quem vende bolacha Maria em pacotes marcados “Bolacha de Chocolate”. E isto dá a sensação de, na prática, a liberdade de expressão ser menos importante que as bolachas. Mas não é verdade.

O que se passa é que comunicar pode ser mais que exprimir ideias ou dar informação. Promessas, ameaças, pedidos ou aldrabices visam influenciar os outros e é essa influência que queremos regular. O direito de influenciar os outros tem que ser limitado pelo direito dos outros à sua autonomia. O mais importante é distinguir o acto e a expressão da ideia, e é isso que fazemos. Não censuramos a ideia do cinema a arder. Punimos apenas o uso dessa ideia para provocar pânico. Não censuramos a expressão da bolacha Maria no pacote das de chocolate ou da ideia de mentir no tribunal. O que fazemos é punir quem usa estas ideias para prejudicar os outros.

Por isso concordo que a lei intervenha em casos de ameaça, quebra de contrato ou publicidade enganosa, porque é fácil punir o acto de coagir, manipular ou enganar o outro sem restringir a liberdade de expressão. Por outras palavras, não se censura a ideia de apontar uma faca e exigir o dinheiro. Castiga-se o assaltante. Mas, pela mesma razão, discordo que a lei intervenha nos insultos, injúrias ou “atentados ao bom nome”. O que ofende nestes casos é a própria expressão da opinião. Aqui o conflito é entre o direito de exprimir uma opinião e o direito de impedir os outros de dizer o que não gostamos de ouvir. Claramente, o primeiro deve prevalecer. O segundo até é ridículo. Infelizmente, a nossa lei padece desta confusão, e o artigo 252º do Código Penal Português é um exemplo.

«Impedimento, perturbação ou ultraje a acto de culto
Quem:
a) Por meio de violência ou de ameaça com mal importante impedir ou perturbar o exercício legítimo do culto de religião; ou
b) Publicamente vilipendiar acto de culto de religião ou dele escarnecer; é punido com pena de prisão até um ano ou com pena de multa até 120 dias.»


A primeira alínea é razoável. Entre o direito à prática religiosa e o “direito” de ameaçar ou bater nos outros a escolha é fácil. Mas a segunda alínea é um disparate porque pune a expressão de uma opinião. O conflito entre a liberdade de expressão e o alegado “direito” de não dizerem mal das minhas crenças nunca devia ser resolvido em favor do último. Alguém confundiu bolachas com direitos.

Mas estes casos extremos são os mais simples. A calúnia, a alegação falsa para prejudicar alguém, é um problema mais complexo porque está no meio. Em teoria, devia-se poder separar a expressão da ideia e o acto de caluniar mas, na prática, é muito difícil punir a alegação sem castigar a opinião, e a lei não serve para trabalhos delicados. Não é com leis que se castiga calúnias sem atropelar o direito à opinião. É como fazer ponto cruz com uma escavadora.

A solução é restringir o âmbito da lei a casos bem delimitados. Denúncias à polícia, testemunhos em tribunal e actividades económicas ou profissionais, por exemplo. Punindo a calúnia apenas nestes casos resolve-se o problema maior sem eliminar o direito à opinião pessoal. Concordo que era bom que não espalhassem opiniões falsas ou mentiras maldosas. Mas mesmo isso não vale a censura, que só me parece justificar-se para proteger a privacidade. O direito de manter algo no foro íntimo é mais importante que o direito de revelar intimidades alheias. Mas, de resto, restringir a liberdade de expressão para combater opiniões que nos desagradam é escolher o mal maior.

1- Simetria

domingo, julho 27, 2008

Treta da Semana: Kryon.

Recebi um email da Casa Índigo a anunciar que a passada sexta feira foi um dia fora do tempo e que ontem começou o Ano Tormenta Eléctrica Azul (1). Agora estamos na Lua Magnética do Morcego, que dura até 22 de Agosto. Depois começa a Lua Lunar do Escorpião. O adjectivo «Lunar» é para distingui-la das de Azeitão, Cabra Transmontana, Rabaçal ou Tipo Serra.

À frente da Casa Índigo está Tereza Guerra, que além de licenciada em filosofia é «Kin 212: Humano Auto Existente Amarelo» e está a tirar um doutoramento em «Educação de Crianças Índigo». É pena não dizer onde nem com quem porque eu gostava de fazer umas perguntas ao seu orientador (nomeadamente, WTF?!?)*

Mas a fonte desta sabedoria é Lee Carroll, que, segundo o próprio, «canalizou» Kryon, uma «entidade extra-física [...] do "Serviço Magnético", oriunda do Sol Central». Não é o que estão a pensar. Quando li isto também imaginei um ser invisível com milhões de braços espalhados pelo mundo a segurar bonequinhos aos frigoríficos. Mas não. A missão de Kyron é «alterar o alinhamento magnético do nosso planeta» e «elevar o planeta a um nível vibratório superior» (3). Caro senhor Kryon, isto não me parece boa ideia.

O campo magnético da Terra é gerado por correntes de magma no interior do planeta. Como a espessura da parte sólida que habitamos é apenas umas milésimas do total eu preferia que o Sr. Kryon deixasse tudo como está. Porque se se descuida a mexer nas correntes de magma ainda ficamos todos a nadar em lava. E, já agora, também prefiro que não ponha o planeta num nível vibratório superior. A isso chamamos sismos e não nos dão jeito nenhum.

E porquê “Kryon”? «Se você pega as letras do meu nome em TOM – KRYON, e assinala os números a cada letra do alfabeto ocidental – A=1 B=2 Z=26 etc., depois soma estes números, você terá como resultado 83, o qual também somado resulta 11.[...] Este número 11 dirá a você mais do meu caráter. Quando você multiplica este número pela força vibratória 3, o resultado é 33 que lhe dará o insight de meu serviço. Eu vou lhe dar uma importante fórmula de poder: 9944. Seu discernimento e intuição eventualmente o levará ao significado dela, mas ela é importante na transmutação de energia.» (4). Ah... OK...

Como o cozido à portuguesa está para as couves, carnes e enchidos, assim as “canalizações” de Kryon estão para os disparates, parvoíces e tretas. E na Casa Índigo também há muitos ingredientes. A Marta Modas (5), além de formada em psicologia e «Kin 214, Mago Rítmico Branco», tem o 2º nível de «Reiki Galáctico e MultiDimensional» e faz «Meditação Galáctica» regularmente. A Susana Pinho (Kin 160: Sol Auto Existente Amarelo) lê auras e descobriu que a Cristina Gonçalves (Kin 238: Espelho Auto-existente Branco) «tem energia índigo.» Licenciada em Engenharia Física, a Cristina é também formada em Reiki e Programação Neurolinguística, Tai-Chi, Chi Kung e pratica «Meditação Galáctica» frequentemente.

Se forem a esta página podem calcular o vosso Kin, a vossa assinatura galáctica e onda encantada e até ver o aspecto tridimensional do tempo (num ecrã a duas dimensões, tal é a façanha...). Presumo que isto seja útil para quem tiver o campo magnético alinhado num estado vibracional superior. E com mais um euro já dá para uma bica.

*O Carlos Fiolhais também escreveu sobre isto no De Rerum Natura: Grandes Erros: Dia Fora do Tempo.

1- Casa Índigo, agenda
2- www.terezaguerra.com
3- Loja Índigo, Kryon - Livro I
4- Luz de Gaia, Quem é Kryon?
5- Casa Índigo, Marta Modas

sexta-feira, julho 25, 2008

Legal.

Chamam-se SPECS, da empresa Speed Check Services Limited, e são câmaras de vídeo que identificam automaticamente matrículas (1). Colocadas em vários pontos das estradas, enviam esta informação a um servidor central que calcula a velocidade média do veículos que passam por dois pontos de vigilância. Se a velocidade média ultrapassar o limite estipulado a multa segue automaticamente.

É uma boa ideia multar quem conduz depressa demais. O problema é que nada obriga a eliminar estes dados depois de medir a velocidade. E toda a gente fica registada, seja infractor ou não. Este passageiro foi fotografado a mostrar o traseiro e a fotografia divulgada mesmo sem o condutor ter cometido qualquer infracção.

Este tipo de vigilância é cada vez mais comum e, por cá, teremos em breve carros da GNR equipados com reconhecimento automático de matrículas. A notícia diz apenas que «De cada vez que o sistema lê uma matrícula, inicia-se automaticamente uma pesquisa na ou nas bases de dados o que, como é fácil imaginar, acontece em milésimos de segundo.»(2) Não menciona o que acontece com a informação da hora, local e matrícula depois da pesquisa. Mas podemos assumir que, a menos que venha uma lei obrigar a apagá-la vai ser tudo guardado indefinidamente. É o que todos fazem.

Os mais optimistas confiam no sistema judicial para proteger esta informação e evitar abusos. E só confiaria se o sistema fosse muito melhor que o nosso. Com o que temos ficava mais descansado se dessem o equipamento de identificação aos criminosos. Eles vão acabar por ter acesso às bases de dados de qualquer maneira, que assim sempre ficavam fora das mãos da nossa justiça. Um exemplo recente: Bernardo Macambira, segundo a noticia um «Conhecido relações públicas»(3), foi preso porque usou um CD copiado na sua discoteca. Foi julgado à revelia e sentenciado a quatro meses de prisão substituíveis por multa. Como toda a documentação foi enviada para uma morada antiga, quando soube da situação já era tarde demais para se defender e até para pagar a multa. Agora vai preso quatro meses por causa de um CD. Mostra como a justiça é severa*, ajuda a indústria a cativar clientes (literalmente) e incentiva a criatividade. Milhares de artistas vão agora sentir-se mais inspirados para compor graças a esta decisão do tribunal.

E, por falar do assunto, termino com mais dois exemplos de incentivos legais à criatividade. A Comissão Europeia estendeu de 50 para 95 anos o período de “protecção” dos discos (3). Podemos pensar que isto só serve para as discográficas ganharem mais dinheiro mas a justificação oficial é o tal incentivo. Assim qualquer músico que tenha um êxito aos 25 anos já sabe que tem só até fazer 120 para compor outra música senão acaba-se a mama. Outra justificação é que ser artista exige muitos sacrifícios da família, ao contrário das outras profissões todas (para ser artista é preciso ter mais ego que talento, e isso nem sempre é difícil).

Finalmente, a patente concedida em 2005 à empresa Channel Intelligence, por um «Método para configurar uma base de dados para armazenar uma pluralidade de listas contendo informação acerca de uma pluralidade de itens»(4). Proprietários desta arrojada e inovadora invenção, estão agora a proteger o seu investimento processando mais de uma dúzia de pequenas empresas que permitem aos clientes criar listas do que gostariam comprar (5). Só processam as pequenas, é claro. Empresas como a Amazon e a Ebay têm as mesmas listas mas essas têm advogados caros, e esta patente é idiota demais até para um julgamento. Por isso ameaçam só quem prefere pagar o acordo que pagar advogados.

É uma questão de semântica. Uns dizem “propriedade intelectual” e outros “incentivo à criatividade”, mas o que querem todos dizer é “extorsão legalizada”.

SPECS via Schneier on Security, e obrigado ao Leprechaun pela notícia do desgraçado do CD.

* Nem sempre a justiça é tão severa. Um amigo meu foi agredido à porta de um bar por um tipo que lhe bateu e lhe roubou uns trocos do bolso. Fez queixa à polícia e foi chamado uns anos mais tarde a depor em tribunal. O julgamento era só pelo furto porque a agressão tinha prescrito. E o acusado foi ilibado porque a intenção dele era bater e não roubar. Mas agora o meu amigo pode dormir descansado porque há menos um tipo à solta a copiar CDs.»

1- Wikipedia, SPECS
2- Económico.com, Veículos da BT vão ter sistema de identificação de matrículas
3- Miguel Caetano, Remixtures, Comissão Europeia decidida a apoiar os artistas para além da morte
4- Google Patent Search, «Method and apparatus for creation and maintenance of database»
5- Tech Crunch, Channel Intelligence Sues Just About Everyone Who Offers Wishlists

quinta-feira, julho 24, 2008

Prova irrefutável.

Esqueçam os desenhos de dinossauros que os criacionistas usam para provar que a Terra tem menos de dez mil anos de idade, como estas gravuras do século XV.

Dinos

Agora temos provas irrefutáveis que a Terra afinal foi criada em 1956. Os auto-intitulados “peritos” alegam que esta figura tem cerca de dois mil anos de idade e que fazia parte da decoração de um caixão “Romano”. Esta é uma de muitas "civilizações" que inventaram para defender a premissa naturalista de uma Terra mais antiga que o Rock ‘n’ Roll. Um absurdo. Que propósito serviria criar isto tudo sem Rock ‘n’ Roll? E não disse o Rei claramente, no lado B de Heartbreak Hotel: «I was the One»?

As provas estão aqui. Só não vê quem não quiser. Devemos aceitar o Rei no nosso coração, abraçar o Rock ‘n’ Roll e redimir a Humanidade do pecado do Disco e das abominações que se seguiram.


O Rei

Está aqui um relato naturalista e ateu desta magnífica descoberta.

quarta-feira, julho 23, 2008

Bom e barato, V

Com estes vídeos podem perder quase duas horas, mas se tiverem em conta o que costuma dar na televisão penso que este investimento é melhor.

O primeiro é uma palestra da Jane Goodall na Universidade de San Diego, Reason for Hope. O tema é mais biográfico e pessoal que científico, mas esta mulher tem uma personalidade e uma vida tão interessantes como o seu trabalho (via Conta Natura).

O segundo é a palestra do Torsten Reil no TED Talks, Using biology to make better animation. A palestra é de 2003, por isso se quiserem ver como esta tecnologia está agora o melhor é ir ao site da Naturalmotion, ver o o vídeo do sistema Euphoria ou descarregar gratuitamente o Endorphin 2.7.1, uma aplicação para simular movimentos e comportamentos.

Eles usaram algoritmos evolutivos para treinar as redes neuronais que controlam estes comportamentos. Os criacionistas costumam apontar como os engenheiros se inspiram nas maravilhas da natureza mas esquecem que os engenheiros também se inspiram no processo que criou essas maravilhas. A evolução.

segunda-feira, julho 21, 2008

Vou estar

no 6º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, em Évora, no dia 5 de Setembro, às 11:30 para falar sobre pensamento crítico. A participação no encontro custa 30€, 15€ para estudantes da Universidade de Évora.

Cartaz ENPF

E no dia 18 de Outubro vou estar novamente em Braga, na Jornada Fé e Ciência, onde vou falar sobre «A hipótese de Deus perante a ciência». A entrada é livre.

Jornada Fe Ciencia

domingo, julho 20, 2008

Treta da Semana: outra vez o propósito...

É comum entre religiosos defender que tudo foi criado de propósito excepto um certo deus, apesar de discordarem, por vezes com demasiado zelo, acerca de qual deus é a excepção. Já discutimos aqui vários aspectos desta hipótese. O porquê de ser tão popular (1), inferior às alternativas (2) e ineficaz como explicação para as características dos seres vivos (3). Só faltava discutir porque é que é treta. O Senhor Arquitecto Anónimo Pereira (SAAP) deu o mote notando alguns aspectos importantes desta hipótese (4).

Segundo o SAAP, falta «prova científica» de não termos sido criados para um propósito. Não é claro o que entende por «prova científica», mas não deve ser aquilo que os cientistas procuram (5). E enquanto a falta de «prova científica» é um defeito nas outras hipóteses, aparentemente é virtude na sua. Um post não chega para tanta treta, por isso tenho que me restringir a esta parte da discussão:

«A minha "crendice", como lhe chama, é a Verdade. Pura, simples e perfeita. Por isso resiste a todos os modelos científicos. Sem Deus os seus modelos científicos nunca existiriam, Doutor. Porque foi Deus que fez a ciência e permite ao senhor Doutor efectuar as suas pesquisas e modelos.» (4)

É difícil distinguir os comentadores anónimos interessados mas coibidos por pressões familiares ou profissionais daqueles que defendem desonestamente uma posição que percebem ser ridícula ou que só querem chatear. Os internautas recomendam não alimentar estes últimos, os trolls, mas eu penso que vale a pena se esclarecer algo relevante. E a premissa que deuses e seus propósitos são questões fora da ciência que compete à fé responder é suficientemente comum para não me ralar com o que motiva o SAAP.

Podemos perguntar se uma lasca de sílex é artifício propositado ou se é fruto de um processo natural. Arqueólogos e paleontólogos lidam regularmente com estas questões, e a ciência permite-lhes inferir propósito em alguns casos. Mas é verdade que, formuladas desta maneira, estas hipóteses não são científicas. É preciso detalhar os processos naturais, propósitos e métodos de fabrico que possam ter criado a lasca para poder comparar as hipóteses, confrontá-las com o que observamos e avaliar o mérito relativo de cada uma. E assim já são científicas. Mas se for para dizer que a lasca foi criada para um propósito insondável e por um método misterioso mais vale dizer «não sei». Adianta-se o mesmo poupa-se a má figura.

Tenho insistido, insisto, e voltarei a insistir. As hipóteses saem do âmbito da ciência apenas se não é possível determinar a sua verdade. Por serem mera consequência da definição dos termos (mafaguinhos, ver 5), por serem demasiado vagas (Deus é Amor) ou por permitirem tudo. O SAAP dá um exemplo: «Eu acredito na teoria da evolução. Se o Deus em que acredito é omnipotente, então tenho de olhar para a Natureza e pensar que se todas as coisas foram criadas desse modo então foi porque Deus assim o quis.»

Se eu sou omnipotente então tudo o que acontece é porque eu quero. Se a mosca que está aqui a voar é omnipotente então tudo o que acontece é porque ela quer. Há infinitas hipóteses que não podemos testar porque não dizem nada relevante. São indiferentes à realidade, nenhuma é científica e são todas disparate. Para disfarçar propõem a fé como “teste” da hipótese, mas a fé não tem nada a ver com a verdade da hipótese: «Depois de uns anos com uma vida de total devoção a Deus - sabe que isto dos testes são coisas muito demoradas - volte aqui para conversarmos e indique-me as suas conclusões.»(4)

Podemos também sugerir ao SAAP uns anos de devoção total à mosca até acreditar que a mosca é omnipotente. Um teste perfeitamente inútil porque, qualquer que seja o resultado, não indica nada acerca da omnipotência da mosca.

O SAAP propõe que a sua hipótese está fora do âmbito da ciência e deve ser testada pela fé. A treta é que a hipótese está fora da ciência apenas por não ter ponta por onde se pegue e o teste só testa a credulidade humana, não a hipótese.

Editado: por excesso de zelo na revisão apaguei uma virtude que não devia. Obrigado ao João Vasco pelo aviso.

1- Conspiração, religião, e intenção.
2- Evolução: Como se fosse de propósito
3- Miscelânea Criacionista: O Propósito.
4- O custo da propriedade intelectual, (os comentários não estão relacionados com o post).
5- Provado cientificamente

sexta-feira, julho 18, 2008

O Diabo.

Quando se fala de religião é costume falar de Deus. Se existe, se não existe, se é real ou imaginário, se criou o Homem ou vice-versa. Mas este é o meu 666º post. Parece-me mais adequado dedicá-lo ao Seu alter ego.

Tal como com o jovem Clark Kent em Smallville, no princípio era só Ele. Os relatos mais antigos na Bíblia mostram o mal como sendo essencialmente desobedecer a Deus. O resto é tudo Ele. A serpente no Génesis foi mais tarde reinterpretada como Satã, mas no contexto original é mais razoável ver o episódio como uma adaptação do épico sumério de Gilgamesh, a quem o segredo da imortalidade também foi roubado por uma serpente espertalhona. E a serpente era tradicionalmente um símbolo dos aspectos temíveis e misteriosos da Natureza, não necessariamente do mal.

De resto no Êxodo podemos ver que foi Deus que deu a Moisés os poderes mágicos para impressionar o Faraó, foi Deus que mandou as pragas e também foi Deus que «endureceu o coração de Faraó»(Ex, 9:11) para que este não deixasse partir os Judeus. Nesta altura isto parecia justo. Afinal, era Deus, e Deus podia fazer o que bem Lhe apetecesse.

Mais reveladora ainda é a diferença entre os relatos de 2 Samuel e 1 Crónicas acerca do recenseamento que David mandou fazer. Os recenseamentos eram sempre mal vistos. Inevitavelmente, visavam a cobrança de impostos, o recrutamento militar ou ambos. Ninguém gostava quando os reis mandavam fazer um. 2 Samuel foi escrito antes do exílio dos Judeus na Babilónia, e relata que «A ira do Senhor tornou a acender-se contra Israel, e o Senhor incitou a Davi contra eles, dizendo: Vai, numera a Israel e a Judá.» (2 Sam 24:1).

O contacto com a cultura Persa deu aos Judeus uma visão mais zoroástrica do conflito entre o bem e o mal como a luta constante de duas forças opostas. Esta foi muito mais popular em todos os géneros de ficção, dentro ou fora da religião, e influenciou os autores das Crónicas, escritas após o exílio: «Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar Israel» (1 Cró 21:1). Qual cabine telefónica, este encontro cultural transformou Jeová, que nunca foi propriamente mild mannered, num verdadeiro badass. A partir de agora era a sério.

Durante a idade média muitos e doutos teólogos tentaram perceber quem seria Satanás, porque se teria virado contra Deus e como eram as hierarquias de querubins, serafins e outros perlimpimpins. A Enciclopédia Católica tem um artigo interessante sobre o assunto. Entretém, e dá uma ideia do tempo que se perdeu com este disparate (1).

Mas os tempos mudaram. Hoje em dia os católicos mais esclarecidos vêem o Diabo como uma metáfora para as falhas humanas ou um símbolo para o incompreensível, o absurdo, aquilo que está totalmente fora da razão. Curiosamente parecido com Deus em muitos aspectos. Um regresso às origens, de certa forma.

A história do Diabo dá-me esperança. No princípio não se distinguia de Deus. O bem e o mal eram o mesmo, o que importava era saber quem mandava. Mais tarde alguém desconfiou que isso não estava certo e separaram as personificações. O muito bom de um lado, o bicho papão do outro, mas nós ainda cá em baixo acagaçados. Com o evoluir das ideias deu-se mais um passo. O mal afinal é um conceito, uma falha, um símbolo. Não é um ser com existência autónoma. Não é um tipo encarnado de cornos e barbas com quem se possa ter uma relação pessoal, pedir coisas e prometer outras em troca.

A esperança é que dêem o próximo passo neste raciocínio e vejam que Deus está na mesma categoria. É uma ideia, um símbolo, uma marca do limite das nossas capacidades. Nada mais. Se compreendem que o Super-Homem não existe deve ser fácil perceber que o Clark Kent também é fantasia.

Editado para corrigir uma gralha e alterar as tags. Obrigado ao António e à Granada pelas sugestões.

1- Catholic Encyclopedia, Devil

quinta-feira, julho 17, 2008

Deus vai vos...

... bem, é melhor ouvir a canção...

Confiar no sistema.

Várias pessoas têm discordado de mim em questões como a censura de injúrias, o copyright e a retenção de dados pessoais por parte de empresas. O que é bom porque obriga a repensar as coisas e torna os problemas mais claros. E o problema comum a estes casos parece-me ser o excesso de confiança no sistema e nas pessoas.

Um dos riscos de ceder poder a um sistema é que o sistema é controlado por pessoas falíveis, nem sempre fiáveis e muitas vezes com objectivos diferentes daqueles de quem nelas confia. A rede FiberWAN é um sistema informático de milhões de dólares que gere os pagamentos a funcionários públicos, registos de investigações policiais e comunicações electrónicas oficiais na cidade de São Francisco. Um técnico, por receber uma avaliação negativa, instalou programas para permitir a intercepção de mensagens por alguém que esteja fora da rede e alterou as passwords de administração (1). Sujeita-se a até sete anos de prisão mas se não der as passwords vai ser muito dispendioso recuperar o sistema. E não se sabe o que acontece entretanto à informação confidencial lá guardada.

Não proponho que se processe pagamentos e registos policiais à mão, ou que se abandone ambos por completo, porque há casos em que vale a pena correr o risco. Mas o risco de ter pessoas a gerir qualquer sistema tem que ser contabilizado nos custos. E quando se trata de pôr o juiz a decidir o que é ou não é ofensivo ou de guardar dados pessoais para se por ventura alguém for criminoso o risco ultrapassa os benefícios.

Outro problema é confiar no sistema. Até se apregoa muitas vezes a confiança na justiça, na polícia, nos legisladores e afins. É um erro, e é fugir à nossa responsabilidade. Numa democracia nós não temos apenas o direito de votar. Temos o dever de fiscalizar estes sistemas. A semana passada houve tiroteios e motins na Apelação. O artigo 302º do Código Penal pune com até um ano de prisão quem participar em «motim durante o qual forem cometidas colectivamente violências contra pessoas ou contra a propriedade». O artigo 303º agrava a pena a até dois anos se houver pessoas armadas no motim. O artigo 339º pune com até dois anos de prisão a fraude em eleição, quer pelo voto múltiplo quer pela falsificação dos resultados. Faz sentido que ofensas graves à ordem pública e ameaças ao sistema democrático sejam punidas com severidade.

O artigo 197º do código de direitos de autor pune com até três anos de prisão a distribuição não autorizada de uma obra protegida, ou até seis anos de prisão no caso de reincidência. A maioria dos que defendem que partilhar músicas seja crime foge à responsabilidade de fiscalizar este sistema. Matar de forma premeditada dá até vinte anos de cadeia; detonar explosivos pondo em perigo a vida de outros dá até dez; dois por falsificar eleições e um a quem se juntar com umas dezenas de amigos para bater em pessoas e partir coisas. Neste contexto partilhar ficheiros mp3 nem devia ser crime. Devia ser uma questão para tribunais civis. E estar entre a fraude eleitoral e o ataque terrorista demonstra a nossa irresponsabilidade enquanto cidadãos, porque me parece que o acordo tácito de muitos com este estado de coisas é mais fruto da ignorância da lei do que de um juízo ponderado em favor deste sistema.

Qualquer sistema, seja legislação, bases de dados ou o que for, tem como desvantagem dar a alguém o poder de o gerir. E o nosso papel numa democracia não é confiar nos sistemas mas desconfiar deles. Os custódios dos custódios somos nós, com a responsabilidade última por aquilo que a nossa sociedade for. Pelo bom e pelo mau.

Por isso proponho que não se defenda estas coisas sem considerar duas questões. Se vale a pena pôr esse poder nas mãos de alguém e se estamos a avaliar com diligência aquilo que defendemos. E nunca defender um sistema por confiar nele. Defendê-lo só apesar de desconfiar dele.

1- InfoWorld, Report: IT admin locks up San Francisco's network

quarta-feira, julho 16, 2008

terça-feira, julho 15, 2008

O custo da propriedade intelectual.

A semana passada, em conversa com uns colegas de bioinformática, alguém notou que a biotecnologia tem avançado muito menos que a informática. Há anos que parece prestes a rebentar mas continua empurrada lentamente por um punhado de grandes empresas em vez de despoletar novas aplicações, postos de trabalho e pequenas empresas como acontece na informática. Eu disse que uma das principais causas é o sistema de patentes.

As patentes começam a ser uma pedra no sapato da informática mas a biotecnologia está atolada em licenças e litígios, não só entre companhias mas também com os próprios clientes. Sementes e CDs têm mais em comum do que se julga (1). Por isso, para inovar em biotecnologia é preciso contratar um batalhão de advogados ainda antes de montar o laboratório. É preciso consultar milhares de patentes, processar os outros, lutar contra os processos dos outros e patentear cada espirrinho não vá outro patenteá-lo antes. Foi isto que levou a Microsoft a uma política agressiva de patentes a partir de 1990, já depois de terem desenvolvido os seus produtos principais (2), e a maioria das patentes em qualquer área já não é um incentivo à inovação mas uma arma legal. Só que a biotecnologia está no extremo. Ao conceder patentes até por sequenciar fragmentos de ADN reduziu-se a biotecnologia a cobrar licenças e marcar território. Os grandes avanços do sector público, onde a informação circula livremente, contrastam com o pântano legal do sector privado.

O problema não está nas patentes ou naquilo a que se chama propriedade intelectual. O problema é confundi-las com propriedade. Uma patente pode beneficiar a sociedade e o inventor ao incentivar o esforço e a divulgação da invenção, mas a forma correcta de a ver é como parte de uma transacção que se quer benéfica para a sociedade e para o criador. A marca registada é um exemplo deste benefício mútuo. A associação exclusiva da marca ao vendedor beneficia o vendedor, que controla a imagem do que vende, e beneficia o comprador que assim sabe a origem do que compra. A investigação farmacêutica é outro exemplo. Ninguém financia anos de testes exaustivos sem ser compensado e não é desejável que o resultado seja secreto. É claramente benéfico para todos que a sociedade ofereça uma contrapartida pelo esforço e pela divulgação dos resultados, desde que a transação compense.

No outro extremo temos patentes como a one click, concedida à Amazon (3) por permitir compras online sem obrigar o cliente a introduzir o número do cartão de crédito a cada compra. É mau negócio dar direitos exclusivos sobre um processo sem custos de desenvolvimento nem nada que seja secreto. Estas patentes servem apenas para dificultar a concorrência. Três semanas depois de ter a patente, e antecipando as compras de Natal, a Amazon processou a Barnes and Noble obrigando-a a retirar o seu serviço «Express Lane» de vendas online.

Este problema abrange toda a propriedade intelectual. Das patentes de software à partilha de ficheiros, é raro o privilégio da exclusividade coincidir com um benefício adequado para a sociedade que o concede. Pela influência de quem detêm estes privilégios, a lei encara a exclusividade como um direito em vez de uma contrapartida a dar só em troca de um valor equivalente.

Não nos podemos deixar enganar pela retórica dos direitos de propriedade. Os direitos de propriedade são consequência da exclusividade inerente ao uso de bens materiais. Se eu como uma batata mais ninguém pode comer essa batata. É pelo uso ser necessariamente exclusivo que precisamos de direitos de propriedade. O dono da batata é que decide quem a come. A propriedade intelectual é o contrário. Parte de coisas que podem ser usadas por todos sem prejuízo de ninguém, como músicas ou ideias, e torna o seu uso exclusivo por mera disposição legal. Neste caso devemos questionar se interessa impor essa restrição. Se todos pudessem comer a mesma batata não haveria vantagem em proibi-lo.

Temos também que compreender os custos de conceder estes privilégios. Os direitos que cedemos, as oportunidades perdidas ao vedar o acesso a uma obra ou proibir que outros a melhorem, os custos inevitáveis dos monopólios e o que pagamos em impostos para que polícia e tribunais se preocupem com estas coisas em vez da nossa segurança.

E quando os nossos representantes querem ceder a alguns o nosso acesso à informação, a nossa liberdade de agir e criar e o dinheiro dos nossos impostos, temos que exigir o façam só em troca de algo que valha a pena.

1- CNN Money, 10-7-08, Monsanto patent fight ensnares Missouri farm town
2- Ars Technica, Tim. B. Lee, Analysis: Microsoft's software patent flip-flop
3- Universidade de Stanford, projecto para a disciplina de Computers, Ethics, and Social Responsibility, 1999-2000, Amazon One-Click Shopping

quarta-feira, julho 09, 2008

Treta da Semana: A falta de Olíbano.

A propósito da treta da semana passada, o leitor (leitora?) JATA sugeriu que não era útil criticar o milagre do beato Nuno Álvares Pereira (1). Como este blog é um serviço de utilidade pública sinto-me obrigado a redimir essa falha focando um problema grave que urge resolver. A falta de olíbano, nomeadamente do «verdadeiro Olíbano Somalês»(2). Porque «O Olíbano é o ingrediente central da amarração, é a oferenda que atrairá as entidades e as fará agir da maneira que queremos. Sem ele, elas simplesmente não vão fazer o que queremos, pois não terão razões nem incentivos para isso.»(2)

A amarração «é uma conjura de poderes para persuadir um homem ou uma mulher a desejar a pessoa que faz o feitiço»(3). Escreve-se num papel o nome do visado, faz-se um círculo de sal no chão, junta-se uma fotografia e duas velas negras, queima-se o imprescindível olíbano e profere-se este encantamento intrigante:

«Eu vos conjuro novamente, por todos os nomes secretos de Tetragrammaton, para que envies os teus poderes para oprimir, torturar e assediar o corpo, mente e alma de [nome da pessoa desejada aqui], ele(ela) cujo nome aqui esta escrito, (segure o papel) para que ele(ela) venha até mim e concorde de livre vontade com os meus desejos, nunca mais gostando ou amando alguém no mundo que não eu, enquanto eu assim o desejar.”»(3)

Parece contraditória esta noção de «oprimir, torturar e assediar o corpo, mente e alma» até que a pessoa «concorde de livre vontade». Mas o Bom Feiticeiro diz que se for «bem-feita, nunca falha», e eu tenho tanto respeito pela sua magia como tenho por qualquer outra “ciência oculta”, seja a astrologia, o pai-nosso ou a previsão do futuro na borra de café. São tudo formas legítimas de contactar a dimensão espiritual, também conhecida como terra do nunca nunca.

Mais a sério, a questão da utilidade de criticar estas coisas é interessante. É certo que o faço mais por gozo que por utilitarismo, mas penso que também é útil. Não por criticar o milagre do salpico ou a amarração em particular – se não fosse isto podia ser outra coisa qualquer – mas pela atitude crítica em si. Essa julgo que é sempre útil mesmo nas coisas mais triviais.

Por um lado porque estas coisas são triviais e inofensivas apenas se não as levarmos a sério. Milagres, magias e essas tretas têm uma grande influência na vida de quem acredita nelas e uma atitude crítica pode poupar muita chatice. E, por outro lado, é útil para não julgar estas coisas apenas pela primeira impressão ou sem impressão nenhuma. Quer a rejeição gratuita quer o politicamente correcto “respeito pela crença dos outros” desprezam a questão que a atitude crítica nos força a considerar: será que isto é verdade?

No caso da amarração e do olíbano não é preciso pensar muito. Não há vestígio dessas entidades que pretendem conjurar. E mesmo que existissem espíritos com a inteligência para identificar a pessoa visada e perceber o encantamento, e com o poder de a fazer amar alguém, o mais certo era desmancharem-se a rir do pateta que espalha sal no chão e lhes dá ordens enquanto queima olíbano. Mas até nestes casos de disparate óbvio parece-me que é útil perder alguns segundos a perguntar porque é que o consideramos um disparate.

E se isto não vos convence, deixo aqui alguns dos comentários ao post da amarração (3):

« Estou a confiar muito nesta amarração tendo em conta que já gastei milhares de Euros e o meu problema ainda não foi resolvido.»

« A foto pode ser substituida por outra coisa? Como um fio de cabelo,ou o esperma dele?»

« Bom Feiticeiro, o Sre. tem outro feitiço para ensinar, porque eu sou candidata a Vereadora e quero ganhar a Eleição e a Eleição é esse ano em Outubro.»

«FIZ TUDO COM MUITO AFINCO E INFELIZMENTE ONTEM VI O MEU AMOR RINDO E BRINCANDO MUITO COM OUTRAS MULHERES EM SALAS DE BATE PAPO, ENTÃO ISSO SIGNIFICA QUE NÃO DEU
CERTO? ME RESPONDA POR FAVOR, SE PREFERIR PODE ME RESPONDER POR E-MAIL, POIS HJ ESTOU PROFUNDAMENTE DEPRIMIDA E CHORANDO PELO QUE VI ONTEM.»


Obrigado ao leitor Quetretófilo pela sugestão do tema.

1- Treta da Semana: A crise chega aos milagres.
2- Bom Feiticeiro, Erro Número 1: Falta de Olíbano.
3- Bom Feiticeiro, Amarração explicada incluindo as dúvidas dos leitores.