domingo, novembro 11, 2007

A treta do copyright: a tragédia dos comuns e os free riders.

Um pasto comum alimenta animais que são propriedade de cada aldeão. O custo de ter mais um animal é dividido por todos, pois cada animal consome parte do pasto comunitário. Em contraste, todo o benefício de cada animal vai para o proprietário. Por isso cada aldeão vai querer mais animais mesmo sobrecarregando o pasto em prejuízo de todos. É um exemplo clássico do problema de partilhar um recurso finito. Seja a pescar, consumir água ou poluir, há situações em que não compensa refrear voluntariamente o consumo porque outros vão esgotar o recurso seja como for. Nestes casos é melhor repartir o recurso, seja por quotas, licenciamento ou direitos de propriedade.

Um argumento a favor do copyright é que a partilha cria uma situação análoga em que o consumo descontrolado destrói o sistema. Mas a informação é um recurso infinito que pode ser partilhado sem prejuízo para ninguém. O recurso finito é a criatividade do autor, mas esta é controlada pelo autor e este pode negociar a criação da obra. Pode gravar o álbum só quando tiver se tiver encomendas que chegue, sem depender do copyright.

Se houver encomendas suficientes o autor cria a obra, os intervenientes beneficiam e outros podem beneficiar sem prejuízo para as partes envolvidas. Copiar a música não a destrói. Se não houver compradores interessados o autor não cria a obra simplesmente por falta de interesse. Falta de interesse do autor em criar a obra sem remuneração, e falta de interesse do público em remunerar o autor. Nenhum destes resultados é injusto ou análogo à tragédia dos comuns.

A terceira possibilidade é o público estar interessado em pagar o esforço do artista mas cada um ficar à espera que sejam os outros a pagar. Este é o problema dos free riders, que tentam ir «à boleia» dos outros mesmo estando interessados. Se o serviço de bombeiros fosse pago voluntariamente muitos não pagariam, mesmo achando o preço aceitável, por contar com a protecção conferida pelo contributo dos outros. É uma razão para serviços como bombeiros, hospitais, polícia e escolas serem suportados por uma contribuição compulsória.

É um erro identificar o usufruto gratuito com a causa destes problemas só por ser um factor comum a ambos. O usufruto gratuito o que outros criaram é uma parte importante da civilização. O capitalismo é bom para algumas coisas mas usufruímos gratuitamente dos direitos humanos, da justiça e ética, da democracia, da ciência e tecnologia, da língua, da cultura e até da religião. O sucesso de uma sociedade não se mede pelo conforto dos ricos. Mede-se pelo que se pode usufruir sem pagar.

Estes dois problemas são fundamentalmente diferentes. A tragédia dos comuns é consequência inevitável da partilha de um recurso finito. Nenhum pescador vai reduzir voluntariamente a pescaria mesmo sabendo que a pesca intensiva destrói as reservas de peixe, pois se não for ele a pescá-los será outro qualquer. O problema é privar todos do recurso e só se resolve limitando o acesso ao recurso. Em contraste, o free rider age por falta de informação. Se sabe que não há bombeiros sem o seu contributo prefere pagar do que arriscar um incêndio descontrolado. O problema é que a falta de informação torna o mercado menos eficiente a fornecer um produto mesmo havendo muitos dispostos a comprá-lo.

O copyright não protege um recurso comunitário finito. A música não se gasta por se ouvir e a criatividade é privada, um bem controlado pelo autor. E não resolve a ineficiência do mercado. Compele o pagamento mas o problema da informação mantém-se. A oferta é controlada por pela publicidade, que vende uma obra a milhões de pessoas e relega outras à obscuridade. O monopólio concedido pelo copyright torna o mercado ainda menos capaz de dar ao comprador a informação necessária para que este invista no produto que prefere.

E o bem público da arte não é este filme ou aquele álbum. É a arte em geral, o que justifica incentivar a produção artística pelo financiamento público das instituições que promovam estas actividade em vez da conceder monopólios sobre obras específicas. Mas a proposta em concreto fica para o próximo post sobre o assunto.

31 comentários:

  1. Ludwig:

    Quero fazer um esclarecimento: tens razão quando dizes que o problema que eu aponto nesta questão seria o do "free ride" e não o da "tragédia dos comuns". E aliás, foi quase sempre o "free ride" o problema a que fiz alusão.

    Quando falei na tragédia dos comuns, o que eu queria dizer era outra coisa. Tanto no "free-ride" como na "tragédia dos comuns", não está em jogo apenas a ausência de informação. Está em jogo a tendência muito humana para as atitudes egoístas. E é quase certo e sabido que, estatisticamente, as estrategias egoístas vão prevalcecer.
    Um exemplo é a concorrência, é relativamente fácil evitar carteis, precisamente porque a as empresas evitam cooperar. No jogo do prisioneiro (um único confronto, vamos supor), a melhor estratégia de grupo é diferente da melhor estratégia individual. E a melhor estratégia individual é não-cooperar.

    E esse é o calcanhar de Aquiles da tua proposta. É por isso, por ser tão comum a "tragédia dos comuns", e outro tipo de atitudes egoístas análogas, que podemos apostar que o "free ride" vai mesmo ser um problema. Não estou a dizer que são a mesma coisa, mas sim a sublinhar o ponto comum a ambos: os comportamentos altruistas são uma minoria.

    Posto isto, tu propões uma solução para o problema do "free ride": o estado. Eu concordo que isso ajuda a resolver o problema, mas repito que está longe de o resolver completamente.
    Não estou a ver o estado a financiar música pimba, ou comédias românticas, mas se o fizesse certamente essas produções satisfariam menos os consumidores que as actuais (suponho que entendas porquê, visto que estás familiarizado com o conceito de selecção natural, e sabes que no mercado a adptação às preferências dos consumidores a estes níveis é muito mais eficiente), e se não o fizessem, muitos consumidores estariam em pior situação que a actual.

    Tu dizes que há outra possibilidade que vais expor no teu próximo texto. Cá a aguardo :)

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  2. João,

    Se assumires que todos os agentes têm o seu interesse em primeiro lugar e agem racionalmente com informação completa não há free ride, mas há tragédia dos comuns. Os problemas são diferentes.

    O free ride é um problema de ineficiencia do mercado por falta de informação. Imagina que 20 pessoas querem um serviço que custa 2000, e as 20 estão dispostas a pagar 100 pelo serviço. Mas 10 julgam que vai haver pessoas suficientes a pagar e por isso fingem-se desinteressadas. O resultado é que não se compra o serviço e esses 10 arrependem-se porque vêm que agiram contra os seus interesses.

    Ou seja, o free ride é um problema de erro. A tragédia dos comuns é a consequência da estratégia dominante.

    E o copyright não resolve o problema da ineficácia do mercado. Apenas tira capacidade de decisão ao comprador e coloca-a no consumidor, reduz o erro porque agora o enviesamento do mercado é propositado mas em benefício do distribuidor. Continua o mercado a ser pouco capaz de produzir todos os bens que os compradores estão interessados em comprar. Quando vinte milhões de pessoas compram um CD não é porque têm exactamente os mesmos gostos, mas porque foi esse CD que foi publicitado e produzido em massa em detrimento de outros de qualidade semelhante e que seriam preferíveis para muitos desses vinte milhões de consumidores.

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  3. «Se assumires que todos os agentes têm o seu interesse em primeiro lugar e agem racionalmente com informação completa não há free ride, mas há tragédia dos comuns. Os problemas são diferentes.»

    Não há uma nem outra. São perfeitamente análogas, porque em todos os casos é um "jogo do prisioneiro", só que com muitos elementos.
    Imagina um jogo do prisioneiro com 100 jogadores. Se todos cooperarem ganham 80 pontos cada. Quem não cooperar ganha 100-n em que n é o número de jogadores que não cooperam. Quem cooperar, desde que exista quem não coopere ganha 0.
    Aposto que podes prever o resultado: em princípio ganham todos 0. Sempre.
    Eles até podiam todos combinar cooperar, mas o mais ganancioso deles podia sempre almejar aqueles 20 a mais... E em 100 é provável que exista algum ganhancioso, e depois ele vai pensar que não quer deixar esses 20 para o outro ganancioso que certamente existirá...

    Na tragédia dos comuns, a atitude de grupo mais racional é não destruir o pasto. E a atitude mais racional a título individual é sempre tirar proveito das possibilidades.
    No free-ride a mesma coisa. Ambas as atitudes são análogas a este jogo do prisioneiro. De desfecho previsível..


    «Quando vinte milhões de pessoas compram um CD não é porque têm exactamente os mesmos gostos, mas porque foi esse CD que foi publicitado e produzido em massa em detrimento de outros de qualidade semelhante e que seriam preferíveis para muitos desses vinte milhões de consumidores.»

    Existe livre concorrência. Para os consumidores que não se satisfazem com essa música, outras editoras vão tentar satisfazê-los, na sua busca por clientes.
    Quanto aos 20 milhões, existirão uma série de traços comuns que se calhar apreciam, mas muitos deles envolvem gastos consideráveis na produção do CD. Se calhar uma economia de escala é mesmo a estratégia mais eficiente para lhes proporcionar o tipo de satisfação que procuram.

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  4. «Não há uma nem outra. São perfeitamente análogas, porque em todos os casos é um "jogo do prisioneiro", só que com muitos elementos.»

    No jogo do prisioneiro denunciar é a estratégia dominante. Qualquer que seja a decisão do outro é melhor denunciá-lo. A estratégia dominante é não cooperar.

    No free ride não. Supõe que há uma coisa que queremos comprar, mas basta um comprar para beneficiar os dois. Este é um jogo como o chicken. Se eu comprar, tu ganhas mais em não dar dinheiro, e vice versa, mas se ninguém comprar perdemos os dois com isso. Ao contrário do dilema do prisioneiro, este tem dois equilibrios de Nash e favorece estratégias diferentes.

    Nos problemas de free ride reais o payoff é mais complicado, porque pode ser preciso vários a colaborar para valer a pena comprar. Mas a diferença mantém-se: baldar-se não é uma estratégia dominante, ao contrário do dilema do prisioneiro.

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  5. Imagina que no mercado existem 1000 indivíduos. Cada um deles valorizaria a música do Raul em 7 moedas - para este valor seria indiferente comprá-la ou não. Esta música custou 5000 moedas a ser produzida.
    Se todos pagassem 6 moedas, Raul ganharia 1000 moedas, e cada um dos ouvintes ganharia 1 moeda.


    A estratégia global certa é cooperar. E a estratégia local certa? Bem, ao contrário do jogo do prisioneiro, isso depende do contexto.
    Se 833 pessoas (em 999) além do jogador optarem por comprar, o jogador ganha 1 moeda caso compre, e 0 moedas caso não compre.

    Se menos de 833 pessoas além do jogador optarem por comprar, o jogador não ganha nem perde nada caso não compre, mas perde muito pouco (estimemos em meia moeda) por ter o dinheiro parado caso compre.

    Se mais de 833 pessoas além do jogador optarem por comprar, o jogador ganha 1 moeda caso compre, e ganha 7 moedas caso não compre.

    Perante estas possibilidades, parece claro que a estratégia mais adequada, na incerteza a respeito das jogadas alheias, é não comprar.

    E conhecendo as jogadas alheias, o mais provável é que elas conduzam o jogador à opção de não comprar.


    Isto não é 100% igual ao jogo do prisioneiro, mas na prática é 99% semelhante. Novamente é óbvio que cada jogador deve optar pela estratégia egoísta.
    E é tanto mais verdade quantos mais jogadores existirem em jogo.

    Entendes a semelhança que quero salientar?
    Entendes em que medida é que isso se aplica ao sistema que propões como alternativa ao copyright?

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  6. Ludwig e João,

    A teoria dos jogos é muito util em situações controladas, mas, a tentativa de a aplicar na música e na arte em geral cai por terra quando o resultado só pode ser incerto.
    Quem pagar em adiantado por um trabalho que pode obter cópia gratuita mais tarde, tem sempre em mente que a obra pode ser uma tanga, e a pessoa sentir-se enganada.
    Exemplos disso são mais que muitos. A começar pelos U2 que alternaram albuns excelentes, com m£#&@ absoluta. E por isso, quem querpagar em adiantado para se arriscar a receber m£#&@ absoluta?
    A arte não é dom do artista em absoluto. Não se paga ao artista, mas, paga-se pela obra em especifico que se gosta.

    A arte, nem toda é cultura, e nem toda é do interesse da comunidade, e nesse cenário só interessa individualmente a quem a aprecia, e por isso não pode ser sustentada pelo estado. O estado, mesmo socialista, não serve para sustentar interesses individuais como os gostos e o entretenimento individual. Em caso de aperto orçamental o que é que se faz? Acaba-se com tudo o que é sustento à arte comum? Sejamos realistas...

    No jogo do prisioneiro deveriam acrescentar a possibilidade de mesmo com uma estratégia 100% cooperativa, acabarem com 0 dado que pagaram por uma incognita artistica que se revelou um descalabro.

    Existe uma outra vertente que é o que o Ludwig tem ignorado. A questão do copyright, é mais uma tanga da moda neste momento. O autor do texto que foi apontado noutro post é exemplo disso. Dantes uma colecção de vinil era a moda, depois surgiu o CD, e agora, roubar a musica é a moda... Não é mais que isso. Uma moda.
    Se os nossos pais fossem atrás da moda do amor livre, dos hippies, e acabassem com os casamento, só porque "cobrir" à parva era moda estariamos melhor ou pior?

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  7. António:

    Aquilo que dizes está longe de ser um argumento contra o copyright e possivelmente até será um argumento importante a favor da sua abolição.

    Então se os U2 tinham umas músicas boas que eu ouvi, e agora não posso ouvir as músicas novas sem pagar (por causa do copyright), eu pago e descubro que a música era má.

    Sem copyright, pelo contrário, posso descobrir uma boa música por acidente, e pagar ao autor, e evitar pagar por toda a música que acho péssima. Posso muito mais facilmente ouvir primeiro e pagar depois se não existir copyright.

    E isso ainda é mais gritante no cinema e no software, porque a música ainda é mais fácil de ir ouvindo sem pagar.

    A sério: com esse argumento só dás força à posição do Ludwig. E é algo em que eu penso, quando considero as vantagens de abolir o copyright.


    Com um grande altruismo por parte de todos, a abolição do copyright seria mais eficiente pois daria MAIS escolha ao consumidor de premiar ou castigar as obras de que gostasse.

    O problema é que os comportamentos altruistas são minoritários, e aí voltamos aos cenários que apresentei...

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  8. E quanto a argumentos contra a "moda", acho que encontras muito melhores do que esse dos Hipies.

    Que cada um viva como quiser desde que não prejudique os outros. Há pessoas que preferem ter um comportamento mais casto, e outras um comportamento mais promíscuo. Para outras depende da fase da vida que estão a viver. Desde que sejam honestas e não enganem ninguém, acharia óptimo que cada um se abstivesse de censurar as opções alheias, quaisquer que elas fossem. Os castos a apontadar o dedo aos promíscuos e os promíscuos a rirem-se dos castos, parece-me tudo isso tão triste e patético... e em alguns casos hipócrita.

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  9. João,

    A questão do mau trabalho pago à cabeça, não funciona contra o copyright, porque só tem de ser pago à cabeça não havendo copyright. Havendo o copyright, a gravação é assegurada pelo investimento alheio, na expectativa de retorno, e tu ouves antes de comprar, pelo que estás protegido. Sem copyright e pagando à cabeça pela gravações é que acabas enganado.
    O teu argumento sobre a audição previa, sem copyright, e pagamento posterior bate em cheio na questão do free ride. Se´já ouvi, é porque está gravado, e se ouvi é porque tenho acesso, e não tenho nenhum incentivo para remunerar, nem o presente, que já tenho, nem o futuro, porque posso não gostar.

    Sobre o outro exemplo, bateste no sitio certo. Cada um faz o que é adequado sem prejudicar os outros.
    Não tenho nada contra o estilo de vida Hugh Heffner, nem contra o estilo Bon Jovi, mas, seguindo as tretas da moda, na década de 60, teriamos abolido tudo isso porque a moda era ser promiscuo. A questão era, estariamos melhor ou pior? Tal como com o copyright abolido estariamos pior. Ninguém proibe um artista de distribuir livremente o seu trabalho, já nos dias de hoje, a questão é que alguém quer impor a todos esse modelo.
    A compatibilidade dos dois modelos é total, em simultâneo. Quem se casa não pode querer ser promiscuo. Tal como quem se protege com o copyright, não quer ser copiado por outros. Mas, em qualquer caso podemos ser promiscuos ou distribuir as nossas gravações livremente. É essa liberdade que alguns querem retirar aos artistas. Da mesma maneira que alguns querem copiar o que está protegido, outros querem ser promiscuos com parceiros casados. Também temos os que receberam dinheiro pela venda do seu trabalho a uma editora que depois se vêm rebelar contra o copyright, tal com alguns casam e dão o golpe do baú, e depois querem andar a divertir-se por fora.
    A possíbilidade de escolher o caminho da minha arte, é uma liberdade que eu prezo! Não me parece que outros decidirem por mim, me venha benificiar em nada.
    Querer a musica à borla, por a considerar cultura, e como tal universal, é treta. Se for o Rui Veloso é cultura nacional, se for Moonspell é internacional. Como é que o estado financia um e outro?

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  10. «Isto não é 100% igual ao jogo do prisioneiro, mas na prática é 99% semelhante.»

    Não. Na tragédia dos comuns ou dilema do prisioneiro é do interesse de cada um não cooperar seja qual for a situação.

    No free rider, chicken e semelhantes é do interesse de cada um cooperar se as estratégias dos outros o justificarem.

    A grande diferença é que negociando entre todos pode-se resolver o problema dos free riders sem aplicar sanções, principalmente se é preciso apenas uma pequena percentagem de colaboração. Por exemplo, se há um milhão de pessoas interessadas numa música mas basta que mil paguem para que o artista grave o álbum.

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  11. O problema dos free riders é uma ineficiência de negociação e informação. Se todos souberem exactamente o que ous outros querem e vão fazer, o problema desaparece. Ao contrário do dilema do prisioneiro.

    Assim há muitas músicas que poderiam ter sido compostas e gravadas, que muita gente gostaria de ouvir, mas que nunca o foram porque não havia informação e incentivo.

    O ponto importante aqui é que o copyright não resolve este problema de incentivar os autores a criar as obras que o público quer. A ineficiência e falta de informação mantém-se. O copyright resolve outro problema, que á o financiamento do fabrico de cópias.

    Se um livro vende dez milhões de exemplares é preciso alguns cinquenta milhões de euros para imprimir, distribuir o livro por lojas e vendê-lo ao público. Mas é preciso talvez uns cinquenta mil euros para incentivar o artista a escrever o livro, visto que esta gente normalmente gosta do que faz e cinquenta mil euros por ano já é um bom salário para um profissional. Era esta a situação em que a cobrança à cópia valia a pena, quando 95%+ do investimento era no fabrico e distribuição de cópias.

    No conteúdo digital a situação é inversa. Mas isso fica para o próximo post, já a seguir ao criacionismo...

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  12. António:

    Aquilo que tu dizes não se aplica ao cinema, à literatura e ao software. Em muitos destes casos, tens de comprar para saber se a obra é de qualidade ou não. No software às vezes há "demos", mas podem ser enganadores, e quanto a isso, sem copyrigth também poderia haver algo análogo.

    Quanto à música, dizes que podemos ouvir antes de comprar. Isso é verdade em teoria mas não na prática, pois ninguém vai ficar 1h (ou mais..) a ouvir um CD inteiro na loja antes de o comprar. Ou o artista é conhecido e passa na rádio, ou precisas de violar o copyrigth para saber se algo é bom antes de comprar. E mesmo no primeiro caso podes conhecer gostar de uma música e ficar desiludido com o resto do CD e lamentares a sua compra.

    Com copyright ou sem ele, vai sempre haver uma "aposta" por parte de quem compra uma música, um filme, qualquer obra artística. Mas vejo menos consumidores a serem defraudados sem copyright do que com ele. Simplesmente também vejo menos criação...

    Como tu dizes, se alguém já tem acesso à arte, tem poucos incentivos para pagar - só o altruismo, um sentido do dever a que não é obrigado.
    E quando não tem, muito dificilmente (mas mesmo MUITO dificilmente) o seu acesso ao bem em questão vai depender do facto de ter pago ou não.
    Como pagar ao criador?

    Bem, os mais altruistas vão determinar a música que todos ouvem! Bem feito para os egoístas! Será este o plano do Ludwig? ;)

    Enfim... Parece-me claro que em grande medida muitos sairiam prejudicados por falta de oferta adaptada aos seus interesses e gostos. E a questão dos incentivos que referiste é a questão central.

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  13. «O problema dos free riders é uma ineficiência de negociação e informação. Se todos souberem exactamente o que ous outros querem e vão fazer, o problema desaparece. Ao contrário do dilema do prisioneiro.»

    Isso não é verdade. Retoma ao meu exemplo.

    Se eu sei que 100 pessoas vão pagar, não me interessa pagar (perder meia moeda vs não perder nada).

    Se eu sei que 900 pessoas vão pagar, não me interessa pagar (ganhar 1 moeda vs ganhar 7 moedas!)

    Só há um caso em que me interessa pagar: apenas(!) se eu souber que tirando eu 833 vão pagar (ganhar 1 moeda vs não ganhar nada).

    É a única! Repito: a única.

    No jogo do prisioneiro, a estratégia conveniente, sabendo a jogada dos outros é SEMPRE não cooperar.

    Neste jogo, a estratégia conveniente, sabendo a jogada dos outros, é 99% das vezes não cooperar. Por isso eu disse que era 99% semelhante.

    Relê o exemplo, porque acho que não entendeste o meu ponto, e esse ponto é essencial para a minha argumentação.



    «Assim há muitas músicas que poderiam ter sido compostas e gravadas, que muita gente gostaria de ouvir, mas que nunca o foram porque não havia informação e incentivo.»

    O copyright garante um mecanismo para criar o incentivo: as editoras que pagarem aos criadores que satisfizerem melhor os gostos dos clientes vendem mais música (não importa se são CDs ou mp3) e assim ganham mais dinheiro. Desta forma vale a pena criar música que satisfaça os consumidores, mesmo que cada um deles tenha uma estratégia egoísta.

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  14. Muito a propósito, já viram esta apresentação? Está fantástica!
    http://www.ted.com/index.php/talks/view/id/187

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  15. Excelente contribuição!
    Concordo plenamente com a posição defendida no video em questão.

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  16. Obrigado NCD. É muito boa mesmo.

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  17. Joaquim Amado Lopes12/11/07, 18:06

    João Vasco:
    Então se os U2 tinham umas músicas boas que eu ouvi, e agora não posso ouvir as músicas novas sem pagar (por causa do copyright), eu pago e descubro que a música era má.
    Televisão, rádio, lojas de música onde se podem ouvir as músicas antes de (ou em vez de) se comprarem os CD's, amigos que emprestam os CD's que compraram, ouvir os CD's em casa desses amigos, ...

    Consegue mesmo dizer/escrever com cara séria que o copyright o impede de ouvir as músicas antes de comprar os CD's?

    Já agora, há alguma razão para não se usar o mesmo argumento relativamente a comer num restaurante, ir de férias, ver um concerto, comprar roupa, ...?

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  18. Joaquim,

    «Consegue mesmo dizer/escrever com cara séria que o copyright o impede de ouvir as músicas antes de comprar os CD's?»

    A tecnologia permite-me ligar o PC ao PC do meu amigo e receber aqui a informação necessária para ouvir o CD dele. Infelizmente, a lei de copyright presente proibe-o, e só o permite se eu me deslocar pessoalmente a casa do meu amigo. Não tem muita lógica...

    «Já agora, há alguma razão para não se usar o mesmo argumento relativamente a comer num restaurante, ir de férias, ver um concerto, comprar roupa, ...?»

    Sim. A comida que um come o outro não pode comer. A roupa não se multiplica com um click do rato. Se fosse possível o meu amigo transmitir-me os dados necessários para eu, sem esforço, recrear aqui a comida que ele está a comer o argumento era o mesmo. Mas a comida não está sujeita a copyright, mesmo que seja uma comida nova que ninguém nunca dantes tinha inventado.

    O que também não é muito lógico...

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  19. «Consegue mesmo dizer/escrever com cara séria que o copyright o impede de ouvir as músicas antes de comprar os CD's?»

    O que eu escrevi foi:

    «Aquilo que tu dizes não se aplica ao cinema, à literatura e ao software. Em muitos destes casos, tens de comprar para saber se a obra é de qualidade ou não. No software às vezes há "demos", mas podem ser enganadores, e quanto a isso, sem copyrigth também poderia haver algo análogo.

    Quanto à música, dizes que podemos ouvir antes de comprar. Isso é verdade em teoria mas não na prática, pois ninguém vai ficar 1h (ou mais..) a ouvir um CD inteiro na loja antes de o comprar. Ou o artista é conhecido e passa na rádio, ou precisas de violar o copyrigth para saber se algo é bom antes de comprar. E mesmo no primeiro caso podes conhecer gostar de uma música e ficar desiludido com o resto do CD e lamentares a sua compra. »

    Acho que isso esclarece a minha posição.


    «Já agora, há alguma razão para não se usar o mesmo argumento relativamente a comer num restaurante, ir de férias, ver um concerto, comprar roupa, ...?»

    Se existir uma alternativa que permita ao consumidor saber de antemão a qualidade do produto que vai comprar, isso não faz dessa alternativa necessariamente boa (tanto é que eu não concordo com a posição do Ludwig), mas é sempre um ponto a favor dessa alternativa, que pode não compensar os pontos contra.

    Realmente um ponto a favor da abolição do copyright é mesmo o de ser mais difícil fazer o consumidor pagar por algo que não quer.
    Mas o "pequeno problema" de não dar incentivos suficientes para que os consumidores paguem a criação parece-me um problema mais grave.

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  20. O senhor no TED, afirma o que eu defendo desde sempre aqui, pouco antes dos 12m30s:
    Os trabalhos que ele mostrou e defende que não sejam proibidos não afectam os originais, nem a distribuição dos mesmos. Eu aceito que o mesmo seja feito. Ele afirma que não está a defender que se permita copiar 20 mp3 da net, juntar num CD, fazer cópias e distribuir.
    Estou enguiçado nos 13m porque a firewall não deixa passar o resto do stream, porque estou com curiosidade de vêr o resto do que ele diz.

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  21. Joaquim Amado Lopes13/11/07, 14:38

    Ludwig:
    A tecnologia permite-me ligar o PC ao PC do meu amigo e receber aqui a informação necessária para ouvir o CD dele.
    Continua a insistir no detalhe da tecnologia para fugir à discussão do princípio.

    Infelizmente, a lei de copyright presente proibe-o, e só o permite se eu me deslocar pessoalmente a casa do meu amigo.
    Não, não proíbe. Se estiver online com o seu amigo e ele colocar o CD a tocar no lado dele, não será ilegal o Ludwig ouvir do seu lado.

    O que é ilegal é um dos dois fazer uma cópia das músicas para o Ludwig usufruir quando desejar sem qualquer relação com o "original" que está em casa do seu amigo.

    Se fosse possível o meu amigo transmitir-me os dados necessários para eu, sem esforço, recrear aqui a comida que ele está a comer o argumento era o mesmo.
    A questão que coloquei ao João Vasco referia-se ao argumento "eu pago e descubro que a música era má" que ele utilizou. Não tem nada a ver com tecnologia.
    Como de costume, a sua resposta é completamente ao lado.


    João Vasco:
    O que eu escrevi foi: (...)

    O João vasco escreveu muitas coisas. Além do que citou, também escreveu:
    Então se os U2 tinham umas músicas boas que eu ouvi, e agora não posso ouvir as músicas novas sem pagar (por causa do copyright), eu pago e descubro que a música era má.

    E mesmo no primeiro caso podes conhecer gostar de uma música e ficar desiludido com o resto do CD e lamentares a sua compra.
    Esse é o risco que se aceita sempre que se compra seja o que fôr. Mesmo depois de experimentarmos os produtos, da vez seguinte que os usamos ou que deles usufruimos a experiência pode ser diferente.

    Se ficar desiludido com algumas das músicas o poderá fazer arrepender-se da compra, oiça-as todas as de comprar.
    Existindo inúmeras possibilidades para ouvir as músicas do CD, o seu argumento não pega.

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  22. António,

    Sem querer fazer uma exégese ou hermenéuica da Palavra do Lessig, eu diria que o objectivo fundamental do Creative Commons é que a arte seja livre para quem quiser usufruir dela e usá-la para criar algo de novo. A licença típica CC permite precisamente isso regulando apenas a comercialização.

    Eu sou a favor de restringir que se venda as músicas que outro compôs, mas sou contra que o outro tenha o direito de proibir ou restringir o acesso às musicas uma vez divulgadas.

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  23. Joaquim,

    Qualquer comunicação digital implica copiar a informação. Do disco para a memória, para os vários computadores no caminho, para o cache do browser, etc. E cada uma destas mantém essa tal «relação» metafísica com o «original».

    A exigência que a bolachinha de plástico fique permanentemente envolvida no processo é injustificável.

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  24. Joaquim:

    «Esse é o risco que se aceita sempre que se compra seja o que fôr. Mesmo depois de experimentarmos os produtos, da vez seguinte que os usamos ou que deles usufruimos a experiência pode ser diferente.»

    Mas quem falou nesse risco como argumento contra a abolição do copyright não fui eu. Foi o António. Eu apenas mostrei (e creio que concordará) que esse argumento funciona a favor da abolição e não contra a abolição.

    Mas como concordo que de maior ou mneor forma, esse risco existe sempre, não acho esse argumento assim tão importante.

    Quanto ao resto que me citou, isso está fora do contexto, e aquilo que EU citei foi escrito depois disso que citou, precisamente para esclarecer. O Joaquim só não percebeu porque não quis.

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  25. Ludwig:

    Não sei se o meu comentário das 12-11-2007 14:42 te passou despercebido :p

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  26. Ludwig,

    Escapa-me porque é que a cópia sem intuito criativo deve estar num barco à parte? Copiar à borla ou vender, para usufruir da musica em sí é especifico e condenável.
    A conversa de ser moda copiar e por isso vamos todos copiar é treta, tal como teria sido treta acabar com o casamento só porque ser promiscuo já foi moda.
    Se há artistas que querem distribuir gratuitamente são livres de o fazer. Se são a favor disso, porque é que se venderam às editoras?
    Se há quem queira ser protegido por copyright, porque não deixar que seja? O copyright está excessivo, e isso eu também defendo, a licença CC não devia colidir com o copyright, já que novas criações derivadas não afectam a venda e distribuição dos originais. Quem cria derivadas deve poder criar a sua arte, mas, isso não tem nada a vêr com o ouvir musica sem pagar, que tens defendido ter de se aplicar a todo o artista sem excepção! Isso não tem nada de intelectual. É apenas uma moda, que a lei nem proibe, só que não é para qualquer conteudo!

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  27. « Copiar à borla ou vender, para usufruir da musica em sí é especifico e condenável.»

    Usufruir da arte não é condenável. Pelo contrário. E copiar uma obra para a difundir não é condenável. Se tivermos um sistema em que tanto ricos como pobres têm o mesmo acesso à cultura e a informação isso é uma coisa boa, não é imoral nem ofensivo nem condenável.

    Já agora, comerciar também não é condenável. A questão é que pode dar jeito regular o comércio para que o mercado funcione melhor.

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  28. João,

    Sim, escapou-me. O caudal de comentários está grande demais para conseguir ir a todos... :P

    «O copyright garante um mecanismo para criar o incentivo: as editoras que pagarem aos criadores que satisfizerem melhor os gostos dos clientes vendem mais música»

    Isto não é verdade. O copyright financia o mecanismo de distribuição. É a cópia de milhões de livros e discos que tem que é suportada por este sistema. A criatividade não precisa de direitos exclusivos para funcionar. Um artista profissional podia muito bem ganhar um ordenado como ganham os professores, os cientistas, até os desportistas profissionais. Mas mais no próximo post.

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  29. «Um artista profissional podia muito bem ganhar um ordenado como ganham os professores, os cientistas, até os desportistas profissionais.»

    Espero pelo próximo post, mas adiento já que a questão mais relevante é "quem lhe paga o ordenado"?
    Ou há copyright e podem ser as vendas do artista que pagam o copyright, ou então o caso é mais difícil...

    Por isso é que o copyright é essencial para financiar a criação. E é apenas neste papel que ele é defendido.

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  30. «Espero pelo próximo post, mas adiento já que a questão mais relevante é "quem lhe paga o ordenado"?»

    Os mesmos que pagam aos professores, investigadores, médicos, desportistas, cabeleireiros e jogadores de xadrez. Quem quiser comprar o seu trabalho e tempo, ou até o estado se esse trabalho e tempo for do interesse público.

    Como podes já ler no próximo post, é um custo muito reduzido. O sistema presente faz alguns actores de cinema ganhar dezenas de milhões por um filme, mas é preciso muito menos que isso para convencer um actor a fazer aquilo que gosta. Se conseguir ganhar isso, bom para ele, mas não há razão para leis que forcem as coisas para isso acontecer.

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  31. Já estou a discutir isso nesse post :)

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