terça-feira, novembro 06, 2007

Correlação ou causalidade?

Não conheço humoristas religiosos. George Carlin, Monty Python, Ricky Gervais, Trey Parker e Matt Stone, Jon Stewart. Não sei se é por ser ateu, mas não me ocorre ninguém que tenha um sentido de humor excepcional e também seja crente.

Talvez seja por o crente levar a sério o que dá vontade de rir, ou por suprimir a capacidade de ver as coisa de outro lado, aquela mudança súbita de perspectiva de que o humor depende, ou até por medo de ofender Alguém.

Ou se calhar engano-me. Talvez seja uma correlação acidental ou uma amostra enviesada. Quem sabe há por aí bispos e imãs que fazem de cada sermão um show de gargalhadas. Talvez um destes sábados me toque à porta um par de velhotas bem dispostas a mostrar com graça como é boa a sua religião em vez da ladainha deprimente do costume. Mas no Diário de Notícias desta semana o João César das Neves contribui mais uma observação a favor da minha hipótese.

Vê-se que se esforçou. Leu atentamente as definições de «sátira», «ironia» e «humor», compôs o texto com o entusiasmo de um pintor daltónico e contou a longa anedota quase até ao fim.

Leiam. É de vir lágrimas aos olhos.

5-11-07, João César das Neves, Por um mundo mais livre e mais justo

24 comentários:

  1. Em Portugal também me parece que a malta das "produções fictícias" anda toda a passear nos caminhos da descrença.

    Desde o Nuno Markl ao Ricardo Araújo Pereira, passando pelo Herman José (já houve um tempo em que teve graça), será difícil encontrar beatos. Uns têm mais piada que outros, mas realmente ninguém que tenha tido os seus momentos mais felizes parece rezar todas as noites.

    O autor da inepcia ( www.inepcia.com ) também me parece ser descrente.


    Acho que os humoristas são tendencialmente mais libertários. E acho que as pessoas tendencialmente mais libertárias tendem a ser menos religiosas.
    (Podem haver também ateus nada libertários, mas é difícil apanhar libertários muito devotos. Quem acredita num ditador celeste que é o BEM, e que a Liberdade é seguir Jesus como uma ovelha que encontrou o pastor, ainda não entendeu muito bem o conceito...)

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  2. Quanto ao texto do JCN, é a coisa "mai linda".

    Só existe uma pessoa que o consegue ultrapassar: ele próprio.

    Semanalmente.

    Quando eu penso que é impossível descer mais baixo, ele abre-me os horizontes.

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  3. Krippahl

    O problema com o humor religioso e anti-religioso é muito simples de explicar.

    Um ateu não entende que para um crente "Alguém" deve merecer um enorme e profundo respeito. Se assim não fosse, o crente não seria crente.

    E um ateu acha-se no direito, seguindo as instruções do coleccionador de carróceis e vendedor online de t-shirts para homem, mulher e cirança, que assina como Richard Dawkins, de gozar com as crenças de um crente.

    Mas como pode um crente fazer humor com um ateu se ele não tem quaisquer referências com que se possa gozar? Só gozando com o próprio ateu, dado que as ideias na cabeça de um ateu esvoaçaram há muito tempo para terras desconhecidas.

    E isso o ateu não gosta. Perde-se o fair-play, amua, considera ofensivo, chora, chama pela mãe. É um espectáculo deprimente e confrangedor.

    Como os crentes são seres delicados, extremamente caridosos e cheios de compaixão, decidem abster-se de gozar com os ateus. E o jogo fica desequilibrado.

    Digo eu, que sou semi-budista e por isso frequento uma aula de ioga e meditação com mulheres lindissimas, carentes e desocupadas.

    Gonçalinho Metralha

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  4. Gonçalinho Metralha:

    O Ludwig não estava apenas a notar que os mais devotos têm dificuldade em gozar com Deus da mesma maneira que os descrentes. Isso é naturalíssimo.

    O que é curioso que é que os mais devotos não têm sentido de humor para tudo o resto. Nunca dão bons humoristas, nem que seja para gozar com a política, com a sociedade, etc...

    Se calhar só conseguem mesmo gozar com os ateus, mas esses não fazem beicinho que já estão habituados, e têm "a mania" que os outros têm o direito a pensar e dizer o que quiserem.

    Ver:
    http://jesusandmo.net/2006/10/11/park/

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  5. Gonçalinho Metralha:

    Não leves a mal, mas agora o teu estilo lembrou-me o de uma pessoa que abandonou estas bandas e deve estar cheia de vontade de voltar. Eh!Eh!Eh!

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  6. Eu ri-me das salas de chuto :D

    Esta problemática lembra o Guilherme de Baskerville e o Venerável Jorge, no Nome da Rosa.

    Beijinho,
    Paulo

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  7. Acho que este comentário é de uma profunda injustiça para com o JCN. Nota-se claramente no texto, que ele pretende gozar (utilizando uma ironia subtil) com os crentes mais fervorosos e que pretendem que se as coisas não forem feitas como eles querem, o mundo vai-se tornar um caos.

    Tenho a certeza que foi isto que o JCN quis ironizar (mas posso estar enganado).

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  8. O César das Neves é um comediante nato. Basta-lhe abrir a boca e debitar as ideias que o tornaram famoso.
    De facto a maioria dos comediantes é de natureza não religiosa.Parece que o sentido de humor não é muito comum nos meios mais conservadores.
    Dentro dos cómicos não religiosos aparecem alguns que gozam com as suas próprias origens, como é o caso do Judaísmo com Jon Stewart e Woody Allen.
    Mas o humor já começa a despontar nos meios mais conservadores. Na América já investiram num programa estilo Daily Show, mas pró -republicano.
    Mas não há dúvida que a religião é uma fonte inesgotável para se fazer humor.

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  9. Fulano de Tal,

    Confesso que não percebi o que o JCN estava a satirizar. Podes ter razão na tua interpretação. Não sei.

    O meu ponto é que me parece que ele tentou ter graça e, admitindo ser um juízo subjectivo, parece que não conseguiu. É como acontece quando uma pessoa conta uma anedota e tem que avisar os outros que já acabou...

    RJ,

    Será o Colbert Report? Esse não é bem conservador. Bem... é, mas não é...

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  10. L.K.,
    O Colbert Report é mais como um "filho" do Daily Show.
    Vi há uns tempos (ou no you tube ou na televisão) uns sketches de um programa que aparentemente tentaria reagir ao Daily Show, mas no campo oposto (republicano). Penso que o programa era da FoxNews, o canal dos conservadores na América.
    Lembro-me que um dos Sketches gozava com o filho do Al Gore (foi apanhado com uma pequena dose de droga há uns tempos).
    Mas globalmente não tinha tanta piada.

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  11. Também me parecia que me estava a escapar qualquer coisa no texto desse senhor!

    Isto é outra coisa dificil de vêr num "crente". Admitir a ignorancia.
    Tipos sem humour e com uma resposta unica para tudo. E aparentemente esquisofrénicos Enfim...

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  12. Um crente com sentido de humor... deixa cá ver, Zé... O Jardim Gonçalves, não. O Mota Amaral, não. O César das neves... sim, às vezes, mas é sem querer. O Bin Laden não, o Padre Melícias não... Já sei: o Dalai Lama!
    Mas este não sei se conta. O Budismo é a única religião ateia do mundo. Podemos considerar os budistas?

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  13. O que é um semi-budista?

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  14. Semi-budismo é uma semi-conversão ao budismo.

    Edgar Morin explicou, com grande mestria, ao jornal argentino Clarín, o que é ser semi-budista.

    Cito:

    Yo mismo me defino como semi-budista.

    ¿Qué razones lo impulsaron a su semi- conversión?

    Buda tiene dos mensajes muy importantes. El primero pasa por la compasión: a partir de la idea de que vivir es sufrir -y la palabra compasión significa sufrir con- uno se torna sensible al padecimiento del otro. Como es una religión muy abierta al mundo viviente, tanto al animal como al vegetal, esa intención se extiende a todas las criaturas y no sólo a los humanos, como sucede, por ejemplo, en el cristianismo. El segundo mensaje del budismo también resulta interesante: se refiere a la impermanencia.

    Explíqueme esa palabra.-Se trata del cambio permanente, de que todo pasa. Es una idea que permite enfrentar la incertidumbre del mundo contemporáneo con serenidad, al entender que hay una lógica por la cual las cosas se van, se modifican. Eso ayuda a tomar un poco de distancia frente a la agitación de esta época, facilita esperar lo inesperado -como señalaba al principio de la entrevista- y a vivir el cambio no como una tragedia, sino como algo más natural, inherente al ser humano.

    Fonte:

    http://www.clarin.com/diario/1998/04/26/i-02001d.htm

    Gonçalinho Metralha

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  15. eu acho que aquela «coisa» alarve ,tb chamada de humurista (!!!!!!) do fernando rocha é crente

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  16. santucho,

    Esse não é humorista.
    Esse é um papagaio, alarve, que recita de forma espalhafatosa o que outros inventam. Não é criador.
    Nem paga pelo que diz a quem inventou, o que noutra conversa paralela com o Ludwig, seria um bom argumento a favor do copyright!. :-)

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  17. Ludwig

    És um crente! Então o que escreveu o João César das Neves é humor? Em que planeta? Atira em todas as direcções e não acerta em absolutamente nada! Para falar verdade, tive que ler o texto duas vezes para perceber onde estava a parte da religião no texto dele!

    O humor depende de quem o faz e de como se faz. O tema ajuda, mas nem sempre: o Herman já não fazia piadas com conotação sexual, mas era simplesmente ordinário. Há uma diferença e não é pouca! No meu blogue gosto de pensar que sou saudavelmente ordinária, mas dentro dos limites do bom gosto. Há opiniões para tudo e o meu comentário mais curioso foi "Abobrinha=nojo". Não se pode agradar a todos. No caso deste marmanjo... acho que não agradará a ninguém... pelo menos que saiba ler! Não é um religioso: é um tipo sem sentido de humor. Ponto final.

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  18. Ludwig,

    «Ou se calhar engano-me. Talvez seja uma correlação acidental ou uma amostra enviesada. Quem sabe há por aí bispos e imãs que fazem de cada sermão um show de gargalhadas.»

    Engana-se de certeza!
    E explica-se com estatística. O meu caro tenta ter o mínimo possível contacto com crentes, sejam eles leigos ou clero.

    Como em tudo na vida, encontram-se belos espécimes de refinado humor no clero, como nos católicos, como nos hindus, como nos muçulmanos, como nos ateus.

    A isto eu chamaria "preconceito". Mas, como já referi, deve-se ao seu parco contacto com tais pessoas. Isso costuma gerar preconceito! ;)

    Um abraço

    Um abraço,

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  19. «O Budismo é a única religião ateia do mundo.»

    Porque é que este tipo de asneiras continua a pulular por aí?

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  20. Vale a pena ler...

    http://www.hottopos.com/piadas/bomhumor.htm

    http://www.hottopos.com/piadas/tratado.htm

    Nada como algumas boas lufadas de ar fresco para desempoeirar preconceitos... ;)

    Um abraço e bom dia para todos!

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  21. Espectadores:
    A afirmação de que o budismo prescinde de deus nem é uma asneira nem polula por aí (a maior parte das pessoas ignoram este facto).

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  22. Manuel de Castro09/11/07, 13:55

    A propósito deste texto do JCN, deixem-me introduzir uma questão ligeiramente off-topic.

    Uma coisa que me faz impressão, nestas beatas ultra-católicas, é a constante insistência na defesa da "família".

    Não é que eu seja contra a defesa do núcleo familiar, pelo contrário.

    Não percebo é como é que qualquer bom cristão pode dar mais importância aos seus filhos do que aos dos outros, em flagrante desrespeito do mandamento "Ama o próximo como a ti mesmo".

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  23. Há pelo menos uma excepção:
    http://www.youtube.com/user/goobergel
    Ele diz que é cristão, mas que não julga as pessoas por superstições alheias, chama as suas crenças pessoais de fantasias e critica criacionistas fundamentalista, para além de fazer piadas de si mesmo.

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  24. josé luiz sarmento,
    "O Budismo é a única religião ateia do mundo."
    Não é a única religião ateia. LOL
    Por exemplo, o jainismo também é uma religião ateia.

    Abraços

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