Treta da Semana: Jenny contra as vacinas.
Isto hoje tem que ser rápido. Faço doze anos de casado; não é um bom dia para perder muito tempo com o blog. Especialmente se quero chegar aos vinte e quatro.
A Jenny McCarthy é actriz, no sentido lato, e mundialmente conhecida pela fama que tem. E, tragicamente, é mãe de uma criança autista. O autismo foi diagnosticado pouco depois da criança ser vacinada, o que não é de estranhar. As crianças tomam várias vacinas nos primeiros anos de vida e é muito difícil diagnosticar o autismo antes de desenvolverem comportamentos sociais e começarem a falar. Desta infeliz correlação, e contra todas as evidências, algumas pessoas concluem que são as vacinas que causam o autismo. Agora a Jenny usa a sua celebridade para convencer as pessoas a não vacinar os filhos (1).
Por causa destes disparates de famosos, e de jornalismo irresponsável (2), no Reino Unido a incidência de sarampo em 2007 foi dez vezes maior que no ano 2000*. Isto porque muitos pais tiveram medo de dar a vacina tríplice aos seus filhos, apesar das garantias dos pediatras. A prevenção do contágio, das vacinas aos preservativos, é normalmente vista como protegendo o indivíduo precavido. Mas isto é só metade da história. Nenhuma protecção é 100% eficaz para quem se expõe ao contágio, e o efeito principal destas medidas é reduzir a taxa de transmissão e diminuir a incidência da doença na população. A vacinação protege-nos por reduzir o contacto com pessoas infectadas.
Por isso quem não vacina os seus filhos beneficia da mesma protecção que os outros. Se quase todos se vacinarem. Mas se os penduras se tornam uma minoria significativa a taxa de infecção aumenta e todos são prejudicados. Por vezes inofensiva, neste caso a tendência dos famosos para dizer disparates (3) é perigosa se muita gente seguir estes conselhos irresponsáveis.
Felizmente, nem todas as celebridades são tolas. A Amanda Peet, «chocada com a quantidade de informação errada por aí, especialmente em Hollywood»(4), decidiu fazer campanha para que os pais dêem mais atenção aos médicos que aos actores quando decidem sobre a saúde dos filhos (5). Nesta guerra de celebridades, a Amanda tem duas vantagens sobre a Jenny. É mais gira (6) e é actriz sem precisar de esticar tanto o termo. Mas a Amanda usa o cérebro, uma desvantagem significativa terreno onde combatem, enquanto a Jenny deixa o dela guardado entre a bóia para o deserto e o repelente de gambusinos. Por isso a luta promete ser renhida.
1- PR.com, Jenny McCarthy on Healing Her Son’s Autism and Discovering Her Life’s Mission.
2- António Granado, 1-9-08, Mau jornalismo de ciência.
3- BBC, 27-12-08, Stars 'misleading' about science
4- Melissa Lafsky, 11-7-08, Autism and Vaccinations: A Celebrity Smackdown
5- WCBSTV, Peet Heads Campaign Urging Vaccinations For Kids
6- Elizabeth Snead, 30-9-08, Innoculate this: Amanda Peet, Jenny McCarthy's verbal vaccine war
* Editado: tinha-me esquecido desta referência. Sow the wind, Economist, 4-12-08.
