quarta-feira, dezembro 13, 2006

Coitada da mosca...

Na edição do jornal O Público de dia 8 há um artigo sobre Charles Brabec, que está a montar um museu criacionista em Mafra (1):

«Charles Brabec traz para a mesa uma série de fósseis. Dentro de uma caixinha transparente está um pedacinho de âmbar amarelo, com uma minúscula mosca-do-vinagre lá dentro. "É resina fossilizada, muito antiga; por que é que as moscas-do-vinagre continuam a existir? Não evoluíram!"»

Temos então uma mosca em resina “muito antiga”. Claro que não diz quão antiga é. Se disser que a mosca tem 4000 anos ninguém acha estranho que seja parecida com as que vivem hoje em dia. E se disser que tem milhões de anos vai ser difícil defender que o universo tem poucos milhares de anos. Mas uma é clara: ele sabe que a mosca não evoluiu.

Chamamos moscas aos insectos da ordem Diptera (duas asas). Conhecem-se 85 mil espécies nesta ordem e estima-se que haja um total de 200 mil. Do género Drosophila, a tal mosca-do-vinagre, há cerca de mil espécies descritas. O senhor criacionista olha para uma mosca que lhe parece ser duma destas espécies e diz logo que não evoluiu.

Não sei o que Brabec procurava numa mosca primitiva. Um machado de pedra e uma tanga de pele de leopardo? É que aos nossos olhos uma mosca é uma mosca. Primitivas ou não parecem-nos todas a mesma coisa, e é por isso que agrupamos 200 mil espécies no mesmo termo “mosca”. Talvez um entomólogo experiente saiba distinguir moscas primitivas de moscas modernas, mas a pergunta de Brabec sugere que ele não é perito na matéria. Além disso muitas características podem evoluir sem que se note nada olhando para a mosca adulta fossilizada. O tipo de alimento, os rituais de acasalamento, onde põem os ovos, o que comem as larvas, e assim por diante. Mas Brabec dá uma olhada e diz que não houve evolução. E porquê? Porque ainda existem moscas do vinagre. É claro, se não existissem ele também dizia que não tinha havido evolução porque se tinham extinguido. O criacionismo tem mesmo resposta para tudo... é pena é ser sempre a mesma resposta.

A fé dos criacionistas protege-se com uma grossa camada de ignorância. Ignoram a teoria que criticam, ignoram os factos, e ignoram até o propósito duma explicação. E é ignorância que nos querem vender, substituindo a compreensão que temos por um milagre incompreensível.

1- Clara Barata, disponível online no Conta Natura

4 comentários:

  1. Um museu criacionista?! Mas porque será que ele veio para Portugal?

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  2. Se Deus criou mesmo tudo em sete dias vai ser um museu bem pequenino...

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  3. A técnica dos creacionistas é sempre a mesma: a meia-verdade e o aproveitarem a falta de conhecimento científico do grande público (e do Marques Mendes, como dizia o outro). Infelizmente essa também é a técnica dos jornalistas de meia tijela. Outro dia lí no jornal do Lidl que o Neandertal tinha o código genético 99,5% igual ao nosso. Esqueceram-se de dizer que isso perde qualquer significado sensacionalista perante o facto de o chimpanzé ter 99,6% de semelhanças genéticas conosco.

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