sexta-feira, setembro 07, 2007

Respeito

pode querer dizer várias coisas. Obediência, como em respeitar os sinais de trânsito, ou medo, como em ter respeito por vulcões. Respeito também é algo que podemos exigir dos outros, mas obviamente noutro sentido. O respeito que é legitimo eu exigir de outros é que me tratem como um igual. Nem mais, nem menos, que isso.

Quando alguém me pede que respeite a sua fé tenho que recusar. Não posso tratar a fé como um igual. É uma ideia, nem é uma pessoa. Mas respeito o crente, claro que sim. Trato o crente como um igual, e trato a sua fé como trato qualquer opinião, minha ou de outros.

O problema é que o respeito que os crentes querem não é este. Não querem que as suas ideias sejam tratadas da mesma forma que quaisquer outras ideias de qualquer outra pessoa. Podemos criticar opiniões políticas, gozar com o futebol, insurgir-nos contra os métodos de ensino, refutar teorias científicas. Mas muitos crentes querem ser excepção. E isso, além de treta, é uma falta de respeito.

6 comentários:

  1. Toca num problema cabeludo e, frequentemente, perigoso para a integridade física das pessoas:"o respeito que os crentes querem não é este".

    Porque a dúvida e a crítica lançada sobre as suas convicções é encarada por muitos como insulto aos seus sentimentos, ao seu Pai e Mãe (os divinos) e coloca-os perante a obrigação de "partir a cara" a quem os trata assim.

    Muito pior ainda quando esta maneira de lidar com as dúvidas e críticas passa a ser norma legal num Estado confessional.

    E mesmo aqueles crentes a quem horroriza a violência ou a repressão dificilmente conseguem entrar num debate onde as suas crenças possam ser escalpelizadas de modo a levantar questões sobre as motivações psicológicas que estão por detrás dessas mesmas crenças.

    Por tudo isto,talvez, estas polémicas sejam, com alguma frequência, fatigantes e repetitivas. Fatigantes por despertarem emoções básicas, repetitivas por dificilmente conseguirem evoluir dum patamar de consenso para outro.

    Mas são necessárias.

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  2. Evidentemente uma falta de respeito. Pois não deve haver assuntos indiscutíveis. Desde que se cumpram os requisitos para um debate qualquer assunto pode e deve ser posto em causa.

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  3. Viva!
    Só hoje vi a sua resposta ao meu comentário e vou tentar fazer um 2 em 1.
    O Ludwig diz peremptoriamente nessa mesma resposta que Deus não existe. É uma afirmação tão sem fundamento como aquela que afirma o contrário. Do ponto de vista daquilo a que comumente costumamos chamar a actividade lógico-racional só chegamos a paralogismos, como muito bem viu Kant.
    Mas a fé do crente (refiro-me ao crente, não ao supersticioso nem ao tipo que quer uma entradita para o céu, onde poderá continuar a pastar em segurança)está para além disso.
    Já Tomás de Aquino fazia notar que toda a nossa vida é fundada na fé nos nossos companheiros de viagem temporal. Todos tomamos como ponto de partida que aquilo que nos ensinam os que consideramos mestres do conhecimento está, pelo menos em parte, certo. Nem eu nem o Ludwig alguma vez vimos a Terra a rodar sobre si própria, que é do mais básico que qualquer um afirma hoje ser verdade, e que forma uma imagem de segurança indspensável formação da nossa própria identidade. Todos os dias confiamos naquilo que uns quantos nos digam, todos os dias temos fé na visão do mundo que se foi construindo e que fomos construindo. Mas como nenhum de nós é capaz de transcender o tempo e o espaço, temos que confiar em que tudo já existiu e existirá para além de nós. Mas é uma fé, quer dizer, o conhecimento baseia-se numa atitude de fé - desde logo na própria possibilidade de conhecer.
    E a fé dos crentes é um pouco semelhante, só que com outra dimensão. Por isso é que eu penso que não tem sentido discutir uma coisa dessas.É uma questão de perspectiva. É tão obsceno perguntar a alguém se acredita em Deus como se não acredita. Pregadores que exibem Deus (o deles) ou que negam Deus, ponho-os no mesmo saco.
    O comentário fica a meio porque tenho o jantar à espera. Depois continuo.
    Saúde.

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  4. O "respeito" que os crentes querem é aquele clássico "religião não se discute" para depois interpretarem a omissão como "anuência silenciosa". Quando criticamos suas crenças, eles, pródigos em críticas a outras fezes (plural de fé) e à descrença em geral, sentem-se profundamente incomodados. Pudera! Estiveram por dois mil anos sentados na macia cadeira do juiz... O assento do réu é um tanto mais desconfortável.

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  5. Joaquim Simões,

    “Nem eu nem o Ludwig alguma vez vimos a Terra a rodar sobre si própria, que é do mais básico que qualquer um afirma hoje ser verdade...”
    “Mas é uma fé, quer dizer, o conhecimento baseia-se numa atitude de fé - desde logo na própria possibilidade de conhecer.”

    He he he. Claro! Toda a ciência é apenas fé. Eu tenho fé de que estou cruzando o Atlântico a bordo de um avião, porque talvez haja a possibilidade de que o avião esteja ainda no chão e eu com um plug na nuca, como no filme Matrix...
    Soa absurdo, claro, pois o avião é uma das materializações da ciência e independe de fé. Ciência significa “corpo de conhecimentos”; suas afirmações devem ser falseáveis, ao contrário das “verdades” reveladas; a ciência evolui principalmente derrubando crenças científicas, enquanto os “conhecimentos” de uma religião podem ser os mesmo há milhares de anos.

    Sobre o seu exemplo: Ou a Terra roda sobre si própria ou todo o firmamento gira ao redor da Terra. Ou o sol é o centro e todas as órbitas dos planetas são elípticas ou a Terra é o centro e as órbitas dos planetas são excêntricas, as de Mercúrio e Vênus são pequenas espirais, etc.
    Não é preciso fé mas bom senso, para aceitar isso. E, ao contrário da religião, se você provar que a coisa é diferente do que a ciência propõe você poderá ser premiado com o Nobel; na época em que as religiões tinham mais poder temporal, aquele que se opunha a um de seus dogmas era morto. Enquanto isso, no mundo da ciência, Einstein demonstra que as teorias do sacrossanto Newton não são válidas sob certas condições, e alcança a fama, é premiado por não ter fé naquilo que era tido como verdade incontestável.
    Ou seja, você está tentando contaminar a ciência, que significa tão somente “corpo de conhecimentos”, com as demências dos religiosos. Péssima tentativa, he he he.

    “E a fé dos crentes é um pouco semelhante, só que com outra dimensão. Por isso é que eu penso que não tem sentido discutir uma coisa dessas.É uma questão de perspectiva. É tão obsceno perguntar a alguém se acredita em Deus como se não acredita. Pregadores que exibem Deus (o deles) ou que negam Deus, ponho-os no mesmo saco.”

    Quanta bobagem!
    Há fé na ciência? Há, e daí? Mas ninguém tem fé que os humores malignos irão embora com sanguessugas, como ainda pensavam muitos médicos em algum ponto do recente século XIX. Tampouco os químicos têm fé na transformação do mercúrio em ouro ou que a Terra atrai uma pena com menos força do que uma bola de chumbo, como pensava Aristóteles. Ora, a Bíblia não é reescrita dia após outro, negando Cristo baseada em novas "descobertas da fé".

    Para que ter fé em algo que existe? Ora, as pessoas não ficam repetindo "creio no telefone celular, creio no avião supersônico, creio na Internet, creio na areia do mar". Elas sabem que existem. Quando o assunto é metafísico, os crentes têm que ficar repetindo o dia inteiro "eu creio nisso, creio naquilo, creio nisso, creio naquilo, creio nisso, creio naquilo" para talvez se convencerem de que crêem de fato. E têm que repetir mais vezes ainda para acreditarem que a farinha de trigo da Hóstia é, na verdade, carne humana, tão carne humana como a da qual somos feitos... Ou para acreditarem que Adão e Eva existiram daquele jeitinho e que a Bíblia foi ditada em uma complicada e ambígua linguagem simbólica para os homens. Aí são necessários mais do que "creios". Então optar por ser cético em relação a tudo o que possa contradizer a Bíblia, inclusive em relação ao que ainda não foi dito, pesquisado e até mesmo provado, é optar por não acompanhar a humanidade, por ficar para trás, em algum lugar tribal do Oriente Médio, como fazem os sauditas hoje em dia, que aprendem em algumas Madrassas que nosso planeta é chato.

    E uma informação para você: deus não existe, nenhum deus. Quanto mais um deus eterno para o qual não haveria tempo, que teria me criado no instante em que estaria me enviando ao inferno, para o qual haveria a possibilidade de fazer com que eu nunca tivesse existido, já que para ele não haveria tempo. Como não há qualquer possibilidade de eu nunca ter existido, digo que NÃO HÁ POSSIBILIDADE de existir tal deus. E é por isso que é mais racional ser ateu do que agnóstico.

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  6. Caro Joaquim Simões,

    Como notou o leitor Catellius no comentário anterior, essa simetria que propõe é enganadora.

    Acreditar com toda a certeza que há dois mil anos um deus nasceu de uma mulher virgem é bem diferente de rejeitar essa hipótese enquanto as evidências não a suportarem. Não se trata de fé de um lado e fé do outro. Trata-se de fé de um lado e bom senso e pragmatismo do outro.

    Diga-me o Joaquim quantas vezes se atirou para o chão com medo de tijolos invisiveis voadores? Acha que assumir que estes não existem é um acto de fé tão injustificado como passar a vida com medo que o atinjam na cabeça?

    Mas não quero gastar aqui o tema do próximo post, até porque preciso de uma treta para esta semana :)

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