quinta-feira, setembro 06, 2007

Miscelânea Criacionista: microevolução e macroevolução.

Muitos não aceitam que um processo natural transforme uma população de microorganismos numa população de humanos. Mas não têm problemas em aceitar que um processo natural transforme um embrião unicelular num humano adulto em vinte anos. Julgam que o desenvolvimento de uma célula a um adulto não é nada de especial porque o embrião já tem os genes, e que o difícil é chegar aos genes. Tão difícil que nem quatro mil milhões de anos chegam. E isto é um disparate.

Os genes são trechos na molécula de ADN. É uma molécula complexa, mas nada que se assemelhe à complexidade de um ser humano, ou sequer de uma formiga. É um polímero formado por quatro tipos diferentes de moléculas pequenas. A diferença de espécie para espécie é a ordem e o número dessas moléculas que formam a cadeia de ADN. Difícil é transformar um bolo de chocolate num cozido à Portuguesa. Mas se pudermos alterar qualquer letra e tivermos tempo que chegue, é trivial transformar uma receita noutra. E o ADN é apenas a receita.

A evolução demora mais tempo porque é um processo de tentativa e erro. Cada mutação é testada na população de organismos. É com o passar das gerações que se vê se o gene passou o teste ou ficou pelo caminho. Mas apesar de demorado é um processo mais simples de compreender. Por isso já há 150 anos que percebemos como as espécies evoluem mas ainda sabemos muito pouco acerca do desenvolvimento dos organismos, e quase tudo o que sabemos é informação recente.

Aceitar que as espécies podem evoluir um bocadinho mas não muito é como aceitar que podemos envelhecer uma semana mas não um ano. É pior, até. Se é por não conseguir imaginar como a natureza o faz, é do envelhecimento natural que temos que duvidar primeiro. Passar de ADN de bactéria para ADN de humano não é nada comparado com a transformação do embrião humano num de nós. E o ADN do chimpanzé difere do nosso em apenas 5%.

Os criacionistas gostam de divisórias. O natural de um lado, o sobrenatural do outro. O material e o espiritual. A ciência e os milagres. E por isso gostariam também de separar a microevolução da macroevolução. Mas isso é como separar o microenvelhecimento do macroenvelhecimento. Não se pode. O último é, em grande parte, apenas mais do primeiro.

Em grande parte, mas não totalmente. Como é típico, os criacionistas distorcem um termo legítimo para enganar com uma verdade parcial. Há três mil e quinhentos milhões de anos microorganismos começaram a libertar oxigénio durante a fotossíntese. Durante dois mil milhões de anos o oxigénio liberto ligou-se a iões metálicos dissolvidos no oceano, precipitando como óxidos metálicos. Mas há mil e quinhentos milhões de anos acabaram-se os iões metálicos e o oxigénio começou a acumular-se na atmosfera. Foi o maior desastre ambiental de sempre, obrigando a maioria das espécies a adaptar-se a este gás tóxico. Mas a possibilidade de queimar matéria orgânica para obter energia deu origem à respiração aeróbia, a quase toda a cadeia alimentar, aos seres multicelulares e à corrida entre predadores e presas que dura até hoje.

Não podemos explicar oitenta anos de vida apenas com o desenvolvimento biológico. A segunda guerra mundial, a queda do muro de Berlim, o 25 de Abril, muitos acontecimentos para além da biologia afectam o desenvolvimento humano. O mesmo se passa com a evolução. A macroevolução, no sentido de Ernst Mayr, é evolução afectada por factores que saem dos modelos de genética de populações. Por exemplo a física da atmosfera, a química dos oceanos, impactos de asteróides, vulcões, e assim por diante. É um termo legítimo, mas não indica nada de sobrenatural nem de fundamentalmente diferente da microevolução. Apenas reconhece o que é óbvio, que os seres vivos afectam o ambiente onde vivem e são afectados por este.

2 comentários:

  1. Estou muito desiludido com os criacionistas.
    Tu que lhes ofereces um post tão bom como este para virem aqui argumentar e ao fim destes dias nem um comentário!?!?
    Esta gente não tem ética... :-)

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  2. Dá-lhe tempo.

    Daqui a uns dois ou três meses vai aparecer aqui um lençol enorme a falar da informação, da entropia, dos fósseis de transição e essas coisas, e três minutos mais tarde outro comentário a fingir que é de outra pessoa a dizer, pois sim, os evolucionistas não percebem nada disto.

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