segunda-feira, setembro 03, 2007

Ao lado, parte 3: sem transcendências.

Na sua crítica à minha crítica do ofertório, o Bernardo falha outro alvo importante.

«a vida do ateu é explicada de forma simples: "Trabalho para obter dinheiro; uso o dinheiro para obter comida; como para me manter vivo; morro. Ponto final." [...]
Sem modelos nem referências transcendentais, o ateu radica a sua existência no hic et nunc, no "aqui e agora" utilitarista, na fruição da experiência existencial tal qual ela é, sem grandes interrogações ou suposições metafísicas. [...]
Para o crente [...] Deus criou tudo. [...] A vida não pertence ao Homem, mas sim a Deus: é um dom de Deus para o Homem.
» (1)

É verdade que não considero a vida um dom de Deus para o Homem. Que dom? Temos que lutar por ela. Bombear o sangue pelo corpo, ventilar os pulmões, ingerir água e alimentos. Viver é tão difícil que nem se consegue sozinho, e só podemos contar uns com os outros. Ninguém sobrevive a fiar-se em deuses. A vida não é uma dádiva divina. É uma obra nossa, um esforço individual e colectivo.

Mas o Bernardo falha na inferência. Rejeitar especulações infundadas não me limita nem ao hic nem ao nunc. Não vivo no agora. Dedico uma boa parte da vida ao meu futuro e ao futuro de outros. Nem vivo no aqui. Sou ateu precisamente por tentar ir além da crença pessoal, moldando as minhas opiniões ao que observo da realidade.

Neste universo vale a pena. No outro dos elefantes a segurar a terra em cima da tartaruga talvez não valesse, mas neste a realidade é muito mais rica que a especulação da nossa imaginação limitada. A argumentação teológica é ridícula quando comparada às reacções nucleares numa estrela, à formação de moléculas complexas ou ao equilíbrio dinâmico de um ecossistema. Compreender a realidade leva-nos muito mais longe que qualquer oração.

E compreender a realidade faz parte deste esforço para viver que mostra que, em parte, a vida de cada um é mérito seu. A ajuda que recebemos devemo-la a pessoas como nós, a quem também podemos ajudar. A vida é uma cooperação entre iguais. Não é uma esmola de um ser omnipotente nem uma mera passagem para outra vida sabe-se lá onde. É uma oportunidade única, frágil e preciosa.

Por isso preocupem-se com a vida depois da morte, mas não com essa treta das alminhas numa eternidade de hossanas. Preocupem-se com o ambiente, com o uso de recursos limitados, com o progresso do conhecimento e com o legado que deixamos aos que virão depois de nós.

Agradeçam. Mas não a seres mitológicos ou abstracções metafísicas. Agradeçam aos que construíram as nossas sociedades, que descobriram o que sabemos acerca da natureza e nos dão a possibilidade de ir mais além. E não agradeçam de joelhos, de palminhas unidas ou com sermões sem sentido. Agradeçam de mangas arregaçadas e a fazer algo de útil.

E se querem dar, dêem. Dêem oportunidades, educação ou ajuda a quem precisa. Ou mesmo esmolas, se não tiverem mais nada para dar. Mas não aos padres nem à igreja. Ninguém precisa nem merece menos que esses.

Ao lado, parte 1
Ao lado, parte 2

1- Bernardo Motta, 26-8-07, Materialismo em estado puro

31 comentários:

  1. As férias inspiraram-te, vens com as mangas arregaçadas. Sinto muita força neste teu post(al) mas metes os Padres todos no mesmo saco o que não é justo. É certo que há muitos que não prestam, hipócritas de profissão, infelizmente conheço imensos que nem dados os queria, no entanto conheci alguns com tomates que davam o corpo ao manifesto, ali no campo a ajudar o próximo sem olharem a quem, sem venderem a Fé e o Deus em que acreditam. Em Angola conheci dois assim, os P.es José Maria, lixaram-me bem a mioleira mas foi um privilégio trabalhar com eles. Não é por se ser crente ou ateu que somos melhores ou piores, não acredito nisso, nem nas pessoas que nos vendem isso. Não gosto que se impingem religiões, mas também não suporto que me chamem de estúpido e neocolonizador só por ter dedicado 3 anos da minha vida a tentar ajudar quem tem menos que eu, em Portugal e em África, através duma fundação católica (a única que me aceitou).
    É apenas uma achega.
    Fica bem, um forte abraço JPVale

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  2. Neocolonizadores me levem, se este JPVale não tem tudo para ser ateu! ;-)
    Até faz o bem desinteressadamente, que é como também fazem os ateus.
    Eu vou dar uma justificação que não é devida, mas, que por vezes fica mal explicada da minha parte. Eu não tenho nada contra os crentes, ou a generalidade dos padres que conheci, apesar de por vezes a generalização de termos poder parecer indicar o contrário. :-) Os criacionistas é que me fazem espécie, especialmente porque ainda só conheci exemplares de rara manhosice e dúbia esperteza, como um antigo politico português, e parecem vir todos das beiras... Não sei se o caso particular do Ludwig será assim, mas, é dificil não generalizar os termos mesmo quando o alvo são algumas das personagens no topo hierarquico.

    A questão da ajuda, em particular, acho que a igreja faz um pessimo trabalho, porque ir distribuir medicamentos e auxilio é estar a distribuir paleativos, sem atacar a causa do problema. O problema da SIDA é o mais gritante. Quando o papa condena o uso de preservativos, é hipocrita vir depois dar ajuda para minimizar o sofrimento. A atitude correcta é impedir a causa do sofrimento!
    O passo seguinte é o que? Promover os banhos de gasolina à luz das velas para espantar o diabo, e depois enviar unguento para tratar queimaduras?
    Está a vê como a generalização da questão engloba erradamente todos os padres, incluindo aqueles que na realidade até ensinam o uso dos preservativos contra as indicações do papa... É limitação da linguagem. :-)

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  3. Oi Paulo,

    Não digo que todos os padres sejam maus. E concordo que dar meios a quem quer fazer coisas de jeito é uma boa ideia, seja com dinheiro seja com o que for.

    Mas acho que por muito boas intençoes que tenha, o senhor padre que vive confortavelmente às custas do ofertório não serve de nada nem merece o dinheiro. Especialmente, não me parece razoável a ideia de dar ao padre porque devemos dinheiro aos deuses.

    E ai bem perto de ti tens um bom exemplo, pelo que consta. A cada hora que passa ouve-se o desafinanço de mais um dos muitos maus investimentos desse padre :)

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  4. E também há esse problema que o António menciona. Os padres, e a igreja em geral, não actuam no melhor interesse das pessoas mas sim em cumprimento da sua ideologia.

    Infelizmente, é um ideologia em que é preferível deixar morrer de SIDA que distribuir preservativos... Não digo que não haja excepções, mas essa é a orientação oficial da igreja católica e isso lixa muita gente.

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  5. Caro António,
    No caso do SIDA concordo contigo, mas apesar de não concordar também compreendo o lado formal ou institucional da Igreja. No entanto se fores ao terreno verás que já não é tanto assim. Falo do que vi. Há alguns Padres que fazem tábua rasa disso, e é que claro que aos olhos da Igreja irão arder no Inferno, não tenho a mínima dúvida, mas irão salvar imensas Almas ou vidas (como queiras).
    Mesmo que hoje a Igreja decretasse os preservativos remédio santo seria muito complicado convencer aquela malta a usá-los. Convivi 24 sobre 24 horas com cerca de 140 rapazes angolanos (1 ruandês) e nem imaginas a trabalheira que tinha para os convencer que os preservativos não eram só para vista. Uma coisa é estarmos aqui no bem-bom e mandar umas bocas, outra é lá, conhecer aquela gente.
    Muito me chatearam, estavam constantemente a bombardear-me com perguntas como “o JP está aqui há tanto tempo e nada de sexo?” e cenas do género. :)
    Um abraço JPVale

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  6. Ludi,
    Como bem sabes, já o afirmei anteriormente, apesar de não concordar com tudo o que escreves gosto imenso de te ler. A partilha e a confrontação de ideias são essenciais, e se no passado foi importante hoje em dia muito mais, mas esgrimir sobre religião, politica e desporto é do camano, dão cá uma trabalheira.
    Estou de acordo contigo, esta história de receber só por receber e não justificar não é aceitável. Os exemplos são mais que muitos. Infelizmente a Igreja como instituição não é isenta de reparos, no entanto dentro desta há e houve 4 instituições de que admiro a sua obra e trabalho: os Franciscanos, os Cistercienses, e os extintos Templários e os que os substituíram na Tuga, a Ordem de Cristo. O que têm em comum? A sua grande independência e rebeldia face à Igreja de Roma, nem imaginas a trabalheira que estes freires lhe deram e/ou dão. Poderia referir outros com obra notável de que admiro mas infelizmente o seu passado está manchado de sangue, como os Jesuítas.
    Em Angola conheci os Franciscanos, os Cistercienses e os Dominicanos, todos monges(as) e freires de clausura, só te digo, são um espectáculo! Ora aqui está um bom tema a escrever num blog, quando tiver pachorra para criar um. :)
    Continua a escrever! Um abraço amigo, JPVale

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  7. Na linha de um comentário que deixei num post anterior, referindo as questões de afirmação pessoal que produzem argumentações sem pés nem cabeça de ambos os lados.
    Desde logo, meu caro Ludwig, o facto de alguém a quem o meu amigo ofereceu um automóvel ter que passar, a partir daí e caso o aceite, a tratar da sua alimentação, manutenção, conservação e, eventualmente, da sua inovação, implica que ele deixou de ser uma oferta sua?

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  8. «o facto de alguém a quem o meu amigo ofereceu um automóvel ter que passar, a partir daí e caso o aceite, a tratar da sua alimentação, manutenção, conservação e, eventualmente, da sua inovação, implica que ele deixou de ser uma oferta sua?»

    Se oferecerem um telemóvel ao Joaquim, o Joaquim sente-se na obrigação de agradecer de joelhos?

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  9. Os joelhos são despesa sua, não minha, caro anónimo. Aliás, caso não saiba, o "Abba", pelo qual se diz que Cristo chamou na cruz antes de morrer, é um termo carinhoso que significa "paizinho", o pai carinhoso e companheiro, não o dominador e austero que exige o beija-mão de submissão, à imagem do senhor do feudo. Aquilo que a quase totalidade da cristandade tem feito dos textos que brande com veemência aos olhos da restante humanidade é que, a meu ver, se situa entre o grotesco e o hediondo.
    Schopenhauer definia o cristianismo como o budismo pregado aos bárbaros. E talvez tivesse razão.
    Já agora, não tire conclusões precipitadas do que escrevi, rotulando-me de cristão, budista ou outra coisa qualquer.

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  10. "Infelizmente, é um ideologia em que é preferível deixar morrer de SIDA que distribuir preservativos."

    A "ideologia" da Igreja é a abstinência e as relações sexuais dentro do casamento (monogamico). Não me parece que esta "ideologia" alguma vez tenha morto alguém, ou infectado alguém, muito pelo contrário.

    E vamos lá ser um bocadinho inteligentes, quem não respeita a doutrina da Igreja em relação à castidade, vai respeitar em relação ao preservativo? Quem já anda a fazer o que bem lhe apetece não vai deixar de usar preservativo porque o Papa diz, já que de resto não faz nada do que o Papa diz.

    Agora, a "ideologia" do amor livre, e do "vale tudo" é que é uma hipocrisia. Se por um lado cria todas as condições para a propagação do virus, como se viu até agora, por outro dá uma solução que é um presente envenenado, uma falsa sensação de segurança. A eficácia do preservativo na prevenção do HIV é cerca de 70%. Mas até podia ser 90%, que queria dizer que em cada 100 relações sexuais em 10 haveria contágio. Ou seja, o lema é "façam tudo desde que usem preservativo", como se a a pessoa estivesse completamente segura, o que é uma mentira completa.

    Por isso, os verdadeiros assassinos são os mentirosos que advogam o "vale tudo" na sexualidade, o que tem como maior evidência o desenvolvimento e a propagação de doenças como o virus da SIDA, mas também tem como consequência a degradação do ser humano, até ser tratado apenas como um bocado de carne.

    Chega de lugares-comuns e comece-se a dizer a verdade.

    Pedro Silva

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  11. Pedro Silva lembrou-me uma questão interessante, embora algo off-topic.
    Se tiver relações sexuais não protegidas com alguém infectado com o HIV qual é a probabilidade de contrair este?

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  12. Caro Pedro Silva,

    Quando se fala de monogamia, abstinência, e acrescento eu, heterossexualidade, as palavras que me ocorrem não são "padre de Boston" :-)
    É a teoria do faz o que eu digo, não faças o que eu faço?

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  13. Caro Antonio, isso é um argumento?

    Pedro Silva

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  14. Não pretende ser argumento. É uma mera constatação...

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  15. Se fosse um argumento seria mais do género:
    "Se pregam a abstinencia, é estranho que os representantes da igreja, especialmente os de Boston, gostem muito de não a praticar com crianças! Espero que ao menos não tenham usado preservativo, para não ignorarem completamente as ordens do papa. Isso é a prova de que a igreja está errada!"
    Mas, não é nada disto que eu disse, por isso não é argumento, é uma constatação, que mesmo os representantes da igreja são humanos, e por isso deviam ter mais precepção do que é ser humano, do que aquela que demonstram com directivas absurdas, que nem os seus representantes conseguem acatar.
    Isto talvez contenha vestigios de algum argumento. Um argumento que dá razão aos padres que ignoram o vaticano e fazem o que está certo, sem demagogias hipocritas de sugerir abstinencias, monogamias e não usos de preservativos! nenhum ser vivo consegue a abstinencia de forma natural e sem ter problemas emocionais!

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  16. Caro Antonio,

    Se um membro do governo é preso por corrupção, isso tira a legitimidade desse governo para lutar contra a corrupção? Será que a exigência da não-corrupção foi tão elevada, que nem um próprio membro do governo conseguiu respeitar esse ideal sobre-humano? Claro que não! A luta contra a corrupção está correcta. A decisão livre de um indivíduo em relação aos seus actos não pode pôr em causa essa ideia, se cometeu erros foram apenas por sua culpa, e por eles terá de responder.

    O mesmo se passa na Igreja. Se fosse constituída apenas por pessoas perfeitas, eu não podia lá estar. Nem eu nem ninguém, ou quase ninguém. A Igreja é feita de pessoas que cometem erros, isto é um facto, vejo-o por mim que erros todos os dias. Mas assumindo esta minha condição, dizer como quero ser no futuro, qual o meu objectivo para todos os dias é ser um demagogo hipócrita? Então nunca poderia aspirar a ser melhor do que sou, porque sou o que sou, e nunca vou conseguir ser melhor. A Igreja é um grupo de pecadores, a caminho, a lutar todos os dias para ser melhor.

    O que a Igreja diz é: o ser humano será mais ser humano, quanto mais conseguir respeitar a sua sexualidade e a do outro. Não sei porque diz que ter apenas relações sexuais dentro do casamento, que é a proprosta da Igreja, é impossível. Não creio que o seja, nem que seja uma exigência impossível. A conclusão em relação à SIDA, é que se as pessoas assim fizessem, o virus seria extinto. Mas com a política do sexo mal utilizado, e dos preservativos como a única salvação, a SIDA, e outras doenças, continuarão a existir e propagar-se, como até agora.

    Pedro Silva

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  17. Caro Pedro Silva,

    A visão católica do monogamismo, é meramente católica! Outras religiões defendem o poligamismo. Não se está a querer arrogar que tem uma religião melhor que as dos outros?! Eu coloco as religiões todas no mesmo patamar. Se houvesse deus, seria unico em quase todas elas, e no entanto, todas advogam coisas diferentes. Ou estão todas erradas (que é o que eu acredito), ou a visão de cada uma é a visão pessoal de alguns membros das mesmas, que conseguiram impor a sua vontade no seio dos seguidores. Por isso, a questão da monogamia, é-me religiosamente irrelevante. Se alguém resolve ser poligamico, o problema é da igreja, que acha que todos têm de ser uniformemente formatados. Numa sociedade como a africana no geral, é muito estupido tentar vender-lhes mentalidade católica ocidental, e acho ridiculo e hipocrita que um dito abstémio (papa) venha tentar passar ditames sobre a sexualidade de outras culturas, só porque esses também acreditam em deus.
    A questão da abstinencia, por outro lado, mono ou poligamica, é mais absurda ainda, pois está a tentar pregar contra a biologia, mas, isso não é novidade.
    Quanto ao preservativo, aí a coisa ainda é mais ridicula. Está um confesso não utilizador da sua própria biologia a tentar "ensinar" aos outros como é que se faz?! Isso cheira-me a tanga! Se eu quiser uma opinião sobre um carro vou falar com quem? Com um condutor e um mecanico? Ou vou falar com um gajo que nunca conduziu nem sabe nada de mecanica, mas, disseram-lhe que era assim?

    Voltemos à realidade. Africa não é a Europa... O mal da igreja é não querer aceitar essa realidade!

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  18. Joaquim Simões,

    Nenhum deus me deu a vida que tenho. Os meus pai deram um gameta cada um, e muito esforço e apoio. A família e amigos ajudaram bastante. O resto fui eu. Deus não deu o carro, nem nada.

    Pedro Silva,

    Se reduzir para um terço a taxa de transmissão de um virus vai deixar de ter uma epidemia para ter um virus em via de extinçao. Em vez de haver cada vez mais infectados vai haver cada vez menos.

    A SIDA é um drama para cada um, mas é sobretudo um problema de saúde pública. Principalmente em Àfrica. E a posição oficial da Igreja mata muita gente nesse continente, e já foi bastante criticada por esse argumento disparatado que o Pedro aqui repetiu.

    Por exemplo, aqui

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  19. Caro Antonio,

    “Voltemos à realidade. Africa não é a Europa... O mal da igreja é não querer aceitar essa realidade!”

    Não se pode propor a ninguém a monogamia, sob pena de se estar a violentar diferentes tradições, mas pode-se “propor” veementemente o uso do preservativo ao povo africano. Um é violencia, o outro não é. Estranho...

    Quanto a negar a biologia ou não, em primeiro lugar não me parece ser uma expressão muito feliz: Em segundo lugar, cada um usa a sua “biologia” como quer. A Igreja só diz que a “biologia” do Homem deve ser usada dentro do casamento e com quem se casa. Se pensa que não trair o/a marido/mulher é ir contra a “biologia”, perceba que outros não concordem com essa sua visão.

    Caro Ludwig,

    “Se reduzir para um terço a taxa de transmissão de um virus vai deixar de ter uma epidemia para ter um virus em via de extinçao. Em vez de haver cada vez mais infectados vai haver cada vez menos.”

    - Pode explicar melhor o seu raciocínio? Se uma pessoa pode transmitir o virus durante digamos 10 anos, e anda por aí a ter relações sexuais supostamente seguras, mas na realidade reduz apenas para um terço a taxa de transmissão, não poderemos ter um aumento do número de infectados? Um indíviduo não pode infectar milhares?

    - Sejamos sérios, se a Igreja propusesse o uso desregrado da sexualidade, com múltiplos parceiros e sexo ocasional, e depois dissesse não ao uso do preservativo, aí sim seria culpada de “mortes em áfrica”. Mas a Igreja muito antes do preservativo propõe uma vida sexual racional, e não animalesca. Quem segue a Igreja nisso, não terá problemas em não usar preservativo. Quem não segue, vai deixar de usar preservativo porque a Igreja proibe? Essa pessoa não se preocupa se estã a cometer adultério, mas vai fazê-lo sem preservativo, com medo do que a Igreja diz? Que ridícula, essa teoria.

    Devo relembrar que a Igreja admite o uso de preservativos num casal em que um dos conjuges está contaminado com qualquer doença sexualmente transmíssivel, por isso em relação a esse assunto deixemo-nos de demagogias.

    - E já agora, no mesmo site da BBC, pode ver este artigo: http://news.bbc.co.uk/2/hi/programmes/panorama/3844959.stm

    Há pelo menos o benefício da dúvida...

    Pedro Silva

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  20. Caro Pedro,

    Em média, um individuo não infecta milhares ao longo da vida. Se cada um infectasse 10 por ano a epidemia explodia em poucos anos (em dez anos havia mais infectados que pessoas no mundo).

    Mesmo numa epidemia como esta, cada infectado contagia, em média, poucos individuos. Como o preservativo reduz em cerca de 90% a taxa de transmissão (os outros 10% são as vezes em que é mal usado), o uso generalizado de preservativos controlaria a epidemia. Que é o que acontece nos paises industrializados.

    Isto não é demagogia. É um facto. Nunca, em toda a história da humanidade, a abstinência foi uma forma de controlar epidemias de doenças sexualmente transmissíveis.

    Demagogia é dizer que não faz mal a Igreja ter esta posição porque ninguém lhe liga. É demagogia, e é falso.

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  21. E ainda digo mais caro Pedro Silva,

    Quando diz: "Não se pode propor a ninguém a monogamia, sob pena de se estar a violentar diferentes tradições, mas pode-se “propor” veementemente o uso do preservativo ao povo africano. Um é violencia, o outro não é. Estranho..."
    É precisamente como que está o problema! A igreja não propões a monogamia, a igreja impõe, senão é tudo pecador e condenado ao inferno. E pior do que não propor, mas exigir a monogamia, é nem sequer propor o não uso do preservativo, mas, impor o não uso considerando pecado o uso. A igreja não sugere nada! A igreja impõe!
    Por isso, há mortes que a igreja impõe em Africa, por muita conversa e jogos de palavras que os crentes tentem fazer, para desculpar a conduta hedionda de quem se apregoa mais responsável que os outros. Por isso é que um padre que desobedece às directivas do vaticano merece louvor, pois é mais razoável e muito melhor pessoa que todos os bispos e outras personagens que povoam o vaticano, e que se dedicam a debitar enormidades como a dos preservativos e afins!

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  22. Onde está: "É precisamente como que está o problema! A igreja não propões a monogamia,"... devia estar:
    É precisamente aqui que está o problema! A igreja não propõe a monogamia,...

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  23. Caros Ludwig e Antonio,

    Primeiro o Ludwig disse que bastava reduzir a taxa de transmissão para um terço, e teríamos um virus em vias de extinção. Agora diz que reduzindo essa taxa para 10% a epidemia fica controlada. Há uma grande diferença entre extinguir o virus, ou impedir que continue a aumentar o número de pessoas infectadas, o que ainda não aconteceu nem sequer na europa.

    “Nunca, em toda a história da humanidade, a abstinência foi uma forma de controlar epidemias de doenças sexualmente transmissíveis.”

    Sabe que o número de infectados no Uganda diminuiu drasticamente, de 15% para cerca de 5% em menos de 10 anos? Se não sabe, pode ler aqui: http://www.avert.org/aidsuganda.htm.

    Quais as razões para este sucesso? Vou citar esse mesmo site:

    “The approach used in Uganda has been named the ABC approach - firstly, encouraging sexual Abstinence until marriage; secondly, advising those who are sexually active to Be faithful to a single partner or to reduce their number of partners; and finally, especially if you have more than one sexual partner, always use a Condom.”

    Depois disto dizer que a Igreja é culpada pelos milhares que morrem de SIDA em áfrica é no mínimo pouco honesto. Os maiores culpados pelos que morrem são os que promovem o sexo irresponsável, e o uso desenfreado de preservativos como método único e 100% seguro para combater o vírus.

    Quem se diz adepto da ciência devia estar minimamente atento aos factos, mas parece que os dogmas do anti-clericalismo falam mais alto do que o amor à verdade, é pena.

    No fim de contas, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade, mas parece-me que ficamos todos a perder com o recurso frequente a esses lugares-comuns, é caso para dizer: que treta!

    Pedro Silva

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  24. «Primeiro o Ludwig disse que bastava reduzir a taxa de transmissão para um terço, e teríamos um virus em vias de extinção. Agora diz que reduzindo essa taxa para 10% a epidemia fica controlada. Há uma grande diferença entre extinguir o virus, ou impedir que continue a aumentar o número de pessoas infectadas, o que ainda não aconteceu nem sequer na europa.»

    Sim, não fiz copy-paste, por isso as palavras não foram as mesmas.

    Mas a ideia julguei que fosse suficientemente clara (nisto, admito, enganei-me).

    Se cada infectado em média infecta menos que uma pessoa durante a sua vida, o número de infectados vai diminuir. Por exemplo, se em média cada um infecta 0.8, passa de 100 para 80 para 64...

    Por outro lado se cada infectado infecta mais que uma pessoa antes de morrer, o número vai aumentando. Se fôr 1.5, passa de 100 para 150, 225, etc.

    É claro que isto é o modelo simplificado. O risco não é homogéneo pela população, o virus pode ficar dormente, os tratamentos que aumentam a esperança de vida podem aumentar a taxa de propagação (por dar mais tempo ao contágio) ou diminui-la (por reduzir a carga viral e, por isso, a probabilidade de contágio). Enfim, há aqui muitos factores relevantes.

    Mas o mais importante é que é um disparate só aceitar um método quando é 100% eficaz. Se fosse por isso nunca se vacinava ninguém. O controle de epidemias faz-se reduzindo a tal taxa de infecções a um valor inferior a um. Quanto menor mais depressa se acaba com a doença, mas basta que seja menor que um para que eventualmente se extinga.

    Quanto ao sucesso do uganda, provavelmente teriam tido o mesmo sucesso se recomendassem dizer três avé marias, beber um copo de água, e usar preservativo. Desde que incluam a última recomendação tanto faz quais são as outras...

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  25. Já agora, Pedro, quando citar algo em favor da sua posição dê uma leitura rápida na diagonal a ver se é mesmo:

    «Pro-abstinence-only organisations are increasingly using Uganda as an example to indicate the success of their methods. But this is inappropriate, since the multiplicity of prevention methods used in Uganda mean that the decline in HIV prevalence was certainly not due to abstinence-only messages. Uganda's success was based not only on encouraging abstinence until marriage but also on encouraging fidelity thereafter and condom use. It involved pragmatic discussion of risky sexual behaviours, strong governmental leadership, and condom distribution. The open and frank discussion of the sexual means of HIV transmission that took place is certainly not a feature of the pro-abstinence-only agenda.»

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  26. Caro Ludwig,

    Claro que se cada pessoa infectar em média menos do que uma, o número de infectados diminui, e vice-versa. Mas cada pessoa que não usa preservativo infecta em média quantas? E como aplica aí o uso do preservativo, diz: “então quem usa um preservativo, em vez de infectar 10, infectar só 1”? Isso nem sequer leva em conta o comportamento sexual do indivíduo, como se fosse indiferente.

    “Mas o mais importante é que é um disparate só aceitar um método quando é 100% eficaz.”

    Eu não digo que só devem ser usados métodos 100% eficazes, mas ao menos digam às pessoas qual a eficácia desse método, e não tratem o preservativo como um método 100% seguro. Contra essa publicidade enganosa é que me insurjo. Estão a dizer às pessoas: “faz tudo o que quiseres, desde que uses preservativo, e aí estarás seguro”. Esta afirmação é falsa. Se uma pessoa tiver comportamentos sexuais de risco, e usar preservativo, claro que as probablidades de apanhar a doença são menores, essa probabilidade existe, e as pessoas têm o direito a sabê-lo.

    E que tal falar desses comportamentos de risco? Neste momento é impossível, porque segundo a mentalidade dominante, podemos criticar quem não usa preservativo, mas não o podemos fazer em relação a alguém que recorre a prostitutas. Quem critica o “moralismo”, recorre depois ao seu moralismo para criticar o sexo sem preservativo.

    Quanto à frase que citou, diz exactamente o que eu tinha dito antes, mas não deve ter lido sequer na diagonal o meu comentário.

    Eu falei da abordagem ABC, Abstinence, Be faithfull, Condom. Esta foi a abordagem usada no uganda, enquanto em quase todos os países se baseiam apenas nos preservativos. Nesta abordagem os preservativos são apenas aconselhados a quem “inevitavelmente” terá comportamentos sexuais de risco, por ex. prostitutas, e ao resto da população falou-se da abstinência até ao casamento e da fidelidade conjugal.

    Resumindo, é uma mentira quando tentam passar a ideia de que o preservativo é um método 100% eficaz de prevenção contra a SIDA, e a educação das pessoas, dando como alternativa a abstinência até ao casamento, e a fidelidade conjugal já mostraram ser métodos eficazes na diminuição do número de infectados.

    Pedro Silva

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  27. Caro Pedro,

    Não é útil especular quantos um individuo pode infectar, porque o que interessa é quantos cada individuo infecta *em média*. E, em média, infectam muito menos usando o preservativo. Isso é um facto que pode verificar pelos dados epidemiológicos em muitos países.

    E ninguém vende o preservativo como 100% seguro, tal como ninguém diz que o cinto de segurança é 100% seguro. Mas o cinto de segurança contribui mais para reduzir o número de mortos na estrada que dizer às pessoas «não conduza». E o preservativo contribui mais para reduzir a transmissão do HIV que dizer «não tenham relações sexuais».

    É claro que todos os outros factores contribuem. Mas o que eu critico aqui não é aconselhar a fidelidade ou a abstinência, mas sim desaconselhar o uso e dificultar a distribuição de preservativos. Isso devia ser crime.

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  28. “E, em média, infectam muito menos usando o preservativo.”

    E em média afectam ainda menos se evitarem comportamentos sexuais de risco, é isso que a mentalidade dominante tenta esconder.

    “E ninguém vende o preservativo como 100% seguro, tal como ninguém diz que o cinto de segurança é 100% seguro.”

    Muito obrigado por esta comparação, porque se aplica totalmente. A diferença é que em relação à segurança rodoviária ninguém diz: “faça o que quiser, desde que use cinto de segurança.” Isto porque está implícito que o cinto de segurança apenas ajuda, mas o único meio para salvar vidas é ser responsável na estrada. Em relação ao preservativo, é exactamente o contrário, é visto como uma segurança total, e como o salva-vidas dos comportamentos sexuais mais radicais, e de facto não o é. A única forma de ser sexualmente responsável é usar preservativo, não é ter um comportamento responsável, aí está a diferença.

    “Mas o que eu critico aqui não é aconselhar a fidelidade ou a abstinência, mas sim desaconselhar o uso e dificultar a distribuição de preservativos. Isso devia ser crime.”

    Então porque não critica também quem fomenta os comportamentos sexuais de risco? Isso não deveria ser crime? Porque não critica quem não defende a abstinência e a fidelidade, e critica quem pensa que o preservativo não resolve tudo?

    Claramente a Igreja nunca poderia andar a distribuir preservativos. A posição da Igreja é defender sempre a abstinência antes do casamento, e a fidelidade dentro do casamento. Só isto seria suficiente para erradicar a doença, e é para estes que a Igreja diz: “o uso do preservativo não faz sentido”. Quem quer andar a trair a mulher, frequentar prostitutas, etc, não liga a mínima ao que diz a Igreja, por isso se não usa preservativo não é por causa da Igreja, é simplesmente porque não quer. Quem é infiel no muito, nunca se vai preocupar em ser fiel no pouco.

    Pedro Silva

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  29. Caro Pedro,

    «Claramente a Igreja nunca poderia andar a distribuir preservativos. A posição da Igreja é defender sempre a abstinência antes do casamento, e a fidelidade dentro do casamento. Só isto seria suficiente para erradicar a doença, e é para estes que a Igreja diz: “o uso do preservativo não faz sentido”.»

    Claramente, não podemos encorajar as pessoas a usar cinto de segurança. O problema da sinistralidade resolve-se conduzindo devagar, com cuidado, e respeitando toda a sinalização. Por isso pode-se dizer que o uso do cinto de segurança não faz sentido.

    Isto, meu caro Pedro, é o que eu chamo um argumento da treta.

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  30. Caro Ludwig,

    Por mais responsável que se seja na condução, há sempre imprevistos, que podem provocar um acidente. Ora, o mesmo dificilmente se passa em relação ao virus da SIDA num casamento em que ambos os conjuges são fiéis um ao outro.

    Se houver um comportamento responsável em ambos os casos, na estrada estamos sujeitos aos comportamentos das outras pessoas, no segundo, o casal só depende de si próprio.

    E ao mesmo tempo também lhe digo que é o comportamento responsável que mais vidas salva na estrada, muito mais do que o cinto, porque é esse comportamento que impede de existam mais acidentes, enquanto o cinto apenas diminui os danos. Neste caso é como o preservativo. É a abstinência e a fidelidade que fazem com que não existam tantos infectados. Mas se isso não for seguido, o preservativo é uma boa hipótese para diminuir os danos. Mas devia ser um último recurso, a seguir aos outros que são 100% seguros, e não ser vendido como a única forma de combater a SIDA.

    Pedro Silva

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  31. Caro Pedro,

    Se ninguém conduzir, não há acidentes de viação. Se ninguém tiver relações sexuais, não há doenças sexualmente transmissíveis.

    Se há quem conduz, e se há quem tem relações sexuais, faz sentido que se encoraje o cinto de segurança e o preservativo.

    A única diferença, para a igreja, é que o preservativo é pecado. Arbitrariamente, decidiram que cada um de nós tem o direito de não ter relações sexuais, mas que, uma vez que as tem, é Deus que decide para onde os espermatozóides podem ir.

    Isto além de absurdo e injustificável é perigoso. E para promover a sua ideologia não hesitam em enganar as pessoas com o argumento que o preservativo não é totalmente eficaz e essas coisas. O cinto de segurança também não é. E dizer às pessoas para se portarem bem não resolve os problemas.

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