quarta-feira, abril 30, 2008

Os malefícios da trigonometria.

A segunda guerra mundial matou setenta milhões de pessoas e a trigonometria foi instrumental nessa tragédia. Usaram-na para projectar armas, construir tanques, apontar artilharia, guiar bombardeiros e enviar ordens por rádio. Sem a trigonometria milhões de pessoas teriam sobrevivido. Mesmo assim é razoável culpar os governos e as ideologias dos dirigentes em vez da trigonometria. A razão é simples. As ideologias foram escolhidas mas o quadrado da hipotenusa não pode ser senão a soma dos quadrados dos catetos.

É isto que muitos esquecem quando apontam os malefícios da ciência. O investigador pode ser imoral, os resultados da ciência podem ser usados para fins imorais e a tecnologia em si, bombas ou instrumentos de tortura, pode ser imoral. Mas a realidade não é à nossa vontade. Há modelos que correspondem aos dados e há outros que não correspondem. Isto não escolhemos. O máximo que podemos fazer é tentar descobrir quais são quais.

Criacionistas e afins entretêm-se a associar a teoria da evolução ao nazismo, a Hitler e aos movimentos eugénicos e a apontar o racismo de Darwin. Como se isso fosse relevante para a teoria da evolução. A trigonometria não seria menos válida se Pitágoras violasse crianças nem a química passa a estar errada quando uma bomba mata inocentes. A teoria da evolução diz que se os hemofílicos morrerem haverá menos hemofílicos nas próximas gerações e a medicação poderá aumentar a incidência desta doença. Isto descreve a realidade, não é imoral. Imoral seria matar os hemofílicos em vez de aumentar a produção dos medicamentos ou ignorar os factos por nos parecerem desagradáveis.

O curioso é que são crentes religiosos quem alega que há modelos científicos imorais. Os modelos científicos são o que a realidade os força a ser, dentro do que conseguimos descobrir, e moralmente neutros como o teorema de Pitágoras. Os preceitos religiosos é que são os que se quiser. Escolha não falta e quem não encontrar uma religião a gosto pode fazer como o Jorge Tadeu, o Joseph Smith ou o David Koresh e inventar a sua. É a religião que pode ser imoral porque podemos criá-la à nossa vontade.

Aceito que, pela mesma razão, a religião também possa ser moralmente boa. Em teoria. O problema aqui é de ordem prática. Escolher por escolher é arriscado porque há muito mais maneiras de fazer mal do que de fazer bem. Na prática, só escolhe preceitos religiosos moralmente bons quem já é capaz de agir moralmente bem sem eles.

Religiões acusarem modelos científicos de serem imorais é um disparate porque ninguém tem culpa que haja gravidade, triângulos ou evolução, porque conhecer a realidade é um requisito para agir moralmente e porque as religiões só não são totalmente imorais porque muitos crentes são moralmente superiores às religiões que têm.

terça-feira, abril 29, 2008

Associação Ateísta Portuguesa

Daqui a cerca de um mês será a escritura de constituição da Associação Ateísta Portuguesa. Quem quiser estar presente pode seguir os desenvolvimentos no Random Precision ou no Diário Ateísta.

O que une os associados é não confiar em coisas do outro mundo, pelo que no resto haverá muita diversidade de opiniões, atitudes e formas de estar. O que é bom. Enquanto os crentes se identificam pelos preceitos da sua religião, cada ateu tem que mostrar o ateísmo apenas na sua maneira de ser e pode ser útil mostrar uma referência mais desligada das idiossincrasias de cada um. Por outro lado, uma associação ateísta é como um rebanho de gatos e a predisposição para o pensamento independente não é uma cola forte.

Mas porque concordo com os objectivos vou-me fazer sócio. E porque não deve haver referendos sobre o aborto nos próximos anos talvez a minha participação até seja pacífica.

«A Associação tem por objectivos:
1. Fazer conhecer o ateísmo como mundividência ética, filosófica e socialmente válida;
2. A representação dos legítimos interesses dos ateus, agnósticos e outras pessoas sem religião no exercício da cidadania democrática;
3. A promoção e a defesa da laicidade do Estado e da igualdade de todos os cidadãos independentemente da sua crença ou ausência de crença no sobrenatural;
4. A despreconceitualização do ateísmo na legislação e nos órgãos de comunicação social;
5. Responder às manifestações religiosas e pseudo-científicas com uma abordagem científica, racionalista e humanista.»


Os estatutos estão disponíveis aqui

segunda-feira, abril 28, 2008

Porquês.

Segundo alguns, a ciência diz-nos como as coisas acontecem e a religião diz porquê. Não me parece, mas antes de elaborar quero esclarecer como entendo esta alegada diferença: os porquês são razões e propósito; os “comos” são causas e efeitos. Na pedrada que parte o vidro vemos uma relação entre causa e efeito que explicamos com um como. É a isso que querem restringir a ciência. No homem a correr para a casa de banho vemos um acto motivado por razões que se explica com porquês. A proposta é que mesmo que a ciência explique todas as relações de causa e efeito que originaram o universo ainda resta à religião dizer o porquê. Porque é que isto existe, qual é a razão, motivação e propósito disto tudo.

Eu proponho que razões e causas são fundamentalmente o mesmo. A quem discorda peço paciência, já passo à justificação. Mas primeiro quero explorar a hipótese que nós inventamos porquês para simplificar relações causais que não compreendemos. A pressão da urina activa nervos nos músculos da bexiga, os sinais chegam ao cérebro e causam padrões de actividade que constituem aquela sensação desconfortável e alteram o comportamento do homem. Falta-nos os detalhes do como e por isso simplificamos a coisa com um porquê. Correu para a casa de banho porque estava aflito.

Esta hipótese explica o desaparecimento de muitos porquês. Antigamente procurava-se porquês para a chuva e para a seca, para as doenças, os sismos, até para uns serem reis e outros escravos. A vontade dos deuses e o destino explicavam por razões aquilo cujas causas se desconhecia. Mas com a compreensão os porquês deram lugar aos comos. Não há razões e propósitos nas doenças ou no clima. Há causas e mecanismos. Até as desigualdades sociais deixaram de ser justificadas com porquês e passaram a ser descritas como efeitos de inúmeras causas.

Esta hipótese também explica a origem dos porquês. O desafio principal aos cérebros dos nossos antepassados era modelar os cérebros dos seus contemporâneos. Prever o que eles iam fazer e como iam reagir. Mas as relações causais no cérebro humano são tão complexas que nem hoje as compreendemos e um modelo mental de causas e efeitos não ia longe. A solução foi inventar os porquês, uma ilusão útil para simplificar problemas demasiado complexos. Não precisamos saber a anatomia da bexiga ou a fisiologia dos neurónios para perceber o porquê da pressa do homem, mas só com os detalhes é que poderemos compreender o como.

Uma justificação para a hipótese que os porquês se reduzem a causas e efeitos quando bem compreendidos é precisamente o seu poder explicativo. A hipótese alternativa não explica porque é que os porquês desaparecem assim que se compreende o como. Outra justificação é a incoerência de uma razão sem causa. O homem tem razões para ter pressa, mas essas razões são efeito de causas fisiológicas sem as quais não haveria razão para pressas. Uma razão por acaso parece contraditória. Por isto proponho que os porquês são uma questão falsa. São apenas uma invenção do nosso cérebro para cortar caminho por problemas complexos.

Mas admitamos que algures há porquês verdadeiros. Talvez no comportamento humano ou na criação divina do universo. Mesmo assim é incorrecto expulsar a ciência desse problema porque a ciência lida bem com porquês. Os arqueólogos tentam inferir as razões e propósitos por trás dos artefactos e construções. Os psicólogos lidam com porquês constantemente e a neuropsicologia tem feito grandes progressos na unificação de modelos de comos e modelos de porquês.

Finalmente, discordo que a religião seja apropriada para resolver este problema. É verdade que a religião ajuda a criar porquês. No fundo, inventámos os deuses para poder aplicar à natureza o mesmo modelo com que prevemos as acções do vizinho. Com razões, intenções, propósitos e todos esses atalhos mentais que evitam os detalhes de causas e efeitos. No entanto, os porquês que as várias religiões continuam a defender parecem tão ilusórios e desnecessários como os muitos que estas criaram no passado e que já ficaram pelo caminho.

Em suma, sou contra a ideia de dar os porquês à religião porque não é claro que o porquê sobreviva ao esclarecimento do como, porque a ciência também pode lidar com esses modelos e porque nada indica que a religião seja um método fiável para responder a estas questões.

XX Jornadas Teológicas: o rescaldo.

Alfredo Dinis, o moderador do debate, escreveu no Companhia dos Filósofos algumas considerações sobre o criacionismo e o debate do dia 23 (1). Em geral concordo com as suas críticas ao criacionismo. O Jónatas Machado frisou várias vezes que a palavra do deus dele é infalível mas eu só ouvia as palavras do Jónatas Machado. Mesmo que o deus fosse infalível não segue que a interpretação do Jónatas também seja, e não vi nada que justificasse a premissa. No entanto, argumentar que o criacionismo interpreta incorrectamente a Bíblia levanta o problema de determinar a interpretação correcta. O Alfredo escreve que:

«a narração cristã tradicional sobre a origem do universo e da vida não poderá continuar a ignorar os progressos da ciência e necessita, por conseguinte, de ser substituído por uma nova narração que seja credível e compreensível pela cultura contemporânea.»

De acordo, mas na prática omite-se o mais importante no progresso científico. Esta abertura do catolicismo à ciência limita-se ao corpo de teorias que a ciência propõe e deixa de lado o método. A maior descoberta científica nestes últimos séculos foi a necessidade de considerar hipóteses alternativas e distingui-las pelo exame meticuloso dos dados, e neste momento não há dados que justifiquem a extrema confiança que o catolicismo deposita na existência daquele deus em particular, na inexistência de qualquer outro deus e num grande número de milagres que fundamentam esta religião. Ter em conta o progresso científico exige admitir que a hipótese cristã é, no máximo, uma questão em aberto e muito especulativa. Mas como isto é discussão para vários posts passo a estas frases:

«Tive o prazer de moderar o debate, no qual intervieram os Profs. Ludwig Krippahl, da Universidade Nova de Lisboa, e. Jónatas Machado, da Universidade de Coimbra. O primeiro defendeu o evolucionismo, o segundo o criacionismo.»

Eu não quis defender um ismo. Há uma diferença fundamental entre a ciência e a fé numa interpretação literal do Genesis. Chamar evolucionismo à primeira é como chamar martelismo à carpintaria. A teoria da evolução é uma ferramenta conceptual integrada na ciência moderna. É constantemente aperfeiçoada, testada e aplicada onde demonstra ser apropriado, estimula avanços noutras áreas e é guiada por essas descobertas. Martelismo é dar martelada a tudo só porque se tem um martelo, seja prego ou parafuso, e isso é o que os criacionistas fazem com a Bíblia.

1- Alfredo Dinis, 27-4-08, XX Jornadas Teológicas em Braga

domingo, abril 27, 2008

Modelação estrutural por homologia.

Isto vem a propósito de uma afirmação e pergunta do Mats, «Nada no criacionismo vai contra a bioquímica. Talvez o Ludwig possa dar um exemplo?» (1). Posso sim. Há vários, mas este é simples de explicar, está dentro do que eu faço profissionalmente e já tenho uma imagem feita de um post anterior (2).

As proteínas são moléculas grandes formadas pela ligação de aminoácidos em longas sequências. A imagem abaixo mostra três estruturas de mioglobina, uma proteína que armazena oxigénio nos músculos. As estruturas são da mioglobina de humano, foca e tartaruga, e são muito semelhantes.

mioglobina

A laranja estão marcados os aminoácidos que diferem da mioglobina humana. A mioglobina de foca é cerca de 85% idêntica e a de tartaruga cerca de 70% idêntica à nossa. Com esta semelhança química pode-se usar uma estrutura para modelar a outra porque são estruturalmente quase iguais. Este método de modelação por homologia é muito usado em bioquímica estrutural e pode funcionar até quando as proteínas têm apenas 25% dos aminoácidos em comum.

O interessante é que a estrutura de uma proteína é muito sensível à sequência de aminoácidos. Alterar um ou dois pode alterar profundamente a estrutura. Se alterarmos 48, que é a diferença entre a mioglobina humana e a de tartaruga, é quase certo que a estrutura seja completamente diferente. Para explicar porque se pode modelar por homologia proteínas que diferem em tantos aminoácidos é preciso a teoria da evolução.

As diferenças de aminoácidos entre a mioglobina de tartaruga, foca e humano resultam da acumulação gradual de mutações nestas linhagens que originaram num ancestral comum. Neste longo processo as mutações que alteraram significativamente a estrutura da mioglobina afectaram a sua função, tornando esses organismos inviáveis. Todas essas mutações foram eliminadas pela selecção natural. Só passaram o crivo da selecção aquelas mutações que preservaram a estrutura quase sem alterações. É por isso que a modelação por homologia funciona.

Este é um exemplo entre muitos de como a teoria da evolução é fundamental na ciência moderna. E é um exemplo entre muitos de como a ignorância dos detalhes é fundamental para o criacionismo.

1- Mats, 21-4-08, Jornadas Naturalistas - Ludwig - Parte 4
2- O que as proteínas nos dizem.

Dados e pressupostos.

Supomos que o carro não anda sem combustível. Podíamos supor o contrário, supor que se move a bolachas, a pensamentos positivos ou por obra e graça do espírito santo. Mas embora seja necessário assumir alguma coisa e embora se possa assumir o que quer que seja, o facto é que sem combustível o carro não anda.

“Facto” não implica que seja totalmente objectivo. Extrapolamos que o carro não anda sem combustível baseando-nos na nossa experiência e no que sabemos acerca do carro, o que é quase um raciocínio circular. O comportamento do carro é interpretado assumindo que ele não anda sem combustível e daí se infere que é um facto que ele não anda sem combustível. Mas este raciocínio não é inteiramente circular porque parte do círculo está fora do raciocínio. Está no carro. Se o carro se comportasse de forma diferente o raciocínio seria outro.

O facto também não é definitivo nem irrefutável. É possível que a natureza tenha mudado ou que alguém tenha substituído o motor por um reactor nuclear e o carro agora ande sem combustível. Mas este vestígio de incerteza não elimina a diferença entre as alternativas. Não deixa de haver boas razões para abastecer de vez em quando.

A ciência tem pressupostos destes. Assume que se tem que observar o objecto de estudo, que se tem que quantificar os dados e que as explicações são naturais. Não são pressupostos arbitrários. Inferem-se de experiências passadas. As premissas das próximas iterações são as conclusões das iterações anteriores. Aristóteles tentou fazer uma física qualitativa e não teve sucesso, a especulação sem observação deu sempre mau resultado e o carro do conhecimento anda melhor quando há menos sobrenatural no combustível.

Por ser sempre preciso assumir alguma coisa há quem proponha que é igualmente legítimo partir de outros pressupostos. Enquanto a ciência sabe por observação, defendem, a teologia sabe por outras vias. Enganam-se. Tirar pressupostos do chapéu torna tudo o que se segue num mero reflexo do ponto de partida, torna o raciocínio verdadeiramente circular e torna o alegado conhecimento independente do objecto de estudo.

Isto é evidente quando se considera o que acontece à ciência e à teologia se a realidade não corresponde a uma premissa fundamental. Na ciência isto levou a alterações profundas. Quando se descobriu que a lógica não chegava e era preciso a matemática para quantificar os dados e a estatística para lidar com erros e incertezas. Quando se descobriu que o tempo não é medido da mesma forma em todos os referenciais, que há efeitos sem causa, que não é preciso um criador inteligente nem milagres e assim por diante. A ciência hoje é fundamentalmente diferente da ciência há quinhentos anos atrás e é quase certo que daqui a quinhentos anos seja fundamentalmente diferente da que temos hoje.

A teologia é imune à realidade. Tanto faz se Cristo ressuscitou, se Maria era mesmo virgem ou se existe Deus porque estes pressupostos são tidos como irrefutáveis e não carecendo de justificação. É verdade que os crentes tentam justificá-los apelando à revelação, à fé ou a à experiência pessoal. Dizem ser lógicas diferentes, outras verdades, que Deus é amor e salvação e assim. Mas não são justificações necessárias. À teologia de hoje basta que não se prove a inexistência de Deus, e suspeito que se um dia ficar provado que Deus não existe até desse requisito irão prescindir.

Em suma, a ciência é uma criação intelectual humana. É subjectiva e tem falhas mas gera conhecimento interagindo com os seus objecto de estudo. Os seus pressupostos dependem de como o universo funciona e não reflectem apenas a imaginação humana.

A teologia é uma criação intelectual humana. É subjectiva, também tem falhas mas não interage com o seu presumido objecto de estudo. É auto-contida, circular e arbitrária. Podemos escolher os pressupostos à vontade, mas reconhecer ou ignorar as dicas que o universo nos dá é a diferença entre seguir viagem ou ficar empanado.

sábado, abril 26, 2008

XX Jornadas Teológicas, the movie.

A pedido do público, aqui vai a adaptação cinematográfica da minha apresentação. Não sei se eventualmente será possível publicar o debate todo.

Parte 1:


Parte 2:


E parte 3:


Se quiserem descarregar o vídeo, está aqui um avi (Xvid, MP3) com 18Mb.

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sexta-feira, abril 25, 2008

Treta da Semana: Fósseis frescos.

No debate (1) do dia 23, o Jónatas Machado contou como os paleontólogos deixaram cair um osso de Tiranossauro, o osso partiu-se e «Mary Schweitzer da North Carolina State University» exclamou que o osso estava tão fresco que parecia não ter mais de nove dias. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais é pura coincidência.

A experiência não foi atirar o osso ao chão. No laboratório da Mary Schweitzer verdadeira, mais competente que a protagonista da história do Jónatas, trataram amostras do osso fossilizado com soluções alcalinas durante uma semana para dissolver todo o conteúdo mineral. Como se julgava que um fóssil com esta idade estaria totalmente mineralizado o resultado esperado era não sobrar nada, razão pela qual não se tinha ainda feito buracos em fósseis valiosos para testar esta hipótese. A surpresa foi que, afinal, sobraram vestígios de tecidos orgânicos com estrutura preservada e proteínas.

A personagem do Jónatas exclamou que o osso parecia ter «nove dias». A Mary Schweitzer verdadeira sabe que os ossos não fossilizam em nove dias e explica que a descoberta dela não põe em causa a idade deste fóssil (3). O “homem de gelo” de Bolzano tem cinco mil anos, há mamutes perfeitamente preservados com vinte mil anos de idade e já foi possível extrair e sequenciar fragmentos de ADN de um fóssil de Neanderthal com 38 mil anos. O trabalho de Schweitzer não mostra que a Terra tem seis mil anos. Mostra que substimámos a resistência da matéria orgânica e dá-nos uma técnica promissora para estudar espécies antigas (4).

Não quero acusar o Jónatas de ter mentido deliberadamente porque não tenho provas disso, e a mera suspeita não justifica a acusação. Mas defendo que o Jónatas foi irresponsável ao afirmar este disparate num debate público sem ter confirmado a história. A caricatura dos paleontólogos a deixar cair o osso é ridícula e denigre um trabalho sério de grande qualidade científica. As imagens que o Jónatas mostrou, sem escala, davam a ideia falsa que os fragmentos de alguns milímetros eram grandes nacos de carne. E o osso parecer ter nove dias é simplesmente mentira. Era um fóssil.

É por causa destas coisas que muitos recomendam não debater com criacionistas. A audiência assume que os participantes falam do que sabem e que são honestos e responsáveis nas suas alegações. Por isso acusar o outro de mentir dá a impressão de recorrer a ataques pessoais por falta de argumentos. Quando o Jónatas disse que os cientistas agora põem o chimpanzé a descender do Homem em vez do Homem a descender do chimpanzé eu contrapus que era um mal-entendido. É apenas o bipedalismo nos primatas que parece ser mais antigo do que se julgava e isto não altera o consenso acerca de um ancestral comum aos humanos e chimpanzés. Mas no caso do osso calei-me porque não conseguia desmontar a patranha em poucas frases.

Como a Abobrinha notou, sou menos agressivo nos debates que nestes textos. Aqui posso dar referências, explicar as coisas e ter confiança que uma pessoa razoável vai ficar satisfeita com as evidências que apresento. Num debate posso ser interrompido a qualquer momento, não posso dar material adicional para as pessoas lerem e uma acusação mal fundamentada é sempre vista como um ataque injusto. Mas isso não justifica recusar o debate. Apenas exige que se debata os criacionistas de forma selectiva, tentando explicar o que se pode explicar no debate e deixando para outros meios a refutação detalhada das patranhas que eles despejam.

Este é o 52º post desta rubrica. Um ano seria causa de celebração se não tivesse a sensação de ter que rolar novamente a pedra até ao cimo do monte.

1- XX Jornadas Teológicas, XX Jornadas Teológicas, actualização, XX Jornadas Teológicas, como correu?
2- Science News, Old Softy: Tyrannosaurus fossil yields flexible tissue
3- Nova, Ask Mary Schweitzer
4- Biology News Net, Protein fragments sequenced in 68 million-year-old Tyrannosaurus rex

quinta-feira, abril 24, 2008

Humilde é bom. Honesto é melhor.

No debate de ontem várias pessoas sugeriram que a ciência deve ter a humildade de admitir que Deus é possível. Mas humildade é a «virtude que nos dá o sentimento da nossa fraqueza»(1). Fica bem, mas nem é dever (é virtude) nem útil para a ciência. Por isso proponho deixar a humildade ao critério de cada um e invocar, em vez dela, o dever de ser honesto. Esse cabe a todos.

Ninguém honesto se considera infalível, na ciência ou fora dela, e admitir a possibilidade de erro exclui certezas definitivas. Há sempre questões em aberto. Mas apesar da resposta honesta ser provisória a dúvida não precisa paralisar-nos. Na prática, podemos suspender as questões até que se justifique o contrário. Temos a certeza que a casa não está a arder e estragava os nervos a qualquer um questioná-lo a todo o momento. Mas esta certeza é provisória e basta o cheiro a fumo para a desfazer.

A opinião honesta admite que as nossas crenças podem estar erradas, que o que parece às vezes não é e que todas as certezas são questionáveis. A opinião honesta não se baseia em premissas inabaláveis mas sim em perguntas pertinentes. Há quem critique a ciência por ser questionável, por não responder a tudo, por levantar dúvidas ou mudar de ideias mas isso não é defeito. É o preço da honestidade.

E a ciência justifica certezas provisórias acerca dos deuses. Não há Zeus no monte Olimpo nem um escaravelho gigante a rebolar o Sol pelo céu. Alguns dirão que isto é diferente do Deus católico porque podemos olhar para o monte Olimpo e para o Sol e ver que não estão lá estes deuses. Mas não é isso. Podemos não ver os outros deuses por erro nosso e se calhar até existem. Não temos uma certeza definitiva. O que justifica suspender a dúvida é a existência destes deuses levantar mais questões sem resposta que a hipótese contrária. Se estão lá porque é que não os vemos? O que é que estão a fazer? Para que servem a hipótese e o que é que explica? Se os rejeitarmos há menos perguntas em aberto.

O Deus transcendente sofre do mesmo problema. É como a possibilidade da casa estar a arder com um fogo invisível e inodoro. Não a rejeitamos por ter provas em contrário mas porque o fogo invisível deixa mais questões em aberto que a hipótese de não haver fogo nenhum. Neste momento passa-se o mesmo com Deus. Pode não ser humilde, mas é honesto da ciência rejeitar Deus por deixar em aberto mais questões que a sua inexistência. A hipótese de Deus não responde a nada que a sua negação não responda igualmente bem e levanta muitas questões acerca do que Ele é, do que faz, porque o faz, qual o seu propósito e assim por diante.

E pode ser humilde acreditar em Deus. Talvez venha daí a virtude que dá a cada um o sentimento da sua fraqueza. Mas o mais honesto é concluir que Ele não existe. A certeza é provisória, admito, mas também não vou gritar “Fogo!” sempre que faltar prova irrefutável do contrário.

1- Priberam, Dicionário

XX Jornadas Teológicas, como correu?

Eu gostei. Gostei de conhecer em pessoa alguns comentadores aqui do blog, o Jónatas Machado, o Marcos Sabino e o Pedro Romano. Gostei da conversa ao jantar e a organização foi excelente. Pelas perguntas da audiência, relevantes e interessantes, penso que o debate foi esclarecedor. Entre o Jónatas e eu não houve surpresas, visto já andarmos nisto há uns tempos, mas fiquei agradavelmente surpreendido com a recepção aos nossos argumentos.

Em retrospectiva faz sentido. Eu estava com algum receio por ser o ateu no meio dos crentes mas como falei de ciência a minha falta de crença não incomodou. E parece-me que, para o crente moderado, enquanto o ateu está apenas fora da religião o fundamentalista deturpa-a. Penso que foi por isto que a tarefa do Jónatas foi mais difícil.

Não sei quando vão disponibilizar a gravação, nem com que restrições, mas eu gravei a minha apresentação e quando chegar a casa cozinho um vídeo com os slides e a voz. Aproveito para agradecer o convite, o jantar, a moderação e toda a organização, com um obrigado especial ao João Paulo Costa pela sua simpatia e pela paciência de responder aos muitos emails que lhe enviei. Mas o objectivo principal deste post é convidar os comentários de quem assistiu e tinha uma perspectiva menos enviesada do que a minha. Como correu?

segunda-feira, abril 21, 2008

Mitos, erros e evolução

A New Scientist tem uma série porreira de artigos sobre mal-entendidos acerca da teoria da evolução e alguns mitos criacionistas:

Evolution: 24 myths and misconceptions

Via Sandwalk

domingo, abril 20, 2008

XX Jornadas Teológicas, actualização.

Já confirmei alguns detalhes com os organizadores. A entrada vai ser livre, por isso se estiverem em Braga sem nada para fazer na próxima quarta feira à noite dêem um salto à Faculdade de Teologia e venham assistir ao debate entre evolução e criacionismo.

Se não vierem perdem o espectáculo ao vivo mas o debate vai ser gravado. A publicação da gravação depende da autorização dos intervenientes mas penso que pelo menos a minha apresentação poderei disponibilizar.

O debate vai ser moderado pelo director da Faculdade de Filosofia da UCP, que nos sugeriu elaborar uma página resumindo os três pontos principais dos nossos argumentos. Achei a ideia excelente e deixou-me mais optimista. Apesar de violar o meu limite auto-imposto para o tamanho dos posts, decidi pôr aqui o meu resumo na integra.

Teorias e Evolução


Há séculos que a descoberta de explicações naturais tem criado conflitos entre a ciência e religiões que propõem explicações sobrenaturais alternativas. Saliente na nossa sociedade é o conflito entre a ciência e o criacionismo evangélico cristão, que defende uma interpretação literal da Bíblia. Esta doutrina alega que o “Darwinismo” é uma filosofia naturalista e propõe substituí-la pelo criacionismo ou design inteligente. O criacionismo assenta num entendimento incorrecto da ciência enquanto método, enquanto corpo de conhecimento e da forma como a teoria da evolução se insere na ciência moderna.


O naturalismo científico.


Não foi por dogmatismo ou premissa que a ciência rejeitou as explicações sobrenaturais. Pelo contrário, no passado a intervenção divina foi a explicação fundamental para muitos fenómenos e a teologia era a “rainha das ciências”. O criacionismo bíblico foi aceite pela biologia até ao século XIX e Newton explicou a gravitação universal pela acção de Deus. Sem esta, defendia Newton, a matéria inanimada nunca poderia atrair-se à distância.


Quando a relatividade de Einstein substituiu a teoria de Newton fê-lo por explicar fenómenos que a última não cobria e por fazer previsões correctas onde a teoria de Newton falhava. E, ao mesmo tempo, fez desaparecer o mistério que Newton explicava pela acção de Deus. Esta tem sido a norma na ciência dos últimos séculos. Novas teorias científicas vingam por prever melhor e com mais rigor gamas mais abrangentes de fenómenos e por se integrarem melhor umas com as outras. E sempre, até agora, as teorias melhores são as que têm menos de sobrenatural.


Nada obriga a ciência a rejeitar Deus a priori. Foi a sistemática demonstração que as teorias naturalistas são melhores modelos deste Universo fez cair da ciência o sobrenatural.


A evolução da teoria.


Darwin deu um contributo importante à biologia. A teoria da selecção natural elucidou o mecanismo que guia a variação de características numa população tornando os organismos mais aptos a prosperar no seu meio ambiente e substituiu a ideia de espécie como um arquétipo fixo pela noção de espécie como conjunto fluido de populações.


Mas em século e meio muito mudou. A selecção natural de Darwin é hoje uma pequena peça numa teoria da evolução que inclui genes, efeitos moleculares, deriva, mutações neutras e modelos matemáticos detalhados. Darwin não podia imaginar os enormes avanços na microbiologia, genética, bioquímica e biologia molecular que confirmaram e expandiram a sua teoria. Enquanto o criacionismo opõe um mito com vinte e cinco séculos a uma teoria com 150 anos, a teoria da evolução cresceu muito para além da ideia inicial e continua a expandir-se, a revelar novas questões e a desvendar novos mistérios.


A unidade da ciência moderna.


O progresso científico não tem dado apenas explicações melhores e mais detalhadas. Igualmente importante tem sido a unificação das várias áreas do conhecimento. A teoria atómica juntou a química à física. A síntese de compostos orgânicos e a biologia molecular mostraram que a matéria viva se rege pelas mesmas leis naturais que a matéria inanimada. A descoberta da radioactividade resolveu os conflitos entre a astronomia, a geologia e a biologia. São apenas alguns exemplos do encaixe firme entre as teorias científicas modernas. O criacionismo não se opõe apenas à teoria de Darwin mas a toda a biologia moderna, à bioquímica, à física que determina a idade das rochas, à geologia, até à astronomia que nos mostra estrelas cuja luz viaja à milhares de vezes o tempo que o criacionismo permite.


Este conflito desigual põe de um lado a interpretação literal de um mito antigo e, do outro, todo o edifício da ciência moderna, um edifício construído ao longo de séculos de investigação cuidadosa, análise crítica e testes rigorosos às hipóteses propostas.



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sábado, abril 19, 2008

Treta da Semana: O contrato.

Esta semana o Parlamento aprovou uma lei do divórcio que ignora a culpa e facilita a dissolução a pedido de um dos cônjuges. Muitos se opõem, por diversas razões. Para César das Neves isto foi asneira porque a «lei só existe para proteger os fracos» e «as garantias que a lei [...] concede são importantes» para a solidez do casamento (1). Segundo o porta-voz da conferência episcopal, Carlos Azevedo, o «Estado tem obrigações para com [o casamento]» e «deve defender a união entre as pessoas». No Blasfémias o João Miranda escreve que o «problema é que alguém que esteja imune a processos judiciais não é um parceiro de negócios credível. Ninguém estaria interessado em fazer contratos com alguém que tem o poder para violar contratos mas que não pode ser processado por isso.»(3)

Eu acho que esta gente anda baralhada.

O divórcio levanta o problema moral da quebra de uma promessa, mas nem isso justifica uma lei nem é necessariamente condenável pois a promessa é feita num momento de optimismo que pode desculpar quem mais tarde se arrepende. E impedimentos legais ao divórcio não vão tornar mais realistas os jovens que acreditam que vão sentir aquilo para sempre.

O cristianismo vê o divórcio como um problema sério porque é um compromisso perante Deus, sagrado e para sempre. Mas se admitimos o direito de mudar de religião isto deixa de ser um problema. O casamento é “para sempre” só enquanto a pessoa quiser essa religião, e não se justifica legislar essas opções.

Quanto aos contratos há que distinguir três aspectos. Os deveres parentais não são deveres contratuais nem têm que ver com o casamento. Quem faz um filho tem obrigações tenha ou não assinado os papéis e independentes do seu direito de terminar o matrimónio. Esta lei do divórcio contempla isso.

A relação afectiva, a fidelidade, o companheirismo, todos os aspectos emocionais e sexuais do casamento são fundamentais mas não se admite obrigações contratuais desta natureza. A lei não deve reconhecer cláusulas de exclusividade sexual, de amizade ou empenho afectivo. O que sobra para a lei é a gestão do património e do investimento na vida em conjunto. Para isso é legítimo haver contratos e intervenção legal que obrigue o seu cumprimento, mas isto também está contemplado nesta nova lei.

Em conclusão, criticam a lei por não legislar aquilo que não deve ser legislado, que é o aspecto afectivo e privado da relação. A lei deve proteger o investimento na vida em conjunto, reconhecer os parceiros como herdeiros do património comum e fazer cumprir obrigações financeiras e parentais. E mais nada. Não tem o dever nem a legitimidade de castigar quem se apaixona por outra pessoa ou quem já não sente o amor que sentia, nem se pode tornar o casamento numa obrigação legal.

Naturalmente, a Igreja preocupa-se com esta distinção. Se a sociedade reconhece que os aspectos privados do afecto e vida sexual do casal estão fora do âmbito da lei já não se justifica restringir estes contratos a duas pessoas do sexo oposto.

1- João César das Neves, DN de 14-4-08, Por miopia, capricho, a reboque e a pressa.
2- DN, 28-3-08, Divórcio abre nova guerra entre maioria PS e Igreja
3- João Miranda, 11-4-08, Nova lei do casamento II

Bom e barato

As obras completas de Charles Darwin. Em textos e imagens digitalizadas dos originais, inclui obras publicadas, manuscritos, diários e correspondência.

LibriVox. Uma organização de voluntários que gravam leituras de livros em domínio público. Tem mais de 1300 obras disponíveis, a maior parte em Inglês mas também algumas noutras línguas.

sexta-feira, abril 18, 2008

Só em filmes?...

all your base

O Pirate Bay é um site de indexação e repositório de torrents, pequenos ficheiros que identificam pedaços dos ficheiros partilhados na rede BitTorrent. Sendo o mais popular tem sido alvo de várias queixas por parte das associações de empresas discográficas e estúdios de cinema. Mas como só contém ficheiros de indexação e não tem material protegido por copyright ainda não o conseguiram fechar.


Em Maio de 2006 a polícia Sueca fez uma rusga ao ISP que albergava o Pirate Bay e confiscou os servidores. Como se limitaram a levar as máquinas, fecharam também cerca de duas centenas de sites pertencentes a empresas e organizações que não tinham nada a ver com o assunto. A incompetência policial e notícias que a rusga tinha sido motivada por pressão dos EUA criaram uma forte oposição política. Uns dias depois o site estava novamente online e agora está “espelhado” em vários países diferentes.


A investigação policial continuou e o caso está prestes a ir a tribunal. A notícia hoje é que Jim Keyzer, o inspector chefe responsável pela investigação, está empregado na Warner Brothers desde 16 de Março. Uma advogada da Warner Brothers explica que isto apenas mostra apreciação pelo trabalho do investigador e não indica nada de impróprio durante a investigação. Há quem discorde que seja assim tão próprio o queixoso recompensar o polícia que lidera a investigação. Não só põe em causa a imparcialidade e honestidade da investigação como os direitos dos acusados, porque a lei exige que apenas seja comunicado aos queixosos e ao tribunal o que é relevante para o caso em julgamento. E se houver evidências de que a contratação foi proposta antes do final da investigação isto pode invalidar toda a acusação.



Fontes:
Wikipedia, Pirate Bay,Pirate Party.
Zeropaid, Chief Swedish Police Investigator in Pirate Bay trial on Hollywood's Payroll.
Blog do Pirate Bay, comunicado
Um exemplo engraçado de como este caso está a ser conduzido: Music industry dealt Pirate Bay blow
E uma ajuda a quem o boneco não diz nada: All your base are belong to us
Quando alguém nos monta a bomba é hora de gritar “por grande justiça!”.

Como sabemos.

O António Parente questionou se sabemos que Jesus não ressuscitou. Eu sei. Tal como sei que o António não tem 38 narizes. Não conheço o António, nunca vi fotografias dele e não posso provar que não tem 38 narizes. Admito que é possível que tenha 38 narizes, se admitirmos a possibilidade de milagres e afins. Mas, na prática, se me perguntarem “o António tem 38 narizes?” eu não vou encolher os ombros e dizer sei lá, se calhar até tem. Justifica-se afirmar que não, no máximo tem um.

Sei isto por um processo de inferência e revisão. A inferência permite tirar umas pelas outras. Dos axiomas “o António é pessoa” e “cada pessoa tem um nariz” deduz-se que o António tem um nariz. Esta inferência é garantida, mas a conclusão depende da verdade dos axiomas e não é a postular que se faz verdades. Por isso sozinha não vai longe. Com a indução podemos encontrar os axiomas mais fiáveis. Calculo a média de narizes por cabeça nas pessoas que conheço e posso extrapolar com alguma confiança que cada pessoa tem um nariz ou menos.

Mas isto não satisfaz porque as médias de braços, pernas, olhos, dedos e narizes são dados independentes e não explicam nada. Prefiro unificar esta informação e perceber porquê. Ou seja, quero proposições das quais deduza o que foi observado na amostra. Este passo é uma abdução, o inverso da dedução porque procura as premissas que levam a uma conclusão. É um passo arriscado porque há infinitas possibilidades mas, felizmente, não são todas iguais.

“Porque Deus quis” não serve porque daqui não deduzo nada. “Porque Deus quis que cada um tivesse um nariz” já implica um nariz por cabeça mas não unifica os dados por exigir uma premissa diferente para as pernas, outra para os braços, cabeças e assim por diante. “Porque Deus tem um nariz, dois braços, duas pernas, ..., e nos fez à Sua imagem” unifica todas estas observações numa só explicação mas deixa-nos a perguntar como é que ele fez isso. Era melhor se tivesse mais detalhe. Então acrescenta-se “moldando Adão com barro, bafejando-lhe vida e fazendo Eva a partir de uma costela”. Mas mais detalhe levanta mais questões. Foi uma costela, uma pestana ou uma unha? De barro, de folhas secas ou de cascas de laranja? Como é que sabemos que foi assim e não de outra forma? É preferível optar por explicações que assentem em dados observados e que se possam justificar pela sua correspondência à realidade.

É este processo interminável de revisão que põe em causa cada passo, exige justificações, corrige erros e vai aperfeiçoando as explicações para as unificar num corpo coerente e detalhado de onde se possa inferir informação nova. É isto que a ciência tem feito e o resultado permite-me afirmar com confiança que o António Parente não tem 38 narizes e que Jesus não ressuscitou. Há um grande conjunto de dados e explicações detalhadas que suportam esta conclusão. Não é 100% garantido, mas porque as explicações estão interligadas e unificam muitos dados só se justifica admitir o contrário se houver evidências tão fortes que ponham em causa toda esta estrutura interdependente. E para isso é preciso muito mais que um testemunho.

Os religiosos fazem batota de duas maneiras. Guardam um cantinho de milagres onde tudo o que convém à fé pode acontecer isolado do resto. Isto é contrário ao objectivo e à justificação principal do conhecimento, que é o encaixe das explicações umas nas outras. E saltam para os axiomas ignorando o laborioso processo de os justificar. “Cada pessoa tem um nariz” e “cada pessoa tem 38 narizes” são dois axiomas de um conjunto infinito, cada um levando a conclusões diferentes. A escolher ao acaso não nos safamos.

Isto também dá uma resposta ao Timshel e ao Luís. Se queremos saber o que houve antes do universo ou o que acontece depois da morrermos temos que seguir o mesmo processo. Não se justifica afirmar que Deus criou tudo ou que nos vão ressuscitar o cérebro putrefacto só porque há axiomas que suportam estas conclusões. As conclusões que deduzimos são só tão fiáveis como os axiomas em que se baseiam e, parafraseando, axiomas há muitos.

Post relacionado: Inferências

quarta-feira, abril 16, 2008

Nota acerca das verdades

para tentar esclarecer uma dúvida do Timshel em relação ao post anterior. Há uma diferença entre proposições como “x é um número par” e proposições como “Deus criou o universo” ou “a Lua é feita de queijo”. A verdade das duas últimas depende da sua correspondência ao estado real das coisas. A verdade da primeira não depende de haver um objecto “x” que seja um número par porque esta proposição não se refere a um aspecto da realidade. Temos assim duas noções de verdade. A verdade por correspondência, aplicável a qualquer proposição que refira um aspecto da realidade, e a verdade por coerência, aplicável a qualquer proposição no contexto da teoria em que se insere. Para que “a Lua é feita de queijo” seja verdade a Lua tem mesmo que ser feita de queijo. Para que “x é um número par” seja verdade basta que nada na teoria o contradiga.

Se olharmos apenas para a coerência das proposições estou de acordo com o Timshel: «Uma qualquer proposição alternativa à origem do Universo está no mesmo plano (o de um axioma).» Seja qual for a proposição. Seja “Deus criou o universo”, “o Snoopy criou o universo” ou “o universo surgiu por processos naturais sem intervenção divina ou canina”. Se as considerarmos desligadas da realidade, como “x é um número par”, então só interessa se encaixam nas respectivas teorias.

Mas estas proposições só são verdadeiras se corresponderem à realidade. Ou foi Deus, ou foi o Snoopy, ou não foi nenhum deles. Não basta postular uma teoria coerente para que sejam verdade. E para determinar a verdadeira é necessário confrontá-las com os dados e eliminar alternativas. É o que a ciência faz. A axiomática apenas constrói modelos para se ir experimentando, e destes só uma fracção ínfima está minimamente de acordo com a realidade.

terça-feira, abril 15, 2008

Axiomas e verdade.

O Dragão conta que os axiomas são «proposições absolutamente intuitivas e indiscutíveis»(1) e dá dois exemplos. Um da matemática, «Se x é um número e y é um número, então x+y é um número», e outro “da religião”, «Deus criou o universo». Deixo para outro post a mania de assumir que “a religião” é só a dele (noutras o universo não foi criado por deus nenhum) e vou só comentar a confusão nos axiomas.

Os axiomas não têm que ser intuitivos nem indiscutíveis. O 5º postulado de Euclides diz que, num plano, dada uma recta e um ponto fora da recta há exactamente uma recta que passa pelo ponto sem intersectar a primeira. É intuitivo mas podemos negá-lo e postular que há infinitas rectas nestas condições ou que não há nenhuma, deduzindo daí geometrias diferentes. Não está em causa se é intuitivo ou discutível. O que importa é que a teoria seja coerente e que corresponda à realidade, o que nos leva a duas noções diferentes de verdade.

O axioma “x=2” não é verdadeiro nem falso por si, mas em conjunto com “x só pode ter um valor” e “x=3” resulta em contradição. Nesse caso podemos dizer que um deles é falso e retirá-lo para resolver a contradição. Esta noção de verdade é importante na lógica e na matemática porque se aplica a conceitos abstractos que não correspondem a algo real, como “x=2” ou “a soma de dois números é um número”. Neste sentido as geometrias euclidianas e não-euclidianas são todas verdadeiras por coerência. Mas esta noção de verdade é só uma parte da história.

Se eu propuser o axioma “a Lua é feita de queijo”, por muito coerente que a teoria seja terá sempre o problema da Lua não ser feita de queijo. É por isso que os axiomas normalmente servem para definir conceitos e não para afirmar algo acerca da realidade. Postular que “a soma de dois números é um número” quando se define a operação “soma” é muito mais seguro que afirmar «Deus criou o universo». O primeiro axioma não depende de qualquer correspondência à realidade e pode ser considerado verdadeiro apenas por coerência com os seus parceiros na teoria. O segundo axioma depende de Deus ter mesmo criado o universo, senão é logo falso.

Os axiomas não precisam ser nem intuitivos nem indiscutíveis. Precisam ser compatíveis, porque da contradição tudo se deriva e uma teoria que só diz sim não serve para nada. A doutrina que Deus é um e Deus é três é exemplo de uma teoria incoerente de onde se deriva resmas de teologia mas só gasta papel.

E se a teoria é coerente temos que determinar em que circunstâncias a podemos aplicar, o que depende dos axiomas. Por exemplo, se um dos axiomas é “a Lua é feita de queijo” a teoria resultante só é aplicável se a Lua for feita de queijo. Caso contrário não se aplica. Ou seja, os axiomas exprimem as condições necessárias para que a teoria se aplique, e é por isso que normalmente não vale a pena discutir os axiomas em si. Ou correspondem à realidade e a teoria aplica-se ou não correspondem e a teoria não serve. O que vale a pena discutir é se os axiomas corresponderem à realidade e em que condições isso acontece.

Muitos crentes confundem isto. Pensam que por postular “Deus criou o universo” se justifica tirar alguma conclusão. Como axioma o seu papel é demarcar as condições em que se pode aplicar a teoria que dele deriva. É errado dizer que «se aceitarmos o axioma ou axiomas basilares, tudo o resto se extrai com perfeita lógica e acompanhado das devidas justificações.»(1) O resto é consequência lógica dos axiomas quer se aceite quer não. Não é uma escolha pessoal. Mas esse resto só corresponde à realidade se os axiomas também corresponderem, e não é por serem postulados ou aceites que se tornam mais verdadeiros.

A melhor forma de compreender um sistema axiomático é pondo um “se” à frente. “Se só uma recta for paralela à outra...”, “se a Lua for feita de queijo...”, “Se Deus tiver criado o Universo...”, “Se a soma de dois números for um número...” e assim por diante. Dessa forma percebe-se logo que o axioma não é algo que se escolha aceitar ou que «uma vez assumido, é inquestionável»(1). O axioma é a condição necessária para que a teoria se aplique.

Se o sinal estiver verde pode avançar. Inferir daqui que o sinal está verde é incorrecto e arriscado.

1- Dragão, 14-4-08, Fratricídios e axiomaquias

segunda-feira, abril 14, 2008

Roníldo Peçanha

é um homem extraordinário. Extra ordinário. É pastor, cristão, já esteve em 256 países*, o que não é fácil num planeta só com 193, ressuscitou 14 mortos e curou 749 “alejados”. Até já fez milagres nas finanças. Suponho que tenha sido alguma coisa com a declaração do IRS.

Roníldo Peçanha

Além do dom da cura tem o dom da palavra. Qual palavra ainda se está para saber e, infelizmente, o dom da pontuação ficou pelo caminho. Mas como a vivência religiosa passa pela apreciação espiritual da paradoxal boa nova testemunhada por homens como este, deixo-vos aqui com as palavras do próprio, o grande Pastor Roníldo Peçanha.

«a biblia diz que nem o proprio jesus não escapou dos zombadores e das perseguições e foram esses zombadores que levou jesus para ser condenado e nos dias de hoge não ta sendo diferente continua mas todo homem que tem vida no altar de deus ele sofre esta perseguição mas a biblia diz ai daquele que tocar em um ungido de deus em primeiro lugar ele e pastor e segundo ele não faz nada quem faz e deus, deus usa ele de uma forma sobrenatural milagres acontece mesmo porque jesus disse quem crer em mim farão obras maiores que eu faço lembre-se disso vcs que criticam e zombam do pastor ainda poderão precisar das oraçoes do pastor outra coisa ele ja esteve em varios paises e o brasil quase todo e não como dis 256 paises isso são criticas para denegrir a imagem do pastor mas lembre-se que vcs vão pagar muito caro por isso porque vcs não sabem o que e tocar na unção de um homem de deus e muito facil jogar pedra criticar mas procurem o fundamento das coisas para vcs saberem o que estão falando porque vcs podem se queimar com fogo porque deus e amor e justiça e fogo consumidor pastor ronildo peçanha ja orou para muita gente e tem todos testemunhos de milagres e curas divinas e que vcs todos que zombarao serao envergonhados porque deus ta de olho em vcs cuidado vcs nao sabem oque e uma consagraçao de jejum e oração do pastor ronildo peçanha e melhor vcs zombadores ficarem calados porque a justiça de deus ela pesa forte e o preço e alto não toque num ungido de deus pastor ronildo e perseguido desde quando se converteu no evangelho e si tornou evangelista mundial esse cartazes que criaram e montagem mas deus vai cobrar caro porque vcs nao sabem o que e denegri a imagem de um profeta de deus (deus ta de olho como chama de fogo em vcs»

* Na verdade esteve em paízes, que pode ser uma coisa diferente...

Fontes:
Papo de Teólogo, Melhor do que cogumelo do sol! [2]
Kibeloco, Seus Problemas Acabaram (parte 2)
E obrigado ao Mário Miguel por me indicar esta preciosidade.

Saber o impossível.

Tentando conciliar o milagre da ressurreição com a ciência*, o Timshel cita o Luís:

«Cientificamente, qualquer cadeia de acontecimentos tem uma probabilidade não nula de acontecer. Inclusivé os milagres.»(1)

Isto não resolve o problema por várias razões. Primeiro, porque é falso. Por exemplo, a relatividade e a mecânica quântica excluem a possibilidade de ir a Marte e voltar em menos de dois minutos ou que este universo tenha sido criado de forma a garantir o meu nascimento. Estas teorias impõem limites que não podem ser ultrapassados. Se bem que a ciência admita a possibilidade de erro, invocar essa possibilidade para permitir milagres é afirmar que a ciência está errada, resultando num conflito.

Isto pode acontecer mesmo quando o acontecimento é teoricamente possível. O modelo do Euromilhões diz que os vencedores são escolhidos à sorte e que é teoricamente possível que alguém ganhe o primeiro prémio dez semanas consecutivas. Mas é tão improvável que, se acontecer, justifica-se rejeitar o modelo e investigar a marosca. O mesmo com a ressurreição. Não é por ser “cientificamente possível” que se resolve o conflito quando o alegado acontecimento é tão improvável que exija rever os modelos que temos.

E o “cientificamente possível” não satisfaz os crentes. Vamos supor que Jesus tinha sido injectado com robôs microscópicos que repararam os tecidos e o reanimaram. Seria compatível com a física mas não seria milagre. Seria um truque. Ou se o movimento aleatório dos átomos de Jesus tivesse sarado todas as feridas e o tivesse ressuscitado por pura sorte. Se bem que teoricamente possível, é tão improvável segundo os modelos que temos que teríamos que os substituir à mesma. Comparado a isto ganhar mil vezes o Euromilhões não é nada. E mesmo assim não chegava a milagre porque o milagre não é meramente improvável. Por definição, o milagre é impossível de ocorrer naturalmente. Ressuscitar por sorte, por muita que fosse, não seria milagre.

Mas o problema principal é afirmar que Jesus ressuscitou. Eu posso desejar de toda a alma que o Timshel seja a Jessica Alba. Esta fé** pode ser tal que eu até acredite que o Timshel é a Jessica Alba. Não é razoável justificar a crença pela fé, mas uma crença pessoal, se não passar disso, é pouco problemática. O conflito com a ciência surge principalmente se eu afirmar que o Timshel é a Jessica Alba ou, pior ainda, se afirmar saber que o Timshel é a Jessica Alba. Isto seria intelectualmente desonesto porque a fé não justifica tais afirmações. E entra em conflito com a ciência porque esta exige que eu aceite as evidências e admita que o mais provável é o Timshel não ser a Jessica Alba. Por muito que me entristeça.

Resumindo, nem tudo é compatível com os modelos científicos que temos. Há coisas impossíveis de acordo com estes modelos, há coisas tão improváveis que a sua ocorrência justificaria rejeitar os modelos e há os milagres que, por definição, são aquilo que nunca poderá ser compatível com qualquer modelo científico. E o método da ciência exige que as afirmações sejam devidamente fundamentadas. Assim, é difícil arranjar conflito maior com a ciência que afirmar saber que Jesus ressuscitou por milagre quando a única coisa que o fundamenta é a fé.

* O Timshel estava a falar principalmente do argumento antrópico, mas isso fica para a próxima.
** Pode não ser consensual, mas eu chamo fé ao desejo de acreditar.

1- Timshel, 13-4-08, A propósito da Ressurreição