domingo, março 02, 2008

O que está em causa.

O Desidério discorda da minha posição acerca da propriedade intelectual (1) e de muito que eu também discordo. Não exijo princípios à prova de fogo, não sou comunista, não quero que os autores dependam da bondade dos outros nem sou contra os intermediários. Mas como não espero que ele leia a tralha toda que eu escrevi sobre isto, e ele próprio admite não saber muito do assunto, vou deixar esses mal-entendidos de lado e focar o que interessa: «apesar desta ignorância, há um aspecto que me parece claro. [...] O que está em causa é apenas isto mesmo: a sustentabilidade económica dos criadores.»

Não. O que está em causa é promover a cultura. A ciência, a arte, a história, o desporto e todos os produtos da criatividade humana que podemos desfrutar e usar em criações novas. É esse o objectivo. A «sustentabilidade económica» é, no máximo, um dos meios a usar se os benefícios compensarem os custos.

Antes de Gutenberg os autores viviam de criar e não das cópias. Depois de Gutenberg a tecnologia foi regulada para censurar, depois pela «sustentabilidade económica» dos impressores e ao fim de uns séculos para beneficiar também um pouco os autores, mas financiou sempre mais quem fabricava cópias do que quem criava a obra. Impressores, fábricas, editores de discos e afins. O autor nunca recebeu mais que uma pequena fracção do preço da cópia.

Este sistema já não faz sentido porque a cópia agora é gratuita e pode ser feita por qualquer um. Dos €10 de um CD o autor recebe menos de €1 e o resto alimenta um sistema desnecessário. Não sou contra que ganhem esses €9 mas sou contra proibir a cópia só para que ganhem esses €9. O Desidério confunde a troca voluntária, que é o que se passa entre o agricultor, o merceeiro e o freguês, com uma proibição legal que cria escassez para beneficiar o distribuidor em detrimento dos outros.

O copyright só fez sentido porque a cópia era um bem escasso que exigia recursos consideráveis e era o factor limitante no acesso à obra. O monopólio sobre a cópia regulava a actividade comercial sem interferir na vida pessoal e ajudava a disseminar a pequena parte da criatividade humana à qual se aplica. Pequena porque a maior parte, da culinária à física nuclear e do desporto à matemática, nunca teve nada com isto por não depender do fabrico de cópias. Mas agora este sistema tem o efeito contrário, restringindo o acesso e dificultando a inovação. Quem não tem dinheiro fica privado da obra apesar da cópia ser gratuita e é preciso esperar setenta anos após a morte do autor para que a obra possa ser usada na criação de outras.

O Desidério diz que «É importante que haja diversidade; que alguns escritores sejam professores e possam oferecer as suas tretas de borla na Internet, mas que outros vivam directamente da escrita de livros.» E concordo que é importante. Mas também é importante que as pessoas possam comunicar livremente, que se aproveite a tecnologia que temos, que não se declare criminosa uma geração inteira só por querer partilhar aquilo que gosta e que a cultura seja acessível a todos. Qualquer sistema que se implemente não deve focar apenas uma coisa em detrimento de todas as outras que são mais importantes ainda.

Felizmente, proibir a cópia aos outros não é a única forma de permitir que alguém viva de um trabalho criativo. É o que acontece com físicos, cozinheiros, matemáticos, mestres de Xadrez, professores, políticos, juristas, filósofos, e tantos outros a quem o Código de Direitos de Autor exclui logo no primeiro artigo:

«As ideias, os processos, os sistemas, os métodos operacionais, os conceitos, os princípios ou as descobertas não são, por si só e enquanto tais, protegidos nos termos deste Código.»

O Desidério diz que é «pura e simplesmente falso que um músico ou um escritor possa viver do seu trabalho se o produto desse trabalho puder ser copiado livremente.» Está enganado. O produto pode ser copiado livremente mas o trabalho não. Se todos conseguissem fazer o trabalho de um bom músico então não precisávamos de músicos. Precisamos de músicos e escritores precisamente porque eles fazem algo que mais ninguém consegue fazer. E quem faz algo que outros querem e mais ninguém consegue fazer vai ganhar dinheiro com isso de certeza. Mas isso fica para outro post. Este era só para explicar que o que está em causa é muito mais fundamental, importante e complexo que a «sustentabilidade económica» desta ou daquela profissão.

1- Desidério Murcho, 1-3-08, Regresso a zero

sábado, março 01, 2008

Treta da Semana: A Nova Ordem, o Fim do Mundo e por aí fora...

Não costumo aceitar publicidade religiosa mas como eram umas raparigas bem parecidas acabei por ficar com este panfleto dos Adventistas do Sétimo Dia. Mostro abaixo o cabeçalho para terem uma ideia.

treta


Isto não é uma treta. É uma porta para um universo de tretas. Umas pesquisas depois e sentia-me a Alice do outro lado do espelho. O panfleto fala de coisas fascinantes como «As diversas características de identificação do pequeno chifre», mas é principalmente dedicado à exegese. Por exemplo, em Apocalipse 13: 11-12 temos:


«E vi subir da terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro; e falava como dragão. Também exercia toda a autoridade da primeira besta na sua presença; e fazia que a terra e os que nela habitavam adorassem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.»


A interpretação desta passagem não pode ser citada. Tem que ser apreciada no seu esplendor de negrito e rosa pastilha elástica:


mais treta

O panfleto oferece também o livro «A Grande Controvérsia» a quem lhes quiser dar a morada. O livro está online (2), se estiverem interessados nos delírios de Ellen White. A profetisa fundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia começou a sua carreira aos nove anos. Apanhou uma pedrada no nariz, ficou inconsciente três semanas e pronto. Religião instantânea (2). Entre outras coisas, profetizou que o mundo ia acabar em 1850. E uns anos depois. E mais umas vezes. Eventualmente profetizou que o mundo ia acabar antes da morte dos que assistiam à convenção adventista de 1856. No início do século XX já todos estes tinham morrido (3). Pelo menos enquanto escrevo isto o mundo ainda não acabou. Mas, segundo os adventistas, há século e meio que está quase, quase, quase.


Deve ser um stress...



1- The Ellen G. White Estate Inc., The great controversy
2- Wikipedia, Ellen G. White
3- Religioustolerance.org, 63 failed & 1 ambiguous end-of-the-world predictions between 30 CE and 1990 CE

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Propriedade estranha.

Apontaram-me hoje para dois artigos de opinião no LA Times que mostram alguns dos problemas da propriedade intelectual. Eu tenho um CD que já não quero e conheço alguém interessado em comprar-mo, mas como o preço que eu peço não lhe agrada, o meu comprador decide copiá-lo em vez de o comprar. A lei condena mas é difícil ver porquê. O raciocínio é tortuoso mesmo sem sair do ponto de partida.

A indústria discográfica diz que copiar é errado porque é roubar, o que é um disparate, como explica Jon Healey (1). A informação no CD é um bem inesgotável e pode ser distribuída sem roubar nada a ninguém. Então copiar deve ser errado porque priva alguém de uma venda. Também faz pouco sentido porque privar terceiros de uma venda oferecendo uma transacção mais atraente é a base da nossa economia. Por si só não pode ser errado. Então deve ser errado neste caso porque permite que alguém goze a música sem recompensar o criador. Mas isto implica ser errado emprestar o CD, tocá-lo ao pé dos amigos ou comprá-lo em segunda mão. Ah, mas isso é diferente. Nesses casos não se faz uma cópia do CD, mas neste caso é errado porque se fez uma cópia. Ficamos assim a saber que copiar o CD é errado porque é copiar o CD.

Apesar de circular e inútil, este argumento é persuasivo pela sensação que tem que haver algum mal em copiar. Mesmo quando não se sabe o quê. Mesmo quando a venda perdida é em segunda mão e o autor não receba um cêntimo de qualquer maneira. A sensação é que a música é propriedade do autor e isto viola os seus direitos de proprietário. Mas o mal aqui não está na cópia. Está nesta noção de ideias como propriedade.

Dallas Weaver escreve que esta estranha propriedade não tem custos nem paga taxas ou impostos (2). A lei diz que a minha casa é propriedade privada mas quem a protege somos principalmente nós que aqui vivemos. A manutenção, a porta trancada, não abrir a porta a estranhos e assim por diante. Os meus livros e o computador tambem estão protegidos pela lei mas, principalmente, estão protegidos por estar aqui em casa com a porta da rua fechada. Além disso pago impostos quando adquiro bens materiais e pago impostos pela casa e pelo carro.

A “propriedade” intelectual não tem custos. Não tem manutenção, não paga impostos e até o dever de a proteger recai sobre a sociedade em vez de sobre o “proprietário”. Se eu deixar os livros na rua e ficar sem eles a polícia não vai fazer muito para os reaver. Mas quem vende CDs ao público tem polícia anti-cópia paga pelos impostos dos outros.

O resultado é um espólio enorme de obras inacessíveis porque os gestores de direitos não lucram com a venda de cópias mas também não querem ceder “propriedade” ao domínio público para permitir a distribuição gratuita. Na investigação científica ficam muitos resultados enterrados em publicações suficientemente antigas para não terem sido disponibilizadas electronicamente mas ainda a décadas de ser legal digitalizá-las e torná-las acessíveis aos motores de pesquisa.

Weaver propõe resolver este problema com um imposto de copyright. Quem quiser manter direitos exclusivos sobre uma obra tem que pagar. A proposta tem o mérito de não mexer muito na legislação, sendo a curto prazo mais viável que uma restruturação profunda. E resolve o problema das obras atoladas porque assim que deixam de dar lucro há um incentivo para as colocar no domínio público. Mas é apenas um remendo porque o problema principal é a própria propriedade intelectual.

Antigamente a distribuição dependia do fabrico de cópias com custos significativos. A exclusividade de direitos incidia sobre esse bem escasso que são as formas materiais de transmitir a informação, como livros, discos, filme, etc. Hoje a distribuição é gratuita e por meio de descrições. Um ficheiro mp3 não é uma cópia da música mas uma descrição numérica de um processo que pode gerar a música. Estas descrições são abstractas, arbitrárias e abundantes. Não faz sentido licenciar o direito de descrever coisas nem há vantagem em ter monopólios de distribuição sobre algo que não tem custos. A solução a longo prazo é substituir o modelo dos donos das obras por um modelo de licenciamento comercial para poder incentivar a criatividade sem entupir a distribuição nem atrasar a inovação.

1- Jon Healey, 18-2-08, File ‘sharing’ or ‘stealing’?
2- Dallas Weaver, 20-2-08, Copyright this

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

As religiões são más?

São. A Abobrinha comentou:

«O que não aceito é que se culpe a religião por todos os males do mundo [...]. [S]er ateu não é sinónimo de ser mais avançado ou mais racional e de estar livre de pensamento.» (1)

As religiões não são culpadas por todos os males, nem julgo que as inventem com intenção de fazer mal. Pelo menos não mais que qualquer outra invenção. Mas, estatisticamente, as religiões são más. Não é o mal intencional do violador ou do carteirista mas o mal indiferente da peste ou das lombrigas.

As religiões evoluíram para habitar os nossos cérebros. Não por nos beneficiar; os países mais religiosos não têm sociedades melhores nem os crentes mais fervorosos são mais felizes que os demais. As religiões persistem porque têm características que favorecem a sua persistência. A aceitação incondicional, o dever de se manter fiel à doutrina, de a passar aos filhos e assim por diante. E isto propaga quaisquer crenças que venham associadas, sejam inofensivas como ir à missa no Domingo, incómodas como andar de cara tapada ou hediondas como cortar o clitóris a crianças e matar quem discorda da doutrina. É o que calhar, porque a propagação pela fé e entrega não distingue ideias boas de ideias más.

Como há muito mais formas de fazer mal que de fazer bem, quando se faz algo só por uma crença forte o mais certo é dar asneira. É por isso que as religiões são más. As religiões e não só. A Abobrinha notou que «O efeito de ateísmo iluminado também [faz muito mal]. Veja-se ditaduras de esquerda, que fizeram contáveis e incontáveis vítimas no século XX e oprimiram (quando conseguiram) a religião.» É verdade. Qualquer ideologia do sim porque sim faz mais mal que bem, tão certo como o casino receber mais dinheiro do que dá em prémios.

O que safa as religiões é os religiosos serem-no menos do que manda a doutrina. Em geral, o religioso educado e livre ignora as crenças mais nefastas da sua religião. Muitos Católicos em Portugal não ligam à proibição dos contraceptivos, não se preocupam que parentes e amigos de outras religiões ardam no inferno por rejeitar Jesus nem julgam merecer castigo quem deixar de ser Católico.

Em países como o Irão, a Arábia Saudita e o Paquistão falta aos crentes a educação e a liberdade para fazer isto. Tal como em Portugal há uns séculos. Desapareceram os autos de fé, a Inquisição, a censura de obras contrárias à doutrina Católica e as penas por heresia, mas não por ter havido alterações profundas na doutrina. Desapareceram porque os Católicos foram ignorando o pior.

Penso que é isto que faz confusão. As religiões são más mas os crentes são tão decentes e sensatos quanto a sociedade os deixar ser, e isto cria a ilusão de haver algumas religiões boas. Não há. Qualquer ideologia baseada na fé dá asneira. Felizmente temos por cá crentes capazes de avaliar criticamente a sua religião e não a levar demasiado a sério.

O que me traz novamente ao comentário da Abobrinha, «ser ateu não é sinónimo de ser mais avançado ou mais racional e de estar livre de pensamento.» Concordo. O ateu pode ser simplesmente alguém que se safou de ser religioso, como quem se safa da gripe. O ateu não é necessariamente mais racional ou mais livre. Mas o crente racional e livre é quase sempre mais ateu, e é por isso que as religiões não fazem tanto mal como podiam fazer.

1- Uma perspectiva diferente.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

«O Criacionismo e a Teoria da Evolução»

é o título de um blog criacionista que descobri recentemente (1). O autor, anónimo, explica que «A discussão sobre a evolução e a criação não tem tanto haver (sic) com a ciência, mas sim com a moralidade que cada pessoa tem.»(2) Tem alguma razão. O criacionismo não é uma proposta objectiva acerca dos factos; é uma tentativa de enganar os outros. Nota-se nas razões que propõe para os cientistas acreditarem na evolução:

«1- São levados a acreditar que a evolução está certa [...] (vivem numa atmosfera que assume a evolução como um facto mais que confirmado).
2- Por motivos filosóficos.»


Não. Por século e meio de evidências acumuladas que confirmaram alguns aspectos da teoria de Darwin, corrigiram outros, acrescentaram muita coisa e nos guiaram a uma teoria que permite compreender muito mais acerca de muito mais coisas que qualquer alternativa. Da origem da vida à formação das espécies e dos mecanismos moleculares de mutação à evolução de órgãos complexos não há explicação alternativa para os dados que temos. E são muitos. Dois milhões de espécies conhecidas, cinco milhões de genes sequenciados, cinquenta mil estruturas de proteínas, incontáveis fósseis, e tudo explicado de forma a encaixar com a física, a geologia, a astronomia, a química e assim por diante.

E a evolução é um facto confirmado. O autor é que não distingue a evolução da teoria que explica os seus mecanismos. Escreve que «quando questionados sobre o que é que [os darwinistas] têm em mente com evolução, invariavelmente eles falam de variação genética.»(3) Invariavelmente porque é essencialmente isso. Tal como a velocidade é a variação da posição de um corpo em função do tempo a evolução é a variação da distribuição de características hereditárias numa população ao longo do tempo. Esta variação é um facto e a teoria da evolução é a única explicação que temos que esclarece os mecanismos desta variação.

É um blog que promete mas hoje fico-me por aqui. Deixo só este magnífico exemplo de raciocínio criacionista. É sobre o problema do mal e dispensa comentários.

«... a existência do mal é mais uma evidência de que Deus existe, e não o contrário. Senão vejamos:
1. Quando alguém diz que o Mal existe, ela está a admitir que o Bem existe.
2. Quando alguém diz que o Bem e o Mal existem, ela está a admitir que existe uma Lei Moral absoluta na base da qual nós distinguimos uma e a outra.
3. Ao concordar que existe uma Lei Moral *absoluta*, a pessoa está a admitir que tem que existir um Legislador Absoluto, porque sem Um Legislador Supremo, não há leis morais absolutas.»
(4)

1- O Criacionismo e a Teoria da Evolução
2- Porque é que os cientistas acreditam na evolução?
3- O que é a evolução?
4- O Problema do Mal

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Ars gratia artis.

O Ricardo Pinho, cinematógrafo, pede que «Respeitem a nossa arte»(1) a todos que gostam de cinema. Em particular a mim que «não nos reconhece direitos de autor». Reconheço. E respeito. Respeito a pintura, a biologia, a matemática, o cinema e todas as formas de criatividade humana porque a criatividade humana é um dos fundamentos da nossa humanidade.

Alguns animais têm ideias e inovam. Uns poucos até ensinam os filhos ou aprendem por imitação. Mas nós somos os melhores a comunicar ideias e partilhar informação. É isso que torna a nossa criatividade tão especial. Não precisa cada um de inventar a sua roda. Se um inventa dá para todos os presentes e para as gerações futuras, que aproveitam para melhorar a invenção. A natureza colectiva e partilhada da criatividade levou-nos à Lua, revelou as nossas origens e permite a um artista como o Ricardo fazer cinema em vez de rabiscos numa pedra. A arte de criar em conjunto merece respeito.

E reconheço ao Ricardo direitos enquanto artista, autor e pessoa. Reconheço-lhe o direito de usufruir dos frutos da criatividade humana e de usar a cultura, essa sopa feita com as invenções dos outros, para criar e se exprimir. E reconheço-lhe o direito à privacidade, à troca de ideias, à álgebra e a às sequências de números que ele quiser usar. Mas os direitos do Ricardo acabam onde começam os direitos dos outros. Por isso não reconheço o direito de proibir a troca de ideias ou informação.

O Ricardo mostra um vídeo acerca da complexidade de uma produção cinematográfica nos EUA. São centenas de pessoas em grandes estúdios para preparar cenários, guarda roupa e até para fazer o som dos cascos dos cavalos batendo com pedras no chão. À primeira vista não liga com o título. Sugere que a arte merece respeito por ser cara, uma visão algo cínica para um artista. Mas isto é cinema, é a arte de fazer umas coisas parecerem outras. Por trás da bonita fachada do respeito e dos direitos está um «não lixem o nosso negócio» de papelão e tábuas.

Os mais pessimistas insistem que não se faz arte pela arte e que sem o direito de cópia o cinema vai desaparecer. Como as pirâmides. Também era preciso muita gente, cebolas e pão, e só funcionou enquanto davam ao Faraó o «direito» de as mandar construir. Eventualmente o pessoal estranhou esse direito e hoje já não se faz pirâmides. É pena. Mas não é tão mau como obrigar a que as construam.

Se as próximas gerações estranharem o «direito» de proibir os outros de partilhar informação talvez as megaproduções de Hollywood passem à história, mas isso parece-me demasiado pessimista. Se uns fazem o que os outros querem conseguirão vendê-lo mesmo sem monopólios. E os custos são flexíveis. Pela participação no «Anjos e Demónios» o Tom Hanks vai receber em meses o que eu ganharia em mil anos (2). Se houver problemas com a arte pelo negócio os estúdios têm uma boa margem para cortar despesas.

Eu respeito a arte do Ricardo. Respeito-a mais que o Ricardo. Porque não respeito a floresta embrulhando cada árvore em arame farpado, e discordo que se respeite a arte dividindo-a em quadradinhos de propriedade privada onde se cobra admissão e se impõe restrições. A arte que os humanos fazem não é individual. É colectiva. Temos que a incentivar sem a esquartejar.

1- Ricardo Pinho, 25-2-08, Respeitem a nossa arte.
2- Movie News, 19-4-07, Tom Hanks' 'Angels and Demons' salary heavenly

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Como Ricky Gervais se tornou ateu.

Aos nove anos. Numa hora. A fazer perguntas. Cada vez gosto mais deste tipo.

Ricky Gervais, My argument with God.

Eu também gostava de ter uma história destas para contar mas, infelizmente, nunca me tornei ateu.

Via Pharyngula

domingo, fevereiro 24, 2008

Snowboard.

O meu irmão Bruno pratica snowboard, já foi instrutor de snowboard (1) (mais ou menos) e agora participa num concurso de design de snowboards. Estes são os desenhos com que concorreu.



Agora só precisa de votos para ganhar um Suzuki Grand Vitara e não ter que pedir boleia aos amigos para fazer snowboard. A votação é até dia 28. Se quiserem dar uma ajudinha ou se isto vos interessa é só seguir as ligações que ele dá no KrippArt.

1- Bruno Krippahl, 27-1-08, Guia do Basófias

sábado, fevereiro 23, 2008

Uma perspectiva diferente.

O leitor que assina «Perspectiva» (que abreviarei por JM) tem se queixado que o «Ludwig Krippahl continua sem apresentar quaisquer provas da verdade da teoria da evolução.» Talvez lhe tenha escapado como a evolução de genes novos em bactérias (1) mostra ser desnecessário um deus para criar novas funções. Ou os escaravelhos com asas fechadas debaixo de élitros que não abrem (2), mostrando que a sua origem não foi inteligente. Foi cega como a teoria da evolução prevê. Ou as árvores filogenéticas (3), que refutam uma criação independente de cada tipo pois só pode ser explicada pela descendência de um ancestral comum. Entre outros exemplos.

Mas parece-me que o JM leu estes posts só que entende por prova algo diferente do conjunto de dados que favorece uma explicação sobre as alternativas. Nota-se pelas «provas» que o JM dá para a hipótese criacionista que os dinossauros viveram ao mesmo tempo que os humanos. Provas como:

«Existem muitas lendas de dragões [....]. Existem muitas referências a dragões na literatura antiga. [...] Dio Cassius, o historiador romano, (155–236dC) [...] refere-se a um dragão que foi visto numa batalha [...]. Os dinossauros são mencionados na Bíblia [...]. Existem muitas referências a dragões nas tradições orais aborígenes»

Estas tornam a hipótese da coexistência de humanos e dinossauros tão sólida como as da existência das fadas e dos Klingon. Segue-se a paleontologia:

«Pegadas de dinossauros e de seres humanos foram encontradas lado a lado no Turquemenistão, de acordo com o jornal russo Komsomolskaya Pravda, de 31-1-1995.»

Segundo um artigo no site criacionista Answers in Genesis, o jornalista Alexander Bushev viu as pegadas que julgou ser de dinossauro e humano, especulou que teriam sido deixadas por extraterrestres (4) e publicou o artigo no 24 Horas lá do sítio. Estranhamente, este artigo não impressionou os paleontólogos que continuaram a discordar da interpretação do jornalista (5). Depois vem a arqueologia:

«Em pedras encontradas no deserto de Nazca, no Peru, podem ver-se representações surpreendentemente fidedignas de dois dinossauros, Triceratops e Tyrannosaurus rex.»

É a famosa colecção de pedras de Ica, do Dr. Javier Cabrera. Fascinado com uma pedra gravada que recebera em 1960, o Dr. Cabrera ofereceu-se a pagar generosamente ao camponês que a vendera se lhe trouxesse mais pedras. Por sorte, o camponês começou a encontrar regularmente relíquias soberbas, antiquíssimas mas tão bem conservadas que pareciam ter sido feitas na altura (6). O Dr. Cabrera nunca descobriu a «gruta secreta» onde o camponês encontrava as pedras, mas continuou a pagar-lhe bem por estas provas irrefutáveis que os antigos habitantes do Peru eram extraterrestres das Pleiades, conviviam com dinossauros e faziam transplantes de coração e cirurgias ao cérebro. E, por alguma razão desconhecida, registavam tudo isto com gravuras em pedras. Mais uma descoberta monumental que não impressionou a comunidade científica. Finalmente, depois de mais lendas e afins,

«A par da recente redescoberta das lulas gigantes (até há pouco consideradas mitológicas), tem vindo a aumentar o número de relatos de uma serpente gigante nas profundezas do mar.»

O que seria relevante se os dinossauros fossem lulas ou serpentes, ou se estes relatos provassem alguma coisa.

Se o JM quer como prova da evolução uma gravura com um dinossauro a transformar-se em pássaro não lhe vou dar «prova» nenhuma. Não que seja difícil mas porque, nesse caso, prefiro que ele não acredite na evolução. Pela forma como defende o criacionismo parece-me melhor deixá-lo desse lado.

1- Penicilina
2- Apterocyclus honolulensis
3- O que as proteínas nos dizem.
4- Answers in Genesis, Human and dinosaur footprints in Turkmenistan?
5- Glen J. Kuban, A Russian "Paluxy?"
6- Sara Ross, 21-5-2007, The Ica Stones and Dr. Javier Cabrera

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Treta da Semana: Cristina Candeias.

A Cristina Candeias é a astróloga de serviço nas manhãs da RTP-1. Não vejo com regularidade. Nem sem regularidade. Mas gravei a intervenção desta quarta feira e fartei-me de rir. Até me lembrar que aquilo é pago dos meus impostos...

O Jorge Gabriel anunciou que se ia prever o futuro, e «quem melhor do que Cristina Candeias» para isso. A pergunta, presumo, era retórica. Tenho coisas no frigorífico mais habilitadas para o cargo. A Cristina estava preocupada com o eclipse lunar que ia ocorrer nessa noite de quarta para quinta. «Não gosto muito dos eclipses», explicou,«porque os eclipses estão muito associados a cataclismas (sic) naturais. [...] Ainda mais com a lua cheia, que é aquilo que vai enchendo».

Dêem-me só um momento para limpar os perdigotos do monitor e recuperar o fôlego.

Gostava que a Cristina explicasse quando queria que ocorresse um eclipse lunar. Não sou astrólogo, mas parece-me difícil que a sombra da Terra acerte na Lua se não estiverem alinhadas com a Terra entre a Lua e o Sol. E isso ocorre na lua cheia, altura em que a face da Lua que vemos daqui está iluminada pelo Sol.

Também não se justifica a associação dos eclipses com os cataclismos. Entre os 100 maiores desastres naturais do século XX (1) há 33 que ocorreram num dia específico. Desses, apenas o terremoto no Irão em 16 de Setembro de 1978 coincidiu com um eclipse lunar (2) e está em 84º na lista em fatalidades. O resultado não é estatisticamente significativo mas parece-me que a Cristina está (literalmente) com medo da sombra.

Depois prevê as cheias da noite anterior. «O Sol está em água, em peixes, todas estas chuvas, todas estas inundações já estão inter-relacionadas com o eclipse de hoje». Faltou explicar porque é que o Sol estava mais em peixes em Lisboa e Setúbal. «O tsunami, que aconteceu há uns anos a 26 de Dezembro foi uma lua cheia e também um eclipse». Foi uma lua cheia (3) mas não foi um eclipse (4). Parece que até a prever o passado a astróloga tem dificuldades.

As previsões do futuro são menos detalhadas. A oposição de Marte e Plutão vai causar nervosismo às pessoas de bem e levar a fazer o mal as pessoas que estejam predispostas a isso. Isto porque os Gregos Romanos* chamaram «Marte» ao deus da guerra e uma miúda de 11 anos sugeriu este nome para Plutão (5). Diz também que a conjunção de Júpiter e Urano é fabulosa, mas, a meu ver, teria mais graça em Inglês.

Não tive paciência para o resto mas não hesito em oferecer à Cristina Candeias uma assinatura gratuita deste blog. Pela sua resistência aos mais elementares conhecimentos de astronomia, capacidade de ver correlações onde não existem e a confiança com que afirma disparates facilmente refutáveis, o prémio é bem merecido.

*Editado às 22:47. Obrigado ao leitor Luís pelo aviso.

1- The Most Deadly 100 Natural Disasters of the 20TH Century
2- NASA, Lunar Eclipses: 1901 to 2000
3- StarMessage, Full Moon Calendar Dates For the years 2004 to 2010
4- NASA, Lunar Eclipses: 2001 to 2100
5- Wikipedia, Pluto

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

A qualidade da informação no ADN da cebola antes e depois da Queda e do Pecado Original e considerações sobre a virilidade.

Constâncio Ladainha é licenciado em gestão pela Sacred Bible University do Texas e é um dos principais proponentes do Gertrudismo, ramo do criacionismo bíblico segundo o qual Deus terá criado os seres vivos por intermédio de Gertrudes, a quarta Pessoa divina.

O materialismo naturalista comunista e ateu da ciência torna-lhe impossível considerar mais que meras quantidades. Nota-se isto na informação, a entidade imaterial que revela o toque do Divino no plano material. Segundo Shannon, a informação é apenas a quantidade de bits. Mas considerem, por exemplo, 010 e 110010. Apesar de ter apenas três bits, a qualidade da informação na primeira sequência é muito superior. A verticalidade do um complementa e equilibra a suavidade dos zeros que o ladeiam. A segunda sequência tem bits de má qualidade. Dois uns, depois dois zeros sem mais nem menos e, no fim, um um e um zero. Que raio de coisa. Não presta.

Algumas cebolas têm dez vezes mais ADN que nós porque a informação no ADN da cebola é de má qualidade. Se olharmos para o ADN humano sem as palas do materialismo fascizante naturalista cego da ciência facilmente percebemos que, apesar do ADN humano ser apenas uma molécula, a informação que contém exprime compaixão, fé, espiritualidade e inteligência, tudo coisas de grande qualidade. A informação no ADN da cebola é o contrário. É uma informação de cheiro forte que agride as mucosas e é feia, redonda, de cor pálida e às camadas. Com uma informação de má qualidade a cebola precisa de muito mais ADN que os humanos.

É um erro pensar que isto revela uma imperfeição na criação Divina. A cebola foi criada perfeita, com um ADN minúsculo repleto de informação da mais alta qualidade e aroma a menta-limão. Mas Adão desobedeceu a Deus e, numa dentada, degradou a qualidade da informação no ADN de inúmeros organismos, entre os quais a cebola. Os teólogos ainda hoje debatem porque terá degenerado mais a cebola se foi Adão que comeu o fruto proibido, mas tem havido progressos na explicação deste fenómeno. O peixe pulmonado, por exemplo, respira dentro e fora de água. Isto é contra a lei natural, é pecaminoso, e explica a degradação tão acentuada da qualidade da informação no seu ADN, trinta vezes maior que o nosso.

O pecado da cebola ainda está por determinar mas podemos ter a certeza absoluta que foi isto que ocorreu. Nenhum cientista mediu o ADN da cebola antes do Pecado de Adão, por isso o que os cientistas dizem tem que estar errado. Além disso os cientistas não sabem plantar cebolas. Por isso a única alternativa viável e verdadeira é a criação Divina por intermédio de Gertrudes.

Também é errado ver aqui evidências para o tal «junk DNA». Não há lixo no ADN. O ADN é uma molécula extremamente complexa, criada por Gertrudes para codificar a informação da vida. Nada no ADN é lixo. O problema está nos efeitos do Pecado Original sobre a qualidade da informação imaterial. É esta dualidade do ADN material e da informação imaterial que faz com que todo o ADN seja funcional e essencial à vida do organismo mesmo quando 99% do ADN nunca é usado e não serve para nada. Só o imperialismo naturalista e materialista ateu da ciência é que faz ver uma contradição onde não há contradição nenhuma.

O meu estimado Ludwig, que muito admiro apesar das suas óbvias limitações intelectuais, comete o erro comum e grave dos cientistas materialistas e ateus. Tenta compreender a vida olhando para os organismos, para as células, para as moléculas e para os fósseis. Isto limita-o ainda mais. Devia abrir os seus horizontes e considerar apenas um livro: a Bíblia Sagrada. Tem tudo. A Bíblia é um livro científico completo sobre a origem do universo, da vida e das espécies. A Bíblia responde às questões éticas mais fundamentais, como quem devemos apedrejar ou quando comer pão levedado. A Bíblia é até um manual de primeiros socorros, com tudo o que é preciso saber para enfrentar qualquer emergência:

«Aquele a quem forem trilhados os testículos, ou for cortado o membro viril, não entrará na assembléia do Senhor» (Deut, 23:1)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Borlas.

Recebi por email uma ligação ao LectureFox (1), um directório para aulas e cursos universitários sobre vários temas. Fundamentos de física, teoria das cordas, química geral, geoquímica orgânica marinha, linguagens de programação, história da informação, introdução ao Antigo Testamento, há lá de tudo. E é tudo gratuito.

Muitas universidades têm cursos inteiros online, mas se são públicas é natural que disponibilizem as aulas gratuitamente. O interessante é universidades privadas como Yale e Harvard fazerem isto. Sem DRM, sem processar quem partilha, sem chatear ninguém nem cobrar nada. E é justo. Mesmo quem não tem dinheiro para propinas e livros deve poder aprender física ou psicologia ou matemática. Se é prático difundir esta informação gratuitamente a sociedade deve fazê-lo, porque todos, ricos ou não, têm direito ao acesso à cultura. Seja ciência seja arte.

Mostra também que a distribuição gratuita é compatível com a remuneração. Um professor em Harvard é bem remunerado. Porque a remuneração justa é a que recompensa a criação de um valor, como preparar e dar as aulas, dar um concerto, fazer uma descoberta científica ou compor uma música. Copiar bits não cria valor nenhum, e no conteúdo digital não é a cópia que merece recompensa.

É verdade que o compositor não dá aulas, mas se cria algo de valor pode negociar com quem lhe queira pagar por isso. E podia dar aulas. Tal como na ciência, é não só é vantajoso incentivar o autor a criar mas também a ensinar outros. Infelizmente, a tendência neste momento é restringir a disseminação ao ponto de estrangular a criatividade artística. Enquanto as universidades distribuem o conteúdo de graça as discográficas exigem que se corte a internet a quem partilhe canções. Enquanto se organiza o acesso gratuito à investigação científica legisla-se mais restrições ao acesso à arte.

A diferença é que as universidades, mesmo as privadas, vivem da inovação. E a inovação é tanto maior quanto mais fácil for o acesso à cultura e educação e quanto maior for a liberdade de usar essa cultura em criações novas. As universidades, a criatividade científica e a sociedade prosperam mais quando a cultura é abundante e gratuita.

As discográficas vivem da cópia e não da inovação. Lucram quando a cultura é escassa, de difícil acesso e fornecimento controlado. A inovação, a educação musical e a liberdade de criar são inimigos deste modelo de negócio assente em copyrigths de setenta anos e no fabrico de sucessos artísticos pela publicidade e controlo dos meios de comunicação.

O que me traz a outra borla, o filme Good Copy, Bad Copy (2), que vi hoje seguindo a recomendação do leitor «ardoRic». É um documentário interessante, bem feito, e gratuito. O vídeo em boa qualidade tem quase 700Mb, mas descarreguei-o com o μTorrent (3) em menos de uma hora aqui de casa. Mais um exemplo das vantagens da distribuição digital livre.

Finalmente, a última borla de hoje é mais sobre censura que copyright, se bem que não esteja totalmente fora da mira dos proprietários «intelectuais». A Wikileaks (4) é uma wiki que usa vários métodos de encriptação e redirecionamento de tráfego para garantir a segurança de quem submete documentos. Criada por um grupo de jornalistas, o objectivo é facilitar denuncias por parte de funcionários de companhias e governos que tenham coisas a esconder. Agora um juiz na Califórnia mandou encerrar o domínio wikileaks.org a pedido dos advogados de um banco nas ilhas Caimão que quer impedir o acesso a alguns documentos que foram colocados neste site (5).

É claro, sendo a internet o que é, a única coisa que o juiz conseguiu foi tirar-lhes o nome do domínio. O resto está lá tudo, inclusive no mesmo endereço IP (88.80.13.160). Viva o digital.

1- LectureFox.
2- Good Copy, Bad Copy
3- μTorrent
4- Wikileaks
5- Stephen Soldz, Daily Kos, 18-2-2008Wikileaks Under Attack: California Court Wipes Wikileaks.org Out of Existence

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Miscelânea Criacionista: Adaptação e Espécies.

Num post anterior foquei parte do modelo criacionista proposto pelo leitor «Perspectiva» (1), onde relatou a criação inteligente do ADN. Aqui comento a outra parte segundo a qual o deus do «Perspectiva»

« 5) Possibilitou a cópia precisa da informação para garantir a reprodução da espécie ("gaivotas dão (sempre e só) gaivotas");
6) Introduziu informação suficientemente diversificada para permitir uma margem razoável de adaptação às alterações ambientais;»


O ponto 5 diz que a espécie se perpetua como uma entidade bem definida e o 6 dá «uma margem razoável de adaptação» para que partes da espécie mudem de acordo com as condições locais. Mas sem especificar o que muda e o que é fixo isto não diz nada. Mais importante, a espécie como um tipo estável e bem definido não encaixa nas evidências. A espécie não é uma entidade que se reproduz ou se perpetua. Os indivíduos reproduzem-se e o que se perpetua são as características que, em cada população, prevalecem na competição por lugares na geração seguinte. Há muitos exemplos que ilustram como a espécie é uma classificação contingente e não um tipo fundamental.

Os lobos e os cães pertencem à espécie Canis lupus, do São Bernardo com 100 kg e quase um metro de altura (2) ao Chihuaua de quinze centímetros (3). Agrupamo-los numa espécie só porque há raças intermédias que se cruzam entre si e com estas duas, mas sem as outras estas duas seriam espécies diferentes pois são morfologicamente distintas e incapazes de se reproduzir entre si.

A gaivota Larus é classificada como L. argentatus e L. fuscus na Europa, duas espécies diferentes. Mas a L. argentatus cruza-se com a L. smithsonianus Americana, esta com a L. vegae Siberiana que se cruza com a L. heuglini Russa que se cruza com a L. Fuscus na Europa oriental. Parafraseando o «Perspectiva», Larus argentatus dá sempre e somente Larus argentatus. Mas é a mesma espécie que Larus fuscus e mais umas outras (4).

É difícil aceitar o Chihuahua como parte da «margem razoável de adaptação» do lobo, mas este modelo criacionista tem um problema mais grave. Quando não há cruzamento entre populações não há mecanismos que as impeçam de divergir. Já Darwin notara que não há uma «margem razoável» que pare a evolução. Os filhos são diferentes dos pais e as características da população mudam de uma geração para outra. Isso nunca para.

Os mecanismos moleculares de hereditariedade e mutação confirmam a ideia de Darwin. Não há cãozice ou gaivotice no ADN. Na grande árvore da vida os tais «tipos» que os criacionistas arrumam em «margens razoáveis» são mera ficção. Há um ramo com muitos gravetos e folhas a que chamamos répteis, mas dentro desse ramo há outro a que chamamos aves. As aves são parte dos répteis tal como os Chihuahua são parte dos cães. Excluir as aves dos répteis é uma invenção nossa.

A taxinomia mostra bem ser invenção humana. A classe dos insectos tem um milhão de espécies conhecidas repartidas em 32 ordens. A classe dos mamíferos tem cinco mil espécies conhecidas repartidas em 26 ordens. Esta disparidade não é um aspecto da natureza. É invenção nossa. Os insectos surgiram duzentos milhões de anos antes dos mamíferos e são um enorme tronco na árvore da vida, comparado ao qual os mamíferos são um raminho. Mas gorilas, chimpanzés e humanos parecem-nos «tipos» muito diferentes mesmo sendo geneticamente quase iguais, enquanto as 150 mil espécies conhecidas da ordem Diptera, cinco vezes mais antiga que os primatas, são para nós apenas moscas e mosquitos.

Como ciência este modelo é um disparate. Os «tipos» não fazem sentido, tem espécies que não mudam mas que se adaptam e «margens razoáveis» sem mecanismos que as imponham. E não explica nada de jeito. Como teologia é absurdo. O deus é omnipotente mas são os criacionistas que dizem o que ele pode ou não fazer. Gaivotas, mandam eles, só podem dar gaivotas, ouviu bem?

Mas o criacionismo não é ciência nem teologia. É uma ferramenta para «partir o tronco» do conhecimento (5), substituir 2700 anos de descobertas por superstições antigas e tornar pessoas que pensam por si em crentes maleáveis.

1- Miscelânea Criacionista: E Deus criou a cebola.
2- Wikipedia, St. Bernard
3- Wikipedia, Chihahua
4- Wikipedia, Ring species
5- Wikipedia, The Wedge Strategy

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Eficiência, tabaco, e outras tretas.

A Palmira da Silva escreveu outra vez acerca dos aquecedores (1) e atribuiu-me um contributo cujo mérito não mereço. Num comentário ao seu artigo anterior escrevi um 15000 em vez de 1500, gralha que me foi imediatamente apontada e que corrigi. Mas a Palmira ficou com a impressão que era uma estimativa minha. Não era. Era do documento da DEFRA (2), o mesmo que estima as tais 22 mil toneladas de CO2 libertas pelos aquecedores de pátio de uso doméstico, e que estima uma emissão dez vezes maior para os aquecedores de pátio em estabelecimentos comerciais. A minha critica foi por citarem o primeiro valor no contexto do segundo.

Mas o que mais me fascinou neste artigo da Palmira foi a sua medida de eficiência. «Ninguém duvida que é boa ideia utilizar aparelhos que usem energia de forma eficiente. Mas os aquecedores no cerne da polémica apresentam uma eficiência térmica inexcedível com a tecnologia actual». Concordo que somando a energia no aquecimento do ar com a energia irradiada e a que aquece o aparelho obtemos um valor igual à energia liberta pela combustão do gás.

Tal como na electricidade. A produção de electricidade aquece a central, o ar que sai da chaminé, os cabos de alta tensão e o ar à volta destes e alimenta os nossos electrodomésticos. A soma de todas as parcelas tem que dar a energia liberta na combustão do carvão. É uma quantidade conservada. Mas o aquecimento do ar à volta da central e dos cabos de alta tensão conta como perda. A eficiência não é a fracção de energia dissipada, forçosamente igual à produzida, mas a fracção que usamos.

Um aquecedor na rua aquece duas ou três pessoas mas aquece também uma coluna de ar que sobe e se dispersa pela atmosfera. Isso conta como perda. Uma medida mais razoável é comparar o gás que se gasta para nos aquecermos na rua com o gás necessário para nos aquecermos em casa. Quem já fez bolos sabe que ter o forno aberto ou fechado afecta bastante a sua eficiência. Não me parece razoável que um aquecedor na rua apresente «uma eficiência térmica inexcedível com a tecnologia actual». Desde que se inventou paredes e telhados que se pode exceder em muito a eficiência desse sistema de aquecimento. O que nos traz a este mal entendido:

«Assim, o que está em jogo não é a eficiência térmica destes aquecedores [...] mas sim o facto de alguns considerarem que os fins a que se destinam (em Inglaterra, pelo menos) são «imorais». Como corroborado pelo que pensa o Ludwig que [...] afirma noutro exagero de «egocentrismo ideológico»: «Mesmo assim, é muito combustível e CO2 só para ficar na rua sem casaco».»

O que está em jogo é mesmo a eficiência térmica de usar aquecedores na rua. Eu discordo da medida que a Palmira usa, segundo a qual o aquecedor é tão eficiente fora como dentro de casa. Se queremos aquecer pessoas em vez de mochos e morcegos a simples soma do calor dissipado não serve como medida de eficiência. Não é para chatear os fumadores. É para usar mais racionalmente recursos limitados como combustíveis fósseis e a capacidade do ambiente de suportar a poluição.

É verdade que se está a impor mais regras aos fumadores e concordo que isso não é bom sinal. Mas não pelas razões da Palmira. Também sou contra que se proíba o alho, que adoro, mas evito comer alho antes de dar aulas para não incomodar os alunos com o mau hálito. Onde trabalho partilhamos gabinetes entre duas ou três pessoas. Nestas condições não se pode ouvir música, falar alto, batucar na mesa ou outras coisas que possam incomodar os colegas. E ninguém faz isso. Arrumamos o tabuleiro na cantina, não deitamos papeis para o chão, seguramos a porta se alguém vem a passar e tudo isso sem regras nem leis que o imponham. Basta educação e civismo.

Mas mesmo antes desta legislação havia uma regra oficial a proibir o tabaco nos gabinetes sem a autorização expressa de todos os ocupantes, a proibir que fumassem na cantina, salas de aula e afins. É assim por todo o lado. O problema é que, para muitos fumadores, só importa se fumar é permitido ou proibido e não se incomoda os outros.

1- Palmira F. da Silva, 17-2-08, Delenda Tabaco
2- DEFRA’s Market Transformation Programme

domingo, fevereiro 17, 2008

Miscelânea Criacionista: E Deus criou a cebola.

Quando eu era miúdo via os desenhos animados do professor Baltasar. Qualquer que fosse o problema, ele pensava, pensava, pensava e encontrava a solução. Depois uma maquineta piscava luzes coloridas e ele recolhia umas gotinhas da poção que resolvia tudo. O modelo criacionista do leitor «Perspectiva» recordou-me desses tempos:

«Deus usou o seguinte método[...]
1) Concebeu a gaivota;
2) Reduziu o conceito da gaivota à correspondente informação;
3) Codificou essa informação de forma optimizada num sistema miniaturizado (DNA);
4) Programou um mecanismo que permite, com precisão, transcrever, traduzir, descodificar e executar essa informação.»
*

É como pedir a receita e dizerem que conceberam o prato, codificaram a informação e executaram-na. Diz pouco. Mas reconheço neste modelo o mérito de permitir inferências testáveis, e o «Perspectiva» propôs várias. Algumas não fazem muito sentido mas vou focar uma em que estamos de acordo: «O “junk-DNA” não é junk, mas é funcional contendo várias camadas de informação e meta-informação». Se o ADN foi criado por um ser inteligente para um propósito inteligente espera-se que cada trecho da molécula desempenhe uma função no organismo.

Mas não é o caso. Os dentes das galinhas são um exemplo. É preciso a operação coordenada de vários genes para o desenvolvimento dos dentes, e as aves não têm dentes porque mutações desligaram este processo. Mas os genes estão todos lá e é possível activá-los com pequenas alterações (1). A criação inteligente da galinha não é compatível com a presença de vários genes que só servem para fazer dentes e que nunca são usados. Nem com os Long Interspersed Elements (LINEs), sequências de ADN repetidas milhares de vezes no genoma. Imaginem um texto com a mesma palavra escrita seis mil vezes de seguida. Não era inteligente. Um sexto do nosso ADN são LINEs. Ou os microsatélites, sequências de um a quatro nucleótidos repetidas centenas de vezes e cujo número de repetições varia entre indivíduos da mesma população. O Larry Moran no Sandwalk tem uma colecção de posts sobre este assunto que recomendo aos interessados e aos criacionistas (2). Aqui vou focar apenas o tamanho do genoma.

Consideremos o género Allium, das cebolas e alhos. O Allium altyncolicum tem o dobro do ADN humano e o genoma do Allium ursinum é dez vezes maior que o nosso (3). É estranho que as cebolas exijam pelo menos o dobro da informação necessária para codificar humanos. Mas mais estranho ainda é que algumas cebolas precisem de cinco vezes mais informação que outras. Para quê?

E não são só as cebolas. O genoma do peixe pulmonado Protopterus aethiopicus é 38 vezes maior que o nosso (4). O do crustáceo Ampelisca macrocephala, parecido com um camarão, é 17 vezes maior que o humano e quatrocentas vezes maior que o do Cyclops kolensis, outro crustáceo (5). As plantas do género Ophioglossum têm um genoma apenas vinte vezes maior que o nosso, mas copiado 34 vezes, com mais de mil cromossomas em cada célula.

A teoria da evolução inclui modelos bem fundamentados que explicam estas características. Os genes dos dentes das aves são vestígios de um ancestral réptil comum, como confirma o registo fóssil e a comparação genética e anatómica de espécies vivas. As sequências repetidas são criadas por mecanismos moleculares conhecidos, do deslizamento das enzimas que copiam o ADN à replicação autónoma de fragmentos de ADN (transposões) que se reinserem no genoma. É isto que faz acumular o lixo molecular de geração em geração.

Esta é uma prova da teoria da evolução, no sentido científico. Quando pomos estes modelos à prova confrontando-os com as evidências vemos que só a teoria da evolução explica os detalhes correctamente. O melhor do criacionismo são modelos vagos, omissos quanto aos mecanismos e que nem no pouco que dizem acertam. Se uma coisa é evidente no ADN é que não foi criado com inteligência.

* A proposta do Perspectiva tinha mais dois pontos acerca da cópia e da diversidade «para permitir uma margem razoável de adaptação». Ficam para a próxima. Não quero impingir-vos posts do tamanho de alguns comentários.

1- Hen’s teeth not so rare after all
2- Larry Moran, Theme: Genomes & Junk DNA
3- T. Ryan Gregory, The onion test.
4- Animal Genome Size Database, Fish statistics.
5- David J. Rees e outros, Amphipod genome sizes: first estimates for Arctic species reveal genomic giants

sábado, fevereiro 16, 2008

Treta da Semana: International Academy of Consciousness.

Waldo Vieira é um dentista brasileiro nascido em 1932 e «Pós-graduado em Plástica e Cosmética, em Tóquio (Japão)»(1). Em 1981 fundou o Centro de Consciência Contínua, em 1988 o Instituto Internacional de Projecciologia, mais tarde Instituto Internacional de Projecciologia e Conscienciologia. Em 1995 fundou o Centro de Altos Estudos da Consciência e «em Outubro de 2000, um grupo de voluntários do IIPC fundou a International Academy of Consciousness (IAC) em Portugal, com o intuito de incrementar a pesquisa em Conscienciologia e Projecciologia, assim como proporcionar instalações e oportunidades semelhantes às oferecidas pelo CEAC no Brasil.»(2)

O curso principal é o Curso de Desenvolvimento da Consciência, «com principal enfoque na experiência fora-do-corpo (EFC). A EFC é uma ferramenta de desenvolvimento pessoal, já que permite uma experiência directa com outras dimensões invisíveis não-físicas [...] A EFC é substancialmente diferente de um sonho, no sentido de que nela viajamos para outras dimensões.»(2)

O que é pena. A experiência fora-do-corpo em que o paciente anestesiado se vê a flutuar por cima dos médicos, em que a consciência sai mas fica nas dimensões físicas e visíveis, seria mais útil. Um curso disso ia revolucionar as tácticas militares, as operações de salvamento, as forças de segurança, a espionagem e, é claro, dava para ir espreitar a vizinha boazona a tomar duche. Esse curso eu pagava. Mas para que raio quero eu viajar por dimensões invisíveis não-físicas? Mais vale dormir. Pode ser que sonhe com a vizinha boazona a tomar duche.

Também ensinam «autodefesa energética». Não sei bem o que será, mas pode dar jeito aos electricistas.

Outro projecto importante é a Enciclopédia da Conscienciologia: «A enciclopédia da Conscienciologia é um marco importante na continuação do entendimento da ciência Conscienciologia que incluirá o registo das ideias e conclusões resultantes da análise dos “factos do universo” sob o ponto de vista conscienciológico.» (4) Gostei das aspas. Factos são coisas reais. “Factos” são tretas.

E o método de trabalho é fascinante. A enciclopédia está a ser desenvolvida no Holociclo, «uma extensa e única área, que inclui uma superfície de trabalho em mármore com 21 metros, permitindo aos investigadores e escritores o trabalho em conjunto, utilizando um banco de dados que inclui mais de 2 500 dicionários temáticos como fontes de referência. Este banco de dados é exibido horizontalmente, permitindo assim um fácil acesso a todo o material, disposto de maneira contínua sobre mais de 305 mesas [...]. Pilhas de papel em branco estão espalhadas por toda a área de trabalho para que qualquer ideia ou conceito se possa registar facilmente e em qualquer momento, minimizando o risco de perda.» Quando a minha mulher me chamar desarrumado digo não, estou a escrever uma enciclopédia. Aardvark (5).

Muito importante também é o «Cosmograma, um método especial de investigação concebido e desenvolvido pelo Dr. Vieira. O Cosmograma é uma técnica que estimula um maior aprofundamento da associação de ideias e o desenvolvimento de conceitos originais, através da análise da informação veiculada diariamente nos meios de comunicação». Até têm um edifício especial onde vão todos ler o jornal durante três horas e trinta minutos (6).

Há muito mais para contar, mas já é treta que chegue para esta semana. Talvez volte cá para vos falar de Cosmoética, Despertologia, Mentalsomática ou Pensenologia. Hoje concluo com a técnica de Tenepes, que primeiro pensei ser um parente dos percebes (ou dos gambozinos). Afinal «consiste na transmissão diária de energia com finalidades assistenciais, com horário bem definido, em conjunto com uma equipe de amparadores técnicos». Mas fica o aviso. Não se indica «para mulheres que utilizam DIU, conforme orientação de praticantes veteranos da tenepes, pois os processos energéticos intensos durante a tenepes podem ocasionar alguma alteração.»

Obrigado, Abobrinha, por este filão de treta concentrada. Sugiro que assistas ao curso. Não pela cosmotreta, mas um destes amparadores técnicos que até deslocam o DIU talvez seja interessante.

1- Wikipedia, Waldo Vieira
2- International Academy of Consciousness, International Academy of Consciousness
3- IAC, Curso de Desenvolvimento da Consciência
4- IAC, A Enciclopédia da Conscienciologia
5- Ink and Incapability.
6- CEAEC, Laboratório do Cosmograma.

Acerca dos comentários.

O leitor que assina «Perspectiva» perguntou:

«O Ludwig Krippahl quer agora os participantes do blogue se identifiquem. Provavelmente vai requerer informação biográfica, biométrica e biológica. Vai exigir currículo, fazer um scanning da íris e criar uma base de dados de DNA. [...] A que se deve esta súbita preocupação securitária?»

É o mesmo mal-entendido que levou este leitor a comentar «Porque este blogue é (ainda) um espaço de liberdade, deixo aqui o meu repto ao Desidério Murcho, o mesmo que deixei no Rerum Natura». Este blog não é um «espaço de liberdade», e nunca foi. Não é um jardim onde cada um sobe para o seu caixote e desabafa. Isso é o Blogger. Se o «Perspectiva» quer espaço para a sua liberdade crie um blog e desabafe à vontade. É de graça.

Este é o meu blog pessoal onde eu exponho as minhas ideias à consideração de quem se interessar e onde me disponho a dialogar com quem quiser falar comigo. Um blog pessoal de ideias pessoais e diálogos pessoais. Como tal, espero que não se escondam no anonimato ou atrás de pseudónimos descartáveis, tal como se me telefonassem ou me escrevessem uma carta.

Não exijo identificação, nem ADN nem sequer o nome verdadeiro. Basta uma alcunha estável que me permita ter uma ideia de quem se dirige a mim e com quem estou a dialogar. Por uma questão prática, porque é mais fácil discutir um assunto se sei a quem me dirijo. Não vou discutir genética da mesma forma com um bioquímico e com um jovem de doze anos. E porque um diálogo exige um mínimo de confiança. Não me interessa perder tempo com quem apenas finge dialogar mas só quer chatear dizendo a mesma coisa sob pseudónimos diferentes.

E mesmo este mínimo não é uma exigência. É uma preferência. Quem vem aqui sabe quem eu sou e gostaria que falassem comigo em igualdade de circunstâncias. Se não querem, paciência. Podem comentar à mesma. Não proíbo nem exijo nada. Mas peço que tenham em consideração que estão a falar comigo no meu cantinho. Sintam-se como se estivessem em vossa casa, mas ajam como convidados na minha.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Miscelânea Criacionista: O Cérebro Aleatório.

Os criacionistas gostam da palavra «aleatório», que tem muitos significados para criar confusão. No sentido mais fraco pode referir algo acidental, que não é consequência de um acto consciente. Uma pedra cai de um penhasco. Acontece. É aleatório.

A trajectória não é aleatória, e se for uma só pedra é fácil de prever. Uma derrocada já parece mais aleatória. Não é menos determinista que a pedra sozinha mas com muitas pedras já não conseguimos antecipar em detalhe a trajectória de cada uma. Mesmo assim, a derrocada também é previsível. Não é por acaso que cai para baixo.

Mas nem sempre o aleatório é limitação nossa. Pode ser uma característica do próprio sistema. Não é mera ignorância que nos impede de prever quando um núcleo radioactivo vai decair. É não haver nada lá que se possa saber acerca disso. Ainda assim este não é o sentido mais forte de «aleatório», porque as probabilidades tendem a ser suficientemente altas ou baixas para se prever estatisticamente o que vai acontecer.

O sentido mais forte de aleatório é o da moeda, do dado ou da roleta. É a igual probabilidade de ocorrer qualquer alternativa, o máximo de incerteza. E se a moeda cai caras dez vezes seguidas podemos desconfiar que não foi aleatório neste sentido mais forte. Mais improvável ainda é gerar a sequência da hemoglobina com um sistema que produz qualquer sequência de aminoácidos com igual probabilidade. Isso é praticamente impossível. E é aqui que os criacionistas dão o golpe. Se não pode ser por completo acaso, argumentam, então não é aleatório e tem que ser criado por inteligência. Se não é aleatório no sentido mais forte não é aleatório no sentido mais fraco.

Isto é falacioso, tanto na falsa dicotomia como no equivoco dos significados. E as implicações são ridículas. É praticamente impossível que as moléculas da relva que a vaca comeu se reorganizem em metano por puro acaso. Pelo raciocínio criacionista cada flatulência bovina é influência divina.

O leitor que assina «perspectiva» e a quem muitos chamam Jónatas Machado escreveu que:

«A fraca qualidade dos argumentos do Ludwig Krippahl parece ser cuidadosamente calculada para nos convencer de que o seu cérebro é destituído de inteligência, sendo os seus pensamentos um mero produto de reacções químicas aleatórias.»

As reacções químicas são aleatórias no sentido em que não as conseguimos prever em detalhe e no sentido em que são influenciadas por acontecimentos quânticos ao nível microscópico. Mas a um nível mais alto não são aleatórias. Se uma vesícula se funde com a membrana do neurónio podemos ter a certeza que as moléculas de neurotransmissor se vão espalhar e afectar outros neurónios. Cada molécula move-se aleatoriamente mas, em conjunto, o efeito é fiável e reprodutível. E os pensamentos são esta actividade dos neurónios, que assim causa novos padrões de actividade, novos pensamentos. As reacções químicas do meu cérebro são parte da minha inteligência e nem no primeiro sentido são aleatórias. São deliberadas.

Na evolução do nosso cérebro ocorreu algo semelhante. Muitas mutações aleatórias prejudiciais foram eliminadas por uma selecção que é pouco aleatória. As raras mutações que deram vantagens aos nossos antepassados foram favorecidas pela selecção. E a evolução recente do nosso cérebro foi guiada pela inteligência do próprio cérebro. Grande parte da pressão selectiva veio de dominar a linguagem, de gerir relações sociais, de criar ferramentas, de adquirir cultura e assim por diante. O nosso cérebro foi moldado por uma inteligência. Foi moldado pela inteligência dos nossos antepassados.

Os criacionistas dizem que a ciência é reducionista mas eles é que reduzem os problemas mais fascinantes a falácias infantis. Ou é tudo por acaso ou é desígnio misterioso e incompreensível. Preferem ter fé nisto em vez de perceber a fascinante conjunção de acaso, determinismo e inteligência que nos tornou no que somos. Preferem ser Homo suplicans em vez de sapiens, de joelhos no chão e mãos juntas, murmurando frases decoradas.

Eu prefiro aproveitar melhor o que a evolução me deu.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Miscelânea Criacionista: Design Incompetente.

A vaca come erva. A erva tem grande quantidade de celulose, um açúcar complexo que tem que ser partido em açucares mais simples para ser digerido. Infelizmente para a vaca, só microorganismos e poucos animais produzem celulase, a enzima que catalisa a decomposição da celulose. Por isso a vaca não se safa como nós, com um estômago para decompor os alimentos seguido de um intestino que absorve os nutrientes. A vaca precisa do rumen, do retículo e do omaso antes do estômago para facilitar a fermentação da erva por bactérias que produzem celulase. Só depois de um complexo bailado é que a comida, já fermentada, está pronta para a vaca a digerir.

Se um ser inteligente tivesse desenhado a vaca tinha com certeza acrescentado o gene para digerir a erva. Mas a evolução não é inteligente e teve que aproveitar as pequenas alterações que foram aumentando a capacidade de digerir erva. O caminho não foi inventar uma enzima. Foi a simbiose com bactérias que digerem a celulose, resultando eventualmente num labirinto de estômagos e tripas e culturas de microorganismos. E a vaca até teve sorte. Na vaca, a fermentação bacteriana é o primeiro passo do processo digestivo. O coelho teve mais azar.

O coelho mastiga a comida e engole-a para o estômago onde processa as gorduras e proteínas que são absorvidas no intestino. Mas a celulose, a maior parte da refeição, fica intacta porque o coelho também não produz celulases para a digerir. É só no intestino grosso, no ceco, que o coelho tem as bactérias que fermentam o alimento e digerem a celulose. O problema é que já não há intestino para absorver os nutrientes que as bactérias produziram e sai tudo pelo ânus. Resta ao coelho comer o que saiu para poder finalmente gozar a refeição (anterior). Não admira que o bicho esteja sempre a torcer o nariz.

A evolução é um processo cego que apenas aproveita as alterações que vão aparecendo. Com o crivo rigoroso da selecção natural pode gerar sistemas fabulosos, se as alterações certas surgirem na altura certa. O olho do polvo parece mesmo ter sido desenhado por um engenheiro inteligente. Por vezes gera coisas quase perfeitas, como o olho dos vertebrados. Também tem tudo no sítio certo excepto que a retina ficou ao contrário, com os nervos e vasos sanguíneos a bloquear a luz e um buraco para poderem sair do globo ocular.

Mas muitas vezes o resultado é claramente uma sequência de arranjos ad hoc que vão ficando porque funcionaram na altura e a evolução não planeia o futuro. É por isso que a vaca tem quatro estômagos e o coelho come bosta.

Viva Harvard.

A faculdade de artes e ciências da universidade de Harvard aprovou unanimemente um plano para disponibilizar online todas as publicações dos seus investigadores (1). É um passo importante para o acesso livre à investigação porque muitas universidades vão certamente imitar Harvard nisto.

Para algo protegido por direitos de cópia, os artigos científicos já têm um acesso muito livre. É comum aos editores permitir que o autor disponibilize uma versão electrónica do artigo na sua página pessoal, e é sempre possível pedir ao autor uma cópia do artigo. São muito raros os que recusam. Mesmo assim, muitos editores importantes impõem restrições à distribuição. São negócios com fins lucrativos e não servem inteiramente os interesses da comunidade científica.

É importante que sejam instituições como a universidade de Harvard a tomar esta posição porque nenhum editor vai recusar publicar a investigação de uma universidade destas, ou das outras que a seguirem. Colectivamente, a comunidade científica tem um poder de negociação muito maior que cada cientista por si.

Direitos de autor é bom. Eu quero ter o direito de ser reconhecido como autor do meu trabalho. Mas não quero que tenham o direito de restringir a distribuição do meu trabalho, por isso espero que a moda pegue.

Via Sivacracy.

1- Inside Higher Ed., 13-2-08, Harvard Opts In to ‘Opt Out’ Plan