quinta-feira, dezembro 13, 2007

E afinal o que é a abobrinha?...

A Abobrinha comenta aqui regularmente e tem um blog sempre bem ilustrado (1). Durante meses tive esta imagem de uma abóbora pequenina, redondinha, um pouco refilona mas inofensiva. Hoje fui ver à Wikipedia. Afinal uma abobrinha é isto:

Imagem:Courgette.jpg

Já explica muita coisa...

1- http://aboborapequenina.blogspot.com/

Afinal o que é fé?...

O exemplo que dei de fé suscitou protestos. O Manuel Rocha disse que o pai estrangular a filha porque ela não queria usar o véu não é um exemplo de fé « porque se reporta a um acto de pura demência. Da fé sincera tenho eu a ideia de procura de um conforto interior...»(1). Concordo que é um acto demente, mas discordo do pressuposto que a fé e a demência sejam mutuamente exclusivas.

Parece-me que o Manuel e a Abobrinha querem circunscrever a fé ao politicamente correcto. Penso que aceitarão como fé a esperança que Deus leve alguns para o paraíso. Mas provavelmente dirão que já não é fé se essa esperança incluir a condenação de todos os membros de certa etnia ou raça. Isso é racismo. É fé ensinar uma criança a amar Jesus e ir à missa aos domingos ouvir o senhor padre. Mas não é fé obrigar a filha a usar véu. Isso é abuso, ou demência. E assim por diante.

Mas estas distinções não têm a ver com o que a fé é. A fé é uma crença caracterizada por uma convicção firme e pelo seu valor para o crente. Pode ser a procura de um conforto interior, como diz o Manuel Rocha. Pode ser a única esperança perante a certeza da morte, como dizia Paulo nas suas epístolas. Pode ser a entrega inquestionável aos desígnios de Deus, como em Abraão e Jób. E pode ser ir de joelhos até Fátima, rebentar autocarros ou condenar pessoas à morte por blasfémia. Pode ser pura demência sem deixar de ser fé.

Normalmente subentende-se a fé como religiosa, mas pode não ser, e posso responder ao Manuel Rocha que sei o que é ter fé. Tenho a certeza que violar crianças é uma maldade e, além desta certeza, incomoda-me a possibilidade de mudar de opinião acerca disto. Acho que sem esta certeza eu seria uma pessoa pior do que sou agora. Por isso é uma fé. É uma convicção firme que eu não só tenho como me acho na obrigação de ter. Mas este tipo de fé dá valor a uma convicção acerca de valores e vez de factos. Condeno a violação de crianças porque condeno o desrespeito pelos seus valores. Se um tipo de 16 anos vai para a cama com a namorada de 18 não é violação. É sorte. Não condeno o acto pelo facto do sexo mas pelo valor deste para os envolvidos.

A fé religiosa muitas vezes dá valor a uma convicção acerca de factos. A ressurreição de Jesus, a inerrância da Bíblia, ou a exigência divina que o pai mate a sua filha que desrespeita o Corão. Esta é a maior diferença entre a fé boa e a fé má. A fé boa dá valor a convicções acerca de valores reconhecendo que os valores são subjectivos e cada um terá os seus. A fé má dá valor a convicções acerca de supostos factos que serão iguais para toda a gente. Isto dá asneira, mas é fé à mesma.

1-Ciência não é fé.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Bugger...

Foi diagnosticada ao Terry Pratchett uma forma rara de doença de Alzheimer. Aqui a notícia dada pelo próprio.

Via Pharyngula.

Ciência não é fé.

Em Novembro o físico Paul Davies publicou um artigo no New York Times onde reafirma que a ciência se baseia na fé (1). O Massimo Pigliucci explicou o erro (2). Faith pode querer dizer aceitar algo incondicionalmente, sem exigir evidências, ou ter confiança porque há evidências. Davies simplesmente confunde dois significados diferentes. Como em Português a fé é o oposto do ver para crer pensei que ninguém ia confundir as duas coisas. Enganei-me.

Ontem o António Parente chamou-me a atenção para o seu resumo deste artigo de Davies, onde o António escreveu que «a distinção entre fé e ciência acaba por não ser tão líquida porque a própria ciência tem o seu próprio sistema de crenças baseado na fé. Com efeito, Paul Davies diz que toda a ciência assenta na hipótese de que a natureza é ordenada numa maneira racional e inteligível» (3). É interessante a tradução do António, de assumption por hipótese, porque até está mais correcta que o original. É de facto uma hipótese, como qualquer outra, só válida conforme for testada com sucesso. E tem tido bastante sucesso. Mas ser hipótese demonstra que a base da ciência não é a fé.

A fé não considera hipóteses e evidências. A fé é certeza antes de qualquer evidência. É verdade que todos temos certezas, mas nem todos desta forma. Temos a certeza que o carro não anda sem gasolina ou que estamos doentes se temos febre, mas são certezas apenas no sentido de não perdermos tempo a considerar que podem ser falsas. A menos que as evidências o obriguem. Neste aspecto, a fé distingue-se pela confiança absoluta sem evidências e pela rejeição total de evidências contrárias. Nem a ciência nem o bom senso aceitam isto. Mesmo assim, podemos ver este aspecto da fé como o extremo de um continuo em que se exige cada vez menos evidências a favor e se rejeita cada vez mais evidências contra. Está muito longe, mas poderia chegar-se lá daqui. No entanto, há outro aspecto da fé que é radicalmente diferente. A esse só se chega com um salto de fé.

Enquanto as crenças científicas são descritivas, a fé é normativa. É um valor e tem valor para o crente. Além de dizer o que é bom e mau a fé diz que é mau não ter fé. Eu acredito na teoria da evolução porque acho que está correcta, mas não me apoquenta mudar de ideias, até porque esta teoria já mudou muitas vezes. Mas quem acredita na salvação por Jesus Cristo encara-a de forma diferente. Mudar de ideias acerca disso é terrível. É condenar-se ao inferno, perder a esperança. É perder a fé.

E isto afecta a relação com os outros. Eu acho que quem rejeita a teoria da evolução está enganado. Acho mal que engane os outros, mas não acho que estar enganado, por si só, seja pecado ou maldade ou mereça castigo. Mas isto é porque eu não tenho fé. Quem tem fé acha maldade rejeitá-la e que quem o fizer merece castigo. Eterno, se for preciso. Penso que é por isso que o ateu chama intolerância ao crente estrangular a filha porque ela não quer usar véu (4), enquanto a intolerância para o crente é não o deixarem estrangular a filha que não quer usar o véu...

1- Paul Davies, 24-11-07, Taking Science on Faith. Dica: usem o BugMeNot se não se quiserem registar.
2- Massimo Pigliucci, 2-12-07, The latest silly stuff from Paul Davies
3- António Parente, 11-12-07, A fé da ciência.
4- Toronto News, 12-12-07. Muslim father strangles daughter in Canada for refusing to wear a veil, via Diário Ateísta

terça-feira, dezembro 11, 2007

Treta da Semana: Paulo Cardoso na Praça da Alegria.

Ontem, na RTP1, o programa Praça da Alegria dedicou pelo menos meia hora ao Paulo Cardoso. A “entrevista” visou publicitar o seu livro de previsões astrológicas para 2008. Às nossas custas. Não me incomoda que façam publicidade a obras de ficção, mas ninguém compra as previsões para o ano se perceber que é ficção. Só compra quem for enganado, e é um mau serviço público enganar as pessoas.

A astrologia tem tanta treta que vou ter que me limitar a uma parte desta meia hora. Mais precisamente, a um minuto e vinte e oito segundos. É mesmo muita treta. O Paulo Cardoso (PC) mostrou uma carta astral e disse que com um estudo detalhado deste tipo «já podemos fazer com tranquilidade projecções, previsões. Além de descobrir como a pessoa é podemos descobrir que periodos mais ou menos positivos vai viver ao longo da existência». O Jorge Gabriel (JG) perguntou se os astrólogos concluíram isso por observação de exemplos no passado, ao que o PC respondeu que

«provavelmente [...] os primeiros astrólogos descobriram que quando Mercúrio [...] estava a passar num dado signo, as pessoas que nasciam naquele momento (Mercúrio é a comunicação, a inteligência, a capacidade de raciocinar [...]), uma pessoa mais racionalista ou menos racionalista depende essencialmente da sua posição de Mercúrio porque Mercúrio é o deus da inteligência, da comunicação e do raciocínio lógico...»

Desta forma confusa, PC diz que «provavelmente» os astrólogos antigos terão notado alguma correlação entre a inteligência e a posição de Mercúrio. Ou seja, não faz ideia se notaram ou não. E como não tem registo de tais estudos pelos Babilónios, Sumérios, Egipcios ou Gregos, se o fizeram ele também desconhece os resultados. O que é óbvio pela explicação que dá: «Mercúrio é a comunicação, a inteligência».

Isto não é literalmente verdade. Mercúrio é uma rocha, com a capacidade de comunicação e inteligência inerente a esses seres. Admito que pelos critérios astrológicos até pode não ser pouco, mas quando o PC diz que Mercúrio é estas coisas quer dizer apenas que havia religiões antigas que associavam Mercúrio à inteligência. Vamos imaginar então a explicação se o PC tivesse nascido sob uma conjunção planetária mais favorável à honestidade e clareza de discurso. O JG perguntava se tinham concluído isto por observação, e o PC esclarecia:

«Não. Inventaram, porque pensavam que os planetas eram deuses. Os Romanos, por exemplo, consideravam Mercúrio o deus do comércio e do lucro. Mas é chato dizer a alguém que vai ser um merceeiro ganancioso, por isso dizemos que Mercúrio governa o aspecto da racionalidade. O que é duplamente vantajoso. A quem tem um Mercúrio forte dizemos que é inteligente e racional, e a quem está mal de Mercúrio dizemos que é intuitivo e criativo. Fica tudo contente porque ninguém acha que se enganam a falar de si quando dizem coisas boas.»

Muita treta mais à frente, o PC avisa os Carneiros nascidos entre 21 e 23 de Março para terem especial cuidado com a influência nefasta de Plutão. Segundo PC, este é um dos cinco planetas mais importantes do sistema solar. É mais pequeno que a Lua, está tão longe que até nos melhores telescópios é uma pinta desfocada e já nem sequer é considerado um planeta. Mas PC explica que é importante porque «tem uma órbita abrangente». Ah. Pois...

Estes Carneiros estão tramados porque Plutão é o deus dos infernos. Este planeta só foi descoberto em 1930, pelo que é duvidoso que os antigos astrólogos tenham notado fosse o que fosse acerca dele. O mais o engraçado é que o nome foi sugerido por uma rapariga de 11 anos, Venetia Burney (1). As alternativas eram Minerva, rejeitado por ser já o nome de um asteróide, e Cronus, que foi rejeitado porque ninguém gostava do astrónomo que o propusera (2). Por causa disto a jovem Venetia recebeu cinco libras do seu avô e uma data de gente tem o deus dos infernos a governar a sua vida. Mas vejam o lado positivo. Ao menos não foi o deus das hemorróidas ou coisa assim.

1- Wikipedia, Venetia Phair
2- Wikipedia, Pluto

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Pensamento Crítico.

A convite do Desidério Murcho, escrevi este post para o De Rerum Natura.

domingo, dezembro 09, 2007

Mensagem às crianças

nesta quadra natalícia. Um dia, quando forem mais crescidos, vão vos contar a verdade acerca do Pai Natal. Nesse dia, lembrem-se do que vos disseram acerca de Jesus.

Via Pharyngula

John Stossel contra Kevin Trudeau.

Os posts sobre o Kevin Trudeau têm tido muitos comentários, e há muitas pessoas que vêm parar a este blog por pesquisas acerca do Kevin Trudeau. Não acrescenta muito ao que já mencionei em posts anteriores (1), mas penso que revela melhor a treta das curas do Kevin e pode interessar aos leitores que ainda estejam indecisos. É uma reportagem do jornalista John Stossel no programa 20/20 da ABC.



1- Kevin Trudeau: curas entre os bestsellers., Treta da Semana: Kevin Trudeau.

sábado, dezembro 08, 2007

A vida da célula e a treta criacionista.

Este vídeo foi criado pela XVIVO para o departamento de biologia celular e molecular da universidade de Harvard. Não gosto da forma como fizeram a polimerização. Dá a impressão que cada proteína vai deliberadamente para o sítio onde tem que ficar. Na realidade, as proteínas são empurradas ao acaso pela agitação térmica da água e os polímeros formam-se porque todas as “peças” que tocam no sítio certo ficam lá presas. O que regula o crescimento ou destruição do polímero é o equilíbrio entre a probabilidade de uma proteína colidir no sitio certo e o tempo que lá permanece. Mas de resto acho que está muito bom. Dá uma boa ideia da complexidade orgânica de uma célula.



Os criacionistas pegaram nisto e retiraram qualquer referência a quem criou o vídeo. Se calhar o desígnio inteligente inclui o plágio. Pior que isso, deturparam completamente a mensagem. O vídeo original mostra uma célula viva, orgânica, «natural» no sentido aristotélico de uma coisa que tem em si o princípio da sua origem. Os peixes nascem de peixes, as aranhas nascem de aranhas, mas máquinas e cidades têm que ser feitas por outros seres. Por criadores.

A adaptação muda o título para «A Célula como uma Cidade Automática», com «fábricas de robôs», sistemas de transporte com «código postal» e outros termos que dão uma ideia completamente errada do que é uma célula. A célula não é fabricada. Nasce de outras células.



O criacionismo é desonesto na sua actuação. Roubam, mentem e ameaçam sem escrúpulos. Chris Comer, há nove anos directora do currículo científico no departamento de educação do Texas, foi agora forçada a demitir-se por enviar um email a anunciar uma palestra da Barbara Forrest. Esta conhecida filósofa da ciência é uma opositora do criacionismo e parece que a directora do currículo científico tem que ser «neutra» em relação ao criacionismo e não pode anunciar palestras relacionadas com ciência (1).

É desonesto na ciência. O criacionismo distorce factos e substitui explicações por superstição. E é desonesto como teologia, uma façanha impressionante. Nem os criacionistas propõem que o seu deus cria manualmente cada célula de cada organismo. É óbvio que a natureza é capaz de gerar organismos sem ajuda de um Criador. Mas os criacionistas não permitem que um deus omnipotente tenha criado uma natureza capaz de evolução.

Isto revela o que o criacionismo realmente é. Política. Não é fé nem ciência nem teologia. É simplesmente um meio de uns conseguirem poder sobre outros.

1- State science curriculum director resigns

Votação para quem subscreve o blog.

Como há cerca de 90 subscritores por RSS decidi fazer uma votação (inspirado na sondagem da Abobrinha). Pedia aos interessados que se pronunciassem se preferem que publique os posts completos ou só o primeiro parágrafo com o link para a página do post.

Quem lê os posts aqui não ligue que isto não vai fazer diferença aos posts nestas páginas.

Kevin Trudeau: curas entre os bestsellers.

O livro «Curas Naturais Que Eles Não Querem Que Você Saiba» tem estado no topo da lista de mais vendidos do New York Times, apesar do grande número de compradores insatisfeitos. O segredo está nos cerca de dois milhões de dólares que Trudeau gasta por semana em publicidade. O seu infomercial é o programa desta categoria que mais vezes passa na televisão.

Trudeau tem muita experiência em vender treta. Vendeu o «Sable Hair Farming System», uma combinação de ervas que limpa por baixo do escalpe removendo os detritos que impedem o cabelo de crescer (1). O «Mega Memory System», criado pelo próprio, e que alegadamente melhorou de 15% para 90% a capacidade de memória de deficientes mentais (2). O «Eden's Secret Nature's Purifying Product» que purifica o corpo de toxinas curando, entre outras coisas, o síndroma pré menstrual, e várias outras tretas do género (2). Finalmente, por vender cálcio de coral como cura para o cancro, foi proibido de anunciar mais produtos ou serviços nos EUA (3). Por isso veio vender a banha da cobra para países como o nosso (4). E livros. Protegido pela liberdade de expressão pode dizer a treta que quiser.

E aqui vê-se o verdadeiro génio de Kevin Trudeau. Em mais de uma década de problemas com a lei pagou um total de dois milhões e meio de dólares em multas e indemnizações. Que é o que ele gasta por semana em publicidade. Podem multá-lo à vontade. E não se limita a vender um livro da treta com um infomercial da treta. Isso é de amadores. O livro serve para vender o seu site da treta (5), onde podem consultar as curas da treta (o livro nem dessas tem) por $9.95 ao mês.

Aproveitando o sucesso começa a publicar outros com mais curas naturais, curas para emagrecer e a reeditar a treta que vendia antes, agora em forma de livro para não o chatearem. Reno Rollé, o editor, diz que isto vai revolucionar a indústria de publicação. Espero bem que não.

Mais detalhes neste artigo no Salon:

What Kevin Trudeau doesn't want you to know.

(Se forem rápidos com o botão podem parar a transferência assim que a página carrega e antes de serem reenviados para a publicidade.)


1- FTC, FTC v Jacqueline Sable
2- FTC, Infomercial Marketers Settle FTC Charges
3- FTC, Kevin Trudeau Banned from Infomercials
4- Gigashopping TV, Coral Calcium
5- http://www.naturalcures.com/>Natural Cures.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Treta da Semana: Energias.

Energia é um conceito físico rigoroso e muito útil. Adaptando uma explicação de Feynman, imaginem uma caixa com peças para construir brinquedos. Se não se acrescenta ou retira nenhuma, o número total de peças é uma característica constante qualquer que seja o brinquedo na caixa, seja barco, avião ou comboio. A energia é um conceito análogo. É mais complexa, mas é uma quantidade característica de um sistema isolado e é independente do estado do sistema. Ter isto em mente ajuda a ver vários disparates.

Dizer que há uma lei que obriga a energia a manter-se constante é absurdo e injusto. É absurdo porque é como dizer que há uma lei que obriga a velocidade a aumentar quando se anda mais depressa. Não é obrigação; é parte da definição. Um requisito da energia é que meça algo que é constante num sistema isolado. E é injusto porque menospreza o grande trabalho de encontrar uma formalização para a energia de um sistema. Que nem se consegue para todos os sistemas. O universo como um todo, por exemplo, não tem uma energia total. Não é que viole a lei. Simplesmente não se encontrou um formalismo para definir este conceito.

Outro problema é julgar que a energia é um fluído que escorre e circula. Em tempos pensou-se que o calor era assim, mas já sabemos que é um modelo errado. E ninguém pensa que a velocidade de uma bola de bilhar escorre para a outra quando colidem. Pois a variação de energia cinética, neste caso, deve-se à variação na velocidade. Uma bola trava, a outra acelera, e a energia em cada bola varia conforme a velocidade. Fala-se de uma “transferência” de energia só no sentido que a variação de energia de uma bola tem a mesma magnitude que a da outra. O valor conserva-se como se passasse de uma para a outra. Mas é apenas uma medida que se mantém constante, não é uma substância que se transfere.

Finalmente, o disparate das energias, no plural. A energia espiritual, positiva, negativa, sexual, do amor e assim por diante. Quando os físicos falam de energia cinética, potencial, química ou outras unificam vários aspectos do sistema numa única medida. É tudo somado em joule. É tudo contabilizado como energia, no singular. Dividir a energia em inúmeros sabores e espécies é o contrário do que a ciência faz. O que não é problema quando se usa o termo «energia» como metáfora. Ir de férias para ganhar energias, ou ter uma personalidade energética. Mas é problema quando o usam para pincelar uma aparência científica numa superstição qualquer. A “energia vital”, a “energia espiritual” e tretas afins são o oposto da energia. São vagas, são impossíveis de quantificar e são coisas diferentes entre si. A energia é uma quantidade bem definida.

Se algo flui pelo corpo e fica bloqueado por uma doença então não é energia. A energia nem flui nem entope. É o sangue numa trombose ou ranho no nariz do engripado. Talvez espetar agulhas no nariz traga tantas lágrimas aos olhos que acabe por desbloqueá-lo, mas eu prefiro a medicina ocidental. Dou-me melhor com umas gotinhas de soro fisiológico e um lenço.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Concurso de beleza.

Vejam aqui. Eu gosto especialmente da Pale Blue Orb. Não é muito bonita, mas uma fotografia da Terra a mil e quinhentos milhões de quilómetros é impressionante. Pela cara bonita dava o meu voto a Enceladus, mas se for daqueles concursos com perguntas para ver a personalidade é este que ganha.

Enquanto uns andam a apregoar misticismos com três mil anos, a «ciênciazinha»(1) dos testes controlados manda (mais) uma sonda a Saturno. Qual qi, qual carapuça.

1- Comentário do Mário da Silva em Mais uma picadela.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A solha e a raia.

O Luís Azevedo Rodrigues escreveu no Ciência ao Natural um post interessante sobre os Pleuronectiformes, a ordem de peixes a que pertence a solha, o linguado e alguns políticos (1). Durante o seu desenvolvimento estes seres sofrem uma rotação, uns à esquerda e outros à direita. O filme abaixo, tirado do artigo do Luís, mostra o que acontece ao crânio dos desgraçados.



Estes peixes vivem no fundo, escondidos na areia. Como são achatados na direcção errada têm que se deitar de lado. A evolução, incapaz de planear isto de origem, limitou-se a favorecer aquelas mutações que tornavam esta posição menos incómoda. Quanto mais torcido o crânio menos o peixe teria que se inclinar para espreitar com o outro olho.

Em contraste, os Rajiformes como as raias e os ratões são peixes mais afortunados. Parentes próximos dos tubarões, o seu desenvolvimento diferente permitiu acumular as mutações necessárias a viver no fundo sem torcer a cara toda.

Ocorreu-me que seria interessante ver a explicação criacionista para isto. Que raio de inteligência terá criado a solha?

1- Luís Azevedo Rodrigues, 29-11-07, Rodar à Esquerda.

terça-feira, dezembro 04, 2007

E onde é que pára?

A discussão acerca da acupunctura está a ficar algo cómica. Ou trágica. Acupunctura para cães, acupunctura que se «pode fazer em bebés, não com agulhas, mas com sementes aplicadas nas orelhas» e mestres de quigong que «demonstraram a capacidade para transmitir calor através das palmas das suas mãos acima dos valores considerados possível pela "ciência ocidental"»(1). E no meio disto muita tacada na ciência, que agora até vem com aspas e é ocidental. Se calhar no Oriente o carbono não faz polímeros, a física é menos quântica e a relatividade só funciona às segundas, quartas e sextas, por isso precisam de uma ciência diferente da nossa.

A ciência é imperfeita, não explica tudo, falha muitas vezes e, por isso, temos que desconfiar sempre do que nos diz. Mas é a única forma de saber onde acaba a realidade e começa o disparate. Estes comentários, e a imensidão de crendices, curandices e aldrabices que há por todo o lado, demonstram o que acontece a quem se fia em alternativas. Nunca mais pára. Se não confrontamos as nossas hipóteses com a realidade acabamos a enfiar sementes nas orelhas.

1- Comentários de um anónimo e do Joaquim Amado Lopes, ao post Treta da Semana: Acupunctura.

Talvez funcione em alguns casos...

A propósito deste argumento, recomendo este chapéu aos que consideram a verificação controlada um fundamentalismo de cientista. Segundo vários testemunhos, funciona mesmo:

«A woman with many abduction experiences was selected by Scott Voight of Kentucky MUFON. She was interviewed by an established investigator several times and MUFON investigators as well. She said that before she was abducted, the aliens announced her presence by actually saying, "we are here." She reported that prototype #2 worked. In May of 2000 the woman had dental surgery. Her swollen jaw prevented her from wearing the helmet so she put it in a box in a closet. She reported that the aliens took the helmet along with correspondence from me.»(1)

Como se vê, a investigação foi cuidadosa, incidindo sobre pessoas que tinham sido raptadas várias vezes. Pode ter efeitos secundários, «This abductee died in January, 2001 when her house burned down.», por isso usem com cuidado, mas não sejam demasiado cépticos. Não neguem à partida uma ciência que desconhecem...

(Via JREF)

1- Stop Alien Abductions, Case Histories

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Está patente...

O leitor que assina «Zarolho»(1) chamou-me a atenção para o post «The virus sharing puzzle» no blog Effect Measure (2).A Indonésia tem o maior número de infecções humanas pelo vírus H5N1, o da gripe das aves, mas recusa-se a ceder amostras deste vírus à Organização Mundial de Saúde (OMS). A razão é que a lei de patentes cobre a propriedade intelectual de vacinas criadas a partir de estirpes cedidas pela OMS. Se uma empresa farmacêutica cria uma vacina contra este vírus muito poucos na Indonésia vão poder comprá-la.

Os países asiáticos são a fonte principal de gripes, não só desta mas também das viroses sazonais que percorrem o mundo todos os anos. Milhões de camponeses a criar porcos, patos e outra bicharada em conjunto criam as condições ideias para evoluir vírus que infectam várias espécies. A recusa da Indonésia em partilhar amostras de vírus põe em risco não só o desenvolvimento de uma vacina para a gripe das aves mas também das vacinas anuais contra a gripe comum. Mas, no fundo, estão a fazer o mesmo que as empresas farmacêuticas que exigem estas leis proteccionistas. Se não recebem nada em troca não deixam que se use o que eles têm.

É mais um exemplo do que está mal com esta coisa da propriedade intelectual. Temos que abandonar a ideia que as ideias têm dono e considerar estas leis como incentivos a aplicar somente onde vale a pena. Se querem mais um exemplo, fica aqui uma patente que, felizmente para alguns, já caducou:

«Method of concealing partial baldness
A method of styling hair to cover partial baldness using only the hair on a person's head. The hair styling requires dividing a person's hair into three sections and carefully folding one section over another.
(3)
Via Sivacracy

1- Olho e Meio
2- 20-11-07, The virus sharing puzzle
3- Method of concealing partial baldness

domingo, dezembro 02, 2007

Mais uma picadela.

Os comentários ao último post (1) levam-me a esclarecer melhor o que acho treta na acupunctura. Há indícios de algumas aplicações promissoras, como reduzir o desconforto pós operatório. Não me oponho a que dêem ao paciente a possibilidade de escolher a acupunctura para aliviar dores e náuseas depois de uma intervenção cirúrgica. Desde que avisem que é um procedimento experimental. Mas isto não tem nada a ver com a acupunctura que se vende por aí. A APAMTC até critica quem considera a acupunctura «uma utilização rudimentar empírica de punctura que provocaria endorfinas que levaria ao alívio da dor.»(2)

A acupunctura que vendem nos consultórios tem diagnóstico energético, trata tudo e mais alguma coisa, vem com ervinhas queimadas por cima dos pontos mágicos e uma boa dose de tretologia oriental. Tudo isso sem qualquer validação. Muitos, como o Joaquim Amado Lopes, alegam que a acupunctura funciona «Nem que seja apenas em alguns casos». Felizmente não dão o mesmo benefício às empresas farmacêuticas. Com estas coisas temos que ser mais exigentes.

Há regras rigorosas para testar medicamentos e terapias. Os ensaios clínicos têm que ser registados antecipadamente para evitar que se façam vinte ensaios sem resultados favoráveis e depois se publique o vigésimo primeiro que, por acaso, pareceu indicar qualquer coisa. Têm que ser bem concebidos e executados e os procedimento detalhados e abertos à crítica. E a eficácia e segurança da terapia têm que ficar demonstradas por evidências sólidas. Uns estudos indicarem uma coisa e outros outra não serve.

Mas as agulhas de acupunctura foram aprovadas pela FDA como «medical devices». O fabricante tem apenas que garantir a esterilidade, qualidade do material e que o rótulo está de acordo com as exigências legais. Não diz nada acerca da sua eficácia terapêutica nem há grande motivação para fazer testes clínicos controlados porque não é preciso. É só espetar e passar factura.

E essa é a questão importante. Não estou a pôr em causa se a estimulação eléctrica de um ponto no pulso alivia as dores após uma operação ou algo do género. Não acho os resultados convincentes mas também não me surpreendia se funcionasse. Aguardo evidências menos ambíguas. O que oponho é que vendam este pacote de terapias, do “diagnóstico energético” ao desbloqueio do Chi, sem que tenham ou que lhes exijam uma validação adequada dos pontos, meridianos, fluxos de energia, eficácia e segurança de espetar agulhas. Os acupunctures estão a ganhar o seu como qualquer accionista de uma empresa farmacêutica, e deve-se exigir-lhes exactamente o mesmo.

1- Treta da Semana: Acupunctura.
2- APAMTC, Um pouco de história.

sábado, dezembro 01, 2007

Treta da Semana: Acupunctura.

Espetar agulhas pode ter algum efeito e talvez haja uma maleita que se cure com isto. Mas ainda não se descobriu tal maleita. Se não tivesse ocorrido aos chineses espetar agulhas em ponto “especiais” (um para cada dia do ano) ninguém usava isto. Ninguém confiava na empresa farmacêutica que vendesse este tratamento alegando que «para além do corpo visível, dos órgãos e dos vários sistemas, existem canais subtis por onde circula a energia (o Chi) e que as perturbações na forma como o Chi circula são a causa primeira dos principais desequilíbrios a que chamamos doença.»(1). A popularidade da acupunctura deve-se ao fascínio prla superstição associada.

E esta associação é evidente entre os proponentes da acupunctura. A Associação Profissional de Acupunctura e Medicina Tradicional Chinesa (APAMTC) diz que «A Medicina Moderna Ocidental não consegue explicar como funciona a Acupunctura. A Acupunctura Tradicional baseia-se nas antigas teorias Chinesas acerca do fluxo de Qi (Energia) e Xue (Sangue), através de meridianos ou canais específicos que cobrem o corpo de forma semelhante aos nervos, veias e artérias.» (2). A Associação Portuguesa de Acupunctura e Disciplinas Associadas (APA-DA) explica que « Os pontos de Acupunctura são locais de poucos milímetros quadrados, ao longo dos meridianos, que através de determinada técnica de punctura podem influenciar o fluxo de energia no organismo, de acordo com o efeito terapêutico pretendido, resultado do diagnóstico energético.»(3).

E isto é uma grande treta. Hoje em dia sabemos mais acerca do funcionamento do corpo, sobre o que causa doenças e sobre a concepção e teste de terapias. E não há qualquer razão para julgar que «as perturbações patológicas são energéticas»(4). Alguns concordam em rejeitar o misticismo mas defendem que, mesmo assim, a acupunctura talvez funcione. “Talvez” não chega. Não se vai espetar agulhas num doente só porque “talvez” lhe cure a úlcera (5), e não há até agora demonstração da acupunctura como tratamento seguro e eficaz seja para o que for. Há indícios, suspeitas, resultados promissores ou afins, mas quando testados de forma controlada – da mesma forma que exigimos que se teste qualquer comprimido ou cirurgia – o efeito desaparece. Os defensores dizem que é por ser uma filosofia diferente, mas se é tratamento tem que tratar e passar nos mesmos testes por que passam os outros.

Um exemplo são estudos usando agulhas especiais que dão a ilusão de penetrar a pele (6). Em 2004, um teste à acupunctura como tratamento de náusea pós-operatória, uma das aplicações mais promissoras da acupunctura, revelou que não havia diferença entre o grupo que tinha recebido o tratamento real e o que recebera o tratamento com as agulhas falsas pela medida de eficácia preestabelecida, que combinava a incidência dos sintomas e o recurso a medicação para a náusea (7). Houve uma diferença significativa quando consideraram apenas os vómitos (p=0.03), mas para determinar com fiabilidade este efeito seria necessário outro estudo, pois o número de factores que se pode considerar a posteriori garante que se encontre diferenças significativas mesmo sem qualquer efeito.

No entanto, os defensores da acupunctura consideram-no um resultado a seu favor. Não são muito exigentes naquilo que consideram validar a banha da cobra que vendem. No site da APAMTC podemos ler que

«A Organização Mundial de Saúde estabeleceu que a Acupunctura é adequada para tratar as seguintes perturbações:
Ouvidos, Nariz a Garganta
Dores de dentes, dores pós extracções dentárias, dores de ouvidos, inflamações nos seios perinasais, inflamação ou secura nasal [...]»


Isto fundamenta-se num documento publicado pela OMS por ocasião de um seminário organizado em Pequim, em 1979, por praticantes de medicinas tradicionais. Deste encontro saiu uma lista provisória «based on clinical experience, and not necessarily on controlled clinical research: furthermore, the inclusion of specific diseases are not meant to indicate the extent of acupuncture's efficacy in treating them.»(8) Mas para vender, chega-lhes bem...

Para mais informação, incluindo alguns dos perigos de espetar agulhas pelo corpo, vejam este artigo do Stephen Barrett na QuackWatch:«Be Wary of Acupuncture, Qigong, and "Chinese Medicine"».

1- Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa Acupunctura e Moxabustão
2- APAMTC, Acupunctura

3- APA-DA, Acupunctura
4- APA-DA, Mecanismos de Acção da MTC
5- How to Use Acupuncture to Treat an Ulcer
6- Streitberger K, Kleinhenz J., Introducing a placebo needle into acupuncture research., Lancet. 1998 Sep 19;352(9132):992.
7- Streitberger K, Diefenbacher M, Bauer A, Conradi R, Bardenheuer H, Martin E, Schneider A, Unnebrink K.,Acupuncture compared to placebo-acupuncture for postoperative nausea and vomiting prophylaxis: a randomised placebo-controlled patient and observer blind trial.Anaesthesia. 2004 Jul;59(7):730; author reply 730-1.
8-The World Health Organization Viewpoint on Acupuncture

The Spanish Inquisition

O António Parente inspirou muitos posts neste blog, e é com prazer que lhe dou as boas vindas de volta à Internet com o seu novo blog Razão Crítica (1), desta vez com um formato radical e inovador (permite comentários). Num post recente o António escreveu:

«Uma [Uma...] das caractertísticas mais marcantes do ateísmo português é o seu fanatismo agressivo e a sua indigência cultural. [Duas!...] Sem pensamento próprio [Três! Três características...] , limita-se a copiar, de uma forma totalmente incompetente, o modo anglo-saxónico de atacar a religião [Quatro!...]. Cria-se, desse modo, uma dissonância entre aquilo em que um crente português se revê e o que um ateu gostaria de ver.»(2)

Eu diria que a dissonância vem logo de um ser crente e outro ateu. Mas isso será tema para posts futuros; estou certo que o António continuará a contribuir para o debate. Neste queria deixar apenas as boas vindas e esta pequena homenagem.




1- Razão Crítica.
2- António Parente, 30-11-07, Ateísmo português: fanatismo agressivo?