Evolução: a melhor explicação.
A teoria da evolução é a melhor explicação para a origem e diversidade das espécies, não só de seres vivos mas até de outros, como os vírus. No entanto, para apreciar em detalhe o papel desta teoria no conhecimento moderno é preciso saber um pouco de física nuclear, geologia, paleontologia, biologia molecular, genética de populações e taxonomia, entre outras. As evidências a favor desta teoria abrangem tanto da ciência que não se consegue dar uma ideia correcta do seu fundamento durante a sobremesa ou o café. Por isso, a melhor maneira de justificar a teoria da evolução de forma sucinta e sem detalhe científico é ainda o argumento original de Darwin, formulado antes de se conhecer muito daquilo que demonstraria a importância desta teoria.
O primeiro ponto é perceber que o termo “evolução”, neste contexto, é o processo pelo qual as características de uma população variam ao longo das gerações, conforme os indivíduos vão sendo substituídos pelos seus descendentes. É importante evitar a ideia do lagarto a transformar-se em mamífero como a lagarta se torna borboleta. A evolução não ocorre no indivíduo; ocorre sempre em populações. Pensemos então numa população de indivíduos que se reproduzem e que transmitem algumas características aos seus descendentes. O crescimento dessa população seria exponencial se não houvesse restrições, mas, estando limitado por recursos finitos, nem todos os indivíduos se conseguem reproduzir e passar as suas características à geração seguinte. Além destas premissas, vamos também assumir que nunca acontece todos os elementos da população serem exactamente iguais nas suas características herdadas. Ou seja, que existe sempre alguma diversidade, surgindo da combinação aleatória de características e por mutações também aleatórias.
Nestas condições, é inevitável que a população vá evoluindo. Os factores aleatórios que renovam a diversidade podem favorecer, por mero acaso, uma ou outra característica, gerar características novas ou mesmo fazer desaparecer alguma característica da população. E todas as características que afectem o sucesso reprodutivo sofrem pressões selectivas que as favorecem ou eliminam conforme ajudem ou prejudiquem a reprodução daqueles que as transmitem. Deriva genética, evolução neutra e selecção natural são consequências inevitáveis das premissas que assumimos: reprodução, hereditariedade, competição e diversidade*.
Até aqui o argumento é meramente tautológico. Se uma população de organismos que se reproduzem mantiver sempre alguma diversidade nas características herdadas, essa população vai evoluir de acordo com a teoria da evolução. O passo seguinte é averiguar se, na realidade, há populações que cumpram estes requisitos, às quais se possa aplicar esta teoria. A ciência precisa sempre destes dois componentes: do modelo temos de poder inferir consequências, e com os dados temos de poder determinar se o modelo se aplica.
É fácil ver que a teoria da evolução se aplica às populações de seres vivos. Pelo menos. Nestas populações, os organismos reproduzem-se, herdam características dos seus antepassados e competem pelo sucesso reprodutivo. E estas populações mantêm sempre alguma diversidade genética**. Populações nestas condições evoluem como a teoria da evolução descreve porque não têm outro remédio, a menos que algo altere estas condições. Os criacionistas defendem que as populações só podem evoluir dentro do seu “tipo”. Por exemplo, que uma população de mamíferos não pode descender de uma população de répteis. No entanto, a nossa classificação de organismos em mamíferos e répteis não tem qualquer impacto nas condições que permitem a evolução. As populações de cinodontes, há 250 milhões de anos, não esbarraram nalguma barreira genética que as impedisse de ter cada vez mais características de mamíferos só para fazer o jeitinho à taxonomia.
Outra objecção comum é que a teoria da evolução não explica como surgiram organismos tão complexos. Um aspecto a ter em conta é que os seres vivos mais simples, como as bactérias, batem de longe os mais complexos, em número, diversidade e biomassa. E é um erro julgar que a diversidade gerada por processos aleatórios apenas permite que características se tornem mais simples. Isto até é logicamente inconsistente. O resultado de uma mutação ou recombinação aleatória tanto pode dar algo mais simples, de acordo com alguma medida de complexidade, como pode resultar em algo mais complexo. As populações podem evoluir em qualquer um destes sentidos, e a razão principal para o domínio das bactérias parece ser apenas que essa forma de vida é muito eficiente.
Em suma, o argumento mais simples a favor da teoria da evolução é de que qualquer população com as características dos seres vivos – reprodução, competição por recursos finitos e herança de características com modificações aleatórias – forçosamente evolui como esta teoria descreve. Pode-se deduzir a evolução como consequência lógica dessas condições. É quem alega barreiras ou excepções que tem de demonstrar que algo impede a evolução quando estão preenchidas as condições para que a população evolua.
* Darwin não considerou estes problemas nestes termos; isto é uma reformulação mais moderna do argumento original, que focava principalmente a evolução por selecção natural. Mas aqui estou a falar da teoria da evolução como a temos hoje, e não do tal “darwinismo” que os criacionistas gostam de atacar.
** A longo prazo. Se cai uma bactéria no meio de cultura e começa a formar uma colónia, nos primeiros tempos essa população é muito homogénea. Mas, eventualmente, começa a surgir diversidade pela acumulação de mutações.
