domingo, maio 13, 2007

Treta da semana: Nossa Senhora de Fátima.

O cérebro serve para o animal se orientar e prosperar no seu ambiente. Nisto não somos excepção, mas o nosso ambiente é peculiar. O nosso cérebro serve-nos para prosperar em sociedades complexas, e é uma máquina de processar intenções, parentescos, favores, amizades, inimizades, direitos, obrigações...

Com cem mil milhões de neurónios dedicados a identificar quem e para quê não é de admirar que esta espécie seja tão religiosa. Tudo julgamos ser obra de Alguém. E, é claro, o Grande Chefe tem que ter mulher, filhos, ajudantes e subordinados. Religião é projectar no universo a estrutura social que construímos aqui à nossa escala microscópica. E o nosso cérebro especializou-se nestas hierarquias, o que explica porque o monoteísmo é tão pouco popular na prática apesar de ser mais elegante em teoria.

Zeus é o chefe dos deuses, mas aqui adora-se Atena e ali Apolo. Não é bom incomodar o chefe; há que respeitar a hierarquia. Mesmo religiões nominalmente monoteístas têm um panteão de anjos, profetas, santos e familiares do tal deus único. Os Católicos têm um exército de mais de dez mil santos e beatos para encaminhar devidamente as preces dos fiéis. Deus pode estar em todo o lado, mas isso é longe. Preferimos pedir ao Seu colega ou amigo aqui da nossa zona que interceda por nós.

Mas nas Nossas Senhoras os Católicos exageram. Maria já tem um papel confuso no panteão cristão, uma amálgama de Hera e Ártemis. Casada com um homem, mãe e concubina de Deus, é também noiva virgem e tudo isto sem qualquer pecado. Mas o pior foi clonarem uma multidão de Nossas Senhoras (e nenhuma delas parece uma palestiniana de origem humilde).

Há Nossas Senhoras em Guadalupe, Lurdes, Fátima, Manila, Cuapa e Limantova, e muitos outros sítios. São gente, pessoas com quem se pode conversar. Hoje, a 13 de Maio, não se vai em procissão a Torres Vedras ou a Alcabideche. Esta Nossa Senhora é a de Fátima, e é lá que os fiéis vão. Vão falar com ela, oferecer-lhe velas e pernas de cera, e até andar de joelhos para a impressionar. Se fosse um ser imaterial presente em todo o mundo isto não fazia sentido.

Os teólogos dissertam acerca da omnipotência e omnisciência de Deus, infinito e único, presente em todo o lado. Mas este acaba por ser insensível aos nossos caprichos ou infortúnios. É o Deus racional e lógico de Einstein e Espinoza, perfeito e impessoal. Não se rala connosco, não vale a pena fazer-lhe promessas ou pedidos, e certamente não há nada que lhe possamos oferecer em troca dos favores que lhe pedimos.

Por isso não é treta ir a Fátima a pé ou queimar velinhas. É treta a crença numa deusa que aprecie estas coisas ou, pelo menos, é de mau gosto. Mas dado que se acredita é razoável e humano tentar negociar contrapartidas. Ajudas o meu filho e eu ando cinquenta quilómetros a pé, ou coisa do género. Se Maria tem esses poderes e se é em Fátima que os manifesta, vale a pena tentar. Deus é demasiado vago e distante para estas coisas.

Hoje celebra-se um exemplo da maior treta na religião. Não a crença. Por muito supersticiosa que seja, é a tendência natural de tratar o universo como pessoa. As pessoas relacionam-se com o universo como se relacionam entre si. Pedindo, oferecendo, bajulando, sacrificando-se, ajudando, trocando favores e amizades. É o que fazemos melhor. Quem não disse já uns palavrões ao computador ou nunca pediu desculpa ao cão se o pisou? A verdadeira religião, a religião dos crentes, é ligar-se dessa forma a tudo o que os rodeia.

A grande treta é a usurpação teológica da crença. O Infinito, a Verdade, o Transcendente. Os Três Segredos, tão importantes que a mãe de Deus vem à Terra revelá-los, tão assombrosos que só a liderança da Igreja os podia conhecer, mas revelados do alto de uma azinheira a uma miúda pastora (os outros dois não ouviram nada). E à revelia do Espirito Santo, que supostamente tem ligação directa ao Papa mas não lhe quis revelar nada disto.

É triste que milhões de pessoas levem tanto a sério as fantasias de uma criança. Mas o relato que bispos e papas teceram à volta deste acidente sociológicoo é que é uma Treta de se lhe tirar o chapéu.

23 comentários:

  1. Apesar de ser uma pessoa religiosa concordo com quase tudo o que é dito, principalmente A Grande Treta, a religião não é o problema, nunca foi, o problema é o que fazem dela. As aparições de Fátima podem ter sido algo que nunca foram ou até mesmo aquilo que dizem ter sido, a opinião que um individio tem sobre o tema deve ser o produto dos seus pensamentos e divações sobre o assunto e não uma reprodução cega e do que outros dizem.

    ResponderEliminar
  2. Deus pode estar em todo o lado, mas isso é longe.


    No, no! He is quite, quite, quite near... He is here!!! :)

    Ó mui e mui sábio, de que forma se pode dizer algo tão simples?! Ou ainda, e ficando até só nos limites da escritura que mais conhecemos no Ocidente, que significado tem essa história do barro em que Deus infundiu vida - o alento soprado nas narinas - criando assim o Ser Humano à sua imagem e semelhança?

    É uma metáfora muito bela mesmo e muito simples. Tantas e tantas almas descreveram essa experiência indizível do Deus dentro, em todas as tradições, culturas e épocas distintas. Testemunhos belíssimos e comoventes, mas só quem também experimentou esse indizível o pode deveras compreender.

    Porque nem tudo é racional ou se pode dizer, e para o exprimir como fazer?!

    Há, sim, um sacrário interior e um fogo abrasador. Ná... nada de fisiologia ou glândulas endócrinas ou talvez, que importa?! Como disse noutro comentário algures, onde é que se manifesta essa sensação tão intensa de bem-estar e alegria e satisfação que por vezes experimentamos?!

    So... He is very, very near indeed. Mais próximo ainda do que a respiração, é Ele quem inspira e expira. Mais próximo ainda que o bater do coração, é Ele a sístole e a diástole. Mais próximo ainda que o mais subtil pensamento, é Ele o movimento da própria consciência.

    But... everything has to cease so He can be felt in the uttermost quietness of the Soul, for only in that deep, deep silence His unspoken voice can be heard and His wondrous Beauty seen... within!!! :)

    Ná! E não são só os Gnomitos doidos que o sabem, não! Outros mais sábios a quem não fenece a razão o dizem e proclamam, pois então!!!

    Do not go to the garden of flowers!
    O Friend! go not there;
    In your body is the garden of flowers.
    Take your seat on the thousand petals of the lotus, and there gaze on the Infinite Beauty.


    "One Hundred Poems of Kabir" (Tradução de Rabindranath Tagore)


    Ludwig, Ludwig... this is true!...

    Rui leprechaun

    (...Love/God dwells in YOU!!! :))

    ResponderEliminar
  3. Olha o sábio Vasco também já chegou...

    ...e o mano Krippahl elogiou!!! :)

    Eu também, claro, me rendo e louvo um tão ilustre cérebro preclaro... ;)

    Olha se eu fosse tão inteligente assim... então é que as miúdas gostavam de mim!!! :D

    Ainda Kabir, em algo mais científico, se bem penetrarmos no mais íntimo e oculto significado das suas belíssimas palavras. Já agora, onde ele diz "Brahman" Lao-Tzu dizia "Tao", a mesma coisa afinal. A ciência não tem nenhum nome para o Imanifesto, para já ainda não chega aí... mas é bom ter esta humana forma e estar aqui!!! :)

    When He Himself reveals Himself, Brahman brings into manifestation That which can never be seen.
    As the seed is in the plant, as the shade is in the tree, as the void is in the sky, as infinite forms are in the void -
    So from beyond the Infinite, the Infinite comes; and from the Infinite the finite extends.

    The creature is in Brahman, and Brahman is in the creature: they are ever distinct, yet ever united.
    He Himself is the tree, the seed, and the germ.
    He Himself is the flower, the fruit, and the shade.
    He Himself is the sun, the light, and the lighted.
    He Himself is Brahman, creature, and Maya.
    He Himself is the manifold form, the infinite space;
    He is the breath, the word, and the meaning.
    He Himself is the limit and the limitless: and beyond both the limited and the limitless is He, the Pure Being.
    He is the Immanent Mind in Brahman and in the creature.

    The Supreme Soul is seen within the soul,
    The Point is seen within the Supreme Soul,
    And within the Point, the reflection is seen again.
    Kabir is blest because he has this supreme vision!


    "One Hundred Poems of Kabir"

    ResponderEliminar
  4. Excelente! Conheci há pouco tempo o seu blog mas tornou-se desde logo uma visita diária obrigatória.
    Mas já agora deixe-me dizer-lhe... Nossa Senhora só há uma... A Nossa Senhora das Graças, a padroeira la da minha aldeia. A nossa é que é a mãe e essas coisas todas... pelo menos é o que consta por lá... e ai de quem diga o contrário!
    Ha uma história muito engraçada que creio estar por lla no meu blog algures em que um conterraneo meu e o de outra aldeia conversavam e o outro, a certa altura disse: -Olhai, compadre, havemos de casar a Senhora das Graças com o S. Bartolomeu (o padroeiro da outra aldeia). O meu conterraneo respondeu enojado:
    -E a Senhora das graças queria lá um corno como o S. Bartolomeu???


    Cumprimentos

    ResponderEliminar
  5. Cara Rosário,

    Obrigado pela visita e pelo comentário. Penso que esse episódio que relata mostra bem o que é acreditar mesmo nesses deuses e santos como seres de verdade.

    E também mostra um problema profundo na fé religiosa. Se por um lado nos parece algo cómico que se acredite em deuses pessoais como sendo mesmo pessoas de verdade, por outro lado parece algo falso que se diga acreditar em deuses pessoais quando só se acredita em abstrações vagas...

    Por exemplo, caro Rui, esse deus que está dentro de nós é exactamente o quê? O universo todo virado do avesso? Um parasita? Algo que não deviamos ter comido? Na poesia abstrata pode soar bem, mas em concreto ficamos na mesma.

    Quanto ao indizível, penso que o melhor é ficar calado... :)

    ResponderEliminar
  6. Assim é que se vê que o João Paulo II era boa pessoa. Se eu soubesse que Deus, através da nossa senhora, tinha revelado a três putos analfabetos que eu ia levar um balázio sem me dizer nada a mim, ficava lixado com "f" grande. No domingo seguinte aparecia no vaticano com um spray de grafitti pra pintar bigodes em tudo o que fosse imagem sacra!

    ResponderEliminar
  7. Com alguma mágoa, só posso atribuir 19 valores ao post. Queria dar mais, mas vejo-me forçado a reservar o 20 para o último comentário do Krippmeister.

    Continuem o bom trabalho (ia a dizer, Keep up the good work, mas receei que ainda me confundissem com algum duende disfarçado... :-)

    ResponderEliminar
  8. Caro Rui Leprechaun,
    não nos quer revelar que substância é essa que ingere regularmente antes de deixar aqui os seus comentários? Às vezes até me dava jeito ...
    Cristy

    ResponderEliminar
  9. Achei muito bom o post!

    E isso das nossas senhoras serem uma espécie de franchising é uma forma de ver as coisas que ainda não tinha pensado! Tenho de fazer 1 franchising aqui para a minha terra, e abrir 1 santuário de nossa senhora de torres vedras a ver se vendo umas velitas!!!

    ResponderEliminar
  10. Esta lembra-me a d'"O Rei vai Nú", numa mistura espantosa (plágio) com as bruxas de Salem.
    Só a criancinha muito pobre, muito pura, e muito... qualquer coisa, é que conseguia vêr a imagem da dita... Mas, todos os lá presentes "testemunharam" que ela viu!?
    O Kripp mano é que tem razão. Se a mensagem era aquela, o J.P.II era mesmo o individuo mais pacifico à face da terra.

    ResponderEliminar
  11. Mário Miguel14/05/07, 14:08

    Cara Cristy,

    Perdoe-me a ousadia de lhe responder, em vez do "Leprechaun". A substancia que ele toma é o próprio ar exalado.

    Mas não o afugente... Ele é um bom "animador":-)

    ResponderEliminar
  12. António Costa14/05/07, 14:18

    Excelente post.
    A intervenção da Rosário foi extremamente oportuna e fez-me recordar um episódio a que assisti numa aldeia do norte. E reza assim: Uma testemunha de Jeová tenta catequizar um habitante da aldeia. Depois de muita argumentação que o aldeão ouviu com toda a atenção este respondeu à testemunha de Jeová: Olhe meu caro senhor, eu não acredito na religião católica que é a verdadeira, por que razão é que eu devia acreditar na sua?

    ResponderEliminar
  13. Caro Mário,
    who, me? ;)
    Cristy

    ResponderEliminar
  14. Excelente artigo.

    A prova de que os santos são semideuses é que em uma romaria ouvem com atenção exclusiva a prece individual de cem mil fiéis. Sabem se mantem ou não, como todo bom semideus. São onipresentes, onicientes e quase onipotentes.

    ResponderEliminar
  15. Ó lindíssima Cristy!

    Essa substância... para além do ar exalado, sim!... chama-se alegria e o riso de um novo dia!!! :)

    Ou ainda, Vida... simplesmente Vida... ahn, ou será... Amor, Maria?! ;)

    Ora, pois se até o Gedeão bem o sabia! Sim, não é preciso ser místico ou visionário como Lao-Tzu, Kabir ou tantos outros, basta apenas saber sentir... amor, sorrir! :)

    Arma Secreta

    Tenho uma arma secreta
    ao serviço das nações.
    Não tem carga nem espoleta
    mas dispara em linha recta
    mais longe que os foguetões

    Não é Júpiter, nem Thor,
    nem Snark ou outros que tais.
    É coisa muito melhor
    que todo o vasto teor
    dos Cabos Canaverais.

    A potência destinada
    às rotações da turbina
    não vem da nafta queimada,
    nem é de água oxigenada
    nem de ergóis de furalina.

    Erecta, na noite erguida,
    em alerta permanente,
    espera o sinal da partida.
    Podia chamar-­se VIDA.
    Chama-­se AMOR, simplesmente.

    ResponderEliminar
  16. ...esse deus que está dentro de nós é exactamente o quê?

    Oh... how can that be put in words, dear friend?!

    Élan vital, ó Ludwig... nada mais que essa magia que o Coração sempre queria!!! :)

    Cause we really have to surrender to that supreme miracle of Life that is bigger... much bigger than this tiny intellect and reason of ours... Still we can know the secret, for that magic is in us and it really is US!!! :)

    Mais poesia... é assim que se revela e adoça a Alma para a máxima Alegria!!!

    O SEGREDO É AMAR

    O segredo é amar. Amar a Vida
    com tudo o que há de bom e mau em nós.
    Amar a hora breve e apetecida,
    ouvir todos os sons em cada voz
    e ver todos os céus em cada olhar.

    Amar, por mil razões e sem razão.
    Amar, só por amar,
    com os nervos, o sangue, o coração.
    Viver em cada instante a eternidade
    e ver, na própria sombra, claridade.

    O segredo é amar, mas amar com prazer,
    sem limites, fronteiras, horizonte.
    Beber em cada fonte,
    florir em cada flor,
    nascer em cada ninho,
    sorver a terra inteira como um vinho.

    Amar o ramo em flor que há-de nascer
    de cada obscura, tímida raiz.
    Amar em cada pedra, em cada ser,
    S. Francisco de Assis.

    Amar o tronco, a folha verde,
    amar cada alegria, cada mágoa,
    pois um beijo de amor jamais se perde
    e cedo refloresce em pão, em água!


    Fernanda de Castro, "Trinta e Nove Poema"

    ResponderEliminar
  17. leprechaun20/05/07, 21:26

    A propósito deste tema, parece-me interessante fazer uma pequena incursão pelo conceito da Deusa, que na religião cristã se centra na figura de Maria, claro.

    Não é novidade para ninguém que as grandes tradições religiosas são patriarcais, uma característica que é talvez ainda mais marcada nas 3 religiões do "Livro". É certo que o Deus monoteísta não tem género, mas as referências são quase invariavelmente sempre feitas no masculino, Deus é "Ele" e o "Senhor".

    No politeísmo ou panteísmo do Oriente, em especial o Hindu, há já um maior equilíbrio, com a metade feminina das divindades masculinas - Lakshmi, Radha, Parvati, Sarasvati - a simbolizar a energia divina da criação (Shakti), através da qual o universo se manifestou. Nos Vedas, as mais antigas escrituras conhecidas, há já referências explícitas à Deusa ou Grande-Mãe - Devi - mais tarde personificada nas duas grandes deusas do panteão hindu, Durga e Kali.

    É de salientar que muitas invocações ou hinos milenares, ainda hoje evocados nas cerimónias religiosas no continente indiano, colocam a par os aspectos masculino e feminino da Divindade, como o belíssimo "Arti":

    Twameva Mata, chapita twameva

    "You are my Mother and you are my Father"

    Deveras, o qualificativo Mãe antecede o Pai e, mais ainda, em muitas versões só Mata se escreve com maiúsculas.

    Aliás, nas culturas do Oriente e também do Leste da Europa, o tratamento reverencial e carinhoso de "Mãe" é popularmente empregue, mesmo dirigido a jovens núbeis.

    Do mesmo modo, as antigas religiões pagãs ou as modernas neopagãs concedem uma importância primordial à figura da Deusa, sob as mais diversas designações.

    Em suma, esse Deus racional e lógico tem uma contraparte amorosa e maternal, que aliás o Gnosticismo simboliza bem como o Pai-Sabedoria e a Mãe-Amor.

    There is still more to it... mas por agora ficamos assim e já não está mal! :)

    Ah! mas ainda para terminar, um pequeno excerto do incomensuravelmente belo "Hino a Ísis"... ou "Trovão, a Mente Perfeita"... um maravilhoso preito de louvor à natureza una e dual da Grande Mãe, a Divina Senhora ou a Perfeita Sophia! :)

    Porque eu sou a primeira e a última
    Eu sou a venerada e a desprezada
    Eu sou a prostituta e a santa
    Eu sou a esposa e a virgem
    Eu sou a mãe e a filha
    Eu sou os braços de minha mãe
    Eu sou a estéril, e numerosos são meus filhos
    Eu sou a bem-casada e a solteira
    Eu sou a que dá à luz e a que jamais procriou
    Eu sou a consolação das dores do parto
    Eu sou a esposa e o esposo
    E foi meu homem quem me criou
    Eu sou a mãe do meu pai
    Sou a irmã de meu marido
    E ele é o meu filho rejeitado
    Respeitem-me sempre
    Porque eu sou a escandalosa e a magnífica.


    "Hino a Ísis", século III

    ResponderEliminar
  18. hbA questão de Fátima pode ser abordada pelos negacionistas de duas formas básicas: uma, nega pura e simplesmente o "fenómeno" e não dá mais "trela" à questão; outra, procura negar o fenómeno à luz da própria religião católica.
    Penso que esta é a forma mais produtiva. Um dos livros / base nesta perspectiva é "Fátima Nunca Mais" (Campo das Letras, 1999), do Padre Mário de Oliveira, o célebre Pároco de Maceira da Lixa, que a Hierarquia Católica baniu mas que continua corajosamente a denunciar o escândalo de Fátima à luz da sua Fé Católica. Tenho na minha frente outro livro deste Padre:"Que Fazer Com Esta Igreja?", também da Campo de Letras, 2001.
    O argumento base contra Fátima é este, extremamente simples: Segundo a Teologia Católica Apostólica Romana, a Revelação Divina terminou com o último livro da Revelação bíblica de Deus, o Apocalipse", do Apóstolo João.
    Toda a Revelação assenta em comunicações de Deus à humanidade através dos Profetas, no Antigo Testamento; e de Jesus Cristo no Novo Testamento. Tudo isso foi estabilizado no texto bíblico (A Bíblia) através de sucessivos Concílios e desde há muitos séculos que esse texto se considera "fechado", terminado.
    Basta isto para deitar por terra todo o pretenso fundamento teológico de Fátima. Aliás, os teólogos reunidos em Fátima nesta última peregrinação - como ouvi na TV - têm dificuldade em "entrar" na questão, sentem-se constrangidos e encontram a saída numa linha de argumentação sem qualquer credibilidade: Fátima seria uma revelação de Deus aos humildes, uma espécie de "explicações" ao povo ignorante, inocente ( como eram os "pastorinhos"...), através da sua Mãe Santíssima ( esta secundarização de Deus é um dos aspectos mais chocantes de Fátima).

    A pobreza dos textos produzidos em e por Fátima é confrangedora e nenhum grande teólogo consegue superar isso. A não ser pelo clássico "são mistérios insondáveis de Deus" - um poço onde cabe tudo, inclusivé a célebre questão da conversão da Rússia - como se um país fosse coisa para converter, e esquecendo que quando se deu a pretensa aparição, ainda não tinha havido a revolução bolchevique. A questão russa foi um acrescento posterior, feito pela vidente Lúcia, a mando do seu confessor, como já foi demonstrado há muito.

    Pergunta-se: então se a fraude é tão evidente do ponto de vista teológico, como é que se explica o empenhamento dos Papas em promover Fátima?

    Essa é outra das contradições que mostram como tudo aquilo é uma gigantesca mentira.
    Repare-se: os católicos apenas são obrigados a acreditar nos Dogmas, definidos em tempo oportuno pelos Concílios e pelos Papas quando falam em nome do Espírito Santo,o que lhes dá "infalibilidade" ( sendo esta Infalibilidade um Dogma em si). Ora bem: Fátima não é Artigo de Fé, não foi definido como Dogma. O Papa e a Hierarquia não tiveram até agora, e continuam a não ter, coragem para proclamar o dogma de Fátima. No entanto, utilizam o seu ascendente e prestígio entre os crentes para proclamarem Fátima. Não hesitam em "beatificar" duas crinças que, segundo a própria história de Fátima, nem ouviram a tal Senhora ( apenas a Lúcia, mais velha, "via, ouvia e falava com a Senhora"); atribuem ao Francisco, o mais novito, a maior distância da aparição, apesar de ser o mais inocente; sacralizam a incorruptilidade do corpo da pobre Jacinta, morta durante a Pneumónica, esquecendo os ossitos do irmão, (cujo corpo não resistiu provavelmente porque não tomou tantos medicamentos...).

    Por último: Deus, quando falava à humanidade através dos profetas, "obrigava-os" a falar, a pregar, mesmo que isso lhes custasse ( a história de Jonas e da baleia é significativa disto).
    No entanto, em Fátima, há uma vidente que recebe uma mensagem e a hierarquia católica fechou-a numa clausura, de onde passou a comunicar através de livros que ela, coitada, nunca saberia escrever - alguém os fez por ela. A vidente recebeu uma mensagem que se tornou num segredo em três partes - a última das quais "revelada" há meia dúzia de anos e que foi um fiasco completo, como se sabe e de que os católicos até têm vergonha de falar. Mas foi proibida de anunciar essa mensagem.
    Quando, nos anos 6o do século passado, o Papa Paulo VI veio a Fátima, a vidente Lúcia apareceu pela primeira vez em público, diante da multidão e das cãmaras de televisão. Eu tinha 19 anos, na altura ainda era profundamente crente, e assisti a tudo pela TV. Lembro-me de ter pensado:é agora que vamos ouvir a Irmã Lúcia! Ela vai falar ao mundo, vai dizer o quanto foi emotivo comunicar com a dividande.
    Sabemos todos o que aconteceu: diante do Papa vimos uma mulherzinha vestida de freira, com um riso alvar, a beijar a mão pontifícia com a subserviência com que todos se prostam perante o Poder, e depois a rir para a multidão e a acenar, num gesto infantil ( ela tinha já mais de 50 anos nessa altura).
    Assim se portou o último profeta certificado pela Igreja Católica Apostólica Romana!

    Nunca será de mais argumentar utilizando os quadros mentais teológicos da própria Igreja Católica. Pois é a luz desse enquadramento que Fátima é uma aberração e só se compreende a sua popularidade pela incultura da esmagadora maioria dos crentes. Os que não são ignorantes, aderem normalmente por duas razões: misticismo poético, temperado pela nostalgia da infância e da "inocência de não pensar"; ou pelo estado de sofrimento físico ou moral.
    Desculpem o alongamento...

    ResponderEliminar
  19. Vós, que sois tão científicos e a vossa mente só gira dentro de um tubo de ensaio, vois que sois filhos de um calhau e chamam pai ao cosmo, provem que Deus não existe e que Cristo foi uma treta e já agora o fenómeno do sol girar e as roupas ficaram secas porque chovia na Cova da Iria foi uma grande montagem para época (1917) de Hollywood e até os jornalistas que estavam lá eram padres certamente.
    Deixem de chamar estúpidos aos que crêem. Ninguém obriga ninguém a deslocar-se a Fátima ou outro lugar.
    Dos que lá vão certamente não serão grandes exemplos a seguir,...os padres,... são homens como eu, mijam no mesmo urinol e por detrás de arbusto quando não o têm.
    Quem sou eu para os julgar? Pedro negou Cristo antes de ser chefe da Igreja.
    Agora, eu tenho uma prova científica que Deus existe. Eu pedi-lhe que cura-se o meu filho que tinha leucemia, com uma segunda recaída mal comia e os médicos mandaram-me ir dar voltas. Não fui a bruxas nem bruxos, nem búzios, nem energias ou correntes ou mesinhas.
    Fui á tal treta que vocês chamam á treta da Nossa Senhora que curou o meu filho.
    Louvada seja a treta.
    Um simples calhau pagador de impostos.

    ResponderEliminar
  20. Caro Anónimo,

    Prove-me que não existe o Pai Natal nem o Superhomem. A mesma prova aplica-se a qualquer deus.

    ResponderEliminar
  21. Olá, gostei do blogge, concordo plenamente em tudo, para mais não fosse eu ter passado toda a minha infânçia e adolescênçia a sofrer de uma ditadura religiosa com imensas lavagens cerebrais na esperança de um dia crescer e disser chega. Ao meu ver a religião católica esta toda construida no meio de tanta confusão, passou-se tanto tempo depois de o caso isolado "Jesus", pois sabemos muito pouco acerca dele e o facto de termos que adorar uma virgem ocidental é uma grande comédia, enfim, de certo modo assusta-me pois nunca acreditei muito se bem que gostei da história, tem uma certa melâncolia mas, será que ninguem admite que foi o primeiro caso registado da nossa era do contacto com outras identidades extraterrestres? para mais um homem apareçeu na gruta e agora temos esta noiva prostituta que criou a sua prôpria igreja, quem foi que disse isto? qui ça..., o anticristo poderá ser uma consciênçia geral, ou poderá ser uma personificação. Somos meros observadores e peões? só existe hierarquias sejá na religião, na politica, no trabalho, na fámilia em todo o lado é tudo muito .... estranho, estamos sempre postos de lado enquanto temos essa familia que há de resolver tudo, belos genes para alterarem a realidade ao seu favor. É uma grande treta nasçer e levar com toda esta mierda de tabela. Gosto de me guiar por um frase: "não existe bem e mal mas, pensar nisso torna-o real". Outra coisa que também acho uma treta, se o objectivo da civilização humana é atingir a utopia porquê é que continuamos nesta confusão? Há pois existe muita estupidez global daí disserem que há de vir a tal 2ª vinda de Cristo ou Maytreia. Disseram-me que estamos no apocalipse e eu já nem sei porque a muitas gerações atrás disseram-lhes o mesmo e espero não acabar afogado por causa de um meteoro sem ter visto esta confusão ser explicada por alguém. :)

    ResponderEliminar

Se quiser filtrar algum ou alguns comentadores consulte este post.