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sábado, maio 05, 2007

Mente e fisiologia, parte 5: Deus é Amor?

O melhor modelo da mente é materialista. Chamar alma ou espírito é disfarçar a ignorância com a troca de palavras. É a neurologia que descreve em detalhe aspectos da mente que antes nem suspeitávamos. A visão cega, por exemplo. Danos no córtex eliminam a percepção numa parte do campo visual. Mas apesar da cegueira nessa região o paciente consegue «adivinhar» que objectos lá estão porque a estrutura cerebral que identifica o objecto não foi danificada (1). São detalhes como este que o materialismo explica e as alternativas ignoram.

A conclusão: tudo o que somos é actividade da matéria. Físico, mental, emocional ou espiritual, vem tudo de órgãos que evoluíram por processos naturais. Pelas propriedades da matéria. Por aquilo que faz o Sol brilhar, que faz a chuva cair ou me faz digerir uma batata cozida. Não é acaso nem milagre. É física, química, biologia.

A melhor forma de compreender o amor é como parte da nossa evolução e destes processos naturais. E é revelador que o amor seja tão discriminatório. É difícil perder o amor pelos filhos, mas uma amizade só dura enquanto há um benefício recíproco, como um interesse comum ou colaboração. As diferentes formas de amar enquadram-se nas necessidades de um mamífero social inteligente: procurar parceiros, criar os filhos, e conviver em sociedade. Esta propensão para se apaixonar, fazer amigos, cuidar dos filhos, ou ajudar parentes próximos de nada serve a um deus omnipotente.

E o amor é involuntário. Não amamos quando, como, ou quem escolhemos. É mais um mecanismo que nos compele a agir, muitas vezes contra a vontade consciente. É absurdo que um ser omnipotente seja compelido, mas sem compulsão não é amor. Se Deus tem completa liberdade de escolher quando e como ama nunca saberá o que é amar. E se não tem essa liberdade não é Deus.

É claro que os crentes dirão que o amor de Deus é completamente diferente do nosso. Vão usar letras maiúsculas, chamar-lhe Amor Divino, e dizer que está para além do que podemos compreender. Mas então sejam honestos. Digam que Deus é X e que não fazem a mínima ideia do que estão a falar. O amor sabemos como é. E é coisa de humanos, não de deuses.

Finalmente, o ridículo de pensar que alguém criou este universo porque nos ama. Talvez se o universo fosse um pedaço de terra com uma lua e sol a andar à volta, e as estrelas luzinhas pintadas no céu. Mas não este universo. Oitenta mil milhões de galáxias. Mil biliões de estrelas. E só nesta parte que conseguimos ver...

E nada disto tem amor. O Sol liberta num segundo um milhão de vezes mais energia que a explosão de todas as armas nucleares do mundo. E sem se importar se causa chuvas ou secas, cancro ou bronzeado, se faz furacões ou plantas crescer. A Terra não se importa se sofremos ou prosperamos. A chuva não cai onde precisamos. Este universo é cem mil vezes mais velho que a humanidade. Nenhum planeta notou quando aparecemos. Nenhuma galáxia se importa com o que nos acontece. E nenhuma estrela vai dar pela nossa falta quando fundir o carbono e azoto de que somos feitos em elementos mais pesados.

Este universo não se importa. Não se preocupa. Não ama, não odeia, não perdoa nem vinga. Nem sente. Simplesmente é. Se existe deus, não é amor. É uma infinita indiferença.

1- Wikipedia, Blindsight

Série completa:
Mente e fisiologia, parte 1: o dualismo.
Mente e fisiologia, parte 2: Homúnculos.
Mente e fisiologia, parte 3: qualia.
Mente e fisiologia, parte 4: causas.

segunda-feira, abril 30, 2007

Mente e fisiologia, parte 3: qualia.

O subjectivo tem qualidades que percebemos imediatamente. A dor dói, o doce tem aquele sabor, o pensar, recordar, imaginar, desejar. Os filósofos chamam qualia às qualidades que fazem o subjectivo ser como é. Parece ser o maior mistério da mente.

Ninguém que a sinta tem dúvidas acerca duma sensação. Seja pensar ou doer, seja encarnado ou doce, se sentimos sabemos como é. Mas não há descrição que transmita a sensação a quem nunca a teve. A quem nunca viu encarnado não há nada a dizer que faça perceber a sensação de ver encarnado. Thomas Nagel ilustrou isto num exemplo famoso: mesmo sabendo em detalhe todos os processos neurológicos do morcego continuamos sem conhecer a sensação de ser morcego. O Desidério Murcho, no De Rerum Natura, tem um bom resumo deste exemplo e do problema dos qualia (1). Eu gosto mais do exemplo da Mary, do Frank Jackson.

A Mary é uma neurologista hipotética que sabe tudo acerca da percepção visual mas que nunca viu cores. Sempre viveu em sítios a preto e branco. Apesar de saber tudo o que há a saber acerca da neurologia da cor, se a Mary vir uma rosa encarnada vai aprender algo de novo: a sensação de ver essa cor.

Isto demonstra que os qualia são irredutíveis à descrição neurológica, levando muitos filósofos a conceder algo ao dualismo. Até John Searle, um dos meus preferidos. Defende que a consciência é tão natural e materialista como a digestão ou a respiração, mas concede um dualismo pela separação entre a sensação e a descrição dos processos que a produzem. Como muitos outros, diz não ser possível passar de «os neurónios fazem isto» para o que eu sinto. Mas nisto atrevo-me a dizer que ele está enganado. Parece-me que há um mal entendido.

Podemos descrever o motor de combustão a dois níveis diferentes. Ao nível microscópico, pelas propriedades das ligações químicas das moléculas de gasolina e do metal. E ao nível macroscópico, o da termodinâmica, metalurgia, e mecânica do automóvel. Mas estas descrições estão logicamente interligadas. Das propriedades microscópicas é possível deduzir as propriedades macroscópicas, e a descrição macroscópica pode ser reduzida à descrição microscópica.

O problema filosófico diz que isto não é válido para os qualia. A Mary não pode deduzir a sensação de ver encarnado a partir da descrição microscópica do funcionamento dos neurónios. Mas é um falso problema. Surge de confundir a sensação com uma descrição. Na analogia do motor, a sensação de encarnado não corresponde à descrição macroscópica. Corresponde ao motor. A sensação é a coisa descrita, e não a descrição.

Esta confusão é exacerbada noutra forma de expor o (alegado) problema, separando o relato de terceira pessoa do relato de primeira pessoa. Por exemplo, a Mary diz «os meus neurónios fazem isto e eu sinto que vejo encarnado». Interpretamos a primeira parte da frase como uma descrição dos neurónios, e que é distinta da coisa descrita. Mas na segunda parte, quando a Mary diz «eu sinto», não sabemos se está apenas a descrever ou se está mesmo a sentir. A descrição da sensação é redutível à descrição dos neurónios. Se soubermos tudo sobre o morcego podemos descrever o que ele sente. O que não é redutível à descrição é a sensação. E o morcego, já agora. O que é descrito é mais que a descrição.

Explorar os detalhes num texto curto baralha mais do que explica. Por isso fico por aqui com o apanhado do mais importante. A mente é como a digestão. É um processo natural, fisiológico, de física e química. A sensação é diferente da descrição dos neurónios mas isso não é um mistério. É característica de qualquer descrição ser distinta da coisa descrita. Descrever a digestão da maçã não digere maçãs. Para digerir maçãs é preciso mais do que a descrição. É preciso maçãs, enzimas, estômago, e assim por diante. E para sentir o que é ser morcego ou ver cores é preciso ter mesmo os neurónios a funcionar daquela maneira. Só com conversa não se vai lá.

A questão agora é como a actividade do cérebro é sensação. Ou seja, como é que os neurónios causam mente. Em parte já é uma questão científica para a neuropsicologia ir respondendo. Mas também é uma questão filosófica porque depende da noção de causa. Se tudo correr bem, será o próximo post da série.

1- Desidério Murcho, 19-4-07, Como é ser um morcego?

Episódios anteriores:
Mente e fisiologia, parte 1: o dualismo.
Mente e fisiologia, parte 2: Homúnculos.

quinta-feira, abril 26, 2007

Mente e fisiologia, parte 1: o dualismo.

«Expliquem-me o Amor». Antigamente Deus manifestava-se na trovoada e na lepra. Hoje estas são descargas eléctricas e micobactérias, e é superstição acreditar que provêem directamente de Deus. Aquilo que se compreende só pode ter uma ligação vaga e ténue a Deus, mais por abstracção teológica que por fé a valer.

Como a sensação de amar é ainda misteriosa parece razoável dizer que Deus é Amor. Só que o mistério não é ser amor, é ser sensação. O papel do amor na nossa reprodução e sobrevivência é claro, tão claro como o papel do espirro na desobstrução das vias respiratórias. O mistério, em ambos os casos, é que os sentimos. Sentimos amor e sentimos comichão no nariz antes de espirrar, mas como é que um corpo feito de células e matéria sente e tem consciência? Esse é o mistério que quero abordar.

Esta série de posts vai ter pouco a ver com a religião, mas tenciono voltar, no final, ao Deus como amor. Entretanto, começo pelo dualismo, a hipótese que é uma mente imaterial que pensa e sente. Descartes chamou-lhe a coisa pensante (em latim parece mais sério, res cogitans).

O dualismo troca um problema por três. Continua sem explicar como é que se sente, e agora tem também que explicar como é que a mente imaterial afecta a matéria e como é a matéria afecta a mente. Como é que o meu braço mexe quando eu quero e sinto dor quando me pisam o pé?

Descartes resolveu os dois últimos problemas recorrendo a Deus. Quando alguém me pisa, Deus cria uma dor na minha mente. Quando a mente quer mexer o braço, Deus vai e mexe-o. Dá pouco descanso a Deus, mas concorda com o dogma religioso e permite a vida depois da morte, o que é muito importante para a Igreja. Por isso foi aceite por todos na altura. Mente de um lado, corpo do outro, Deus pelo meio, e nada de misturas. Mas o problema inicial ficou por resolver. Como explicação, era melhor encolher os ombros e dizer «sei lá».

E a evidência refuta cabalmente o dualismo. O álcool no sangue baralha os pensamentos. Lesões, AVCs, ou doença de Alzheimer tiram-nos memórias, traços de personalidade, ou mesmo a fala. Não é razoável que uma mente eterna e imaterial seja afectada desta forma, ou que Deus lhe destrua partes sempre que um vaso sanguíneo se rompe no cérebro.

Vou focar apenas dois exemplos das muitas evidências contra o dualismo. Primeiro, o cérebro dividido pelo corte do corpo caloso, um feixe de fibras nervosas que une os dois hemisférios. Cortar o corpo caloso impede que os impulsos de um ataque epiléptico se propaguem ao cérebro todo. Tratou-se assim alguns casos casos graves de epilepsia. Mas também impede a passagem de informação, dividindo a mente em duas. É pouco perceptível porque a fala é controlada por um só hemisfério, tipicamente o direito, mas por vezes nota-se comportamentos antagónicos nos dois lados do corpo. Por exemplo, uma mão leva o cigarro à boca e a outra tira-o, repetidamente.

E testes específicos revelam a divisão da consciência. Sem ver, o paciente tacteia um objecto comum, como uma chave ou caneta, e é capaz de seleccionar esse objecto, só pelo tacto, de entre um conjunto de objectos diferentes. Mas apenas se usar a mesma mão. Se primeiro tactear o objecto com uma mão e tentar seleccioná-lo com a outra já não consegue. Ambos os hemisférios compreendem a tarefa e conseguem desempenha-la, mas cada hemisfério controla uma mão e não comunicam entre si. São duas consciências independentes.

Todos os testes feitos a estes pacientes dão o mesmo resultado: são duas mentes diferentes, cada uma controlando metade do corpo, mas só uma com o dom da fala.

O segundo exemplo é a negligência contralateral*, na qual uma lesão cerebral destrói a representação de um lado, tipicamente o esquerdo. Para o paciente o lado esquerdo não existe. Não mexe o lado esquerdo do corpo, não veste essa parte, não come a comida do lado esquerdo do prato, é incapaz de raciocinar sobre esse lado e mesmo quando recorda algo omite o lado esquerdo. Por exemplo, desenha todos os números do relógio no lado direito do círculo.

Estes casos, e muitos outros, mostram que a nossa mente não é una e indivisível. É um conjunto de sistemas independentes e indissociáveis do funcionamento do cérebro. O primeiro passo para compreender o mistério do sentir é rejeitar o dualismo. Seja no amor ou no espirro, a mente não é mais que a actividade do corpo.

*Contralateral neglect. Não sei se esta tradução é Português ou Brasileiro.
Mais informação sobre esta condição aqui, onde podem ver o tal desenho do relógio.
Sobre o cérebro dividido, um texto do Michael Gazzaniga, um dos primeiros a investigar estes casos, e esta notícia de um estudo que encontra casos de lateralização mesmo sem cortar o corpo caloso.

quarta-feira, maio 02, 2007

Mente e fisiologia, parte 4: causas.

Se rejeito o dualismo e assumo que isto tudo não é mera ilusão só me resta o materialismo. Existe matéria, é na matéria que está a mente, e volto ao problema de como é que a matéria pensa, e sente, e deseja. Vou deixar os detalhes para a neurologia e focar só um problema filosófico: se a neurologia revelar todos os mecanismos do sentir e do pensar o que vamos compreender com isso?

Parece trivial. Se sabemos tudo o que os neurónios fazem compreendemos as causas da mente. Mas não, porque temos problemas na percepção de causas. Especificamente, a tendência de ver causas onde não há e apenas ver como causa e efeito certos tipos de relação.

Vou começar pelo primeiro tomando como exemplo uma explicação do forno de microondas. A radiação agita rapidamente as moléculas e «esta agitação ao rubro causa uma tremenda fricção dentro dos alimentos e -- tal como esfregar as mão as faz aquecer – esta fricção produz calor» (1). É um disparate revelador. Revela tal apetência por causas que até aceitamos um relato causal que não explica nada. Afinal, como é que a fricção faz calor? A explicação correcta é que a agitação molecular e a temperatura são a mesma coisa. Nisto não há causa e efeito. Mas esta explicação parece batota. Quem tem a mente deformada pela física sente-se obrigado a aceitá-la pelo peso das evidências, mas que a temperatura seja apenas a agitação das moléculas é uma ideia sensaborona, decepcionante. A explicação da fricção é mais atraente e intuitiva.

Analogamente, defendo que a mente é a actividade dos neurónios. Não há causa e efeito. É decepcionante, mas são a mesma coisa. Pior ainda, além desta relação de identidade nos privar da satisfação de uma causa e um efeito, há ainda um fosso psicológico entre duas percepções de causalidade que não conseguimos conciliar.

Se acontece algo de desagradável o meu modelo materialista diz que esse acontecimento faz o meu cérebro produzir menos serotonina, a falta de serotonina causa uma preponderância de certos padrões de actividade neurológica, e esses padrões de actividade são a minha depressão. Mas eu vejo dois tipos diferentes de causalidade. Por um lado, que o acontecimento desagradável causou a minha depressão. Por outro lado, que a falta de serotonina alterou o meu cérebro. Não consigo ver a falta de serotonina como causa da depressão. Estou-me nas tintas para a serotonina! Se a serotonina não me interessa nunca a sua falta me vai causar transtorno. Intuitivamente, não consigo relacionar uma substância química que não me interessa com uma depressão que me afecta tão profundamente.

Tal como a percepção de cor é diferente da percepção de sabor, também tenho diferentes percepções de causa. Tenho a percepção de causas mecânicas, como a serotonina afectar neurónios. E tenho a percepção de causas intencionais, como estar triste por causa de algo que correu mal. É tão estranho à minha percepção que a serotonina cause depressão como seria estranho uma cor ter sabor.

A mente como actividade do cérebro é uma ideia estranha porque sai do que é intuitivo à nossa percepção, tal como a mecânica quântica, a relatividade, ou até o forno de microondas. Mas isso não é razão para rejeitar esta hipótese, que é a melhor que temos. Nem razão para considerar a mente um Mistério.

Todo estes problemas com cores, sabores, causas e intuições têm uma origem comum. Milhões de anos de evolução que adaptaram o nosso cérebro a um conjunto específico de tarefas. Encontrar comida e parceiro. Criar os filhos. Evitar predadores e vencer competidores. Nada nos preparou para compreender o decaimento radioactivo, a geometria do espaço-tempo, ou a mente como actividade neurológica. Quando nos aventuramos por estas coisas temos que abandonar a compreensão intuitiva e construir os modelos com cuidado, peça a peça, colando tudo com evidências e abanando de vez em quando para fazer cair as partes soltas.

Só assim podemos compreender o amor, se há um deus que é amor, e se o universo foi criado por amor. Mas isso fica para o último episódio.

1- How Do Microwaves Cook?

domingo, abril 29, 2007

Mente e fisiologia, parte 2: Homúnculos.

O argumento do homúnculo é uma falácia que explica algo por si próprio. É recorrente nos argumentos dualistas. Explica a sensação de ver da seguinte forma: o cérebro processa a informação visual, apresenta-a à alma, e a alma tem a sensação de ver. É como um homenzinho minúsculo que está nos nossos olhos a ver a imagem projectada na retina.

O leitor «Leprechaun» dá um exemplo deste argumento ao propor que o cérebro é análogo a um receptor de rádio (1). Lesões cerebrais afectam a recepção, e é isso que altera o comportamento do corpo; a consciência é imune a estes problemas. É uma hipótese atraente porque parece conciliar os problemas neurológicos com uma alma imortal. É tudo problema de comunicação. O braço não mexe porque não recebe as ordens da alma. O paciente está cego porque o cérebro não transmite a imagem à alma. Mas não explica nada. Como é que se cria consciência? O cérebro passa a informação ao homúnculo e o homúnculo cria a consciência. Muito obrigado... Além disso levanta o problema da interacção entre o homúnculo e o cérebro. Se o homúnculo é imune aos AVCs porque há de sentir dor quando pisam o pé ao corpo?

Além de inútil, a hipótese do cérebro como mero interface entre corpo e a alma é incompatível com muitas observações. A perda de memória exige que seja o homúnculo a esquecer-se das coisas. A dupla consciência do paciente com o cérebro dividido implica que há dois homúnculos a conduzir aquele corpo. O tratamento farmacológico de maníaco-depressivos mostra que o homúnculo é afectado pelo Lítio no sangue.

Falha nos detalhes, e é nos detalhes que as teorias mostram o que valem. Uma lesão na região occipital privou um paciente das cores. Não só deixou de ver cores, mas deixou de conseguir imaginá-las. Uma malformação vascular lesou uma área na parte posterior do cérebro de uma mulher. A paciente perdeu a visão de objectos em movimento. Via perfeitamente o que estava parado, mas qualquer coisa que se movesse tornava-se invisível para ela. Noutro caso, uma mulher sofreu danos cerebrais por inalação de monóxido de carbono e perdeu a capacidade de distinguir linhas horizontais de linhas verticais e não era capaz de identificar objectos a partir de desenhos. No entanto não tinha dificuldade em enfiar um envelope numa ranhura horizontal. Não conseguia distinguir horizontal de vertical mas conseguia orientar um objecto de acordo com a posição da ranhura (2). A teoria da mente no cérebro explica todas estas observações porque podemos identificar no cérebro os sistemas independentes que processam diferentes aspectos da nossa consciência. O homúnculo não encaixa aqui nem a pontapé, porque assume que a consciência é algo uno, indivisível, e imune ao que acontece ao cérebro.

O homúnculo dá uma história bonita. Uma alma imortal que sofre de ressacas mas não de tromboses. Mas é nos detalhes que se vê se a história aguenta. Eu e o «Leprechaun» concordamos que os modelos presentes da consciência vão ter que ser alterados no futuro para acomodar os dados que estão sempre a surgir. Mas o homúnculo tem um futuro tão risonho como a alquimia dos quatro elementos ou o geocentrismo.

1- São modelos, senhor...

2- Estes exemplos foram tirados das páginas 256 e 257 do livro Fundamentals of Human Neuropsychology, de Bryan Kolb e Ian Q. Whishaw. É um livro algo denso e técnico, mas tem centenas de páginas de dados concretos que refutam qualquer homúnculo.

Episódios anteriores:
Mente e fisiologia, parte 1: o dualismo.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Gavetismos.

O Miguel Panão propôs que o espiritual é a componente mental da energia livre de Gibbs, proposta que critiquei por não haver componente mental na energia livre de Gibbs. Agora o Miguel contrapõe que não devo insistir no «erro científico, em vez de reconhecer que o argumento não era de [índole] científica», e que o problema é o meu «naturalismo científico»(1). Proponho que o problema é outro.

A realidade – o que quer que isso seja – interpela-nos constantemente pelos sentidos com que nascemos e pelos instrumentos que inventamos. Tentamos pôr ordem nessa chuva de dados criando modelos mentais que os expliquem. Os pontos luminosos na noite são bolas de plasma a flutuar no vazio, a matéria é feita de átomos e assim por diante. Mas a informação é tanta, e tão diversa, que temos de a partir em blocos mais pequenos. A química, a física, a biologia na ciência, o conjunto de problemas que temos ideia de como se resolvem. A filosofia da mente, da linguagem e a ética na filosofia, problemas que ainda não sabemos como resolver. A matemática e a lógica na linguagem com que descrevemos outros problemas em rigor. E assim por diante.

O ponto comum é que dividimos a informação pelo que queremos explicar e não pelas explicações que inventamos. Isto tem duas consequências importantes. Primeiro, em cada área há liberdade total para criar modelos que expliquem os dados. Não é preciso ter uma química dos quatro elementos e outra dos átomos. Temos uma química, e se consideramos quatro elementos ou 118 depende dos modelos que vamos inventando. É trabalho em curso. E são categorias permeáveis, dinâmicas e interligadas. A filosofia da mente não vai assentar em hipóteses que a fisiologia demonstre serem falsas, da matemática escolhemos as descrições de geometrias do espaço-tempo consistentes com a física e a astronomia tem de encaixar com a química. Podemos descobrir que duas categorias funcionam melhor como uma só, como a química orgânica e a inorgânica, ou separar uma categoria em duas, como a genética molecular e de populações. Seja como for, é tudo acerca da mesma realidade. Tem de encaixar.

Neste contexto, o meu naturalismo científico é apenas mais uma hipótese de trabalho. Não me leva a rejeitar dados nem a preferir explicações inadequadas só para não o rejeitar. Se um dia as melhores explicações incluirem fantasmas, magia, milagres e afins, então troco sem problema. Desde que encaixem. E este é o ponto fundamental que o Miguel descura ao fazer a partição ao contrário, assente num modelo em vez de nos fenómenos a estudar.

Aproveito para reanimar uma conversa interessante com o Leandro Ribeiro, já enterrada nos comentários (2). O Leandro propôs que muitos ateus são como os crentes. Desconhecedores das questões filosóficas e dos argumentos mais sofisticados, limitam-se a acreditar que não há deuses em vez de acreditar que há. Mas há uma diferença importante. Quando os astrónomos rejeitaram a hipótese de caírem pedras do céu fizeram-no não por fé mas por falta de informação. Não havia dados que a justificassem. Por isso o erro foi facilmente corrigido depois de obter os dados necessários. O mesmo se passa com o ateísmo. A conclusão, provisória, que não há deuses deriva da ausência de dados que indiquem que tais coisas existam. Não é um princípio fundamental do qual não se possa abdicar e, se estiver errado, é fácil corrigi-lo.

Coisas como a astrologia, a teologia, o criacionismo, o tarot e a anatomia energética funcionam ao contrário. A teologia, por exemplo, define-se pelo modelo segundo o qual um deus eterno passou infinito tempo sem fazer nada antes de criar este universo, treze mil milhões de anos depois engravidou uma fêmea de uma espécie de mamífero num canto de uma galáxia de segunda e agora vive preocupado com as preferências sexuais desses bichos. Esta inversão, baseando uma disciplina num modelo em vez de naquilo que se quer explicar, tem como consequência impedir a substituição do modelo por outro melhor que surja e isolar essa disciplina de tudo o resto.

Eu posso inventar uma queijologia, o estudo dos queijos que compõem a Lua, assente na premissa que a Lua é feita de queijo. E dentro dessa gaveta afirmar que a Lua tem uma componente de parmesão e outra de camembert. Mas a Lua não é feita de queijo e esta afirmação é um disparate quer seja de índole científica quer seja de índole queijológica. A grande diferença entre mim e o Miguel, e entre ateus e crentes em média, é o sentido oposto da ligação entre dados e modelos. Quem considera os dados como o mais fundamental exige que os modelos encaixem e dificilmente vai concluir que o deus do Miguel existe. E quem assume o modelo do Miguel como fundamento tem de isolar partes do que considera conhecimento para proteger esse modelo.

Ao contrário do que o Miguel diz, eu não rejeito a ideia dele por assumir um naturalismo ou materialismo. Eu rejeito-a porque é incorrecto afirmar que a energia livre de Gibbs tem uma componente mental e não há gambosinologia que disfarce isso. A própria fronteira entre ciência e a teologia, e a dificuldade em a transpor, é sintoma do apego excessivo a um modelo. É esse apego que obriga a fingir que há várias realidades independentes, a teologia por um lado e a ciência do outro, e que leva à afirmação absurda que o disparate numa é verdade na outra.

1- Miguel Panão, a-demonstrabilidade do naturalismo científico ...
2- No post Treta da semana: é só não acreditar neste.

domingo, outubro 27, 2013

Treta da semana: Cura Reconectiva®.

Até recentemente, o mundo das terapias alternativas tem sofrido pela excessiva complexidade das várias abordagens, obrigando os terapeutas a “saber” que cristais usar onde, como identificar a azia nas riscas da íris ou a dor de cabeça nas plantas dos pés, ler auras, encontrar meridianos, desbloquear o fluxo de energias ou intuir as combinações de aromas florais indicadas para a doença e personalidade do seu paciente. Já não é preciso. Agora qualquer um pode ser um perito instantâneo da cura «graças a uma nova gama de frequencias curativas e, muito provavelmente, devido a um campo de ondas totalmente novo […]. Permite aceder a luz e informaçao e devolver-nos o equilibrio a muitos niveis, ligando-nos completamente a nos proprios, aos outros, à Terra, ao Universo e à nossa multidimensionalidade como seres humanos». À parte de alguns acentos, parece que a Cura Reconectiva® tem tudo: «A Cura Reconectiva está a ligar as pessoas a um novo conjunto de frequencias vibracionais que estimulam a cura do corpo, mente e espírito, promovendo um regresso ao equilíbrio pela reestruturação e activação do seu ADN.»(1)

Reestruturar e activar o ADN – ou, como se designa na gíria medica, cancro – não costuma ser coisa boa. Mas a Cura Reconectiva® «tende a alcançar resultados mais efetivos do que as técnicas de cura energética». Considerando as propriedades algébricas do elemento absorvente da multiplicação, penso que se pode afirmar com confiança que a Cura Reconectiva® é dezenas ou centenas de vezes mais eficaz que as técnicas de cura energética. E o segredo desta eficácia é que «os seus facilitadores simplesmente não dão atenção aos supostos problemas ou sintomas». Percebe-se assim o enorme fracasso da medicina moderna, que teima em tentar perceber a fisiologia dos pacientes, deslindar a acção dos microorganismos e diagnosticar as doenças quando curar é tão simples como deixar «que a ação de picos de luz, energia e informação, levem qualquer desequilíbrio a vibrar fora do quadro e a conduzir a pessoa de volta ao seu estado natural de saúde perfeita.» Afinal, o melhor remédio não é o riso. É a ignorância.

Neste vídeo, Eric Pearl, o descobridor desta nova gama de frequências curativas e (muito provavelmente) um campo de ondas totalmente novo, explica como a Cura Reconectiva®. Ou, pelo menos, demonstra como é simples enganar certas pessoas.


The Reconnection

1- Almha Terapias, Reconnective Healing® - Cura Reconectiva® (via Facebook) .