Mente e fisiologia, parte 5: Deus é Amor?
O melhor modelo da mente é materialista. Chamar alma ou espírito é disfarçar a ignorância com a troca de palavras. É a neurologia que descreve em detalhe aspectos da mente que antes nem suspeitávamos. A visão cega, por exemplo. Danos no córtex eliminam a percepção numa parte do campo visual. Mas apesar da cegueira nessa região o paciente consegue «adivinhar» que objectos lá estão porque a estrutura cerebral que identifica o objecto não foi danificada (1). São detalhes como este que o materialismo explica e as alternativas ignoram.
A conclusão: tudo o que somos é actividade da matéria. Físico, mental, emocional ou espiritual, vem tudo de órgãos que evoluíram por processos naturais. Pelas propriedades da matéria. Por aquilo que faz o Sol brilhar, que faz a chuva cair ou me faz digerir uma batata cozida. Não é acaso nem milagre. É física, química, biologia.
A melhor forma de compreender o amor é como parte da nossa evolução e destes processos naturais. E é revelador que o amor seja tão discriminatório. É difícil perder o amor pelos filhos, mas uma amizade só dura enquanto há um benefício recíproco, como um interesse comum ou colaboração. As diferentes formas de amar enquadram-se nas necessidades de um mamífero social inteligente: procurar parceiros, criar os filhos, e conviver em sociedade. Esta propensão para se apaixonar, fazer amigos, cuidar dos filhos, ou ajudar parentes próximos de nada serve a um deus omnipotente.
E o amor é involuntário. Não amamos quando, como, ou quem escolhemos. É mais um mecanismo que nos compele a agir, muitas vezes contra a vontade consciente. É absurdo que um ser omnipotente seja compelido, mas sem compulsão não é amor. Se Deus tem completa liberdade de escolher quando e como ama nunca saberá o que é amar. E se não tem essa liberdade não é Deus.
É claro que os crentes dirão que o amor de Deus é completamente diferente do nosso. Vão usar letras maiúsculas, chamar-lhe Amor Divino, e dizer que está para além do que podemos compreender. Mas então sejam honestos. Digam que Deus é X e que não fazem a mínima ideia do que estão a falar. O amor sabemos como é. E é coisa de humanos, não de deuses.
Finalmente, o ridículo de pensar que alguém criou este universo porque nos ama. Talvez se o universo fosse um pedaço de terra com uma lua e sol a andar à volta, e as estrelas luzinhas pintadas no céu. Mas não este universo. Oitenta mil milhões de galáxias. Mil biliões de estrelas. E só nesta parte que conseguimos ver...
E nada disto tem amor. O Sol liberta num segundo um milhão de vezes mais energia que a explosão de todas as armas nucleares do mundo. E sem se importar se causa chuvas ou secas, cancro ou bronzeado, se faz furacões ou plantas crescer. A Terra não se importa se sofremos ou prosperamos. A chuva não cai onde precisamos. Este universo é cem mil vezes mais velho que a humanidade. Nenhum planeta notou quando aparecemos. Nenhuma galáxia se importa com o que nos acontece. E nenhuma estrela vai dar pela nossa falta quando fundir o carbono e azoto de que somos feitos em elementos mais pesados.
Este universo não se importa. Não se preocupa. Não ama, não odeia, não perdoa nem vinga. Nem sente. Simplesmente é. Se existe deus, não é amor. É uma infinita indiferença.
1- Wikipedia, Blindsight
Série completa:
Mente e fisiologia, parte 1: o dualismo.
Mente e fisiologia, parte 2: Homúnculos.
Mente e fisiologia, parte 3: qualia.
Mente e fisiologia, parte 4: causas.
