Não há nada aqui para ver.
Segundo Carlos Guimarães Pinto, não nos devemos preocupar que a IA tenha muito impacto. Pelo contrário, o preocupante é ter pouco: «Segundo a AMECO, na segunda metade dos anos 80, antes da internet, a produtividade por trabalhador cresceu a uma média de 4,2% ao ano. Nos anos 90 esse crescimento foi de 2,6%. Na primeira década do século, o crescimento viria para os 0,9%. Na década de 2010, o crescimento médio anual foi de uns míseros 0,7%. Nesta década, até ao momento, vamos com 0,5%.»(1) Como a produtividade é «um bom indicador de automação de tarefas [e] a variável que mais se correlaciona com o aumento dos salários», CGP conclui que o problema é a inovação tecnológica estar a abrandar e é por isso que os salários não sobem tanto. Mas «A “boa” notícia para os trabalhadores é que, de facto, não andam a ser substituídos tão rapidamente como alguns temem.».
Um defeito desta explicação, que CGP reconhece, é que "mais produtividade" em economia não quer dizer produzir mais. Quer dizer mexer mais dinheiro por hora de trabalho. Portanto, se uma hora de trabalho de um empregado da Netflix disponibiliza cem vezes mais horas de vídeo que uma hora de trabalho do antigo empregado de clube de vídeo mas o preço é 1% do que era em 1990, a "produtividade" não mudou porque o dinheiro por hora de trabalho é o mesmo. CGP diz que «mesmo descontando todos estes fatores, a realidade é que o melhor indicador de substituição de trabalho por tecnologia indica que essa substituição é cada vez mais lenta» mas não é claro que esse desconto seja bem feito se a diferença pode ser de ordens de grandeza. Isto leva o modelo de CGP à conclusão pouco plausível de que a inovação tecnológica foi muito mais rápida nos anos 80 do século passado do que nesta última década.
Penso que o erro fundamental de CGP é descurar a mudança na relação entre trabalhadores e máquinas. Quando passámos da enxada para o tractor, a produtividade aumentou no sentido comum do termo por se produzir mais alimentos por hora de trabalho. E aumentou no sentido económico porque conduzir um tractor exige mais qualificações, o que permite exigir um salário melhor e mexe mais dinheiro por hora de trabalho. Agora é diferente. Num centro de distribuição os trabalhadores viam os endereços nos pacotes e tinham de os encaminhar correctamente num processo complexo. Separavam os nacionais dos internacionais, depois por diferentes zonas do país, em cada zona separavam por códigos postais e assim. Precisavam de saber o processo e não era trivial substituir um trabalhador. Agora têm um sistema automático que lê os rótulos, identifica as moradas e separa tudo, precisando apenas que o rótulo fique para baixo, virado para o leitor. O trabalho humano passa a ser virar os pacotes conforme passam no tapete rolante. Aumenta o número de encomendas processadas por dia mas não aumenta o dinheiro movimentado por hora de trabalho porque os trabalhadores precisam de menos qualificações, ganham menos e o dono pode baixar os preços mesmo tendo mais lucro. É menos trabalho por encomenda mas menos dinheiro a mexer porque o trabalho, em vez de ficar mais caro, ficou mais barato.
Isto nota-se na prática. No ano 2000, o salário bruto de um informático recém formado era cerca de 200.000$00, o que seria uns 1600€ agora. Hoje ronda os 1200€. Não é por a produtividade ter diminuído. É porque a relação com a tecnologia mudou. O progresso em compiladores, motores de bases de dados, ambientes de desenvolvimento, Internet e afins fizeram com que o informático pudesse produzir cada vez mais usando o conhecimento que tinha. Essa relação entre tecnologia e trabalho aumentava o preço do trabalho e o indicador económico de produtividade. Mas o progresso recente em modelos de linguagem e IA tem outro efeito. Permite produzir o mesmo dispensando muito do conhecimento especializado do informático recém formado. Nestes casos, a maior capacidade de produzir não aumenta o salário nem a "produtividade" económica porque as competências do trabalhador podem ser substituídas por máquinas mais baratas.
É por isto que a IA é uma tecnologia qualitativamente diferente. Na métrica clássica de quanto dinheiro muda de mãos por hora de trabalho a IA tem pouco efeito porque essa métrica depende de mais tecnologia exigir mais competência e aumentar os salários. Sempre houve algumas excepções. Muitos artesãos, por exemplo, foram substituídos por operários fabris menos talentosos, menos qualificados e com salários menores. Mas era um efeito pequeno na economia. O efeito dominante era a tecnologia exigir mais competência. A IA muda esta relação porque substitui competências. Alguns trabalhadores ainda beneficiam dela por terem qualificações difíceis de substituir. Por enquanto. Mas aumenta constantemente o número de trabalhadores com competências dispensáveis. Isto não aparece na métrica do dinheiro movimentado por hora de trabalho porque a competição com máquinas cada vez mais baratas faz baixar esses salários. No entanto, e ao contrário do que CGP defende, este problema é preocupante. Não só para quem é directamente afectado mas também porque a desigualdade económica e a degradação das perspectivas dos jovens são um perigo para a democracia se não houver uma intervenção atempada. Fingir que não se passa nada é a opção mais perigosa.
1- Carlos Guimarães Pinto, Preocupados com o problema errado.

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