segunda-feira, janeiro 01, 2007

Monstruosa Obsessão

 No seu blog «Crítica da Razão Moderna», o António Parente escreve que

«Há uma obsessão anti-religiosa por parte de algumas pessoas que pensam, na sua cegueira, que a Igreja Católica os obriga a fazer o que não querem nem desejam. [...]Ser católico implica respeitar as diferenças para as outras religiões, respeitar os não crentes[...]» (1)

É irónico um blog com este nome não permitir comentários, por isso aqui vai no meu, caso o António ainda cá venha. Em primeiro lugar, penso que o António está enganado na sua definição. Os meus filhos (têm 5 anos) uma vez no infantário disseram que deus não existe, e uma educadora disse-lhes para não dizerem disparates. Quando foram entregar brinquedos à igreja, agora pelo natal, o padre fê-los cantar uma canção de Jesus, deu-lhes um longo sermão a dizer que dar brinquedos aos pobres é o mesmo que dá-los a Jesus (mas não explicou o que um deus todo poderoso vai fazer com brinquedos em segunda mão), e no fim tiveram todos que beijar um boneco do menino nas palhinhas. Além de pouco higiénica, esta idolatria não respeita os não crentes.

Os católicos não respeitam os não crentes da mesma forma como respeitam os crentes. Estou certo que se os meus filhos fossem hindus ou muçulmanos a educadora não tinha dito que Vishnu ou Allah era disparate, nem os tinham posto a beijar o boneco.
Concordo com o António que em Portugal não nos forçam a ser religiosos:

«Nunca vi, de dia ou de noite, nenhum membro do clero impedir um casal de fazer amor dentro de um carro [...] Também nunca vi ninguém algemado num confessionário a ser confessado à força nem vi ninguém ser arrastado, ao som do chicote, para a missa dominical.»

No entanto, isto abona mais a favor da laicidade que da religião, pois, onde podem, é isso mesmo que os religiosos fazem. Felizmente, o estrangeiro é longe... Cá, o que me estorva mais é a desonestidade. É desonesto afirmar que se sabe apenas por se crer. Se eu disser que um vizinho rouba carros apenas porque acredito, sou difamador. Se conduzir munido apenas de fé nas minhas capacidades, multam-me. Se estiver profundamente convicto que sou um neurocirurgião, não é por isso que me deixam operar. É absurdo dar legitimidade a quem diz que sabe o que é deus, quantos deuses existem, ou o que querem de nós, apenas pela fé que têm. É treta.

1- António Parente, 27-12-06, O monstro da obsessão anti-religiosa

domingo, dezembro 31, 2006

Ano novo. Mesma treta?

Para o ano novo quero que este blog continue a ser o blog das tretas, mas que seja menos blog da treta. Por isso convido os leitores a deixar sugestões, críticas, ou mesmo insultos, neste espaço dedicado a criticar tretas. E, já agora, bom ano novo.

O Mapa e o Território

Um mapa é um bom exemplo de um modelo que não se confunde com a realidade. Sabemos que a estrada verdadeira não é um traço encarnado. Um círculo preto representa uma vila, não é a vila que simboliza o círculo preto. Acima de tudo percebemos que o mapa que serve para representar as coisas e não é a paisagem que serve para pôr no mapa.

Noutros casos há mais confusão. Na astrologia, por exemplo, Júpiter simboliza o pai e é o “significador” dos filhos, da educação, da fama. Mas Júpiter é Júpiter. O que simboliza e significa são símbolos, como as palavras com que criamos o modelo. Os astrólogos baralham-se; olham para a paisagem e julgam que simboliza o mapa, quando é o contrário. Os criacionistas também gostam deste tipo de confusão. A metáfora do ADN como linguagem, com letras e palavras, confunde a molécula com os símbolos que usamos para a representar. Mas é o modelo que representa a realidade, e não a realidade que simboliza o modelo.

Mesmo na tradição Cristã menos fundamentalista há uma confusão semelhante. No início era o Verbo, ou seja, o modelo, e a realidade foi criada a partir deste. Colocar o modelo antes da realidade cria dificuldades desnecessárias. Primeiro, exige duas realidades diferentes: uma realidade que observamos, a criação, e outra que não podemos compreender nem observar, o criador. Mas postular algo que nem se observa nem se compreende é pura perda de tempo.

Dá também a ideia que o universo é governado por leis, quando as leis da natureza são descrições e não regras a cumprir. Na verdade, muitas descrevem a ausência de regras. A energia é conservada no tempo porque nenhuma regra especifica um momento especial para contar o tempo (simetria de translação no tempo). A entropia aumenta porque nenhuma regra distingue estados que tenham a mesma energia (são igualmente prováveis). A mecânica quântica descreve muitos fenómenos que não têm uma causa, que simplesmente acontecem com uma certa probabilidade.

Esta confusão do modelo com a realidade leva também a ver o universo como instrumental, como parte de um plano e para um propósito, tal como um cenário ou um mapa. Mas não há razão para crer isso. Os modelos e os mapas servem para compreendermos e representarmos coisas. Os modelos são concebidos com (mais ou menos) inteligência, e para um propósito. Mas o mapa não é o território, e não se pode inferir propósito e concepção inteligente naquilo que modelamos apenas por ser o modelo assim concebido.

domingo, dezembro 24, 2006

Votos de...

 A Igreja Católica está muito preocupada com o que está a acontecer ao Natal (1). Desta vez, vou dou-lhes razão. Não se admite que uma tradição tão antiga seja perdida, ou que se descure o seu significado religioso. É certo que vivemos num país laico, e que não era esta a religião original dos povos Ibéricos do neolítico, nem dos Celtas que os substituíram, nem dos Romanos que vieram depois. Mas é esta religião que está na base, na raiz mais antiga, da nossa cultura Europeia. E esta cultura é de todos, não só dos crentes.

Dizem que foi milagre o que aconteceu naquela noite de inverno, e devemos respeitar esta tradição cultural e religiosa. Celebremos por isso o deus que fez o óleo de um dia arder durante oito. Que este milagre da poupança vos sirva de exemplo nesta quadra, e um feliz Hanukkah para todos.

1- O Natal cristão ofende?


Estatísticas...

No Diário Ateísta a Palmira faz uma análise reveladora das estatísticas do aborto. Primeiro, dá o exemplo de França (1), que «demonstra inequivocamente que a legalização/despenalização não conduz, como pretendem muitos, a um aumento do número de abortos realizados». De facto, a selecção cuidada das estimativas e período representado pode reduzir o equivoco, mas o gráfico na wikipedia (2) não justifica uma conclusão tão clara:

Evolution du devenir des grossesses en France (hors fausse-couche précoce) entre 1965 et 2005.

Escolhendo as estimativas inferiores do aborto ilegal (a encarnado) vê-se um grande aumento com a legalização, escolhendo as superiores fica «inequivocamente» demonstrado que não se passou nada. E a escolha do país também ajuda. Por exemplo, se escolhermos os EUA (3) o resultado é o oposto (e ainda mais inequívoco):

Chart source: Alan Guttmacher Institute, 1996

Mais interessante é a comparação dos países que permitem e proíbem o aborto. A Palmira mostra que o aborto em países da América Latina como a Nicarágua e Bolívia é «francamente superior, com as excepções já referidas por anormalmente altas, à que se verifica em países onde este é permitido!» (4). E é fácil ver que é verdade porque acaba com um ponto de exclamação.

O interessante são as tais excepções «anormalmente altas», como a Europa de Leste, Vietname, e Cuba, que são excluídos pelo difícil acesso a contraceptivos fiáveis e educação sexual inadequada (5). Ou seja, que são como a Nicarágua e a Bolívia. Mas se compararmos a Nicarágua com Cuba o aborto é duas vezes mais frequente onde é legal, por isso dá mais jeito comparar com os países ricos da Europa para não estragar o resultado «francamente superior». E eu próprio quando penso na Nicarágua e na Bolívia penso logo na Bélgica e na Holanda também, por serem países tão parecidos em tudo excepto na penalização do aborto.

As estimativas do aborto ilegal são pouco fiáveis, a evolução após a legalização varia muito conforme o país, e nos países onde o aborto é legal a taxa anual varia desde as 5 mulheres por 1000 até às 90 ou mais. Factores económicos, sociais, e culturais são extremamente importantes, difíceis de quantificar, e quase impossíveis de prever. Estas estatísticas são uma mancha de Rorschach, onde cada um vê o que quer, e não são uma base fiável para uma decisão.

Eu prevejo que vai acontecer em Portugal o que aconteceu nos EUA, se ganhar o sim. Os argumentos principais do sim em Portugal são que o Estado não deve intervir e que não se pode impedir o aborto. Isto é muito mais próximo do espírito de Roe vs. Wade que da abordagem da Europa do Norte, onde o aborto é considerado um problema social a ser atacado de forma mais eficaz que com mera legislação. Mas suspeito que esta minha opinião seja mais um exemplo de belief overkill, a tendência que temos de alinhar crenças e opiniões que deviam ser independentes. Objectivamente, não posso prever o que vai acontecer se ganhar o sim, o que é mais uma razão para votar não. Na política como na medicina, o primeiro cuidado devia ser não fazer asneira.

Já é mau que se decida por maioria quem tem ou não direito à vida. Pior ainda é o voto depender duma análise complexa de dados incompletos e pouco fiáveis. Tenciono votar não porque nem todas as razões para abortar até às 10 semanas são aceitáveis, mas acima de tudo vou votar contra o referendo em si. Uma decisão tão complexa e com consequências tão sérias tem que ser tomada de uma forma mais responsável.

1- Palmira Silva, 21-12-06, O aborto em França e as práticas actuais
2- Interruption volontaire de grossesse
3- Abortion in the United States
4- Palmira Silva, 23-12-06, O aborto no Mundo e as práticas actuais - III
5- Palmira Silva, 23-12-06, O aborto no Mundo e as práticas actuais - II
6-http://www.euvotosim.org/

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Profissionalização

O Windows XP Home Edition custa à volta de €340. O Windows XP Professional custa cerca de €500, porque permite encriptar pastas, aceder remotamente ao computador, suporta sistemas com mais que um processador, entre outras vantagens.

O que a maioria dos consumidores não sabe é que são os dois a mesma coisa. A diferença está no processo de instalação: a versão profissional instala tudo, a outra, como é de esperar de um amador, esquece-se de algumas coisas.

O Raymond (1) publicou uma forma simples de converter um CD do Windows XP Home Edition em XP Professional. Com este pequeno curso de profissionalização o vosso CD fica muito mais habilitado e poupam €160. Mas notem que deve ser ilegal. Normalmente opcional, no comércio digital o barrete é obrigatório por lei.

1- Raymond, 21-12-06. Hack to turn your Windows Home Edition CD into a Professional Edition

quinta-feira, dezembro 21, 2006

A tradição já não é o que era (mas anda lá perto)

Segundo a Agência Ecclesia (1), menos de metade das crianças britânicas entre os 7 e os 11 anos sabe que o Natal é a celebração do nascimento de Jesus. A culpa parece ser do carteiro:

«Os protestos viraram-se, em boa parte, contra o Royal Mail, serviço postal britânico que este ano eliminou qualquer referência cristã dos seus selos: só há renas, árvores de Natal, bonecos de neve e pais natais. Nenhuma imagem lembra, como em ocasiões anteriores, o Nascimento de Cristo.»

Qualquer dia até ensinam às crianças que já havia um festival Romano celebrado nesta semana muito antes do Cristianismo. Dedicado ao deus Saturno, incluía um período de férias escolares, troca de presentes, muita bebida, comida, alegria, e um mercado especial da época. Até o cariz comercial do Natal antecede o Cristianismo. Eventualmente os Cristãos aproveitaram o festival para os seus propósitos. Espetaram uma missa no fim, substituíram Saturno por Jesus, e acabaram com a tradição de ir tudo cantar nu para a rua. Esta última talvez a única melhoria; para cantar nu na rua é mesmo melhor esperar pelo tempo mais quente.

Mas agora voltamos às origens. Dezasseis séculos depois da usurpação Cristã o Natal é finalmente o que era: comer, beber, gastar rodos de dinheiro, e divertir-se à brava quer se queira quer não. Jesus nasceu? Boa! Junte-se à festa, que quantos mais, melhor.

1- Católicos e muçulmanos procuram «salvar» o Natal na Inglaterra

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Agnosticismo: possível, mas difícil

Todos somos agnósticos em relação a alguma coisa. E podemos ser agnósticos em relação a tudo. O que determina o agnosticismo é a confiança que exigimos para aceitar algo como verdadeiro. Como não há certezas, e como podemos exigir o nível de confiança que quisermos, não há nada que possa escapar ao agnosticismo.

Imaginem que temos resultados que indicam que o chocolate faz bem ao coração, com uma confiança de 80%, e que o tabaco faz mal aos pulmões, com uma confiança de 95%. Se decidirmos aceitar como verdadeiro apenas aquilo em que se tenha mais que 99% de confiança, somos agnósticos em relação a ambos. Se pomos a fasquia nos 90% aceitamos apenas os malefícios do tabaco, e se somos pouco exigentes podemos acreditar em ambas as proposições.

Mas é incoerente aceitar que o chocolate faz bem e permanecer agnóstico acerca dos malefícios do tabaco, pois isso só com duas fasquias diferentes. Mesmo sem valores concretos, isto é válido: não é coerente rejeitar uma hipótese mais bem fundamentada quando aceitamos uma com menos fundamento. Esse é o problema dos que são agnósticos em relação a deuses e coisas sobrenaturais.

A teoria da relatividade é talvez a teoria mais bem fundamentada que temos hoje. Não deve haver algo que se saiba com mais confiança que ser impossível levar uma laranja da Terra a Marte em menos de um minuto (contado na Terra). Mas podemos ser agnósticos em relação a um deus omnipotente que possa pegar numa laranja e leva-la para Marte a uma velocidade superior à da luz. Basta exigir ainda mais evidência que aquela que apoia a teoria da relatividade.

O problema é a micose. Temos muita confiança que o clotrimazol ajuda a curar infecções por fungos, mas muito menos confiança na sua eficácia que temos na teoria da relatividade. Um agnóstico coerente não pode aceitar o conselho do médico se rejeita as conclusões de Einstein. Uma escapatória comum é que um ser sobrenatural não está sujeito à teoria de Einstein, mas isto revela um mal entendido. A teoria da relatividade não obriga; descreve. E o que descreve é ser impossível acelerar laranjas para além da velocidade da luz, seja quem for que as empurre. Não há excepções para seres que se intitulem sobrenaturais, nem evidências que indiquem que um ser sobrenatural seja imune à relatividade. Nem resolve a micose. O agnóstico coerente terá que considerar como pelo menos igualmente provável um fungo sobrenatural escapar ao clotrimazol. Isto não permite que se rejeite a relatividade e se aceite os antibióticos com coerência.

Regra simples para avaliar a coerência de um agnóstico: observem-no por uns momentos. Se não se coçar, ou é incoerente ou teve muita sorte.

Ciência e Sobrenatural

Por azelhice minha não reparei que o Santiago tinha criticado o meu post sobre as alegadas limitações naturalistas da ciência (1,2). Peço desculpa pela falha, e vou aqui responder às criticas, que desde já agradeço.

Eu proponho duas coisas. Primeiro, que não importa para a análise científica de um fenómeno se o chamamos de natural ou sobrenatural. Segundo, que o conhecimento científico moderno é naturalista porque não há nada de sobrenatural no universo em que vivemos.

Vou começar pelo segundo, que o Santiago criticou desta forma:

«O meu agnosticismo militante impede-me de aceitar sem um pio a peremptória afirmação de o Universo não ter sido equipado com "acessórios" sobrenaturais (como é que ele sabe? Foi algum "ser sobrenatural" que lhe garantiu a sua própria não existência?)»

O agnosticismo é irrefutável, pois podemos decidir exigir sempre mais evidência. O que é difícil é fazê-lo com coerência, mas disso falarei noutra altura.

No século XVII o químico alemão Georg Ernst Stahl propôs que as substâncias combustíveis contém flogisto, que se libertava para o ar durante a queima e que era absorvido pelas plantas. Lavoisier acabou por demostrar que era ao contrário, que era o oxigénio que se ligava ao combustível e não o flogisto que se libertava. Mas antes da ideia do flogisto ser consensualmente rejeitada houve quem propusesse que o flogisto tinha massa negativa, para explicar porque a queima de algumas substâncias fazia aumentar a sua massa. Parece-me que já era uma hipótese bem próxima do sobrenatural. A lepra, as tempestades, a origem da vida e das espécies, e muitos outros fenómenos já foram rotulados de sobrenatural enquanto não foram compreendidos. Hoje em dia tudo o que observamos e compreendemos aparenta ser natural. O sobrenatural foi, e é, sempre o que nunca se observou (deuses e espíritos invisíveis) ou o que não se compreendeu. Não posso rebater o agnosticismo do Santiago se ele exige certezas absolutas, mas a tendência é clara e a preponderância da evidência reunida até agora favorece a hipótese de não haver acessórios sobrenaturais neste universo.

A outra questão é se a ciência como método pode avaliar hipóteses acerca do sobrenatural. Eu dei o exemplo de dois modelos para a fertilidade do solo, um baseado na química e outro na influência de espíritos ou deuses, e propus que se comparasse os modelos numa experiência controlada: fertilizantes químicos de um lado, rezas do outro, e ver o que produzia mais. A objecção do Santiago parece-me estranha:

«Não me parece particularmente feliz ir buscar o exemplo de uma actividade puramente tecnológica (a agricultura) para argumentar que devemos preferir a explicação científica por ser a mais bem sucedida.»

Não vou comentar a implicação que devemos preferir, como explicação, a explicação menos bem sucedida. O importante aqui é que a ciência, como método, consiste em compreender um fenómeno através de modelos desse fenómeno. Para cada modelo deduzimos consequências, comparamo-las com o que observamos do fenómeno, e seleccionamos os modelos mais adequados ao que observamos. É praticamente inevitável que um modelo adequado permita alguma aplicação prática, tecnológica, desse conhecimento, daí ser estranha a objecção do Santiago. Mas não preciso ficar-me pela agricultura. Qualquer modelo que faça previsões acerca dum fenómeno observável pode ser testado desta forma, seja natural ou sobrenatural. Talvez o Santiago possa dar um exemplo de um modelo sobrenatural que faça previsões concretas mas que não se possa testar.

O problema é a ideia comum que a ciência lida com a natureza. Não é verdade. A ciência lida com modelos: ideias, hipóteses, teorias, especulação. São esses que a ciência constrói, rejeita, repara, compara, aperfeiçoa. Como os modelos são sempre modelos de algo, é necessário observar algum aspecto desse algo para obter os modelos mais adequados. Mas esse algo basta que seja observável. Se é natural não natural é indiferente.

O que está para além da ciência é aquilo que não se pode observar (como criar modelos disso?) ou modelos que não se consegue ligar a nada (mas para que servem esses?). Mas talvez seja isso que quer dizer a palavra sobrenatural: modelos incompreensíveis de coisas que nunca se observa.


1- Santiago, 2-10-06, Ah! Eis um debate com graça

2- Ciência e Naturalismo

Carl Sagan

Carl Sagan influenciou-me pelo seu entusiasmo e simpatia. Aquelas tardes a ver o “Cosmos” na TV foi uma das coisas que me empurrou para a ciência; via-se o puro prazer de compreender na maneira como ele falava dos milhões e biliões de estrelas. E a sua forma de abordar o cepticismo com compaixão, consideração, e empatia, é um exemplo que tento seguir, mesmo que nem sempre com sucesso. Mas o mais importante para mim foi ter mostrado que não precisamos procurar conforto acreditando no que não compreendemos. Não precisamos de fé, de crendices, ou superstições para que a vida tenha sentido. Nem perante a morte ou a perda dos que nos são queridos. No “The Demon-Haunted World” ele escreveu:

«Probably a dozen times since their deaths, I heard my mother and father, in a conversational tone of voice, call my name. [...] I still miss them so much that it doesn’t seem at all strange that my brain will occasionally retrieve a lucid recollection of their voices.”

A crença preponderante é que a sensação de “eu” é uma coisa aqui na cabeça. Uma alma ou espírito que, quando o corpo morre, vai para outro lado. Mas pelo que sabemos o eu não é uma coisa. É uma acção do cérebro. Eu sou como um bocejo, um passo, um gesto. Algo que aparece, dura enquanto se faz, e depois volta para lado nenhum. O corpo é uma coisa, com uma existência contínua, com um principio e um fim, que vive e morre, mas a consciência é uma acção intermitente, episódica. Existo acordado, desapareço quando adormeço, e de manhã o cérebro faz outro eu.

Pessoas como Carl Sagan mostraram que compreender a realidade é muito mais reconfortante que qualquer crença ou fantasia. Não só porque a compreensão dá mais segurança que a crença, mas porque a realidade é muito mais rica e profunda que a nossa pobre imaginação. Muitos procuram conforto na fé numa alma imortal, mas qualquer funeral revela a falta de convicção nesta crença. E é um fraco consolo. Consolam-se perante a morte desvalorizando a vida, tentando-se convencer contra todas as evidências que é a próxima que conta.

Não há que temer a nossa morte. Ao fim de cada dia desligamos a consciência, e no dia a seguir o cérebro faz outra. Parece que é a mesma porque temos memórias e o mesmo corpo, mas a consciência é uma acção, e não faz sentido dizer que é a mesma. Um passo pode parecer igual ao anterior mas é outro passo, não é o mesmo passo ressuscitado. Eu vou morrer esta noite como muitos eus já morreram antes. Um dia vai morrer o último eu, quando o meu cérebro deixar de fazer eus, mas paciência; acontecerá a esse o que aconteceu a todos os outros.

A morte dos que nos são queridos é sempre algo triste, mesmo para quem acredita em almas. Mas também aqui a realidade é superior à nossa imaginação. A morte não é uma alma que parte ou uma coisa que se desfaz. Quando o corpo morre deixa de fazer essas consciências, mas as que fez ainda se fazem sentir noutras consciências. Partes dos actos de consciência de outros cérebros vivem nos nossos, nas nossas memórias e no que somos. Faz hoje dez anos que o cérebro de Carl Sagan deixou de fazer Carl Sagans, mas as consciências que aquele cérebro fez ainda têm efeitos em muitos cérebros.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

“Blogatona” em homenagem a Carl Sagan

O próximo dia 20 será o décimo aniversário da morte de Carl Sagan. Joel Schlosberg teve a ideia de o comemorar com uma maratona de blogs. Escrevam qualquer coisa a ver se temos milhões – biliões – de posts nesse dia a celebrar um dos cépticos mais simpáticos de sempre.

O que dizem os cozinheiros

(Nota: qualquer semelhança entre este post e esta página do site Pro-Music pode ser mais que mera coincidência).

Cozinheiros e chefes culinários definem uma posição sobre a utilização não autorizada das suas receitas:

«As batedeiras e novas tecnologias de cozinha parecem funcionar a favor dos consumidores, permitindo-lhes gozar, a custo zero, de refeições que deveriam ser remuneradas. Os supermercados, com um crescimento exponencial vertiginoso, geram danos irreparáveis na industria de restauração. Grandes restaurantes vêm-se obrigados a fechar as portas porque, subitamente, em casa de cada um pode, sem grandes custos, preparar o jantar.»

«Uma vez disseram-me que das coisas mais justas é um artista ser recompensado pelo seu trabalho. Temos então que parar e tentar reinterpretar a questão da preparação de cozinhados em casa, que veio arrombar o mercado da restauração, deixando não só a industria como também os cozinheiros e chefes sem controlo algum sobre o seu próprio trabalho.»

«Falemos então de carros, já que parece que para muita (mas muita mesmo) gente há que fazer comparações destas para que as coisas fiquem mais claras. Muito bem. Imaginem o desenhador que concebe um carro. Imaginem uns mânfios a virar-se para ele e a dizer “Pá, tás aqui tás a levar!”, e ele a dizer “Ah é?”, e eles pimba! Agora imaginem uma grande onda a submergir Lisboa, e extraterrestres a destruir o palácio de Belém.
Agora experimentem em vez de carros…receitas. Em vez de desenhador, o cozinheiro. Em vez de extraterrestres, pode ser a Lili Caneças, que fica lá perto. E imaginem toda a gente que vive de, com e para a comida. E se se deixasse de fazer comida? E se comesse-mos tudo cru? Roubar é crime. Mesmo que seja fazer o jantar.»

domingo, dezembro 17, 2006

Pass-aram-se!

Soube pelo Remixtures (1) da última burrada dos artistas e distribuidores de música Portuguesa: a Passmúsica. O site é horrível, a condizer com a ideia (2). Vão tentar aplicar a lei de direitos conexos e cobrar pela música ambiente em tudo o que é restaurante, bar, sala de espera, linhas telefónicas, parques de diversões, feiras, transportes etc. (estou a tirar da página dos formulários... é mesmo isto).

Cada vez duvido mais da sanidade desta gente. Vendem um bem supérfluo duma forma antiquada. Quando começam a perder dinheiro pela concorrência com os jogos e consolas, telemóveis e DVDs decidem processar os clientes. Ficam admirados por isso não aumentar as vendas, então tentam acabar com os sítios onde muita gente ouve música e se torna cliente deles. Brilhante.

É quase compreensível que os advogados das empresas discográficas vejam nisto uma forma de justificar o seu salário. Mas é espantoso que os artistas vão na cantiga. Sim, senhor distribuidor. Processe os meus fãs e dificulte a vida a quem divulgar a minha música. Dê-me é qualquer coisinha pela meia dúzia de discos que vender, se não se importa...

1- Miguel Caetano, 11-12-06, Músicos portugueses querem cobrar a quem passa a sua música

2- http://www.passmusica.pt/

Criacionistas contra Dawkins

No passado dia 1 surgiu no site criacionista «Creation Ministries» um artigo intitulado «Dawkins and Eugenics, a leading high priest of evolution reveals its ugly side» (1). Este artigo acusa o «ateu fanático» Dawkins de defender que não há bem nem mal, de concordar com Hitler, e promover a eugenia, citando o que Dawkins escreveu no Sunday Herald do dia 19 de Novembro (2):

«I wonder whether, some 60 years after Hitler’s death, we might at least venture to ask what the moral difference is between breeding for musical ability and forcing a child to take music lessons. Or why it is acceptable to train fast runners and high jumpers but not to breed them.»

Terrível. Estes ateus são piores que o bicho papão. É claro, não parece tão terrível se lermos o resto do parágrafo, que os criacionistas não citaram. Dawkins continua:

«I can think of some answers, and they are good ones, which would probably end up persuading me. But hasn’t the time come when we should stop being frightened even to put the question?»

Afinal parece que Dawkins não considera a eugenia uma boa ideia. O que ele propõe é que se ponha de parte o terror inspirado pelo nazismo e não se tenha medo da pergunta: se pudermos influenciar o património genético dos nossos filhos, devemos fazê-lo ou deixá-lo à sorte?

Numa crítica cinco vezes maior que o artigo criticado, os criacionistas acusam Dawkins e os ateus de não terem valores, de defender a eugenia, e tiram uma citação do contexto para dar uma ideia completamente diferente do que o autor pretendia. Isto revela um atributo curioso dos criacionistas. Apresentam-se como defensores da Verdade, mas têm muito pouco respeito pela verdade.

(1) Carl Wieland, 1-12-06, Dawkins and Eugenics, a leading high priest of evolution reveals its ugly side

(2) Richard Dawkins, 19-11-06, Eugenics may not be bad

Lá se vão as férias..

Pelo menos consegui meter aqui uns do criacionismo antes de voltar ao aborto. Shyznogud, no Womenage A Trois, apresentou uns cálculos (1) que foram reproduzidos em vários blogs: mulheres responsáveis que usem sempre contraceptivos em todas as relações sexuais terão em média 1,5 gravidezes não desejadas. As contas estão mal feitas. Assumiu uma taxa de falha do contraceptivo de 0.5% por acto sexual, mas a taxa de falha da pílula combinada ronda os 0.3% por ano, e não por acto sexual. Corrigindo, 30 anos de actividade sexual com contracepção cuidadosa dá uma média de 0.09 gravidezes não desejadas, e não 1,5.

Mas isto é um pormenor. Mais importante é a implicação que a mulher não é responsável pela gravidez porque o método de prevenção é falível. Isto não faz sentido. Há sempre possibilidade de acidentes em tudo o que fazemos, e não deixamos de ter responsabilidades por isso. E é revelador que ninguém propõe o mesmo para o homem: como a contracepção é falível, se ela engravida ele não tem que “assumir este azar”. Treta. Se ela tiver o filho a lei obriga-o a ajudar a sustentar a criança, e todos concordamos que é assim que deve ser, azar ou não.

Mas o que me fez interromper estas férias sem aborto é que este exemplo, e outros do mesmo género, são apresentados como apoiando o voto “Sim”. Isso é uma forma errada (ouso dizer falaciosa...) de pensar no problema. Se a proposta a referendo fosse uma pena mínima que punisse sempre o aborto quaisquer que fossem as circunstâncias, então exemplos como este seriam relevantes para opor esta legislação. Eu também votaria contra uma lei que obrigasse a punir todas as mulheres que abortam porque reconheço que há casos em que isso não se justifica.

Mas a proposta é nunca punir quem esteja envolvido em abortos até às 10 semanas. O relevante é a possibilidade de situações merecerem punição. Por exemplo, com técnicas modernas de diagnóstico pré-natal (e.g. análise de fluído celómico) é possível determinar várias características antes das 10 semanas. Penso que a lei deve intervir se uma clinica oferece um pacote de diagnóstico e aborto para os pais terem os filhos do sexo ou cor dos olhos que preferem. E mesmo assumindo que o sexo responsável isenta o praticante de qualquer responsabilidade, é preciso considerar também os que não são responsáveis e abusam desta técnica. Cerca de 7% das mulheres que abortam nos EUA já abortaram quatro ou mais vezes antes. Parece mais irresponsabilidade que azar.

Exemplos em que a punição não se justifica são irrelevantes pois a lei já os contempla, não impondo uma pena mínima para este crime. A questão neste referendo é nunca penalizar o aborto, e para isso o que temos que considerar é se há alguma situação em que deva ser penalizado.

1- Shyznogud, 30-11-06,Um exercício fútil e idiota mas às vezes dá vontade de o ser...

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Mutação. Degeneração. Confusão...

No seu livro “Genetic Entropy & the Mystery of the Genome”, John Sanford revela que não há mecanismos naturais capazes de manter o genoma humano fixo no seu estado actual. Mutações surgem demasiado depressa para que a selecção natural as possa eliminar a todas, e os genes da nossa espécie vão mudando ao longo do tempo. É uma descoberta importante para um criacionista, mas os biólogos já sabiam disto. Chama-se evolução.

Não admira que os criacionistas achem isto surpreendente. Eles leram num livro que cada ser vivo foi criado de acordo com o seu tipo, e assim ficaria para sempre. A nossa espécie especialmente. Segundo esse livro fomos criados à imagem de Deus, que toda a gente sabe é gordo, magro, claro, escuro, alto, baixo, homem, mulher... bem, mulher não, que essas foram criadas à imagem da costela. Mas seja como for não é suposto mudarmos ao longo do tempo.

Para a biologia dos últimos séculos isto é tão novidade como o pão às fatias. Inspirando-me nas analogias que Sanford oferece, deixo aqui uma ao leitor. As espécies são episódios duma longa novela Venezuelana. A nossa espécie é aquele em que Marisol descobre que Alonso afinal já é casado. Na altura parece uma grande coisa, mas uns episódios mais tarde já ninguém se lembra disso. E se bem que as cenas mudem de episódio para episódio não há nenhum propósito em vista e ninguém sabe como aquilo vai acabar. Se algum dia acaba.

Um exemplo que Sanford julga refutar a teoria da evolução é a diferença entre os humanos e os chimpanzés. Sanford estima que desde a separação das duas linhagens, há seis milhões de anos atrás, se acumularam na nossa espécie cerca de 20 milhões de mutações, e que a selecção natural apenas podia ter fixado mil destas. Mas vou explicar mais do principio.

Primeiro, não imaginem o ADN como uma sequência de letras. São moléculas de ácido desoxirribonucleico. As letras foram ideia de pessoas que passam o dia a inalar éter no laboratório, e são apenas abreviaturas para designar partes dessas moléculas. Ao longo da molécula de ADN há regiões que interagem com outras moléculas e desencadeiam complexas reacções químicas que acabam por determinar a cor dos olhos, da pele, a estatura, o sexo, e assim por diante. Esses trechos são os genes, e pessoas diferentes podem ter genes diferentes no mesmo sitio do seu ADN.

Voltemos ao exemplo de Sanford. Um gene fixa-se na população quando todas as outras variantes desaparecem. Por exemplo, o gene para os olhos azuis estará fixo na nossa espécie quando toda a gente tiver o mesmo gene e os olhos azuis. Sanford diz que só houve tempo para fixar mil novos genes nos últimos seis milhões de anos, baseando-se nos cálculos de Haldane (de 1957... os criacionistas gostam de livros antigos). Haldane considerou um cenário extremo: uma alteração no ambiente reduz a sobrevivência de toda a espécie excepto a pequena minoria que tem uma mutação que é benéfica nas novas condições. Daqui estimou ser preciso 300 gerações para esse gene se fixar na população, mas este valor pode ser bastante mais pequeno noutras situações. Mas vamos dar a Sanford o benefício da dúvida, e usar os números dele: em números redondos, para cada mutação benéfica que se fixe por selecção natural há cerca de 10 mil mutações que se fixaram por acaso.

Mudando novamente de direcção (este post parece uma gincana...). O que observamos em espécies como a nossa é que os trechos que especificam a estrutura química das proteínas ocupam, no total, apenas a milésima parte da molécula de ADN. Além disso, a taxa de mutações nestas regiões é cerca de dez vezes maior que nas regiões mais importantes. Dez vezes mil. Dez mil mutações sem efeito para cada mutação que faz diferença. Mais uma vez, Sanford descobre a roda.

É claro que isto é em números redondos. Mutações fora das regiões que codificam proteínas podem ter efeitos, e mutações que alteram as proteínas podem não ter impacto na sobrevivência do organismo. O número exacto de pelos no nariz, a cor dos olhos, a velocidade de crescimento das unhas dos pés, tudo isso pode variar sem afectar minimamente a sobrevivência ou a informação contida no genoma. O facto importante é que uma espécie é um conjunto diverso de indivíduos em constante mudança. Sanford descobriu isso e ficou assustado, mas não é degeneração, nem perda de informação, nem o fim do mundo. É evolução.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Entropia Genética: primeiras impressões.

Há umas semanas o Jónatas Machado teve a amabilidade de me oferecer o livro «Genetic Entropy & The Mistery of the Genome», do John Sanford, o que me deu a oportunidade de ficar a conhecer melhor os argumentos mais recentes do movimento criacionista.

O livro é um pouco estranho. Pretende ser uma divulgação científica e objectiva, mas todos os capítulos começam com um subtítulo que diz «Newsflash», no meio do texto há frases sublinhadas, frases a negrito, e muitos pontos de exclamação. A sensação é de estar a ouvir um pregador emocionado a exortar os seus seguidores em vez de uma explicação científica. Também incomoda a forma como o livro subestima a capacidade de compreensão do leitor. Quando o autor diz que as instruções para fazer um carrinho de mão caberiam num livro, temos um desenho de um carrinho com um livro em cima. Quando o autor fala da fábula da princesa que sentia uma ervilha através do colchão, lá vem o desenho da princesa em cima de uns colchões e ervilhas espalhadas à volta.

Mas interessa mais o conteúdo que a forma. A proposição central do livro é que o nosso genoma está a degradar-se pela acumulação de mutações. Todos nascemos com mutações e, segundo Sanford, a selecção natural não consegue eliminar um número suficiente para prevenir a destruição da informação no genoma humano. Para isto Sanford invoca o custo de selecção, um termo criado por Haldane para designar a quantidade de mortes (ou esterilidade) necessária numa população para que um alelo (um gene de um tipo) substitua outro.

Suponhamos que todos os indivíduos de uma população têm o gene A, e surge um mutante com a variante B deste gene. Para que a população fique toda com o gene B é preciso que muitos indivíduos com o gene A morram sem descendentes. Como só uma parte da população pode ser eliminada a cada geração, e como em geral vão morrer também indivíduos com o gene B, é preciso muitas gerações para que o gene B substitua o gene A na população. Haldane estimou que este processo numa espécie como a nossa demoraria cerca de 300 gerações.

Mas isto é muito diferente do problema de eliminar mutações novas. Quando surge uma mutação deletéria num indivíduo basta que esse indivíduo morra sem descendentes para que a mutação seja eliminada da população. É surpreendente que Sanford tenha confundido o custo de eliminar uma mutação nova com o custo de substituir um gene presente em toda a população.

Sanford também assume que a proporção de mutações prejudiciais é uma constante, mas isso é falso. Imaginemos um o organismo com os melhores genes possíveis para todos os atributos. Adão, para os criacionistas; a criação perfeita (antes de perder a costela). Neste qualquer mutação será prejudicial. Mas conforme os descendentes vão acumulando imperfeições vai aumentando a probabilidade de uma mutação aleatória melhorar algo, quanto mais não seja por reverter um gene mutante ao gene original.

Na realidade não há uma degradação constante mas um equilíbrio dinâmico. Mutações aleatórias introduzem um grande numero de imperfeições e algumas melhorias ocasionais. A selecção natural elimina defeitos graves rapidamente faz com que as melhorias se propaguem lentamente pela população. Alterações que têm um impacto pequeno demais simplesmente se acumulam ou desaparecem ao acaso (a evolução neutra proposta por Kimura e outros). E é verdade que a distribuição de genes pela população está em constante evolução. Não há nenhum processo natural que fixe para sempre o genoma de uma população. Mas é só o criacionismo que exige que o Homem seja o produto final duma criação perfeita. Para a teoria da evolução somos apenas um passo num deambular sem fim.

O que podemos esperar deste equilíbrio dinâmico é uma grande diversidade de características e indivíduos. Uns serão mais fortes, outros mais rápidos, outros mais atraentes, e assim por diante. Todos terão alguns defeitos, e alguns terão muitos defeitos. Exactamente o que observamos em qualquer população.

Nos próximos posts vou elaborar melhor alguns pontos que o Jónatas Machado sugeriu e que são discutidos neste livro. Mas como apreciação geral posso dizer que este livro sofre dos mesmos problemas que todos os argumentos criacionistas que conheço: uma má compreensão da teoria da evolução, e uma análise incompleta e tendenciosa dos factos.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

A propósito da vida em Marte...







(Via Bad Astronomy)

Aborto: Fechado para Férias

Tenciono fazer uma pausa nisto do aborto. Tenho outros desabafos para fazer e isto está a ocupar muito tempo. Quero só deixar um resumo adaptado às críticas mais recentes.

Em causa está escolher uma de duas alternativas. Abortar, e aquele ser humano morre, ou não abortar, e esse ser humano vive sete ou oito décadas como nós. Isto não é uma mera possibilidade, mas a consequência esperada de cada alternativa. O aborto elimina propositadamente toda a vida daquele ser em desenvolvimento. Por isso rejeito como irrelevantes os argumentos que desvalorizam essa vida por algo que está ausente nas primeiras semanas. Não por uma questão de valores ou convenções diferentes, mas porque objectivamente o que está em causa são décadas de vida e não meras semanas.

Há dois argumentos dos quais discordo por uma questão de valores. Um é que a mãe tem o direito de matar o filho porque o filho está dependente dela para sobreviver. Rejeito este argumento por ser contrário ao que esperamos da responsabilidade dos pais para com os filhos, e porque nem os seus proponentes admitem aplicar esta regra noutros casos que não o aborto. O outro é o equilíbrio entre o direito à vida e o direito ao planeamento familiar. Eu tenho o direito de decidir se tenho ou não filhos, mas esse direito acaba assim que engravido uma mulher. Não tenho 10 semanas a seguir para decidir se sou responsável ou não pelo sucedido. E não vejo justificação para dar às mulheres esse direito adicional em detrimento da vida do feto.

Sei bem que os métodos contraceptivos não são completamente fiáveis, mas quem decide ter relações sexuais assume a responsabilidade pelas consequências. Como com qualquer outro acto voluntário. Não há razão para que o sexo seja excepção.

Nem estou aqui a advogar abstinência. Há muitas formas de dar e ter prazer sexual sem enfiar o pénis na vagina. Usem a imaginação, leiam o Kama Sutra, ou aluguem um vídeo. E se quiserem arriscar, arrisquem. Mas não reclamem o direito de não ter filhos depois de os fazerem.

Parece-me possível que surjam situações que legitimem punir quem mata ou pede para matar o feto, mesmo às 10 semanas. Por isso não concordo que se ponha de parte esta possibilidade despenalizando este acto.

Coitada da mosca...

Na edição do jornal O Público de dia 8 há um artigo sobre Charles Brabec, que está a montar um museu criacionista em Mafra (1):

«Charles Brabec traz para a mesa uma série de fósseis. Dentro de uma caixinha transparente está um pedacinho de âmbar amarelo, com uma minúscula mosca-do-vinagre lá dentro. "É resina fossilizada, muito antiga; por que é que as moscas-do-vinagre continuam a existir? Não evoluíram!"»

Temos então uma mosca em resina “muito antiga”. Claro que não diz quão antiga é. Se disser que a mosca tem 4000 anos ninguém acha estranho que seja parecida com as que vivem hoje em dia. E se disser que tem milhões de anos vai ser difícil defender que o universo tem poucos milhares de anos. Mas uma é clara: ele sabe que a mosca não evoluiu.

Chamamos moscas aos insectos da ordem Diptera (duas asas). Conhecem-se 85 mil espécies nesta ordem e estima-se que haja um total de 200 mil. Do género Drosophila, a tal mosca-do-vinagre, há cerca de mil espécies descritas. O senhor criacionista olha para uma mosca que lhe parece ser duma destas espécies e diz logo que não evoluiu.

Não sei o que Brabec procurava numa mosca primitiva. Um machado de pedra e uma tanga de pele de leopardo? É que aos nossos olhos uma mosca é uma mosca. Primitivas ou não parecem-nos todas a mesma coisa, e é por isso que agrupamos 200 mil espécies no mesmo termo “mosca”. Talvez um entomólogo experiente saiba distinguir moscas primitivas de moscas modernas, mas a pergunta de Brabec sugere que ele não é perito na matéria. Além disso muitas características podem evoluir sem que se note nada olhando para a mosca adulta fossilizada. O tipo de alimento, os rituais de acasalamento, onde põem os ovos, o que comem as larvas, e assim por diante. Mas Brabec dá uma olhada e diz que não houve evolução. E porquê? Porque ainda existem moscas do vinagre. É claro, se não existissem ele também dizia que não tinha havido evolução porque se tinham extinguido. O criacionismo tem mesmo resposta para tudo... é pena é ser sempre a mesma resposta.

A fé dos criacionistas protege-se com uma grossa camada de ignorância. Ignoram a teoria que criticam, ignoram os factos, e ignoram até o propósito duma explicação. E é ignorância que nos querem vender, substituindo a compreensão que temos por um milagre incompreensível.

1- Clara Barata, disponível online no Conta Natura