quinta-feira, junho 05, 2008

Com todo o respeito que merece (e há que dizê-lo com frontalidade)

Na homilia de Natal, o cardeal de Lisboa José Policarpo disse que «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade»(1). Hoje, em resposta à carta que a AAP dirigiu à Conferência Episcopal Portuguesa (2), assegurou «que a Igreja respeita os ateus e espera o mesmo respeito por parte destes»(3).

Tenho ouvido muitos apelos ao respeito quando converso com pessoas religiosas. Continuo sem perceber o que querem dizer com o termo. A maioria dos significados no dicionário está fora de questão. Reverência, deferência, apreço, importância e submissão não parecem atitudes da Igreja para com os ateus. Temor talvez ande mais perto da realidade mas não será coisa que admitam ou da qual peçam reciprocidade. Sobra consideração. A julgar pelas palavras de José Policarpo a Igreja considera-nos o «maior drama da humanidade»

Não posso prometer o mesmo respeito. Considero a Igreja Católica um inconveniente, mas está muito longe das piores religiões e nem sequer me parece que a religião em si seja o maior drama da humanidade. E a consideração e estima que sinto é pelas pessoas, não por dogmas, doutrinas ou organizações.

1- DN, 16-12-07, Cardeal diz que maior drama é a negação de Deus
2- Carta da AAP ao Presidente da CEP
3- Agência Ecclesia, Igreja respeita ateus e espera ser respeitada.

22 comentários:

  1. (voz em falsete): Onde é que tu estavas no 25 de Abril?

    Eh!eh!eh!

    Bem observado :)

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  2. (Com TODA a frontalidade. Reparei agora que faltava o "toda".)

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  3. «Não tenho nada contra os ateus, desde que tenham respeito...»

    Já ouvi dizer isso muitas vezes... Como se à partida os ateus fossem devassadores de capelinhas. Para juntar à colecção de coisas que já ouvi, como:

    «Não tenho nada contra os homossexuais, desde que tenham respeito pelos heterossexuais...»

    «Os pretos são iguais aos brancos. Agora, têm é de se elevar e de trabalhar como os outros.»


    Chamo a isto a tolerância ressabiada. Mas de certeza que tem uma designação clínica qualquer no foro da psicologia.

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  4. E a consideração e estima que sinto é pelas pessoas

    O que pode ser aplicado de sí para com os católicos.

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  5. Último anónimo,

    «O que pode ser aplicado de sí para com os católicos.»

    Pode não, é. Está implícito na expressão "consideração e estima pelas pessoas" independentemente de terem ou não crenças mais ou menos bizarras.

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  6. João Vasco,

    «Com TODA a frontalidade»

    Nem sempre. Consultei a fonte mais autoritária, o que me permitiu evitar a repetição da palavra :)

    Anónimo,

    Como o Francisco apontou, é mesmo isso que queria dizer. Já participei em várias cerimónias católicas (casamentos, principalmente), e faço o sempre pela estima que tenho pelas pessoas.

    As ideias abstractas e as organizações não são para mim objecto de estima (nem tenho clube de futebol). O seu valor é meramente utilitário.

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  7. O meme do respeito pela religião tem se propagado, mas o sentido o mesmo escapa-me.
    Como diz Dawkins: eu respeito a religião do meu vizinho da mesma maneira que respeito a opinião dele que a mulher dele é a mais bonita e os filhos dele são os mais inteligentes.
    Mas de uma maneira geral tenho constatado que não são os ateus que não respeitam os religiosos, mas sim vice versa.
    Bjs Karin

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  8. "(nem tenho clube de futebol)"

    Agora é que eu perdi o respeito a estima e a consideração que tenho por ti!
    Seres ateu ainda vá, agora seres aclubistico, isso é no minimo intoleravel!

    PS. vê lá que clube é que escolhes não tornes a coisa ainda mais inaceitavel, o verde é sempre a melhor cor :))

    Fora de brincadeira, concordo contigo, não me dou com as pessoas baseado nas suas crenças, ou gosto e então gosto e se é ateu ou muculmano ou indu, fixe, não me interessa. Se não gosto, não gosto e fim de papo, pode ser catolico ou protestante ou o que quizer ...

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  9. Joaninha,

    Neste momento sou sócio do Judo Clube de Odivelas, mas tenho tido pouco tempo para treinar. Já fui sócio do Sporting, mas o JCO é muito melhor porque supera o Sporting na característica que eu considero mais importante. É perto de casa :)

    Quanto à consideração e fé, concordo contigo. Há pessoas com que nos damos melhor que outras de uma forma quase independente da fé, se bem que a fé possa colocar obstáculos. Dificilmente me ia dar muito bem com um muçulmano que não tivesse uma ideia mais progressista acerca das mulheres ou com um católico que achasse mesmo que o ateísmo é o maior drama do mundo.

    Mas o meu ponto não era esse. O ponto principal é (como já disse várias vezes) que quem merece respeito e consideração são as pessoas, não as igrejas nem as crenças nem os rituais e essas coisas.

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  10. "O ponto principal é (como já disse várias vezes) que quem merece respeito e consideração são as pessoas, não as igrejas nem as crenças nem os rituais e essas coisas".

    Amen
    Cristy

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  11. Pronto, mas já foste socio do SCP o que já salva a tua alma das chamas do inferno. Neste momento estás em negação, não faz mal irmão, nós perdoamos-te porque sabemos que voltarás á razão. (talves de um dia mudares para o bairro de alvalade ;))

    "Quanto à consideração e fé, concordo contigo. Há pessoas com que nos damos melhor que outras de uma forma quase independente da fé, se bem que a fé possa colocar obstáculos. Dificilmente me ia dar muito bem com um muçulmano que não tivesse uma ideia mais progressista acerca das mulheres ou com um católico que achasse mesmo que o ateísmo é o maior drama do mundo."

    Tens razão, mas uma pessoa desse genero, nunca seria uma pessoa de quem eu iria gostar, porque juntamente com essa falha de caracter provavelmente teria outras que não estariam ligadas á religião em si(como diz a minha sogra Deus é desculpa para tudo!). Ninguem que tenha esse tipo de visão, seja ela por razões religiosas culturais ou o raio que os parta seria pessoa com quem eu me iria dar...Podes dizer que é do meu feitio doce e docil :)

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  12. Porque já referiram aqui um sketch do Herman e porque isto está relacionado com o tema, deixo aqui este link:

    http://www.youtube.com/watch?v=XhPZCbugFGA&feature=related

    :D

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  13. M. Abrantes06/06/08, 15:08

    A igreja tem a arrogância de se querer confundir com a ideia de deus. Por vezes nós, os ateus, cometemos a ligeireza de tomar por certa essa confusão.

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  14. Lembra-me um vídeo que tinha visto no YouTube: Atheism - Greatest Danger to Humanity (dei uma resposta). Quer dizer que os ateus são piores que a fome, as doenças, a guerra, a dor, ("continuam a ser o maior drama da humanidade"), porque não somos salvos.

    Uma testemunha de Jeová, quando disse-lhe que era agnóstico (mas também sou ateu...), disse-me que não faz mal - que quer dizer que não sei que Deus existe - que o pior seria ser ateu, que os ateus pensam que são deuses e são arrogantes, blá, blá, blá. Há um par de meses tinha aparecido outra Testemunha, e disse-lhe logo que sou ateu. Ele disse que tinha respeito pelos ateus, que pode ir ao Salão do Reino sem compromissos, blá, blá. Acho que o "respeito" é outra coisa neste caso quando é dirigido a ateus.

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  15. Li a carta da AAP ao Presidente da CEP e o artigo na Agência Ecclesia. Neste artigo parece dar a entender que a Carta não foi educada. Por exemplo, é dito: «As críticas subiram de tom numa carta da AAP ao Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, tornada pública, na qual se afirma que “alguns bispos têm atacado o ateísmo e os ateus.» Eis o contexto da fonte citada:
    «A Associação Ateísta Portuguesa (AAP), recentemente constituída, felicita V. Ex.ª pela recente reeleição como presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e aproveita para lhe expor alguns pontos de vista susceptíveis de corrigir tomadas de posição com que, talvez por desconhecimento, alguns bispos têm atacado o ateísmo e os ateus, embora lhes respeite o direito de expressão constitucionalmente consagrado.»
    Noto que no site do Diário Ateísta, com o conteúdo da carta, estão links de respostas de sites Católicos.

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  16. Claro que ele disse que "Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade", com respeito. Só imagino o que seria sido dito sem esse respeito.

    Eu não sou ateu, mas não poderia deixar passar esta hipocrisia.

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  17. Ludwig

    Esse "maior drama da humanidade" soou-me mal. Muito mal mesmo. Há dramas muito maiores, um dos quais sendo crentes que fazem o mal e acreditam ser em nome de Deus. Ou saberem que fazem o mal e usarem Deus para o legitimar. Não gostei, mas interpretei-o a nível espiritual... mas continua a soar-me mal.

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  18. Ludwig,

    Parece-me que há uma interpretação errada. Não vejo onde está o desrespeito e vou tentar explicar porquê.

    De acordo com a doutrina católica, o Pecado Original é a razão pela qual a humanidade vive em permanente estado de "queda", que é algo com várias facetas. Algumas delas são morais, outras são intelectuais.

    No caso das intelectuais, uma das consequências do Pecado Original é uma espécie de "visão intelectual" turva, uma dificuldade em compreender a realidade como ela é.

    Toda a história da humanidade tem dado provas suficientes de que se trata de um fenómeno observável.

    Deus dotou-nos com um intelecto potente, que ficou "desfocado" com a asneira dos nossos primeiros pais.

    No que diz respeito ao ateísmo, trata-se do melhor exemplo deste problema de desfocagem intelectual. A recusa de Deus, a negação da realidade suprema que deveria ser uma evidência e uma necessidade a todo e qualquer intelecto, é a maior prova das consequências deste estado de "queda".

    Acho que interpretou mal as palavras do Cardeal Patriarca. Não se trata de chamar os ateus de criminosos, ou de os considerar a maior causa das nossas desgraças.

    Aliás, eu leio as palavras ao contrário: vejo que o Cardeal Patriarca encara o ateísmo como a maior consequência deste estado das coisas.

    Se quiser, eu diria que as suas palavras apontam mais para ver os ateus como as maiores vítimas desta situação, algo que a palavra "drama" usada pelo Cardeal Patriarca, já deixava entrever.

    Não vejo nas suas palavras uma qualquer falta de caridade.

    E também me parece que o Ludwig comete aqui o erro crasso: tomar por ataque pessoal aquilo que é uma crítica óbvia ao ateismo, mas do ponto de vista intelectual.

    Eu considero também que o ateismo é um dos maiores dramas intelectuais da humanidade, e pode mesmo até ser o maior.

    Por essa razão despendo tanta energia a tentar, com parcos efeitos, note-se, mostrar que é uma pena investir todo o nosso poderoso intelecto numa visão totalmente falseada e errada da realidade.
    Deus não desaparece só porque queremos muito.

    Um abraço

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  19. Bernardo:

    A acreditar em tudo aquilo que diz - isso significaria acreditar que o cardeal teria a convicção de que o ateísmo resulta da desfocagem do intelecto causada pelo consumo do fruto do conhecimento, o que não é o meu caso - o cardeal e o Bernardo demonstrariam nesse caso uma enorme confusão entre sintomas e causas.

    É que o Bernardo alega que o ateísmo, mais do que um mal em si, não é senão um sintoma da queda. Mas então nesse caso não creio que faz sentido afirmar «Todas as expressões de ateísmo, todas as formas existenciais de negação ou esquecimento de Deus, continuam a ser o maior drama da humanidade» a não ser que se queiram resolver os problemas debruçando-se sobre os sintomas e não sobre as cauas.

    Afinal o Bernardo tenta justificar as palavras do cardeal assumindo uma intenção quase tão insensata como aquela que se depreende do texto. E assumindo essa intenção, subscreve-a.

    O contorcionismo intelectual que tem de ser feito para justificar a fé... Por falar em desfocagem do intelecto...

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  20. Espectadores,
    imagina se um ateu dissesse que os teístas têm uma «uma espécie de "visão intelectual" turva, uma dificuldade em compreender a realidade como ela é» e que «toda a história da humanidade tem dado provas suficientes de que se trata de um fenómeno observável».

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  21. Bernardo,

    «Se quiser, eu diria que as suas palavras apontam mais para ver os ateus como as maiores vítimas desta situação, algo que a palavra "drama" usada pelo Cardeal Patriarca, já deixava entrever.

    Não vejo nas suas palavras uma qualquer falta de caridade.»


    Também não assumo que haja falta de caridade. Mas essa atitude condescendente de ter pena dos ateus por serem todo uns "desfocados" mentais parece-me falta de respeito.

    Não é que me importe. Mas se eu disser que o Bernardo é crente por ter o intelecto desfocado provavelmente vai me acusar de lhe faltar ao respeito...

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  22. «Mas se eu disser que o Bernardo é crente por ter o intelecto desfocado provavelmente vai me acusar de lhe faltar ao respeito...»
    A não ser que chamar de estúpidos aos outros não seja falta de respeito...

    Priberam:
    «estúpido
    do Lat. stupidu, admirado

    adj. e s. m.,
    falto de inteligência, de juízo ou discernimento;
    que está sob a impressão de estupor;
    atónito;
    ant.,
    entorpecido, insensível.»
    «estupor
    do Lat. stupore

    s. m.,
    entorpecimento das faculdades intelectuais;
    pop.,
    pessoa de más qualidades, ou feia e de má aparência;
    ant.,
    paralisia.»

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