sábado, setembro 16, 2006

Jónatas Machado e a Paleontologia

A terceira parte desta homenagem ao criacionismo, exemplificado pelas criticas de Jónatas Machado (JM) publicadas no passado dia 8 no jornal «O Público». Desta vez, sobre o registo fóssil:

«[...] a grande quantidade de "fósseis vivos" e a existência de biliões de fósseis nos cinco continentes testemunham a ocorrência de um dilúvio global, descrito na Bíblia e em muitas narrativas da antiguidade. Se milhões de espécies animais tivessem evoluído ao longo de milhões de anos, deveríamos encontrar biliões de fósseis intermédios e não apenas a mão-cheia de exemplos altamente controversos (v.g. Archaeopteryx) com que nos deparamos.»

Aqui vemos condensados dois grandes favoritos do criacionismo: um dilúvio como a origem do registo fóssil, e a ausência de fósseis de formas intermédias. Mais uma vez, argumentos que dependem duma análise superficial dos problemas, e duma ignorância profunda dos detalhes.

O primeiro argumento é essencialmente que um grande dilúvio matou os animais e plantas, enterrando-os a níveis diferentes conforme o sitio onde viviam, a capacidade que tinham para fugir da àgua, o seu tamanho e forma, e assim por diante. Assim as baleias e os golfinhos ficaram em camadas superiores, os dinossaurios não conseguiram escapar tão bem e ficaram mais abaixo, e os desgraçados dos trilobites ficaram enterrados lá no fundo.

Mas agora os detalhes. Os trilobites são abundantes no registo fóssil em estratos inferiores. Os peixes teleósteos são muito comuns em estratos superiores (cerca de metade das espécies de vertebrados hoje em dia são peixes teleósteos). Mas nunca se misturam. Não há uma única sardinha fossilizada ao pé de um trilobite. Os criacionistas dirão que os peixes fugiram e os trilobites acabaram por ficar enterrados na lama ou o que seja, mas todos todos todos? Incrível, especialmente quando consideramos que fósseis de corais são frequentes tanto nos estratos contém trilobites como nos que contém peixes teleósteos. Ou que os fósseis das toupeiras estão mais acima que a maioria dos fósseis de peixes. É estranho que num dilúvio as toupeiras tenham sido entre as últimas a afogar-se e a ficar enterradas.
Pior ainda é que os fósseis não são apenas aqueles esqueletos enormes que vemos nos museus. São dentes, escamas, pólen, folhas, patas de insecto, pedaços de casca de ovo, e até fezes (coprólitos). O que JM propõe é que um dilúvio separou todos os fragmentos, fezes, e até pegadas de todos os animais e plantas de acordo com a sua espécie, sem uma única excepção.

JM também afirma que “deveríamos encontrar biliões de fósseis intermédios”, mas não explica o que quer dizer com “intermédios”. A evolução opera sobre populações, mas os fósseis são vestígios de indivíduos. Com indivíduos, um será intermédio entre outros dois se for descendente directo de um, e antepassado do outro, como o meu pai é intermédio entre mim e o meu avô.

Se escolhermos ao acaso três membros de uma família, com tios, primos, avós, tios-avós, e assim por diante, muito raramente vamos ter um avô, o pai, e o filho. O mais provável é encontrar primos, sobrinhos, e relações mais afastadas, pois essas são muito mais numerosas que relações de descendência directa. Se em vez de uma família tivermos milhões de indivíduos de inúmeras espécies, e em vez de meia dúzia de gerações considerarmos dezenas de milhões de anos, a probabilidade de encontrar ao acaso verdadeiros intermédios é praticamente nula.

Por outro lado, talvez JM queira dizer que são intermédios num sentido mais lato, de estarem em gerações intermédias e relativamente próximos de um descendente directo que tenha vivido nessa altura, mas sem ser necessariamente esse descendente directo em particular. Mas se é isso que quer dizer, então temos muitos casos de fósseis intermédios.

Mas o grande truque deste argumento é que o criacionista pode sempre aplicá-lo. Se tivermos dois fósseis, um mais antigo e outro mais recente na evolução de uma espécie, o criacionista pode dizer que falta um fóssil intermédio. Se encontrarmos um terceiro fóssil com características intermédias, o criacionista agora diz que faltam dois, pois agora há duas “lacunas” onde antes havia apenas uma. Esta característica pode tornar o argumento persuasivo num debate, mas torna-o completamente inútil na procura de explicações.

Em suma, o que JM propõe em substituição da paleontologia, tal como as suas propostas para revolucionar a biologia molecular e a genética, fica aquém duma explicação para o grande número de detalhes importantes que conhecemos, e que são explicados pela ciência moderna.

1 comentário:

  1. O Ludwig devia ter em mente que o problema da falta de elos intermédios não foi identificado inicialmente pelos criacionistas, mas pelo próprio Darwin, que achou que esse seria um forte argumento contra a sua teoria. Darwin estava convencido que a investigação se encarregaria de comprovar a sua teoria. No entanto, os fósseis intermédios não apareceram, facto em que criacionistas e evolucionistas só podem estar de acordo, na medida em que esses elos pura e simplesmente não existem. Há muitos mais fósseis vivos e fósseis polistráticos, em ambos os casos contrariando a evolução, do que hipotéticos elos intermédios. A mão cheia de exemplos que frequentemente é apresentada é altamente controversa para os próprios evolucionistas. De facto, Stephen Jay Gould afirmou que a falta de elos intermédios no registo fóssil é o segredo comercial dos paleontologistas, sendo que, em seu entender, nem se quer se consegue imaginar como seriam esses hipotéticos elos intermédios. Só que, o evolucionismo ficou tão ideologicamente enraizado na cultura ocidental que a falta de elos intermédios não levou à refutação da teoria da evolução, mas sim a uma nova teoria da evolução: o equilíbrio pontuado, ou saltacionismo. De acordo com esta teoria, a evolução, longe de ter sido um processo gradual foi um conjunto de saltos evolutivos tão rápidos que não deixaram vestígios no registo fóssil. O problema desta teoria é que ninguém sabe bem como é que a mesma encaixa no gradualismo das mutações aleatórias. O conhecido evolucionista Niles Eldredge disse tudo quando afirmou que, ou se aceita o gradualismo à margem de qualquer evidência fóssil, ou se aceita o saltacionismo à margem de qualquer evidência biológica. Para os criacionistas, nem se deve aceitar o gradualismo, porque contraria o registo fóssil, nem o saltacionismo, porque é biologicamente impossível. Decididamente os evolucionistas perderam todo e qualquer contacto com a realidade. Provavelmente pensam que atingiram o nirvana intelectual. Pessoalmente acho que se trata de autismo.

    ResponderEliminar

Se quiser filtrar algum ou alguns comentadores consulte este post.