domingo, agosto 26, 2012

Treta da semana: ensino profissional.

Há uns tempos criticaram alguns cursos superiores por falta de empregabilidade, sugerindo que o Estado regulasse a educação pelo mercado de trabalho em vez de por valores culturais ou pelos interesses dos alunos. Agora estão a aplicar o mesmo princípio ao ensino secundário. O ministro da educação quer «chegar aos 50 por cento na parte da escolaridade obrigatória [do 10º ao 12º ano] no ensino profissional»(1). Isto é uma asneira.

Primeiro, há o problema prático de implementar esta oferta no ensino público. A formação profissional é muito específica, exigindo muitos cursos diferentes como apoio à infância, apoio à gestão desportiva, animador sociocultural, gestão equina, turismo ambiental e rural, apoio psicossocial, vitrinismo e assim por diante (2). Além disso, as escolas têm de adaptar a oferta à procura na sua região. No entanto, os cursos são de três anos, do 10º ao 12º ano de escolaridade, e precisam de ser preparados com antecedência, o que implica um período mínimo de quatro anos entre a identificação das necessidades e a formação dos primeiros candidatos. É duvidoso que se consiga prever a procura por técnicos de vitrinismo ou de gestão equina com quatro anos de antecedência. Quem cair na larga margem de erro entre a estimativa e a realidade vai acabar com uma formação profissional especializada em algo que ninguém quer.

Há também o problema prático de organizar professores e alunos. Conheço um caso em que, após consulta do comércio local, um agrupamento de escolas reservou algumas turmas para formação de técnicos de vitrinismo. Não havendo docentes com experiência a preparar montras, desenrascaram-se com professores de áreas como educação visual. E acabou por não haver alunos, mas já não se podia alterar o número de turmas depois das inscrições. Esta caldeirada ad hoc de cursos, além de desperdiçar recursos, não garante um ensino de qualidade porque os mais habilitados para ensinar estas coisas são profissionais do sector privado e não os docentes do ensino público.

Deviam ser as associações de empresas a identificar e dar a formação que julgassem valer a pena. O contributo da escola pública seria, no máximo, o de dar aos alunos interessados algum tempo para terem estágios de formação nas empresas. Desta forma, garantia-se que só era dada formação profissional que valesse mesmo a pena (suspeito que muitos destes cursos só lá estão por estar), o sistema podia adaptar-se rapidamente às mudanças no mercado de trabalho e o ensino teria a qualidade que as empresas exigissem.

Pior do que estas questões práticas é o objectivo expresso de que «os jovens escolham as suas carreiras»(1) quando ainda estão na escola. Nem é uma altura boa para isso nem é realista esperar que vão fazer sempre o mesmo durante décadas de actividade profissional. O maior problema da nossa força laboral não está nos jovens acabarem o 12º ano sem experiência em gestão equina ou apoio psicossocial. O pior é o grande número de profissionais com pouca formação académica que passou décadas a fazer sempre o mesmo numa empresa que agora faliu. São excelentes profissionais mas demasiado especializados e sem capacidade para mudar de profissão. Em vez de prevenir esta situação com uma educação mais ampla vão agravar o problema afunilando a formação com o propósito declarado de formar trabalhadores menos adaptáveis. A par disto, cortam também «564 milhões de euros ao eixo da "adaptabilidade e aprendizagem ao longo da vida"».

Com a rapidez com que a tecnologia e o mercado mudam hoje em dia, o mais importante em qualquer profissão é a capacidade de aprender. Para que os profissionais sejam bons a longo prazo é preciso ensinar-lhes a ler, a resolver problemas, a estudar e a escrever. Em suma, a aprender. Desta forma facilmente aprenderão a gerir equídeos ou apoiar o turismo rural, conforme precisem. O contrário, escolher aos 16 anos uma carreira para a vida, é disparate.

Mas o mais importante é que o dever do Estado não é formar profissionais à conveniência das empresas. O dever do Estado é formar pessoas pelo direito que cada pessoa tem a uma educação, que é muito mais do que o mero treino profissional. Cada pessoa tem o direito de votar, de educar os seus filhos, de usufruir da sua herança cultural e de participar na criação artística e científica da sua sociedade. A educação pública deve garantir a formação necessária para exercer estes direitos, o que exige aprender coisas como ciência, filosofia e literatura em vez de aprender a servir cafés ou coser sapatos.

Enquanto a formação académica visa o desenvolvimento da pessoa, o que é um direito e transversal a todos os aspectos da sua vida, a formação profissional foca apenas a relação comercial entre o empregado e o patrão, e os seus benefícios económicos repartem-se por ambos. Por isso, a formação profissional devia ser um complemento à formação académica e nunca uma alternativa. E devia ficar a cargo das empresas porque estas, além de mais habilitadas do que o Estado, também beneficiam directamente de trabalhadores com formação profissional especializada. Ao Estado compete formar cidadãos capazes de exercer os seus direitos e de usufruir da sua cultura independentemente da profissão que escolham. Formar empregados é uma tarefa para as empresas.

1-SIC, Governo quer que 50% do ensino obrigatório seja profissional
2- DRELVT, Min.Edu.,Cursos profissionais de nível secundário (pdf)

sábado, agosto 25, 2012

A prova e os deuses.

Provar hipóteses acerca de deuses é um problema complicado, em grande parte, pela confusão entre vários significados de “prova”. Alguns entendem “prova” como uma dedução formal e, assim, conseguem provar a existência de (pelo menos) um deus. Por exemplo: só Deus pode causar o universo; o universo tem de ter causa; portanto, Deus tem de existir. O problema é que a dedução formal não diz nada acerca das premissas e depende totalmente delas. Por isso, é fácil provar também o contrário partindo de outras premissas. Por exemplo: Deus está fora do universo; o universo é o conjunto de tudo o que existe; portanto, Deus não existe. Se bem que a lógica formal seja útil para avaliar algumas inferências, não chega para fundamentar conclusões. Para isso é também preciso ter atenção ao que se assume à partida.

Outra noção de prova é aquela que conhecemos dos tribunais, de indício forte da verdade de uma afirmação. É neste contexto que surgem as ideias de que não se pode provar a inexistência de algo e de que é quem defende que algo existe que tem o ónus da prova. Isto não é a melhor maneira de ver um problema como o da existência de algum deus porque esta noção de prova é mais adequada ao sistema judicial do que ao diálogo racional ou à análise imparcial de hipóteses. Como é praticamente impossível provar que o acusado não matou ninguém, e sendo o homicídio punido com anos de prisão, é justo que presumi-lo inocente a menos que haja indícios fortes da sua culpa. Mas se estamos apenas a discutir a hipótese de haver zero, um ou mais deuses, não faz sentido ser a “acusação” a arcar com ónus da prova ficando a “defesa” isenta de se justificar. Num diálogo racional cada parte tem o dever de justificar a sua posição, qualquer que esta seja.

Além disso, é falso que não se possa provar a inexistência de algo. A maioria dos leitores provavelmente considerá cientificamente provado que não existem unicórnios, fadas ou klingons. Isto porque a prova científica não é uma dedução com premissas arbitrárias nem um caso de tribunal. A prova científica é a melhor explicação, aquela que resolve o enigma que os dados nos apresentam encaixando no resto do nosso conhecimento e exigindo menos premissas que não tenham confirmação independente. Não pode ser uma mera dedução porque não partimos de axiomas, e a própria interpretação dos dados é questionável. Nem tem o carácter definitivo do trânsito em julgado. É sempre trabalho em curso, sempre potencialmente provisória e sujeita a correcções. E tem de ser sempre avaliada por comparação com as alternativas.

Consideremos, para ilustrar, duas hipóteses acerca da origem do universo. Uma é a de que o universo foi criado por um deus omnipotente, inteligente, que existe fora do espaço e do tempo e que tinha vontade de criar isto tudo. A outra é que o universo surgiu de uma flutuação quântica espontânea, sem causa. Ambas nos dão um relato acerca de como isto tudo surgiu. No entanto, a primeira invoca excepções a tudo o que sabemos. Uma criação milagrosa, um ser omnipotente que existe fora do espaço e do tempo, e assim por diante. Tudo isto são premissas que não podemos confirmar independentemente desta hipótese, e nada disto encaixa no que sabemos acerca da realidade. Em contraste, temos confirmação independente de que a matéria pode surgir espontaneamente, sem causa, e a energia total do universo parece ser nula, exactamente o que teria de ser se, de acordo com o que sabemos, a energia tivesse de se manter conservada. Na verdade, as hipóteses da física para a origem do universo – sem invocar qualquer deus – são muito melhores do que o esboço grosseiro que apresento aqui. Ficam tão além do criacionismo milagreiro que podemos considerar que são uma prova científica sólida de que o universo não foi criado por um deus.

O mesmo se aplica à própria existência de qualquer ser mitológico, de Apollo a Zeus, passando por Jeová, fantasmas ou o Espírito Santo. Os muitos relatos deste tipo de coisa em todas as culturas constituem um enigma que precisa ser esclarecido. Mas a melhor explicação, em todos os casos – e não em todos excepto um, como defendem os crentes de cada religião – é a de que as pessoas inventam estas histórias. Não é preciso nada de sobrenatural para explicar a epopeia de Gilgamesh, o Livro dos Mortos, o Génesis ou o Corão, nem para explicar as crenças que surgiram à volta destes escritos. A explicação natural, pela natureza humana, é muito mais consistente com o que sabemos, parte de premissas que podemos confirmar independentemente e explica todos os dados sem problema. A prova científica da inexistência de deuses é evidente não só na física, na química e na biologia, mas também na história, na literatura e na psicologia. A ciência dá-nos explicações muito melhores para tudo aquilo que as religiões poderiam explicar invocando deuses, e isso é uma prova sólida de que esses deuses não existem.

Já agora, antecipando a objecção de que a fé não quer explicar nada, admito que até possa ser verdade em alguns casos mas é irrelevante. Também a crença no Pai Natal ou os livros do Homem-Aranha não pretendem explicar nada, mas assumir que esses seres não existem continua a dar-nos uma explicação melhor, mais entrosada no que sabemos e com mais fundamento independente, do que a hipótese alternativa. Por isso, queiram explicar ou não, neste momento temos uma prova sólida de que estes seres são fictícios. Não é uma conclusão definitiva nem uma certeza absoluta. Mas é uma certeza forte, considerando o que sabemos. Suficientemente forte para não dar o benefício da dúvida a estas tretas.

quarta-feira, agosto 22, 2012

Os campos.

Uma hipótese plausível da física moderna é que o Universo surgiu espontaneamente por processos quânticos descritos como flutuações nos campos correspondentes às partículas fundamentais. É este o tema central do livro de Lawrence Krauss, A Universe from Nothing. Há umas semanas o Alfredo Dinis transcreveu o que chamou «a devastadora crítica de David Albert a Krauss», na qual Albert afirma que os campos da mecânica quântica são “coisas físicas”, «não menos que girafas ou frigoríficos ou sistemas solares» e que «O verdadeiro equivalente ao nada nos campos da mecânica quântica relativista não é esta ou aquela combinação particular dos campos [mas sim] a simples ausência de campos»(1). Isto não faz sentido, e penso que o Alfredo só considerou esta critica como sendo “devastadora” porque não percebeu bem o que “campo” quer dizer neste contexto.

Matematicamente, um campo é uma função que relaciona pontos e valores. É uma abstracção e não um objecto material. Mesmo quando é aplicado na física, onde os valores são grandezas mensuráveis relevantes como a gravidade ou o electromagnetismo, continua a ser um conceito abstracto e podemos definir os campos que quisermos. Por exemplo, podemos definir o campo do chocolate como sendo a função que faz corresponder a cada ponto a massa do chocolate que estiver a menos de 10cm desse ponto.

É fácil ver que este campo não é uma “coisa física” como «girafas ou frigorificos ou sistemas solares», ao contrário do que Albert defende. O campo descreve, pelo seu valor numérico, algo de físico – a massa de chocolate nessa região do espaço – mas, por si só, é apenas um conceito. Não surge nada de novo no universo só por definirmos este campo*. Também é fácil perceber a confusão de perguntar se este campo existe, ou se existe na Terra ou em Marte. Este campo apenas “existe” como conceito mas, como podemos fazer corresponder qualquer ponto a um valor de massa de chocolate, “existe” tanto em Marte como na Terra. O que acontece é que, tanto quanto sei, em Marte todos os valores deste campo serão zero. Mas o campo “existe” em Marte da mesma forma meramente conceptual como “existe” na tablete de chocolate que tenho na cozinha. E como “existia” antes do universo existir.

Este é o primeiro ponto importante que queria que o Alfredo percebesse. Quando nós modelamos o universo, conceptualmente, como coisas a causar outras coisas, é inevitável perguntar “o que causou a primeira coisa?” porque qualquer ideia que formulemos nos compromete à existência dessas coisas pelas quais descrevemos o universo. Sejam deuses ou electrões. É assim que Albert está a pensar, e é assim que os teólogos, filósofos e cientistas pensaram neste problema durante muito tempo. Mas esta noção de campo dá-nos um ponto de partida diferente porque não presume nada acerca da existência de coisas. Pensar nos valores do campo do chocolate em Marte não presume haver chocolate em Marte, ou em lado algum. Nem faz sentido exigir “a ausência de campos”. No vazio do nada o campo do chocolate será nulo, mas “existe” lá da mesma forma como “existe” aqui e em Marte. Conceptualmente, mais nada.

Esta mudança de paradigma revela outro ponto importante. Quando pensamos em coisas (forças, ondas, matéria, etc) o estado mais elementar, a partir do qual teremos de explicar outros, será aquele em que nenhuma coisa existe. Daí a pergunta “porque existe algo em vez de nada?” Mas se pensarmos em campos em vez de em coisas, além de não se pôr a questão dos campos existirem ou deixarem de existir, também não é evidente que o valor que exige menos explicação seja sempre o valor nulo. Para o campo de chocolate é, porque qualquer valor não nulo implica uma mistura complexa de moléculas orgânicas muito específicas. Mas do campo electromagnético, por exemplo, o que sabemos é que não se pode manter exactamente nulo porque está sempre sujeito a uma indeterminação significativa e oscila espontaneamente. Neste caso, se definirmos um “nada” onde este campo é exactamente nulo já não estamos a definir um estado fundamental de onde explicamos o resto mas sim um estado que não se consegue explicar e que, tanto quanto sabemos, é impossível de atingir.

A crítica de que no nada não podiam existiam campos é tão disparatada como exigir que alguém inventasse o número um antes de poder aparecer a primeira coisa. O campo do chocolate sempre “existiu” porque é apenas um conceito, tal como o número um. E se queremos explicar a origem deste universo temos de o fazer a partir de um estado, mesmo que hipotético, que exija menos explicação. Isto força-nos também a rejeitar a ideia de que todos os campos seriam nulos porque, em geral, isso é impossível de justificar. Para perceber a resposta da física moderna à pergunta “porque há algo em vez de nada?” é preciso perceber estes dois aspectos. Primeiro, que os elementos fundamentais da descrição moderna da realidade não são as coisas em si mas sim conceitos matemáticos nos quais a existência ou inexistência de cada coisa é representada por combinações de valores. E, em segundo lugar, que o estado mais fundamental, menos carente de justificação, a partir do qual explicamos o resto não corresponde a ter exactamente, e permanentemente, zero em todos esses valores.

*Infelizmente. Mais chocolate é sempre bom.

1- Comentário em A fé, adenda.

domingo, agosto 19, 2012

Treta da semana: A nossa TDT.

A Televisão Digital Terrestre traz vantagens sobre a transmissão analógica de sinais de TV. A transmissão digital é mais robusta, os algoritmos de compressão reduzem a largura de banda necessária para transmitir vídeo com a mesma qualidade e é mais fácil transmitir em vários formatos. Mais importante, para os espectadores, pode-se facilmente ter dezenas de canais de TV gratuitamente, sem satélites nem subscrições de serviços por cabo.

Foi o que aconteceu aqui, ao pé de Valença. Tínhamos quatro canais e agora temos uns cinquenta. Graças à TDT. À TDT espanhola, claro. Porque portugueses continua a haver apenas quatro. O que é uma aldrabice.

A ANACOM concedeu a exploração de um quinto da banda disponível à Portugal Telecom (PT). Apesar de haver outras empresas interessadas na TDT, a ANACOM decidiu que o resto era para guardar, não se fosse estragar. Excepto a parte que vendeu para serviços de rede móvel 4G. Também à PT. Entretanto, ficamos apenas os quatro canais que já tínhamos mais, eventualmente, o do Parlamento. A PT tinha ficado também com uma concessão para canais de TDT pagos mas, em 2010, pediu para revogar o contracto, alegando que o negócio já não era viável, e que lhe dessem o dinheiro de volta. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social disse que isso era uma desculpa da treta e que não mereciam reembolso nenhum, mas a ANACOM teve pena e devolveu o dinheiro. Entretanto não houve mais concursos para essas frequências (1).

A gama de frequências é de todos, mas tem de ser gerida senão ninguém se entende. A justificação para concessionar a agentes privados um bem que é público é que, supostamente, uma empresa privada pode usar esse recurso para gerar algo cujo valor compense estar a cobrar-nos dinheiro para usufruirmos do que é nosso. Mas estas parcerias público-privadas só funcionam se não for a parte privada a decidir tudo e se o regulador regular como deve ser. Neste caso, estamos mal. A ANACOM tem favorecido a PT (2) e a PT apenas quer ficar com estes canais para vender os seus serviços de rede móvel e evitar que haja concorrência aos seus serviços de TV por cabo, que têm ganho muitos subscritores com a perda do sinal analógico (3). Entretanto, até a televisão pública, que já pagamos através da taxa audiovisual e dos impostos, tem canais transmitidos por cabo apenas a quem pagar novamente para os ver (4).

Penso que a única coisa boa na TDT em Portugal é haver tanto Portugal mesmo ao pé de Espanha. De resto, é mais um exemplo de como este país funciona.

1- Sérgio Denicoli, Os paradoxos da TDT portuguesa. Leiam também o blog do Sérgio: TV Digital
2- O que não é de admirar, com coisas como esta: Novo vogal da Anacom era membro do Conselho Consultivo da PT
3- MEO foi o grande beneficiado após a chegada da TDT e ampliou em 185,7% o total de clientes e Telecom: PT com 1,111 milhões clientes Meo no 1.º trimestre, aumento de 27%
4- Deputada utiliza argumento equivocado ao justificar ser contra à inclusão dos canais da RTP na TDT e Resposta da deputada Francisca Almeida, do PSD, a respeito do pedido para que os canais da RTP sejam disponibilizados na TDT

sábado, agosto 18, 2012

A “evidência científica”.

Hoje é difícil às tretas admitirem ser contra a ciência. Não seria bom para o sucesso comercial de um astrólogo admitir que aquilo que defende contradiz a astronomia, ou um reflexólogo reconhecer que as suas premissas são contrárias ao conhecimento médico, ou um teólogo confessar que chega às suas conclusões por inferências que a ciência rejeita como inválidas. Por isso a moda é alegarem que não fazem parte da ciência mas que também não estão contra, complementando-a no estudo de outras dimensões da realidade ou coisa assim. Enfim, desculpas para fingirem ter a mesma legitimidade da ciência sem se sujeitarem àquele grau de exigência que os impediria de chegar às conclusões que escolheram à partida.

Uma peça importante neste truque é a falsa distinção entre “evidências científicas” e “evidências não científicas”, como se o carácter de ser científico estivesse nas evidências em vez de estar nos processos de inferência. Para isso invocam as tais coisas do Céu e da Terra das quais a filosofia do Horácio nem sonha. Que, com o passar do tempo e o progresso científico, vão mudando e sendo cada vez menos. Antigamente era quase tudo, das doenças às reacções químicas ou o magnetismo. Depois foi a electricidade do Dr. Frankenstein, mais tarde a radioactividade do Dr. Banner. Agora que a ciência se intrometeu nisso tudo e que a filosofia do Horácio está bem maior e mais sonhadora, estão reduzidos a apelar vagamente a aspectos subjectivos da nossa vida, como o amor ou a intuição. O Alfredo Dinis até afirmou que «a nossa vida diária [...] está cheia de evidências não científicas»(1), mas sempre com o cuidado de não dizer em rigor quais são nem porque não hão de ser científicas.

Isto é um erro. Consideremos, por exemplo, o comportamento dos pais ou cônjuges. O comportamento em si é um dado perfeitamente científico e faz parte da análise de factores de risco na violência familiar ou no abuso de crianças, por exemplo. O que não é científico é alguém levar pancada do cônjuge mas ainda achar que o cônjuge lhe tem amor. Isso não é científico, mas o problema está na inferência e não na evidência.

É o que se passa com as evidências invocadas para justificar os dogmas religiosos. Que muitos milhões de católicos acreditam que Maria ascendeu corporalmente ao Céu é um dado tão científico como qualquer outro. Pode ser útil para uma caracterização antropológica, sociológica, histórica ou psicológica destas pessoas. O que não é científico é inferir daí que é mesmo verdade que Maria ascendeu ao Céu de alma, corpo e eventualmente roupa vestida. O facto de pessoas acreditarem em algo – mesmo que sejam muitas pessoas e com uma crença sentida – não justifica concluir que é verdade sem mais nada que o justifique. Esta inferência não é científica porque é um disparate.

Este é outro aspecto importante que muitos tentam baralhar. A distinção entre científico e não científico não é meramente arbitrária. Não são jogos nem alternativas igualmente legítimas para conhecer a realidade. Quando formamos opiniões acerca dos factos há muitos factores que nos podem induzir em erro. Conclusões precipitadas, enviesamentos, pressões psicológicas e sociais e assim por diante. A ciência é todo o conjunto de técnicas que fomos desenvolvendo para combater estes erros. Se ajuda a reduzir a probabilidade de erro, é científico. Se não ajuda, não é. Todas as alternativas – seja fé, tradição, intuição, autoridade, revelação divina, opinião popular ou o que for – são mais susceptíveis de nos levar a errar.

Não há evidências científicas e não científicas. Há formas diferentes de procurar descrições correctas da realidade. Aquelas que contribuem para minimizar a taxa de erros chamam-se ciência. O resto é treta.

1- Comentário em A fé, adenda.

domingo, agosto 12, 2012

Treta da semana: especial silly season.

As seitas mais ortodoxas do judaísmo consideram pecado qualquer contacto entre homens e mulheres fora do casamento. Por isso, em Israel, exercem muita pressão para segregar homens e mulheres nas filas das lojas, nos transportes públicos e assim por diante. Como disparate não paga imposto, por “contacto” entendem também olhar para as mulheres. Mas aqui, finalmente, tomaram uma opção mais justa. Agora os homens judeus ortodoxos podem comprar óculos especiais que obscurecem a visão (1), evitando assim o perigo de ver alguma mulher. Correm mais perigo de serem atropelados, é verdade, mas, no cômputo geral, não é uma grande desvantagem.

Além de ser uma bonita metáfora para a forma como as religiões lidam com a realidade, estes óculos são também um bom exemplo para todos os religiosos. Em vez de chatearem os outros com as suas crenças religiosas resolvem o problema na origem: se não querem ver mulheres, tapam os olhos e não as mulheres. Simples, eficaz e, dentro da insanidade que as religiões invariavelmente são, é certamente o mal menor.

Infelizmente, suspeito que, se fosse por eles, em vez de serem os homens a usar os óculos de ver pior, punham era as mulheres em sacos de lona ou coisa assim. É a solução consensual noutros lados em que conseguem fazê-lo. Suspeito que é apenas a crescente tendência dos seus conterrâneos para troçar destes disparates religiosos, e para opor os abusos da fé, que tem obrigado esta mudança de atitude (2). Mas, por sua vez, este pequeno passo, mesmo contra vontade, poderá contribuir para reduzir o fervor religioso. É que, se a religião deixa de servir para mandar nos outros, perde logo quase todo o interesse. Se é assim mais vale ficar só pela fé, e mesmo isso só quem quiser.

1- Daily Mail, Orthodox Jewish men given a new weapon in the war against sexual temptation… blurred glasses so they can’t see women
2- Frum Satire, Charedi technology to fight the war on pritzus

sexta-feira, agosto 10, 2012

Disto e daquilo, 2.

Notícias
A propósito das cheias na Indonésia nas Filipinas, ouvi ontem no noticiário da TVI que se prevê uma precipitação de 40cm por metro quadrado. É como o limite legal da velocidade ser 120Km/h por automóvel ou alguém ter a idade de 18 anos por pessoa. Também estavam a evacuar as pessoas. A menos que estejam com problemas graves de prisão de ventre, parece-me preferível evacuar as zonas afectadas pelas cheias. Outra calinada irritante, e permanente durante a época de incêndios, é a treta dos cinco meios aéreos, dois meios aéreos ou, quem sabe, um meio aéreo. Caros jornalistas, os meios são os recursos em geral. Não é um meio por cada avião ou helicóptero. Já agora, deixo também um pedido aos agentes da autoridade para que, quando usarem um cão para farejar drogas, digam que usaram um cão. Não chamem “binómio” ao bicho só porque vem com um guarda a segurar a trela. Se tiverem vários cães vai ser o quê? Um polinómio?

Multa
O grupo Jerónimo Martins foi condenado a pagar a multa máxima pela venda de quinze produtos abaixo do seu custo na promoção de dia 1 de Maio. Terão de pagar trinta mil euros. No entanto, é provável que contestem a decisão em tribunal, assim que conseguirem parar de rir.

Código
A Maria Madalena Teodósio tem tentado explicar algumas coisas de evolução ao Jónatas Machado, entre as quais que o código genético é uma invenção nossa e não uma prova de que o ADN foi criado pelo menino Jesus (1). Desejo-lhe boa sorte na ingrata tarefa e aproveito para apontar que o código que usamos para designar o ADN não são as quatro letras – A, C, G, e T – correspondentes às quatro bases dos nucleótidos. Temos também o Y para qualquer uma das pirimidinas (C ou T), o R para as purinas (A ou G), W, S, K, M, e assim por diante. E como N designa qualquer nucleótido, todos os genes podem ser escritos como NNNNN...(2) É realmente um código inteligente, mas um código que serve para trocarmos, entre nós, informação acerca dessas moléculas. À citosina tanto faz se lhe chamamos C, M, S ou X.

Ordenados
Um dado que, aparentemente, surpreendeu alguns jornalistas, foi o de que «Serralheiros, canalizadores e torneiros mecânicos podem conseguir ordenados mais altos do que arquitetos ou advogados» (3). Além do problema metodológico de considerarem os valores extremos de três mil ofertas de trabalho como representativos seja do que for, não acho estranho que um canalizador ganhe mais do que um recém-licenciado em direito. Ser canalizador não é trivial e só é canalizador quem tiver experiência profissional, tendo demonstra não só que sabe mas que sabe fazer. Um recém licenciado teve apenas a experiência de trabalhar para si. Falta-lhe ainda mostrar que se safa quando aquilo que faz tem consequências para os outros.

Pirataria interplanetária
Pouco depois da NASA pôr no YouTube um vídeo da aterragem* do Curiosity, o vídeo foi retirado por violação de copyright. A queixa veio de uma empresa privada de notícias que tinha usado o vídeo da NASA, gratuitamente, e tinha-o registado como seu no sistema de gestão de conteúdos do YouTube (4). Isto mostra três coisas. Primeiro, a deturpação de valores acerca da distribuição. As alegações de direitos exclusivos, mesmo sem fundamento, têm toda a prioridade enquanto que o direito de expressão e de acesso à informação são tão irrelevantes que até automatizam o bloqueio e quem for injustamente penalizado que se amanhe. Enquanto quem faz estas alegações falsas não sofre consequências, um cidadão britânico vai ser vai ser extraditado para os EUA por ter um site com ligações a ficheiros sob copyright alojados noutros sítios, algo que nem é claro que seja crime no seu país mas que lhe pode dar cinco anos de cadeia nos EUA(5). Em segundo lugar, este episódio mostra como os monopólios sobre a distribuição afectam mesmo os produtores que não os querem. A NASA tem peso para resolver estas coisas rapidamente, mas muitos não têm essa facilidade (6). E, em terceiro lugar, mostra que se pode produzir obras caras sem precisar de monopólios sobre a distribuição. Pôr o Curiosity em Marte custou 2500 milhões de dólares. Se até ciência a este nível se pode fazer sem direitos exclusivos não vejo desculpa para filmes e canções terem esses privilégios legais.

* Vem de terra, e não de Terra, por isso é que é amaragem quando cai no mar na Terra e aterragem quando cai na terra em Marte.

1- Neste post, com os resultados esperados. Talvez melhor seja dar uma olhada no blog da Maria Madalena Teodósio.
2- IUPAC ambiguity codes.
3- Ofertas de emprego para soldadores e mecânicos com salários mais altos que doutores e engenheiros
4- Motherboard, NASA's Mars Rover Crashed Into a DMCA Takedown
5- Huffington Post, Richard O'Dwyer Memo Leaked To TorrentFreak Reveals MPAA's Insecurity In Piracy Fight
6- Lon Seidman, via BoingBoing.

segunda-feira, agosto 06, 2012

Treta da semana (passada): a posição oficial.

Há duas semanas mencionei o caso de Sanal Edamaruku, escrevendo apenas que «mostrou que a água milagrosa que brotava de uma estátua de Jesus não vinha de Deus mas sim de um cano entupido. Como a lei de lá pune quem “magoa sentimentos religiosos”, os bispos católicos querem mandá-lo já para a prisão enquanto aguarda julgamento»(1). Sem dar exemplos concretos, o Alfredo Dinis acusou «Os ateus de língua portuguesa» de relatar este episódio «pelo processo de copy-paste, sem [...] confirmar a verdade do que copiam.»(2) Segundo o Alfredo, o exemplo de «incorrecções e inverdades que [os ateus] apresentam acriticamente como verdades» é, desta vez, dizermos que «De uma imagem de Cristo Crucificado saiam gotas de água, o que logo foi considerado como milagre pela Igreja Católica. Demonstrado porém por Sanal que se tratava de um fenómeno natural de infiltração de águas na estátua, logo a Igreja Católica o levou a tribunal.» O Alfredo dedica-se então a demonstrar que a Igreja Católica não tinha proclamado oficialmente o milagre. Para nada, porque nem vi alegarem que a Igreja Católica tinha oficializado o milagre nem é isso que importa.

Várias associações católicas acusam Sanal de «ferir deliberadamente sentimentos religiosos e tentar actos maliciosos visando ultrajar os sentimentos religiosos de uma classe ou comunidade», o que é crime na Índia(3). A posição oficial da Igreja Católica acerca do milagre é irrelevante. O que importa é quererem meter o homem na prisão por isto. Mas isso não vem nem no post do Alfredo nem na declaração do Bispo de Bombaim acerca do sucedido.

O Alfredo transcreve essa declaração do Bispo Agnelo Gracias. Explica que a Igreja não se pronunciou acerca do milagre, por isso é possível que a água gotejante tenha explicação natural, mas o Sanal fez três alegações que o Bispo considera falsas e pretende corrigir assim: primeiro, a Igreja não defende a veneração de imagens porque, segundo o Bispo, há uma grande diferença entre honrar e venerar; segundo, a Igreja não fez aquela estátua para ganhar dinheiro; finalmente, nem a Igreja nem o Papa são contra a ciência. Como o Sanal afirmou o contrário, escreve o Bispo, então tem de pedir desculpa.

Antes de abordar as alegações do Bispo, queria reiterar que o problema não é quererem que ele peça desculpa. Se este fosse apenas mais um caso de crentes a queixarem-se de ofendidos não teria a gravidade que tem. O problema, que gostava que o Alfredo abordasse, é quererem mandar o Sanal para a prisão por causa disto. É um problema que me toca pessoalmente.

Tal como o Sanal, eu também defendo que a religião é incompatível com a ciência. A fé, os argumentos de autoridade, as alegadas revelações por processos misteriosos e irreprodutíveis e a mitologia sobrenatural são tudo coisas que a ciência rejeita com boas razões. A distinção entre “honrar” e “venerar”, no contexto de ir uma carrada de gente em procissão atrás da estátua de Maria, fazer fila para beijar o Jesus na cruz ou rezar à figura do santinho, não passa de demagogia. Certamente que os doutos teólogos terão muito a apontar sobre a etimologia destas palavras e as várias interpretações filosóficas dos termos mas, para a massa associativa que suporta a religião, esta é uma distinção sem diferença. E eu também critico a atitude da Igreja Católica, e todo o complexo politico-económico da superstição, por se aproveitarem da credulidade de milhões acerca de milagres, aparições, santos e afins.

Por isso preocupa-me esta atitude do Alfredo. Eu defendo o direito do Alfredo dizer mal dos ateus sempre que quiser, mesmo achando que ele não tem razão. E se algum ateu se ofender será a infantilidade do ateu que criticarei. Mas, apesar do Alfredo me parecer uma pessoa decente, se a lei aqui me prendesse por dizer o mesmo que o Sanal disse, suspeito que o Alfredo não se iria preocupar com os meus direitos. Temo que a sua indignação se reduzisse a apontar alguma confusão acerca de uma “posição oficial”, mesmo que a alegada confusão fosse inventada na altura. Esta é uma grande diferença entre a crença pessoal e a religião.

As crenças pessoais são um direito e, normalmente, são inofensivas. Seja no Jesus, no Joseph Smith, no SLB ou no pastel de Belém, uma pessoa boa e decente, deixada à vontade com as suas crenças, naturalmente as adapta aos seus valores e continua boa e decente. Mas o empacotamento de crenças em religiões, regulamentadas por autoridade e burocracia, tem este efeito perverso que o Alfredo, inadvertidamente, ilustra. A indignação que uma pessoa decente como o Alfredo devia sentir perante esta injustiça que é condenar o Sanal à prisão morre soterrada em dogmas, autoridade e “posição oficial”.

As atrocidades da Igreja Católica estão no passado. Hoje é mais o Islão que maltrata, tortura e mata quem discordar. Mas todas as religiões tentam recuperar a velha glória porque, ao contrário do que alguns julgam, o problema não é haver gente pérfida a deturpar a religião. A maior parte das pessoas é decente, se as deixarem com a sua consciência. É a institucionalização das crenças em “posições oficiais” que leva milhões de pessoas, de outra forma decentes, a cometer ou permitir tanta barbaridade.

«Religion is an insult to human dignity. With or without it you would have good people doing good things and evil people doing evil things. But for good people to do evil things, that takes religion.» (Steven Weinberg)

1- Treta da semana: o que eles querem sei eu.
2- Alfredo Dinis, Ateísmo (em) português (2)
3- Change.org, We call on the Catholic Archdiocese of Bombay to encourage the withdrawal of complaints against Indian Rationalist Sanal Edamaruku

sexta-feira, agosto 03, 2012

A fé, adenda.

A propósito do post anterior, o leitor rage comentou que «o apego às [...] crenças, a convicção do seu valor, mesmo quando injustificado» é comum em todos os humanos, não apenas nos fiéis de alguma religião, mencionando também a « necessidade em ciência de realizar testes com grupos de controlo para estabelecimento de baselines, e/ou com ocultação, para prevenir interpretações oblíquas dos resultados» (1). Tem razão, e é um ponto importante, mas a minha intenção não era alegar que só quem tem fé é que está sujeito a este erro.

Alguma subjectividade é inevitável quando formamos uma crença, mesmo acerca de factos, porque temos de escolher onde pomos a fasquia do nosso cepticismo. Se é a uma confiança de 95%, como em muitos ensaios clínicos preliminares, ou a cinco sigma como na física de partículas, é uma decisão maioritariamente subjectiva. Mas há sempre um ponto a partir do qual o peso das evidências é suficientemente forte para reconhecemos que é erro defender uma opinião contrária. É um erro que todos podemos cometer; mesmo perante evidências fortes podemos ser pressionados por factores epistemicamente irrelevantes mas emocionalmente persuasivos. No entanto, é algo que reconhecemos como um erro e, por isso, em ciência temos a preocupação de o combater. Não só com que o rage mencionou, mas também formulando várias hipóteses em vez de considerar uma isolada, com a revisão pelos pares e a descrição cuidadosa dos métodos para confirmação independente, a crítica aberta e pública e assim por diante.

O que sobressai na fé religiosa é considerar que, para certas hipóteses acerca de um deus ou de escrituras sagradas, esse enviesamento que em tudo o resto se reconhece ser erro afinal é virtude. Quem não for criacionista percebe que acreditar numa criação em seis dias há poucos milhares de anos é teimosia fanática. Quem não for católico vê que é absurdo julgar o Papa infalível, seja no que for. Quem não for hindu ou budista reconhece que a crença na reencarnação não tem fundamento. Mas para o seguidor de uma religião manter as respectivas crenças é mais importante do que corrigir esse erro que é óbvio para os outros, e que até é óbvio para o próprio quando contempla as crenças dos outros.

1- A fé.

quinta-feira, agosto 02, 2012

A fé.

O Nuno Gaspar perguntou-me, com o seu jeito cristão gentil e educado, o que eu queria dizer quando afirmei que a fé «É uma meta-convicção, uma convicção no dever de estar convicto de algo» (1). Ora aqui vai.

O termo “fé” inclui várias coisas como crença, confiança, fidelidade, esperança e perseverança, que não são exclusivas daquilo que as religiões chamam fé. Não é preciso ter fé, nesse sentido religioso, para acreditar que o Sol é uma estrela, para confiar num amigo ou lhe ser fiel, para ter esperança que o PSD saia do governo ou para perseverar naquilo que se considera importante. O que caracteriza a fé, como os religiosos a entendem, é a crença de que certas crenças acerca dos factos têm valor por si. É uma meta-crença peculiar.

Não é peculiar só por ser meta-crença. No que toca aos valores, a crença no valor da crença é comum, e até esperada. Por exemplo, se eu acredito que ajudar os outros é uma virtude, é de esperar que também acredite que essa crença é uma virtude. Julgarei ter um defeito de personalidade alguém que acreditar que nunca se deve ajudar os outros, independentemente de os ajudar ou não. Em matéria de valores, as próprias crenças têm valor, bem como as crenças no valor das crenças e assim por diante.

No entanto, apesar de isto fazer sentido com valores é absurdo com os factos. Acreditar que o Sol é uma estrela não é uma virtude, só por si. É uma boa crença, assumindo que é verdade, mas se fosse falsa seria de rejeitar. A diferença é evidente quando consideramos uma situação que ponha em causa uma crença. Em questões de valor podemos ter um dilema constrangedor. Por exemplo, se só com uma tortura terrível é que podemos obrigar o terrorista a dizer onde escondeu a bomba antes que expluda, temos de escolher entre a crença de que é sempre mau torturar e a crença de que é sempre bom salvar vidas. Mas isto é constrangedor precisamente porque é uma escolha. Em matérias de facto as coisas são como são, e resta-nos apenas ajustar as nossas crenças ao que as evidências indicam. Descobrirmos que o Sol, afinal, não é uma estrela, seria surpreendente, seria uma revolução na ciência, mas não haveria razão para dilemas ou constrangimentos. Se as evidências mostrassem claramente que o Sol não era uma estrela o sensato seria mudar de crença e pronto.

O aspecto mais característico da fé é o valor que dá a certas crenças acerca de factos, como se fossem acerca de valores. Para a maioria das pessoas, encontrar evidências de que a Terra é mais antiga do que julgavam leva simplesmente a mudarem de crença. Para um fundamentalista evangélico não é assim, e evidências de que a Terra surgiu há muitos milhões de anos em vez de poucos milhares é fonte de um grande constrangimento porque a sua fé religiosa inclui a convicção de que deve acreditar numa Terra recente. Se acreditar que a Terra tem milhares de milhões de anos de idade está a ser infiel à sua religião.

É por isto que a fé é intrinsecamente contrária à razão e à ciência. Racionalmente, uma crença acerca da realidade só tem valor na medida em que corresponder aos aspectos da realidade que refere. E, epistemicamente, o valor de uma crença depende também da justificação objectiva para concluir que há tal correspondência. Por isso, a atitude correcta é estar disposto a mudar de crenças acerca dos factos sempre que as evidências o justificarem, sem problemas de consciência ou dilemas morais. A fé rejeita essa atitude de imparcialidade atribuindo a certas crenças acerca de factos um valor – até mesmo um dever moral – maior ainda do que o valor dado às evidências. Quem acredita por fé não precisa de evidências que suportem a sua crença nem liga a evidências que a refutem. Porque está convicto do dever de acreditar assim.

«Ora a fé é garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se vêem.» Carta aos Hebreus, 11-1.

1- Comentários em Treta da semana: o que eles querem sei eu.

domingo, julho 29, 2012

Treta da semana: o que eles querem sei eu.

O Gonçalo Portocarrera de Almada escreveu que se deve promover, «com empenho, o direito à liberdade de todos os cidadãos» e que «um compromisso conjugal definitivo não só não é uma excepção a essa irrenunciável prerrogativa da condição humana, como uma sua excelente e muito meritória realização. Compete ao Estado garantir que a todos sejam dadas todas as condições necessárias para que as suas opções sejam verdadeiramente livres, mas não lhe cabe impedir aquelas escolhas que, mesmo não devendo ser exigidas a todos, podem legitimamente ser queridas por alguns. Um ordenamento jurídico que proíbe qualquer compromisso sério, como é o que pressupõe uma entrega definitiva, com o pretexto de assim salvaguardar a autonomia dos cidadãos, não é apenas uma lei paternalista, mas uma norma que não respeita a liberdade dos indivíduos e que, neste sentido, é potencialmente totalitária.» (1) Estou inteiramente de acordo. O Estado deve respeitar o direito das pessoas de assumir «um compromisso conjugal definitivo» e não deve proibir um compromisso sério a quem o quiser assumir.

É isso que o Estado português faz. Quando duas pessoas se casam, são só essas pessoas que decidem quão definitivo e sério é o seu compromisso. O Estado não as obriga a divorciar-se por estarem casadas há tempo demais nem o notário recusa oficializar um casamento só por os nubentes declararem que é para a vida toda. É como quiserem. É por isso estranho o Gonçalo afirmar que «Quando o Estado e as instituições internacionais [...] não permitem a possibilidade jurídica de um matrimónio civil indissolúvel [...] incorrem na mais insanável contradição porque, em nome da liberdade, combatem uma das suas mais nobres e altruístas expressões.» Lido à letra, isto não faz sentido porque proibir os contractuantes de dissolverem o contracto não lhes dá mais liberdade. Pelo contrário. Neste caso, tira-lhes a liberdade de serem, aos 40 ou 60, diferentes do que eram aos 18 ou aos 25.

Mas o Gonçalo é padre católico e não deve gostar de usar os termos com o seu significado literal. Neste caso, parece usar o termo “liberdade” no estranho sentido de “o Estado obrigar alguém a ficar casado, mesmo que já não queira, só porque assinou um papel”. Isto para um profissional da reinterpretação bíblica não é façanha nenhuma (2) mas, para leigos como eu, é confuso. Afinal, ser livre não é o mesmo que ser obrigado. Além disso, leis que obriguem a permanecer casado quem já não quer não trazem vantagens aos envolvidos e desperdiçam o dinheiro dos impostos. O único benefício é para pessoas como o Gonçalo.

As religiões, que não são a fé de cada um mas as instituições que a regulam, são organizações peculiares. A maioria das organizações, sejam clubes de futebol, empresas ou partidos políticos, divide os seus esforços entre os seus objectivos e os meios para os conseguir. Mas os objectivos das religiões são, literalmente, do outro mundo. Por isso, neste acabam por dedicar todos os esforços aos meios, que passam a ser os próprios fins. Dinheiro, poder e influência. É daqui que vêm as tentativas constantes de meter o bedelho na vida das pessoas. O Gonçalo lamenta o «laicismo que pretende relegar a fé cristã para a intimidade das consciências, ou os esconsos das sacristias», mas é precisamente aí que a fé pertence. Na intimidade e nas igrejas. Nunca na lei. Fazer da fé pessoal uma norma social viola o direito de ter fé, o direito de não a ter e o direito de mudar de ideias. Além disso, é um perigo. Muita gente julga que a religião é terrível no Irão, Afeganistão ou Arábia Saudita por serem muçulmanos mas que os cristãos são porreiros. Isto é um erro. Qualquer religião é tão terrível quanto puder. O cristianismo dá exemplos que baste, ao longo da história, e mesmo o catolicismo do século XXI o demonstra repetidamente com casos como a lavagem de dinheiro no Vaticano, o encobrimento da violação de crianças e a perseguição do racionalismo.

Na Índia, Sanal Edamaruku mostrou que a água milagrosa que brotava de uma estátua de Jesus não vinha de Deus mas sim de um cano entupido. Como a lei de lá pune quem “magoa sentimentos religiosos”, os bispos católicos querem mandá-lo já para a prisão enquanto aguarda julgamento (3). A diferença entre a situação na Índia e em Portugal não está no catolicismo, que é o mesmo, nem nos padres, que defendem a mesma ideologia. A diferença está na sociedade e na lei. A religião católica é menos tolerante na Índia porque pode e só é mais tolerante cá porque não tem outro remédio.

Muitos, crentes e não crentes, protestam contra o “ateísmo militante” por criticar religiões e dizer mal das crenças das pessoas. Mas é preciso. A fé é um substrato fértil para estas organizações que visam impor a todos as suas ideologias e ficções, e só uma pressão contrária constante pode manter a fé na esfera privada, onde pertence e onde só faz mal a quem quer. Por isso, e por muito repetitivo que seja, é preciso continuar a desmascarar estas demagogias. Os religiosos profissionais vão sempre lutar por mais poder, seja para obrigar uns a ficar casados, proibir outros de casar, regular a sexualidade ou o que mais conseguirem. Nunca vão reconhecer que todos temos o direito de mudar de opinião, seja no casamento, seja na fé ou religião. Se convencem a sociedade que renunciar ao direito de mudar de opinião acerca do casamento é um exercício de liberdade, é mais fácil fazerem o mesmo com a fé a tornar a apostasia num crime. Ou a blasfémia, ou tudo o que não lhes der jeito. Só param onde os pararmos.

1- Gonçalo Portocarrero de Almada, A opção por um matrimónio civil indissolúvel, via Senza
2- Por exemplo, como Deut. 21, 18-21:«Se alguém tiver um filho rebelde e incorrigível, que não obedece ao pai e à mãe e não os ouve, nem quando o corrigem, o pai e a mãe pegarão nele, levá-lo-ão aos anciãos da cidade para ser julgado. E dirão aos anciãos da cidade: "Este nosso filho é rebelde e incorrigível: não nos obedece, é devasso e beberrão". E todos os homens da cidade o apedrejarão até que morra. Deste modo, eliminarás o mal do meio de ti, e todo o Israel ouvirá e ficará com medo.»
3- Slate, Jesus Wept e New Humanist, Sanal Edamaruku update: Indian Catholics demand apology over miracle debunking

Miscelânea Criacionista: uma coisa de cada vez.

Segundo o Mats, a teia de aranha é «Uma das coisas mais pegajosas que existe na natureza» e composta por «fibras que para além de serem mais fortes que qualquer fibra construída pelos homens que tenha a mesma espessura, incluindo o Kevlar e o aço, são também resistentes ao calor»(1). O Mats exagera um bocado; tubos de nanocarbono têm uma tensão de ruptura (2) dezenas de vezes superior à da teia de aranha (3), e mesmo fibras compostas de grafeno e polímeros são mais resistentes (4). Mas é verdade que as teias de aranha são muito sofisticadas e têm um desempenho notável. Da aparência de design o Mats conclui que a teia de aranha foi criada por um «Designer Supremo» e que esse designer é o menino Jesus. É assim que se tira conclusões no criacionismo evangélico.

No entanto, esta ilusão de design inteligente só sobrevive pela contemplação isolada de aspectos bem escolhidos. Por exemplo, se olharmos para a reprodução da aranha, em vez da teia, a ilusão de inteligência fica abalada. Em muitas espécies de aranha a mãe põe uns milhares de ovos de cada vez e os filhos dispersam-se com o vento, cada um agarrado ao um filamento de teia. Como as populações tendem a ser estáveis, em média apenas dois filhos de cada fêmea sobrevivem até acasalar. Isto dá uma taxa de mortalidade infantil da ordem dos 99.9%, com a vasta maioria a afogar-se em poças, a desidratar ao sol ou a ficar-se por comida de lagartixa e pássaro. É uma forma pouco inteligente de constituir família.

Não só é fundamental, para o criacionista, escolher com cuidado o aspecto que foca, como é importante isolá-lo de outros. Outra maravilha do ilusório design inteligente é a asa dos lepidópteros, das traças e borboletas, coberta de minúsculas escamas que estão presas com a força suficiente para resistir ao vento e ao voo mas que se soltam facilmente quando o insecto choca com uma teia de aranha (5). O que deu origem a outro exemplo de aparente inteligência no design. As aranhas do género Scoloderus fazem umas teias compridas, na vertical, especificamente para apanhar traças e borboletas. As escamas das asas safam o insecto do primeiro contacto com a teia mas, ao rebolar pela “escada” abaixo, o infeliz bicharoco vai ficando cada vez com menos escamas e menos desculpas para não ficar para o jantar (6).

Cada um destes atributos, a cola da teia, as escamas das asas e a escada de teia, parece uma solução inteligente para o problema que tenta resolver. Mas, em conjunto, o padrão não sugere nada que isto seja obra de um único ser inteligente. A menos que seja esquizofrénico. Esta corrida ao armamento tem de ser produto de muito antagonismo e competição, exactamente o que prevê a teoria da evolução.

O Mats usa também esta estratégia de compartimentalização para a pergunta «Por que é que Deus [...] criou um dispositivo para caçar insectos?», que é pertinente porque o Mats defende que Deus criou tudo no Paraíso. Além de alegar que a teia podia servir para apanhar pólen, que as aranhas podiam ser vegetarianas e que, de qualquer maneira, não têm “alma vivente”, o Mats aponta como ponto principal que «a resposta a essa pergunta é irrelevante para o facto de design.» Mas não. O propósito é relevante se queremos avaliar a inteligência de um design. Por exemplo, o design do piaçaba é inteligente se o objectivo for limpar sanitas mas não se for para palitar os dentes. O mesmo para a aranha. A sua teia não é uma forma inteligente de recolher pólen e um animal que caça de emboscada não é um design inteligente para herbívoro*. Sobretudo, não é inteligente dotar as aranhas de teias sofisticadas para apanhar insectos, depois criar traças com defesas sofisticadas contra essas teias para, finalmente, criar outras aranhas com teias especialmente adaptadas às defesas das traças. Para defender que isto é design inteligente é preciso explicar o propósito destas voltas todas.

Este truque de isolar alegações serve para qualquer treta. Foca-se o milagre do sinistrado que se salvou ignorando os outros vinte que morreram. Apresenta-se o caso em que o “remédio” parece ter funcionado sem olhar para a maioria em que não fez efeito. Defende-se aquela interpretação do texto sagrado quando qualquer outra teria igual fundamento. E assim por diante. Há uma grande diferença entre tentar compreender a realidade e tentar enfiar barretes. Para perceber como as coisas são é preciso encaixar as ideias, não só porque muito da compreensão está nesse encaixe como também para eliminar modelos e métodos que sejam inconsistentes com o restante conhecimento. Para enfiar barretes é precisamente o contrário. Com o conhecimento que temos hoje, um disparate destes só parece plausível com as palas bem postas à volta dos olhos.

* Em geral, os herbívoros não precisam de ficar de atalaia, à espera que a planta se distraia, para lhe saltar rapidamente em cima. Mas, curiosamente, o caso da Bagheera kiplingi, uma aranha predominantemente herbívora, é uma excepção. Esta aranha come as pontas das folhas das acácias, árvores que albergam formigas agressivas que defendem as apetitosas folhas novas. Esperando numa folha velha, onde as formigas não vão, a aranha usa a sua visão aguçada de predador para escolher o momento certo. Depois corre rapidamente para a “presa” e “caça” um pedaço de folha antes que as formigas a apanhem (7). Mais uma solução sofisticada daquelas que se espera da adaptação gradual das espécies, por competição, mas que não é compatível com o design inteligente, pelo mesmo designer, da acácia e das formigas que a protegem.

1- Mats, O segredo da aranha
2- Yu et. al., Strength and Breaking Mechanism of Multiwalled Carbon Nanotubes Under Tensile Load
3- Wikipedia, Spider silk
4- Cosmos, Toughest fibre ever created in lab
5- Ask Nature, Wings allow escape from spider webs: butterflies
6- Traw, A Revision of the Neotropical Orb-Weaving Spider Genus Scoloderus, Psyche 102:49-72, 1995
7- BBC, 'Veggie' spider shuns meat diet

segunda-feira, julho 23, 2012

A batata de Deus.

A propósito da velha questão filosófica “porque é que há algo em vez de nada?”, o Alfredo Dinis propôs que crentes e ateus estão «com a mesma batata quente na mão. Um tem que explicar como Deus surgiu do nada, o outro como o universo surgiu do nada.»(1) Discordo. São batatas muito diferentes. Logo à partida, o Alfredo não tem de explicar só como Deus surgiu do nada. Tem de explicar também como é que Deus criou o universo a partir do nada, porque dizer apenas “Deus criou” ou “por milagre” não explica coisa nenhuma. Parece difícil que o Alfredo consiga explicar isto, e este é um dos menores problemas da sua tese criacionista.

Esta questão filosófica surge da ideia de que um vazio absoluto, eterno e imutável, não carece de explicação. É a hipótese nula. Só a existência de algo é que exige explicação. Daí o tal conceito filosófico de nada no qual o Alfredo insiste, acusando físicos como Lawrence Krauss de fazerem batota por considerarem como hipótese nula um nada quântico e instável. No entanto, o Alfredo também faz batota por incluir nesse “nada absoluto” um deus capaz de criar todo o universo*. Além disso, a física moderna põe em causa a premissa implícita dos filósofos antigos de que ser absoluto, estável e imutável são atributos que o nada tem de borla e que não é preciso explicar. Isto é implausível porque só há uma forma de ser absoluto e imutável mas há infinitas formas de ser instável. O nada instável e caótico da mecânica quântica é muito melhor candidato para a tal hipótese nula que dispensa explicação.

Se o nada da hipótese nula é instável – e não há razão para assumir o contrário – então não temos apenas uma explicação para a existência de algo sem precisar de deuses milagreiros. Podemos também extrapolar do que sabemos sobre este universo para ter uma ideia do processo pelo qual universos podem surgir espontaneamente. O Sofrologista Católico critica esta abordagem como «altamente metafísica e pouco fundamentada»(1), mas é a mais fundamentada que temos. Ao contrário de Deus e do vazio absoluto, o vácuo quântico instável de onde universos podem surgir encaixa bem nas teorias da física moderna, as teorias com o fundamento empírico mais sólido que alguma vez a inteligência humana concebeu.

Além da estabilidade do nada, os filósofos de antigamente também assumiam, por lhes parecer regra universal, que tudo tinha uma causa. Portanto, para algo surgir do nada teria de haver uma primeira causa. Deus. Mas a física moderna também rejeita esta premissa. Por um lado, porque muitos acontecimentos a nível quântico não têm causa. Não se trata de ignorar as causas. É mesmo saber que não têm causa por serem indeterminados. Por exemplo, não se pode saber, ao mesmo tempo, a velocidade e a posição exactas do electrão porque o electrão não tem velocidade e posição exactas em simultâneo (2). O resultado da medição de um destes atributos é uma variável aleatória e não o efeito de uma causa escondida. Por outro lado, sabemos também que o tempo faz parte deste universo e que não há antes do universo. “Antes do universo” é como “abaixo do centro da Terra” ou “a sul do Polo Sul”. Não faz sentido. Como uma causa tem de ocorrer antes do efeito, isto implica que o universo não pode ter causa. É claro que os crentes podem alegar que esta foi uma causa especial que não precisa de tempo mas, nesse caso, deitam fora todo o fundamento do argumento por invocarem um tipo ad hoc de causa nunca observado em lado algum. Mais uma coisa que deixam por explicar.

Em suma, as duas batatas não são nada parecidas. A cosmologia moderna é composta por hipóteses extrapoladas das teorias mais bem fundamentadas que temos. Esta extrapolação indica que o tal nada da hipótese nula é caótico e instável e que esta bolha de espaço-tempo a que chamamos universo surgiu espontaneamente, sem ter nem poder ter qualquer causa. O criacionismo medieval da teologia católica é uma caldeirada de premissas sem fundamento. Jesus é uma de três pessoas que partilham a mesma substância, outra das quais terá criado o universo por milagre a partir de um nada inexplicavelmente absoluto e imutável e agora, treze mil milhões de anos depois, estas duas pessoas e mais um espírito passam o tempo preocupadas com a contracepção, a desfrutar os louvores e a veneração que os seus seguidores lhes dirigem e a orientar, para que sejam infalíveis, as proclamações doutrinais de um senhor de batina. Eu diria que o Alfredo tem muito mais coisas para explicar, e mais difíceis de justificar. Começando pela explicação de como é que ele sabe isto tudo.

* Já para não falar de transubstanciar hóstias, condenar pecadores, engravidar virgens, omnisaber, omniestar e omnifazer trinta por uma linha.

1- Comentários em Confrangedor
2- Ver, por exemplo, na Wikipedia Quantum indeterminacy

domingo, julho 22, 2012

Treta da semana: Pseudo-genética de direita.

Pela Priscila Rêgo (1), soube de dois posts do Filipe Faria sobre a genética humana e as suas implicações políticas (2). A Priscila já fez um bom trabalho a desmontar a tese do Filipe, apontando como o comportamento humano, se bem fruto da nossa evolução e biologia, consiste principalmente de estratégias condicionais. Ao contrário do que o Filipe sugere, a questão não é tanto de certos comportamentos serem impossíveis mas se vale a pena impor as condições que os propiciam. Por vezes não, mas noutros casos sim. Assim, aqui focarei outro aspecto. A tese central do Filipe parece ser que a hereditariedade genética de atributos como a inteligência exclui o igualitarismo. O problema foi o Filipe não ter percebido o que é essa hereditariedade genética nem o que é o igualitarismo.

O Filipe dá como exemplo que «os gémeos idênticos educados em ambientes diferentes são muito mais parecidos uns com os outros em QI (cerca de 80% de hereditariedade genética)» (2), referindo um estudo sueco com gémeos adoptados (3), para refutar a ideia de que «que os seres humanos são todos basicamente iguais e formados pela educação». Como se isto quisesse dizer que a inteligência é mais genética do que ambiental. É um erro.

Não faz sentido perguntar se um atributo é mais genético ou mais ambiental, seja a inteligência ou a cor dos olhos. Qualquer atributo surge da interacção de genes e ambiente. Seria como perguntar se vem mais música do violino ou do violinista. O que podemos fazer é estimar, numa população e em certas condições, que fracção da variância do atributo que se deve à variância genética. Isto é a herdabilidade, h2, ou a “hereditariedade genética” medida no artigo que o Filipe referiu (4). Assumindo que a covariância entre genes e ambiente é nula e que a variância total é a soma das variâncias ambientais e genéticas*, os investigadores calcularam que naquele grupo de 223 pares de gémeos suecos criados em separado a variância genética explicava 80% da variância total das capacidades cognitivas. Por isso propuseram que aqueles testes de são bons candidatos para descobrir genes ligados à cognição. No entanto, não propuseram que isto tivesse alguma coisa que ver com o igualitarismo.

Crianças criadas em famílias adoptivas na Suécia provavelmente terão um ambiente bastante parecido. Um bom sistema público de educação, pais que queriam tanto ter filhos que os adoptaram, famílias com estabilidade económica e sem problemas de drogas, criminalidade e afins que os excluíssem do processo de adopção, e assim por diante. Foi neste conjunto que 80% das diferenças cognitivas se explicavam por diferenças genéticas. Numa sociedade ideial em que todas as crianças tivessem o melhor ambiente para se desenvolverem, estes estudos dariam 100% de herdabilidade simplesmente porque a variância ambiental seria nula. Mas se medissem a herdabilidade da inteligência nas crianças da Nigéria, onde umas vão estudar para o estrangeiro e outras são vendidas como escravas, a mesma variância genética teria uma proporção quase nula na variância total devido ao enorme peso das diferenças ambientais. O resultado do estudo na Suécia é, em boa parte, indicativo da eficácia do igualitarismo sueco. As crianças são tratadas da mesma forma e, por isso, a variância ambiental tem um efeito pequeno na variância deste atributo. Isso não quer dizer que o ambiente em que vivem não seja importante.

Durante a maior parte destes dois posts, o Filipe parece julgar que o igualitarismo é a premissa de que somos todos iguais de corpo e atributos. Como se o ideal de igualdade entre os sexos fosse mulheres com testículos ou o objectivo das rampas de acesso a edifícios públicos fosse curar os paraplégicos. O igualitarismo não é uma afirmação de factos. É um valor. Que devemos ter todos direitos iguais, o mesmo estatuto para a sociedade, valer o mesmo como pessoas e ninguém sofrer de desvantagens impostas por terceiros ou pelo azar (5). Por exemplo, mesmo sabendo que nem todas as crianças vão ser excelentes a música, matemática, física ou literatura, podemos ainda assim dar a todas igual oportunidade de tirar partido do potencial que têm, seja muito ou seja pouco. Ou construir rampas para facilitar a vida a quem não consegue subir escadas.

O Filipe Faria confunde o significado da hereditariedade genética, julgando que uma herdabilidade grande significa que pouco podemos fazer acerca das diferenças nessa característica. Mas não significa isso, e até é o resultado esperado de políticas igualitaristas, que tornam a variância genética proporcionalmente mais importante precisamente porque reduzem a variância total dessa característica. E, ironicamente, o Filipe acaba por cometer a falácia naturalista que tanto critica nestes posts. É verdade que não somos todos iguais e que há características humanas muito resistentes a pressões sociais. Em média, damos muito mais valor aos nossos filhos do que aos filhos dos outros. Mas isso são factos. É falácia naturalista invocar isso, ou que «até o nosso desejo pela racionalidade ética é uma pulsão biológica», para rejeitar a ideia de que «a desigualdade natural não deve contar para estabelecer a moral». Eu gosto muito mais dos meus filhos do que dos filhos do Filipe, se ele os tiver. Mas sou perfeitamente capaz, ao mesmo tempo, de defender que todas as crianças devem ter os mesmos direitos, as mesmas oportunidades e o mesmo ambiente propício ao seu desenvolvimento. Não é o meu enviesamento emocional, por muito natural que seja, que deve condicionar os princípios éticos da nossa sociedade.

*Estas premissas não são sempre válidas. Por exemplo, se as crianças mais bonitas, de acordo com os critérios da sociedade em que crescem, tiverem, em média, estímulos mais positivos da parte das pessoas que as rodeiam, podemos sobrestimar o efeito dos genes na variação da inteligência devido à correlação entre o ambiente e genes para o aspecto físico. O mesmo se houver racismo, discriminação sexual, etc.

1-Priscila Rêgo, O que a genética (não) implica
2- Filipe Faria, Os Usos e Abusos da Falácia Naturalista; “O Homem Pode Fazer o que Quer, Mas Não Pode Querer o que Quer”
3- Plomin et. al, Variability and stability in cognitive abilities are largely genetic later in life.Behav Genet. 1994 May;24(3):207-15.
4- Wkipedia, Heritability. Encontrei isto traduzido como “herança” ou “hereditariedade”, mas apesar de ser uma palavra horrível, penso que “heritabilidade” será a tradução mas “herdabilidade” é a tradução mais correcta porque é um conceito muito mais restrito e rigoroso do que simplesmente hereditariedade.
5- Wikipedia, Egalitarism


Corrigido a 24-7 para substituir “heritabilidade” pela palavra correcta, “herdabilidade”. Obrigado ao Zarolho pela sugestão.

quinta-feira, julho 19, 2012

Confrangedor.

Escreve o Alfredo Dinis que o panorama dos blogs ateístas em português é «confrangedor [porque] os crentes são considerados pouco ou mesmo nada inteligentes, ignorantes, incapazes de pensarem pela sua própria cabeça, sem qualquer espírito crítico, dispostos a acreditar no quer que seja, hipócritas, exigindo que todos respeitem as suas crenças e práticas», o que «não pode estar mais longe da verdade»(1). Eu não descarto os crentes como meros agregados de defeitos mas, por outro lado, também não diria que a descrição está assim tão longe da verdade. Nem que são só os ateus a pensar isto dos crentes. A situação é mais complexa e multifacetada do que aquilo que o Alfredo sugere.

Se o Alfredo não restringir a definição de “crente” a algo como “teólogo católico doutorado em filosofia” e aceitar como crentes todos os que veneram um ou mais deuses, certamente verá muita ignorância e falta de espírito crítico nesse grupo, com criacionistas evangélicos, fundamentalistas muçulmanos, praticantes de vudu, candomblé e xamanismo, e afins. Um grupo, em média, menos tolerante do que os ateus. Há terrorismo religioso, países com penas de prisão ou de morte por apostasia e até a Igreja Católica persegue quem se atreve a desmascarar milagres da treta (2), manda censurar revistas (3) e cancelar campanhas publicitárias (4) por “falta de respeito”. Por cá, temos benefícios legais para as religiões sem nada equivalente para os ateus. Quanto à hipocrisia, também não me surpreende a acusação.

Por exemplo, apesar de, em Julho, o Alfredo considerar confrangedor chamar os outros ignorantes ou pouco inteligentes, em Maio escreveu de Dawkins que «a sua leitura da Bíblia – literalista e descontextualizada - não é a única possível, nem a mais informada e inteligente»(5). Em rigor, o Alfredo chama de ignorante e pouco inteligente à posição de Dawkins e não ao Dawkins em si. É uma distinção importante. Mas é a mesma que muitos ateus fazem. Eu não diria que pessoas como o Alfredo são pouco inteligentes, mas considero uma parvoíce a crença de que o criador do universo encarnou no filho do carpinteiro para morrer por nós. Se esta alegação é confrangedora e a do Alfredo não, então o critério dele é inconsistente.

Pior ainda é a diferença entre o que padres como o Alfredo dizem aos ateus e a doutrina que transmitem ao seu rebanho. Se compararmos uns milhares de pessoas doentes que vão a Fátima pedir curas, com outras, em situação análoga, que não pedem nada a Deus, qualquer diferença significativa a favor dos crentes será favorável à hipótese de Deus. Mas, dirá o Alfredo aos ateus, esta é uma forma incorrecta, e ignorante, de conceber Deus porque Deus não intervém nestas coisas e a sua existência não pode ser testada empiricamente. O problema é que isto classifica de ignorantes as multidões de crentes que vão a Fátima convencidos de que Deus vai intervir para bem deles. Ou seja, fazem o mesmo que o Alfredo diz ser confrangedor nos ateus e ainda encorajam os crentes, recebendo, com satisfação, as oferendas dos ignorantes que lá vão ao engano. Não é estranho que alguns vejam nisto hipocrisia.

Até o diálogo com o Alfredo levanta este problema. Por exemplo, o Alfredo continua a insistir que o universo não pode ter surgido do nada porque o conceito filosófico de nada proíbe que alguma coisa de lá surja (5). Mas, como já expliquei (6), o conceito não importa porque desses inventamos quantos quisermos. Também podemos conceber a combustão como um processo que produz flogisto ou a Terra como estando no centro do universo. O que importa é saber quais conceitos correspondem à realidade, e esse conceito filosófico de nada não corresponde. Por muito filosoficamente que se conceptualize, não há flogisto, o universo não tem centro e o nada não é como o Alfredo julga. É um estado instável no qual surgem partículas espontaneamente. Infelizmente, só vejo três explicações para esta teimosia do Alfredo. Ou não tem capacidade para compreender o assunto, ou lhe falta conhecimentos para perceber a física, ou então percebe bem o problema mas finge o contrário. Conhecendo pessoalmente o Alfredo, não posso aceitar as duas primeiras, mas também me custa aceitar a última. Fico assim de decisão suspensa só para evitar pensar mal do Alfredo. Mas nem todos terão a mesma relutância em formar uma opinião.

Finalmente, há uma recusa sistemática em reconhecer o problema fundamental. Citando um amigo, o Alfredo escreve que «há coisas que não vale a pena explicar. Ou porque são evidentes, e não é necessário explicar. Ou porque não são evidentes e não adianta explicar.» Isto é um disparate. O que não é evidente tem de ser explicado – e bem explicado – para que se perceba. E o que parece evidente tem também de ser explicado porque muitas vezes é falso. Só pela explicação é que percebemos que, ao contrário do que parecia, a Terra afinal não é plana nem a chuva vem dos deuses. Quer para o conhecimento quer para o diálogo, é preciso justificar adequadamente o que alegamos ser verdade. Os crentes também exigem isto dos seus interlocutores, mas isentam-se muitas vezes deste dever. A parábola que o Alfredo publicou a seguir ilustra bem isto (7). Dois fetos conversam na barriga da mãe. Um acredita que vai haver vida depois do nascimento. Que vai haver luz, que vão andar com os pés, comer com a boca, conhecer a mãe e assim por diante. O outro, do contra, diz que não. A mensagem parece ser que o crente acerta em tudo só por crer. Por pura sorte. Acredita e, hocus pocus, é verdade. Se é esta a atitude com que entram num diálogo não se devem admirar da má impressão que causam. Se, a quem nunca tivesse ouvido falar do catolicismo, eu alegasse saber pela fé que o criador de tudo é três pessoas numa só substância, pai, filho e espírito santo, o mais certo seria julgarem que eu não estava bom da cabeça, ou não fazia ideia do que dizia ou estava a aldrabar alguém.

1- Alfredo Dinis, ateísmo (em) português (1)
2- What's up Finland, Sanal Edamaruku and the Catholic church
3- Spiegel, Pope Takes German Satire Magazine to Court
4- Huffington post, Benetton Ad Withdrawn Same Day As Release
5- Em Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo e insistindo novamente no Prós e contras.
6- Equívocos, parte 14. Filosoficamente nada.
7- Alfredo Dinis, citando um comentador, a vida depois da vida

quarta-feira, julho 18, 2012

Evolução: polimorfismos.

Já me fartei dos disparates do Orlando Braga, mas a repetição (1), sem atribuição, dos argumentos e diagramas do Behe (2) inspirou-me para este post, o que agradeço. Um problema do criacionismo é olhar para sistemas como o da coagulação humana e imaginar um mecanismo preciso, como o do relógio de Paley, onde tudo tem de ser e encaixar exactamente assim.

Coagulacão
Fonte: Wikipedia

Mas os relógios da mesma marca e modelo são todos iguais e, se tiramos ou dobrarmos uma roda dentada o relógio deixa de funcionar. Os seres vivos não são assim. Os humanos são praticamente todos diferentes, com genes diferentes em combinações diferentes produzindo proteínas diferentes. Uns vêem bem, outros são míopes. Uns deixam de fumar sem esforço, outros não conseguem. Uns ficam a tremer com uma chávena de café, outros podem beber meia dúzia por dia sem problema. As nossas vias metabólicas são muito complexas mas não são como um relógio. São mais como um cozinhado. Deitar meio quilo de sal pode estragar tudo, mas uma pitada a mais ou as batatas cortadas desta ou daquela maneira pode nem fazer diferença. Depende do organismo e dos genes que tem.

É o que acontece na coagulação. Por exemplo, a deficiência de factor XI (PTA no diagrama do Orlando) resulta na hemofilia de tipo C. Esta é uma forma suave de hemofilia que muitas vezes nem é detectada porque mesmo com uma deficiência severa do factor XI não há grande tendência para hemorragias. Até é normal a actividade do factor XI ser muito reduzida antes dos seis meses de idade (3). Ao contrário do relógio, onde uma peça torta encrava tudo, o sistema de coagulação ainda se safa mesmo sem algumas peças. Não tão bem, mas serve. Mesmo na hemofilia A, normalmente muito grave, há casos de pessoas com grande deficiência do factor VIII mas que não sofrem de hemorragias espontâneas e apenas manifestam sintomas leves de hemofilia (4). O que mais importa não é a roda dentada em si mas o efeito no cozinhado todo.

E o mau numas coisas pode ser bom noutras. Por exemplo, a variante Leiden do factor V é uma mutação que aumenta a coagulação do sangue, o que aumenta os riscos de trombose venosa profunda (TVP). Em pessoas saudáveis o risco de TVP é de cerca de 1 em 1000 por ano, em pessoas com uma cópia da variante Leiden o risco é cerca de 1 em 200 e de 1 em 12 para quem tem duas cópias do gene (5). No entanto, esta variante do factor V reduz para um quinto a probabilidade de hemorragias intracranianas (6), possivelmente pela coagulação mais fácil.

Estes exemplos, apenas dois de muitos polimorfismos conhecidos, ilustram vários pontos importantes. Primeiro, nem todas as peças que fazem parte destes sistemas têm um papel igualmente crucial. O factor VIII, por exemplo, é muito mais importante do que o factor XI, a julgar pela severidade relativa das hemofilias A e C. Em segundo lugar, a interacção de várias variantes genéticas influencia estes efeitos, como se nota nos casos em que a deficiência de factor VIII apenas conduz a uma hemofilia ligeira. Em terceiro lugar, como mostra a mutação de Leiden, uma alteração pode agravar um problema (tromboses) mas mitigar outro (hemorragias no cérebro). Finalmente, todas estas variantes coexistem na mesma população que, com o passar das gerações, vai amostrando aleatoriamente o espaço de combinações possíveis e premiando aquelas que se correlacionam com maior sucesso reprodutivo (6). Isso é evolução.

Que o sistema preciso de um relógio de bolso evolua é difícil, não só porque os relógios não se reproduzem mas também porque são concebidos de forma inteligente para funcionar exactamente assim. Se olharmos para um ser vivo como se fosse um relógio não percebemos como pode evoluir. Mas os seres vivos não são relógios. A natureza é mais desorganizada, fluida e desenrascada do que um relojoeiro. Em vez de relógios todos iguais precisamente fabricados para medir o tempo da mesma forma, as populações de seres vivos têm imensa diversidade, com muitas combinações genéticas, umas com mais sucesso que outras, sem haver sequer uma solução ideal única para os problemas que enfrentam. Com esta imagem é fácil perceber como uma proteína nova pode entrar num sistema como o da coagulação sem estragar tudo.

Pode começar por ter um efeito pequeno. Por exemplo, aumentar ligeiramente a taxa de coagulação, como faz a variante Leiden, que até coexiste com o factor V normal na maioria dos portadores. Isto cria uma pressão selectiva que favorece qualquer proteína que, por mutação, ganhe um efeito regulador sobre a primeira. A partir daqui o par já pode começar a ter um efeito mais acentuado e mais focado naquilo que beneficia a reprodução desses genes organismo. Isto não é como o relojoeiro pôr mais uma roda dentada no relógio. É mais como acrescentar uma colher de colorau e depois mais um dente de alho para contrariar o sabor adocicado. O mais interessante é que nem precisa do cozinheiro, porque a competição entre os organismos encarrega-se de “provar” a receita a cada geração.

1- Orlando Braga, A fé inabalável do darwinismo
2- Podem comparar o diagrama no post do Orlando com estes dos livros do Michael Behe.
3- Medscape, Hemophilia C
3- Medscape, Hemophilia A
4- Wikipedia, Factor V Leiden.
5- Corral et al, Polymorphisms of clotting factors modify the risk for primary intracranial hemorrhage
6- Do fibrinogénio humano já conhecemos 20 variantes naturais da cadeia alfa, 14 da cadeia beta e 19 da cadeia gama. Isto dá 20x13x19 combinações diferentes só para o fibrinogénio, assumindo homozigotismo.


Adenda: segundo o Orlando, eu perdi o debate. Desoladíssimo, resta-me apenas dar-lhe os parabéns pela vitória.

terça-feira, julho 17, 2012

O como, o porquê e a pila da lesma.

Têm-me dito muitas vezes que a ciência apenas nos explica o “como” das coisas e só as religiões nos dizem o “porquê”. Isto tem vários problemas. Nunca dizem, em concreto, qual é o porquê. Não conseguem chegar a consenso acerca do porquê. Assumem gratuitamente que o porquê envolve sempre um quem. Mas o pior de tudo é insistirem que a ciência não explica o porquê, o que é obviamente falso. Vejamos, como exemplo, a lesma banana, Ariolimax dolichophallus, mais o seu pénis e estranhos hábitos sexuais.

Como é de rigor entre lesmas e caracóis, a lesma banana é hermafrodita. E, sendo descendente de um antepassado caracol, tem o ânus e os órgãos sexuais na cabeça, apesar de já não ter a casca que originou essa configuração desconfortável. Há quem lhe chame “design inteligente”. Como resultado, a cópula das lesmas consiste numa troca de esperma em que cada uma literalmente f*** a cabeça à outra. Durante horas, que as lesmas não são bicho para pressas. E com um pénis quase tão comprido como a própria lesma, que pode chegar aos 25cm. Mas mais estranho ainda é o seu comportamento sexual. Há cerca de um século, Harold Heath notou que uma em cada vinte lesmas banana não tinha pénis, ou tinha apenas uma pequena parte do pénis. Achou estranho. Sendo hermafroditas, todas deviam ter pénis. Heath procurou então perceber como é que estas lesmas ficavam sem pénis, o que rapidamente descobriu. No calor do momento, por vezes uma lesma come o pénis da outra, que normalmente retribui o favor.


Fonte: Last word on nothing e Boing Boing.

Estava então respondido o “como”, mas o “porquê” foi mais difícil. Demorou um século até se encontrar a resposta. Que, como devem imaginar, não tem nada que ver com planos divinos ou o espírito santo. A explicação é mais prosaica. Quando uma lesma fornece o seu esperma à/ao companheira/o* tem vantagem que a outra se fique por aí. Porque quanto mais vezes a outra lesma copular, e quanto mais esperma obtiver de terceiras, menos ovos serão fertilizados pelo esperma da primeira. A hipótese avançada para explicar porque é que uma lesma banana come o pénis da outra é que esta mutilação reduz a probabilidade de novos encontros sexuais, aumentando assim o número de descendentes da canibal. O único senão é que a outra aproveita para lhe fazer o mesmo. O trabalho fascinante da Brooke Miller (1) tem sido testar esta hipótese, recorrendo a marcadores genéticos que lhe permitem seguir e contabilizar a descendência de cada lesma, medindo directamente a aptidão de cada lesma para deixar descendentes. Até agora os dados confirmam a hipótese de que a razão fundamental – o porquê das lesmas comerem o pénis uma à outra – é a competição ao nível do esperma (2). É daqui que vem a pressão selectiva para este comportamento.

Esta explicação vai ao fundo da questão. Se nesta linhagem de lesmas, durante muitas gerações este comportamento levou, em média, a um número maior de descendentes, não é preciso invocar outros factores – nem inteligência divina, nem propósito nem omnipotência – para perceber o como e o porquê do comportamento. As lesmas que não se comportavam assim simplesmente não deixaram descendentes suficientes para serem antepassados de alguma lesma de hoje. Eis o porquê, que a ciência revela. Acrescentar a isto um porquê religioso é completamente desnecessário, se bem que até seria engraçado ver uma religião a tentar explicar, em detalhe, o porquê do seu deus criar lesmas que comem o pénis umas ás outras.

* Sendo hermafroditas, não têm os nossos problemas com o sexo ser homo ou hetero. Ninguém as avisou que a homossexualidade é contra a Lei Natural.

1- Página pessoal da Brooke Miller.
2- Resumo da dissertação Sexual conflict and partner manipulation in the banana slug, Ariolimax dolichophallus.

domingo, julho 15, 2012

Treta da semana: Higgs e os padres.

Leon Lederman chamou-lhe ”the goddamned particle”, por ser tão difícil de detectar, mas o editor mudou a expressão para ”the God particle”(1). Por causa disso, o Prós e Contras sobre a experiência mais importante dos últimos anos descambou em duas horas de Fátima Campos Ferreira a fazer comentários pseudo-orgásmicos sem cabimento nem relação com o assunto. O que foi pena. Gravei o programa mas não consegui ver tudo pelo efeito da moderadora na minha tensão arterial. Por isso, por agora fico-me pelo conflito entre a fé e a ciência. À parte de um comentário muito acertado da Olga Pombo, que quem se arroga de responder a tudo não é a ciência mas sim as religiões, e cada uma à sua maneira, pareceu-me que ninguém tocou no problema fundamental. As religiões alegam muita coisa que a ciência recomenda rejeitar como mito ou ficção – milagres, nascimentos virgens, conversas com anjos ou deuses, vida depois da morte e afins – mas o problema principal é afirmarem saber coisas sem determinarem primeiro se são verdade. Isto é um erro, em ciência e em geral.

O Alfredo Dinis disse que a questão da existência de Deus não é científica porque não é testável; o Carlos Fiolhais parafraseou Galileu, que a ciência diz como vai o céu e a religião diz como se vai para o Céu; o Gaspar Barreira salientou que há cientistas crentes; e o João Varela defendeu que a religião e a ciência são domínios independentes tal como a arte é independente da ciência. Disto tudo, só o João Varela está parcialmente correcto. A arte e a ciência são independentes sempre que a arte não pretenda representar correctamente algum aspecto da realidade. Por exemplo, uma pintura abstracta ou um solo de guitarra. Mas se um documentário, uma história de ficção científica ou um romance histórico apresentam alguma falsidade ou especulação infundada com a pretensão de ser um facto, isso é cientificamente incorrecto. Só é independente da ciência aquilo que não tiver pretensões de representar qualquer aspecto da realidade.

A discussão sobre a incompatibilidade da fé com a ciência padece de três maleitas. A primeira é julgar-se que isto tem alguma coisa que ver com cientistas terem fé. Não tem, porque é trivial um ser humano aceitar umas coisas por fé ao Domingo e exigir evidências para outras durante o resto da semana. A segunda é a compreensível falta de paciência de muitos cientistas para discutir isto a sério. Alegar que são coisas separadas poupa uma data de trabalho, mesmo sendo óbvio que dizer como se vai para o Céu implica, no mínimo, dizer que sobra o suficiente de nós, depois da morte, para ir a algum lado. Isso não se pode justificar pela fé. A terceira, e pior, maleita é assumir-se uma definição arbitrária e demasiado restritiva de ciência. Por exemplo, que por a ciência exigir hipóteses empiricamente testáveis qualquer doutrina se pode safar de uma crítica científica se invocar hipóteses impossíveis de testar. Isto é, obviamente, um disparate.

A ciência é o método, sempre em aperfeiçoamento, para obter modelos que correspondam a aspectos da realidade. Podem ser modelos matemáticos, diagramas ou proposições; o que importa é que se ajustem o mais possível ao que pretendem representar. É neste sentido que “a Terra é redonda” é um modelo melhor do que “a Terra é plana”. Todos os restantes detalhes que caracterizam a ciência derivam de restrições que a nossa natureza impõe à realização deste objectivo. Por exemplo, os artigos científicos são publicados apenas após revisão pelos pares porque os seres humanos têm muito mais objectivos do que a procura de conhecimento. Para podermos confiar minimamente no que os cientistas escrevem é preciso exigir uma análise crítica independente. Mas isto não é uma fronteira que delimite a ciência, e seria um disparate dizer que algo (e.g. astrologia ou espiritismo) está num domínio independente só por não ter peer review. Se todas as pessoas fossem investigadores perfeitos, isentos e objectivos não era preciso mas, sendo como são, temos de nos precaver contra eventuais erros e aldrabices.

Passa-se o mesmo com a necessidade de testar hipóteses. Imaginemos que o nosso cérebro nunca podia conceber falsidades. Se assim fosse, qualquer afirmação em que pensássemos teria de ser verdadeira e não era preciso testar hipóteses para fazer ciência. Bastava concebê-las e pronto. A ciência humana precisa de testar hipóteses não por uma regra arbitrária e opcional, mas porque somos falíveis e facilmente concebemos falsidades. Por isso, não podemos procurar conhecimento sem mecanismos para corrigir erros. Quem afirma “Deus existe mas isto não pode ser testado” não está num domínio independente da ciência. Está a fazer má ciência. A menos que seja infalível, tem de ter mais cautela com o que afirma.

O objectivo da ciência é gerar conhecimento acerca da realidade. Tanto faz o assunto. Dos hábitos sexuais dos Cro-Magnon à natureza da consciência e ao destino do universo, se é real é pela ciência que o podemos modelar e descrever. Qualquer domínio da experiência humana será independente da ciência se não tiver pretensão de fazer o mesmo. Ficção, poesia, humor, música, o que for. Mas se alega saber verdades acerca da realidade então está no domínio da ciência e, tal como a ciência, tem de ter em conta as limitações de ser humano. Apesar de explicar imensa coisa sobre os atributos fundamentais da matéria, o bosão de Higgs foi considerado hipotético durante quase cinquenta anos e mesmo depois do trabalho de milhares de cientistas com a máquina maior e mais complexa jamais construída ainda exigem um desvio de cinco sigma antes de arriscar a dizer que ele existe. Deus não explica coisa nenhuma, não temos qualquer indício de que exista e, ao fim de uns milhares de anos de especulação infrutífera, até muitos dos seus proponentes já desistiram de o procurar (“não é testável”, dizem). No entanto, acham que qualquer padre pode dizer que Deus existe, como se soubesse do que fala, e que tal atitude não tem qualquer conflito com a forma como a ciência obtém conhecimento.

1- The Economist, Fantasy turned reality

sexta-feira, julho 13, 2012

A Lusófona e o maná.

Por causa do ex-aluno Miguel Relvas, a Lusófona tem sido bastante comentada. Um dos rumores a circular pelas inter-redes é de que a Lusófona tem um protocolo com a Igreja Maná. Já falei disso em 2008 (1), quando encontrei o anúncio da «Escola Bíblica Maná» alegando que permitia aos alunos entrar «directamente para o terceiro ano universitário do Curso de Licenciatura em Ciências das Religiões». Mas já nessa altura apontei que «Esta informação parece estar desactualizada porque licenciatura agora é um primeiro ciclo de Bolonha e dura 3 anos» e que «A página na Lusófona também não menciona o acordo com a EBM». Hoje recebi um comentário do Paulo Mendes Pinto, director dessa licenciatura, a esclarecer que «não há qualquer acordo entre a [universidade] e a Igreja Maná». Para não ficar o esclarecimento enterrado num post com quatro anos, trouxe-o para este post.

Que aproveito para ligar à conversa do emprego público e privado. Numa universidade pública seria mais difícil dar um canudo por cunha. Um professor do quadro numa faculdade pública está contratualmente subordinado aos deveres desse cargo e não pode ser despedido só porque alguém quer. Por isso, é difícil pressioná-lo a fazer algo que não esteja de acordo com os seus deveres contratuais. Por exemplo, dar a um candidato equivalências pela sua experiência na direcção de um rancho folclórico. E convencer o conselho científico de uma faculdade pública a pactuar com tal coisa, nem que seja pelo silêncio, é praticamente impossível.

Em contraste, o contrato de trabalho no sector privado serve principalmente para subordinar o empregado aos interesses dos seus superiores. Há muito mais formas de o obrigar a fazer o que estes querem, mesmo que vá contra os regulamentos, deveres contratuais ou consciência profissional. É fácil ver que diferença faria se os polícias ou juízes fossem contratados pelo sector privado em vez de serem funcionários públicos.

Não quero dizer que o serviço público esteja isento de corrupção. Infelizmente, estamos muito longe disso. Mas há muita coisa que se considera corrupção no sector público e que é apenas bom negócio no privado. Uma clínica privada pode dedicar-se só a intervenções lucrativas, como a cirurgia estética. Uma escola privada pode escolher os alunos das famílias mais ricas. Uma empresa de segurança pode proteger só quem lhe paga. O mesmo empreendedorismo num hospital público, numa escola pública ou na polícia seria de condenar como corrupção. Independentemente do que possa ter acontecido na Lusófona, uma universidade privada é, sobretudo, um negócio cujo propósito é dar lucro aos accionistas*. Não quer dizer que os professores que lá trabalhem sejam menos conscientes ou queiram ser menos rigorosos do que os colegas das universidades públicas. Mas no sector privado estão sujeitos a outras pressões.

Quando se aponta que os funcionários públicos são mais difíceis de despedir é quase sempre só para dizer que têm uma vida mais fácil do que os trabalhadores do sector privado. Mas a moeda tem dois lados. É mais difícil despedir um funcionário público porque praticamente só pode ser despedido se violar o seu contrato de trabalho, enquanto o trabalhador do sector privado até pode ser despedido simplesmente por dar jeito ao patrão, ao administrador, ao senhor director ou a seja quem for que mande nele nesse momento. O outro lado desta diferença é que, no serviço público, estes chefes têm muito menos poder do que no sector privado. Muito menos poder para pressionar os subordinados a fazer o que dá jeito aos chefes. Se bem que isto reduza a tal “flexibilidade” que muitos economistas elogiam no sector privado, também protege os profissionais de pressões e interesses que os possam desviar do exercício correcto da sua profissão. E em muito daquilo que os funcionários públicos fazem, desde a defesa nacional à educação e saúde, isto é importante. Antes assim que, para facilitar os despedimentos por razões económicas, dar a quem tem cargos administrativos no Estado tanto poder para manipular os seus subordinados.

* Apesar de não ser grande fã do catolicismo, aqui tenho de reconhecer que a Universidade Católica é um caso diferente. Para bem ou para mal, apesar de ser uma instituição privada, o seu propósito é muito mais ideológico do que de económico, o que explica a sua reputação de excelência, e também a sua influência nos círculos do poder.

1- Treta da Semana: A Escola Bíblica Maná.

quinta-feira, julho 12, 2012

Adenda ao post da coagulação.

O Orlando alongou-se aqui sobre a grande complexidade do sistema de coagulação dos mamíferos, concluindo que é de «extrema complexidade irredutível», sendo a sua evolução um «milagre de Darwin». Faltou-lhe, no entanto, considerar toda a evidência em favor da evolução, como a existência de outros sistemas de coagulação de complexidade mais reduzida, a homologia destas proteínas entre si e com outras de função diferente, a filogenia das proteínas envolvidas e a correlação das diferenças entre estes sistemas e a distância filogenética dos organismos.

Também me criticou por ter escrito que a fibrina se agrega aos molhos. «É de uma desonestidade intelectual, ou ignorância, dizer que a fibrina “se agrega aos molhos” como se de uma forma aleatória se tratasse!» Podem ver aqui algumas fotografias de agregados de fibrina, por microescopia electrónica, para decidir se é assim tão desonesto dizer que estão “aos molhos” e se a ignorância é minha. Finalmente, quanto à «simplicidade milagreira darwinista» de que o Orlando me acusa, posso alegar em minha defesa que tenho alguma familiaridade com o fibrinogénio e com a complexidade dos processos fisiológicos em que participa, mas que não é essa complexidade em si que nos permite distinguir se surgiu por milagre ou se evoluiu. Daí que tenha optado por dedicar mais do post àquilo que suporta a teoria da evolução. No entanto, tenho curiosidade em saber que explicação o Orlando propõe para a origem do sistema de coagulação dos mamíferos. Espero que tenha mais detalhes do que “No início, Deus criou o sistema de coagulação dos mamíferos, e viu que isso era bom”.