sábado, março 24, 2007

Darwinismo versus Criacionismo: colóquio na FCUL.

No passado dia 21 assisti ao colóquio sobre Darwinismo e Criacionismo organizado pelo Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. Foi uma surpresa agradável. Temia que desse uma impressão de simetria entre a posição científica e criacionista, mas o programa estava bem pensado, dividido entre filosofia, ciência, ensino e religião. Mesmo o painel representando a religião mostrou a diversidade de criacionismos e dos aspectos religiosos desta discussão.

A palestra de Jónatas Machado foi uma das razões que me levou ao colóquio, e tive muito gosto em vê-lo ao vivo a apresentar a sua versão do criacionismo. É um bom orador, experiente, e aproveitou bem o erro comum de afirmar que a ciência exclui o sobrenatural. No entanto, os argumentos do criacionismo bíblico evangélico só convencem quem não estiver informado. Com o debate presidido por professores de geologia e biologia, e uma audiência de profissionais e alunos universitários destas áreas, estes argumentos criacionistas foram cabalmente rejeitados.

As apresentações sobre o ensino e filosofia da ciência foram interessantes, mas gostei especialmente do painel científico. O Octávio Mateus deu uma excelente palestra sobre fósseis de transição, mostrando que onde os criacionistas apontam falhas no registo fóssil há por vezes centenas de fósseis de transição, mostrando a evolução gradual de várias características. Dos dinossauros aos pássaros, dos répteis aos mamíferos, de carnívoros terrestres às baleias.

O que me preocupou no colóquio foi que vários apresentaram a ciência e a religião como «jogos» com regras diferentes. Pior ainda, que são as regras da ciência que a proíbem de lidar com o sobrenatural, que é batota meter deuses à mistura com ciência. É falso, e um erro sério.

A ciência é o «jogo» de descobrir como o universo funciona e como tirar partido de tudo o que existe. As regras são ditadas pelo universo, e não por nós. Numa religião podemos inventar regras: exegese, revelação, intuição, meditação, o método é ao gosto do freguês. Em ciência, ou confrontamos hipóteses com observações ou não vamos a lado nenhum. Inventem as regras que quiserem, mas só isto é que funciona. E se partes do universo forem «sobrenaturais», é também assim que teremos que as descobrir e compreender, pois não há outra forma de o fazer. Mesmo que haja unicórnios ou dragões não é com rezas e bíblias que os vamos estudar.

18 comentários:

  1. Não me parece que se tenha defendido nessa apresentação que a ciência não podia estudar o sobrenatural mas sim que não se podem arranjar explicações sobrenaturais para as observações.
    Senão ia tudo corrido a milagre e a coisa não tinha piada nenhuma :>
    Já agora fica aqui um link para a interpretação criacionista da tabela periódica, um dos cartoons mais hilariantes sobre o tema que já vi:

    http://webapp.utexas.edu/blogs/archives/sarkarlab/PeriodicTable(30-10-05).gif

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  2. Estimado Ludwig

    Vá-se mentalizando e preparando porque tudo indica que irei voltar ao seu blog nos próximos dias.

    Assim é, porque me tenho apercebido de que isso me confere amplas oportunidades de difundir a mensagem bíblica da Criação a uma audiência que, doutra forma, não teria contacto com os argumentos criacionistas, para além de dar inclusivamente azo a novos convites para colóquios e palestras. O feedback tem sido muito positivo. Além disso, o Ludwig já mostrou que gosta de conversar sobre o tema. Seria um erro não tirar proveito do seu blog. O meu objectivo não é, evidentemente, dar-lhe uma “sova intelectual”, como um certo leitor referiu de forma manifestamente infeliz. Isso seria absurdo. Quando muito, se tal vier a acontecer, é um “dano colateral” ou uma consequência não intencional do facto de partir da Palavra e do Poder de Deus e, sem qualquer pudor epistémico, abordar o evolucionismo a partir daí. Tenho-me dado conta que, nos últimos meses, o interesse pelo tema do darwinismo v. criacionismo tem vindo a aumentar em Portugal e, já agora, quero ser parte disso. E o Ludwig também acabará, certamente, por fazer história, mesmo que inadvertidamente. Quem sabe se Deus não usará os blogs dos ateístas como o Ludwig para divulgar a Sua mensagem de Criação, Queda e Salvação?

    GARBAGE IN, GARBAGE OUT: NATURALISMO IN, EVOLUCIONISMO OUT

    O leit-motiv da nossa conversa será: “garbage in, garbage out”, naturalismo “in”, evolucionismo “out”. Através de uma abordagem interdisciplinar, procurarei desenvolver argumentativamente este tema, mostrando que, na questão das origens, uma vez adoptadas premissas naturalistas para a interpretação dos dados empíricos, os resultados só podem ser evolucionistas. Ou seja, o evolucionismo encontra-se pré-programado nas premissas naturalistas. Ele não é apenas um entre vários resultados possíveis da metodologia naturalista de abordagem da questão das origens. Diferentemente, o evolucionismo é o resultado necessário, isto é, é o único possível. E isto vale para todas as disciplinas científicas. Se as mesmas assentarem em premissas naturalistas, é claro que elas só podem teoricamente corroborar o evolucionismo. De resto, como se observa. Coisa diferente é saber se, na prática, conseguem fazê-lo. Iremos ver que, uma vez depurada das premissas naturalistas, nenhuma das disciplinas científicas consegue demonstrar cabalmente a evolução. Para isso, não é preciso se especialista em todas as disciplinas. Basta apenas ler os especialistas de cada uma delas e conhecer os pontos fracos das suas alegadas “provas” da evolução. Esta é, essencialmente, ideologia.

    Quem parte de premissas naturalistas é evidente que só pode interpretar os dados empíricos de acordo com um modelo evolucionismo, já que a criação sobrenatural, a única alternativa ao evolucionismo, é excluída a priori. Os fósseis e as rochas não falam. Eles precisam de ser interpretados. Os naturalistas, com muita pretensão e água benta, dão-se ao luxo de fixar as regras do jogo científico de uma forma muito conveniente, que exclui à partida a possibilidade de ser avançada qualquer alternativa ao evolucionismo. As eminentes excelências naturalistas dão-se ao luxo de determinar como e por quem é que o Universo e a Vida podem ser validamente compreendidos, partindo do princípio de que só os naturalistas é que os podem compreender cabalmente, e isso apenas em termos naturalistas.

    A hipótese de um Criador é excluída à partida. Quando muito, se Ele existe, é praticamente irrelevante na criação do mundo e do Homem, sendo-lhe igualmente negada qualquer veleidade de pretender determinar os termos em que as coisas podem ser conhecidas. Isto significa que, mesmo que Deus tivesse efectivamente criado o mundo e o Homem, os naturalistas nunca permitiriam que isso fosse científica e empiricamente confirmado, na medida em que consideram que qualquer referência a Deus é uma forma de “fazer batota” no jogo científico (cujas regras eles arbitrária e interesseiramente pré-determinaram de forma a jogarem sem qualquer oposição). Se Deus tivesse efectivamente criado o mundo, os naturalistas sempre procurariam evitar que isso fosse objectivamente cognoscível. Para eles isso seria um segredo reservado ao “sector” da religião. Com este entendimento, eles elaboraram uma anti-teologia que é hoje a crença oficial do sistema educativo português, numa clara violação do princípio constitucional da neutralidade confessional e mundividencial do Estado. Sob a capa da ciência eles mais não fazem do que doutrinar os jovens num naturalismo materialista mais ou menos disfarçado. O evolucionismo (confirmado apenas por uma ciência que a priori exclui a possibilidade de criação sobrenatural) não passa de uma doutrina da fé naturalista que é sistematicamente ensinada, com apoio do Estado, aos nossos alunos em todos os graus de ensino, de forma flagrantemente inconstitucional. Essa inconstitucionalidade só não é compreendida por aqueles que acreditam na objectividade e neutralidade mundividencial da ciência das origens.

    Como se vê, pretensão não falta aos naturalistas. Mas, no fundo, eles mostram que têm medo da oposição. Se eles aparentemente marcam muitos “golos” evolucionistas, é unicamente porque primeiro se encarregaram de excluir do jogo da investigação das origens a equipa adversária. Quando todos os dados são interpretados com base em premissas naturalistas, uniformitaristas e evolucionistas, é claro que eles só podem corroborar a evolução, por maiores que sejam as acrobacias intelectuais que isso obrigue a fazer. Só podia ser assim, não é mesmo? O problema, é que toda essa “sofisticação intelectual”, do tipo “garbage in, garbage out”, não funciona! Por exemplo, os saltacionistas e os gradualistas cancelam-se mutuamente (de resto com a inteira concordância dos criacionistas). O mais interessante é que depois de excluírem Deus à partida e de adoptarem premissas exclusivamente naturalistas que só podem conduzir, de forma estipulativa, a conclusões evolucionistas, os naturalistas convencem-se que provaram a inexistência de Deus! Depois de adoptarem uma metodologia naturalista, que ignora todas as referências ao design, à teleologia e ao fine-tuning, os evolucionistas chegam mesmo a escrever que Deus não passa de uma ilusão. Isto, apesar de, como iremos ver, as principais questões das origens e da existência continuarem por explicar. Depois de excluírem Deus à partida, os naturalistas mostram-se muito espantados pelo facto de a sua ciência excluir Deus à chegada! É por essas e por outras que “a sabedoria de Deus é loucura para os homens e a sabedoria dos homens é loucura para Deus”, como impressivamente sublinhava o Apóstolo Paulo.

    E é por isso que os criacionistas não aceitam sequer as regras do jogo “científico” determinadas pelos naturalistas. Os criacionistas “tão nem aí” quando de trata de jogar por essas regras. Isso, na medida em que Deus, o Criador, é que tem competência absoluta para determinar o modo como a sua Criação pode ser validamente estudada e compreendida. É isso que a Bíblia afirma quando diz que o verdadeiro conhecimento acerca da origem, do sentido e do destino das nossas vidas começa com uma atitude de reconhecimento de Deus. Quem não aceita isso pela fé, nunca terá certezas acerca destas questões, nunca saberá realmente qual a sua verdadeira natureza e identidade. Viverá sempre na expectativa de que um dia (amanhã, daqui a séculos, ou… nunca!) a ciência venha a compreender tudo de uma forma naturalista, esquecendo que a ciência é feita no presente (e não no passado ou no futuro) e que a mesma, por se basear em observações e observadores limitados, é sempre (e para sempre) precária e provisória. Entretanto a vida passa, e a ciência não cumpre aquilo que os naturalistas esperam dela. Ora, só Deus é o observador ilimitado capaz de fazer observações ilimitadas. Só Ele pode ser o fundamento do verdadeiro conhecimento. A ciência naturalista frustra sistematicamente as expectativas que nela são depositadas. Diferentemente, a Palavra de Deus é fiel e permanece para sempre.

    Existem, pois, dois modos de fazer ciência e investigar as origens: o naturalista e o criacionista. Ambos têm subjacentes visões do mundo diametralmente opostas. Ambos interpretam os mesmos dados empíricos de acordo com premissas diferentes. Subjacentes estão-lhe também dois modos distintos de compreender o conhecimento e a razão. Tudo está em indagar qual dos modelos é que interpreta melhor os factos e os integra num todo coerente e significativo. Em última análise, porém, qualquer um dos modelos é aceite pela fé. Os naturalistas acreditam, pela fé, que a natureza é tudo o que existe e que tudo pode ser explicado pelas leis da natureza. Para eles, o ser humano não passa de um acidente cósmico sem sentido. Os criacionistas acreditam que existe um Criador para além da natureza e das leis naturais por Ele estabelecidas. O Homem foi criado intencionalmente à Sua imagem e semelhança. Os dados empíricos atestam que o Universo e a Vida não têm condições para se autoproduzirem, ao mesmo tempo que diferenciam qualitativamente o ser humano de todos os animais, tendo em conta a sua autonomia comunicativa, racional e moral. Isso corrobora o criacionismo e desmente o naturalismo. A fé naturalista é cega e não tem qualquer fundamento. Em sentido contrário, Jesus Cristo disse: “Eu sou a Luz do Mundo. Quem me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida”. A fé criacionista não é cega e é amplamente corroborada pelas observações científicas em si mesmas. Iremos ver que vale a pena confiar em Jesus Cristo, a figura de maior relevo na história da humanidade, e na sua Palavra. Jesus disse: “os céus e a Terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar”.

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    1. sova só se for no espaço que os seus comentários ocupam...

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  3. GARBAGE IN, GARBAGE OUT: DEUS IN, CRIACIONISMO OUT

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  4. Caro Jónatas,

    A sua presença aqui é bem vinda. Os seus comentários são sempre um bom incentivo para abordar este tema, e tenho todo o interesse em debatê-lo. Tal como o Jónatas, penso que quanto melhor as pessoas compreenderem os argumentos do criacionismo bíblico, melhor será para a ciência e para a sociedade.

    Não sei bem o que quer dizer com o seu deus usar estes blogues para espalhar a sua palavra. Se é num sentido metafórico, não compreendo. Mas se é para levar à letra, como a bíblia, diga-lhe que o seu contributo também será bem vindo.

    Discordo da premissa que a ciência esteja limitada ao naturalismo. E penso que duma coisa podemos estar confiantes: da ciência não é garbage que sai. Veja o Jónatas o que usa todos os dias em sua casa, na roupa que veste, nos transportes, no seu trabalho, por todo o lado usufrui do produto da ciência, não da religião. E se o que sai não é garbage, provavelmente o que entra também não era.

    Mas terei todo o gosto em elaborar o tema e em ler os seus comentários.

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  5. Caro Rui,

    Mesmo posto dessa forma, discordo: "não se podem arranjar explicações sobrenaturais para as observações."

    Penso que ser sobrenatural não é critério para excluír explicações da ciência. A razão porque a ciência exclui explicações sobrenaturais é simplesmente porque esta categoria "sobrenatural" é tão mal definida que não há, neste momento, qualquer coisa lá que explique seja o que for.

    A ciência rejeita "deus fez o mundo" como explicação para a origem da Terra pela mesma razão que rejeitaria "o carteiro fez o mundo". Não é porque o carteiro ou deus sejam sobrenaturais, mas porque estas hipóteses, formuladas desta maneira, têm um valor explicativo nulo. Não são explicações de nada, e é por isso que não servem.

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  7. Mário Miguel24/03/07, 20:28

    Caro Jánotas Machado,

    tendo referido que,

    "Para eles, o ser humano não passa de um acidente cósmico sem sentido.",

    pergunto-lhe então, acerca do sentido: qual é o sentido de Deus?

    Mário Miguel

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  8. Mário Miguel24/03/07, 20:36

    Caro Jónatas Machado,

    Mais uma pergunta sobre "GARBAGE IN, GARBAGE OUT:"

    Darwing não era religioso?

    Mário Miguel

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Jónatas Machado escreveu: "Existem, pois, dois modos de fazer ciência e investigar as origens: o naturalista e o criacionista." ERRADO. Existe apenas um modo de fazer ciência e esse é usando o método científico: formulando hipoteses, testanto as mesmas, analisando os resultados à luz do conhecimento momentâneo e em constante desenvolvimento. O método cientifico usa os resultados de outros para a formulação de hipóteses. O "método" criacionista já tem todas as hipóteses formuladas, ou melhor tem todas as hipóteses "balizadas", uma vez que tudo o que fugir aos parâmetros definidos pela bíblia será cabalmente rejeitado. O método cientifico é o único que se quisermos, poderia partir do zero, que é toda a ausência de conhecimento, e gerar o mesmo a partir daí. Acredito também que se o método científico nos levasse a descobrir a existência de uma (ou várias) entidade sobrenatural, os cientistas teriam de aceitá-la, desde que esta cumprisse todas as permissas do método, incluíndo a falseabilidade (termo que não tem significado no mundo criacionista, uma vez que toda a verdade foi escrita na bíblia, documento impossivel de ser refutado). No entanto, acredito também que se existisse a possibilidade de essa hipótese ser testada num futuro próximo (o que não me parece acontecer), a maioria dos cientistas não estariam preparados para aceitar a sua possível confirmação.

    A evolução orgânica das espécies é, neste momento, o único resultado possível originado pelo método cientifico, mas ao contrário da hipótese criacionista, está sujeito ao constante teste de falseabilidade que todos os dias a comunidade científica (e não a criacionista) elabora. E isto leva-me a um último ponto, o título do colóquio. Colocar darwinismo e criacionismo no mesmo nível como se fossem forças opostas de igual valor explicativo parece-me errado e enganador da opinião pública, uma vez que pode passar a ideia de que existe um debate cientifico sobre a aceitação destas teorias. O que é totalmente falso!

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  12. GARBAGE IN, GARBAGE OUT
    NATURALISMO “IN”, EVOLUCIONISMO “OUT”
    EVOLUCIONISMO “IN”, ANTIGUIDADE DA TERRA “OUT”

    Homens como Lyell, Comte, Darwin, Mayr, Sagan, Lewontin, Gould, Dawkins, Pinker, Hawkins, etc., têm sustentado que toda a ciência tem necessariamente que ser naturalista, isto é, tem que excluir liminarmente qualquer possibilidade de causas sobrenaturais. Estes e outros cientistas decretaram que no Universo não há lugar para qualquer Deus. Para eles, o facto de essa ser a sua convicção filosófica e ideológica é razão mais do que suficiente para que todos aceitem essa determinação. A verdadeira ciência só pode ser naturalista.
    Ora, se a possibilidade de uma criação sobrenatural é excluída à partida, então a única possibilidade admissível é a evolução cósmica e biológica aleatória. Só pode ser assim. Ou não? Isto, porque só o apelo a uma evolução cósmica e biológica aleatória permite rejeitar e manter afastada a possibilidade de um Criador racional e intencional, cumprindo assim as exigências do naturalismo. Isto significa que, de acordo com uma definição naturalista de ciência, a teoria da evolução tem que ser necessariamente verdadeira, mesmo antes de se começar com qualquer investigação no terreno.
    Como se vê, a convicção acerca da verdade da teoria da evolução é uma consequência inescapável da filosofia naturalista que lhe serve de base, independentemente de qualquer investigação científica. Esta só serve para confirmar as premissas naturalistas e a teoria da evolução, na medida em que tem necessariamente que se conformar com elas. Ou seja, não é a investigação científica que demonstra a veracidade da teoria da evolução. Antes é a veracidade da evolução, decorrente do paradigma naturalista adoptado à partida, que vai condicionar toda a investigação científica, determinando quais os factos que devem ser dados como verdadeiros e quais os que devem ser considerados falsos. Vemos, assim, que, para quem parta de um modelo naturalista, que afasta a priori a possibilidade de design inteligente na natureza, a evolução cósmica e biológica aleatória é verdade mesmo antes de ser empiricamente testada.
    Mas as coisas não se ficam por aqui. É que, se a evolução aleatória é a única possibilidade compatível com a ciência definida em termos estritamente naturalistas, segue-se automaticamente que a antiguidade da Terra é a única conclusão igualmente possível a priori. Isto, porque uma Terra recente nunca poderia ser razoavelmente compatibilizada com a evolução aleatória. Esta necessita de tempo – provavelmente, até, de muito mais tempo do que o que se encontra disponível no Universo. Na verdade, de acordo com as premissas naturalistas e com a teoria da evolução aleatória a que as mesmas necessariamente conduzem, a Terra tem necessariamente que ser suficientemente antiga para que milhões de espécies possam ter evoluído, dando origem a novas espécies.
    Uma idade de 6 000 ou 10 000, por exemplo, seria necessariamente impossível de compatibilizar com a teoria da evolução. Isto, note-se, mesmo antes de se fazer qualquer medição dos níveis de C-14, dos níveis de decaimento de isótopos radioactivos, das taxas de erosão dos continentes ou de deposição de sódio ou e sedimentos nos oceanos ou da velocidade da recessão da Lua. Na verdade, antes mesmo de o cientista ligar a ignição do seu automóvel para se deslocar ao seu laboratório ou ao seu campo rochas sedimentares e fósseis, ele só pode esperar encontrar evidências de evolução aleatória e de uma Terra extremamente antiga, porque só isso é compatível com a ciência naturalista. Também aqui as conclusões precedem qualquer investigação científica, sendo que esta só pode confirmar essas conclusões, sob pena de deixar de ser científica.
    Com efeito, se um cientista viesse a concluir que as observações apontam para uma Terra recente, ele iria inevitavelmente pôr em causa a possibilidade de evolução aleatória, o que, por sua vez, iria comprometer as premissas naturalistas que estruturam o método científico e, por conseguinte, iria colocar-se do lado de fora do domínio da ciência. Daí que ele tenha forçosamente que concluir que qualquer observação empírica que aponte para um design inteligente ou possa pôr em causa a extrema antiguidade da Terra só pode estar errada.
    Como se vê, quem partir de premissas naturalistas tem forçosamente que concluir pela evolução cósmica e biológica aleatória e pela antiguidade da Terra. Isto significa que todas as evidências têm necessariamente que ser seleccionadas, interpretadas e organizadas de uma forma que corrobore a evolução aleatória e a extrema antiguidade da Terra. E se esta é extremamente antiga, então o sistema solar tem que ser ainda mais antigo, o mesmo acontecendo, sucessivamente, com a Via Láctea e as demais galáxias. Com efeito, se Terra é extremamente antiga, então o sistema solar, a Via Láctea e todo o Universo têm necessariamente que ser muito mais antigos, com pelo menos vários biliões de anos. Assim tem que ser necessariamente, de acordo com as premissas naturalistas, com a evolução cósmica e biológica aleatória e com a necessária antiguidade da Terra. É que só uma intervenção sobrenatural poderia determinar um estado de coisas diferente e essa intervenção sobrenatural está excluída à partida.
    Tanto basta para afirmar que a evolução aleatória das espécies e a extrema antiguidade da Terra e do Universo não são o resultado de uma análise objectiva dos factos, imposta necessariamente pelas observações empíricas, antes são a consequência necessária e inelutável da adopção a priori de premissas naturalistas para definir os objectivos, os métodos e mesmo os resultados admissíveis da ciência. Assim, a evolução aleatória e a extrema antiguidade da Terra e do Universo, mais do que o produto da investigação científica, são corolários lógicos e inescapáveis da ideologia naturalista. Só os mais ingénuos, do ponto de vista epistemológico, é que ficam surpreendidos pelo facto de “ciência” confirmar sistematicamente essas premissas. Só pode o fazer, não é? Se não o fizer deixa de ser ciência, na medida em que introduz elementos não aleatórios ao processo, os quais remetem logicamente para uma inteligência sobrenatural.
    Como se vê, as regras do jogo naturalista determinam não apenas o modo como ele é jogado, mas o próprio resultado do jogo. Os resultados da investigação científica já estão pré-determinados antes mesmo de essa investigação ter começado. Isto significa que não é necessária qualquer investigação científica para concluir pela teoria da evolução aleatória e pela antiguidade da Terra. Basta adoptar premissas naturalistas. As mesmas encarregam-se de conduzir inelutavelmente o cientista à conclusão de que a evolução aleatória e a antiguidade da Terra são correctas. O “verdadeiro cientista” naturalista não tem qualquer alternativa senão confirmar essas premissas e os “factos” que elas estabelecem.
    Assim é, porque toda a evidência terá forçosamente que ser interpretada de acordo com essas premissas, sob pena de sair fora da ciência naturalisticamente definida. Isso, mesmo quando se trate de evidência possa, a primeira vista, atentar contra essas premissas. É o caso, por exemplo, da extrema complexidade do DNA, da impossibilidade física de o DNA surgir por acaso, da existência de C-14 rochas e fósseis datados de milhões de anos, da retenção de hélio nos cristais de rochas graníticas, da estatística populacional ou idade recentíssima das civilizações mais antigas.
    Também todas essas evidências têm que ser interpretadas de acordo com o único modelo admissível – o da evolução naturalista ao longo de milhões de anos – porque só essa solução é considerada cientificamente correcta. Assim é, mesmo que isso obrigue a aceitar milagres matemático-probabilisticos, envolvendo probabilidades infinitesimais, como sejam os respeitantes ao surgimento casual de uma célula (probabilidade estimada de 1 em 1 x 10 ^ 57800) ou mesmo de uma simples proteína funcional (1 em 1x 10 ^ 191).
    Eis a razão pela qual é impossível refutar cientificamente a evolução. Mesmo num debate entre 10 criacionistas e 1 evolucionista este acabaria sempre por vencer o debate, se e enquanto a ciência fosse definida em termos exclusivamente naturalistas. Mas, como bem se depreende, não o vencia por ter os melhores argumentos ou as evidências mais sólidas, mas apenas por causa do automatismo tautológico da regra “garbage in, garbage out”, naturalismo “in”, naturalismo “out”. Se a ciência é definida em termos naturalistas, então só a evolução aleatória e a extrema antiguidade da Terra são compatíveis com ela.
    Assim sendo, os fósseis e as rochas têm que ser obrigatoriamente interpretados de acordo com a teoria da evolução aleatória. Se, por acaso, o registo fóssil não demonstrar evolução gradual, então isso significa que só pode ter havido evolução por saltos. A proliferação de fósseis vivos é vista como uma mera curiosidade, insusceptível de abalar a crença evolucionista. Do mesmo modo, as semelhanças e as diferenças entre animais só podem ser interpretadas de acordo com a evolução. Se existem semelhanças genéticas entre duas espécies, fala-se em homologia e “prova-se” dessa forma evolução. Se existem diferenças genéticas estruturais entre dois órgãos funcionalmente idênticos, fala-se em “evolução convergente” e “prova-se” também assim a evolução.
    De uma forma e de outra “prova-se” sempre a evolução. Porquê? Porque a sua veracidade e indiscutibilidade é estabelecida a priori pelas premissas naturalistas Em todos os casos, como se vê, os dados observados nunca podem ser interpretados como pondo em causa a evolução, na medida em que isso iria contra as premissas naturalistas que definem o método científico e colocaria o observador fora do domínio da ciência.
    Mesmo as mutações pontuais, que são consabidamente cumulativas e degenerativas, têm que ser forçosamente interpretadas de acordo com a evolução aleatória. Assim é, não tanto porque esteja demonstrado que as mesmas acrescentam informação complexa e especificada ao genoma ou que sejam maioritariamente benéficas para os indivíduos e para as populações, mas apenas porque as mesmas são aleatórias, tendo pelo menos isso em comum com a aleatoriedade que caracteriza o processo evolutivo.
    O facto de as mutações serem maioritariamente deletérias é mascarado, pelo naturalismo, através do apelo a um processo de milhões de anos de mutações que ninguém pode observar. Pode facilmente inventar-se uma qualquer “história da carochinha” ou do “sapo que se transforma em príncipe” para tentar “demonstrar” que, ao longo de milhões de anos, uma sucessão de mutações maioritariamente deletérias acabou por construir, contra todas as probabilidades, um organismo inovador, pleno de complexidade especificada e integrada e capacidade de adaptação ao meio. Felizmente para os naturalistas, ninguém pode refutar isso. Em primeiro lugar, porque ninguém estava lá para ver se isso aconteceu ou não. Em segundo lugar, porque se o tentasse fazer estaria a por em causa em causa o dogma naturalista da evolução aleatória, colocando-se, ipso facto, fora do “cientificamente correcto”.
    Também a especiação, alopátrica ou simpátrica, e a selecção natural têm forçosamente que ser interpretadas e integradas de acordo com o modelo evolutivo. Isto, apesar de em caso algum criarem informação genética nova, que codifique novas estruturas e funções, limitando-se a operar sobre informação genética pré-existente, a qual vai ficando cada vez mais especializada. Mas qual era realmente a alternativa? Se o único modelo compatível com as premissas naturalistas adoptadas à partida é a evolução cósmica e biológica aleatória (porque exclui a criação sobrenatural) e se a extrema antiguidade da Terra é necessária para conferir alguma credibilidade a esse processo, segue-se que todos os fenómenos naturais têm que ser interpretados em conformidade com esse modelo pré-estabelecido, na medida em que é o único cientificamente admissível.
    Assim tem que ser, mesmo que permaneçam sérias dúvidas sobre se as mutações aleatórias e a selecção natural realmente criam informação nova no genoma, capaz de codificar estruturas e funções completamente inovadoras e mais complexas. Mais uma vez, o apelo a hipotéticos milhões de anos não observados por ninguém serve para tranquilizar essas dúvidas. O tempo surge assim como uma espécie de tapete para debaixo do qual são remetidas todas as dúvidas. O tempo e o acaso são dotados, pelo pensamento naturalista, de propriedades milagrosas, com base nas quais tudo passa a ser possível, mesmo que seja manifestamente contrário às leis da física e da biologia. Mesmo eventos que tenham como único fundamento probabilidades infinitesimais, passam a ser não apenas possíveis, ou certos, mas até necessários. Naturalismo oblige.
    Como se vê, todo o edifício aparentemente sólido da ciência evolucionista mais não é do que um resultado circular e tautológico da adesão a uma mundividência naturalista que, a priori, a qual determina os objectos, os métodos e até os resultados cientificamente correctos antes mesmo de o trabalho científico iniciar. Esta realidade tem importantes implicações, entre as quais destacamos.
    Em primeiro lugar, como têm afirmado os criacionistas, todo o conhecimento científico é fortemente condicionado por pressupostos mundividenciais, mais ou menos conscientemente interiorizados, particularmente quando trata das origens não observadas do Universo, da Vida e do Homem. A teoria da evolução é essencialmente mundividência e não ciência.
    Em segundo lugar, a menos que se abandonem as premissas naturalistas, não é possível refutar a teoria da evolução cósmica e biológica aleatória e o seu corolário obrigatório da antiguidade da Terra e do Universo.
    Em terceiro lugar, se alguém quiser discernir a obra de Deus na natureza tem forçosamente que aceitar, a priori, a possibilidade da existência de Deus e da sua obra na natureza.
    Em quarto lugar, qualquer crente em Deus que quiser descobrir a resposta para a origem, o sentido e o destino do Universo e da Vida, não tem outra alternativa se não aceitar, pela fé, a autoridade última da Sua Palavra e deixar-se conduzir por ela na análise dos dados empíricos.
    É por isso que a Bíblia diz que o reconhecimento de Deus é o princípio de toda a ciência.

    Jónatas Machado

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  13. Jónatas, és casado?

    Olha que parece que não...

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  14. NOTAS SOBRE O DEBATE “CRIACIONISMO V. DARWINISMO” NA FCUL

    Sobre o debate na FCUL, o Ludwig (que eu teria tido todo o prazer em conhecer pessoalmente) diz que os argumentos criacionistas foram amplamente refutados. Será assim tão crédulo no evolucionismo que considera que basta alguém dizer, genericamente e sem fundamentar, que os argumentos criacionistas estão errados, para considerar que os mesmos foram cabalmente refutados? Isso é que é pensamento crítico! Acha realmente o Ludwig que qualquer daqueles argumentos alegadamente a favor do criacionismo era desconhecido da comunidade criacionista e de mim próprio? Já leu, por exemplo, o que a enciclopédia criacionista on line (www.creationwiki.org) tem a dizer sobre todos esses argumentos? Acha que não existem hoje milhares de cientistas criacionistas em todo o mundo, com doutoramentos em todas as áreas científicas, com um conhecimento exaustivo de todos esses argumentos? Acha que eu próprio, apesar da minha formação jurídica, tive alguma surpresa com os argumentos avançados? Se acha, leia o meu artigo sobre criacionismo bíblico e talvez isso ajude a esclarece-lo. E lembre-se que por detrás do que escrevi nesse artigo está um conjunto muito amplo de leituras que, evidentemente, não pude considerar num texto que me pediram para ser curto.

    No entanto, ao mesmo tempo que afirmou que os argumentos criacionistas foram refutados, o Ludwig reconheceu que não houve qualquer equilíbrio entre o evolucionismo e o criacionismo no debate da FCUL. Tudo, a bem da superioridade espistemológica do naturalismo, claro! Mas, ainda assim, a despeito do desequilíbrio discursivo e argumentativo e da escassez de tempo de que dispunham cerca de dez evolucionistas e um criacionista, o Ludwig considera que os argumentos criacionistas foram todos rebatidos! Esta afirmação suscita algumas perplexidades.

    Em primeiro lugar, a mesma ignora totalmente o facto objectivo de que o único criacionista presente, entre cerca de 10 evolucionistas, não dispôs, nos 20 minutos que lhe foram reservados, de tempo suficiente nem sequer para expor minimamente as premissas fundamentais do criacionismo, quanto mais para desenvolver, sustentar ou defender qualquer argumento criacionista na especialidade. Pessoalmente não tenho qualquer problema em enfrentar 10 evolucionistas, nem considero que isso, só por si, desequilibre o debate. Desde que, evidentemente, não me fique reservado apenas um 1/10 do tempo para falar. Como se pode, pois, dizer que os argumentos criacionistas foram refutados, se não foram dadas hipóteses de argumentação e contra-argumentação equilibrada? Como jurista, tenho o hábito de lidar com o princípio do contraditório, que implica igualdade de armas entre as duas partes de uma controvérsia. Se uma delas é condenada sem a observância desse princípio, a sua condenação é inválida por violação do direito a um processo equitativo. Quero crer que mesmo para os evolucionistas mais empedernidos ainda não vale tudo em termos argumentativos.

    Em segundo lugar, aquela afirmação esquece que nem os próprios evolucionistas tiveram tempo de apresentar os seus próprios argumentos alegadamente refutadores do criacionismo de forma estruturada e demonstrada. As palestras foram geralmente curtas, não fazendo justiça à qualidade e ao saber dos intervenientes. Já na parte do debate lembro-me que um dos evolucionistas presentes recorreu a uma ridícula “just-so story” sobre a evolução do olho (sobejamente conhecida dos criacionistas e frequentemente denunciada como absurda por muitos evolucionistas) sem qualquer comprovação empírica, esquecendo que o olho humano, extremamente complexo (com cerca de 400 000 foto-receptores por cada milímetro quadrado da retina), necessita, para funcionar, de toda uma estrutura neurológica incompreensivelmente complexa. Ou seja o olho, extremamente complexo, não vale nada sem um organismo ainda muito mais complexo. No debate nada foi dito de concreto acerca da evolução de cada uma das partes desse organismo até à formação de um organismo completo. O que foi dito sobre o olho foi tão vago, genérico e fantasioso como dizer que um sapo se transforma num príncipe! Sobre a evolução do olho teremos ocasião de nos pronunciar futuramente com mais detalhe, recorrendo inclusivamente ao testemunho de evolucionistas. Para já podemos adiantar que, para além da total inexistência de evidências do processo, as probabilidades de o olho humano se desenvolver por acaso ao longo de milhões de anos foram por muitos estimadas em virtualmente zero!

    O Ludwig, pelos vistos, acredita que os criacionistas se deixam impressionar por essas histórias da carochinha destituídas comprovação empírica. A verdade é que, dada a complexidade das questões em causa, e a impossibilidade de validar a criação e a evolução em laboratório, o processo de refutação no debate entre criacionistas e darwinistas pode demorar décadas ou séculos, postulando o trabalho árduo de muitos cientistas evolucionistas e criacionistas, estudo a estudo, artigo a artigo, livro a livro, conferência a conferência, etc. Provavelmente ambas as perspectivas coexistirão sempre, já que mais importante do que as evidências são os axiomas ou pressuposições, naturalistas ou criacionistas, com base nas quais essas evidências são interpretadas. Sempre haverá aqueles que, apesar de a ciência não demonstrar que o Universo e a Vida são inteiramente explicáveis pelo funcionamento das leis naturais, continuarão sempre a ter fé de que um dia a ciência naturalista conseguirá uma explicação. A fé ocupa um lugar essencial na visão do mundo naturalista, como bem se vê.

    Neste momento do debate, constata-se um ressurgimento do criacionismo sob várias formas, o que, em meu entender, mostra que há muitos cientistas que começam a dar mostras de grande desconforto com o evolucionismo, ao menos na sua configuração actual, e a considerar a possibilidade de um paradigma alternativo. Igualmente importante, no processo de refutação do evolucionismo, é o modo como os próprios evolucionistas se encarregam de destruir o seu próprio paradigma, à medida que vão demonstrando a implausibilidade dos sucessivos modelos evolucionistas (v.g. Larmarquismo, Darwinismo, neo-darwinismo, equilíbrio pontuado, simbiogénese). Trata-se, portanto, de uma questão muito controversa e de longa discussão. Longe de mim pretender resolvê-la em 20 minutos numa conferência da FCUL, neste blog, ou em qualquer outro lugar. Os problemas do evolucionismo são estruturais, exigindo soluções estruturais que largamente transcendem a discussão deste ou daquele fóssil ou isótopo. O meu propósito aqui nem é entrar em confronto com o Ludwig, já que o problema não é nada pessoal nem seria resolvido com uma tal polémica. Antes penso que é oportuno dar a conhecer as principais críticas que os criacionistas dirigem ao paradigma naturalista e evolucionista, esperando que as pessoas leiam, analisem e tirem as suas próprias conclusões, num sentido ou noutro, sem qualquer condicionamento político, eclesiástico, universitário, mediático, ou outro.

    Houve um outro dos intervenientes evolucionistas que procurou retirar dividendos, junto da audiência, a partir da minha alegada ignorância da estratigrafia (sem primeiro cuidar de saber o que eu efectivamente sei ou não sei sobre essa matéria) a partir de um elogio aos profundos conhecimentos da matéria do advogado Charles Lyell, o pai da geologia moderna. É claro que os meus conhecimentos pessoais de estratigrafia não se comparam ao de Lyell. Como é sabido, Charles Lyell foi um homem do terreno, da observação da pesquisa. Mas isso não é decisivo no debate, na medida que isto não é entre mim e Lyell. Hoje existem muitos geólogos criacionistas e evolucionistas muito cépticos relativamente ao seu trabalho, tendo concluído, desde logo, que Lyell falsificou o registo de alguns dados sobre as taxas de erosão, como no caso das Cataratas do Niagara, porque os mesmos não se adequavam às suas premissas uniformitaristas. Ninguém nega que, se as rochas forem analisadas a partir de premissas uniformitaristas as conclusões a que os geólogos chegam estão correctas. O problema é saber se essas premissas uniformitaristas são verdadeiras ou não. Se as mesmas forem incorretas, os resultados também estarão incorrectos, apesar de conformes com essas premissas. Sobre a estratigrafia, os criacionistas sempre afirmaram que a mesma contém sobejas evidências de catastrofismo, como seria de esperar se ocorresse um dilúvio global. De resto, é interessante que mesmo muitos geólogos evolucionistas recusam hoje as premissas uniformitaristas de Lyell, que viam nos processos observáveis no presente a chave da compreensão do passado, para concluir que existem hoje sobejas evidências de que a Terra, no passado, foi palco de catástrofes sem paralelo no presente. Daí o advento do chamado neo-catastrofismo na geologia e na geofísica nas últimas décadas, pondo em causa o uniformitarismo tradicional de Lyell. Os criacionistas consideram que existem fenómenos, como a Idade do Gelo, a deriva dos continentes, a tectónica de placas, a fossilização em larga escala, as camadas de rochas sedimentares, a existência de fósseis polistráticos, a evidência de decaimento radioactivo acelerado, etc., etc., etc., que se encaixam perfeitamente no modelo bíblico de um dilúvio global. Os mesmos têm construído modelos explicativos desses fenómenos a partir dessa premissa que os naturalistas recusam a priori, por vir escrita num livro religioso e por ter subjacente uma causalidade sobrenatural de grande intensidade teológica.

    Quanto aos dinossauros de penas, pena é que os mesmos não consigam ser suficientemente eloquentes para convencer os próprios evolucionistas, quanto mais os criacionistas! O autor do argumento defendeu os seus dinossauros com penas com o entusiasmo e a ingenuidade epistemológica de um jovem cientista, totalmente alheio ao modo como premissas ocultas condicionam a sua observação dos dados empíricos e a respectiva análise. O cientista em causa acredita, aparentemente, que as rochas conseguem comunicar com certeza a sua idade ou que os fósseis conseguem dar uma imagem correcta da morfologia das espécies a que correspondem. O problema é que, como alguém disse, o fóssil cantam qualquer melodia que nós quisermos que eles cantem! Todavia, basta ler os sucessivos trabalhos de Alan Fedducia, um evolucionista ornitologista, um dos maiores especialistas em aves da actualidade, para ver o modo como é desmentida a existência de vestígios de penas nos fósseis de dinossauros apresentados na FCUL. Para este cientista evolucionista, trata-se apenas, muito provavelmente, de vestígios de fibras de colagéneo em decomposição. Para Alan Fedducia e a sua equipa, é ainda muito cedo para concluir que os dinossauros são os ancestrais das aves, apesar de todo o entusiasmo juvenil do nosso especialista em dinossauros, ávido pelo cumprimento das profecias evolucionistas! Essa conclusão foi publicada há cerca de dois anos atrás numa revista da especialidade (Journal of Morphology, 2005). Pelos vistos, as profecias sobre dinossauros com penas ainda não se materializaram de forma convincente, mesmo pelos critérios dos próprios evolucionistas. Muitos deles já viram que muitas das alegadas evidências de evolução apresentadas com pompa e circunstância acabam por esboroar-se quando analisadas mais de perto, mostrando-se mais cautelosos que o nosso jovem especialista em dinossauros. Além disso, pouco ou nada se sabe acerca dos próprios antecedentes dos dinossauros, na medida em que não existem elos de transição entro o hipotético ancestral comum, o Tecodonte, e as demais variedades de dinossauros, realidade reconhecida pelos próprios evolucionistas, como poderei evidenciar mais adiante com citações dos próprios. Para fugir ao problema, o jovem autor do argumento sobre dinossauros no colóquio da FCUL limitou-se a dizer, em desespero de causa, que, bem vistas as coisas, todos os fósseis são fósseis de transição, num argumento tautológico que, longe de provar a evolução, tem como pressuposto a existência de evolução! Mais tautologias! Pena é que Stephen Jay Gould não tivesse sido informado acerca dessa realidade, quando defendeu a sua teoria do equilíbrio pontuado, exactamente por concluir que não existiam fósseis documentando o gradualismo. É claro que neste momento Stephen Jay Gould já sabe que tanto ele como os gradualistas é que estavam errados e que os criacionistas estão certos.

    Em terceiro lugar, a afirmação de que os argumentos criacionistas foram refutados no colóquio da FCUL, apesar de incorrecta, dada a manifesta ausência de tempo para a discussão dos argumentos e contra-argumentos evolucionistas e criacionistas, tem pelo menos o mérito de sugerir que os criacionistas também avançam argumentos refutáveis, o que não deixa de constituir um critério de cientificidade de uma teoria, de acordo com a obra de Karl Popper e a sua concepção do pensamento científico como uma sucessão de conjecturas e refutações. Este ponto é muito interessante quando se trata de saber onde começa e onde acaba uma teoria científica. Os evolucionistas gostam de dizer que os argumentos criacionistas são religiosos, e portanto irrefutáveis, mas também não perdem a oportunidade de dizer que eles foram cabalmente refutados. Em que ficamos? Os argumentos criacionistas podem ou não ser refutados? Se podem, então são científicos, de acordo com o critério de Karl Popper (a menos que o critério de Popper não se aplique aos criacionistas). E assim, porque é que não são ensinados nas escolas e nas universidades lado a lado com a perspectiva evolucionista? Se não podem, então como é que o Ludwig pode afirmar que foram refutados na conferência da FCUL? Os evolucionistas gostam de ficar com o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Verdade seja dita, que os criacionistas preocupam-se mais com a questão de saber se os seus argumentos são verdadeiros do que com a de saber se os mesmos são refutáveis. Por isso é que recorrem à revelação de Deus, o único testemunha ocular da Criação, como base axiomática do seu trabalho de investigação.

    Os evolucionistas gostam de dizer que refutaram os criacionistas, mas não gostam de debater com eles passo a passo, argumento a argumento, evidência a evidência, começando pelas pressuposições, indo às evidências e acabando nas conclusões. Num debate em que todos falaram 20 minutos, em que não houve debate e exame cruzado das evidências, como é que os evolucionistas refutaram o criacionismo? Se o criacionismo foi refutado, como se explica o interesses renovado no tema 150 anos depois de Darwin? Será ignorância científica, ou reconhecimento crescente das reais insuficiências do evolucionismo? Mais uma vez, os leitores leiam a Enciclopedia Criacionista creationwiki e vejam se os criacionistas são ignorantes científicos. O Ludwig, esse sim, além de ser um homem de fé, manifesta uma credulidade sem limites.

    FÉ NA NATUREZA, OU NO DEUS DA NATUREZA?

    O Ludwig, como muitos naturalistas, construiu um universo na sua cabeça em que não há lugar para Deus. Deus foi excluído pelo Ludwig do seu próprio universo, onde o Ludwig pretende ser rei e senhor. É certo que, como diz o Ludwig, Deus não pode ser directamente estudado pelo método científico. Caso contrário, não seria Deus! Deus está para além do espaço, do tempo, da matéria, da energia e da informação, tudo criações suas. O naturalismo parece, à primeira vista, ser mais científico porque pretende submeter à experimentação rochas e fósseis e os demais elementos naturais. O problema com este entendimento é que os elementos naturais não podem explicar a sua própria existência nem as suas características. Se é certo que não podemos estudar o Criador cientificamente e observar o acto de criação, podemos analisar os seus efeitos na natureza e compreender que não existe qualquer lei da física ou da genética que possa ser responsável por eles. As leis da física são essencialmente leis de conservação e entropia, e não de criação. As mutações são cumulativas e degenerativas, não acrescentando nova informação complexa e especificada ao genoma. O DNA de uma célula humana contém informação complexa e especificada, com as instruções necessárias para estruturar e garantir o funcionamento de um corpo humano funcional. De onde vieram essas instruções? Os cientistas limitam-se a reconhecer que elas ultrapassam a informação contida numa qualquer grande enciclopédia. Mas poderia uma enciclopédia a ela própria? Poderia a informação nela contida ser compreendida de forma naturalista, unicamente com base nas propriedades físicas e químicas do papel e da tinta, à margem dos autores cujas mentes e inteligência usaram o papel e a tinta como suportes de informação? Assim como isso não é possível, também a quantidade de informação contida no DNA não pode ser compreendida com base unicamente nos compostos químicos que o integram. A informação é uma realidade imaterial em cuja origem encontramos sempre uma mente. O DNA tem quantidades extremamente elevadas de informação altamente complexa e especificada. A eficácia do DNA como suporte de informação e a quantidade e qualidade dessa informação pura e simplesmente escapam a qualquer tentativa de compreensão naturalista. Apelar às mutações e à selecção natural (sendo que nem umas nem outra criam informação genética complexa e especificada nova) é tão ridículo como tentar explicar a informação contida na Enciclopédia Britânica a partir da análise apenas do papel e da tinta. De resto, a bioinformática aí está para demonstrar que o DNA é, acima de tudo, um suporte de informação altamente eficaz, exactamente como os criacionistas têm afirmado. Daí a insuficiência do paradigma naturalista. Aspecto que certamente evidenciaremos mais adiante.

    Em sentido diferente, o Ludwig pretende dar voz apenas à natureza. Ah!, se a natureza falasse… O problema é que a natureza não fala. As galáxias, as rochas, os fósseis, o DNA, etc., não falam. (Existe na Inglaterra um papagaio que consegue reproduzir mais de 930 palavras, mas não se lhe conhece uma ideia sobre epistemologia e ciência). O que hoje sabemos com certeza sobre a natureza é que a matéria e a energia são incapazes de se criar a elas próprias, e que o DNA não consegue sobreviver, mesmo envolvido numa célula, sem um DNA que codifique um sistema de reparação. Ou seja, sabemos que o DNA não pode existir sem DNA, o que coloca sérios problemas à noção de que o mesmo surgiu e evoluiu por acaso.

    Do mesmo modo, sabemos que as equações matemáticas da teoria do Big Bang só começam a funcionar num momento posterior a esse hipotético Big Bang, sendo incapazes de explicar a sua causa. Também sabemos que o Big Bang, até agora, só conseguiu explicar o surgimento de uma hipotética nuvem de gás, mas não consegue explicar como é que se passa daí para a origem das galáxias, das estrelas, do sistema solar. Mesmo o Sol continua um mistério para os cientistas, como o demonstram as mais recentes imagens recolhidas pelos cientistas.

    Ou seja, sendo o nosso Universo largamente constituído por galáxias e estrelas, a incapacidade do Big Bang para explicar a origem de uma e de outras (sucessivamente reconhecida nas obras de Stephen Hawking, George Ellis, Robert Penrose, etc.) demonstra que o Big Bang só pode explicar um universo irreal (fantasiado pelos evolucionistas) mas não o nosso universo real. O Big Bang pode explicar o Universo sem Deus que existe na cabeça do Ludwig, mas é incapaz de explicar o Universo em que vivemos, que foi criado por Deus.

    Contrariamente ao que espera o Ludwig, a natureza é incapaz de determinar regras epistemológicas do que quer que seja, particularmente quando se trata de investigar a origem do Universo e da Vida, factos que nenhum cientista presenciou. O naturalismo filosófico e metodológico do Ludwig está bem claro quando o mesmo resolve esquecer Deus e enaltecer a natureza, esperando que ela o esclareça sobre a sua própria origem, natureza, estrutura e destino. Para Ludwig, a natureza é tudo o que existe, valendo aqui inteiramente a lógica “garbage in, garbage out, naturalismo in, evolucionismo out”. A natureza ocupa o lugar de Deus no seu esquema mundividencial.

    O problema do Ludwig, é que essa decisão de enaltecer a natureza não é uma proposição científica, mas sim uma tomada de posição filosófica e ideológica sobre a totalidade do real, em termos estrutural-fucionalmente idênticos a uma religião. O naturalismo é a religião do Ludwig, a essência da sua fé. Mas essa fé não passa de uma posição apriorística, sem qualquer justificação científica. No mundo, com a sua crença nas propriedades da natureza, o Ludwig parece inundado de um subtil e algo nebuloso panenteísmo, se não mesmo panteísmo.

    Na mesma linha, muitos, ao longo da história da humanidade (que começou com a queda do homem em que Adão e Eva enalteceram a natureza acima do Criador), convencidos de que a natureza tinha propriedades espirituais ou intelectuais, acabaram por adorar o Sol, as estrelas, os animais e as plantas, já para não falar dos múltiplos cultos a imperadores humanos, sempre rejeitados pelo pensamento religioso judeu e cristão.

    Na verdade, os evolucionistas e os astrólogos têm algo muito significativo em comum: são todos naturalistas! Todos adoram, de uma forma ou de outra, a natureza, esquecendo o Criador da natureza. Daí que as primeiras formas de evolucionismo tenham surgido na Suméria, na antiga Babel, precisamente o mesmo lugar onde surgiram e a partir de onde se espalharam os signos do Zodíaco.

    Daí que o Judaísmo e o Cristianismo estejam, desde sempre, em rota de colisão com o evolucionismo e com a astrologia, na medida em que ambos enaltecem a criação e ignoram o Criador. A verdade é que é o Criador, e não a criação, que dita as regras do conhecimento do Universo, da Vida e do Homem. Quem não aceitar essas regras perde! Perde existencialmente, epistemologicamente e mesmo, a Bíblia o diz, eternamente! A natureza não dita regras nenhumas.

    A Bíblia afirma desde o Génesis ao Apocalipse que a natureza está sujeita à corrupção, à morte, ao sofrimento e à maldição, por causa do pecado humano. O problema é tão grave que só o Criador o pode resolver. Daí que Deus afirme que vai fazer novas todas as coisas, e criar novos céus e nova Terra, onde não haverá morte nem maldição. Essa afirmação só pode ser aceite pela fé. A Bíblia afirma que o Universo perecerá como roupa velha.

    Só a inteligência, divina ou humana, é que pode definir os pressupostos com base nos quais a natureza pode ser estudada e compreendida. Os evolucionistas constroem os seus modelos explicativos a partir da inteligência humana, decaída e limitada. Os criacionistas partem da inteligência Divina, perfeita e ilimitada. Isso faz toda a diferença. O Ludwig decidiu confiar na natureza e já tem as suas convicções formadas a partir daí. Eu decido confiar na Palavra de Deus, e não me envergonho disso diante de quem quer que seja, pois acredito que é o poder de Deus para a salvação de todo o que crê. Jesus disse, “os céus e a Terra passarão, mas as minhas palavras não hão-de passar”.

    Amigo Ludwig, não ponha a sua fé em algo corrompido e passageiro como é a natureza. Os nossos próprios corpos, contaminados pelo pecado, são exemplo de uma entropia que irremediavelmente conduz à morte. Ponha a sua fé em algo perfeito e eterno, como é a Palavra de Deus. Jesus, que ressuscitou com um corpo incorruptível, num evento que celebramos na Páscoa, disse: “eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto viverá!”

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    1. O termo "instruções" ou "código", quando aplicados á biologia molécular não significam propriamente o mesmo que quando se lê o romance "o código da vinci". Se realmente compreendesse - ainda que superficialmente, os processos de transcrição e tradução, iria compreender que se trata apenas de moléculas que de forma específica influenciam a formação de outras.
      Pensa mesmo que por acreditar em Jesus e em Deus vai ressuscitar e tornar-se um morto-vivo? Quantas vezes viu o Resident evil 3?

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  15. No colóquio na FCUL, um jovem entusiasmado paleontologista defendeu a transição dos dinossauros para as aves com base nas "penas" de dinossauros.

    Com base nesse argumento, o jovem defendeu, com grande excitação e contentamento, a teoria da evolução.

    Algumas semanas depois, a literatura científica especializada, depois de uma rigorosa análise, veio defender que essas "penas" não passavam de fibras de colagénio.

    Mais uma vez os evolucionistas perderam uma boa oportunidade para estar calados.

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    1. Isso é válido para Sinosauropteryx, mas não para o megalosauroid theropod, ou para o arcaheopteryx, que não sendo um dinossauro com penas é um fóssil de transição (que tem características intermédas). os criacionistas só apontam o dedo quando os cientistas que apoiam a evolução se enganam, mas quando estes não se enganam não dizem nada, ou então continuam a invocar antigas incorrecções ou então o deus das lacunas.

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