Treta da semana: mais poupança.
No ano passado o site Poupar Melhor publicou um artigo criticando o Moletech (1), um dispositivo de cerâmica que se põe no depósito de combustível do automóvel e, alegadamente, permite grandes poupanças porque «absorve a energia térmica a partir do seu ambiente circundante, em seguida, liberta-o em comprimento, quebrando a força intermolecular de “van der Waals” (a força que une as moléculas)» (2). Entretanto, o Luís Capucho, consultor que presta serviços como «REDUÇÃO DE COMBUSTIVEL DE 7 A 20% ( CONTRATUALMENTE GARANTIDO),COM RETORNO DE INVESTIMENTO na ordem dos 10.000KM percorridos E GARANTIA DE 10 ANOS!» (3) (maiúsculas no original) e que já comentou o tratamento neste blog de um tema semelhante (4), veio pedir ao Poupar Melhor que retirasse «a Difamação no post Inicial», apontando que «Marcas que sabem o que fazem podem-nos colocar um processo em Tribunal por Difamação, o que não há qualquer interesse nisso.» (1, nos comentários). Perante este dois-em-um de ameaças legais e quebras da força de van der Waals com energia térmica libertada em comprimento, gostava de separar o post em duas partes.
Primeiro, a lei. O artigo 217º do Código Penal estipula que «Quem, com intenção de obter [...] enriquecimento ilegítimo, por meio de erro ou engano sobre factos que astuciosamente provocou, determinar outrem à prática de actos que lhe causem [...] prejuízo patrimonial é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.» É portanto possível que alguém que venda coisas inúteis alegando grandes vantagens acabe por ser punido. Possível, mas improvável, porque o artigo 180º estipula que «Quem, dirigindo-se a terceiro, imputar a outra pessoa, mesmo sob a forma de suspeita, um facto, ou formular sobre ela um juízo, ofensivos da sua honra ou consideração [...] é punido com pena de prisão até 6 meses ou com pena de multa até 240 dias.» Ou seja, se nos depararmos com uma burla temos de ter cuidado em não ofender o burlão, não vá o advogado dele ter mais sorte que o nosso. Por isso, e à cautela, quero esclarecer que apenas discuto esta legislação sobre a burla em abstracto, sem qualquer relação com este caso concreto e sem dirigir a terceiros qualquer imputação ou formulação de juízos acerca da Moletronic, do Moletech ou do Luís Capucho. Felizmente, talvez por dificuldades práticas, os legisladores decidiram só punir juízos ofensivos quando dirigidos a terceiros. Em privado, ainda somos livres de pensarmos o que quisermos desta gente, por muito ofensivo que seja. Dessa liberdade tenciono usufruir em pleno.
Esclarecido o contexto legal, passo então aos factos que ou simplesmente o são sem que seja preciso imputá-los, ou que as entidades referidas imputam a si próprias. Espero que nada disto justifique que me processem. Segundo o site da Moletech em Inglês, «os nossos produtos conseguem libertar uma energia térmica num comprimento de onda específico, i.e. de poucos mícron a 20 mícron [...] Esta energia específica, em conjugação com a força de van der Waals, modifica a agregação de moléculas de agrupamentos para moléculas separadas»(5). A primeira parte parece-me aceitável. A gama de comprimentos de onda referida corresponde aos infravermelhos, e é natural que a cerâmica deles liberte energia térmica nesta gama. A cerâmica, o arroz de pato, a minha testa e tudo o que mais esteja à temperatura ambiente ou perto disso. Incluindo a gasolina no depósito, mesmo antes de atirar para lá a cerâmica. Daí que seja difícil aceitar a segunda parte da alegação.
Segundo o site português, os «resultados são validados» por algo que é designado como «Departamento de Engenharia Ambiental da Califórnia (CEE) - Centro de Pesquisas Ambientais»(6) ou «CEE (laboratório de testes EPA ambiental dos Estados Unidos acreditado EPA ambiental)»(7), um laboratório privado de medição de emissões automóveis (8) que costuma dizer bem de muitas coisas destas. Por motivos legais, não ponho em causa a idoneidade do laboratório. Mas não posso deixar de apontar, por ser curiosamente grande, o número de métodos extraordinários de poupança que esta empresa encontra entre as empresas que lhe pagam para isso (9). A julgar pelos relatórios, se juntarmos estes dispositivos na mesma viatura até devemos conseguir pôr o motor a produzir gasolina a partir do CO2 atmosférico.
Infelizmente, a realidade ou, segundo alguns, a conspiração mundial promovida pelas empresas petrolíferas, não justifica tanto optimismo. Por exemplo, o Departamento de Comércio do estado da Austrália Ocidental concluiu que estes dispositivos não funcionam e, por isso, mandou retirá-los do mercado e recomendou aos compradores que exigissem o reembolso (10). Mas não desesperem. Estas invenções geniais são tão fáceis de criar como põr uma página na net e inventar um nome. Cá em Portugal ainda vendem a versão antiga, mas agora o que está a dar é o Greentech. Este não só melhora o combustível mexericando nas forças de van der Waals como tem também um dispositivo para aumentar o oxigénio no ar «neutralizando o poluente flutuando no ar como poeira, emissão, germes, pólen, fumo de tabaco, fungos e todas as outras espécies que possuem iões positivos» (11). Este sistema garante assim o dobro da poupança real do anterior. Que continua a ser zero, mas isso fica aqui entre nós não vá o Luís zangar-se.
1- António Sousa, Poupar Melhor, Equipamentos que não poupam combustível. Obrigado pelo email com a dica.
2- Citado da página do representante em Portugal, Moletronic
3- LMConsultadoria, na página “Serviços”.
4- Treta da Semana: Poupança Magnética.
5- Moletech, Research.
6- Moletronic, Como Funciona, Quanto se Poupa?
7- Moletronic, Desenvolvimento
8- California Environmental Engineering
9- Por exemplo, o Microlon, a Nanotech Fuel Corporation, o Ethos Fuel Reformulator, Biofriendly Green Plus. Mais sobre isto no How to spot a psycopath.
10- DOCEP, Questionable Fuel Saving Device - Mtech Fuel Saver
11- Greentech fuel saver, About Greentech fuel saving device, via How to spot a psycopath.
