domingo, junho 24, 2012

Treta da semana: mais poupança.

No ano passado o site Poupar Melhor publicou um artigo criticando o Moletech (1), um dispositivo de cerâmica que se põe no depósito de combustível do automóvel e, alegadamente, permite grandes poupanças porque «absorve a energia térmica a partir do seu ambiente circundante, em seguida, liberta-o em comprimento, quebrando a força intermolecular de “van der Waals” (a força que une as moléculas)» (2). Entretanto, o Luís Capucho, consultor que presta serviços como «REDUÇÃO DE COMBUSTIVEL DE 7 A 20% ( CONTRATUALMENTE GARANTIDO),COM RETORNO DE INVESTIMENTO na ordem dos 10.000KM percorridos E GARANTIA DE 10 ANOS!» (3) (maiúsculas no original) e que já comentou o tratamento neste blog de um tema semelhante (4), veio pedir ao Poupar Melhor que retirasse «a Difamação no post Inicial», apontando que «Marcas que sabem o que fazem podem-nos colocar um processo em Tribunal por Difamação, o que não há qualquer interesse nisso.» (1, nos comentários). Perante este dois-em-um de ameaças legais e quebras da força de van der Waals com energia térmica libertada em comprimento, gostava de separar o post em duas partes.

Primeiro, a lei. O artigo 217º do Código Penal estipula que «Quem, com intenção de obter [...] enriquecimento ilegítimo, por meio de erro ou engano sobre factos que astuciosamente provocou, determinar outrem à prática de actos que lhe causem [...] prejuízo patrimonial é punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa.» É portanto possível que alguém que venda coisas inúteis alegando grandes vantagens acabe por ser punido. Possível, mas improvável, porque o artigo 180º estipula que «Quem, dirigindo-se a terceiro, imputar a outra pessoa, mesmo sob a forma de suspeita, um facto, ou formular sobre ela um juízo, ofensivos da sua honra ou consideração [...] é punido com pena de prisão até 6 meses ou com pena de multa até 240 dias.» Ou seja, se nos depararmos com uma burla temos de ter cuidado em não ofender o burlão, não vá o advogado dele ter mais sorte que o nosso. Por isso, e à cautela, quero esclarecer que apenas discuto esta legislação sobre a burla em abstracto, sem qualquer relação com este caso concreto e sem dirigir a terceiros qualquer imputação ou formulação de juízos acerca da Moletronic, do Moletech ou do Luís Capucho. Felizmente, talvez por dificuldades práticas, os legisladores decidiram só punir juízos ofensivos quando dirigidos a terceiros. Em privado, ainda somos livres de pensarmos o que quisermos desta gente, por muito ofensivo que seja. Dessa liberdade tenciono usufruir em pleno.

Esclarecido o contexto legal, passo então aos factos que ou simplesmente o são sem que seja preciso imputá-los, ou que as entidades referidas imputam a si próprias. Espero que nada disto justifique que me processem. Segundo o site da Moletech em Inglês, «os nossos produtos conseguem libertar uma energia térmica num comprimento de onda específico, i.e. de poucos mícron a 20 mícron [...] Esta energia específica, em conjugação com a força de van der Waals, modifica a agregação de moléculas de agrupamentos para moléculas separadas»(5). A primeira parte parece-me aceitável. A gama de comprimentos de onda referida corresponde aos infravermelhos, e é natural que a cerâmica deles liberte energia térmica nesta gama. A cerâmica, o arroz de pato, a minha testa e tudo o que mais esteja à temperatura ambiente ou perto disso. Incluindo a gasolina no depósito, mesmo antes de atirar para lá a cerâmica. Daí que seja difícil aceitar a segunda parte da alegação.

Segundo o site português, os «resultados são validados» por algo que é designado como «Departamento de Engenharia Ambiental da Califórnia (CEE) - Centro de Pesquisas Ambientais»(6) ou «CEE (laboratório de testes EPA ambiental dos Estados Unidos acreditado EPA ambiental)»(7), um laboratório privado de medição de emissões automóveis (8) que costuma dizer bem de muitas coisas destas. Por motivos legais, não ponho em causa a idoneidade do laboratório. Mas não posso deixar de apontar, por ser curiosamente grande, o número de métodos extraordinários de poupança que esta empresa encontra entre as empresas que lhe pagam para isso (9). A julgar pelos relatórios, se juntarmos estes dispositivos na mesma viatura até devemos conseguir pôr o motor a produzir gasolina a partir do CO2 atmosférico.

Infelizmente, a realidade ou, segundo alguns, a conspiração mundial promovida pelas empresas petrolíferas, não justifica tanto optimismo. Por exemplo, o Departamento de Comércio do estado da Austrália Ocidental concluiu que estes dispositivos não funcionam e, por isso, mandou retirá-los do mercado e recomendou aos compradores que exigissem o reembolso (10). Mas não desesperem. Estas invenções geniais são tão fáceis de criar como põr uma página na net e inventar um nome. Cá em Portugal ainda vendem a versão antiga, mas agora o que está a dar é o Greentech. Este não só melhora o combustível mexericando nas forças de van der Waals como tem também um dispositivo para aumentar o oxigénio no ar «neutralizando o poluente flutuando no ar como poeira, emissão, germes, pólen, fumo de tabaco, fungos e todas as outras espécies que possuem iões positivos» (11). Este sistema garante assim o dobro da poupança real do anterior. Que continua a ser zero, mas isso fica aqui entre nós não vá o Luís zangar-se.

1- António Sousa, Poupar Melhor, Equipamentos que não poupam combustível. Obrigado pelo email com a dica.
2- Citado da página do representante em Portugal, Moletronic
3- LMConsultadoria, na página “Serviços”.
4- Treta da Semana: Poupança Magnética.
5- Moletech, Research.
6- Moletronic, Como Funciona, Quanto se Poupa?
7- Moletronic, Desenvolvimento
8- California Environmental Engineering 9- Por exemplo, o Microlon, a Nanotech Fuel Corporation, o Ethos Fuel Reformulator, Biofriendly Green Plus. Mais sobre isto no How to spot a psycopath.
10- DOCEP, Questionable Fuel Saving Device - Mtech Fuel Saver
11- Greentech fuel saver, About Greentech fuel saving device, via How to spot a psycopath.

sábado, junho 23, 2012

Head crash.

Num disco rígido, os pratos rodam a cerca de cem voltas por segundo e as cabeças de leitura têm de ficar muito próximas da superfície dos pratos, que passa a uns cem quilómetros por hora. A essa velocidade, é importante que não se toquem. Normalmente, as cabeças são mantidas no sítio pelo fluxo do ar arrastado pelos pratos. No entanto, se alguma impureza ou choque perturba a posição da cabeça, está tudo estragado. A designação head crash é sugestiva não só do que se passa no disco mas também da vontade do utilizador em dar cabeçadas se porventura descurou as cópias de segurança.

Felizmente, no meu caso, o head crash só afectou o disco. Costumo ter cuidado com os backups e tudo o que seja importante guardar copio para vários discos. Por isso, apesar do disco estar cheio de tralha (todos os discos ficam cheios de tralha em pouco tempo, independentemente da capacidade), só precisava de recuperar umas filmagens do aniversário dos miúdos, que tinha tirado da máquina pouco tempo antes do crash. Graças ao TestDisk consegui recuperar a partição e aqueles ficheiros que me interessavam. Mesmo a tempo. O contacto entre a cabeça e o prato não só danifica o prato naquela pista. Também liberta pequenos fragmentos de metal que acabam por afectar as outras cabeças, propagando os problemas. Ao fim de pouco tempo o disco ficou inutilizável.

Como comprei o disco em Abril de 2010, já está fora dos 2 anos de garantia. Seja como for, não me parece boa ideia entregar um disco rígido a desconhecidos, se tem informação pessoal. Mesmo que pareça estragado. Portanto, decidi desmontá-lo para a fotografia e sempre posso usar os pratos para assustar os pássaros da horta. O da direita está menos danificado, com o aspecto de um prato saudável. No da esquerda nota-se uma linha bem marcada devido à cabeçada que levou.

pratos

Se bem que, nesta fase, seja muito improvável que alguém se dê ao trabalho de levar os pratos do disco, limpá-los, montá-los no hardware adequado, alinhá-los e tentar recuperar os ficheiros só para ver os meus extractos bancários e fotos da família, também não custa esfregar umas vezes com os ímanes que ancoram as cabeças de leitura (mas cuidado com os dedos; estes ímanes não são como os do frigorífico). Julgo que isso baste para destruir a informação na superfície magnética do disco.

terça-feira, junho 19, 2012

Economismo, parte 2.

O Rui Albuquerque criticou o meu post anterior, que caracterizou de «cheio de afirmações e desprovido de quaisquer demonstrações». Apelando ao rigor científico, pediu-me para fundamentar a alegação de que os impostos elevados «“não destroem a economia”» com detalhes acerca da política fiscal dos EUA no período que eu referi (1). Mas eu apenas rejeitei a alegação dele, que impostos elevados são «a fórmula necessária e suficiente para a destruição de qualquer economia»(2). Para isso basta dar um exemplo de uma economia que tivesse aguentado impostos elevados sem ruir. Se o Rui quiser mais detalhes, que consulte a explicação da Priscila Rêgo (3). Entretanto, fico à espera do fundamento empírico dele para a regra que enunciou.

A seguir, o Rui questionou algumas afirmações minhas, classificando-as «de simples conteúdo ideológico [sem] sombra de demonstração»(1). Primeiro, que “Quanto mais dinheiro se tem mais fácil é obter o dinheiro dos outros” (4). Isto é fácil de demonstrar. Quem tem muito dinheiro pode fazer tudo o que poderia fazer sem dinheiro, mais tudo o que só pode fazer com dinheiro. Logo, tem mais opções. Além disso, um dos fundamentos do capitalismo é que o dinheiro pode servir para ganhar mais dinheiro. Que “a melhor forma de enriquecer no sector privado é apropriando-se da riqueza criada por outros” também é fácil de demonstrar. Por muito enérgico e talentoso que um indivíduo seja, só tem 24 horas por dia para trabalhar. Mas se contratar mil empregados e ficar com 10% da riqueza que cada um gerar pode ganhar muito mais. É por isso que quem monta um negócio contrata empregados. Não é para fazer favores, caridade ou combater o desemprego. É porque lucrar com a riqueza que os outros produzem é a melhor maneira de enriquecer. Por muito bem que chute a bola, o Cristiano Ronaldo não consegue ganhar mais do que o Belmiro de Azevedo, com quase quarenta mil a trabalhar por ele.

O Rui pede-me também que demonstre que a riqueza “é simplesmente um somatório de preços”. O conceito é complicado e varia muito com o contexto mas, em economia, a riqueza acaba por ter de ser quantificada em unidades monetárias. Ou seja, em preço. Se o Rui, quando fala de riqueza, não está a falar de euros então que explique o que quer dizer. Também é fácil perceber porque é que a economia privada sem redistribuição é insustentável. No mercado livre, a riqueza de cada um vai variando, seja por mérito, demérito, sorte ou falta dela. No entanto, enquanto que no extremo inferior se torna cada vez mais difícil obter os meios para enriquecer – o esforço, por si só, não basta, especialmente de barriga vazia – no extremo oposto acontece o contrário. Os ricos têm sempre mais opções e mais poder para as concretizar. Como há um limite para a desigualdade que uma sociedade pode comportar até que a AK-47 se torne mais relevante do que a conta bancária, sem mecanismos de redistribuição é só questão de tempo até que a economia colapse. Mas esta é das tais regras universais que se pode facilmente refutar com um contra exemplo. Basta ao Rui indicar um país onde haja estabilidade e prosperidade sem redistribuição.

É óbvio que, ideologicamente, eu e Rui divergimos muito. Seria interessante identificar os pontos chave dessa divergência mas, antes disso, temos de resolver a confusão entre valores e factos. O Rui pergunta se eu estou «satisfeito com a evolução da justiça, da segurança, da saúde e da educação de Portugal». Não estou. Subjectivamente, gostaria que fossem melhores. Mas, objectivamente, na última década a esperança média de vida subiu quase 3 anos (5) e o número de licenciados duplicou (6). Uma coisa é discutirmos se isto é bom ou se poderia ser melhor. Outra, bem diferente, é saber se há uma forma prática de obter o mesmo resultado com menos dinheiro. Podemos discutir qualquer um destes aspectos, mas é crucial distingui-los. Da minha satisfação, ou falta dela, não se pode inferir que os impostos destroem a economia ou deterioram a saúde e a educação.

Este problema é ainda mais claro com a justiça e a segurança. Num post posterior, notando que o número de seguranças privados já ultrapassou o dos agentes policiais, o Rui pergunta «se a iniciativa privada já cumpre melhor aquela que é a primeira justificação da existência do estado – a segurança dos cidadãos – por que não o poderá fazer com todas as outras?»(7). Objectivamente, o papel da segurança privada é diferente do da polícia e, para garantir que todos são livres de transaccionar os seus bens e trabalho é preciso uma polícia que proteja todos por igual. Se a substituímos por guardas a soldo temos um sistema como o feudal, no qual os pobres não tinham propriedade. Eram propriedade. Se o Rui defende, subjectivamente, que esse sistema é melhor, então que seja explícito nos seus critérios para podermos decidir se aceitamos o seu juízo de valor. Se, por outro lado, defende como facto que a segurança privada garante a todos os mesmos direitos que a polícia, então afirme-o claramente e justifique a afirmação. Esta misturada de que «a iniciativa privada já cumpre melhor» esta função do Estado deixa-nos sem saber nem qual é, objectivamente, a função que refere nem, subjectivamente, que critérios invoca para a considerar melhor cumprida.

O que talvez seja de propósito. Suspeito que os valores deste liberalismo do Rui sejam tão repugnantes, e os factos que presume tão inverosímeis, que a única forma de o defender seja misturando tudo na esperança que a confusão disfarce o disparate.

1- Rui Albuquerque, que tretas!
2- Rui Albuquerque, economia capitalista e “economia” parasitária
3- Priscila Rêgo, O que sabemos (mesmo) acerca dos impostos
4- Treta da semana: economismo.
5- Index Mundi.
6- Jornal de Notícias, Licenciados duplicam em dez anos
7- Rui Albuquerque, mais uma das coisas que «só o estado pode garantir»

domingo, junho 17, 2012

Treta da semana: economismo.

A ciência exige que as opiniões sejam formuladas com rigor e avaliadas de acordo com evidências e não por critérios ideológicos. É este o segredo do progresso científico e tecnológico. Infelizmente, na economia isto parece difícil de fazer. Talvez pela complexidade dos processos que modela e pela sua importância para várias ideologias, muitas vezes mais parece algo como a teologia, o criacionismo ou uma medicina alternativa. O Rui Albuquerque dá um bom exemplo disto num post recente, que começa alegando que «Impostos elevados sobre o rendimento das pessoas e das empresas são a fórmula necessária e suficiente para a destruição de qualquer economia»(1).

Tal como a lei dos semelhantes na homeopatia (2), isto é demonstradamente falso. Nos EUA, o imposto máximo sobre rendimentos variou entre 28% e 92% nos últimos 60 anos. A média do crescimento anual do PIB quando o escalão máximo não ultrapassava os 35% foi pouco mais de metade do que quando o escalão máximo estava acima dos 75% (3). Esta correlação não permite concluir que impostos elevados promovem o crescimento mas permite rejeitar a hipótese de que impostos elevados destroem a economia. Até é fácil perceber porque é que a regra do Rui é falsa. Nos rendimentos mais elevados, o dinheiro não incentiva tanto como nos rendimentos mais baixos. Se um operário tiver de pagar 90% do seu salário em impostos o mais provável é preferir o fundo de desemprego. Mas é pouco plausível que o Mourinho desistisse da carreira por pagar 90% de impostos sobre os 22 milhões que recebe por ano, na premissa de que 200.000€ limpos por mês não chegam para persuadir alguém a treinar futebolisas.

Enquanto os criacionistas descrevem a teoria da evolução como “as coisas surgiram por acaso”, o Rui Albuquerque descreve «O pressuposto da utilidade tributária» como «o estado e o governo podem criar riqueza e prosperidade com o dinheiro retirado aos seus legítimos proprietários». Ambos falham o alvo. O que acontece é que um Estado exige recursos para ser mantido e um Estado é necessário para se poder gerar riqueza e prosperidade. Não se presume que é o Estado quem vai criar riqueza mas sim que sem um Estado – sem leis, defesa, educação, infraestruturas, governo, etc – não se consegue criar tanta riqueza e prosperidade. Além disso, a tributação tem também a função de redistribuir a riqueza para compensar a instabilidade do mercado. Quanto mais dinheiro se tem mais fácil é obter o dinheiro dos outros. A longo prazo, isto dá chatice se não se compensar com um fluxo contrário. E tem também a função de distribuir equitativamente o esforço de manter o Estado, cobrando mais a quem menos custa pagar.

Depois vem a abordagem teológica, definindo a economia capitalista como «aquela em que as pessoas sabem que do resultado do seu trabalho e do seu esforço poderão acumular capital». É como definir que uma coisa só pode ser perfeita se existir e Deus é perfeito, concluindo daí que tem de existir. Isto finge que a realidade se verga à definição do termo. Numa economia capitalista as pessoas podem acumular capital, mas poucos viverão convictos de que é o seu esforço pessoal que os levará à riqueza. O Rui diz que a diferença é que, sem redistribuição estatal, as pessoas investem «meios e recursos […] na criação de riqueza» mas que, com o Estado, «preferirão viver à conta da riqueza gerada por outros». Na realidade, a melhor forma de enriquecer no sector privado é apropriando-se da riqueza criada por outros. O Belmiro de Azevedo não ganha fortunas vendendo mercadorias. Ganha é parte da riqueza gerada pelos seus empregados. Ao contrário do que o Rui tenta tornar real por definição, quem pode aproveita-se sempre da riqueza que outros geram. A diferença é que quando o Estado redistribui não são apenas os ricos a ter essa possibilidade.

Finalmente, o problema da “riqueza”, um termo com conotações para além do que significa em economia. O seu significado económico é simplesmente o valor monetário total dos activos menos o dos passivos. “Gerar riqueza” quer dizer aumentar esse valor monetário. Mas, tal como a medicina alternativa usa “positivo” e “negativo” para sugerir algo de bom ou mau, sejam iões, vibrações ou energias, os economismos aproveitam a conotação subjectiva de “riqueza” para passar a ideia de que isto é o mais importante. Assim, se o Estado gasta dinheiro a educar as pessoas ou a garantir-lhes tratamentos médicos faz uma maldade porque aumenta a despesa e destrói riqueza. Buu. Mas se alguém cria uma empresa de dar banho a cães e ganha dinheiro com isso então faz uma coisa muito boa porque está a gerar riqueza. Viva. Excelente.

Como os agentes económicos visam obter riqueza, é verdade que a economia privada gera riqueza. No entanto, há três pontos que importa não esquecer. Primeiro, esta “riqueza” é simplesmente um somatório de preços. Não é necessariamente o mais importante. Não implica saúde, nem cultura, nem justiça nem liberdade, por exemplo. Em segundo lugar, para que os agentes económicos possam gerar riqueza num mercado livre é preciso uma data de coisas que só o Estado pode garantir. Finalmente, a economia privada só é sustentável se houver redistribuição que compense a sua tendência para agravar desigualdades. Para descrever correctamente a realidade é preciso não descurar estes factores. Nem mesmo quando causam desconforto ideológico. Por isto, entre outras coisas, é que é preferível aumentar os impostos dos mais ricos em vez de diminuir os apoios aos mais pobres (4).

1- Rui Albuquerque, economia capitalista e “economia” parasitária
2- Wikipedia, Homeopatia
3- Michael Linden: The Myth of the Lower Marginal Tax Rates
4- Paul Krugman, Taxing Job Creators

sexta-feira, junho 15, 2012

Evolução: mutações aleatórias (adenda).

O Orlando Braga respondeu ao meu último post. Felicito-o por isso. Há tempos, gabava-se de não ler aquilo que criticava (1) e isto revela que o seu método melhorou, mesmo que ainda sem benefícios para os resultados. Antes de passar aos problemas mais substanciais, queria recomendar ao Orlando que evitasse referir probabilidades assim, «se eu digo que a probabilidade de algo ocorrer é de 3, isso significa implicitamente que é de 1 em 3»(2). As convenções são importantes para a comunicação e as da matemática não o são menos que as do Português. Ler “a probabilidade de algo ocorrer é de 3” dá um tropeção mental tão grande como ler a forma reflexa do verbo quando, “implicitamente”, se quer o modo conjuntivo. “Se eu janta-se em tua casa”, por exemplo. Até arrepia. Mas adiante, ao que interessa.

Depois de divagar sobre Fred Hoyle e as minhas alegadas intenções, o Orlando expõe a sua confusão. «O que o escriba quer dizer, segundo percebi, com o seu (dele) argumento segundo o qual “não é preciso a proteína ter aquela sequência”, é que, segundo ele, não existe um processo-padrão de síntese da proteína. E depois vem dizer que o burro sou eu.» Longe de mim igualar o Orlando ao burro. Tenho muito respeito por todos os seres vivos. Mas não é nada disso que eu quis dizer, e lamento que a minha explicação tenha sido tão inadequada. Quando escrevi que uma proteína não precisa de ter aquela sequência queria dizer, e devia tê-lo escrito, que uma proteína não precisa de ter aquela sequência. Não estava a referir-me ao processo de síntese. Talvez uma analogia ajude. A probabilidade de o meu genoma surgir da combinação aleatória de genes humanos é ridiculamente pequena, de um em dez elevado a uma batelada. Nem preciso do Sir Fred Hoyle para estimar isto. No entanto, o que se deduz daqui é limitado pelo facto, evidente, de que para ser humano não é preciso ter exactamente os meus genes. Há muitas outras combinações, tão boas ou melhores (3). Com as proteínas passa-se algo de semelhante. Por exemplo, para uma proteína ser isocitrato desidrogenase não precisa de ter exactamente aquela sequência. Pode ter qualquer uma de muitas diferentes (4). Este é um dos problemas com as contas que o Orlando referiu.

O outro, que também confundiu o Orlando, é que a evolução não junta os aminoácidos de uma vez. Aqui a confusão talvez seja mais fundamental. Escreve o Orlando que «Uma proteína típica contém entre cinquenta a três mil resíduos de aminoácidos, mas a estrutura primária da proteína — repito: estrutura primária! — é composta pelos 20 aminoácidos a que me referi no meu verbete supracitado e em referência a Sir Fred Hoyle.» Não sei que distinção o Orlando quer fazer aqui, mas a estrutura primária é a sequência dos tais “entre cinquenta a três mil resíduos”. Estes resíduos – chamam-se resíduos porque cada aminoácido perde alguns átomos na ligação peptídica – normalmente correspondem a vinte tipos diferentes de aminoácidos, mas a estrutura primária não é os vinte tipos. É a sequência de todos os resíduos da proteína, centenas ou milhares deles, com repetições e tudo. Essa sequência foi gerada pela acumulação gradual de mutações, sempre sob pressões selectivas. Isto faz muita diferença. Se tivermos de adivinhar uma combinação de quatro algarismos precisamos, em média, de testar umas cinco mil combinações até acertar. Mas se pudermos adivinhar cada algarismo e nos forem dizendo se está certo ou errado, então basta 40 tentativas, na pior das hipóteses. Não é preciso explorar todas as combinações. A evolução não decorre exactamente desta forma mas há uma redução análoga no espaço de pesquisa. Cada mutação só vinga se o organismo em que ocorre replicar esses genes de forma competitiva. Assim, muitas possibilidades ficam fora do alcance do processo e a probabilidade de encontrar uma das soluções permitidas é muito maior do que a estimada considerando todas as combinações.

Neste post, o Orlando não menciona a evidência empírica que demonstra serem aleatórias as mutações como as do exemplo que ele deu, da resistência a antibióticos. Em vez disso, escreve que «o princípio darwinista das mutações aleatórias e de pequenos passos, está errado» apenas «no surgimento da vida!»(2), e não depois da vida já ter surgido. Isto é confuso, visto que a alternativa proposta pelo Orlando era a mutação ser «conduzida pela própria célula, como organismo vivo»(6), o que parece ser difícil «no surgimento da vida!», mesmo com ponto de exclamação. Mas, seja como for, é uma boa notícia, porque implica que o Orlando aceita a teoria da evolução como descrição correcta da vida depois desta ter surgido. É um passo importante.

Falta-lhe apenas perceber que a teoria da evolução se aplica a quaisquer populações de replicadores que herdem características mutáveis. Nada nesta teoria, no caso geral, exige que os replicadores sejam classificados de “seres vivos”. Os vírus, por exemplo, evoluem bastante facilmente, para infortúnio nosso, mas não são seres vivos. Por isso, este processo de mutações aleatórias e selecção natural pode servir também para descrever sistemas químicos mais simples que tenham dado origem aos primeiros seres vivos.

Numa coisa o Orlando tem razão. A evolução como concebida por Darwin não pode explicar «o surgimento e o funcionamento, por exemplo, de uma célula eucariótica típica». No entanto, isto não se deve a qualquer intervenção divina ou sobrenatural. O problema é que a célula eucariótica resulta da fusão de células procarióticas, um processo que a teoria darwiniana não consegue modelar. Felizmente, a biologia moderna está muito além das ideias iniciais de Darwin e continua a avançar, graças à abordagem, mais laboriosa mas mais produtiva, de testar hipóteses concretas e claras em vez de teimar em afirmações vagas e confusas.

1- Humpty & Dumpty, e do Orlando Braga, Caros ateístas: a negação de uma metafísica é sempre uma metafísica!
2- Orlando Braga, O missal darwinista consegue ser pior do que o Alcorão
3- Por exemplo
4- Só entre as que já conhecemos, e limitando o agrupamento a 50% de identidade no mínimo, temos 2287 neste momento.
5- Wikipedia, Luria–Delbrück experiment
6- Orlando Braga, A confusão darwinista: micro-mutações = macro-mutações = vida

quarta-feira, junho 13, 2012

Evolução: mutações aleatórias.

A teoria da evolução é, da ciência moderna, a teoria que mais claramente refuta a crença de termos sido criados à imagem de um deus. Talvez por isso seja a mais criticada por quem não percebe nada de biologia. Ou de ciência. O Orlando Braga é um exemplo disto. «Segundo Sir Fred Hoyle, a probabilidade de 20 amino-ácidos se juntarem aleatoriamente na sequência correcta para formarem uma proteína, é de 1040 [1 seguido de 40 zeros]»(1). Além de se enganar, repetidamente, nos valores de probabilidade (é de 1 em 1040; não faz sentido dizer que uma probabilidade é de 1040) e de alegar absurdos como «o número 1050 já é considerado uma impossibilidade matemática; 4) o número total de átomos em todo o universo é estimado em 1080», aparentemente sem sequer perceber a contradição no que escreve, esta invocação falaciosa da autoridade de um astrónomo para um cálculo trivial – há 20 tipos de aminoácidos, pelo que a probabilidade de uma sequência de N aminoácidos surgir aleatoriamente é simplesmente de um em 20N – é irrelevante por duas razões. Primeiro, porque não é preciso a proteína ter exactamente aquela sequência. Nas proteínas presentes entre seres vivos, basta que um quarto da sequência seja idêntica para que a estrutura seja praticamente igual (2), pelo que o alvo a atingir para obter uma dada estrutura é muito maior do que uma só sequência. E, em segundo lugar, porque a evolução não faz uma amostragem aleatória completa, juntando todos os aminoácidos aleatoriamente, mas sim acumulando mutações ao longo de muitas gerações e sempre sujeitas a pressão selectiva para eliminar as menos favoráveis, pelo que o espaço de possibilidades é muito menor.

Mas o exemplo mais interessante na crítica do Orlando é o que ele dá acerca da resistência aos antibióticos em bactérias. Numa cultura de bactérias sensíveis a um antibiótico pode haver uma pequena percentagem de mutantes que, devido a essa mutação, resistem ao antibiótico. «O problema é saber se essa micro-mutação [...] é aleatória ou se é conduzida pela própria célula, como organismo vivo, que se auto-impõe uma determinada adaptação em função e em resposta ao meio-ambiente». É verdade, essa questão tem de ser respondida, se a mutação é aleatória e precede a exposição ao antibiótico ou se ocorre como resposta à exposição ao antibiótico e não por acaso. Para o Orlando, basta ficar por aqui e pronunciar, da cadeira, que essa «dedução [teoria] segundo a qual a evolução [...] resultou de uma selecção natural mediante mutações aleatórias[...] é uma metafísica que se aproxima de uma certa religiosidade.»

Felizmente, os cientistas são menos preguiçosos. Em 1943, Salvador Luria e Max Delbrück fizeram uma experiência para responder a esta pergunta, usando como caso de estudo a resistência de bactérias a um vírus. Quando uma cultura de bactérias é infectada com um bacteriófago, um vírus que ataca bactérias, a maioria das células é destruída mas algumas resistem à infecção e todas as suas descendentes serão resistentes também. Alguma mutação torna essa linhagem resistente ao vírus. O que Luria e Delbrück fizeram foi obter culturas, em meio líquido, a partir de bactérias isoladas. Uma bactéria divide-se em duas, depois quatro, oito e assim por diante, em crescimento exponencial enquanto houver nutrientes. Depois, inocularam cada cultura com bacteriófago, retiraram uma amostra do líquido e espalharam numa placa com meio sólido de cultura. As bactérias que sobreviveram formaram colónias, visíveis a olho nu, e que permitiram determinar a quantidade de bactérias resistentes em cada cultura.

Se a mutação ocorresse em resposta à infecção pelo vírus, ou como o Orlando pomposamente escreve «conduzida pela própria célula, como organismo vivo, que se auto-impõe uma determinada adaptação em função e em resposta ao meio-ambiente», seria de esperar que se formasse um número semelhante de colónias em todas as placas porque todas as bactérias resistentes seriam sobreviventes de populações semelhantes aquando da infecção pelo vírus, com probabilidades semelhantes de adquirir resistência. Em contraste, se a mutação ocorresse aleatoriamente, já estaria presente na população antes do vírus ser introduzido na cultura, e a fracção de bactérias resistentes dependeria da geração na qual a mutação teria surgido. Como o crescimento é exponencial, a cada geração mais cedo que surja a mutação duplica o número de resistentes. Assim, o número de colónias nas placas iria variar muito, conforme a geração em que a mutação teria surgido. E foi esse o resultado (3).

A origem aleatória das mutações não é especulação dogmática, nem metafísica, nem fé. É uma hipótese bem testada, com quase setenta anos de suporte experimental. Aquilo que leva o Orlando Braga a concluir que «O princípio darwinista das mutações aleatórias presentes no surgimento da vida, está errado» não são as evidências nem qualquer problema com a teoria que ele critica. É apenas não ter dedicado uns minutos a pesquisar o assunto na Wikipedia.

1- Orlando Braga, A confusão darwinista: micro-mutações = macro-mutações = vida
2- Wikipedia, Homology modeling.
3- Na Wikipedia há uma explicação simples da experiência, Luria–Delbrück experiment, e aqui está o artigo original: Mutations of Bacteria from Virus Sensitivity to Virus Resistance

domingo, junho 10, 2012

Treta da semana: as cobaias.

Há dias que oiço falar das crianças da Casa Pia que foram cobaias numa experiência sobre a toxicidade do mercúrio, arriscando problemas mentais e outras coisas terríveis. Hoje decidi ver a reportagem da RTP que ressuscitou esta história, que pouca atenção teve quando saiu no Público em 2003 (1). Fiquei na dúvida se o problema é os jornalistas não perceberam os temas que abordam, se é não terem incentivos para relatar os factos quando teorias da conspiração vendem melhor, ou se é uma mistura das duas. O que ficou claro é que a reportagem é uma treta.

O “chumbo” dos dentes contém mercúrio e o mercúrio é muito tóxico. Mas isto é como dizer que o sal de mesa contém cloro e o cloro é mortífero e foi usado como arma química. A toxicidade não depende do elemento em si mas da forma em que se encontra e como se liberta. A amálgama de mercúrio é usada por dentistas há mais de 150 anos, já foi sujeita a vários estudos clínicos e não há evidências de que liberte mercúrio em quantidades suficientes para ser perigosa. Por isso, até recentemente foi o material mais usado para preencher cavidades nos dentes. Hoje é menos usada porque há alternativas, como resinas sintéticas e porcelanas, porque há quem seja alérgico ao mercúrio, porque é um risco para os dentistas que lidam todos os dias com a amálgama e pelo impacto ambiental da cremação de cadáveres com amálgama (2). Mas, em 1997, a amálgama era o material mais comum para tratar cavidades nos dentes.

Por isso, os tratamentos dentários aplicados às crianças no tal estudo da Casa Pia foram os mesmos que seriam aplicados a quaisquer crianças que fossem ao dentista. A única coisa especial no estudo era que umas crianças só seriam tratadas com amálgama e as outras só com resina composta para se medir as diferenças entre estes grupos. O objectivo era comparar a exposição ao mercúrio, medindo o mercúrio na urina, e determinar se havia algum efeito no desenvolvimento neurológico testando regularmente a memória, a coordenação, a concentração e a velocidade dos impulsos nervosos das crianças ao longo de sete anos. A nenhuma criança foi aplicado qualquer tratamento experimental e o resultado foi que, apesar das crianças tratadas com amálgama terem mais mercúrio na urina, as concentrações eram baixas (3) e não havia diferenças detectáveis a nível neurológico (4).

A reportagem da RTP transmite o oposto, assentando em duas ideias assustadoras: que a experiência era expor as crianças ao mercúrio e que o mercúrio da amálgama é muito perigoso e tóxico. Começa com música de conspiração, letras a vermelho a dizer “venenoso” e uma pessoa desfocada com voz disfarçada, mas aparentemente de bata, a dizer que a maioria dos dentistas que conhece ficaram chocados com este estudo. Depois, a jornalista diz que “descobriram” na ficha oficial americana que o estudo foi feito em crianças por serem «a população mais susceptível de revelar qualquer efeito na saúde». Se tivessem lido o artigo até tinham a explicação para isto: «A hipótese foi que crianças expostas a baixos níveis de mercúrio da amálgama poderiam ter resultados de saúde e desenvolvimento menos favoráveis do que crianças que recebessem tratamento dentário semelhante sem exposição à amálgama.» Mas dizendo que descobriram parece mais conspiresco do que referir o artigo. Uma entrevista a um paciente incógnito que diz que lhe recomendaram chumbar os dentes porque tinha cáries remata, de forma ironicamente ridícula, a teoria da conspiração. Chumbar os dentes por ter cáries. Claramente, estavam a tramar alguma.

E assim continua até ao fim. O desfocado de bata aparece várias vezes. Diz que é «incompreensível testar mercúrio em crianças», quando ninguém estava a testar isso, e que é um metal que «toda a gente sabe que é tóxico». Toda a gente que, provavelmente, tem dentes chumbados. Dedicam também muito tempo a duas activistas americanas que andam em cruzada contra a amálgama. Uma tinha tido um linfoma e, como não tinha seguro de saúde, tentou tratar-se com medicinas alternativas. Eventualmente tirou a amálgama dos dentes e declarou-se absolutamente convencida de que a amálgama era a culpada. É este o nível de evidências científicas apresentado na reportagem. Isto, as alegações de um dentista brasileiro que sempre foi contra a amálgama e um pediatra que explica os perigos genéricos de expor crianças ao mercúrio mas sem apresentar quaisquer evidências de que isso tenha que ver com a amálgama.

Toda a reportagem é sensacionalista e enganadora. Admitem que a amálgama está a ser menos usada pelos problemas ambientais «mas não pelo mal que faz», dando a impressão de que há evidências desse tal mal. Apontam que os médicos recomendam a grávidas e crianças que não comam peixes com mercúrio, tal é o perigo, mas sem referir que 100g de peixe espada tem dezenas de vezes mais mercúrio do que a amálgama liberta por dia (5). E nunca referem que o peso das evidências é de que a amálgama, usada há mais de 150 anos, não tem riscos relevantes para a generalidade das pessoas. Em vez disso focam incógnitos, activistas e casos pontuais não documentados, e alegam que testaram mercúrio nas crianças.

Esta reportagem é um nojo. Já me custa que façam disto nas televisões privadas, onde o objectivo é declaradamente vender os anúncios no intervalo seja porque meios for. Mas na televisão pública deviam ter um pouco mais de respeito pela realidade. Talvez estejam já a preparar a privatização...



1- Público, Reportagem da RTP reacende polémica sobre estudo com crianças da Casa Pia
2- Wikipedia, Dental amalgam controversy
3- Três micrograma por litro, o que é um décimo do limite aceitável, segundo recomendações da UE (ver SCOEL/SUM/84).
4- DeRouen et al, 2006, Neurobehavioral Effects of Dental Amalgam in Children, JAMA. 2006;295(15):1784-1792
5- Wikipedia, Mercury in fish

sexta-feira, junho 08, 2012

Ódio é outra coisa.

Num post intitulado “Ódio Ateísta”, o Ricardo Pinho escreve que «O Diário Ateísta é poluição intelectual; um desperdício de energia eléctrica; uma tasca de asco e cuspo.»(1) E assim por diante. Apesar de me parecer uma generalização precipitada, concordo parcialmente com esta avaliação. Há coisas no Diário que também me desagradam, que não publicaria em meu nome ou que não me interessa ler. No entanto, parece-me que o Ricardo erra, muito, na extrapolação que faz a partir deste juízo subjectivo.

Escreve o Ricardo que quando fundou o site ateismo.net, «O objectivo principal era [...] «a despreconceitualização do ateísmo» mas que «Passados estes anos todos, é ele próprio um antro de preconceito.» Dá a ideia de que as coisas corriam bem quando o Diário Ateísta tinha uma política editorial rígida e agora, que cada um escreve como entende, ficou muito pior. Não é verdade. Eu também participei no DA há uns anos e o problema era, fundamentalmente, o mesmo. Também nessa altura havia muita coisa no DA que não me agradava. O que era de esperar. Afinal, a única coisa que os ateus têm garantidamente em comum é não acreditar que existam deuses. No resto, do sentido de humor à orientação política, discordam tanto quanto quaisquer outros. Além disso, o sistema antigo tinha a agravante de impor a todos os preconceitos de alguns. Por exemplo, havia uma regra que proibia posts em resposta a textos de outros blogs, o que sempre achei um disparate. E acabei por sair daquela encarnação do DA quando me rejeitaram um post sobre o aborto por o considerarem ofensivo, voltando só depois de decidirem deixar cada texto a cargo do seu autor. Agora, pelo menos, os preconceitos de cada um determinam apenas a sua escrita e não obrigam os outros.

O Ricardo pergunta «Qual é a estratégia, qual é o objectivo disto tudo?», referindo-se aos insultos aos crentes religiosos. A resposta está no próprio texto do Ricardo. Quando escreve que o DA é «uma tasca de asco e cuspo» e «voz histérica da parolice ateísta» também não parece ter estratégia ou objectivo além de dizer o que pensa. Mas isso, afinal, é o mais importante. O maior valor da liberdade de expressão não é instrumental. É intrínseco. Vale por si. Seja disparate ou revelação profunda, o mais importante é poder dizê-lo. Se quiséssemos garantir que todos os textos tivessem “estratégia e objectivo” teria de haver alguém a impor estratégia e objectivo aos outros, e esse seria um problema muito maior.

Mas o pior erro é esta coisa do “ódio”: «Ainda pensei que se poderia salvar esta página mudando-lhe o nome para Tasca Ateísta, mas até numa tasca há coisas boas. Mais acertado seria chamar-lhe Ódio Ateísta. [… houve] uma densificação da massa vil: e os odiosos acabaram por gravitar para onde há outros odiosos.» O ódio é um sentimento forte que implica querer mal ao outro. Pode-se inferir que sente algum ódio quem acredita que os ateus merecem uma eternidade no inferno ou que os terremotos são um castigo pela homossexualidade. Mas não se pode concluir que alguém odeia só porque goza ou escarnece de algo. Nem mesmo que diga dos outros que o que escrevem é «é poluição intelectual; um desperdício de energia eléctrica; uma tasca de asco e cuspo.» Quando leio o texto do Ricardo percebo que quer ser duro na crítica mas não concluo que odeia as pessoas de quem fala. Seria uma conclusão injusta e injustificada.

O Ricardo confunde duas coisas muito diferentes. A liberdade de expressão, que tem valor mesmo quando ofende, e o ódio de quem deseja mal aos outros pelo que pensam ou são. É uma confusão infeliz, especialmente neste contexto, porque aquilo que o Ricardo chama “ódio ateísta” são manifestações contra o ódio. O ódio religioso. Algumas podem expressar desprezo, outras podem ser de mau gosto, escárnio ou insulto, mas nenhuma defende que os crentes merecem o tormento eterno por acreditar no que acreditam. No ateísmo que o Ricardo rotula de odioso não há nada equivalente ao ódio que tantos religiosos manifestam contra os homossexuais, contra as mulheres, contra os apóstatas e ateus. Esta é uma diferença fundamental entre o ateísmo e as religiões. Os ateus não o são por obrigação, recompensa ou medo de castigo. Como tal, não consideram que os outros tenham obrigação de ser ateus ou que mereçam castigo se não forem. Mas a ideia da crença religiosa como uma virtude e obrigação moral trespassa praticamente todas as religiões. Isto leva as instituições religiosas a defender o ódio, no sentido muito específico de desejar o mal a quem não partilhar a crença certa. Segundo a doutrina cristã, por exemplo, eu mereço o inferno por achar que Jesus não tinha nada de divino e que o Espírito Santo é tão fictício como a Carochinha. É isto que sugere ódio.

Para concluir, queria apontar duas coisas ao Ricardo. Primeiro, a diferença entre as sociedades que toleram a «poluição intelectual», o «asco e cuspo» e a «parolice ateísta» e as outras sociedades onde as religiões têm mais poder. Dizer mal de Maomé é muito menos odioso do que apanhar dez anos de cadeia por isso (2). E, em segundo lugar, que temos de defender constantemente os nossos direitos para evitar perdê-los. Confundir a liberdade de expressão com o ódio é meio caminho andado para a censura religiosa, leis anti-blasfémia e outras expressões do ódio que motiva as religiões a condenar todos os que rejeitem a doutrina.

1- Ricardo Pinho, Ódio ateísta.
2- The Blaze, Man Gets 10 Years in Kuwaiti Prison for Allegedly Sending Anti-Prophet Mohammad Tweets

Em simultâneo no Diário Ateísta.

domingo, junho 03, 2012

Treta da semana: factos criacionistas.

O Mats apresentou no seu blog «Quatro factos científicos que refutam a teoria da evolução», alegando que «Quatro observações demonstram o porquê da evolução [...] não ser uma genuína teoria científica»(1). Vejamos então que coisas contam no criacionismo como factos e observações.

Ignorância: A primeira é que «Os fósseis não revelam qualquer tipo de evidência da evolução micróbios-para-microbiólogos». Segundo o Mats, os «fósseis deveriam evidenciar as transições entre criaturas não relacionadas umas com as outras», mas «são disputados pelos próprios evolucionistas». Não se percebe o que é que serem “disputados” tem de mal mas, seja lá o que for, os paleontólogos esperam encontrar evidências de evolução nos fósseis precisamente pela relação de parentesco entre todos os seres vivos. Se não houvesse tal relação então não se esperaria encontrar tais evidências. E as evidências não estão nos fósseis individuais, “disputados” ou não, mas sim no padrão formado pelo conjunto de fósseis. A ordenação cronológica de milhões de vestígios, de pólen e patas de insecto a esqueletos de dinossauro, só pode ser explicada pela teoria da evolução ou por um milagre, e este último não serve de nada como explicação.

Mentira: A segunda “observação” do Mats, supostamente refutadora da teoria da evolução, é que «Um estudo levado a cabo no ano de 2010 não observou qualquer tipo de evolução na mosca da fruta mesmo depois de 600 gerações». No entanto, segundo o resumo do artigo que o Mats refere, «Moscas nestas populações seleccionadas desenvolvem-se de ovo até adulto ~20% mais depressa do que moscas das populações ancestrais de controlo, e evoluíram um número de outros fenótipos correlacionados.»(2).

Disparate: O terceiro “facto”, ou “observação”, é que a «Entropia genética invalida a evolução.» A “entropia genética” não é observação, nem facto, nem sequer é um conceito da biologia. É uma invenção de um criacionista, John Sanford, que basicamente decidiu, porque acordou para esse lado, que não há mutações benéficas e, por isso, a evolução é impossível (3).

Presunção: Finalmente, o último “facto” é de que, como os criacionistas não sabem como algo pode ter evoluído, então não pode ter evoluído. Um exemplo concreto do Mats é o sistema respiratório das aves. Nos pulmões dos répteis e dos mamíferos o ar passa em ambas as direcções, para um lado na inspiração e para o outro na expiração. No sistema respiratório das aves, o ar entra para os sacos aéreos do grupo caudal pelos parabrônquios neopolmunares, depois passa novamente por estes e para os parabrônquios paleopolmunares, entra nos sacos do grupo cranial e finalmente é expelido (4). Este sistema circular é mais eficiente, com o ar passando apenas numa direcção nos parabrônquios paleopolmunares, o que permite às aves obter mais oxigénio com menos esforço e também morrer intoxicadas mais facilmente do que os répteis ou mamíferos, garantindo aos canários o seu emprego nas minas. Segundo o Mats, «O pulmão dos répteis teria que parar de respirar enquanto esperava que a evolução construísse ou transferisse as funções para os novos ossos e sacos de ar necessários para o sistema de respiração das áves». Parece grave, mas este problema seria facilmente resolvido se o pulmão funcionasse de forma mista, com um fluxo bidireccional em partes do pulmão, como nos répteis, enquanto o fluxo unidireccional do sistema respiratório das aves ia evoluindo. Que é precisamente o que ainda acontece, porque a parte composta pelos parabrônquios neopolmunares e os sacos do grupo caudal funciona como o pulmão dos répteis e dos mamíferos. Além disso, parece que o sistema respiratório das aves já remonta aos dinossauros (5). Mais um caso em que os fósseis dão evidências da evolução e do parentesco entre espécies.

No cômputo geral, os “factos” e as “observações” que o Mats aponta não fazem muito para refutar a teoria da evolução. Mas ajudam bastante a perceber a treta que é o criacionismo.

1- Darwinismo, Quatro factos científicos que refutam a teoria da evolução
2- Burke et al., Genome-wide analysis of a long-term evolution experiment with Drosophila. Nature 467, 587–590 (30 September 2010)
3- Basicamente, pega nuns gráficos que Kimura usou para ilustrar a teoria da evolução neutra, “adapta-os” e toma isso como evidência da sua tese. Eu tenho o livro, mas não tive paciência para o ler todo. Para quem quiser mais detalhes, está aqui uma análise mais completa: Assessing Limits to Evolution and to Natural Selection: Reviews of Michael Behe’s “Edge of Evolution” and John Sanford’s “Genetic Entropy”
4- Mais detalhes aqui.
5- Evolution pages, Theropod dinosaurs and birds linked by 'breathing' design

Realidade.

Numa conversa com o João Vasco, que infelizmente não pude acompanhar, o Alfredo Dinis afirmou que «a realidade [...] é em grande parte uma reconstrução feita pelas nossas estruturas cognitivas […] Além disso,a ‘realidade’ parece que é algo que “está aí”, quando a realidade é um processo. Acresce ainda que o conhecimento humano através da observação directa vai mudando regularmente. A ideia de que nos estamos a aproximar [do] conhecimento da realidade com as sucessivas teorias, não está garantida.»(1) Acrescentou também que a minha concepção de verdade implica julgar que «o universo está 'aí', à espera que o descubramos completa, objectiva e definitivamente», o que «não é, nem de longe, a única opinião de filósofos e cientistas»(2). Ainda bem, porque também não é a minha.

Por “realidade” refiro-me, admito, ao que está “lá fora”, independente da minha vontade ou percepção. Mas não ignoro a subjectividade da minha percepção. A percepção é forçosamente subjectiva porque só um sujeito a pode ter. Se pisar uma peça de Lego quando ando descalço sinto muito de subjectivo, como a vontade de dizer palavrões e de dar um ralhete aos miúdos. Mas é também razoável concluir que algo “lá fora” condicionou esta experiência. Não foi a minha dor que construiu a peça de Lego. Dizer que a realidade é construída «pelas nossas estruturas cognitivas» é confundir a percepção subjectiva com aquilo que a condiciona. É a isso que condiciona as nossas experiências que chamo realidade.

Também concordo que não temos garantias de «aproximar [o] conhecimento da realidade com as sucessivas teorias». Somos falíveis e a realidade, ao que parece, é complexa. Mas isso não inviabiliza o processo que defendo, de obter conhecimento testando hipóteses, porque não é a garantia que o motiva. É a possibilidade. Basta ser possível aproximar as nossas ideias da realidade que já vale a pena procurar o conhecimento. E não precisamos de saber tudo «completa, objectiva e definitivamente». Ainda que provisória e incompleta, uma teoria que mostre as vantagens de lavar as mãos já ajuda a prevenir doenças, mesmo que não tenhamos a derradeira cura para todos os males que houve, há ou possa haver.

O que importa é maximizar a probabilidade de cada passo nos trazer mais perto da realidade. Porque, mesmo sem garantias, é evidente que há métodos melhores do que outros. E a informação que obtemos da realidade não vem dos aspectos subjectivos da nossa experiência, por si, mas sim das restrições que esse algo “lá fora” impõe às nossas sensações e opiniões. Subjectivamente, sentimos que a Terra não se move e que é o universo todo que gira à nossa volta. Mas, pelo teste progressivo de muitas hipóteses, fomos aprendendo que essa sensação subjectiva é condicionada pelo movimento relativo e não, ao contrário do que parece, por estarmos absolutamente imóveis. A Terra parece parada porque nos movemos com ela. Há uma realidade externa à nossa percepção que nos força a rejeitar a ideia da Terra ser o centro absoluto do universo em favor da noção de movimento relativo. Mas só descobrimos esses aspectos da realidade quando colocamos, e testamos, hipóteses susceptíveis de esbarrar contra a realidade.

O Alfredo aponta estas dificuldades como justificando a sua forma de obter conhecimento, pela fé, tradição, testemunho de crentes e revelação divina. No entanto, é precisamente por sermos falíveis e pela nossa subjectividade influenciar a nossa percepção da realidade que não podemos depender de umbigologias. Não podemos tirar conclusões fiáveis acerca da realidade olhando apenas para o que sentimos. Temos de ir além dessa subjectividade. Temos de pôr o pé, mesmo arriscando pisar uma peça de Lego. E isso consegue-se testando hipóteses concretas que possam ser falsificadas se violarem as restrições que a realidade impõe.

Não é que a subjectividade seja irrelevante. Pelo contrário. Subjectivamente, a subjectividade é o mais importante. Mas não serve para obter conhecimento nem para discutir aqui. Ultimamente, choros, biberões e fraldas têm estado entre as coisas mais importantes para mim. Muito mais importantes do que o deus do Alfredo, que, mesmo que existisse, pouca diferença me faria. No entanto, isto que é subjectivamente importante para mim não é necessariamente relevante para os outros e faria pouco sentido discuti-lo aqui. A fé do Alfredo, certamente muito importante para ele, também tem pouca relevância para a questão objectiva sobre sobre a tal realidade “lá fora” que se impõe a todos: será que o universo foi criado de propósito por um deus inteligente? A forma mais fiável de responder a isso é testando empiricamente hipóteses que possam ser falsificadas. Ou seja, pela ciência. Tudo o resto é descurar o facto de que somos falíveis e muito influenciados pelos nossos preconceitos, preferências e outros aspectos subjectivos.

Não há uma realidade do crente onde certo deus existe e, ao mesmo tempo, uma realidade do descrente onde esse deus não existe. O que se comporta assim é a fantasia, não é a realidade. E para conhecer a realidade é preciso testar hipóteses contra as restrições que a realidade impõe. Tretas impossíveis de falsificar apenas reflectem as nossas preferências subjectivas sem dizer nada acerca do que está “lá fora”.

1- Comentário em Equívocos 14
2- Comentário em Treta da semana: Einstein dixit.

segunda-feira, maio 28, 2012

Crime em Informática, parte 2.

No dia 23 estive no colóquio “Crime em Informática”, organizado pelos núcleos de estudantes do IEEE e da Ordem dos Engenheiros, e moderado pelo João Paulo Pimentão, professor no Departamento de Engenharia Electrotécnica da FCT e que, há uns anos, foi meu professor de programação. Antes de mim falaram Baltazar Rodrigues, inspector da Polícia Judiciária e responsável pela unidade de combate ao crime informático, e Tiago Henriques, perito em segurança e fundador da PTCoreSec. Aprendi que as maiores preocupações da PJ, no que toca ao crime informático, são a fraude bancária (phishing e semelhantes) e a pedofilia, que me parece ser as prioridades certas. Aprendi também como é fácil comprometer um computador alheio e como é importante colar um papel na webcam dos portáteis, à cautela. Foi uma conversa interessante e agradável, graças a todos, organizadores, palestrantes e assistência.

Aqui fica a minha apresentação. Os últimos cinco minutos foram mais acelerados porque já estava a abusar do tempo. Aproveito também para deixar uma correcção, que recebi por email e que agradeço. No dia da apresentação a estimativa de vendas do Diablo III que eu referi já estava desactualizada, e o número de cópias já tinha ultrapassado os seis milhões.



Os vídeos podem ser descarregados do BlipTV: alta resolução (29MB); baixa resolução (10MB). O pdf dos slides está aqui.

domingo, maio 27, 2012

Treta da semana: correlação é causalidade.

Na quinta-feira foi apresentado um estudo sobre “pirataria informática”, coordenado por Ricardo Ferreira Reis, economista e investigador na Universidade Católica. O procedimento normal, em ciência, é submeter os estudos a revisão pelos pares antes de os publicar e, depois, publicá-los sempre de forma que outros peritos na área os possam avaliar e criticar. Desta vez foi diferente. O que fizeram foi organizar uma apresentação pública no hotel Marriot, substituindo o peer review por uma “reflexão” conduzida pela Associação Portuguesa de Software (ASSOFT) e os detalhes por bonecos bonitos e espectáculo mediático (1). O que, de certa forma, se adequa à qualidade científica do estudo.

A brochura de publicidade ao relatório começa por referir um estudo da Business Software Alliance (BSA) segundo o qual «em 2011, mais de 50 mil milhões de euros desapareceram da economia mundial devido à utilização ilegal de software»(2). O teledisco do relatório começa com a mesma alegação (3). Isto é absurdo. Primeiro, a BSA estima o índice de pirataria comparando o número médio de unidades de software vendidas por computador com o número médio de programas instalados em cada computador. Tudo o que está instalado sem ter sido comprado é “pirataria”, mesmo que seja software gratuito (4). Depois, a estimativa dos 50 mil milhões assume que todo o software gratuito seria pago ao preço de mercado, e que ninguém que usa um programa gratuitamente deixaria de o usar se tivesse de pagar cem ou duzentos euros (5). Finalmente, o dinheiro que as pessoas não gastam por usar software sem pagar não desaparece. Não se desfaz em cinzas nem fica debaixo do colchão mas acaba por ser gasto noutras coisas ou investido por intermédio dos bancos. A conclusão da BSA, repetida pela ASSOFT e por este estudo, não faz sentido.

A abordagem do Ricardo Ferreira Reis é diferente, mas igualmente incorrecta. Segundo a descrição do estudo, calcularam a correlação entre o índice de pirataria* e o PIB de vários países, entre outros factores. Depois, «com base nos resultados da regressão linear, e aplicando os valores correspondentes para Portugal, estimámos o seguinte resultado[:] um impacto que poderá chegar aos 1150 milhões de euros, ou aproximadamente, 0.6% do PIB atual». Ou seja, a partir da correlação assumiram haver uma relação causal na qual a pirataria é a causa e o PIB é o efeito. Isto é um erro grave, mas explica bem porque é que este estudo foi apresentado em panfletos e telediscos em vez de sujeito a revisão por peritos na matéria. Ou sequer por alguém com um mínimo de bom senso.

A correlação entre os factores A e B pode dever-se a A causar B, a B causar A ou a ambos serem efeito de outros factores causais comuns. Por exemplo, a pirataria também está correlacionada com a idade, sendo mais frequente entre os mais jovens do que entre os mais velhos. No entanto, seria incorrecto assumir que esta correlação se deve à pirataria afectar a idade das pessoas, concluindo daí que aumentar a pirataria iria inverter a tendência para o envelhecimento da população e trazer grandes benefícios para a segurança social.

É neste erro ridículo que assenta o estudo do Ricardo Ferreira Reis. Da mera correlação entre a pirataria e o PIB não se pode prever que a pirataria afecta o PIB. O contrário até faz mais sentido, pois quanto maior for o rendimento das pessoas menor o incentivo para obter software ilegal. O próprio estudo admite isto ao apontar que «a crise financeira representa um risco de contração do rendimento que pode levar a um aumento da taxa de pirataria». Mas não parece haver um mecanismo plausível pelo qual reduzir a pirataria de software aumente o PIB de Portugal.

Há até razões para crer o contrário. Forçar uma redução na pirataria por medidas judiciais implicaria mais despesa pública em fiscalização e castigos e iria reduzir o uso de software. Como muito software é ferramenta de trabalho, reduzir o seu uso, mesmo que ilícito, teria um impacto negativo na produtividade. Além disso, a maior parte do software comercial à venda em Portugal é importado. Por isso, aumentar os gastos com software desequilibraria ainda mais a balança de pagamentos, diminuindo o PIB em vez de o aumentar.

Infelizmente, parece que esta propaganda manhosa funciona porque, na comunicação social, a maioria não questiona as premissas nem pergunta como é que usar menos software estrangeiro de graça aumentaria o PIB nacional. Em vez disso, só vejo estas publicações papaguearem as alegações do “estudo” sem qualquer análise crítica (6).

* Como medido pela BSA

1- Notícias Grande Lisboa, Estudo do impacto económico da pirataria informática apresentado em Lisboa. Obrigado a todos que me enviaram emails e comentários sobre isto.
2- CSLBE, O impacto económico da pirataria informática em Portugal
3- No YouTube, Impacto Económico da Pirataria Informatica em Portugal.
4- BSA.org, Methodology
5- «The commercial value of pirated software is the value of unlicensed software installed in a given year, as if it had been sold in the market.». Há uma boa análise destas e outras asneiras no Techdirt
6- Por exemplo, Público, Diário de Notícias, Computerworld, Exame Informática, Tek, Económico e Agência Financeira.

terça-feira, maio 22, 2012

Crime em Informática.

Esta quarta-feira, às 14:00, vou participar no colóquio “Crime em Informática”, organizado pelos núcleos de estudantes do IEEE e da Ordem dos Engenheiros, da FCT. Vou falar sobre o copyright, sobre a lei que temos, como chegámos a este ponto e o que a lei devia ser.

Mais informações aqui e aqui.

segunda-feira, maio 21, 2012

Treta da semana (passada): constelações familiares.

Recebi há dias um email da Akademia do Ser anunciando o «Grupo de Constelações com Maria de Fátima da Luz», entre outras coisas. Serve este post para agradecer o spam.

O método das «Constelações Familiares e Organizacionais […] revela onde está a dor causada por acontecimento trágico[...] Identificando e consciencializando o acontecimento é possível aceitar, respeitar e honrar para que o amor volte a fluir.»(1) Para conseguir isto, «O cliente coloca o tema que deve ser claro, importante ou urgente. O cliente escolhe figuras (na sessão individual) ou participantes (na sessão em grupo) para cada um dos primeiros representantes sugeridos pelo facilitador colocando-os segundo a imagem interna que tem. Ambos observam respeitosamente. […] A imagem final – Constelação – é a imagem que o consulente deve guardar – a solução».

À primeira vista, pode parecer estranho que escolher umas figuras e observar respeitosamente dê a solução para problemas como «Conflitos entre familiares; Doenças físicas; Doenças psíquicas; Insucessos escolares; Insucessos profissionais; Problemas financeiros; Outros». Especialmente a última categoria, que me parece demasiado abrangente. Mas isto tem a sua lógica. Com ênfase no “sua”. O método das constelações foi criado por Bert Hellinger, ex-monge missionário entre os Zulu, formado em filosofia. teologia e psicanálise (2). Como explica na “dimensão espiritual” da sua ciência, a “Hellinger sciencia®”, «Todo o movimento, especialmente de um ser vivo, é um movimento compreendido, consciente, propositado. Este conceito pressupõe uma consciência nessa força que move tudo. Por outras palavras: Todo o movimento é um movimento pensado. O movimento começa porque é pensado por esta força, e torna-se movimento da maneira que é pensado.»(3) Como é norma entre as tretologias, inventa-se um conceito, esse conceito pressupõe uma alegação qualquer e, daqui, conclui-se que a alegação é verdadeira. É falacioso até ao tutano mas, há que reconhecer, este não se envergonha da falácia. Muitos esforçam-se mais por disfarçar.

Na Akademia do Ser, a terapeuta das constelações é Maria de Fátima da Luz (4), que tem uma longa experiência a lidar com distúrbios mentais («foi professora do ensino público durante 38 anos») e uma capacidade extraordinária para conciliar crenças contraditórias: «A partir de 1997 fez formação em: Feng Shui, Reiki, Terapia Floral, Cura Quântica, Cristais, Biologia da Saúde, Prismologia, Cura Multidimensional, Constelações Familiares, Constelações Organizacionais, Numerologia, Hipnose Clínica, Terapia Regressiva, AMARA “Vida e Morte a Mesma Preparação, Eneagrama.» O que parece enquadrar-se bem na psicoterapia.

Os termos “psicologia”, “psiquiatria” e “psicoterapia” podem suscitar confusão, mas denotam coisas bem diferentes. Em Portugal, a prática da psicologia é regulada pela Ordem dos Psicólogos (5) e a psiquiatria é uma especialidade de medicina (6). A psicoterapia, em contraste, parece ser o que cada um quiser. Uma googladela rápida levou-me à Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, Associação Portuguesa de Psicoterapia Psicanalítica, Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Existencial, Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Construtivistas, Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Interpessoal e Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Breves.

Com isto, fiquei tentado a guardar os poucos escrúpulos que a crise me deixou e fundar a Sociedade Portuguesa da Psicoterapia da Credulidade. Mesmo que não consiga tratar ninguém, com um método holístico de consciencialização existencial ou coisa que o valha não deve ser difícil convencer os clientes de que os curo. É o que basta para o negócio correr bem.

1- Academia do Ser, Constelações Familiares e Organizacionais
2- Wikipedia, Bert Hellinger 3- Hellinger.com, Hellinger sciencia®
4- Akademia do Ser, Maria de Fátima da Luz
5- Ordem dos Psicólogos, FAQ
6- Ordem dos Médicos, Colégio da Especialidade de Psiquiatria

sábado, maio 19, 2012

Adopção, parte 2 (legislação).

Na União Europeia, a Bélgica, Holanda, Portugal, Espanha e Suécia reconhecem o casamento homossexual como legalmente equivalente ao casamento heterossexual. Destes cinco países, só Portugal impede a adopção por casais homossexuais(1), contra jurisprudência europeia (2). Por causa de uma lei pouco clara, no nosso país os homossexuais só podem adoptar se forem solteiros. O DL 195º de 1993 estipula, no artigo 1979º, que podem «adoptar plenamente duas pessoas casadas há mais de quatro anos […] se ambas tiverem mais de 25 anos» e que «Pode ainda adoptar plenamente quem tiver mais de 30 anos»(3). A Lei nº 9 de 2010, que permite o casamento homossexual, aponta que «As alterações introduzidas pela presente lei não implicam a admissibilidade legal da adopção, em qualquer das suas modalidades, por pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo» (4), o que é interpretado como impedindo a adopção por casais homossexuais mas não o afirma explicitamente. Uma pessoa solteira com mais de 30 anos pode adoptar sem que a lei se importe com as suas preferências sexuais. No entanto, se estiver casada com cônjuge do mesmo sexo, não é claro que efeito tem o seu estado civil “não implicar a admissibilidade legal da adopção” visto que, tendo mais 30 anos, já cumpre o requisito para poder adoptar qualquer que seja o seu estado civil. Aparentemente, os homossexuais podem casar e podem adoptar, só não podem é adoptar como casal, o que é difícil de justificar.

A proposta de lei 7/XI (5) explica que o casamento homossexual não deve permitir a adopção para «garantir o respeito pelos superiores interesses do adoptando. [O Código Civil estabelece] taxativamente que a adopção «apenas será decretada quando apresente reais vantagens para o adoptando». É esse critério, que tem em conta o interesse superior de um terceiro - a criança - que deve nortear o legislador na determinação de quem «pode adoptar». Nessa medida, [...] justifica-se estabelecer que a adopção não esteja disponível por parte das pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo.» Mas isto não justifica nada. Deve-se proteger os interesses da criança mas, para justificar a exclusão categórica de «pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo» era preciso que a adopção por estas pessoas fosse sempre lesiva dos interesses da criança. Sempre. Porque, se houver excepções, então será preciso avaliar cada caso individualmente em vez de proibir tudo à partida. E é fácil pensar em exemplos contrários. Vamos supor que uma criança ficou órfã e a tia, que sempre ajudou a cuidar da criança, está disposta a adoptá-la. À partida, é claramente no interesse da criança ser adoptada pela tia em vez de ir para o orfanato e, se a tia for solteira e tiver mais de 30 anos de idade, a lei nem quer saber se é lésbica. O que o legislador precisava de justificar é que, se esta tia fosse legalmente casada com uma mulher, então já passava a ser melhor para a criança ficar no orfanato independentemente das condições socio-económicas da tia, dos laços afectivos que tivesse com a criança ou da sua capacidade para continuar a criá-la. É de notar que a lei também não proíbe categoricamente a adopção por quem tenha sido condenado por crimes violentos, odeie crianças ou não tenha onde morar, por exemplo, problemas mais graves do que o sexo do cônjuge e que, no entanto, são avaliados caso a caso.

Outro problema neste impedimento é que a Constituição proíbe que qualquer um seja «privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão»(6) do seu sexo ou orientação sexual. Argumenta-se contra isto que não existe um direito de adoptar que esteja a ser violado mas, mesmo sem haver tal direito, é óbvio que esta lei prejudica algumas pessoas conforme o sexo ou orientação sexual. Pior ainda, ao excluir «pessoas casadas com cônjuge do mesmo sexo», a lei prejudica uns com base no sexo de outros, dos cônjuges, o que além de injusto é absurdo. Talvez seja por isso que o texto da lei é tão pouco explícito.

Tudo isto tresanda a preconceito. Começa pela justificação da proposta de lei, que diz defender os interesses da criança mas não explica que males lhe viriam por ser criada por duas pessoas do mesmo sexo. Passa pelo texto da lei, um obscuro «não implicam a admissibilidade legal da adopção» que depois é interpretado, muito além do seu sentido literal, como excluindo a adopção por casais homossexuais. E revelou-se novamente nas justificações dos partidos que chumbaram os projectos de lei que visavam corrigir esta situação (7). Telmo Correia chegou a dizer que era sensível ao argumento de que alargar a adopção aos casais homossexuais poderia, em alguns casos, permitir que «crianças que não têm outra solução pudessem ter melhores condições de vida» mas «não pensamos que seja esse o factor decisivo». Isto apesar de reafirmar o supremo interesse da criança(8). Julgo que até um político experiente devia perceber a contradição. Segundo o PCP, o problema de permitir a adopção por casais homossexuais é ser «preciso pensar nas condições de aplicabilidade da lei» e que «neste momento, continuamos a não ter esta questão suficientemente debatida e sedimentada na sociedade»(9). Quando se legisla a proibir algo é realmente preciso pensar se a sociedade aceita essa proibição e se é possível aplicar a lei. Não queremos uma lei que todos ignorem. Mas tratando-se de eliminar uma proibição não faz sentido duvidar das “condições de aplicabilidade” nem exigir sedimentação. Basta permitir.

Há cada vez menos famílias dispostas a adoptar (10), há imensos riscos para as crianças em instituições – até a Igreja Católica «reconhece a dimensão do problema»(11) – e não há evidências de que ter dois pais ou duas mães seja prejudicial. Sobra apenas o preconceito e a cobardia dos políticos que, certamente cientes da falta de fundamento para esta lei, a mantém com desculpas transparentes e sem sentido. E depois os maricas são os outros...

1- Wikipedia, LGBT rights in the European Union
2- DN, Paulo Albuquerque, (2010), Casamento homossexual
3- Decreto-Lei n.º 185/93, de 22 de Maio.
4- DRE, Lei nº 9 de 2010
5- Parlamento,Proposta de Lei 7/XI.
6- Parlamento, Constituição da República Portuguesa, artº 13º.
7- O 126/XII e o 178/XII.
8- Intervenção de Telmo Correia sobre adoção por casais do mesmo sexo.
9- PCP, Sobre a Procriação Medicamente Assistida, a adoção e o apadrinhamento civil por casais do mesmo sexo
10- Expresso, Há menos famílias a querer adotar crianças.
11- PTJornal, Fátima: Igreja anuncia diretrizes de combate a abusos sexuais contra menores nas suas instituições.

domingo, maio 13, 2012

Treta da semana: Einstein dixit.

Segundo José Reis Chaves, espiritista brasileiro, «Os materialistas do passado incomodavam-se com a Igreja. Os de hoje se preocupam mais é com o espiritismo, por ser ele uma religião científica. [...] Não é, pois, por acaso, que têm surgido muitos ateus fanáticos contra a doutrina codificada por Kardec, "o bom senso encarnado".»(1) Pessoalmente, não me preocupo muito com o espiritismo, o Kardec ou a cor do seu bom senso. Preocupam-me mais coisas como o Estado português ter de pedir autorização ao Vaticano para mudar feriados, o negócio da religião não pagar impostos ou a forma como se ensina religiões nas escolas públicas. Se a «médium psicógrafa dra. Marlene Saes, de São Paulo (SP)» publica o «seu novo livro "Nas Águas do Mar da Vida", pelo espírito Luizinho» e alguém o compra, pois que lhe faça bom proveito. Quanto à alegação de que o espiritismo é uma “religião científica”, concordo parcialmente. Dizer que «Para a física quântica, as coisas invisíveis são mais importantes do que as visíveis. E o espírito é invisível» ou «o espírito do médium tem que vibrar na sintonia da do espírito comunicante» não tem nada de científico, mas para religião basta.

O que me interessa mais no texto do José Reis não é a comunicação «de períspirito para períspirito», a aura, a quinta-essência ou o corpo bioplasmático. É esta frase de Einstein, tantas vezes mal compreendida quantas é usada em defesa da tretologia: «A religião sem ciência é cega, e a ciência sem religião é aleijada». Esta frase é frequentemente invocada como querendo dizer que a ciência complementa, e é complementada por, uma crença esperançosa no sobrenatural, uma devoção a um suposto criador e essas superstições envolvendo deuses, espíritos e vida depois da morte que associamos ao termo “religião”. No entanto, não era nada disto que Einstein queria dizer. No artigo de onde citam apenas aquela frase e, normalmente, sem referir a origem, Einstein explica bem que sentido estava a dar ao termo.

«em vez de perguntar o que é religião eu preferiria perguntar o que caracteriza as aspirações de uma pessoa que me dê a impressão de ser religiosa: uma pessoa religiosamente esclarecida parece-me ser alguém que, de acordo com as suas capacidades, se tenha libertado dos grilhões dos seus desejos egoístas e se preocupe com pensamentos, sentimentos e aspirações aos quais se prende pelo seu valor sobrepessoal. Parece-me que o que é importante é a força deste conteúdo sobrepessoal e a profundidade da convicção acerca do seu significado avassalador, independentemente de haver alguma tentativa de unir este conteúdo a um Ser Divino, pois de outro modo não seria possível contar Buda e Espinosa como personalidades religiosas. Assim, uma pessoa religiosa é devota no sentido de que não tem dúvidas acerca do significado e elevação desses objectos e propósitos que vão além da sua pessoa e não requerem nem admitem um fundamento racional. Existem com a mesma necessidade e factualidade da própria pessoa. Neste sentido, a religião é o esforço milenar da humanidade em se tornar claramente e completamente consciente dos seus valores e propósitos, e de constantemente os fortalecer e estender os seus efeitos.»(2)

Ou seja, neste sentido, “religião” refere um esforço de se guiar por algum ideal que transcenda interesses pessoais, mas sem implicar nada acerca de deuses, espíritos ou crenças no sobrenatural. Um ateu pode perfeitamente ser religioso no sentido que Einstein dá ao termo, e o exemplo que Einsten dá é que a «ciência só pode ser criada por aqueles que estejam completamente imbuídos de aspiração para a verdade e a compreensão». É isto que Einstein quer dizer com essa frase tão célebre e tão deturpada. A devoção sem conhecimento objectivo é cega e a investigação sem devoção à verdade é paralítica.

Isto não tem nada que ver com as crenças que normalmente chamamos religiosas nem com o espiritismo do José Reis Chaves, superstições acerca das quais Einstein também foi bastante claro. Por exemplo, nesta carta ao filósofo Erik Gutkind:

«A palavra Deus não é para mim mais do que a expressão e o produto da fraqueza humana, a Bíblia uma colecção de lendas honráveis mas puramente primitivas, lendas que, no entanto, são bastante infantis. Nenhuma interpretação, por mais subtil que seja pode (para mim) alterar isto... Para mim, a religião judaica é, como todas as outras religiões, uma encarnação da superstição mais infantil.»(3)

Os argumentos de autoridade são muitas vezes falaciosos e quase sempre fracos. Mas penso que há boas razões para concordar com Einstein para além do simples facto de se tratar de Einstein. E, seja como for, invocar Einstein como autoridade para apoiar doutrinas espíritas e tretas afins é um tiro no pé, seja no da aura, no bioplasmático ou no do períspirito.

1- Blog de Espiritismo, José Reis Chaves - 'Abalado está o ateísmo'
2- Sacred-Texts, Science and Religion II, Science, Philosophy and Religion, A Symposium, 1941.
3- Letters of Note, The word God is the product of human weakness

Editado a 14 para corrigir uma gralha. Obrigado ao Zarolho pelo olho aguçado.

Disto e daquilo.

Alfaces
Segundo o João Miranda, no Blasfémias, os hipermercados têm uma margem de lucro tão grande porque «produzir uma alface é mais fácil do que colocar uma alface onde eu a quero comprar, com o aspecto que eu quero, no dia e na hora a que eu quero»(1). Por isso, diz o João, «numa economia moderna o valor acrescentado da distribuição é muitas vezes superior ao da produção». Para uma alface, até pode ter razão. Mas, de resto, está enganado.

Realmente, produzir uma alface custa menos do que transportar uma alface de carro até onde o João a quer comprar. No entanto, quando aumentamos a escala a relação vai mudando. Isto porque produzir dez mil alfaces custa pouco menos do que dez mil vezes o que custa produzir uma alface. Há alguma economia de escala, mas lavrar mais terra exige mais energia, regar mais alfaces exige mais água, colher mais alfaces exige mais mão de obra, e assim por diante. Mas transportar dez mil alfaces exige só substituir o carro por um camião. Gasta-se mais combustível, mas não dez mil vezes mais.

E esse é que é o factor principal. Os hipermercados não ganham mais dinheiro por custar muito mais fazer o que fazem. Ganham mais dinheiro porque a distribuição tem custos menores, por peça, quanto maior for o volume. Isto favorece os oligopólios e dá a uns poucos muito mais poder de negociação. Ou seja, poder para distorcer os preços a seu favor. O mercado livre é muito bom, mas só quando todos podem negociar de igual para igual. Quando um tem uma pistola, não faz sentido dizer que a carteira do outro é o preço justo pelo "valor acrescentado" de não levar um tiro. Nessa altura é preciso admitir que o mercado não está a funcionar.

Ultimamente só tenho comido alfaces que eu produzi. Sabem-me melhor do que as do hipermercado e, para quem passa os dias ao computador, umas horas de enxada ao fim de semana é relaxante. Mas não invejo nada quem tenha de viver da agricultura. Além do trabalho, há também o risco de investir o pouco que se tem a semear um campo de alfaces e depois ficar arruinado por não chover ou vir geada, pulgões ou promoções do Pingo Doce.

Sensatez
O Ricardo Alves, no Esquerda Republicana, propõe que os «militantes anti-tourada» defendam uma “regulação sensata” do espectáculo em vez de querer proibir a tourada. Segundo o Ricardo, o que é sensato é continuar a espetar ferros nos touros mas não deixar que as crianças vejam (2).

O argumento do Ricardo parte da premissa de que «os animais não humanos [não são] sujeitos de Direito». Infelizmente, não explica de onde isto vem. Eticamente, a distinção taxonómica entre “humanos” e “não humanos” é irrelevante e, legalmente, os animais já são protegidos por lei. Por exemplo, organizar um espectáculo igual ao da tourada mas com cães em vez de touros viola a lei (3).

Não é sensato permitir a tourada e apenas proibir que as crianças assistam porque a razão principal para proibir que as crianças vejam tourada é tratar-se de um espectáculo cruel e eticamente condenável. A sensatez exigiria, no mínimo, que parassem de espetar ferros no bicho, acto cuja imoralidade deriva apenas do espetado sentir e do espetador* saber bem o sofrimento que causa ao animal.

Fantasmas
Segundo o Mats, no blog Darwinismo, «Os colégios, as universidades e os média estão sempre prontos a atacar a ciência de criação e qualificá-la de “não científica”» mas «a “ciência” secular não só acredita no sobrenatural, como depende [deste]. Por exemplo, os evolucionistas acreditam em “fantasmas“.»(4) Nem por isso.

Os “fantasmas” que o Mats aqui refere não têm nada que ver com o fantasma sagrado dos criacionistas, o tal que bafejou vida no barro e criou cada minhoca e carrapato. Nem têm nada que ver com o sobrenatural. São as linhagens fantasma, designação para as linhagens cuja existência se pode inferir mas para as quais ainda não se encontrou fósseis. Por exemplo, até recentemente a linhagem que une os chimpanzés aos seus antepassados em comum connosco era uma linhagem fantasma. Temos muitos fósseis de hominídeos, do nosso lado da família, mas só em 2005 se encontrou os primeiros fósseis equivalentes do lado dos chimpanzés (5). No entanto, mesmo antes disso era razoável assumir que os chimpanzés não tinham surgido por obra e graça do espírito santo. Isso sim é que seria uma hipótese sobrenatural. Além de ser um disparate.

*"Espetador" no sentido de "aquele que espeta" e não de "aquele que assiste", ao contrário do que recomenda o novo acordo ortográfico.

1- João Miranda, Bem-vindos ao mundo moderno
2- Ricardo Alves, Por uma regulação sensata das touradas
3- Se bem que as sanções, que eu saiba, ainda não estejam determinadas. LPDA, Lei n.º 92/95
4- Mats, Os fantasmas evolutivos.
5- National Geographic News, First Chimp Fossils Found; Humans Were Neighbors

domingo, maio 06, 2012

Treta da semana: pelos atacadores.

Seria uma boa maneira de voar. Segurávamos os atacadores com ambas as mãos, puxávamos com força e lá íamos nós. Infelizmente, a física é uma chata. Mas, em tempo de crise, a física é só para os fracos, e uma empresa em Portugal está a distribuir o equivalente termodinâmico de um sistema para voar puxando os atacadores dos sapatos.

Por preços que vão dos €99,50 aos €220,00 (mais IVA), podem comprar à Livre Energia uns aparelhos para produzir “HHO”, que é hidrogénio e oxigénio gasosos obtidos por electrólise da água. Estes aparelhos são ligados à bateria do carro, usam a electricidade produzida pelo motor para decompor a água nestes gases e misturam-nos com o ar que alimenta a combustão. Segundo a empresa distribuidora, o resultado disto foi que «Em todos os testes se evidenciou, maior potência e economia de combustível, variando de 10-25%.»(1)

Como primeira objecção, gostava de apontar que nem todos os testes evidenciaram tal poupança. Por exemplo, os testes relatados pela revista Popular Mechanics, em colaboração com a NBC e recorrendo a laboratórios certificados pela EPA seguindo os mesmos protocolos usados para avaliar o desempenho de modelos novos, indicam que este sistema não reduz o consumo. Pelo contrário, aumenta-o, devido à energia usada para a electrólise, se bem que o aumento só seja detectável com medições muito precisas como as que fizeram nestes testes (2).

É fácil perceber porquê. É a combustão no motor que fornece energia eléctrica, pelo dínamo, para carregar a bateria, que depois alimenta os eléctrodos que decompõem a água em hidrogénio e oxigénio que, por fim, são injectados para ajudar a combustão. Tal como puxar os atacadores para tentar voar, isto só desperdiça energia.

No entanto, há outra alegação acerca destes aparelhos que é um pouco mais complexa, mas também infundada. Experiências feitas pela NASA em 1979 mostraram que a injecção de hidrogénio num motor de combustão Cadillac de 1969 reduziu o consumo por aumentar a velocidade da chama e reduzir as falhas de ignição quando o motor trabalhava com uma mistura pobre, ou seja, com muito ar e pouco combustível. Usando um sistema catalítico que aproveitava o calor do motor para produzir hidrogénio a partir de etanol, e não água, neste estudo optimizaram o consumo total de energia, entre gasolina e etanol, injectando 231g de hidrogénio por hora. O ganho no consumo foi de 3% (3).

Há vários problemas em extrapolar destes ganhos num motor de 1969 para as poupanças de 10-25% que alegam em motores modernos, com os geradores que vendem. Por um lado, porque os motores modernos têm um controlo muito mais preciso da combustão e sistemas, como o de injecção directa de combustível, que permitem optimizar o desempenho em misturas pobres injectando o combustível sob pressão durante a fase de compressão. A combustão mais rápida, devido à adição de hidrogénio, melhorou o desempenho do motor testado pela NASA por reduzir as falhas na ignição e completar a combustão durante a fase de expansão. Num motor moderno, é duvidoso que alterar a velocidade de combustão melhorasse o desempenho, e podia até piorá-lo por estar tudo optimizado para a forma como o combustível se comporta normalmente.

Além disso, há o problema da quantidade de hidrogénio gerado. A NASA usou um catalisador que gerava hidrogénio a partir do etanol e injectava 231g por hora no motor. Para motores com aquela cilindrada, a Livre Energia recomenda cerca de 2 litros de hidrogénio por minuto, o que dá 12 g de hidrogénio por hora. Vinte vezes menos do que a quantidade com a qual a NASA conseguiu uma melhoria de 3% no consumo energético de um motor de 1969.

Mas ainda bem que é assim. Por um lado, gerar 40 litros de hidrogénio por minuto, por electrólise, consumiria uns 20 cavalos de potência e exigiria um sistema de arrefecimento considerável, já para não falar de alterações significativas na geração e distribuição eléctrica do carro (4). Por outro lado, a redução de emissões por conversão catalítica exige uma mistura correcta à entrada do motor, e até inclui sensores para controlar a injecção de combustível em função dos gases de escape (5). Não é boa ideia alterar a mistura de combustão significativamente sem adaptar todo o sistema de controlo a jusante. Felizmente, os aparelhos vendidos pela Energia Livre apenas produzem quantidades homeopáticas de hidrogénio e, tal como a homeopatia, só têm efeitos negativos para a carteira do comprador.

1- Livre Energia, Perguntas frequentes e tecnologia. Via Facebook; obrigado pela referência.
2- Popular Mechanics, 2009, Why Water Won't Improve Your MPG: A PM and Dateline NBC Investigation
3- NASA technical note, Emissions and total energy consumption of a piston engine running on gasoline and a hidrogen-gasoline mixture.
4- Wikipedia, Electrolisis of Water, efficiency.
5- Wikipedia, Conversor catalítico

Dia anti-DRM.

Sexta-feira, dia 4, foi o dia internacional contra o DRM, sigla para Digital Rights Management e que refere a tecnologia que controla o uso de ficheiros para proteger os conteúdos de acordo com os direitos de quem os vendeu. Doublespeak no seu melhor. Por um lado porque não é preciso restrições de cópia, partilha ou leitura para proteger informação digital. Pelo contrário. A melhor forma de a proteger é fazendo cópias de segurança e distribuindo essas cópias. Por outro lado, os direitos do autor não incluem direitos de propriedade sobre o equipamento dos outros. Se copiarem este post, é justo que refiram o autor. O que não é justo é o autor deste post ditar como, quando e para que fins os leitores podem usar os seus computadores, mesmo que seja para copiar este post. Portanto, o DRM, apesar do nome e do que dizem, não tem nada que ver com protecção de conteúdos nem com direitos.

É também um conceito inconsistente. O conteúdo digital é uma representação numérica de algo como músicas, filmes, imagens ou texto e, para o cliente poder usufruir desse conteúdo, precisa de poder descodificar essa representação. Ou seja, além da mensagem codificada, é preciso dar também a chave para a descodificar para que o cliente tenha acesso à mensagem. O DRM é o exercício fútil, contraditório e criptograficamente ridículo de tentar ocultar a mensagem depois desta ser descodificada. É como tentar escrever um livro de forma a que se possa ler facilmente mas que não se consiga ler em voz alta ou descrever que letras tem.

A justificação mais comum do DRM, que é combater a pirataria, é outra treta. Qualquer sistema de DRM é fácil de contornar, coisa que os “piratas” rapidamente fazem, e o DRM acaba por ser um incentivo forte à pirataria porque a versão pirateada é melhor. Não exige contorcionismos de validação e licenciamento, funciona em vários suportes, permite fazer cópias de arquivo e o que mais se quiser. O verdadeiro propósito do DRM é maximizar o rendimento extraído àqueles clientes que, por falta de conhecimento, por fidelidade ou por uma noção enganada de honestidade decidem submeter-se aos caprichos da empresa a quem pagam pelo conteúdo. Várias vezes.

Por estas razões desagrada-me o DRM, o que contribui para não ter iTretas, não comprar DVD, preferir software livre e assim por diante. No entanto, não me considero anti-DRM. Isto porque, por muito estúpido que seja, reconheço a qualquer um o direito de disponibilizar os seus ficheiros como quiser. Se me desse na cabeça, podia distribuir este post num ficheiro encriptado e só dar a password a quem saltasse à corda com amendoins enfiados nas narinas. Seria uma parvoíce, mas teria todo o direito de o fazer. Porque só saltava quem quisesse.

O que sou contra é haver legislação para punir «a neutralização de qualquer medida eficaz de carácter tecnológico» (1). Porque o meu direito de distribuir esta informação como me der na gana não se pode sobrepor ao direito dos outros usarem o seu equipamento e partilharem a informação que têm como quiserem. Ou seja, o problema não é haver empresas que incluem medidas tecnológicas de restrição nos ficheiros que vendem. O problema é apenas haver uma lei que proíbe que se altere essa sequência de 0s e 1s para outra que seja mais conveniente.

É claro que, tecnologicamente, o DRM é algo tão ridículo que, sem a lei, rapidamente desaparecia. Mas isso seria apenas a cereja em cima do bolo.

International Day Against DRM

1- (Gedipe) LEI 50/2004, de 24 Agosto (pdf).