quinta-feira, julho 29, 2021

A ciência não prova.

Em países como o nosso, os crentes religiosos resolvem a contradição entre as suas crenças e a ciência apontando que a ciência não pode provar que não existem deuses, que não há alma e essas coisas*. É uma solução modesta. Acreditar só por não se provar o contrário é pouco exigente. E se bem que isto esteja superficialmente correcto, porque a ciência não pode provar o que quer que seja, no fundamental é uma confusão acerca da prova e do que a ciência faz.

Conseguimos provar que 4 é um número par porque tudo o que é relevante para esta afirmação está sob o nosso controlo. Definimos nós o que são números inteiros, o que é a divisão, o que é um múltiplo de 2 e assim por diante, por isso 4 ser número par não depende de qualquer hipótese acerca da qual haja incertezas. Esta é uma condição necessária para se poder provar algo**. Já agora, aplica-se o mesmo a provar que 4 não é um número ímpar. Se alguém alegar que não pode provar uma negativa, está enganado. Isso não é problema nenhum. O problema é a incerteza inevitável quando lidamos com a realidade. Fora do domínio controlado da lógica e da matemática falta-nos as certezas necessárias à prova. Por exemplo, não podemos provar que a Lua existe porque pode ser uma ilusão criada por extraterrestres, podemos estar a viver numa simulação e assim por diante. Sem controlo absoluto sobre as premissas não se pode provar nada. Portanto, a ciência não pode provar a inexistência de deuses pela razão trivial de não se poder provar seja o que for acerca da realidade. Provar é só para conceitos abstractos.

Sendo fútil tentar provar hipóteses isoladas acerca da realidade, o que a ciência faz é avaliar comparativamente as alternativas em função do que contribuem para as melhores explicações. Esta inferência à melhor explicação lida sem problemas com elementos sobrenaturais, negativas e o que mais calhar. Marcha tudo. Consideremos, por exemplo, o mito grego das estações do ano. Perséfone, filha de Deméter, tem de passar metade do ano com Hades porque comeu sementes de romã quando lá esteve. Isso faz Deméter ficar triste e, como é a deusa da fertilidade, temos o Outono e o Inverno. Quando Perséfone volta a casa Deméter fica feliz e vem a Primavera e o Verão. A ciência não pode provar que esta hipótese é falsa. Tem elementos sobrenaturais, seria provar uma negativa, mas nada disso é o problema. O problema é que não se pode provar nada acerca da realidade. No entanto, a ciência pode comparar esta hipótese com a explicação alternativa de que as estações do ano são consequência do ângulo de 23.5º entre o eixo de rotação da Terra e a perpendicular ao seu plano orbital. E esta explicação é bem melhor.

O ângulo do eixo de rotação pode ser medido de forma independente do seu papel na explicação das estações do ano. Deméter, Perséfone e companhia são postuladas ad hoc para servir a explicação. O ângulo tem de ser mesmo 23.5º para encaixar na duração do dia e da noite ao longo do ano, em cada latitude, e o percurso aparente do Sol no céu. A rábula da Perséfone, Deméter e Hades pode ser adaptada de muitas maneiras. Deméter é a esposa de Hades e Perséfone é amante ou Perséfone fugiu com Hades e a mãe está zangada com ela, por exemplo. Porque entre a narrativa e os dados há uma folga enorme. A orientação do eixo da Terra explica porque é que as estações não são simultâneas nos dois hemisférios. O mito grego pode ser adaptado para explicar isso. Se calhar Deméter tem uma casa na Áustria e outra na Austrália. Mas é outra coisa que tem de ser inventada ad hoc sem confirmação independente. Por estas razões, a orientação do eixo da Terra é uma explicação melhor para as estações do ano. E é assim que a ciência nos permite rejeitar o mito grego. Não por provar que é falso, porque isso seria impossível, mas por mostrar que há explicações melhores.

É teoricamente possível que fumar faça bem à saúde e que todos os indícios em contrário resultem de uma enorme conspiração. Mas o mais plausível é que faça mal. Não podemos provar que a bruxaria não funciona mas a melhor explicação para a ineficácia observada de feitiços e previsões com búzios e cartas é que é tudo treta. É este o problema que a ciência cria aos dogmas religiosos. É um método de comparação de hipóteses que não favorece o que os religiosos gostariam que favorecesse. Por exemplo, a hipótese de termos uma alma imortal e indestrutível não só postula esta entidade sem justificação como exige muitas explicações ad hoc para o efeito observado de lesões cerebrais, que nos podem privar de memórias, impedir raciocínio, tirar vontade e agência e até alterar a personalidade. O cristianismo alega que o criador deste universo se revelou a uma pequena tribo na idade do bronze e encarnou, mais tarde, como fundador de uma seita minoritária dessa tribo. A melhor explicação para o cristianismo é que resulta do mesmo tipo de acidentes sociais e políticos que popularizaram o islão, o hinduísmo, o budismo e por aí fora, que obviamente não podem ser todas a única e verdadeira religião.

As religiões são incompatíveis com a ciência. Não se pode conciliar a procura pelas melhores explicações com a abordagem dogmática de presumir verdades. E este problema não desaparece alegando que são domínios diferentes ou que é impossível provar uma negativa porque a função da ciência não é produzir provas dedutivas. A função da ciência é explicar, que é algo muito mais abrangente e poderoso. É graças a isso que, por exemplo, agora tratamos a epilepsia com medicação em vez de exorcismos. Não por ter ficado provado que demónios não existem mas porque se encontrou explicações melhores para esta patologia.

* Em países como o Irão e a Arábia Saudita ainda recorrem a soluções medievais.
** Mas, como Gödel demonstrou, não é condição suficiente.

7 comentários:

  1. Está muito bem: a ciência não prova que existem deuses.
    Mas a lógica demonstra que existe uma razão na origem de todas as coisas. Bom, sejamos humildes: pelo menos, a minha lógica. Demonstra para além da "incerteza inevitável quando lidamos com a realidade".
    Já fui crente, já tive, até, uma religião. Além de mais uma ou outra coisa, foi, precisamente, esta lógica que dela me afastou.
    Pelo que lhe possa interessar e justificar o tempo que consentir perder, ofereço-lhe o resultado de duas das minhas reflexões em https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/05/almas-penadas.html e https://mosaicosemportugues.blogspot.com/2021/07/afinal-deus-existe.html.
    Terei gosto em ler o que lá quiser comentar.

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  2. Quanto a mim penso que esta discussão realmente não nos leva a lado nenhum. Isto não é ver quem tem ou não razão, eu posso gostar da ciência e ver como ela realmente nos dá as melhores explicações e também gostar da ideia que nada é por acaso. Que há algo que a ciência não pode vir a explicar, porque para isso ela precisa de alguma coisa que possa medir ou pesar. E esse algo incondicionado, consciência ou Deus como queiram chamar não precisa de uma explicação científica para ser validado, é algo em que acredito, como podia acreditar que afinal foi tudo por acaso, não há uma causa nem um sentido, é tudo apenas matemática e física. E isto não me incomoda realmente nada. António Monteiro

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  7. isto já não chega a 2022 aparentemente

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