sexta-feira, maio 26, 2017

Treta da semana (atrasada): crença sem ciência.

Há umas semanas*, Rui Devesa Ramos escreveu que «Do ponto de vista antropológico a ciência nunca será mais do que uma crença civilizacional» (1). E, do ponto de vista químico, Ramos nunca será mais do que água e matéria orgânica. Partindo desta afirmação irrelevante e alegando que «o que faz com que a ciência “funcione” deriva determinantemente da crença que temos nela», Ramos conclui que «as vacinas nunca deverão ser um imperativo sobre a comunidade, porque caíamos no perigo da ditadura da ciência, quando ela mesma não passa de uma crença».

O disparate de Ramos é fácil de desmontar. O “ponto de vista” é um truque retórico. Aponta um aspecto menor da ciência para fingir que a parte é o todo. Mas a ciência não é a crença. A ciência é o método que aproxima a crença dos factos. E vacinar é um imperativo moral porque ninguém tem o direito de arriscar a saúde dos outros só porque lhe apetece, razão que nada tem que ver com a ditadura da ciência. Mas o argumento confuso de Ramos mistura algumas verdades com erros fundamentais que vale a pena separar. Por exemplo, «o que faz com que a ciência “funcione” deriva determinantemente da crença que temos nela.»

A ciência é o método para adaptar as crenças à realidade. Confrontando várias hipóteses com a experiência empírica podemos formular melhores explicações, converter experiência em informação e progressivamente encontrar descrições mais exactas do que é real. Mas isto só nos dá conhecimento se também alterarmos as nossas crenças em conformidade. Senão, o esforço é inútil. Quem não abdicar da crença numa Terra plana não beneficiará do método e experiência que permitem concluir que a Terra é esférica. Ramos demonstra bem a impotência do método científico perante a crendice casmurra. No outro extremo, no da acção colectiva, também é verdade que a ciência só “funciona” se acreditarem nela. A incúria colectiva perante o aquecimento global é um exemplo trágico deste problema. No que toca ao que escolhemos fazer, é verdade que a crença na ciência é importante para que a ciência nos seja útil.

Mas, quanto aos atributos objectivos da ciência e dos seus produtos, a afirmação de Ramos é falsa. Se cada doente com sarampo infectar, em média, duas outras pessoas, a doença vai-se alastrar cada vez mais rápido e haverá uma epidemia. Mas se todos se vacinarem com uma vacina 75% eficaz, então, em média, haverá apenas um novo infectado para cada dois doentes. Assim, a doença acaba por desaparecer do grupo. Ao contrário do que Ramos sugere, a correspondência entre esta descrição e os factos não depende da crença de ninguém nem é pela crença que se pode determinar se isto é verdade. Nem a eficácia das vacinas depende das crenças do vacinado ou do vírus. Não haveria vacinas eficazes em crianças pequenas, se assim fosse, pois nenhuma acredita que a picadela é para o seu bem.

O erro mais pernicioso de Ramos é esta confusão entre o que é e o que queremos fazer. Defende que a obrigatoriedade da vacinação «deveria ser um debate ao nível da Assembleia da República»(2). Obviamente que sim. A Assembleia da República é o órgão adequado para decidir o que é proibido ou obrigatório. Mas Ramos defende isto porque «Todos os científicos têm crenças e dentro das crenças existe sempre uma dosagem terrível de incerteza. A ser verdade este primado, então porque criticam a população que vive todos os dias com incertezas das suas crenças? Que adianta criticarem os que acreditam no reiki, na acupunctura, num iogurte probiótico ou num anti-histamínico? A realidade é complexa e relativa.» A realidade não é relativa às nossas crenças e há uma grande diferença entre escolher e prever as consequências de cada escolha.

Se os pais preferem não vacinar a criança e arriscar que morra de uma doença evitável, e pôr em perigo as outras crianças do infantário, deve haver um debate entre sociedade e legisladores para decidir se permitimos essa opção ou se a saúde das crianças tem prioridade sobre os caprichos dos pais. Essa decisão terá de se orientar por valores culturais e éticos. Mas a possibilidade de decidir pressupõe uma noção correcta dos factos, e tão exacta quanto seja possível. Isso só a ciência nos dá. Se os pais optarem por proteger a criança com cristais, vibrações positivas ou astrologia, isso não é uma escolha. É um erro. É tão disparatado quanto a Assembleia da República votar a inexistência do vírus do sarampo. Nem o vírus deixa de existir só porque se declara que não existe nem os cristais protegem de doenças só porque os pais acreditam. O contributo indispensável da ciência é dar-nos a forma mais fiável de prever as consequências do que fazemos, condição necessária para podermos escolher.

O efeito da vacinação é tornar a doença rara. Isto protege toda a gente, mesmo crianças demasiado pequenas para serem vacinadas ou quem, por problemas de saúde, não se possa vacinar. Se a percentagem de pessoas vacinadas diminui, todos ficam em perigo. Mesmo os que se vacinaram, porque a vacina só aumenta a resistência e não confere imunidade. Estes factos são independentes de qualquer crendice. Por isso, se cada vez mais pessoas deixarem de vacinar os filhos, temos duas opções. Ou pomos fim a esse disparate ou deixamos que muitas crianças morram de doenças que podemos prevenir. Ramos alega que «Aceitar a crença do outro é um acto de sabedoria e profundo conhecimento». Está enganado. A sabedoria não está em aceitar as crenças dos outros. Está em reconhecer a diferença entre crenças e realidade.

* Isto tem estado parado por falta de tempo neste ano lectivo. A ver se é desta que ponho o blog a andar novamente; tenho muita treta em atraso...

1) Público, Crença na Ciência
2) Público, Crença na Ciência II

29 comentários:

  1. Boas Ludwig,

    Em geral, estou de acordo. Mas há algumas coisas que quero acrescentar ao que já escreveste: se o pessoal confia o carro a um mecânico, porque é especialista, se contrata um advogado para tratar de processos porque é especialista, e muitas outras coisas que o pessoa confia a especialistas, porque diabo confiam as pessoas em crendices quando é a saúde que está em causa? É um problema para o qual eu não sei a resposta, e até duvido que alguém saiba...

    Esta coisa das vacinas, tal como outras na área da saúde (as tretas das dietas é outra que tal!), é uma questão técnica, que necessita de um especialista, não consigo conceber este assunto como uma questão de opinião, e que a malta tem direito a ter opiniões diferentes, e coiso e tal... A sério que já não tenho paciência!

    O problema deve ser mesmo o Trump, e toda aquela cena da realidade paralela baseada em factos paralelos... E a coisa tende a piorar, agora que a nova série do Twin Peaks vai começar, e todas aquelas maluqueiras do que é real e o que sonho. Aposto que vai ser um verão cheio de "fake news" e "fake facts".
    Para quando um verdadeiro "garbage collector" para esta realidade aumentada?

    Parece que temos de aprender a viver com a coisa... e eu tenho de aprender a controlar melhor o mau feitio e dar mais espaço para teorias da conspiração e opiniões alternativas. Enfim...

    Entretanto, sê bem-vindo! Na verdade, volta sempre :)

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  2. «porque diabo confiam as pessoas em crendices quando é a saúde que está em causa?»

    Porque o nosso corpo reage, ao contrário do carro e da canalização. E por causa da regressão à média.

    Se o teu carro tem um problema, ou o mecânico o resolve ou o problema não passa. O carro não se cura sozinho.

    Mas se tens uma doença prolongada e há um dia em que te sentes particularmente mal, é provável que no dia seguinte não te sintas tão mal porque há uma “guerra” constante entre o teu corpo e a doença, oscilando à volta de um ponto de equilíbrio para o qual tendes a regredir sempre que dele te afastas.

    Assim, se cada vez que te sentes pior rezares a uma cebola e cada vez que te sentires melhor deixares de rezar à cebola, hás de notar, simplesmente pelo efeito de regressão à média, uma correlação forte entre a reza à cebola e a melhoria do teu estado. A conclusão à qual o teu cérebro chega é logo a de que “não sei como é convosco, mas comigo rezar à cebola funciona”.

    Soma a isto o facto, infeliz mas difícil de evitar com a tecnologia moderna, de que os medicamentos e terapias tendem a ter efeitos secundários desagradáveis, e facilmente muita gente chega à conclusão que é muito melhor rezar à cebola do que tomar aqueles antibióticos que fazem um mal danado ao estômago, ou vacinas que doem e dão febre, e assim por diante.

    «Entretanto, sê bem-vindo! Na verdade, volta sempre :)»

    Sempre que posso :)

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    1. Ludwig,

      Dizes «Porque o nosso corpo reage, ao contrário do carro e da canalização. E por causa da regressão à média.»

      Bem eu não estava realmente à espera de uma resposta... era mais uma questão retórica :)

      De qualquer forma, não creio que seja esta a melhor explicação.
      Para mim, o factor "pertença social" ou "efeito tribo" explica melhor estas coisas. Se eu faço, ou pretendo fazer parte de um grupo, é normal que sinta pressão para aderir às crenças desse grupo. Isto é válido para tudo e mais um par de botas - em geral, se o meu grupo é anti-vacinas, é norma que eu também o seja; se for anti-ciência e negacionista dos efeitos climáticos e outras coisas, a ideia passa do grupo para o indivíduo.
      Isto é particularmente visível nos grupos religiosos, e em especial, é reconhecido por todos a ferocidade das testemunhas de Jeová no que diz respeito a transfusões e transplantes.

      Mas reconheço que a questão psicológica tem um papel muito importante. A forma como cada um pensa, e como cada um aceita ou rejeita as provas ainda que sejam contrárias à sua crença é bastante interessante.

      Sobre isto, há uma questão no Quora: Why won't people accept facts that are against their beliefs?

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    4. É-me difícil aceitar criticas sobre as alterações climáticas, de alguém que diz é que é tudo uma conspiração (são uma cambada de mentirosos e aldrabões). Não sei como pode alguém alimentar um debate, fazendo este tipo de comentários.

      «E, não é a ciência feita de debate? (Sendo que, há várias questões relativamente às quais não existe um consenso científico?)»
      Sim, mas não é o caso das alterações climáticas, nem das vacinas.
      Mas se sabe mais, eu desafio-o a elaborar um artigo e a publicar as suas conclusões. Se forem de alguma validade, de certeza que a comunidade lhes dará a atenção devida.

      «Há mais de 30.000 cientistas que dizem (afincada e publicamente) que não há qualquer "aquecimento global" antropogénico»
      A isto chama-se falácia do apelo à popularidade. Não é por aí. Além de que o vídeo não cita qualquer fonte para o número que refere. Logo, porque hei-de aceitar?

      De resto, nada de novo. Só citações de sites e vídeos negacionistas. Nada de factos que possam ser comprovados.
      Quando tiver dados e informações novas, publique para que eu (e outros que o desejem) possam analisar e verificar.

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  3. Pelo respeito e pelo interesse que merece a ciência (conhecimento e artes e competências, em geral, são daquelas "coisas" que não se compram, ou se têm ou não e não há dinheiro que nos emposse de talento como nos empossa de roupa), preciso dizer que a ciência não está a sufrágio popular, nem qualquer outro e que ser cientista não é uma questão de votos. Aquele nojo que as campanhas eleitorais causam com a pedinchice de votos e todos os trejeitos e tiques de proselitismo dos candidatos, para verem legitimado o seu lugar no poder, felizmente, não faz parte do universo da ciência e o povo há-de aprender que o poder da ignorância só dá prejuízo.
    O poder da ignorância é, por exemplo, viver de acordo com o critério do interesse pessoal. Do tipo, "o que não me interessa, ou, o que não interessa, não vale".
    À primeira vista, este critério parece salvar tudo o que importa e substituir todas as discussões sobre escolhas, mas só a ignorância consente numa aparência destas.
    O partido da "crença" foi, é e será, enquanto e tanto quanto formos ignorantes, o maior partido da humanidade.
    Crença, não em qualquer coisa, mas em algo que acreditamos, na medida dos nossos interesses (instinto de sobrevivência?).
    A discussão não é sobre os fundamentos da crença, mas sobre os interesses da crença. Está aqui envolvido um sentido prático e uma racionalidade pragmática que são uma fortaleza daquelas que não se construíam, nem antigamente.
    Curioso é que a ciência, quanto mais se apresenta como a solução, como a infalibilidade (Deus) que foi retirando à infalibilidade religiosa, tanto mais contestação e desconfiança vai gerando.
    Chegados aqui, ocorre dizer que não basta à ciência ser ciência para ter credibilidade. As pseudociências, não sendo ciências mas parecendo, às vezes, têm mais.
    Ou seja, o problema da ciência como crença é um falso problema ou um não problema. O problema é, sobretudo, de crise de credibilidade da ciência.
    Não de credibilidade enquanto conhecimento que, em geral, não é questionado, mas de credibilidade enquanto instrumento, que está nas mãos de quem tem interesses que não coincidem com os interesses dos outros.
    Ciência, religião, futebol, partidos políticos, quanto à questão dos interesses e da credibilidade, jogam num campo, quanto à questão da crença e do conhecimento, jogam noutro.
    Os adeptos que fazem claque num dos campos, podem ser adversários ou inimigos no outro.
    A complicação surge sempre que nos pomos a falar de ciência e crenças sem definirmos previamente os planos e os pressupostos, ou os termos, da discussão.
    A crença, como dimensão do conhecimento científico, não é o mesmo que a crença religiosa, a superstição, a astrologia.
    E, em geral, parece-me que a força das crenças depende muito da credibilidade.
    Se a tua crença é credível, se merece confiança, seja pelos resultados, seja pelos valores envolvidos, o mais provável é que não a abandones, porque ela serve os teus interesses.

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    1. «E, isto não é uma mera "opinião"»
      Claro que é. Mas não devia ser, pois como o acto é médico, a indicação de vacinar ou não deve ser técnica e não de opinião.

      «Num país onde o Fascismo durou mais de 40 anos, não me surpreende, de todo, que haja quem não valorize e respeita a Liberdade dos outros»
      Não percebi a relevância do comentário. Está a insinuar que obrigar a vacinar, obrigar a proteger as crianças é fascismo? Que confusão!


      «Se estivermos a falar de uma pessoa que esteja infectada com uma doença, aí sim, é outra história. E, aí sim, que se restrinja o seu direito à liberdade de circulação. Caso contrário, cada um é livre de fazer o que quiser.»
      Pode não ser. Se a recusa for de um pai/mãe para uma criança, não é.

      «As vacinas são uma fraude médica.»
      Quais são as suas provas?

      «Quem diz o contrário, é alguém que: ou pertence à indústria médico-farmacêutica e departamentos estatais que recebem ordens da mesma; ou alguém que acredita em tudo o que ouve na televisão e é incapaz de aplicar o método científico, para averiguar a Verdade sobre esta e outras coisas que nos são ditas pelo poder estabelecido.»
      Chama-se a isto falácia da falsa dicotomia. No caso, ambas as alternativas estão erradas. Sugiro uma leitura no site da Cochrane Collaboration: http://www.cochrane.org/CD004407/ARI_using-combined-vaccine-protection-children-against-measles-mumps-and-rubella
      Caso nunca tenha ouvido falar, é uma ONG especializada em avaliar práticas médias. No caso, o link é sobre uma meta-análise sobre a vacina tríplice e inclui dados de vários estudos em vários países - mas devem ser todos vendidos, certo?

      «Aplicando a lógica que está por trás de todas as verdades científicas, apresente-me então você as provas do contrário.»
      O estudo que indiquei devia ser suficiente, mas é normal que nunca chegue. Afinal são todos ignorantes ou vendidos.

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    3. Para que eu considere as suas ideias, é muito simples:
      1) deve deixar de considerar que são todos vendidos e controlados;

      2) deve apresentar dados que tenham sido analisados e comprovados por terceiros (é assim que a ciência funciona);

      3) deve deixar de incluir referências circulares, tipo "as minhas provas são as minhas ideias, porque eu sou um livre pensador";

      4) deve entrar num debate com a capacidade de negar as suas próprias ideias, e partindo dessa premissa, ver quais as conclusões lógicas a que. chega.

      Sinceramente, depois de ler as suas respostas, acho que não vale a pena debater com quem não quer perceber porque é que as coisas são como são: e não é por causa das teorias da conspiração. As suas ideias são inamoviveis, desejo-lhe boa sorte com elas.

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    4. Só mais uma achega: creio que não percebeu o conceito de meta estudo. É pena, podia aprender algo de novo por aí.
      A eficácia de uma vacina mede-se avaliando quantas pessoas ficam realmente imunes. Por exemplo uma taxa de 95%, significa que por cada 100 pessoas vacinadas, há a possibilidade de 5% não ficar imune. Isto ocorre por vários motivos, sendo o principal as diferenças das próprias pessoas.

      Este comentário é só para esclarecer. Não pretendo continuar este debate.

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  7. Fernando Negro,

    Antes de mais, obrigado pelos comentários. Tenho tido pouco tempo para dedicar ao blog, mas vejo que há aqui muito material para quando me faltar inspiração. Entretanto, algumas notas breves.

    A ciência precisa de debate porque a troca livre de ideias é importante para corrigir erros. Mas o debate científico não é um debate onde cada lado tem como objectivo persuadir o outro. É um debate em que todos colaboram para apurar a verdade, o que exige imparcialidade e não admite cherry picking. Sendo a natureza humana como é, não admira que mesmo em ciência muitos tentem puxar a brasa à sua sardinha. Mas isso, em ciência, é vício e não virtude. E quando se exagera é-se, justamente, excluído do debate científico.

    Se as vacinas são uma fraude, é difícil explicar como é que, por exemplo, o sarampo matava cerca de 2.6 milhões de pessoas por ano até 1980 mas hoje mata cerca de 130,000, no mundo todo. E, em Portugal até se conseguiu erradicar a doença. Por outro lado, quando se descura a vacinação, a doença volta, como estamos a ver em vários países onde vem a moda parva de não vacinar.

    Esta afirmação é especialmente estranha:

    «O *potencialmente* estar a arriscar a vida de outros, não conta. O que conta, é o estar efectivamente a arriscar a vida dos outros. »

    Arriscar é sempre potencial. Porque a partir do momento que deixa de ser potencial deixa também de ser risco. É certeza. É por isso que proibimos que se armazene explosivos em casa ou que as pessoas comprem metralhadoras pesadas ou lança chamas. Estas coisas não são proibidas apenas quando realmente estão a matar mas sempre que, potencialmente, possam matar. É a esse potencial de que algo mau aconteça a que chamamos arriscar.

    A razão pela qual eu considero a vacinação um imperativo moral é precisamente porque dou muito valor à liberdade. Cada um deve ser tão livre quanto for possível sem retirar liberdades tão ou mais importantes aos outros. É isto que me faz ser a favor do controlo apertado de armas de fogo, de limites de velocidade nas autoestradas, de normas de segurança no fabrico de brinquedos, ferramentas e automóveis, e imensas outras coisas que restringem umas liberdades para proteger liberdades mais importantes. A vacinação é uma dessas. É mais importante a liberdade de não morrer por uma doença facilmente evitável do que a liberdade de não se vacinar. Isto aplica-se também a quem, contra o peso das evidências, opta por acreditar que as vacinas são uma fraude. Respeito a liberdade de cada um acreditar no que quiser, por muito disparatado que seja. Mas o exercício dessa liberdade não isenta ninguém do dever de não violar as liberdades dos outros, que é o que faz quem não se vacina e põe a saúde dos outros em perigo. Independentemente das suas crenças.

    «Aplicando a lógica que está por trás de todas as verdades científicas, apresente-me então você as provas do contrário.»

    Basta olhar para os números. Esta tabela é só sobre os EUA, mas parece-me bem esclarecedora (no comentário a seguir)

    https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00056803.htm#00003752.htm

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  8. Aqui vai a tabela:


    TABLE 2. Baseline 20th century annual morbidity and 1998 provisional morbidity from
    nine diseases with vaccines recommended before 1990 for universal use in children
    -- United States
    ===============================================================================================
    Baseline 20th century 1998 Provisional %
    Disease annual morbidity morbidity Decrease
    --------------------------------------------------------------------------------------
    Smallpox                            48,164*                    0            100%
    Diphtheria                         175,885+                    1            100%&
    Pertussis                          147,271@                6,279           95.7%
    Tetanus                              1,314**                  34           97.4%
    Poliomyelitis (paralytic)           16,316++                   0&&          100%
    Measles                            503,282@@                  89            100%&
    Mumps                              152,209***                606           99.6%
    Rubella                             47,745+++                345           99.3%
     Congenital rubella                    823&&&                  5           99.4%
      syndrome
    Haemophilus                         20,000@@@                 54****       99.7%
     influenzae  type b
    --------------------------------------------------------------------------------------

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  9. Ludwig,


    Permite-me discordar quando dizes que "É um debate em que todos colaboram para apurar a verdade". A ciência é sobre compreensão, o objectivo é obtermos a melhor compreensão dos fenómenos em análise. A verdade, parece-me que é mais uma questão da filosofia.

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  10. António,

    Eu não acho que haja uma separação entre ciência e filosofia. Ciência é apenas uma parte da filosofia, o que acontece quando começamos a saber o suficiente para poder testar hipóteses.

    Quanto à verdade, há dois problemas aqui. Explorar os diferentes conceitos de verdade e em que condições podem fazer sentido, como por exemplo a verdade como correspondência e a verdade como consistência lógica, é algo que concordo ser daquela parte da filosofia que tipicamente não se considera ser ciência. Mas apurar quais descrições correspondem à realidade e quais não correspondem – ou seja, apurar o que é verdade neste sentido de correspondência – é claramente algo que se faz nessa parte da filosofia que se chamava filosofia natural e agora se chama ciência.

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    2. Ludwig,

      Eu concordo com a visão da ciência como um dos vários aspectos subordinados à filosofia, aliás, não consigo ver como poderia ser de outra forma.
      No entanto, cada uma das áreas da filosofia podem e devem ter objetivos que são distintos, quer entre si, quer do objetivo final da filosofia. Já defendi e volto a defender essa ideia quanto à ciência.

      Sei que há mais quem pense desta forma (abaixo deixo alguns links): a ciência deve forcar-se em compreender/conhecer os fenómenos, se daí advém o que possa ser chamado de verdade pela filosofia, tudo bem, mas não defendo que deva ser essa a prioridade, até porque o próprio conceito de verdade pode ser ilusório.
      Há ainda a questão interessante, de que em ciência deve-se procurar falsificar uma ideia, e isto parece ser contrário à busca da verdade. Afinal, demonstrar que X é falso, não significa que o seu contrário seja verdade. A falsificação de uma ideia é uma necessidade imperativa em ciência, pois, evita absurdos lógicos.
      Manter a verdade e respetivo conceito fora da ciência, ajuda a manter o norte.

      Neste tempos pós-modernos, pós-qualquer-coisa-que-eu-não-sei-definir, em que cada um parece sentir necessidade de criar e definir a sua própria verdade, esta divisão (do objetivo da Ciênca vs objetivo da filosofia) leva a que seja não só necessária, como até imprescindível.

      http://undsci.berkeley.edu/article/truth
      http://www.realclearscience.com/articles/2012/05/17/what_do_we_mean_by_scientific_truth_106273.html
      https://philosophynow.org/issues/15/Is_Science_an_Ideology

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  11. À primeira vista e sem mais indagação, são as estratégias dialéticas de análise e síntese, que nos remetem para a diferenciação, tradicional, entre ciência e filosofia. Desde a filosofia do treinador de futebol até à filosofia da ciência, a capacidade de questionamento humano não conhece limites e chega mesmo a forçar os "cimentados" ou sedimentados limites da racionalidade. Este fulgor da filosofia, que ninguém nos tire, ninguém nos tirará. Esta verdadeira força (a juntar às outras forças da natureza), porém, é a mesma que anima a ciência.
    De certo modo, a comunidade de cientistas e de filósofos acaba sendo constituída por cientistas, cada vez mais filósofos e por filósofos, cada vez mais cientistas.
    Da descrição dos factos às interpretações e à fixação de sentenças, pode ir um complexo processo de validação, falsificabilidade, monitorização dos próprios processos indutivos/dedutivos, com todo o tipo de implicações, não apenas científicas, ou filosóficas, mas ideológicas e de conceção/visão do mundo e do homem. Se a ciência se abstém destas implicações, já a filosofia, não só não se abstém como se ocupa delas preferencialmente.

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