quarta-feira, maio 01, 2013

Aborto, o regresso.

Há quase dois meses várias pessoas discutiram aqui a minha opinião acerca da legalidade do aborto (1). Já vou atrasado para a conversa mas, como acerca da minha opinião até posso escrever com autoridade, ao contrário dos restantes temas que costumo abordar, aqui vai mais um post sobre isto.

Primeiro, avaliar uma decisão exige comparar futuros possíveis. Isto parece trivial mas é muitas vezes descurado por quem argumenta não haver problema com o aborto porque a vida que se destrói ainda está no futuro. Também quando se vai construir uma central nuclear ainda não há lixo radioactivo. Mas é claramente incorrecto ignorar a diferença entre haver ou não haver lixo radioactivo no futuro quando se decide sobre a construção de uma central nuclear no presente. A outra premissa é a de que o valor principal de algo é o valor que tem para si próprio. A máquina de lavar nunca terá valor para si própria, em nenhum momento da sua existência, pelo que podemos fazer dela o que nos der jeito. Em contraste, a vida de um ser humano tem valor para quem a vive, e esse é o valor principal a considerar. Destas duas premissas concluo que, na decisão de abortar, deve pesar o valor que décadas de vida humana terão para aquele ser que as vai viver se não for abortado. Sendo este valor muito superior a qualquer inconveniente social, económico ou profissional, considero não ser eticamente permissível abortar por tais motivos.

Não encontrei ainda quem rejeitasse estas premissas enquanto regras gerais ou mostrasse que a conclusão não segue delas. Em vez disso, as objecções tendem a passar ao lado do argumento. Por exemplo, alegar que o embrião não é pessoa é irrelevante porque este argumento não tem nada que ver com ser pessoa. Um pouco melhor é a objecção de que este raciocínio condenaria igualmente a contracepção, mas esta também não atacaria o argumento em si, mesmo que fosse verdade. Apenas obrigaria a avaliar a contracepção de outra forma, como fiz com a compra de carne de mamíferos quando avaliei assim a ética de matar esses animais só porque sabem bem. Mas vale a pena explicar porque é que o aborto e a contracepção são eticamente diferentes.

Um argumento nesta linha é o de não se poder matar embriões implica também não se poder matar espermatozóides e óvulos porque todos são conjuntos de células. Mas os rabos também são conjuntos de células e o meu direito de apalpar o meu não é o direito de apalpar os dos outros. Independentemente da confusão que se faz com “o início da vida” e o que é ou ainda não é “pessoa”, é evidente que durante a concepção as células dos pais fundam uma nova colónia de células, a do filho, que já não é parte dos organismos progenitores como eram os gâmetas.

Mais relevante é o argumento de que os gâmetas importam porque deles resulta a tal vida futura cujo valor se protege no caso do aborto. Neste aspecto estou de acordo. O valor dessa vida, para quem a viver, é o mesmo. No entanto, a ética depende também da relação causal entre a decisão e o valor das consequências. Por isso é que um acidente e um homicídio são eticamente diferentes, ainda que o valor da vida perdida seja o mesmo. E enquanto que vender tudo o que tenho e dedicar-me a alimentar pessoas no terceiro mundo seria eticamente louvável, não o fazer não me torna culpado por essas mortes cujas causas nada têm que ver com as minhas decisões. Bem diferente seria se eu matasse alguém com uma bomba ou um tiro pois, nesse caso, já haveria uma forte relação causal entre a minha decisão e a morte dessa pessoa. É esta a diferença entre a contracepção e o aborto. Cada filho que nunca chega a ser concebido não existe por muitas causas alheias às nossas decisões, entre os quais a impossibilidade de todos os espermatozóides fecundarem óvulos, mas no aborto propositado há uma relação causal forte entre a decisão de abortar e a morte do abortado.

Isto não quer dizer que eu seja sempre contra o aborto ou contra a sua legalização. O valor da vida não é absoluto e tem de ser ponderado com outros factores. O aborto pode ser eticamente admissível em casos de risco para a mãe, violação, ou gravidez de menores, por exemplo. O valor da vida também não é igual em todos os casos. Em casos extremos de doença congénita até pode ser preferível abortar. Por isso, mesmo restringindo-me ao aspecto ético, só no caso de uma gravidez saudável resultante de um acto sexual voluntário é que posso dizer que o aborto não é eticamente admissível. Nesse caso os pais têm o dever de zelar pelo filho até o poderem entregar a terceiros. Fora destas condições o problema torna-se demasiado complexo.

Quanto à Lei, é apenas uma de várias ferramentas que temos para guiar comportamentos. Se o aborto deve ser ilegal, mesmo no caso em que é eticamente inadmissível, dependerá dos efeitos práticos de lei e esse é um problema complexo. A minha oposição ao referendo pelo qual se legalizou o aborto deveu-se, principalmente, aos aspectos éticos não serem referendáveis nem os aspectos sociais, legais e económicos passíveis de redução a uma cruz num papel. Agora, tudo o que se poderia fazer para reduzir o recurso ao aborto, não só a nível de legislação mas também de saúde pública e outros incentivos, ficou condicionado ao “sim” que 25% dos eleitores responderam a uma pergunta inadequada à complexidade do problema. Em consequência, agora assume-se que o aborto é um mero exercício de direitos, como tirar um sinal, e que até merece ser comparticipado pelo Estado. Além de esconder os problemas éticos, quer da parte dos abortados quer da parte das mulheres forçadas a abortar por pressões económicas ou sociais, nem sequer deixa margem para ponderar se os milhões de euros gastos em abortos não seriam melhor investidos a tratar algo que fosse mesmo doença.

1- Comentários em Treta da semana: arreia-lhe enquanto não cresce.

39 comentários:

  1. só tenho uma pergunta: se uma mulher ou um casal não tiver condições ou não quiser criar um filho,cá em Portugal pode entregar a criança para adopção?

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    2. Por um lado isso não é muito relevante para a questão do aborto ser ou não ser eticamente correcto; por outro lado, acho que não se deve obrigar os pais a sustentar um filho indesejado até à idade adulta ou quase, enquanto que não deixar a criança nascer sem ter razões válidas para abortar talvez não seja correcto, pelo que deve haver a possibilidade do meio-termo: suportar a gravidez, mas poder entregar a criança a outras pessoas.

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    3. MARIA MADALENA TEODÓSIO: A BOA VONTADE NÃO CHEGA

      Depois de o Ludwig ter batido em retirada, fugindo do criacionismo bíblico como o diabo da cruz, a Maria Madalena Teodósio apresentou-se ao debate cheia de entusiasmo e boa vontade, disposta a provar a teoria da evolução e a refutar o livro de Génesis.

      Neste momento já estamos em condições de apresentar o “track record” da Maria Madalena com base nos argumentos que mobilizou. Vejamos

      1) Afirmou que o genoma não contém códigos nem informação codificada, negando toda a evidência existente, certamente com medo que os criacionistas usassem isso como evidência de design inteligente do mesmo. Mas a verdade é que tem.

      2) Comparou a organização dos flocos de neve com as quantidades inabarcáveis de informação codificada no genoma. Esqueceu-se que existem programas de descodificação do genoma (v.g. ENCODE, GENECODE), mas não existe ninguém a tentar sequenciar flocos de neve.

      3) Afirmou que a Terra tem 4,5 mil milhões de anos, esquecendo que essa datação assenta na medição de quantidades de isótopos de alguns meteoritos e algumas rochas, escolhidas a dedo, e parte do princípio (não demonstrado, não demonstrável e contrariado por muitas evidências) de que o sistema solar é o resultado do colapso gravitacional de uma nebulosa, algo que, de resto, nunca foi nem pode ser observado.

      4) Apresentou a teoria do mundo RNA como explicação da origem acidental da vida, quando esta é considerada pelos cientistas como a pior de todas as teorias da origem da vida com exceção de todas as alternativas.

      5) Afirmou que a duplicação de genes é a melhor maneira de criar informação genética, embora a análise do melhor exemplo mencionado pelos evolucionistas em 2012 (que eu próprio lhe indiquei!) mostre apenas que as bactérias salmonelas apenas duplicam genes que produzem histidina (e secundariamente triptófano), de maneira que a cópia consiga produzir em primeira linha triptófano, não se criando nenhuma função verdadeiramente nova e continuando as salmonelas a evoluir para… salmonelas!


      Como se vê, também a Maria Madalena Teodósio não vai longe no seu debate com o criacionismo bíblico. Não basta a boa vontade.

      É necessário examinar criticamente toda a evidência e toda a aparência de evidência.

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  2. Maria Madalena Teodosio,

    «se uma mulher ou um casal não tiver condições ou não quiser criar um filho,cá em Portugal pode entregar a criança para adopção?»

    Sim.

    «acho que não se deve obrigar os pais a sustentar um filho indesejado até à idade adulta ou quase»

    Não sei. Eu penso que é correcto obrigar o pai a ajudar a sustentar o filho caso a mãe queira criar a criança, e penso que é uma obrigação válida para ambos os lados.

    O que me faz aceitar que os pais possam dar os filhos para adopção ou pô-los à guarda do Estado é mais o interesse da criança do que propriamente um direito dos pais. Se bem que me pareça que os pais têm a obrigação de criar qualquer filho que surja por um acto voluntário, mesmo que seja sem quererem, por outro lado não é coisa que se obrigue alguém a fazer pelas consequências graves que pode trazer à criança.

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    1. OS PROBLEMAS DO LUDWIG COM VALORES E NORMAS MORAIS

      1) O Ludwig é naturalista, acreditando que o mundo físico é tudo o que existe. Sendo assim ele tem um problema, porque valores e normas morais não existem no mundo físico.

      2) O Ludwig diz que a observação científica é o único critério válido de conhecimento. Ora, nunca ninguém observou valores e normas morais no campo ou em laboratório.

      3) O Ludwig diz que a moral é subjectiva. Ora, se são os sujeitos que criam valores e normas, eles não estão realmente vinculados por eles, podendo cada um criar valores e normas a seu gosto, o que nega a existência de normas morais.

      4) Se a moral é subjectiva, como o Ludwig diz, dificilmente se poderá justificar qualquer pretensão de conferir validade universal às suas pretensas normas.

      5) O Ludwig está sempre a dizer aos outros que não devem dizer aos outros o que devem ou não devem fazer. Ou seja, ele faz exactamente o que diz que os outros não devem fazer.

      6) De milhões de anos de processos aleatórios de crueldade, dor, sofrimento e morte não se deduz logicamente qualquer valor intrínseco do ser humano nem qualquer dever moral de fazer isto ou aquilo.
      Conclusão: sempre que fala em valores e normas morais o Ludwig é irracional e arbitrário.

      P.S.

      É claro que muitos ateus têm valores!

      Também eles foram criados à imagem de um Deus moral e muitos vivem com dignidade e liberdade numa civilização judaico-cristã.

      O problema é que os ateus não conseguem justificar logicamente esses valores a partir da visão do mundo naturalista e evolucionista a que aderem pela fé.

      Como diz a Bíblia (Romanos 1, 21ª e 22), “tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças…” “…dizendo-se sábios, tornaram-se loucos”.

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    2. 1) Os valores e normas morais podem ser para nós o que as regras e normas no software são para o hardware dos computadores. E antes de dizer que o software está nos bits e bytes fisicamente codificados, a verdade é que não sabemos como o cérebro e a mente funciona, portanto porderão muito bem ser codificados lá via uma evolução social e cultural, que modela as personalidades.

      2) Antes de se saber que existiam fotões ou ondas electromagnéticas ou partículas sub-atómicas, também não se podia vê-los no laboratório. E no entanto existiam.



      3) Verdade. Ninguém está vinculado a elas. O que existe é uma partilha de algumas dessas normas por um conjunto de indivíduos que formam a sociedade e que as impõe mais ou menos coercivamente aos outros. Mas há quem não queira saber e as "quebre". Isso não quer dizer que não existem. Ao contrário das "leis" da física, as "leis" morais podem ser quebradas porque são construções. Além disso, elas evoluiram: p.e. antes a escravatura era moralmente aceitável, agora não é.

      4) E qual é o interesse disso? Quem é que quer justificar pretensões de universalidade? Tipicamente até são os que acreditam numa moral divina.

      Aquelas que mais se aproximam de ter validade "universal", como não matar pessoas, é só "universal" porque quase todas as culturas evoluiram nesse sentido: a sociedade é mais estável se as pessoas não se andarem a matar umas às outras. Não quer dizer que não possa vir a ser mudado (por exemplo, na Alemanha nazi era aceitável descartarmo-nos de deficientes).

      5) Não conheço o Ludwig para dizer o que ele faz ou não. Agora nenhum cientista deixará de emitir opiniões. O que dirá sempre é que devem questionar tudo o que lhes é comunicado.

      6) ?

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  3. O argumento é bom, claro. Mas há limites para o que a lei pode obrigar uma pessoa a fazer com o seu corpo. Uma pessoa que não queira um conjunto de células a crescer dentro de si, não pode, na minha opinião, ser obrigada a fazê-lo. Nada a obstar em relação ao resto. Mas eu pessoalmente acredito que a ultima palavra pertence à mulher. É o corpo dela e dizer "se fizeres isto ao teu corpo vais presa" é para mim inadmissível.

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    1. Qualquer pessoa é um conjunto de células, embora não seja simplesmente um conjunto de células.

      Um embrião não é simplesmente um conjunto de células e muito menos é um abcesso ou um tumor.

      Um embrião é um ser humano que nasceu em virtude da actividade sexual de um homem e de uma mulher.

      A mulher pode ter uma palavra a dizer sobre o seu corpo, embora mesmo este lhe tenha sido dado por Deus e não seja criação dela.

      Mas a mulher não pode ter uma palavra letal a dizer sobre um outro ser vivo totalmente distinto dela que, tal como ela, necessitou do óvulo e do útero de uma mulher para se ser gerada.



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  4. Ludwig,

    Uma das objecções que tenho à tua posição, a questão do anacronismo da decisão sobre uma vida alheia, pôs-me a pensar sobre um enquadramento que tornasse clara a minha opinião.

    O meu contra-argumento, que já to havia apresentado, baseia-se no questionar da legitimidade de se criar uma vida que será independente de nós.

    É que a existência humana não se limita a estarmos vivos e a mantermo-nos vivos. Nós movemo-nos num mundo de responsabilidades éticas simplesmente por sermos conscientes, estarmos cientes delas; e estar ciente delas é desejável e necessário.

    E surgiram-me duas questões. A primeira trata-se de saber se o meu argumento é ou não um contra-argumento ao teu. A segunda é se, independentemente da tua posição, se o meu contra-argumento subsiste por si próprio. Na verdade, convenci-me de um problema ético sério que há não em terminar uma gravidez saudável mas em levá-la até ao fim.

    O meu argumento é de que talvez não seja correcto criar uma outra vida com responsabilidades éticas para com os outros, responsabilidades essas que não escolheu, das quais não se pode abster, e da assimetria sobre as nossas decisões que é imposta pelos instintos de sobrevivência e gregariedade que impedem o suicídio.

    A verdade é que estamos vivos, não pedimos para existir, ninguém nos pediu autorização para tal, e agora que aqui estamos temos uma série de responsabilidades éticas sobre as quais reconhecemos que não é lícito decidir arbitrariamente. Mais ainda, teremos uma vida nem sempre confortável, uma morte certa possivelmente decadente, dolorosa e desumana, e partilharemos o nosso sofrimento com a nossa família. Quando criamos uma vida, é este problema que estamos a criar. O facto de eu gostar, ou não, de existir, não me permite decidir sobre os outros.

    O meu contra-argumento, portanto, é o de que é tão legítimo questionar o peso ético de terminar uma vida independentemente da sua escolha livre como é questionar o nosso direito a começá-la em primeiro lugar.

    Como são duas questões separadas, gostava de te perguntar em primeiro lugar: a tua posição pode reduzir-se a uma precaução ética relativa à subjectividade de uma vida que será independente de nós?

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  5. A Bíblia é bem mais clara, do que o Ludwig.

    Para ela, a vida humana tem valor porque o Homem foi criado por Deus à sua imagem, tendo valor intrínseco.

    É graças a essa realidade que faz sentido afirmar universalmente a dignidade da pessoa humana.

    Para a Bíblia, a morte entrou no mundo como consequência do pecado. Pelo que matar um ser humano inocente é um ato de rebelião contra o Criador.

    Estando nós diante de vida humana desde a concepção, ela deve ser respeitada desde a concepção.

    É claro que para quem defende que toda a vida é um acidente cósmico (ainda que sem qualquer fundamento científico) qualquer afirmação da dignidade humana é arbitrária e destituída de fundamento.

    P.S. um artigo interessante sobre o modo como o design do cavalo marinho ajuda os engenheiros a desenvolver design robótico...

    O que eles dizem:

    "The tail's exceptional flexibility is due to its structure, made up of bony, armored plates, which slide past each other. Researchers are hoping to use a similar structure to create a flexible robotic arm equipped with muscles made out of polymer, which could be used in medical devices, underwater exploration and unmanned bomb detection and detonation."



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  6. Um artigo científico interessante sobre o modo como o design miniaturizado da visão dos insectos inspira os engenheiros no desenvolvimento e sofisticação das lentes das câmaras digitais, embora sem deixar de (sem provas) atribuir o crédito a milhões de anos de processos aleatórios e...cegos(!!)

    Design altamente sofisticado da visão dos insectos:

    "Digital Cameras With Designs Inspired By the Arthropod Eye,"

    "Eyes in arthropods use compound designs, in which arrays of smaller eyes act together to provide image perception.

    Each small eye, known as an ommatidium, consists of a corneal lens, a crystalline cone, and a light sensitive organ at the base.

    The entire system is configured to provide exceptional properties in imaging, many of which lie beyond the reach of existing human-made cameras."

    Sendo evolucionistas, os autores não deixam de fazer uma referência genérica a milhões de anos evolução, embora sem qualquer prova e sem explicarem como é que um sistema cego e aleatório poderia criar a informação genética de que dependem sistemas de visão tão sofisticados e miniaturizados e como é que os seres vivos supostamente mais antigos também já tinham sistemas de visão extremamente sofisticados...


    Para os criacionistas (especulações evolucionistas à parte) a evidência que temos aqui e agora corrobora amplamente o design inteligente dos sistemas de visão dos insectos.

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  7. Apesar dos modelos científicos de evolução cósmica domiantes, a verdade é que o planeta Saturno parece ser recente, à semelhança do que tem sido observado em outros corpos celestes.

    Os cientistas observam:

    "Saturn however is much brighter than expected for a planet of its age"

    "Saturn keeps itself looking young and hot."


    Naturalmente que esta realidade põe em causa os modelos cosmológicos dominantes:

    "These findings suggest that the interior structure, composition and thermal evolution of giant planets in our Solar System, and beyond, may be much more complex than previously thought."

    Para os criacionistas, o Universo é recente (sem prejuízo da sua complexidade do ponto de vista da dilatação gravitacional do tempo e própria velocidade da luz).

    Não admira, pois, que Saturno pareça recente e que as características planetárias se mostrem relapsas a uma compreensão por modelos simplistas de evolução cósmica.

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  8. Ludwig,

    Continuo sem perceber como é que a verificação de que o «embrião não é uma pessoa» passa ao lado do que consideras essencial nesta questão. Mas atendendo às consequências dos nossos actos e à sua projecção no tempo, que defines como o eixo da tua avaliação, recordo que se queres tomar um embrião por uma pessoa, terás que tomar a pessoa por um cadáver. Logo, ter filhos é imoral. Chama-se lógica da batata.

    Depois tenho outra objecção: és um gajo dez vezes mais inteligente do que eu, nem sequer tens o direito de insistir neste tipo de disparates.

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    1. Estimado Bruce Lóse

      Como é que pode dizer que alguém que se autodefine como "macaco tagarela" é dez vezes mais inteligente do que o Bruce Lóse?

      Parece-me que está a sobrestimar a inteligência do Ludwig e a subestimar a sua...

      Isto, sem prejuízo de o seu argumento sobre o cadáver não abonar muito a favor da sua inteligência...

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  9. Francisco,

    «O meu contra-argumento, portanto, é o de que é tão legítimo questionar o peso ético de terminar uma vida independentemente da sua escolha livre como é questionar o nosso direito a começá-la em primeiro lugar.»

    Quanto à legitimidade de questionar, estou perfeitamente de acordo. Julgo, no entanto, que o teu argumento pretende ir além da legitimidade de questionar e propõe uma resposta diferente à questão :)

    Ao contrário do que afirmas à partida, a ética não me parece nada inevitável para o ser humano. Nascemos com a capacidade de aprender comportamentos e, por isso, podemos incorporar regras morais mesmo sem notarmos. Mas daí até questionar o fundamento e legitimidade dessas regras e sentir necessidade de responder a essa questão de forma imparcial, independente da nossa perspectiva subjectiva em particular, penso que é preciso um passo de vontade. Mas não é esse o problema mais importante.

    O mais importante é que, se tu achas que estar vivo é uma coisa boa, então, sendo tudo o resto constante, é preferível agir de forma a que o universo te inclua vivo do que de forma a ter o universo com tudo o resto igual mas sem ti. Nesse caso terá de ser eticamente permissível conceber-te. Nunca pode ser eticamente proibido optar por uma alternativa que seja melhor para todos...

    «Como são duas questões separadas, gostava de te perguntar em primeiro lugar: a tua posição pode reduzir-se a uma precaução ética relativa à subjectividade de uma vida que será independente de nós?»

    A minha posição (contra o aborto em certos casos) assume que a vida do potencial abortado, se a puder viver, será algo com valor positivo para o próprio. Por isso penso que não se pode reduzir a uma mera precaução, como o sabe-se lá se ele gosta de viver ou não, mas é mais do que isso. É um quase de certeza que ele vai querer a vida que tiver. Quanto ao grau de independência dessa vida não é um factor importante em si, se bem que possa afectar o valor da vida...

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  10. Wyrm,

    «Mas há limites para o que a lei pode obrigar uma pessoa a fazer com o seu corpo.»

    Sim, há limites. Mas, por outro lado, tudo o que a lei obrigar uma pessoa a fazer será, forçosamente, com o seu corpo.

    «Uma pessoa que não queira um conjunto de células a crescer dentro de si, não pode, na minha opinião, ser obrigada a fazê-lo.»

    Em geral, concordo. No entanto, no caso particular de uma pessoa ter voluntariamente, com conhecimento, agido de forma a criar esse conjunto de células a crescer dentro de si, não pode agora destruir uma vida humana inteira só para não esperar uns meses que o conjunto de células saia sozinho.

    É por isso que acho que o caso da violação é eticamente diferente do caso do que se lixe, se engravidar depois aborto.

    «É o corpo dela e dizer "se fizeres isto ao teu corpo vais presa" é para mim inadmissível.»

    Para mim é admissível que a lei coloque restrições ao que podes fazer com o teu corpo sempre que isso afecte outros corpos que não o teu. Nem precisam ser pessoas. Por exemplo, não podes usar o teu corpo para mutilar cães. Até é admissível que a lei te imponha a obrigação de usar o teu corpo para benefício de outros, em certos casos. Por exemplo, se tens um filho de 3 meses e o carregas ao colo pela floresta, é admissível, a meu ver, que a lei te obrigue a levar a criança pelo menos até algum sítio onde a possas deixar em segurança e te puna severamente se a abandonares para morrer no meio do mato. Isto mesmo que o filho tenha nascido de um acidente e não te dê jeito nenhum andar com ele.

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  11. Bruce,

    «Continuo sem perceber como é que a verificação de que o «embrião não é uma pessoa» passa ao lado do que consideras essencial nesta questão.»

    Porque nada no meu argumento depende do sujeito em causa ser classificado de pessoa, nem o meu argumento será alterado conforme mudares a definição desse termo. Por exemplo, podes dizer que um chimpanzé não é pessoa mas, ainda assim, pelo meu argumento não será eticamente permissível matar um chimpanzé porque o chimpanzé dá valor à sua existência e isso tem de pesar na decisão. Se é pessoa ou não é irrelevante. O mesmo para o primata da nossa espécie.

    « recordo que se queres tomar um embrião por uma pessoa, terás que tomar a pessoa por um cadáver. Logo, ter filhos é imoral. Chama-se lógica da batata.»

    Não. Isso chama-se deturpar o argumento do outro. Eu não quero tomar o embrião por pessoa, nem por adolescente, nem por velhote, nem por “humano na véspera de fazer 43 anos, às 2:45 da tarde enquanto segura uma cerveja gelada”. O meu ponto é precisamente que o valor da vida (humana, primata, mamfífera ou o que calhar) é o valor total da vida toda para quem a vive, e é esse valor que temos de considerar quando estamos a decidir se vamos impedir de a viver.

    O facto de se ir tornar cadáver dá um limite para esse valor – é o de umas décadas de vida, não de uma eternidade – mas à parte disso será apenas mais uma das ocorrências de percurso e não constitui, por si, o valor total que está em causa.

    «Depois tenho outra objecção: és um gajo dez vezes mais inteligente do que eu, nem sequer tens o direito de insistir neste tipo de disparates.»

    Esse é um truque comum, mas que não esperava de ti... Se me querem chamar inteligente só para dizer que estou a dizer disparates, então, por consistência, deviam também tentar perceber o que estou a dizer porque pode apenas parecer um disparate por causa da alegada diferença de inteligência :)

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  12. Ludwig,

    «podes dizer que um chimpanzé não é pessoa mas, ainda assim, pelo meu argumento não será eticamente permissível matar um chimpanzé porque o chimpanzé dá valor à sua existência e isso tem de pesar na decisão»

    Tens razão, é importante uma clarificação da minha parte. Quando aponto a evidência de que um embrião não é uma pessoa, estou também a tomar como óbvio que um embrião não é um chimpanzé, uma vaca, um canário ou sequer uma couve. Ao referir-me ao embrião, estou a pensar naquilo que ele é (pela razão de o ser, quer querias quer não queiras): um embrião. Este é o sujeito da nossa análise. Por isso, e tratando-se de um embrião, continuo sem compreender como é que esmagar um embrião causa danos a uma pessoa.


    «O meu ponto é precisamente que o valor da vida (...) é o valor total da vida toda para quem a vive, e é esse valor que temos de considerar quando estamos a decidir se vamos impedir de a viver.»

    Sim, mas o critério que propões para a avaliação das nossas decisões é a projecção das acções no tempo. E aqui esbarras sempre num cemitério... Ou seja, e voltando à minha objecção principal: tens o direito de produzir vida? Segundo o teu próprio critério parece-me claro que não.

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  13. Ludwig,

    «Ao contrário do que afirmas à partida, a ética não me parece nada inevitável para o ser humano.»

    Concordo, mas não foi exactamente isso que eu disse. O que disse é que estamos cientes de problemas de natureza ética afectos à nossa condição, e isso torna-nos conscientes de uma certa responsabilidade em procurar soluções para eles.

    A ética poderá não ser inevitável para o ser humano, como o saber ler e escrever, mas é desejável que o seja. Se eu tiver filhos, vou concerteza educá-los por forma a terem a noção disso. Creio que educas os teus filhos tendo isso em consideração: não só que vivam confortavelmente mas que tenham consideração pelos outros, e que mais tarde desenvolvam um espírito crítico relativo à forma como regem a sua própria moral.

    «Por isso penso que não se pode reduzir a uma mera precaução, como o sabe-se lá se ele gosta de viver ou não, mas é mais do que isso. É um quase de certeza que ele vai querer a vida que tiver.»

    Muito bem. Então creio que as consequências da minha preocupação não poderão ser usadas como contra-argumento para a tua posição. Pensei que era a valoração em si, da vida própria de um sujeito, o fulcro da tua posição; mas segundo percebi é a valoração positiva somente que te indica que será errado terminar uma vida que será inevitavelmente humana. Neste ponto, resta a valoração negativa, que é a minha preocupação.

    É que apesar de ter a certeza quase certa de que os meus filhos quererão preservar a sua vida, tenho por outro lado uma certeza ainda mais certa que essa de que os meus filhos vão morrer. Não se bem ou mal, e não sei se viverão confortáveis com essa perspectiva. Não sei se os vou educar para serem boas pessoas, se conseguirei dar-lhes a capacidade de equilibrar um profundo reconhecimento da sua própria fragilidade com a serenidade necessária para contemplar a morte.

    Ao ter filhos, estou a condená-los à morte em simultâneo. Não tenho como não os educar para terem consciência de responsabilidades que não pediram. Da minha morte sei eu. Mas porque haveria eu, sabendo como o mundo é – e não estou necessariamente a falar de guerras e dos problemas da sociedade, mas somente da tomada de consciência da nossa morte – de dar à vida seres vivos que definharão eventualmente?

    O facto de um sujeito querer ter a vida que tiver, seja ela qual for, não simplifica o problema. Pelo contrário: complica-o. Porque a nossa condição de bichos nos agarra à vida, mesmo que não desejemos as suas circunstâncias. Isto não é uma objecção ao teu argumento, reforçando-o aliás, mas aponta para outra solução anterior: nem sequer ter filhos.

    Se a decisão não fosse tão drástica eu nem me preocupava com isso.

    Entretanto, via Rationally Thinking, encontrei este artigo que para além de levantar outras questões tem algumas referências que gostaria de ler: http://www.npr.org/blogs/13.7/2013/03/11/173977133/is-having-a-child-a-rational-decision

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  14. Bruce,

    « Ao referir-me ao embrião, estou a pensar naquilo que ele é»

    Não. Estás a pensar num termo que foca apenas um aspecto do que ele é, nesse instante, e, por mero jogo de palavras, tentar criar a ilusão de que o teu argumento tem fundamento. Chama-se a isso falácia. É como chamar-lhe filho em vez de embrião para concluir que não se pode abortar porque a mãe não tem o direito de matar o filho. Ou chamar-lhe organismo da espécie humana para dizer que o aborto é homicídio porque o homicídio é a morte deliberada de um organismo da espécie humana.

    Se queremos ser dez vezes mais inteligentes do que as pessoas que argumentam dessa forma disparatada temos de olhar além dos rótulos e do jogo de palavras para ver o que importa verdadeiramente. E na avaliação de uma decisão importa muito mais a diferença entre as consequências de uma opção e as consequências de outra.

    Por exemplo, se a mãe quer que operem o embrião para lhe retirar as pernas porque gostava de ter um filho sem pernas, não é o rótulo de “embrião” que importa mas a diferença entre ter ou não ter pernas para o resto da vida. Se é por capricho e a alternativa for viver feliz com pernas e tudo, então é claro que não é eticamente aceitável amputar-lhe as pernas. Se, por outro lado, tem um cancro incurável nessa parte do corpo mas pode salvar-se amputando-lhe as pernas, então já pode ser uma medida aceitável se assumirmos que viver sem pernas é melhor do que não viver. Seja como for, a discussão de ser ou não ser pessoa, embrião ou o raio que o parta é irrelevante. O que importa é que futuro estamos a decidir que ele irá ter (em qualquer decisão é sempre o futuro que importa, porque acerca do passado já pouco há a fazer e o presente passa num instante).

    No caso de querer amputar tudo em vez de amputar só as pernas o problema é análogo, só quantitativamente maior a diferença entre deixá-lo crescer em paz ou destruir-lhe a vida toda.

    «Sim, mas o critério que propões para a avaliação das nossas decisões é a projecção das acções no tempo. E aqui esbarras sempre num cemitério... »

    Esbarras no cemitério mas há partes antes disso que importam. Apesar de, eventualmente, acabar por morrer à mesma, ainda assim é boa ideia tomar o antibiótico porque o tempo que tenho até morrer sempre vale de alguma coisa. Se abortares morre às dez semanas. Se não abortares morre aos setenta anos. É certo que morre à mesma, mas sempre são setenta anos de diferença e isso deve contar.

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  15. Francisco,

    «mas segundo percebi é a valoração positiva somente que te indica que será errado terminar uma vida que será inevitavelmente humana.»

    Sim. Imagina que o potencial abortado tem uma doença incurável que dará apenas 2 anos de vida e sempre em grande sofrimento. Nesse caso, tendo uma estimativa francamente negativa do valor dessa vida, será até eticamente desejável abortar e poupar esse sofrimento à criança. No fundo, o problema é o mesmo que com a eutanásia no caso de pessoas incapazes de decidir por si se querem ou não viver. Há casos em que claramente devem querer viver, casos em que por prudência é melhor não as matar e casos em que claramente a melhor opção será matar.

    «Ao ter filhos, estou a condená-los à morte em simultâneo.»

    Não. Essa parte de não estar vivo é constante. Não está ao teu alcance alterá-la nem és eticamente responsável por ela. A única coisa que vais poder decidir é se esses teus filhos poderão ter um pequeno intervalo de existência no meio da eternidade de inexistência. Se o valor disso para eles te parece ser positivo, então não há mal nenhum em escolher essa opção.

    É claro que, por outro lado, também não é culpa tua que eles não existam, pelo que não há propriamente uma obrigação ética de lhes dar existência. É eticamente preferível que o faças mas eticamente permissível não o fazer (ou seja, ter filhos é um acto supra-rogatório).

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  16. Ludwig,

    «Estás a pensar num termo que foca apenas um aspecto do que ele é, nesse instante, e, por mero jogo de palavras, tentar criar a ilusão de que o teu argumento tem fundamento. Chama-se a isso falácia.»

    Não. Estou a pensar nos factos, ou seja, no que ele é nesse instante. Pelo contrário, a tua afirmação de que «não tomas um embrião por uma pessoa» para logo a seguir me apontares que essa distinção é impossível, sim. Já me parece mais falaciosa. Eu, insisto, estou realmente persuadido pelo que me tem sido dado conhecer de que a distinção ente embrião e pessoa não é falaciosa.

    «Se queremos ser dez vezes mais inteligentes do que as pessoas que argumentam dessa forma disparatada temos de olhar além dos rótulos e do jogo de palavras para ver o que importa verdadeiramente.»

    Não fazia ideia de que ias ficar agastado com um elogio, caneco! Mas sigo a tua recomendação já a seguir:

    «se a mãe quer que operem o embrião para lhe retirar as pernas porque gostava de ter um filho sem pernas, não é o rótulo de “embrião” que importa mas a diferença entre ter ou não ter pernas para o resto da vida.»

    Estás a tomar o «embrião» pelo «resto da vida», e é precisamente esta a ligação que falta para eu conseguir aceitar o teu argumento. Não sei exactamente de que falácia se trata, mas estás a tentar meter o Rossio na Betesga. Lá isso estás. Porque sobrepões num dado instante dois produtos substancialmente diferentes da biologia, quando é justamente o tempo decorrido que *transforma* uma na outra. Também por este motivo não concordo com o que dizes a seguir:

    «No caso de querer amputar tudo em vez de amputar só as pernas o problema é análogo, só quantitativamente maior a diferença entre deixá-lo crescer em paz ou destruir-lhe a vida toda.»

    A tua insinuação de que a vida estava lá antes de existir a pessoa, vulnerável aos caprichos de um malfeitor, parece-me completamente ao lado daquilo que pode sustentar um problema ético. A vida de uma pessoa, antes de existir a pessoa, não existe. Eu percebo que fazes uma valorização muito forte da ligação entre o embrião e as fases seguintes de uma trajectória, ao ponto de atribuires ao próprio embrião, por fazer parte da trajectória, uma parte da pessoa. Por isso te dedicas a recusar a ideia absurda de que um embrião é uma pessoa ao mesmo tempo que te dedicas a recusar que o embrião não é uma pessoa. Mas é precisamente isso que não tem pernas para andar :)

    Acusas-me de procurar um problema de definição de palavras ao descrever as células de um embrião usando a palavra própria para as descrever nos termos do conhecimento científico, ao mesmo tempo que propões algo verdadeiramente inovador: o embrião é o que vai ser. Como repetes, aliás, aqui:

    «Se abortares morre às dez semanas. Se não abortares morre aos setenta anos. É certo que morre à mesma, mas sempre são setenta anos de diferença e isso deve contar.»

    Se me abortassem às dez semanas não era eu que morria. Se eu morrer aos setenta anos quem morre sou eu, é verdade. Mas a diferença não são apenas os setenta anos, mas tudo o que separa um embrião de uma pessoa. E não me digas que isto é uma falácia :)

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  17. Bruce,

    «Eu, insisto, estou realmente persuadido pelo que me tem sido dado conhecer de que a distinção ente embrião e pessoa não é falaciosa.»

    A falácia é um raciocínio inválido que, por ser enganador, pode parecer válido.

    Por exemplo, definir “pessoa” como significando “organismo da espécie H. sapiens” e daí concluir que não é legítimo abortar porque isso mata uma pessoa é uma falácia porque a legitimidade do acto não segue da definição do termo. Da mesma forma, definir “pessoa” como excluindo o embrião e daí concluir que é legítimo abortar é uma falácia também, e precisamente pela mesma razão.

    «Estás a tomar o «embrião» pelo «resto da vida»»

    Não. O “embrião” designa o que tu quiseres. “Pessoa” designa o que tu quiseres. “Construção da central nuclear” designa o que tu quiseres. Se quiseres podes definir a expressão “construção da central nuclear” como explicitamente excluindo qualquer material radioactivo. Ainda assim, na decisão de se construir ou não a central nuclear deve-se considerar que, independentemente da definição dos termos, dessa decisão vai depender a quantidade de material radioactivo com que teremos de lidar. Da mesma forma, e independentemente da definição dos termos, da decisão de abortar ou não vai depender o tempo de vida do abortado. Essas diferenças são relevantes para a decisão, mas nada disto exige essa confusão entre “embrião” e “resto da vida” ou entre “construção da central nuclear” e “lixo radioactivo”. O que está em causa na decisão não muda conforme a semântica dos termos.

    «A tua insinuação de que a vida estava lá antes de existir a pessoa, vulnerável aos caprichos de um malfeitor, parece-me completamente ao lado daquilo que pode sustentar um problema ético.»

    Concordo. E não é nada disso que eu estou a defender.

    Pensa na central nuclear. Não estou a insinuar que quando começares a assentar tijolos já lá está o lixo radioactivo antes de ser radioactivo. Não está. Mas o facto, independente da demagogia, é que o funcionamento da central vai produzir lixo radioactivo, e isso tem de ser tido em conta. Da mesma forma, não estou a dizer que no embrião já está a mesma coisa exactamente que estará aos 6 anos, ou aos 18, ou aos 40 ou aos 80. Não está. Vai mudando ao longo da vida. Mas o facto, independente da demagogia, é que aquele organismo vai viver uns 70 ou 80 anos se não for abortado, ou isso menos 70 ou 80 anos se for. E isso também tem de ser tido em conta, mesmo que queiras chamar “rosas” ao lixo radioactivo.

    «Se me abortassem às dez semanas não era eu que morria.»

    Eu considero que era eu às dez semanas tal como era eu aos dez dias após o nascimento, e aos dez anos. Tu, se quiseres, podes considerar que o teu ciclo de vida foi mais complexo que o meu e primeiro os teus pais conceberam um X qualquer que depois magicamente se transformou em ti às N semanas, com N um número tirado do chapéu. Tanto faz. O facto que importa aqui é que se te abortassem às dez semanas tu não terias vivido estes anos todos nem irias viver mais ano nenhum. É isso que conta e não o rótulo que te colem em qualquer fase da tua vida.

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    1. Ludwig, tem a certeza de que está a falar de um simples monte de células?

      Não estará antes a falar de um ser humano que foi pensado para ser concebido em amor, cuidado com amor e para viver rodeado de amor?

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  18. Por maior que seja a pirotecnia argumentativa do Ludwig, a verdade é que o embrião é já um ser humano com toda a informação genética de um ser humano.

    Não há nada melhor do que olhar para o seu desenvolvimento para compreender isso. A ciência não podia deixar de o confirmar.

    É por saberem que a gravidez é o processo normal de gerar novos seres humanos que as mulheres querem engravidar. Elas sabem que quando o conseguem podem dizer que dentro delas está um filho que irá nascer...

    Fazer depender a dignidade humana da questão hipotética de saber se a vida de um embrião será boa ou má para quem a irá viver é um fundamento demasiado subjectivo, vago e especulativo.

    Principalmente quando se diz, como faz o entender do Ludwig, não o embrião nem sequer um ser humano mas sim um conjunto de células. Então porque é que nos temos que preocupar com ele e não com um insecto? Afinal ambos são conjuntos de células...


    Dizer que o embrião é apenas um conjunto de células é um disparate que só mostra que a dignidade humana não pode ficar do cientismo naturalista ateísta... ...seria o seu fim.

    Será que o Ludwig gostaria que alguém o matasse com a justificação de que, afinal, também não passa de um conjunto de células?

    Será que o Ludwig gostava que alguém o matasse apenas porque define o ser humano como uma integrando categoria que exclui autodenominados "macacos tagarelas"?

    Será que tudo não passa de definições subjectivas e arbitrárias?

    P.S. Um estudo recente mostra (pela enésima vez!) que as mutações são essencialmente um mecanismo de corrupção de estruturas pré-existentes e não um mecanismo de evolução para estruturas e funções inovadoras e mais complexas...





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    1. Dizer que o embrião é apenas um conjunto de células é um disparate que só mostra que a dignidade humana não pode ficar dependente do cientismo naturalista ateísta... ...seria o seu fim.

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  19. ÚLTIMA HORA: uma notícia interessante sobre a descoberta de pele intacta de dinossauro, corroborando a cronologia bíblica, e a idade recente dos dinossauros, e criando ainda mais dificuldades à cronologia uniformitarista que rejeita o diluvio a priori e aceita acriticamente hipotéticos milhões de anos nunca observados por ninguém...

    O que eles observam:

    "As we excavated the fossil, I thought that we were looking at a skin impression. Then I noticed a piece came off and I realized this is not ordinary – this is real skin."



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    1. Oh senhor(a).... leia o que lá está escrito. Não descobriram pele. Descobriram um fóssil de pele, em vez dum fóssil da impressão deixada pela pele no solo, que é o que geralmente acontece.

      Tipicamente os materiais organicos moles são decompostos demasiado rapidamente, pelo que não tendem a fossilizar. Assim os fósseis de pele ou penas tendem a existir devido à impressão no material circundante (lamas, p.e.) e este é que fossiliza.

      Neste caso, o que foi descoberto foi isso mesmo, o fóssil da pele e não da impressão. Já agora, convém ir à fonte (como bom cientista) e não a sites que deturpam. Senão veja: no link que refere diz-se o seguinte (bold meu):

      "Barbi claimed it’s the only 3-dimensional dinosaur skin fossil in the world."

      enquanto no artigo original:

      "Barbi said this is only the third three-dimensional dinosaur skin specimen ever found worldwide."

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    2. várias pessoas?
      há pessoas aqui?


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      nunca mais chego aos 5000.....

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    3. Sheeko

      Sabes ler inglês?

      Então lê:

      "As we excavated the fossil, I thought that we were looking at a skin impression. Then I noticed a piece came off and I realized this is not ordinary – this is real skin."


      "proteins, sugars and fats still found in the skin will create unique vibrational frequencies that scientists can measure."

      “Skin has fat and lots of dead cells along with many inorganic compounds. We can reflect the infrared beam off the sample and we can analyze the samples to give us very clear characteristics.”

      "They will be studying melanosomes (pigment cells) in the skin to try to determine what color the hadrosaur was."

      Temos que aturar sheekos espertos...

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  20. O problema do argumento é ser bastante difícil de desenhar uma linha consensual.

    Se a ética do aborto depende da qualidade de vida da futura pessoa, e nisto basear a justificação para ser legítimo abortar um bebé com uma doença genética, então está também a afirmar que a ética do aborto depende do sitio onde se faz.

    Será eticamente mais aceitável abortar em África do que em Portugal só porque a vida de um bebé em África é de maior sofrimento?

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  21. DNL,

    «O problema do argumento é ser bastante difícil de desenhar uma linha consensual.»

    Esse problema não é do argumento. É consequência da complexidade dos processos biológicos, da grande margem de erro nas estimativas, dos muitos valores envolvidos, etc.

    «Se a ética do aborto depende da qualidade de vida da futura pessoa, e nisto basear a justificação para ser legítimo abortar um bebé com uma doença genética, então está também a afirmar que a ética do aborto depende do sitio onde se faz.»

    Claro que sim. Substitui "aborto" por "eutanásia", por exemplo, e verás que faz todo o sentido.

    Se estás num sítio e época onde o ser X com doença Y está condenado a uma vida sem qualidade, cheia de sofrimento e sem possibilidade de melhoras, a eutanásia será eticamente mais aceitável do que se, noutras condições, o problema for facilmente resolvido e tiver boas perspectivas de uma vida com qualidade.

    O aborto é análogo porque, no fundo, é eutanásia in utero.

    «Será eticamente mais aceitável abortar em África do que em Portugal só porque a vida de um bebé em África é de maior sofrimento?»

    Para mim é claro que não é eticamente aceitável abortar algo que, de outra forma, teria uma vida como a nossa só por conveniência económica ou pressão social. Nessas condições, restritas mas que descrevem uma situação muito comum, o peso dos valores pende claramente para um lado.

    Fora dessas condições torna-se difícil avaliar todos os factores relevantes. Por exemplo, ter uma infância difícil pode dotar a pessoa de uma maior capacidade para apreciar as coisas boas da vida. No total, se calhar essa vida até vale mais para si do que vale a vida de outro que sempre teve tudo a correr-lhe bem. Ou talvez não. Não faço ideia. Por isso não consigo responder a uma pergunta como essa que tu fazes. Mas isto não me parece ser um defeito do meu argumento. É apenas a compreensão de que avaliar a vida de alguém com esse detalhe é muito difícil.

    O que te posso dizer com confiança é que a vida de um ser humano saudável vale muito mais do que os factores que normalmente se invoca para justificar o aborto (já teve muitos filhos, foi sem querer, os pais estão desempregados, o namorado ameaça ir-se embora, etc). Também me parece que haverá casos extremos de doenças incuráveis que tornam a vida algo a evitar, com valor negativo. Mas se a vida de um pobre com pé chato vale menos do que a vida de um rico atlético já não te sei dizer.

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  22. "Mas se a vida de um pobre com pé chato vale menos do que a vida de um rico atlético já não te sei dizer."

    Jesus Cristo morreu para salvar um e outro do castigo eterno...

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    1. Morreu para nos salvar do castigo eterno que ele mesmo criou. Deus anda meio lerdo, esqueceu a onisciência e fica a por remendos, tentou com o afogamento coletivo, passou três dias morto, morreu e está vivo. Inerte agora nos poupa das habituais trapalhadas.

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  23. Mauro

    "Morreu para nos salvar do castigo eterno que ele mesmo criou."

    A natureza infinita justa de Deus significa que nenhum pecado pode ficar sem castigo, porque isso seria injusto...

    "Deus anda meio lerdo, esqueceu a onisciência e fica a por remendos, tentou com o afogamento coletivo, passou três dias morto, morreu e está vivo."

    Se o ser humano merecia um castigo eterno, a única maneira de perdoar o ser humano seria um Deus eterno sofrer esse castigo...

    Jesus, sendo temporalmente homem e eternamente Deus, seria o único capaz de suportar toda a justiça de Deus e sobreviver.

    "Inerte agora nos poupa das habituais trapalhadas."

    Uma vez ressuscitado, Jesus promete dar vida eterna a todos que aceitarem a sua salvação...

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  24. não há justificativa para aborto a não ser por estrupo ou gravidez de risco.
    o que ocorre e que vivemos em uma era de que quando canssamos de algo nos descartamos e muitas pessoas acha que pode fazer isso com crianças estamos projetando pessoas desumanas,frustadas com a vida pessoas inresponsaveis egoistas e cheias de si, pessoas que esquecem que são meras pessoas, temos que nós consientizarmos de nossos atos e sermos responsaveis por eles e aceitar as consequenciasl, seja bom ou ruim.

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