segunda-feira, março 18, 2019

Treta da semana: fissão é a solução.

Tenho visto muita gente a defender a fissão nuclear como a melhor opção para travar o aquecimento global. Teoricamente, parece que sim: não liberta CO2; produz electricidade de forma fiável e constante, ao contrário da energia solar ou eólica; precisa de menos terreno do que um parque eólico ou solar, ou uma barragem; a electricidade nuclear sai mais barata do que a das renováveis; e se tudo for feito como deve ser não vai haver acidentes como Chernobyl ou Fukushima porque esses erros já não serão repetidos.

Infelizmente, é ingénuo assumir que tudo vai sempre ser feito como deve ser. O colapso do BES, da ponte de Entre-os-Rios e da estrada de Borba são apenas alguns de muitos exemplos de tragédias teoricamente evitáveis que resultaram de problemas humanos que, na prática, são inevitáveis. Vai sempre haver erros, incompetência, ganância ou corrupção. Centrais nucleares não são imunes a estes problemas e quando temos em conta que tudo tem de correr bem não só durante as décadas de operação da central mas também durante os séculos de armazenamento do lixo radioactivo, temos de estimar como muito alta a probabilidade de haver asneiras.

Os defensores da fissão nuclear também subestimam a gravidade dos problemas. É difícil estimar o número de mortes devido ao desastre de Chernobyl (1) e o de Fukushima parece não ter causado mortes directas (2). Em contraste, trabalhar em telhados é perigoso (3) e a instalação de painéis solares vai levar a mais acidentes. Mas esta contabilidade é enganadora. Morre ainda mais gente em acidentes de automóvel mas é consensual que aceitamos esse risco pela liberdade de ir para onde queremos. Um acidente nuclear como Chernobyl ou Fukushima obriga centenas de milhares de pessoas a abandonar a sua casa, escola, bairro, comunidade ou negócio e refazer a vida num lugar diferente, com outras pessoas. O custo pessoal e social de um acidente nuclear é enorme e não pode ser descartado apontando acidentes de construção ou de viação.

Outro problema é o lixo radioactivo, que é das substancias mais perigosas que produzimos. Só na Europa, são quase três mil toneladas de metais radioactivos por ano (3). Comparado com outras formas de produção de energia é um volume pequeno de resíduos. Mas é material que terá de ficar isolado durante séculos. Qualquer problema no armazenamento, seja por corrupção, negligência, crise económica ou instabilidade política, pode ter consequências desastrosas. Isto é especialmente relevante se quisermos usar a fissão nuclear para travar o aquecimento global. A maior parte do CO2 emitido para a atmosfera já vem da Ásia (4) e é nos países em desenvolvimento mais populosos que temos de travar o seu aumento. O aquecimento global não se resolve com centrais nucleares na Alemanha ou na Dinamarca. Tem de ser em países como China, Índia, Indonésia, Brasil, Paquistão e Nigéria. É absurdo presumir que seria seguro investir na construção em massa de centrais nucleares nesses países.

Economicamente, também não é tão viável como parecem presumir. A energia nuclear exige um investimento inicial muito grande e só dá lucro ao fim de décadas. Com a queda constante dos custos de produção das renováveis, melhorias tecnológicas na produção e armazenamento de energia e potencial para alterações sociais – por exemplo, a automação levar as pessoas a sair das cidades, distribuindo o consumo e a produção de energia – é muito arriscado estar a investir milhares de milhões de dólares (5) sem uma garantia de retorno. E não é nada claro que seja um bom investimento, mesmo considerando apenas a redução das emissões de CO2. Em números redondos, o custo de construir uma central nuclear é o mesmo de reflorestar o necessário para compensar as emissões da mesma energia produzida durante dez anos pela combustão de biomassa (6). São estimativas por alto, porque o custo varia muito em detalhe, mas o custo de substituir centrais térmicas por centrais nucleares é semelhante ao de converter centrais térmicas para usar biomassa e reflorestar o suficiente para compensar as emissões. Para o aquecimento global o efeito é o mesmo e ficamos com florestas em vez de lixo radioactivo.

Um defeito que apontam ao uso de biomassa para produzir energia é que estamos a queimar a madeira agora e só mais tarde voltamos a sequestrar o CO2, porque a floresta demora anos a crescer. Mas esse problema é igual para a energia nuclear. Entre decidir ter energia nuclear e pôr a central a funcionar já as árvores estão todas grandes. E se bem que a florestação exija investimento público, a energia nuclear também. Nenhum privado vai investir esse dinheiro sem garantias de retorno e não é razoável esperar que sejam os privados a guardar o lixo radioactivo durante séculos.

Temos de abandonar a queima de combustíveis fósseis. Mas a fissão nuclear não é uma boa alternativa. A quantidade de reactores que seria preciso e os países onde os teríamos de construir é receita certa para desastres. O enorme investimento seria melhor aplicado na recuperação de solos e reflorestação, que mais que reduzir emissões retiraria carbono da atmosfera. E a fissão nuclear é um beco tecnológico, como o motor a vapor ou o VHS. O progresso na produção de energia de fontes renováveis, melhorias nas baterias ou alterações demográficas que favoreçam a produção distribuída, com menos gente concentrada nas grandes cidades, facilmente tornam a fissão nuclear economicamente inviável. Além disso, não é de excluir a possibilidade da fusão nuclear se tornar rentável no prazo de 30 ou 40 anos de um novo investimento em fissão nuclear. Somando a isto tudo, o lixo radioactivo produzido pela fissão nuclear seria um fardo – e um perigo – para muitas gerações além das que beneficiariam da electricidade produzida, uma atitude irresponsável que criticamos nas gerações passadas e que temos o dever de não perpetuar.

1- Wikipedia, Deaths due to the Chernobyl disaster
2- World Nuclear Association, Fukushima Daiichi Accident
3- EEA, EN13 Nuclear Waste Production EN13 Nuclear Waste Production
4- Global Carbon Atlas
5- Dois a nove mil milhões de dólares por unidade, segundo a USCSA, Nuclear Power Cost
6- A construção de uma central de fissão nuclear fica em cerca de $5000/kWe segundo a World Nuclear Assoiation, excluindo custos de financiamento. Uma tonelada de madeira produz um MWh e uma tonelada de CO2 custa $100 a sequestrar. Dez anos de produção de um kWe dá 87MW, o que custa cerca de $8700 a sequestrar em floresta.

28 comentários:

  1. Praticamente todos os artigos sobre energia, incluindo este, pecam por esquecerem uma verdade insofismável que é sabida de todos os que conhecem o sector: todas as fontes de energia serão usada até à exaustão. Todo o petróleo, todo o gás e todo o carvão que existem serão queimados e todo o uranio será usado, qualquer que seja a evolução das fontes renováveis. Estas vão continuar a suprir o aumento do consumo e não a substituir as outras. Ignorar isto, como o fazem, por correção política, os meios de comunicação, é fazer de avestruz.

    O “problema” do lixo radioativo tem sido muito exagerado e não corresponde a um perigo real. A energia nuclear existe há quase 50 anos e 11% da eletricidade mundial é fornecido por cerca de 440 centrais nucleares espalhadas por 30 países. O lixo radiativo produzido nunca foi um problema apesar de continuar à espera que alguém decida dar-lhe destino definitivo. Por outro lado o perigo de acidentes nucleares é real e, como escreve o Ludwig, aumentará certamente com a construção de centrais em países como China, Índia, Indonésia, Brasil, Paquistão e Nigéria.

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    1. A MINERAÇÃO PRODUZ TAMBÉM ENTULHO RADIO ACTIVO Entrada Visualizações de páginas
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  2. Comente sobre o livro "Darwin Devolves".

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  3. por exemplo, a automação levar as pessoas a sair das cidades, distribuindo o consumo e a produção de energia e reduzindo-o que era bom nem falar

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    1. nadar é a soluçãoEntrada Visualizações de páginas
      bibliotecariodobordel.blogspot.com

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      159Spring arrives in the Arctic
      April 3, 2019
      Arctic sea ice extent appears to have reached its maximum extent on March 13, marking the beginning of the sea ice melt season. Since the maximum, sea ice extent has been tracking at record low levels. In the Bering Sea, extent increased through the middle of March after setting record lows—only to drop sharply again.

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  4. Arctic sea ice extent for March averaged 14.55 million square kilometers (5.62 million square miles), tying with 2011 for the seventh lowest extent in the 40-year satellite record. This is 880,000 square kilometers (340,000 square miles) below the 1981 to 2010 average and 260,000 square kilometers (100,400 square miles) above the lowest March average, which occurred in 2017.

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  5. e isso dos 100 dólarespra seqwestrar co2 é treta

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    1. uma lixeira sequestra milhões de tones de co2 basta enterrá-la e só liberta uns metanozinhos

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    2. e custa umas dezenas de dólares por ton em redor de lisboa

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    3. representou centos de tones de resíduos radioactivos foi em 1979

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    4. e países como a nigéria não terão potencial económico para construir centrais para abastecer um cento de milhões de citadinos

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    5. e barragens armazenam recursos hídricos além de produzirem electricidade mini-hidricas nos córregos já antes qwe falte água

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    6. e vai fazer falta umas megatones de água para alimentar as sedes de lisboa e do sul sequioso e seco

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  6. e uma tonelada de madeira produz mais de três tones de CO2 É SÓ FAZER AS CONTAS

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    1. e a internet consome muito mais e só produz distoEntrada Visualizações de páginas
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  7. É estranho... Ou li muito a correr ou não vi uma única referência à tecnologia de «fissão nuclear por meio de sais derretidos», inventada pelo mesmo senhor Alvin Weinberg que inventou a tecnologia de «água pressurizada»... Para quem estiver interessado recomenda-se «buscar» na Rede coisas como «LFTR reactors», ou «MSR Molten Salt Reactors» ou ainda «SMRS - small modular reactor systems».

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    1. sódio radioactivo tem uma meia vida de fusão é a solução abaixo a fissão

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  8. treta do mês e seguinte, fusão nem falar

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  9. https://arstechnica.com/science/2019/04/which-students-talk-the-most-bs-researchers-say-canadians/

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  10. Oi, a notícia acima ,um estudo da treta, quero dizer, sobre a treta, talvez te divirta.

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