sexta-feira, setembro 22, 2017

Treta da semana (atrasada): diz que sou misógino.

O Facebook é um meio de comunicação peculiar. Nelson Zagalo mencionou que a sua filha o questionara acerca de haver tão poucas mulheres realizadoras. Vários comentadores apontaram o dedo ao sexismo e ao “patriarcado”. Este patriarcado está para as humanidades como o éter luminífero esteve para a física; um fluido invisível, sem massa nem viscosidade, mas milhões de vezes mais rígido do que o aço. O patriarcado também tem de ser tão poderoso que impede as raparigas de ir para informática, barra o acesso das mulheres a cargos eleitos e não as deixa fundar empresas mas, ao mesmo tempo, não se consegue vislumbrar como é que obriga as mulheres a fazer o contrário do que querem. O sexo que dantes marchou contra os cassetetes da polícia para ganhar o direito ao voto agora é subjugado pelo poder misterioso dos brinquedos cor-de-rosa e dos micromachismos.

Eu propus uma explicação alternativa. Há países onde a lei discrimina as mulheres e, nesses, o sexismo é obviamente o factor dominante. Mas nos países que garantem igualdade de direitos, a vontade individual tem mais poder do que essas pressões. O sexismo não desapareceu mas também não consegue impedir uma rapariga de ser engenheira ou um rapaz de ser enfermeiro se for isso que querem ser. As pessoas não são tão frágeis quanto a tese do patriarcado exige. A explicação mais plausível é a de que há diferenças médias nas preferências de homens e mulheres. Em particular, em quanto querem sacrificar para serem melhores que os outros.

Vamos imaginar que só existiam homens e, por só haver um sexo, não havia sexismo nem patriarcado. Mas metade dos homens engravidava, dava à luz, amamentava, só podia ter filhos em segurança até aos 40 anos de idade e, da puberdade aos 50 anos, tinha hemorragias e dores dois ou três dias por mês todos os meses. É óbvio que estes homens, mesmo sem sexismo, teriam de fazer um sacrifício maior para competir com os outros. É o que acontece às mulheres. Não é um impedimento. Não é impossível uma mulher superar os homens e há mulheres que o fazem, como Angela Merkel demonstra. Mas sai-lhes mais caro. Aos 63 anos, se Merkel fosse homem ainda podia ter filhos. Ou, não tendo de engravidar nem amamentar, até podia tê-los tido mais cedo. Mas, sendo mulher, seria muito difícil chegar onde chegou se tivesse tido filhos e agora já não os pode ter. Diferenças como estas afectam, em média, as escolhas das pessoas.

Além de ter custos menores, investir no sucesso profissional tem benefícios maiores para homens do que para mulheres. Woody Allen é um bom exemplo disso. Casou três vezes, a terceira com uma mulher com metade da sua idade, e teve relações com Diane Keaton e Mia Farrow. Eu não sei como ele é na cama, mas suspeito que, sem o sucesso profissional que teve, o seu sucesso com as senhoras seria também menor. Donald Trump, Richard Branson e Mick Jagger são outros exemplos de como o sucesso traz mais benefícios aos homens do que traz às mulheres.

Assim, a melhor explicação para haver mais homens que mulheres no topo de muitas carreiras é que a fossanguice para ser o melhor custa menos aos homens e dá-lhes mais proveito do que dá às mulheres. É uma explicação melhor do que a do tal “patriarcado”, não só porque se percebe de onde vem – não exige postular factores ad hoc para explicar cada caso – como também explica porque é que muitas desigualdades sexuais se agravam quanto mais liberdade, legal e económica, as pessoas têm para viver as suas vidas como preferem.

Mas este post é mais sobre o Facebook. Enquanto estava a ter esta discussão com Mário Moura no post de Nelson Zagalo (1), Moura deturpava a minha posição no seu perfil, escrevendo que eu defendia que «o facto de uma mulher ter dores menstruais a incapacita para realizar filmes» e que «A UP está cheia de grunhos mas desta vez» o grunho é da NOVA (2). É perfeitamente legítimo mas, graças à magia do Facebook, toda a gente pode ver esses comentários mas eu não posso comentar lá. Como Moura também não dá a ligação para o que eu escrevi, é fácil mostrar o espantalho que lhe aprouver sem enfrentar contraditório. Não é por isso de estranhar que passasse a ideia de que eu sou misógino (3). O que é falso e até irónico.

Apesar de perceber a correlação entre a fossanguice masculina e o sucesso reprodutivo, e como isso fez evoluir estas disposições típicas dos homens, parece-me que as mulheres é que têm razão. Allen, Branson, Jagger e Trump podem ter muito sucesso mas uma vida bem vivida não se mede por isso. Exige um equilíbrio razoável entre carreira, família e vida pessoal. Foi um revés infeliz do feminismo moderno ter adoptado uma métrica machista para avaliar a vida das pessoas. Moura, por exemplo, escreveu que numa sociedade igualitária as mulheres não se vão «dedicar a ser sopeiras ou qualquer actividade adequadamente feminina»(1). É como se fosse degradante investir menos na carreira para ter uma vida familiar melhor. Eu acho que é precisamente o contrário. Seria um disparate abdicar de brincar com os meus filhos e de os ajudar com os trabalhos de casa, ou abandonar interesses pessoais como a agricultura e discussões sobre religião, só para ser chefe ou para ser o melhor investigador do departamento. A ânsia de ultrapassar os outros é um impulso tipicamente masculino, e que suspeito estar relacionado com a maior taxa de suicídios neste sexo, mas não é receita para uma vida boa. Nisto, ao contrário de ser misógino, até sou mais mulher que homem. E tenho alguma pena daqueles, principalmente homens, que não conseguem perceber isto.

PS: tenho de me lembrar de discutir menos no Facebook e, em vez disso, trazer a discussão para aqui onde o direito ao contraditório incentiva mais honestidade.

1- Nelson Zagalo, (Facebook)
2- Mário Moura, (Facebook)
3- Mário Moura, mais comentários aqui, e aqui, por exemplo.

8 comentários:

  1. Daqui a nada estás a dizer que a maneira como a sociedade avalia os indivíduos é errada. Espera, acho que já disseste. Pois, agora para resolver esse problema vai lá convencer a maltá que o valor humano não se mede em euros.

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  2. «agora para resolver esse problema vai lá convencer a maltá que o valor humano não se mede em euros.»

    Isso muita gente já sabe. Por exemplo, muitas empresas têm de dar mais importância às condições de trabalho do que ao salário que pagam porque o pessoal não quer trabalhar só pelo dinheiro. Se não gosta do que faz vai para outro lado.

    Quando anda tudo na miséria é claro que o dinheiro é o mais importante. Mas a partir de um certo nível de conforto e estabilidade, especialmente se há segurança social, sistema gratuito de saúde, educação e assim, as pessoas começam a dar mais valor a outras coisas.

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  3. Vou ficar pelo último parágrafo, para concordar e dizer que, felizmente, não é preciso currículo para que muitos homens e mulheres, crianças e jovens, tenham a sorte de perceber que a vida pode ser mais e melhor do que competir, trabalhar, ganhar dinheiro, ter mais roupa e mais carros e mais cães, que o ótimo é (pode ser) inimigo do bom, que o preço de escrever um poema pode ser muito elevado, quando se tem exames para fazer, assim como o de ir a um concerto, mas pode ser mais compensador do que estar a contar notas na caixa-forte do banco, ou a fazer contas atrás das grades de uma prisão, etc...
    E também são muitas as mulheres que, depois de conhecerem a "dureza" do trabalho subordinado, descobriram a necessidade de mais tempo para a sua vida pessoal e familiar, trocando tempo, saúde e bem-estar por dinheiro que abdicam de ganhar, sem terem o sentimento de que assim produzem menos, bem pelo contrário.
    O problema, para muitas pessoas, é não poderem fazer essa troca, porque não ganham ou não têm o bastante.

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  4. Jordan Peterson - Equality Amplifies Gender Differences
    https://www.youtube.com/watch?v=JUxY_5-N81Q

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  5. «O problema, para muitas pessoas, é não poderem fazer essa troca, porque não ganham ou não têm o bastante.»

    Exacto, Carlos. Em sociedades como a nossa esse é mesmo O Problema. A desigualdade mais injusta não vem da percentagem de mulheres na direcção de empresas ou dos livros da Porto Editora. A desigualdade mais injusta, e aquela que devíamos combater com mais afinco, é essa que força pessoas a vender quase toda a vida por um preço miserável só para poderem viver.

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  6. Ludwig,

    É-me de todo impossível ler o teu texto, ver a referência a «The Donald» e não me lembrar de uma nova palavra do dicionário urbano. Aqui fica o link: http://www.urbandictionary.com/define.php?term=Trumpalingus

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  7. Caro Ludwig Krippahl, três questões:

    (1) Parece-me que existe uma percepção de alguns cursos superiores ou profissões como sendo mais "masculinos" ou "femininos". Não estou a falar de estatísticas, porque essas percepções raramente se baseiam nelas, mas apenas na ideia vaga que algumas pessoas têm de que engenharia é "para homens" e que enfermagem é "para mulheres", pegando nos exemplos que deu. Independentemente de acharmos se estas percepções exercem pressão apreciável nas escolhas profissionais de homens e mulheres, não acha que seria desejável que não existissem?

    (2) Não acha que há um desequilíbrio na forma como são percepcionados os papéis do homem e da mulher quando um casal (heterossexual) decide ter um filho? Parece-me que é atribuída mais responsabilidade à mulher ou que é pelo menos esperado que o nascimento de uma criança provoque mais alterações na vida da mãe que na vida do pai. É claro que a gravidez é um processo pelo qual é a mulher a passar, mas esta não se encontra usualmente incapacitada durante a maior parte da gestação. Não acha que se houvesse uma distribuição mais equitativa de papéis isso ajudaria a diminuir esse "handicap" que identifica nas mulheres?

    (3) "A ânsia de ultrapassar os outros é um impulso tipicamente masculino, e que suspeito estar relacionado com a maior taxa de suicídios neste sexo, mas não é receita para uma vida boa." Tirando a evidência anedótica que apresenta e as suas suspeitas, tem referências para isto?

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