sábado, fevereiro 02, 2019

Treta da semana: sermão ao ateu fundamentalista.

No blog do Público, Henrique Pinto Mesquita escreveu um sermão dedicado ao ateu fundamentalista. Como esse fundamentalismo me é imputado com frequência tenho desculpa para responder. Mas, antes, queria explicar porque é que a imputação é incorrecta. É natural que quem acredita ter uma relação pessoal com o criador do universo a veja como fundamental na sua vida. Mas eu não me preocupo com o que Bastet pensa da minha alergia aos gatos, o que Alá opina sobre o que como durante o Ramadão ou se Jeová se zanga quando trabalho ao Sábado. O meu ateísmo não é fundamento para nada. É apenas um efeito de eu valorizar a imparcialidade quando considero hipóteses e viver num universo que mostra claramente não existirem deuses. Não houvesse tanta gente a insistir que isto só vale para os deuses dos outros e eu nem seria chamado de ateu. O tema só dá para tanta conversa porque muitos julgam que preferir a Marvel à DC faz o Homem-Aranha tornar-se real.

Mesquita aduz aos ateus uma acusação vaga que se pode concretizar em três mais específicas: pensam que o crente «peca no intelecto»; que «Não pensa pela própria cabeça»; e que os crentes são «menos inteligentes»(1). Naturalmente, não me parece que os crentes sejam todos igualmente inteligentes. E, como de Mesquita conheço apenas este texto, vou abster-me de julgar a sua inteligência. Poderia sair desfavorecida. Mas não acho que ser crente implique ser menos inteligente. Por exemplo, tive o prazer – e guardo saudades – de conversar sobre isto com Alfredo Dinis, que era sacerdote católico e que sempre revelou ser uma pessoa inteligente. Também não considero que seja pecado tentar acreditar (com mais ou menos sucesso) na existência de algum deus. É um erro epistémico mas cada um é livre de usar os seus neurónios como entender. Eu não condeno a fé como intrinsecamente imoral. Ao contrário dos crentes, não considero que opinião seja delito.

Da acusação do meio é que me admito culpado. Realmente, parece-me que esforçar-se por acreditar num deus exige delegar o raciocínio a terceiros. Até Dinis o admitiu, confessando que a sua religião seria outra se tivesse outra cultura, sendo católico apenas por ter nascido onde nasceu. Mesquita parece admitir o mesmo, narrando ser «Oriundo de uma família católica e educado num colégio como tal», tendo voltado, após um cepticismo passageiro, a essa fé que descreve como «um sentimento, uma crença pessoal. Que em nada se pode confundir com a razão». Precisamente. Pela razão nunca chegaria lá.

Pensando por si, qualquer pessoa informada pode concluir que Odin não é um deus verdadeiro. Não precisa de ter fé na opinião de terceiros, nem em dogmas revelados, para perceber que aquilo que sabemos sobre Odin se explica melhor assumindo que é uma invenção humana e não um ser real. Passa-se o mesmo com o electrão, se bem que a conclusão seja a oposta. O que sabemos de coisas como electricidade, tempestades e reacções químicas encaixa perfeitamente quando assumimos que os electrões existem mas fragmenta-se num monte de mistérios desconexos sem essa premissa. Isto também se compreende usando a razão.

A fé, como a de Mesquita, não o permite. A fé não é conclusão de um raciocínio. É o ponto de partida, um dever ou desejo de acreditar em algo previamente determinado. E aquilo em que o crente acredita por fé vem de alguém que lhe diz que é assim. Mesquita assume-se «como um homem de fé» por opção sua mas é católico porque calhou. Noutro lado do mundo seria de outra religião qualquer porque a crença a que a fé o obriga é importada de quem estiver à sua volta, sem compreender como se pode concluir que aquilo é verdade.

Mais, esta falta de compreensão não é mera lacuna. É deliberada. Se o “homem de fé” usa a razão depara-se inevitavelmente com problemas como a arbitrariedade das crenças que quer adoptar e a inconsistência entre aquilo que quer acreditar e aquilo que observa. Por exemplo, um deus infinitamente bom e crianças a morrer de cancro. A solução é abster-se de pensar «pela própria cabeça» e dizer que são mistérios da fé. Como reconhece Mesquita, é algo que «em nada se pode confundir com a razão». Se é para acreditar nisso é melhor nem pensar no assunto. Isto é o contrário do que acontece com o ateu. Como o ateu pensa por si e pensa acerca da realidade, que é comum a todos, chega à mesma conclusão quer seja de família judaica, católica, muçulmana ou qualquer outra. Se tiver azar e nascer num sítio onde o ateísmo é reprimido pode ter de disfarçar. Mas, fora isso, ateu é ateu, venha de onde tiver vindo.

O ateísmo tem isto em comum com a ciência porque o ateísmo, tal como a ciência, não vem da vontade de crer em algo decidido a priori. Vem da vontade de seguir as evidências para perceber a realidade como ela é. Se apagássemos da memória colectiva todo o conhecimento da química, da física, ou da biologia, eventualmente seria possível recuperá-lo. Era só juntar novamente as peças do puzzle. O mesmo com o ateísmo. Todas as razões e raciocínios do ateísmo podem ser recuperados seguindo novamente o caminho que leva à conclusão de que os deuses são treta. Mas nenhuma religião é assim. Se apagássemos o cristianismo da memória humana a teologia cristã, com as suas idiossincrasias infundadas, desapareceria para sempre. Não seria possível reinventar as mesmas histórias, os mesmos dogmas da assunção, da trindade, da conceição imaculada e milagres. Haveria outras histórias para as substituir. Nisso a imaginação humana é prolífica. Mas nunca seriam as mesmas porque é tudo inventado, com muito pouco raciocínio e sem qualquer suporte em evidências.

1- Henrique Pinto Mesquita, O ateu fundamentalista

15 comentários:

  1. Sempre apreciei as intervenções do sacerdote Alfredo Dinis, que também respeito. Sem embargo, ocorre-me que esse saudoso amigo tem aqui uma oportunidade de ouro para desmentir os demoníacos ateus: só tem de se pronunciar.

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  2. Era bom se ele pudesse continuar a conversa. Por muitas razões...

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  3. Isto é um grave deslize: «Como o ateu pensa por si e pensa acerca da realidade».
    Um ateu pode muito bem sê-lo porque pensar incomoda como andar à chuva, porque é um imitador do Bakunine, porque se zangou com a avozinha, etc. Devias corrigir isso. :)

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  4. Júlio,

    Em teoria pode. Mas neste contexto:

    «Como o ateu pensa por si e pensa acerca da realidade, que é comum a todos, chega à mesma conclusão quer seja de família judaica, católica, muçulmana ou qualquer outra.»

    é mais provável que pelo menos algum pensamento independente tenha tido influência na decisão de rejeitar os ensinamentos religiosos da sua família, vizinhança e cultura.

    Nota que nem é preciso muito pensamento. Se alguém te disser que conhece um ser invisível que fez Marte com uma magia, tu não precisas de pensar demoradamente sobre o assunto para concluir que isso não deve ser verdade. Achar que, nessas circunstâncias, estás a rejeitar a hipótese só para fazer pirraça ou por pura irracionalidade parece-me que é optar pela hipótese menos plausível.

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  5. Ludwig,

    a militância dos ateus é tão ostensiva e hostil como anti pedagógica e tem pouco ou nada de científico.
    De resto, enquanto os religiosos e os crentes têm narrativas e tábuas de valores, preceitos e doutrinas que enformam as sociedades e as instituições sociais, desde sempre, com um acervo de cultura reconhecidamente edificante da pessoa e do mundo, os ateus só têm para oferecer "a contestação", baseada na falta de fundamentos fácticos das crenças. Ora, é sabido que os crentes não têm nem defendem uma ciência de Deus. E se as religiões começaram por ser pseudociências de Deus, atualmente nem precisam de Deus para serem religiões, bastando-lhes serem ideologias cujo sistema de valores e doutrinas rivalizam diretamente com qualquer estrutura político-partidária. Hoje, as religiões já não são o que eram. A própria pressão científica obrigou à distinção entre crença em Deus e conhecimento de Deus. Crença todos podem ter, mas conhecimento nem por isso. O problema é quando o crente toma a sua crença como padrão de racionalidade para tudo o mais. Identicamente, o problema do ateu é adotar uma posição irredutível, sem saída para lado nenhum, puramente negacionista, quando a racionalidade aspira a muito mais e exige, largamente, muito mais.
    Não me considero ateu nessa acepção. Acredito num Deus desconhecido, por mais contraditório e paradoxal que isto possa ser. Deus é um mistério paradoxal.
    Os ateus não têm como evitá-lo e são eles próprios "um efeito, ou corolário" desse mistério.

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    1. Faz falta um blog em português "como educar os seus filhos para o ateísmo" como já existem em língua inglesa.

      O problema é que os ateus que aparecem na internet é sempre a falar de política e de filosofia e nunca de temas práticos como esse. Acabamos por cair no... "só a religião é fonte de moralidade".

      (Já há por aí pais ateus a educar os seus filhos sem os mandar à catequese. Shht.)

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  6. e ele a dar-lhe com o mistério ! Arre !

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    1. Mistério muito misterioso, como escreveu, não eu, que me limitei ao mistério, mas F.Pessoa.

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  7. Carlos Soares,

    Penso que te está a escapar uma coisa importante. Eu não sou ateu no mesmo sentido que outros são cristãos, budistas ou muçulmanos. Eu sou chamado de ateu por quem acredita que tem um deus tal como posso ser chamado de muggle por alguém que acredita que é um feiticeiro do Harry Potter. Não é algo que seja fundamental na minha vida e a única razão pela qual perco tempo com isto é porque, tal como seria no caso do crente no Harry Potter, acho estranho que acreditem nessas coisas.

    Por isso é que o ateísmo não serve para eu derivar a ética nem a ciência nem nada disso. Pelo contrário. O ateísmo é uma consequência óbvia, e hoje em dia trivial, do conhecimento que temos da realidade e da fantasia humana.

    O que não quer dizer que eu não tenha valores éticos e outras “tábuas de valores”. Tenho, considero-os fundamentados e bem melhores do que o que tenho visto dos cristãos. Mas isso não é consequência do ateísmo. Aliás, os valores, no fundo, nem têm nada que ver com deuses. Porque mesmo que um deus existisse, só poderíamos saber se era um deus bom ou mau tendo primeiro esses valores com os quais o julgar. E um deus que permita o que acontece por aí podendo evitá-lo não tem valores decentes.

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  8. Ludwig,
    Mas não és tu que dizes ser ateu? É só por isso que eu suponho que negas a existência de Deus, o que quer que isso signifique. Tu acreditas em coisas estranhas e inexplicáveis como o Big bang. Aquilo que explodiu. Que é que explodiu? Porquê? Eu nem acredito nem deixo de acreditar, até ter explicação. Eu acredito que tudo tem explicação e espero, não terá de ser, que se chegue lá. Quanto ao Harry Potter, espera sentado e sê feliz.
    Já agora, fiquei curioso, até porque não vejo que tenhas espírito de missão quanto aos valores, quais são os "teus" valores, fundamentados e bem melhores do que o que tens visto dos cristãos.

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    1. Carlos Soares,

      o termo "Big Bang" foi inventado por um ateu, Fred Hoyle, numa crítica durante uma entrevista da BBC contra a hipótese elaborada pelo católico Lemâitre.

      Não se trata de uma explosão. Refere-se à expansão do Universo que ainda é observada. Mesmo se fosse uma explosão, é completamente irrelevante saber as razões para ter ocorrido. Há tanta coisa que se sabe sem conhecer as razões ou apenas se conheceu as razões posteriormente. Uma criança sabe que o céu é azul (pelo menos em certas condições) e que objectos caem, sem conhecerem as razões. No entanto a Teoria do Big Bang é explicável com base em observações, testes e modelos matemáticos:
      - https://brasilescola.uol.com.br/geografia/big-bang.htm
      - https://www.space.com/25126-big-bang-theory.html

      Para algumas pessoas a ideia de uma Terra aproximadamente esférica é tão estranha que preferem acreditar numa Terra Plana, mas invocar a estranheza como argumento é apenas uma falácia de incredulidade. Por outro lado, outros acham que os estranhos são os que defendem que a Terra é Plana.

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  9. Pedro Couto,

    não me parece irrelevante chamar explosão ou expansão nem, tão pouco, perguntar "de quê?"
    Não vou ser redundante, o abc das teorias do Big Bang pode ser consultado em muitos suportes.
    Agora, o que me parece relevante, e não há muito como dissociar uma coisa da outra, é saber as razões da ocorrência. Como poderemos falar de algo que desconhecemos?
    Ora é isso, justamente, que tu fazes e a maioria dos crentes na terra plana faz e uma criança faz, sem estranheza.
    Estranhas que eu me limite a evidenciar uma trivialidade?
    O argumento não é a estranheza mas sim o desconhecimento e não a incredulidade.
    Afinal, onde está a falácia de incredulidade?

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    1. Carlos Soares,

      como tipificou de forma pejorativa uma teoria científica de "estranha" e "inexplicável" aceite por um opositor, como argumento, é absurdo considerar irrelevante imprecisões grosseiras sobre a mesma teoria. Assim coloca-se em questão as qualificações atribuídas à mesma por si.

      É também absurdo dizer que a veracidade, ou conhecimento, sobre algo depende do conhecimento das suas origens.

      Se isso fosse verdade, então nunca haveria legitimidade para se dizer que se conhece seja o que for, mesmo assumindo a existência de um Deus, pois podemos sempre perguntar "porquê?", como um pirrista. Por exemplo, se o que diz for verdades e o Carlos não souber como um instrumento funciona e foi inventado, então não saberia que o instrumento existe. Ou então não podemos assumir que os nossos pais existem se não conhecermos os nossos avós. Mas não podemos conhecer os avós se não conhecermos os bisavós, etc.

      Não acho o que disseste uma trivialidade. Considero um absurdo.
      Repara que perguntaste-me se estranho algo, mas assume-se que não achas estranho, senão não acharias uma "trivialidade". Quando dizes que alguém acredita em "coisas estranhas", deve ser estranho para ti, não para quem acredita. E se algo é inexplicável, não é compatível com "tudo tem explicação".

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  10. Pedro Couto,

    não percebi nada, mas não precisas de explicar mais.

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    1. Carlos Soares,

      deve ser como o Big Bang e outros assuntos.
      Não sabe nem quer saber.
      Ou então percebeste, mas não queres responder.

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