quarta-feira, agosto 16, 2017

Treta da semana (atrasada): politicamente correcto.

Há uns anos, muitos muçulmanos manifestaram-se contra as caricaturas de Maomé. Apregoavam o castigo divino, e exigiam o castigo terreno, dos hereges que fizeram esses bonecos. Há uns anos um grupo de terroristas muçulmanos assassinou desenhadores por causa dos tais bonecos. O politicamente correcto condena o terrorismo islâmico mas não condena o discurso de ódio dos muçulmanos. E acho bem. Não é justo punir alguém por sentir o que sente ou por dizer que o sente. Condenar o terrorismo não implica condenar pessoas pelos seus sentimentos ou discurso.

Mas a liberdade de expressão não isenta ninguém de críticas e odiar quem faz caricaturas não é mais legítimo do que odiar quem odeia caricaturas. A liberdade de sentir e falar deve ser igual para todos e inclui a liberdade de criticar as crenças hediondas do Islão e até de odiar essas crenças e quem as adopta. Mas isto o politicamente correcto proíbe, apesar da “islamofobia” ser o mesmo que as crenças e ódios dos muçulmanos. É inconsistente, arbitrário e hipócrita defender umas liberdades condenando outras equivalentes; proteger sensibilidades de uns desprezando as de outros; e condenar uns ódios, permitir outros e até promover alguns com orgulho, como o ódio aos fascistas. O critério do politicamente correcto não deve nada à justiça nem à decência: se lhes afaga os gostos é permitido; se lhes corre contra o pêlo tem de ser proibido.

A preocupação principal do politicamente correcto também é absurda. A reacção à violência em Charlottesville é um bom exemplo. Manifestantes armados de extrema direita intimidaram as pessoas. Houve violência, terrorismo e mortes. Mas, para Isabel Moreira, o problema é terem permitido uma manifestação nazi por «uma "liberdade de expressão" nova, a que ganhando nos mata»(1). Parecem julgar que as ditaduras fascistas, nazis e comunistas do século XX surgiram por um excesso de liberdade de expressão. Obcecado com o discurso, o politicamente correcto é cego à causa principal do autoritarismo. A economia. Para perder a democracia basta repartir a riqueza de forma injusta e tirar aos que estão pior qualquer possibilidade de justiça sem rebentar tudo. Foi isto que deu vitória ao Trump e ao Brexit e faz crescer os nacionalismos que ameaçam a União Europeia. Mas o politicamente correcto não quer saber de políticas fiscais, da gestão financeira ou do desemprego causado pela automatização. O que importa ao politicamente correcto é calar quem diz coisas feias.

Além disso, o politicamente correcto é racista, sexista e xenófobo. Não segue linhas tradicionais, mas o fundamental está lá. Quem não é politicamente correcto tem de ser silenciado. Veja-se o caso recente na Google. Não é a xenofobia corriqueira da nacionalidade ou da cor de pele mas é a mesma ideia de que “os outros” têm menos direitos que “nós” porque são diferentes. Não têm sequer o direito de falar. E o politicamente correcto está sempre contra o homem branco pelo seu sexo e pela sua cor, quaisquer que sejam as circunstâncias. Fernanda Câncio escreveu que «o que torna o acontecimento de Charlottesville tão aterrador não é o acontecimento em si. É o contexto. E o contexto é o de um discurso, cada vez mais insistente - incluindo em Portugal -, que garante que o "politicamente correto" e a luta pelos direitos das minorias constituem um ataque à liberdade e aos direitos "da maioria branca".»(2) O problema não é respeitar os direitos das minorias. O problema é a desigualdade de direitos. Um negro pode dizer nigga; um branco não. Ao branco é proibido “apropriar-se” da cultura dos outros mas qualquer um pode usar fato e gravata. Uma mulher pode dizer que não gosta de homens baixos mas se um homem diz que não gosta de mulheres gordas é culpado de “body shaming”. E assim por diante, tudo com a desculpa de que o homem branco é sempre privilegiado e por isso merece menos direitos que os outros.

Eu sou homem, sou branco e, admito, sou privilegiado. Se tivesse nascido cigano ou descendesse de africanos provavelmente não estaria onde estou. Mas a razão principal é económica. A minha família sustentou-me enquanto eu estudava, um privilégio que muitos não têm. Muitos ciganos, muitos imigrantes, mas muitos brancos também. Há muitos pastores, jornaleiros, desempregados e sem abrigo a quem ser homem branco não deu qualquer privilégio que se compare ao privilégio económico dos defensores do politicamente correcto. Não é mandando calar essa gente pelo seu alegado privilégio que os vamos convencer a receber refugiados, a promover a igualdade e a respeitar os direitos das minorias. O politicamente correcto quer apagar o populismo inflamatório da extrema direita com mangueiradas de gasolina.

Temos de combater o racismo, o sexismo, o nacionalismo e a xenofobia. Temos de acabar com a discriminação injusta que rouba liberdades a muita gente. Temos também de lutar contra as superstições absurdas e malévolas que muitas religiões propagam. Mas esta luta tem de admitir sempre o diálogo. Não pode admitir a violência, incluindo a violência contra nazis ou fascistas, que o politicamente correcto aplaude. O terrorismo islâmico é culpa dos terroristas muçulmanos e não dos muçulmanos todos, tal como o terrorismo na Irlanda era culpa dos terroristas católicos e não dos católicos todos. Da mesma forma, o terrorismo dos racistas e nacionalistas é culpa dos terroristas e não dos racistas e nacionalistas todos. Uma opinião não se transforma em terrorismo só porque nos mete nojo. O diálogo tem de estar aberto a todos. Todos devem poder criticar, satirizar, ridicularizar e até ofender e todos temos de saber lidar com opiniões que nos desagradam (3). O politicamente correcto é o contrário disto. O politicamente correcto quer ser ditador do discurso, proibindo e autorizando opiniões em função de caprichos infantis e excluindo muita gente do diálogo. Mas a única alternativa ao diálogo é a violência. Se não aprendermos a conversar como adultos isto vai dar para o torto e o maior obstáculo a essa maturidade é a birra constante do politicamente correcto.

1- (Facebook) 13 de Agosto, 3:12
2- DN, A casa dos nazis
3- Um bom exemplo aqui: German town tricks neo-Nazis into raising thousands of euros for anti-extremist charity

8 comentários:

  1. O Ludwig, mesmo quando diz umas coisas mais acertadas do que outras, nunca deixa de tomar posição, ou, por outra, com mais ou menos fundamento, ou razão, emite juízos.
    Um juízo de valor, um juízo de ciência, uma opinião, um juízo jurisdicional, nem sempre requerem grandes considerações prévias, fundamentação ou prova. Adopta-se um princípio, uma norma, um critério, uma regra, um padrão, um estereótipo, uma bitola...subsume-se logicamente (lógica subsuntiva) e deduz-se...
    A convivência seria penosa ou impossível se, em cada situação corrente da vida, nos forçassem ou nos forçássemos a explicitar (e repetir), de cada vez, os passos que levaram a que emitíssemos juízos e nos sujeitassem a corrigi-los, após intermináveis argumentações.
    E qual seria o interesse disso? Quem se ocuparia com isso?
    Mas há situações em que vale a pena analisar metodicamente cada um dos termos da operação, até para constatarmos que, muitas vezes, o que vem à frente (o juízo, a conclusão) é o que devia chegar atrás.
    A vida e a pressa e a economia dos meios empurra-nos para a situação frequente de palpitarmos primeiro e, depois, se for necessário, irmos à procura de fundamentos, ou razões. Apostamos muito na intuição, sobretudo nos assuntos mais corriqueiros do dia-a-dia.
    Depois há as situações que nos merecem especial estudo e reflexão.
    No fundo, cada um de nós, decide ou perfila-se ou perfilam-no perante o que “quer” saber e o que “não quer”..., por razões muito variadas, que são uma espécie de apostas num cavalo.
    De qualquer modo, o indivíduo depara com um problema que não poderá resolver por si só, que é o outro, a existência da sociedade.
    O que quer que ele pense ou sinta, se entrar em conflito com o outro, com a sociedade, é um problema que vai ter de ser resolvido em sociedade, ou não será resolvido e pode ser também um problema para a sociedade.
    Se pensarmos nos grupos de que a sociedade é composta, quando digo grupos não estou a referir-me a meros conjuntos de indivíduos, mas a populações agregadas por algo comum que partilham e têm interesse em defender, as coisas mudam um pouco de figura, porque a tendência para disputar o domínio avoluma-se muito e tem algum acolhimento na retórica social, nomeadamente democrática.
    A clássica definição de democracia, tão badalada pelos partidos ditos democráticos, que não abdica da etimologia grega, como poder do povo, é algo cujo vazio de sentido não tem sido devidamente tratado. Na realidade, é o poder do número e este poder, em teoria, pode-se perpetuar. Com respeito das minorias, sim, que têm por sua defesa uma constituição democrática, mas não o poder de governar.

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  2. «O politicamente correcto quer ser ditador do discurso, proibindo e autorizando opiniões em função de caprichos infantis e excluindo muita gente do diálogo.»

    Quem proíbe ou autoriza não é quem quer.
    O significado corrente de “politicamente correto” envolve a depreciação do discurso político e a má reputação da política, mas não me parece alargado ao “politicamente legitimado”, pelas vias institucionais, mormente legislativas.
    Ora, proibir ou autorizar é apanágio do ordenamento jurídico e não de um qualquer discurso enformado por cânones ou retóricas, políticas, religiosas, clubistas…

    «O diálogo tem de estar aberto a todos. Todos devem poder criticar, satirizar, ridicularizar e até ofender e todos temos de saber lidar com opiniões que nos desagradam»

    O Ludwig parece estar a defender e a justificar que se satirize, ridicularize e ofenda os antirracistas… O poder satirizar, ridicularizar e até ofender, não é dialogar, é o oposto. E é violência, que legitima defesa; não são opiniões.
    O diálogo das instâncias políticas tem de estar aberto a todos, o das entidades particulares não. Não és obrigado a dialogar, mas as instâncias políticas estaduais são, pelo menos, nos limites constitucionais do Estado de Direito.
    Concordo que há coisas que não merecem tutela e que, pelo contrário, são passíveis de penas pesadas, mas devem poder ser defendidas, como por exemplo, alguém defender o direito de matar, de incendiar... O que tem de ser proibido, de qualquer modo, não é a opinião ou a argumentação, mas a prática de determinados atos. Aliás, os códigos penais podem sempre ser discutidos e os seus valores jurídicos subjacentes.
    Em suma, defender na rua um preconceito, ou uma posição de força, ou uma pretensão, apesar de não ser um processo racional e argumentativo, próprio do diálogo, até se admite politicamente, se for em busca do tal diálogo das instâncias estaduais e não for um exercício de violência contra alguém, que poderá, obviamente, responder à altura.

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  3. Ludwig,

    O teu texto, se bem o entendi, estar repleto do que me parece ser um palavreado cínico, para que dessa forma tentes expôr a dualidade que muitas pessoas parecem seguir ao defender e aplicar o "politicamente correto". Se estiver errado, avisa!

    Entretanto, dizes outra coisa: «O que importa ao politicamente correcto é calar quem diz coisas feias.»

    Esta é uma definição bastante simplificada, e com a qual não posso concordar, e pelo que já antes escrevi, não tenho a certeza que seja a tua definição. Sou capaz de concordar que há muitos que consideram essa definição como correta. Há muitas outras definições, por exemplo, no Quora há uma questão relativa ao caso, e que junta 76 respostas!

    Creio que a que me parece mais indicada é a que diz, que politicamente correto, "é expressar uma opinião/ideia tendo o cuidado de respeitar as outras pessoas e respetivas opiniões". Como sempre, é mais fácil ver o cisco no olho do outro, do que a trave na frente dos nossos olhos...

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  4. Já agora, e uma vez que "politicamente correto" é tudo sobre opinião, fica mais um link para outra questão também no quora, para quem estiver interessado em saber as opiniões dos outros :)

    https://www.quora.com/How-is-political-correctness-a-bad-thing

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  5. O argumento de quem defende a repressão de correntes como o nazismo, o nacionalismo autoritário, etc, é que não pode haver liberdade para atacar os pilares do sistema que garante essa liberdade. Ou seja, a ideia é que e os nazis e grupos semelhantes tiverem rédea solta, acabam por destruir o sistema democrático e acabam-se as liberdades para todos, inclusive para os que defendiam o direito dos nazis à liberdade de expressão, de manifestação, etc. A acreditar no FB, até terá sido o Popper o primeiro a falar no paradoxo que é a defesa das liberdades de todos obrigar à supressão dessas mesmas liberdades aos grupos que não as reconhecem como direito universal.

    Vendo imagens na TV de nazis a marchar ao som de cânticos a pedir a morte de pretos e judeus, enquanto agitam bandeiras do III Reich, regime que, entre outras coisas, foi responsável pela morte de milhões de judeus, este argumento parece ganhar alguma força, não te parece?

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  6. Ludwig, acho este debate interessante, e importante haver pessoas que partam do teu ponto de vista (que não é aquele mais comum, e perverso, de quem diz ser contra a caricatura "politicamente correcto sjw" porque quer continuar a dizer "paneleiro", mas depois não se pode brincar com a virgem). Mas a substância dos teus argumentos parece denunciar que a própria ideia de "uma ditadura" é uma demagogia.

    Há milhões de brancos que dizem nigger todos os dias e a quem nada acontece. Há apropriações culturais repetidas e continuadas (rappers brancos, p.ex.) celebradas e não perseguidas. É menos problemático uma mulher não gostar de homens baixos do que o "fat shaming" porque se desconhecem homens que se tenham suicidado com disturbios de altura, ou que exista toda uma industria bilionária que faça as mulheres sentir-se mal com o seu peso / corpo. Não ha nenhuma lei contra nada destas coisas.

    É caricato que 90% da opressão que o homem branco se diz vítima não sejam mais do que críticas / opiniões do outro lado. Isso também conta como liberdade de expressão, ou não?

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    1. sorry, esqueci-me de subscrever.

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  7. Ludwig,

    Achas então que o Trump tem razão ao equalizar os grupos envolvidos na violência, embora um grupo incentive o ódio e o outro seja reação a isso mesmo?

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