sábado, junho 18, 2016

Treta da semana (atrasada): mais ou menos empírico.

Entre cientistas que desprezam a filosofia como mera especulação de sofá e filósofos que a dizem intelectualmente superior, muitos alegam que a diferença entre ciência e filosofia é que a ciência é experimental e a filosofia é conceptual. É um erro sedutor mas o exemplo da matemática, alegadamente semelhante à filosofia na sua pureza intelectual, ajuda a duvidar da distinção. Por um lado, a matemática é mais parecida com a física do que com a filosofia. Tão parecida que os físicos mais famosos eram matemáticos. Ou vice-versa. Por outro lado, porque a matemática é fundamentalmente empírica. Só no início do século XX é que se tentou formalizar a noção de número numa teoria lógica sobre conjuntos. Além da noção de conjunto provir também da nossa experiência, durante dois mil e tal anos, de Euclides a Frege, ninguém sentiu falta de uma definição formal de “número”. Aqui estão três cabras, ali duas maçãs e este é um pau para dar na cabeça de quem se puser com perguntas parvas. A matemática sempre foi, e ainda é, uma abstracção da nossa experiência empírica. Tal como a física, a biologia e a química. E a filosofia.

Muitos julgam que há disciplinas filosóficas, como a ética, em que não se pode usar a experiência para seleccionar teorias. A ilusão resulta de haver várias teorias éticas que a experiência ainda não permite descartar. Mas seria trivial rejeitar empiricamente a teoria ética de que tudo é permitido se for azul e condenável se for de outra cor, por exemplo. A nossa experiência diria de imediato que tal teoria não serve. E, tal como na ciência, o progresso na ética foi sempre guiado pela experiência. O que mudou de Sócrates a Singer não foram premissas a priori. Foi o acumular de experiências e observações que permitiu compreender melhor problemas como a escravatura, a igualdade ou o sofrimento dos animais. Nem é por acaso que os argumentos da filosofia ética se baseiam tantas vezes em experiências conceptuais. Estas são uma forma expedita de fundamentar a teoria naquilo que sabemos por experiência.

Ainda assim, parece que a filosofia e a matemática dependem mais de experiências passadas e menos da recolha de novos dados do que a química ou a astronomia. Mas antes de seguir esta linha queria desatar mais um nó. Há quem proponha que esta é uma diferença na quantidade de experiências e implicações empíricas. Mesmo sendo sempre preciso um fundamento empírico, esta tese diz que a filosofia depende menos disso do que a ciência. Um exemplo clássico é a diferença entre uma afirmação como “nenhum solteiro é casado” e outra como “existe água em Marte”. Parece que a verdade da primeira depende apenas do significado dos termos enquanto a verdade da segunda tem mais alcance empírico. Até chega a Marte. Mas isto é falso. Nenhum solteiro é casado se o estado após o casamento não intersectar o estado anterior ao casamento. O que será verdade se o tempo for linear e unidimensional mas pode ser falso se o tempo for um círculo ou se tiver mais do que uma dimensão. Também se tem de assumir que o tempo é igual em todos os referenciais, e isso já sabemos ser falso. Portanto, uma pessoa até pode ser solteira num referencial e casada noutro, no mesmo instante medido em cada referencial. Afinal, a afirmação aparentemente inócua de que “nenhum solteiro é casado” tem implicações empíricas profundas. Talvez até mais do que “há água em Marte”. Seja como for, não conseguimos quantificar devidamente as implicações empíricas de uma afirmação de forma a possamos dizer, por essa quantidade, se é filosófica ou cientifica. Não é uma distinção que faça sentido.

Há diferenças naquilo que é imediatamente mais produtivo para avançar na investigação. O matemático que quer provar propriedades de uma função criptográfica, mesmo dependendo da experiência que fundamenta a matemática, vai precisar mais de pensar nas demonstrações do que de obter dados novos. O astrónomo que estuda supernovas, pelo contrário, vai dedicar mais tempo a recolher dados do que a demonstrar teoremas. Mas isto também faz o matemático que desenvolve modelos de risco para uma seguradora enquanto o físico que tenta normalizar uma função de onda vai recorrer mais à inferência do que à experiência. E mesmo que haja diferenças médias na necessidade mais imediata de recorrer à experiência ou à inferência entre disciplinas como a matemática e a bioquímica, não me parece ser isto que distingue ciência e filosofia.

O mais relevante é que, da matemática à biologia, a investigação tende a seguir um caminho bem delimitado pelos dados experimentais e por teorias dominantes para os interpretar. À parte de ocasiões em que os fundamentos são reformulados – com Copérnico, Bolyai ou Einstein, por exemplo – nas chamadas “ciências exactas” é normal conhecer-se bem o limite do plausível. Na filosofia, e nas “humanidades”, isto já não acontece. Por isso, nestas, a ênfase é na organização de hipóteses, na identificação de lacunas e na procura da fronteira em vez do progresso por um caminho bem definido. Não vale a pena concentrar o esforço da comunidade, durante gerações, numa teoria específica quando se concebeu várias igualmente plausíveis e há, provavelmente, outras tantas por conceber. É por isso que o filósofo tem de estudar muito mais história, e conhecer mais autores, do que o físico. Porque precisa de uma visão panorâmica do terreno que está a explorar. Mas, conforme o acumular de experiências e a sofisticação das teorias que as interpretam vão afunilando as possibilidades, organizar alternativas torna-se menos importante do que compreender a fundo as teorias dominantes, pô-las à prova e melhorá-las.

A filosofia não difere da ciência por ser menos empírica ou mais conceptual. Isso são ambas, conforme dá jeito. O que acontece é que chamamos ciência à filosofia que já encontrou teorias dominantes, como a relatividade ou a teoria da evolução, nas quais valha a pena todos investirem. E chamamos filosofia à ciência que ainda não tem teorias dessas. Chamamos filósofo a quem as procura e castigamos o filósofo que encontre uma passando a chamá-lo cientista.

28 comentários:

  1. Caro Ludwig,

    Creio que conheces o caso Sokal/Bricmon e o livro "Imposturas intelectuais" (Gradiva, 1999). O problema é o grau de especialização que a maior parte das áreas do conhecimento alcançaram. Durante muitos séculos todos os pensadores e investigadores eram filósofos; a especificidade das áreas, fez com que seja hoje em dia praticamente impossível de se saber tudo sobre tudo - mesmo na Matemática há quem seja especialista dos números, outros em topologia ou teoria de jogos.
    A questão, como os autores do livro que referi sugerem, é por um lado a facilidade com que se acede a conceitos complexos sem que se compreenda correctamente o respectivo significado, e por outro lado, uma certa dificuldade de muitas pessoas dizer "não sei" - parece que têm medo de demonstrar desconhecimento. Daqui resultam os textos pseudocientíficos, cheios de quântica e ADN e epigenética, entre outros termos.
    Basta dar uma olhada nas dietas da moda: dieta sem carbono, dieta paliolitica, batidos detox, e muitas outras banhas da cobra.

    Em jeito de resumo: a Filosofia tem lugar na Ciência, disso não tenho dúvida. O problema, é como é que os filósofos poderão acompanhar os desenvolvimentos da Ciência, sem que façam figura de palermas, como o caso que referi revelou. Para isso não tenho resposta, mas pode sempre haver algum mais bem pensante, que possa dar uma boa sugestão.

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  2. Ludwig,

    Nem o que é nos basta, nem o que tem de ser é o que deve, nem o que deve ser é o que é, nem o que pode ser é como podia. As questões da filosofia são mais meta-questões, no sentido em que têm por objeto, não a natureza em si mesma, mas a natureza enquanto sistema em cujos significado, sentido, explicação e ecologia, estamos mergulhados. A química do mundo a física do mundo, a matemática, não se colocam questões sobre o que eu sinto ou penso do vinho que bebo ou da pessoa que morre, ou nasce ao meu lado. Mas a filosofia coloca. E todas as questões aspiram a uma resposta. Este é o método comum à ciência e à filosofia e à religião. O tipo de questões e o tipo de resposta são indissociáveis. Assim, as respostas da filosofia são reflexivas. E não se trata de meros subjetivismos, porque o próprio subjetivismo é o mais relevante das questões. A propósito, escrevi o seguinte texto:

    Não há volta a dar

    A verdade é esta
    a ciência e a tecnologia substituem tudo
    com muita velocidade
    mas nenhuma ciência restitui a minha vontade
    cura a minha melancolia
    a minha saudade
    nenhuma ciência ou filosofia
    me devolve aquele mundo
    a minha verdade
    de ser feliz
    o indescritível prazer
    de estar na eternidade
    como num quadro emoldurado
    de tudo o que é preciso
    para que a mudança só acontecesse
    a meu gosto
    e eu de todos e tudo
    dispensasse um juízo
    nenhuma ciência filosofia arte
    ou religião
    nenhum conhecimento ou ação
    me devolve a paixão
    do que era preciso
    para ser feliz
    nada agora
    olhando com todos os olhos
    construídos
    de esforços para o merecer
    é o que eu queria
    tudo me foi sendo negado
    em nome de algo
    que eu devia
    fui sendo educado
    e sofria
    na promessa de que valia a pena
    se valeu para os outros
    não valeu para mim.



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  3. Caro Ludwig Krippahl,

    "(...) muitos alegam que a diferença entre ciência e filosofia é que a ciência é experimental e a filosofia é conceptual. É um erro sedutor mas o exemplo da matemática, alegadamente semelhante à filosofia na sua pureza intelectual, ajuda a duvidar da distinção. Por um lado, a matemática é mais parecida com a física do que com a filosofia. (...) Por outro lado, porque a matemática é fundamentalmente empírica."

    Não concordo inteiramente com isto.

    Não é um erro assim tão grande afirmar que a ciência é experimental e a filosofia (tal como a matemática) é conceptual. Melhor dizendo, parece-me que a ciência tem uma natureza tanto conceptual como experimental, dependendo do tipo de tarefa científica que temos em mente. O método científico envolve componentes das duas naturezas. A filosofia e a matemática, por outro lado, são eminentemente conceptuais.

    A matemática tem inspiração empírica, é certo. Difícil seria não ter, como virtualmente qualquer área de actividade ou conhecimento humanos. No entanto, os seus métodos não são empíricos. A experiência, o confronto com a realidade, não são os árbitros finais da verdade matemática, ao contrário do que acontece com a ciência.

    Para além disso, é redutor dizer que a matemática se assemelha mais à física que à filosofia. Certas áreas da matemática assemelham-se mais à física, certas áreas da matemática assemelham-se mais a filosofia e outras ainda não se assemelharão a nenhuma das duas.

    Quanto à filosofia, confesso a minha maior ignorância sobre os métodos específicos da área, visto não ser o meu campo de formação, mas não me parece que as "experiências conceptuais" da filosofia se possam equiparar a experiências científicas.

    A ciência, a filosofia e a matemática têm objectivos e métodos essencialmente diferentes. Concordo que reduzir a distinção entre elas a um binómio "conceptual/experimental" é demasiado simplista. Ainda assim, não posso deixar de pôr em questão alguns dos seus argumentos.

    Filipe Gomes.

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  4. DEUS, O SER HUMANO E A CAPACIDADE DE CRIAR CÓDIGOS E INFORMAÇÃO CODIFICADA

    A Bíblia ensina que um Deus racional, que se revela como LOGOS (Razão, Palavra, Inteligência), criou a vida e o Homem racionalmente. Ela ensina, igualmente, que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus.

    A experiência mostra que o ser humano é o único ser vivo existente na Terra com capacidade para criar códigos que lhe permitem armazenar e transmitir ideias, informações ou instruções.

    O ser humano tem a capacidade de criar símbolos (v.g. letras, números, notas musicais, sinais de fumo, traços maiores e menores) e de os ordenar sequências a que é atribuído um significado específico.

    Essa capacidade é evidência, por excelência, de racionalidade, pensamento abstrato, capacidade comunicativa e criatividade.

    É graças a ela que o ser humano se pode dedicar à teologia, à filosofia, à matemática, à investigação científica, à arquitetura ou à música.

    O seu desenvolvimento ao longo de séculos permitiu ao ser humano criar telefones, televisões, rádios, computadores, Iphones, Smartphones, Ipods, GPS’s, tudo dependente de códigos e informação codificada.

    Mas de onde veio esta capacidade? Porque é que ela é característica única do ser humano?

    A esta pergunta a Bíblia responde, logo em Génesis 1:27, dizendo que o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus.

    Ora, Deus é o especialista por excelência na criação de códigos e informação codificada.

    Ele é Logos, Razão, Palavra, Inteligência, por sinal substância de que os códigos e a informação codificada depende.

    A vida depende da informação codificada no DNA, que existe em quantidade, qualidade, complexidade, densidade e miniaturização que transcende toda a capacidade científica e tecnológica humana, e que, depois de precisa e sincronizadamente transcrita, copiada, traduzida, lida e executada conduz à produção, sobrevivência, adaptação e reprodução de múltiplos seres vivos altamente complexos, integrados e funcionais.

    Sempre que sequências não arbitrárias de símbolos são reconhecidas, como numa linguagem, como representando semanticamente ideias ou instruções passíveis de serem lidas e executadas, por pessoas ou maquinismos, para a realização de operações específicas orientadas para resultados determinados, estamos perante informação codificada.

    O DNA é informação codificada por excelência.

    Isto mesmo foi reconhecido pelo evolucionista ateu Richard Dawkins, no seu livro “The Devil’s Chaplain, quando disse que “o código genético é verdadeiramente digital exatamente no mesmo sentido dos códigos dos computadores. Esta não é uma analogia vaga. É a verdade literal”.

    Toda a informação codificada tem sempre origem inteligente, não se conhecendo exceções a esta regra.

    Os códigos genéticos e epigenéticos existentes no genoma dos seres vivos são a evidência maior de inteligência, racionalidade que esteve na base da sua criação.

    O Homem recebeu de Deus a capacidade para criar códigos e informação codificada.


    Infelizmente, por causa do pecado do ser humano, Deus fez com que a corrupção e a morte entraram no mundo físico, afetando o próprio genoma humano. Génesis 3 ensina isso mesmo, mostrando a relação que existe entre corrupção moral e física.

    As mutações e a seleção natural, longe de criarem informação genética nova capaz de transformar partículas em pessoas ao longo de milhões de anos, destroem e degradam a informação genética existente em pouco tempo. Longe de serem evidência de evolução, elas são evidência de corrupção, doenças, sofrimento e morte.

    Existem cerca de 3000 mutações conhecidas no genoma humano, responsáveis por cerca de 900 doenças.


    Basta ler a literatura médica para compreender como as mutações, sendo cumulativas e degenerativas, causam doença, sofrimento e morte.

    Foi para resolver este problema bem real, que todos sentimos, que Jesus morreu e ressuscitou, levando sobre si o castigo dos nossos pecados, e prometendo-nos uma vida eterna com Deus, com corpos incorruptíveis.

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  5. António,

    O que o Sokal fez não foi contra a filosofia mas sim contra as correntes pós-modernistas de crítica literária, isso sim uma treta pegada.

    E se bem que seja verdade que muito daquilo a que se chama filosofia seja também treta, mera demagogia rebuscada para parecer profunda, o problema de «acompanhar os desenvolvimentos da Ciência, sem que façam figura de palermas» não é um problema da filosofia em si mas apenas de alguns que se dizem filósofos.

    Quanto a «Filosofia tem lugar na Ciência», eu acho que é a ciência que faz parte da filosofia :)

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    1. Ludwig,

      Pois eu não entendo assim o "processo Sokal". O alvo da critica é todo aquele que se apropria de terminologias que não domina e abusa do respectivo significado e ainda as aplica a áreas que nada tem a ver. Um bom exemplo é o uso e abuso do termo "quântico" que serve para tudo e mais um par de botas. Admira-me como é que ainda ninguém se lembro de um sumo "quântico" para elevar as capacidades psíquicas.
      Outro bom exemplo é a relatividade. Só a expressão "tudo é relativo", até me dá arrepios...

      Quanto ao lugar da Filosofia e da Ciência, concordo com a correcção.

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    2. Já agora, e sobre o problema do lugar da Filosofia, o meu principal foco é a Filosofia na sua vertente espistemológica. A Filosofia enquanto um "chapéu" que abarca todo o conhecimento, sim a Ciência faz parte da Filosofia. O problema começa quando um filósofo, quer perceber um certo ramo da Ciência, p.ex., sobre a Matemática, e vê algo como o teorema da incompletude.
      A minha critica, seguindo o exemplo de Sokal, é perceber até que ponto alguém que nunca teve de lidar com os pormenores (e o diabo está sempre nos pormenores) de uma demonstração e atalha pela conclusão (e é tão fácil isto acontecer), e daí tira uma conclusão generalizada sobre uma demonstração particular. Este exemplo do teorema da incompletude, a tentativa de aplicar uma perspectiva "relativista" a todas as áreas da sociedade, são excelentes para perceber porque é que por vezes se pode levar a pensar se não é a Filosofia que tem de caber na Ciência, e até, como é que a Filosofia pode dar bons contributos à Ciência.
      Embora nem sempre concorde com Lee Smolin acerca do que ele diz em "O romper das cordas" (Gradiva, 2013) relativamente ao papel da Filosofia na Física de partículas, concordo com o papel que a epistemologia desempenha, e foi nesse sentido o meu comentário original.

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  6. Carlos Soares,

    «As questões da filosofia são mais meta-questões, no sentido em que têm por objeto, não a natureza em si mesma, mas a natureza enquanto sistema em cujos significado, sentido, explicação e ecologia, estamos mergulhados.»

    O objecto da ciência nunca é a natureza em si mesma. Se fosse, então estava já tudo resolvido. A natureza em si mesma já lá está e pronto. O objecto da ciência é precisamente o conjunto de técnicas, modelos, truques, descrições e representações que usamos para compreender a natureza. E essa natureza também nos inclui a nós e tudo o que fazemos. Por isso, essa tua posição, além de defender uma falsa dicotomia entre o significado e a natureza, também não considera correctamente o objecto da ciência. Os modelos que a ciência produz têm por objecto, em parte, a natureza. Mas o objecto da ciência é a construção desses modelos e os próprios modelos incluem mais do que os aspectos da natureza a que referem. Incluem explicações, causas, contrafactuais e assim por diante.

    «A química do mundo a física do mundo, a matemática, não se colocam questões sobre o que eu sinto ou penso do vinho que bebo ou da pessoa que morre»

    Pelo contrário. Se quiseres compreender em detalhe o que sentes e porque o sentes, é a ciência que te pode ajudar. A poesia serve para invocar o que já se sabe mas diz pouco de novo.

    Nota, por exemplo, como os avanços na medicação de muitas patologias do foro psiquiátrico praticamente acabaram com a necessidade de haver hospícios ou de internar pessoas por causa desses problemas. Isto não foi graças à poesia...

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    1. Ludwig,
      «O objecto da ciência nunca é a natureza em si mesma. Se fosse, então estava já tudo resolvido. A natureza em si mesma já lá está e pronto. O objecto da ciência é precisamente o conjunto de técnicas, modelos, truques, descrições e representações que usamos para compreender a natureza. E essa natureza também nos inclui a nós e tudo o que fazemos.»

      Atribuis afirmações que não faço. Restringes ou alargas o sentido de natureza ou de ciência como te apetece. Mas há o poço de contradições.
      Se queres dizer que o próprio método e metodologias da ciência são um corpo de ciência, não vejo problema, nem eu disse o contrário. A dicotomia entre natureza e significado é tua, não é minha. Para ti a natureza não apresenta problema nenhum, está tudo resolvido, não é assim? Como dizes, o problema são os modelos, as explicações, causas, contrafactuais...
      Em que é que ficamos?

      Quanto a compreender em detalhe o que sentes e porque o sentes a ciência pode ajudar e muito, aliás, a ciência pode ajudar em tudo. Se queres compreender, se queres construir, se queres destruir, se queres libertar ou oprimir, curar ou matar, etc.. Mas, ainda aqui, estamos de acordo e não percebo o teu "nem sim, nem não, antes pelo contrário".
      Quanto à poesia servir para invocar, sim, serve. E um martelo serve para martelar. Está tudo dito, sabemos tudo sobre o martelo. Diz pouco de novo? O que eu escrevi "Não há volta a dar"? Ou a poesia, em geral?
      Há quem encontre poesia na teoria da evolução ou no "genesis" ou na aeronáutica sem ter lido os Lusíadas ou o Fernando Pessoa e há quem encontre ciência e filosofia nos Lusíadas e no Fernando Pessoa, sem ter lido nada sobre aquelas questões.
      Mas já percebi que a poesia nunca te serviu de nada, nem para amar um pouco mais a ciência.

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  7. Filipe Gomes,

    «A matemática tem inspiração empírica, é certo. Difícil seria não ter, como virtualmente qualquer área de actividade ou conhecimento humanos. No entanto, os seus métodos não são empíricos. A experiência, o confronto com a realidade, não são os árbitros finais da verdade matemática, ao contrário do que acontece com a ciência.»

    Penso que estás a confundir implicitamente dois significados diferentes de "verdade".

    Vamos supor que x é divisível por 2. Nesse caso, é verdade que 5x é divisível por 2. E também é verdade que hoje está sol. Mas "verdade" aqui tem dois sentidos diferentes. No primeiro caso refere apenas a consistência da proposição com o que a precede. No segundo caso refere a correspondência entre a proposição e a realidade a que se refere.

    Em muito do que cada matemático faz individualmente, a preocupação é com a verdade nesse primeiro sentido e não no segundo. Mas passa-se o mesmo com os cientistas, porque a correspondência entre o modelo e a realidade não é trivial de aferir. Por isso, o astrónomo também acaba por estar mais preocupado com a consistência entre o que assume acerca do funcionamento do seu equipamento e o que assume acerca de como interpretar os resultados do que propriamente com as estrelas em si.

    É só quando a malha de conjecturas começa a revelar-se inconsistente que notamos que temos de mudar alguma coisa fundamental e aí é a experiência que dita o que fazer. Também na matemática. Nota, por exemplo, o que acontece com o axioma de escolha na teoria de conjuntos. Se não o assumires, não concluis certas coisas que concluis se o assumires. Deves assumí-lo ou não? Por consistência, tanto faz, apenas resulta em teoremas diferentes. Mas para usar isso como fundamento da matemática que empiricamente sabemos ser útil parece consensual que temos de incluir esse axioma. Simplesmente porque, empiricamente, dá jeito. Exactamente como se faz na física, na química e na filosofia.

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  8. Caro Ludwig Krippahl,

    Tem razão, a palavra "verdade" foi aí mal aplicada. O primeiro conceito de verdade a que alude deveria chamar-se, com maior propriedade, "validade". É com a validade, e não tanto com a verdade, que a Matemática se preocupa.

    É claro que os cientistas se têm de preocupar com a validade. Mas, primariamente, o objectivo da Ciência é a compreensão de como o universo, ou uma parte dele, funciona. As teorias científicas têm de se adequar à realidade (tanto quando possível). É nesta adequação à realidade que consiste a verdade científica, e o teste dessa verdade é a comparação (experimental) com o que de facto se passa.

    Continuo a ter um problema com a utilização da palavra "empiricamente" no último parágrafo do seu comentário. Os axiomas da geometria euclidiana, como expressos nos Elementos de Euclides, pretendiam reflectir uma abstracção da realidade; a concepção de Euclides sobre os seus postulados (e a concepção dominante da natureza dos axiomas na Matemática durante muitos séculos depois disso) era a de que estes deviam ser "verdades evidentes". Nota-se aqui a presença da inspiração empírica. Os axiomas deveriam ser evidentes por espelharem aquilo que, de modo empírico, apreendíamos da realidade.

    Os axiomas da teoria dos conjuntos têm uma natureza fundamentalmente diferente. Já não pretendem ser verdades evidentes (alguns não o são, de todo), mas sim premissas convenientes para um determinado propósito, como o de desenvolver o resto da matemática ou uma parte específica dela. No fundo, os axiomas da teoria dos conjuntos são aqueles porque dá jeito para o desenvolvimento da teoria que assim seja. Tal como disse o Ludwig.

    No entanto, continuaria a omitir a palavra "empiricamente". Não é a observação da realidade que legitima os axiomas da teoria dos conjuntos; é aquilo que se consegue extrair logicamente deles.

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  9. Filipe Gomes,

    «Continuo a ter um problema com a utilização da palavra "empiricamente" no último parágrafo do seu comentário.»

    Vou então tentar pôr o problema de outra forma. Consideremos a axiomatização dos espaços topológicos. Primeiro, porquê axiomatizar assim? Que interesse há em formalizar a noção de espaço topológico? Penso que é fácil perceber que a motivação é empírica. Mas nisso julgo estarmos de acordo. É o tal fundamento empírico da matemática. Onde divergimos é se, depois disso, a matemática progride só pela dedução ou se o seu caminho segue uma linha de inferências informada pela experiência, tal como no resto da ciência.

    Eu proponho que é esse o caso. A partir de uma axiomatização de um espaço topológico, podemos demonstrar um número infinito e incontável de verdades (no sentido de consistência com os axiomas). Mas só um sub-conjunto infinitamente menor do que este é que nos interessa. Precisamente por isto:

    «Os axiomas da teoria dos conjuntos têm uma natureza fundamentalmente diferente. Já não pretendem ser verdades evidentes (alguns não o são, de todo), mas sim premissas convenientes para um determinado propósito, como o de desenvolver o resto da matemática ou uma parte específica dela. No fundo, os axiomas da teoria dos conjuntos são aqueles porque dá jeito para o desenvolvimento da teoria que assim seja. Tal como disse o Ludwig.»

    E tal como acontece na física ou na química ou na teoria da evolução. Escolhemos os axiomas – as conjecturas – que dão mais jeito. Não por um princípio a priori que possa dizer o que é que dá jeito mas pela nossa experiência.

    É por isso que dar a um computador um conjunto de axiomas e pô-lo a imprimir, sem fim, consequências lógicas desses axiomas não é fazer matemática. Para fazer matemática é preciso experiência que nos diga onde queremos chegar. É claro que também precisamos de raciocínio para nos dizer de onde é preciso partir e o que fazer pelo caminho, mas isso é verdade em ciência e na filosofia também.

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    1. A Bíblia ensina que um Deus racional criou o Universo racionalmente dotando-o de uma estrutura racional.

      Ela também ensina que o Homem foi criado à imagem de um Deus racional.

      É lógico, por isso, que o universo seja inteligível e o ser humano inteligente.

      E não admira, portanto, que o ser humano possa observar a matemática impressa na natureza.

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  10. LUDWIG KRIPPAHL (LK) ENCONTRA O FILÓSOFO SÓCRATES E DIALOGA COM ELE SOBRE AS ORIGENS


    LK: Sabes Sócrates, estou convencido de que os micróbios se transformaram em microbiologistas ao longo de milhões de anos e que os criacionistas fazem alegações infundadas acerca dos factos.

    Sócrates: A sério? Grandes afirmações exigem grandes evidências!! Quais são as tuas? Se forem realmente boas, convencerão certamente os criacionistas!

    LK: É simples! O meu “método científico”, o meu “naturalismo metodológico”, o meu “empírico”, a minha “abordagem dos problemas” e o “consenso dos biólogos” são infalíveis. Se os criacionistas soubessem bioquímica, biologia molecular, genética, geologia, etc., poderiam observar que:

    1) moscas dão… moscas!

    2) morcegos dão… morcegos!

    3) gaivotas dão… gaivotas!

    4) bactérias dão… bactérias!

    5) escaravelhos dão… escaravelhos!

    6) tentilhões dão… tentilhões!

    7) celecantos dão… celecantos (mesmo durante supostos milhões de anos)!

    8) guppies dão… guppies!

    9) lagartos dão… lagartos!

    10) pelicanos dão… pelicanos (mesmo durante supostos 30 milhões de anos)!

    11) grilos dão… grilos (mesmo durante supostos 100 milhões de anos)!

    12) coelhos dão… coelhos!

    Sócrates: Mas, espera lá! Não é isso que a Bíblia ensina, em Génesis 1, quando afirma, dez vezes (!), que os seres vivos se reproduzem de acordo com o seu género? Os teus exemplos nada mais fazem do que confirmar a Bíblia!

    LK: Sim, mas os órgãos perdem funções, total ou parcialmente, (v.g. função reprodutiva) existem parasitas no corpo humano e muitos seres vivos morrem por não serem suficientemente aptos…

    Sócrates: Mas…espera lá! A perda total ou parcial de funções não é o que Génesis 3 ensina, quando afirma que a natureza foi amaldiçoada e está corrompida por causa do pecado humano? E não é isso que explica os parasitas no corpo humano ou a morte dos menos aptos? Tudo isso que dizes confirma Génesis 3!

    Afinal, os teus exemplos de “método científico”, “naturalismo metodológico”, “empírico”, “abordagem dos problemas” e “consenso dos biólogos” apenas corroboram o que a Bíblia ensina!! Como queres que os criacionistas mudem de posição se os teus argumentos lhes dão continuamente razão?

    Não consegues dar um único exemplo que demonstre realmente a verdade daquilo em que acreditas?

    LK: …a chuva cria informação codificada…

    Sócrates: pois, pois… e as gotas formam sequências com informação precisa que o guarda-chuva transcreve, traduz, copia e executa para criar as máquinas que fabricam disparates no teu cérebro…

    …olha Ludwig, não passas de um sofista e de má qualidade… …o teu pensamento crítico deixa muito a desejar… … se fosses meu aluno em Atenas tinhas chumbado a epistemologia, lógica e crítica…

    …em meu entender, deverias parar para pensar e examinar a tua vida, porque uma vida não examinada não é digna de ser vivida…

    …e já agora, conhece-te a ti mesmo antes de te autodenominares “macaco tagarela”…


    P.S. Todas as “provas” da “evolução” foram efetivamente usadas pelo Ludwig neste blogue!




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    1. Talvez uma leitura sobre o que a Universidade de Berkeley diz sobre a evolução ajude. Nota: não diz nada sobre a Bíbilia ou o Corão, ou os Veda, ou os Upanixades, ou o Popol Vuh, ou o Livro dos Mortos, ou... qualquer outra religião.

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    2. É pena é só terem especulação sem nenhuma prova de evolução...

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    3. É pena é só terem especulação de livros da idade do ferro, sem nenhuma prova de criação, ainda que o dito livro tenha uns 2 mil anos...

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  11. Para os interessados, parece que existe uma igreja para filósofos: http://collegeofintegratedphilosophy.com, a coisa parece tão séria, que existe uma entrada no wikipedia sobre o guru residente: https://en.wikipedia.org/wiki/John_de_Ruiter

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  12. Como os criacionistas dizem e os dados empíricos confirmam, o DNA contém códigos e informação codificada, mas as mutações introduzem ruído e degradam essa informação, não transformando bactérias em bactereologistas.

    O que os cientistas observam:

    Códigos e informação codificada:

    "When a cell makes copies of DNA and translates its genetic code into proteins at the same time, the molecular machinery that carries on replication and the one that transcribes the DNA to the mRNA code move along the same DNA double strand as their respective processes take place.

    Mutações e ruido:

    "Sometimes replication and transcription proceed on the same direction, but sometimes the processes are in a collision course. Researchers at Baylor College of Medicine and the University of Wisconsin have determined that these collisions can significantly contribute to mutagenesis. Their results appear today in Nature."

    Corrupção e doença:

    "Promoters control how much of a gene is transcribed; for instance, particular mutations in promoters may enhance or reduce the production of proteins, or silence them completely. These genetic changes in gene expression may affect an organism's health."

    A evidência empírica é de corrupção e não de evolução.

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    1. «A evidência empírica é de corrupção e não de evolução.»

      Mas em que é isso contraria a evolução e a teria neo-darwinista baseada nas mutações do ADN? Ou não é isso que pretende demonstrar? Posso estar enganado quanto ao propósito do seu comentário...

      Também não consigo perceber o que isso tem a ver com a "corrupção" que normalmente fala, e que tem mais a ver com questões morais (sobre as quais o artigo nada diz, nem tem que dizer, diga-se), que com questões biológicas sobre as quais o artigo fala.
      Creio que estamos perante o que se chama uma falácia de equivocação: o termo corrupção está a ser usado com mais do que um significado.

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    2. https://blog.codinghorror.com/what-is-trolling/
      "The most striking characteristic of the worst trolls is that their position on a given topic is absolutely written in stone, immutable, and they will defend said position to the death in the face of any criticism, evidence, or reason."

      "Did you join this discussion to learn? To listen? To understand other perspectives? Or are you here to berate us and recite your talking points over and over? Are you more interested in fighting over who is right than actually communicating?"

      "Responding to a troll just gives them evidence of their success for others to enjoy, and powerful incentive to try it again to get a rise out of the next sucker and satiate their perverse desire for opinion bloodsport."

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