O cartaz.
O tribunal proibiu André Ventura de exibir cartazes onde diga que os ciganos têm de respeitar a lei. Além da publicidade gratuita, espalhando a frase por toda a comunicação social, e da oportunidade de Ventura agora ir esticando o assunto com variantes sobre o tema, esta medida tem vários aspectos preocupantes.
Ao contrário do que muita gente julga, o que protege a democracia e um Estado justo não são as leis. Nem sequer é a Constituição, que são só letras no papel e passível de mudar conforme decida o Parlamento. Quem pode garantir a democracia são os eleitores. Mas para isso precisamos de saber em quem votamos. Quando o tribunal se interpõe entre candidatos e eleitores e filtra mensagens por algum critério arbitrário de higiene, não só viola o nosso direito de saber o que o candidato pensa como cria um risco desnecessário para a democracia. Mais que autorizado a dizer tudo o que pensa, Ventura devia ser encorajado a fazê-lo. Obrigado até, se possível, porque por muito incómodo que seja ouvir o que ele pensa pior será não o soubermos a tempo.
Outro problema do tribunal proibir a alegada ofensa por «necessidade social imperiosa [de] proibição de discriminação em função da raça ou etnia«(1) é quebrar o princípio fundamental da igualdade de direitos. Muita gente celebrou publicando nas redes sociais que os "cheganos" têm de respeitar a lei. Usar um termo depreciativo para estigmatizar ou ofender apoiantes do Chega não tem problema porque não são uma etnia, Só é proibido ofender etnias. Isto discrimina contra rafeiros como eu. Sendo um quarto alemão, um quarto espanhol, e metade alentejano, não tenho etnia que possa invocar para o tribunal castigar quem me ofenda. Eu, e a maioria dos portugueses. Os portugueses descendem de muitas etnias mas, com o passar das gerações, a malta apaixonou-se, teve filhos e ficou tudo misturado. Por isso já não temos quem seja celta, ibero, fenício, lusitano, romano, visigodo, mouro ou germânico. Há portugueses de muitas formas, tons e feitios mas grupos de etnia distinta há poucos. Uns porque chegaram recentemente e outros porque, apesar de estarem cá há quinhentos anos, têm costumes e comportamentos que impedem o cruzamento com os restantes. A maioria não beneficia desta conveniência legal que permite calar quem incomode.
Outro problema é que a proibição de ofender etnias estende-se até a factos. Dizer que os homens têm de ser menos violentos, ainda que possa ofender algum, reflecte uma preocupação legítima porque temos acesso a dados que mostram que os homens cometem a maior parte dos crimes violentos. Nem todos os homens violam a lei mas a correlação é significativa e é legítimo apontá-la. Mas para condenar a frase de Ventura não é preciso, nem possível, averiguar se a taxa de criminalidade nos ciganos é maior ou menor que a média. Nos deputados do Chega sabemos que está muito acima da média mas nos ciganos, em teoria, não fazemos qualquer ideia porque é ofensivo divulgar esses dados. Por força desta lei, desde 2017 que a comunicação social omite informação étnica quando relata crimes. Em vez disso dá notícias como «Tiroteio entre famílias rivais [...] obriga a intervenção da PSP»(2), «Família de doente causa estragos no hospital [...] e agride enfermeiros» (3) ou «os Bombeiros foram recebidos de forma violenta por familiares da vítima»(4). Talvez Ventura possa alterar o cartaz para "As famílias têm de respeitar a lei". Cumpre a lei à letra e já todos sabem o que quer dizer. A censura é a mãe de todas as insinuações.
O racismo e a discriminação podem ser problemas sérios mas têm de ser enfrentados de forma justa e inteligente. Discursos discriminatórios terem acompanhado atrocidades no passado não prova que a censura seja eficaz a impedi-las. Hitler foi censurado antes de subir ao poder e a censura também foi útil aos regimes que cometeram essas atrocidades. A satisfação de ver Ventura condenado deve ser temperada pela compreensão de que isto só o favorece. E mesmo sendo moda sinalizar virtude com indignações e empatia por coitadinhos, esta decisão do tribunal não fez favor nenhum aos ciganos. Foi como o director convocar os alunos e avisar que vai dar um castigo a quem disser que o Joãozinho tem a cabeça grande. Não ajuda.
Em democracia não se consegue combater demagogia com repressão. Quando se bate num lado ela ressurge noutro. É preciso esclarecer, apontar erros e apresentar alternativas. E isso funciona melhor se o que criticamos estiver explícito e se a outra parte puder dizer o que pensa. Quanto mais empurrarmos os demagogos para a insinuação, as entrelinhas e o subentendido, mais difícil é agarrar alguma coisa para criticar. Esta censura, além de violar os nossos direitos e agravar os problemas sociais que pretende resolver, enviesa o debate público a favor do populismo, que não devíamos ajudar ainda mais.
1- Euronews, Tribunal ordena retirada de cartazes do Chega sobre comunidade cigana
2- CNN Portugal, Tiroteio entre famílias rivais no Prior Velho obriga a intervenção da PSP
3-SIC Notícias, Família de doente causa estragos no hospital Curry Cabral e agride enfermeiros
4- SIC, Bombeiros agredidos a murro: “Não temos explicação para o sucedido, é um episódio lamentável”

"É preciso esclarecer, apontar erros e apresentar alternativas." - Boa sorte a esclarecer chegasnos! Tambem acreditas no Pai Natal?
ResponderEliminar«Boa sorte a esclarecer chegasnos! Tambem acreditas no Pai Natal?»
ResponderEliminarJá tive conversas produtivas com apoiantes do Chega. Eu acho que quem tem essa ideia de que é impossível falar com pessoas com ideias políticas diferentes é porque nunca tentou, ou porque tem dificuldade nesse tipo de conversas.
Mas o principal nem é convencer quem já está apegado ao Chega. O problema principal é aquela grande maioria que pode andar indecisa e, conforme se vai dando mais vantagens a populismos (e o problema não é só o Chega) vai aumentando o número dos que enfiam o barrete.
Decisões como esta do cartaz contribuem para isso, impedindo conversas de jeito e remetendo tudo para insinuações, clubismos e demagogia.
"Usar um termo depreciativo para estigmatizar ou ofender apoiantes do Chega não tem problema porque não são uma etnia, Só é proibido ofender etnias."
ResponderEliminarSinceramente que não percebe a diferença? O critério não é arbitrário como parece querer dar a entender numa diatribe que é uma confusão pegada de burrice.
O que é proíbido é estigmatizar atributos imutáveis, estás a ver, ó burro? Fulano ser da etnia X ou de cor de pele Y, ou de genótipo <...> é algo de que fulano não só não tem culpa nenhuma, como não pode fazer nada em relação a isso. Já ser apoiante do partido-do-cagalhão é uma escolha, é trivialmente mutável. Se não gosto de ser do partido-do-cagalhão, que deixe de ser.
No teu caso creio que ser burro não é imutável. Se é imutável, envio as minhas desculpas e deixo de insistir neste ponto.
"Dizer que os homens têm de ser menos violentos, ainda que possa ofender algum, reflecte uma preocupação legítima porque temos acesso a dados que mostram que os homens cometem a maior parte dos crimes violentos. (...)"
Uma comparação que demonstra outro tipo de incompreensão da sua parte. Dizer que os homens são violentos não estigmatiza os homens pela simples razão de que não há nenhum núcleo familiar que não tenha homens. Se houvesse comunidades de homens disjuntas de comunidades de mulheres, isso sim, era estigmatizante e merecedor de reprovação. Como não há qualquer tipo de disjunção, todos os núcleos familiares compreendem trivialmente que aquela afirmação "os homens são violentos" é um mero dado estatístico e não uma caracterização dos homens, pois bem que todos os núcleos familiares têm homens e sabem que não são necessariamente violentos.
Cansa-me um bocado estar a ensinar-te a pensar, porque devias saber melhor pelas cadeiras que dás, etc.