domingo, abril 22, 2012

Treta da semana: a Concordata.

É preciso austeridade. Troika, crise, essas coisas. Por isso, entre outras medidas, é preciso acabar urgentemente com quatro feriados. O governo escolheu dois a que chama religiosos, equivocando “religião” com “catolicismo”, e dois dos outros. «O ministro da Economia afirmou que o governo decidiu propor a eliminação de igual número de feriados civis e religiosos porque "aceitou a condição da Igreja", para quem era "muito importante haver simetria"»(1). Assim, em nome da simetria e das ordens da Igreja, para compensar o fim de feriados celebrando acontecimentos históricos como a restauração da independência ou a implantação da República, a Igreja Católica abdicaria dos feriados concedidos para celebrar o corpo do seu deus e os santos da sua religião. Ficam garantidos outros tão importantes como o 15 de Agosto, que celebra o facto de Pio XII ter dito que Maria ascendeu corporalmente ao céu, ou o 8 de Dezembro, que celebra a crença de que os pais de Maria terão, de alguma forma ainda por determinar, concebido a filha sem a mácula do pecado original, já nessa altura pouco original.

Isto em teoria. Na prática, apesar dos feriados celebrando acontecimentos históricos serem já eliminados este ano, os feriados celebrando fezadas dos católicos só podem ser eliminados com autorização do Vaticano. Como «as negociações entre o Estado português e um representante do vaticano não têm data para terminar»(2) e decorrem «sem caráter de "urgência"»(3), se for é lá para 2013. Tudo graças à Concordata, um tratado assinado entre o Estado português e o Vaticano pelo qual Portugal concede uma data de privilégios aos profissionais do catolicismo sem qualquer contrapartida. Por exemplo: «A República Portuguesa reconhece à Igreja Católica […] jurisdição em matéria eclesiástica»; «Os eclesiásticos não podem ser perguntados pelos magistrados ou outras autoridades sobre factos e coisas de que tenham tido conhecimento por motivo do seu ministério»; «Os eclesiásticos não têm a obrigação de assumir os cargos de jurados, membros de tribunais e outros da mesma natureza, considerados pelo direito canónico como incompatíveis com o estado eclesiástico»; « A República Portuguesa garante o livre exercício da liberdade religiosa através da assistência religiosa católica aos membros das forças armadas e de segurança que a solicitarem, e bem assim através da prática dos respectivos actos de culto»; «Os eclesiásticos podem cumprir as suas obrigações militares sob a forma de assistência religiosa católica às forças armadas e de segurança»; «A República Portuguesa [...] garante as condições necessárias para assegurar [...] o ensino da religião e moral católicas nos estabelecimentos de ensino público».

O problema do défice torna este ponto particularmente relevante: «A Santa Sé, a Conferência Episcopal Portuguesa, as dioceses e demais jurisdições eclesiásticas, bem como outras pessoas jurídicas canónicas constituídas pelas competentes autoridades eclesiásticas para a prossecução de fins religiosos» estão isentas de qualquer imposto ou contribuição sobre «As prestações dos crentes para o exercício do culto e ritos; Os donativos para a realização dos seus fins religiosos; O resultado das colectas públicas com fins religiosos; A distribuição gratuita de publicações com declarações, avisos ou instruções religiosas e sua afixação nos lugares de culto; Os lugares de culto ou outros prédios ou parte deles directamente destinados à realização de fins religiosos; As instalações de apoio directo e exclusivo às actividades com fins religiosos; Os seminários ou quaisquer estabelecimentos destinados à formação eclesiástica ou ao ensino da religião católica; As dependências ou anexos dos prédios [destinados] a uso de instituições particulares de solidariedade social; Os jardins e logradouros [desses prédios]; Os bens móveis de carácter religioso […]; Aquisições onerosas de bens imóveis para fins religiosos; Quaisquer aquisições a título gratuito de bens para fins religiosos; Actos de instituição de fundações»(4)

A Concordata inclui até uma admoestação aos cidadãos portugueses para que se abstenham de exercer direitos que a República Portuguesa lhes concede, coisa que raramente deve ser subscrita por um Estado num tratado internacional: «A Santa Sé, reafirmando a doutrina da Igreja Católica sobre a indissolubilidade do vínculo matrimonial, recorda aos cônjuges que contraírem o matrimónio canónico o grave dever que lhes incumbe de se não valerem da faculdade civil de requerer o divórcio.» (4)

Tudo isto em troca da nada. Nada. Até os feriados “religiosos” (i.e. católicos) são ditados pelo tratado e requerem autorização do Vaticano para se alterar. É absurdo. Como país, o Vaticano não presta. Não tem democracia, não reconhece direitos fundamentais, discrimina as mulheres e não admite liberdade religiosa aos seus cidadãos. Não se justifica conceder privilégios a um país assim nem faz sentido regular a prática religiosa dos portugueses em tratados com outras nações. E a justificação de que o Vaticano, mais do que um país, é a sede de uma religião, em vez de justificar este tratado só agrava o problema. Se o Estado nem sequer tem legitimidade para se intrometer na religião de cada português, também não terá legitimidade para comprometer toda a nação em tratados com religiões.

Podiam, finalmente, usar a desculpa da austeridade para alguma coisa útil e acabar a Concordata. Portugal não tem nada a perder se denunciar este tratado, e muito a ganhar em impostos que não está a cobrar, dinheiro gasto no ensino público da religião e coisas como a liberdade de decidir sobre os feriados nacionais sem pedir licença ao senhor Ratzinger.

1- I Online, Governo vai eliminar os feriados do 5 de Outubro e o 1º de Dezembro.
2- Agência Financeira, Fim dos feriados religiosos empurrado para 2013
3- Agência Ecclesia, Igreja/Estado: Conferência Episcopal Portuguesa pede que «Corpo de Deus» continue como feriado em 2012
4- Agência Ecclesia, A Concordata de 2004

Editado a 23 de Abril para tornar mais claro o penúltimo parágrafo. Obrigado ao João Vasco por apontar o problema.

47 comentários:

  1. «Dizem que a Concordata se justifica porque o Vaticano não é a sede de uma religião, mas isto significa que Concordata é um tratado entre o Estado português e uma religião, o que é um disparate ainda maior. »

    Esta parte não se percebe.

    O resto está excelente :)

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    1. Bem visto. Tinha lá um "não" a mais, que ficou de alguma versão anterior... Mas decidi rescrever o parágrafo, a ver se fica mais claro.

      Obrigado pelo aviso.

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    2. AnaApr 15, 2012 06:14 PM

      Testemunho? LOL! E revisão de pares, nada?... Claro, o conhecimento cientifico constroi-se com testemunhos. E o método cientifico, e o crivo cientifico, nada? :D

      Mas uma coisa é certa: há desconhecimento que é passado por testemunhos. Eu tenho uma tia que tem uma prima que tem um papagaio que tem um dono que tem...um não...... acho que se percebe o que pretendo dizer.

      não? inda tá escuro....

      bota não nisso pô..

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  2. Bem, pode-se sempre afirmar que a ICAR suporta cerca de metade dos esforços da assistência social em Portugal. Se a ICAR fosse abolida em Portugal, o orçamento da Segurança Social teria de duplicar. Em contrapartida, o Estado dá benesses fiscais à ICAR.

    Também é verdade que muitas dessas benesses são extensíveis a outras religiões. Excepto os feriados, claro.

    De resto julgo que tens razão :)

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  3. Portugal não tem apenas um acordo internacional com uma confissão religiosa, mas sim com duas. Também tem um acordo com a comunidade Ismaeli liderada por Aga Kahn.

    Isso compreende-se à luz da globalização e do facto de cada vez mais as confissões religiosas, à semelhança do que sucede com ONG's, empresas transnacionais, etc., adquirirem subjectividade jurídica internacional.


    Numa democracia, a maioria deve respeitar as minorias e as minorias devem respeitar as maiorias.

    O Ludwig cai em contradições ridículas e absurdas. Por um lado acredita que a suma moralidade é subjectiva e surgiu do nada (que afinal não o é!) por acaso. Depois condena as convicções morais dos outros...

    O mais curioso é que as condena com base na moral judaico-cristã...

    ...ço princípio da dignidade da pessoa humana e da igualdade entre homens e mulheres compreendem-se bem à luz de Génesis 1

    ... mas eles não resultam empírica ou logicamente de uma evolução aleatória a partir do nada (que afinal não o é!) ou de milhões de anos de crueldade predatória, dor, sofrimento e morte.


    Não admira, porque violando a lei da não contradição, o especialista em pensamento crítico cai em erros básicos como:

    Nada = não nada, ou seja, A = Não A


    Enfim, o Ludwig está num beco sem saída lógico, epistemológico, científico, moral, filosófico...

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  4. O LUDWIG CRITICA A MORALIDADE DO VATICANO, MAS NÃO TEM UM FUNDAMENTO LÓGICO OU EMPÍRICO PARA O FAZER:


    1) O Ludwig é naturalista, acreditando que o mundo físico é tudo o que existe. Sendo assim ele tem um problema, porque valores e normas morais não existem no mundo físico.

    2) O Ludwig diz que a observação científica é o único critério válido de conhecimento. Ora, nunca ninguém observou valores e normas morais no campo ou em laboratório.

    3) O Ludwig diz que a moral é subjectiva. Ora, se são os sujeitos que criam valores e normas, eles não estão realmente vinculados por eles, podendo cada um criar valores e normas a seu gosto.

    4) O Ludwig está sempre a dizer aos outros que não devem dizer aos outros o que devem ou não devem fazer. Ou seja, ele faz exactamente o que diz que os outros não devem fazer.


    5) De milhões de anos de processos aleatórios de crueldade, dor, sofrimento e morte não se deduz logicamente qualquer valor intrínseco do ser humano nem qualquer dever moral de fazer isto ou aquilo.

    Conclusão: sempre que fala em valores e normas morais o Ludwig é irracional e arbitrário.

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  5. Miguel,

    «Se a ICAR fosse abolida em Portugal,»

    Eh lá, grande salto... (de fé? ;)

    Denunciar a Concordata não abolia a ICAR. A liberdade religiosa, de crença e de culto, está consagrada na Constituição e em leis específicas, e a ICAR continuaria ao abrigo dessa legislação que protege os direitos dos crentes. A única diferença é que não haveria leis especiais para beneficiar a ICAR, por exemplo, com isenção total de impostos em negócios como o de Fátima.

    Quanto à solidariedade religiosa, nota que o Estado subsidia muito todas essas actividades, a ICAR não paga do bolso (basicamente, reune voluntários) e é muito questionável se o dinheiro que o Estado investe em caridade misturada com religião não seria melhor investido em acções sociais sem cariz religioso.

    «Se a ICAR fosse abolida em Portugal, o orçamento da Segurança Social teria de duplicar.»

    Esta é uma afirmação bastante concreta e rigorosa que, presumo, nunca farias em público sem dados sólidos onde a suportar. Ora venham daí esses dados, sff ;)

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    1. Como é que o Ludwig suporta que "o DNA não codifica nada" ou "a chuva cria códigos"?

      Não suporta... cala-se bem caladinho... e finge que não é nada com ele...

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    2. Heh. Esse é um desafio complicado, que ainda por cima dá uma trabalheira a fazer as contas :)

      Basicamente a teoria é a seguinte: somam-se todas as pessoas que trabalham na ICAR, especialmente os voluntários. Nem todos fazem acção social, como é óbvio — há evidentemente um overhead devido à parte litúrgica e administrativa — que duma perspectiva estritamente secular significa desperdiçar dinheiro em actividades e pessoas não directamente ligadas à acção social, mas ok. Os números estão publicados no Anuário da Agência Ecclesia, mas não há um quadro com totais, pelo que se tem de fazer isso à mão.

      Depois vê-se quantas pessoas estão actualmente a beneficiar do apoio social numa entidade gerida pela ICAR. Isto também se consegue obter das estatísticas publicadas pela ICAR.

      O orçamento da ICAR tinha, em 2009, na parte das receitas cerca de 90 milhões de Euros; como todas as entidades sem fins lucrativos, isto significa que as despesas são sensivelmente as mesmas (na realidade, são superiores, mas a diferença vem do Vaticano e de outras igrejas nacionais).

      Com isto tem-se a noção de quanto é que custa suportar X pessoas com acção social, tendo em conta que há Y pessoas para suportar a estrutura toda da ICAR (como disse, incluindo o overhead dos ritos religiosos). Para complicar as coisas, é preciso ter em conta que muitas dessas pessoas são já suportadas em 59% pelo OE (tal como acontece na maior parte das IPSS), o que significa que na realidade parte do orçamento da ICAR para acção social já vem do OE. Mas há 41% que não vêm.

      Depois fazem-se as mesmas contas para a segurança social, que felizmente é muito mais transparente e publica os seus números com precisão e com quadros com totais. Também se sabe quantas pessoas são directamente apoiadas pelas instituições sob a alçada da Segurança Social. Mais uma vez, muitas das pessoas na Seg. Social são overhead devido a burocracia, o que é justo de comparar (e de contabilizar), já que na ICAR tb. há uma enorme e vasta quantidade de pessoas que só se preocupa com os ritos e burocracia mas não faz acção social.

      Alguém que tinha feito as continhas todas — o que leva várias semanas com o Excel à frente — sugeriu-me, há dez anos atrás, que se todas as pessoas apoiadas em instituições da ICAR passassem para instituições da Segurança Social, o montante do orçamento da Seg. Social teria de duplicar. Porquê? Porque a ICAR faz batota: tem voluntários e membros que não são pagos de todo; e porque tem uma estrutura menos burocrática para administrar tudo. Mesmo tendo em conta o overhead da parte relacionada com os ritos, isto significa que o custo de suportar a estrutura de acção social da ICAR é muito inferior, por pessoa dependente dessa estrutura, do que se esta fosse feita pela própria Seg. Social (que não tem voluntários). Isto leva a que o Estado prefira fazer acordos com a ICAR e com as IPSS (que também baseiam a sua acção em voluntariado) porque mesmo tendo de pagar alguma coisa, paga muito menos do que com a "prata da casa".

      Ora confesso que não verifiquei estes números em 2001 ou 2002 ou lá exactamente quando foi que me contaram isto; até porque duvido que essa informação estivesse toda disponível online. Não quer dizer que em 2012 se consiga obter *todos* os dados, mas consegue-se uma boa estimativa. Nem que seja por amostra dos dados disponíveis. Mas por outro lado dá uma trabalheira verificar todos os números, e por isso aceito de bom grado que a minha "afirmação" seja contestada. Talvez justamente por haver muitos mais dados em 2012 seja fácil de chegar à conclusão que a acção social da ICAR já não representa 50% do total, até porque há muito mais IPSS em 2012 do que em 2001/2, e estas usam um modelo semelhante de contenção de custos (recurso ao voluntariado e donativos), embora não sejam tão abrangentes como a ICAR (mas em compensação há muitas!).

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  6. É interessante alguém que defende a pirataria a violação maciça de direitos de autor a insurgir-se contra os privilégios (alguns deles questionáveis, é certo) da Igreja Católica.

    Curiosamente, a Bíblia tem uma resposta para isso, com o princípio cristão "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus"...

    A teoria da evolução apenas gera morais subjectivas, sem qualquer critério objectivo válido, sendo que a da Igreja Católica é uma delas...


    Curiosamente, o Ludwig, que é especialista em pensamento crítico, fica bem caladinho quando o acuso de irracional e arbitrário...

    Porque será?

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    1. Porque não se responde a trolls. "Don't feed the troll" é uma das primeiras regras da Netiqueta.

      Regra essa que acabei de violar com este comentário :)

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  8. Um estudo interessante mostra que o mistério das partículas de elevada energia adensa-se


    Para o Ludwig a resposta é simples:

    Elas vieram de um Universo que antes de ser já o era e de um nada que afinal não o era.

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  9. Off topic interessante: como evolucionistas e criacionistas bíblicos interpretam os mesmos dados de forma diferente:

    Um estudo científico interessante mostra que as asas das borboletas, sendo estruturas delicadas, produzem energia a partir da água e da luz do sol, podendo ensinar os cientistas

    1) Os evolucionistas limitam-se a especular sobre como e quando elas "evoluiram", codificaram e miniaturizaram a informção necessária a essa capacidade por processos aleatórios, durante milhões de anos.

    2) Os criacionistas limitam-se a observar que esse estudo incide sobre borboletas existentes aqui e agora, nada dizendo sobre a sua origem, e que ele fornece mais uma evidência da existência de um criação inteligente.


    Duas visões do mundo, duas maneiras de interpretar a mesma evidência.

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  10. Off topic interessante: como evolucionistas e criacionistas bíblicos interpretam os mesmos dados de forma diferente:

    Um estudo interessante mostra como os recentes desenvolvimentos da engenharia dos materiais são do que cópias do que existe na natureza...


    1) Os evolucionistas limitam-se a especular sobre a sua origem durante milhões de anos de processos aleatórios.

    2) Os criacionistas dizem que o facto de os engenheiros olharem para a natureza para desenvolverem tecnologias só corrobora a super-inteligência dos designs que nela se observa.

    Duas visões do mundo, duas maneiras de interpretar a mesma evidência.

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  11. Até os feriados “religiosos” (i.e. católicos)


    Portanto, sempre que virem o Ludwig afirmar que é contra a "religião", troquem "religião" por "Catolicismo", porque é disso exclusivamente que ele fala. Ou será só no caso dos feriados nacionais num país com 80% de adeptos da Fé Católica?

    «Se a ICAR fosse abolida em Portugal, o orçamento da Segurança Social teria de duplicar.»

    Esta é uma afirmação bastante concreta e rigorosa que, presumo, nunca farias em público sem dados sólidos onde a suportar. Ora venham daí esses dados, sff ;)


    Bem, tomando como exemplo o caso de Espanha, tirando o Estado (usando o dinheiro dos contribuintes) a Igreja Católica é quem faz mais trabalho de apoio social.

    "Em termos gerais, em 2008, a Igreja [CATÓLICA] economizou ao Estado, com suas aCtividades sociais, educativas e caritativas, 30 bilhões de euros, segundo a Conferência Episcopal Espanhola."

    Os militantes ateus (aqueles que queimam igrejas em nome dum "mundo melhor") fazem-se notar pela sua ausência. (Só aparecem quando é preciso atacar crianças Católicas que oram em público ou demonstram apoio a Bento XVI.)

    Há uma coisa que vocês minoritários militantes ateus têm que aprender: o Estado é laico mas a nação portuguesa não é. O Estado é servo do povo e não o contrário. (Pelo menos deveria ser assim)

    Atacar o Estado por este fazer a vontade a 80% da população portuguesa - sem com isso atacar a fé ateísta de ninguém - é dum espírito anti-democrático e anti-Cristão com as consequências que todos nós já sabemos. Bem, pelos vistos nem todos.

    Palavras têm consequências e o ódio anti-Católico tem que ser combatido.

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    1. Ò Lucas, pode-se criticar crenças religiosas, como falsas, e ser coerente se defender o direito de as ter e ser contra privilégios de uma religião. Quem é honesto e inteligente, sabe distinguir ambas as questões. Por exemplo, existem muçulmanos que defendem a teocracia, outros que defendem o secularismo. Os pais do dr. House, que são muçulmanos turcos, têm essas visões opostas.

      Questiono essa dos 80%. Por exemplo, os meus pais não são religiosos mas assumem-se como católicos nos censos, porque seguem algumas tradições católicas, como eu.
      Mas é irrelevante. A justiça não é apenas para a maioria (apêlo à maioria). Aliás, se fosse para a maioria, bastava a maioria impor a força. É especialmente importante para as minorias que dificilmente conseguem impor-se. O mesmo género de crítica vale também para teocracias onde a maioria é muçulmana e onde a maioria é ateia.

      Recuso-me a ler artigos do seu blog como fonte e de neoteísmos de não sei quê. Coloque as fontes diretas. D
      Já vi sites de organizações muçulmanas com fins humanitários universais com os registos especificadas (o que recebem, impostos, para que se destinam). O que vejo em sites católicos é lamentarem-se que não têm dinheiro, o que é paradoxal. Pelo que percebi, são os estados que dão mais apoios e em segundo individuais, como Warren Buffet e Bill Gates.

      Posso estar equivocado e o que afirmas em relação aos apoios sociais pode ser verdade, mas teria de ver valores comparativos. Mas mesmo admitindo que estou errado, não se está contra apoios sociais de organizações religiosas nem apoia-se vandalismos de igrejas. Isso é mais uma falácia de ataques pessoais, associando grupos dos quais nem sequer nos identificamos (como os anárquicos) com as críticas que fazemos.

      E isso de "ódio anti-católico" é mais uma treta, como as do Nuno Gaspar. Também posso acusar-te de ódio-ateu. Tratam-se de críticas, como também estás a criticar.

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    2. Atenção a essa dos "80% dos portugueses são católicos" e, como tal, "representados" pela ICAR. Esses números contabilizam praticantes e simpatizantes, o que é uma forma intelectualmente desonesta de dar a entender que há muitos mais católicos do que na realidade existem. Que hajam 80% de simpatizantes (ou mesmo mais) isso não me admira. Que esses simpatizantes sejam considerados "católicos" já é outra conversa! Eu sou "simpatizante" do FC Porto mas não sou contabilizado como sócio, nem sequer vou a um jogo do FC Porto há mais de 25 anos, e não tenho TV em casa para acompanhar os jogos, nem leio os jornais desportivos. Nem sei quem é o actual treinador! Sei que o Presidente é o Pinto da Costa e pouco mais.

      Da mesma forma, 80% dos portugueses provavelmente sabem que o Papa actual tomou o nome "Bento XVI" (mas duvido que saibam qual seja o seu nome de baptismo ou que o saibam sequer escrever correctamente) e até simpatizam com alguns aspectos da mensagem de Cristo, mas não tencionam colocar os pés numa Igreja (excepto em 3 ocasiões: quando são baptizados, quando se casam pela primeira vez, e quando morrem), nem tencionam seguir quaisquer preceitos ou rituais sugeridos pela ICAR, desconhecem o seu catecismo, nunca leram a Bíblia (ou, melhor, o Novo Catecismo), nunca sequer discutiram teologia com um padre (ou com um vizinho!). Intitulá-los de "católicos" é stretching the point". Contabilizá-los de "católicos" em nome de mostrar a importância da ICAR é desonestidade intelectual.

      Pelo contrário, aceitar que talvez 6 a 8% dos portugueses seja de facto católico praticante (porque isso de se ser "católico não-praticante" é como eu ser simpatizante do FC Porto...) é muito bom, e só dá mérito a esses 6 a 8% que realmente se empenham em seguir os ensinamentos de Cristo da forma como a ICAR os transmite; merecem toda a minha consideração.

      c.f. http://arundel.wordpress.com/2012/04/19/a-falacia-da-autoridade/

      Isto em nada retira o mérito da acção social da ICAR e da sua importância enquanto instituição de cariz social. Talvez me preocupem bem mais que haja quem apoie as pessoas carenciadas todas que estão sob a alçada da ICAR do que o número de "simpatizantes" da ICAR (que, no entanto, pouco interesse sequer têm em apoiar a sua obra social, seja financeiramente, seja como voluntários).

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  12. Depois do dilúvio, um verdadeiro cataclismo global, a Bíblia dá conta de um decréscimo significativo da extrema longevidade dos pré-diluvianos.

    Um estudo científico recente demonstra que os códigos epigenéticos podem potenciar uma maior longevidade humana e que as alterações climáticas podem afectam esses códigos...

    Visto à luz deste estudo, o relato bíblico sobre um cataclismo global e queda da longevidade ganha outra relevância...

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  13. «A Santa Sé, reafirmando a doutrina da Igreja Católica sobre a indissolubilidade do vínculo matrimonial, recorda aos cônjuges que contraírem o matrimónio canónico o grave dever que lhes incumbe de se não valerem da faculdade civil de requerer o divórcio.»

    Hoje no Público:

    "Ana, 25 anos, licenciada em Psicologia
    "As vítimas somos nós"


    É incrível o ruído causado pelas pessoas que dizem falar em nome das crianças e se esquecem de as ouvir. Parece que ainda não perceberam: o problema do fenómeno da alienação parental não está no nome que se lhe dá, não está na possibilidade de as mulheres serem difamadas por uma sociedade machista ou na dos homens serem alvo de preconceitos feministas. Odeio esta palavra, mas tenho de a usar para que entendam: as vítimas não são os pais nem as mães, as vítimas são os filhos, as vítimas somos nós.


    Falo porque acho que é urgente que sejamos ouvidos. E protejo a minha identidade porque a minha história não é só a minha história - é também a do meu irmão, a da minha mãe, a do meu pai e a dos meus avós.

    Os meus pais separaram-se quando eu tinha 14 anos. Talvez seja a idade mais complicada. Ninguém consegue obrigar um adolescente a ir ter com o pai e esse desencontro abre o espaço e o tempo necessários para promover a alienação parental. Foi o que aconteceu no meu caso. Não sei dizer como começou ou quando começou. Até porque não são precisas acusações explícitas, a alienação parental pode ser um processo lento e insidioso.

    etc.

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    1. http://oficinadepsicologia.blogs.sapo.pt/80259.html
      "Para isso os filhos precisam que os pais se relacionem de uma forma construtiva, independentemente de estarem separados ou não. Eles sofrem quando estes discutem e sofrem ainda mais se se vêem envolvidos nessas mesmas discussões o que abala profundamente os seus sentimentos de segurança." ...

      http://saude.abril.com.br/edicoes/0292/bem_estar/conteudo_293426.shtml
      ""Há separações que libertam o indivíduo e permitem uma vida mais saudável", diz a psicóloga Isabel Cristina Gomes, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Alguns dos pacientes que ela atende no consultório chegam com queixas de problemas cuja origem está no relacionamento. "Insônia, depressão, ganho de peso e irritabilidade são alguns exemplos", enumera."

      http://www.clinicapsicologialisboa.com/clinica_psicologia_lisboa_terapia_casal.htm
      "Seja através da reconciliação, e nesse caso, proporciona o ressurgir da felicidade, o companheirismo, a partilha e o amor outrora existente e agora desvanecido, seja através da separação, e neste caso, apesar de sofrida a decisão, o que está sempre em primeiro lugar é a felicidade que se espera ter na vida. Seja como for, a Terapia de Casal ajuda a compreender melhor a relação e a tomar decisões mais reflectidas."

      http://www.apsicologa.com/2012/04/mulheres-vitimas-de-violencia-emocional.html
      "Em primeiro lugar, porque acreditam que o agressor é capaz de mudar. Acreditam nas promessas. Afinal de contas, há momentos bons entre cada episódio de violência. Em segundo lugar, porque destas relações há muitas vezes crianças que a vítima ACHA que está a proteger dos danos de um divórcio."

      http://www.apsicologa.com/2010/09/violencia-domestica-separacao-e.html
      "Assim, é precisamente quando a mulher decide avançar para a separação que os familiares e amigos devem reforçar a sua presença. Não é fácil encarar um processo destes, mas com apoio emocional e perseverança tudo se consegue. Importa lembrar que, independentemente destas dificuldades, a longo prazo as consequências são normalmente positivas e que, em muitos casos, sair de uma relação violenta é, sobretudo, uma questão de sobrevivência, quer da mulher, quer das crianças envolvidas."

      Não é muito romântico, mas demonstra que pode-se usar psicólogos para defender que o divórcio pode ser preferível e que isso não significa alienação dos filhos. Também posso usar advogadas:
      http://www.apmj.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=107:comentario-da-dra-lia-araujo&catid=44:comentarios&Itemid=73
      "Ao advogado/a cabe ter uma postura de esclarecimento mas também de alento, incutindo na cliente a certeza de que o Direito e as Instituições dão resposta ao seu problema.A verdade é que “existem muitas mulheres agredidas que desconhecem as alternativas legais e sociais ao seu dispor para por fim a uma relação conjugal violenta”(Dias, 2004:12)."

      Mas lembro que segundo a Bíblia, Jesus é permitiu como legítimo o divórcio, não por causa de violência doméstica, mas por causa de fornicação.

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  14. http://www.publico.pt/Sociedade/as-vitimas-somos-nos-1543085?all=1

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  15. Off topic interessante: como evolucionistas e criacionistas bíblicos interpretam os mesmos dados de forma diferente:

    Um estudo interessante mostra como as as bactérias dispõem de um mecanismo que previne as mutações e protege os genes mais importantes para a sobrevivência


    1) Os evolucionistas consideram que elas devem ter "evoluído" esse mecanismo por acaso nalgum momento do seu passado.

    2) Os criacionistas acham que sem esse mecanismo elas não conseguiriam sequer sobreviver e que ele corrobora que as mesmas foram inteligentemente programadas por alguém que sabia a distinção entre informação crucial e não crucial à sobrevivência.


    Duas visões do mundo, duas maneiras de interpretar a mesma evidência.

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  16. O que me choca na atitude do Prof. Ludwig Krippahl já nem é tanto a chacota e a total falta de respeito e consideração que demonstra para com aqueles que encontram um sentido religioso para a vida - a isso já nos temos vindo a habituar ao longo da história - mas sim o facto de não ter a capacidade de alargar o seu horizonte (cintífico ou não) ao fenómeno religioso apenas porque não o compreende. É como se, vendo alguém pendurado no alto da torre de Pisa a efectuar a incompreensível tarefa de lançar objectos cá para baixo, se limitasse a exclamar: "Que treta!"

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    1. MAC, pode-me apresentar exemplos de "chacota e a total falta de respeito e consideração".

      Se trata-se de exemplo de sátiras de ideias noutros posts, como um bom meio de defender que são absurdas, certamente que tem criticado resrespeito e falta de consideração de religiosos em relação a ateus, até mesmo de comentadores deste blog. Não me refiro a crítica a ideias: refiro-me a claras expressões de ódio, como calúnia, ofensas pessoais expostas a público, tentativa de censura por DMCA, envio de mensagens a colegas de trabalho.

      E não se explicou com o que quer dizer com "a capacidade de alargar o seu horizonte". A analogia que fez da torre de Pisa é adequado à vagueza do seu comentário. Lá teremos de adivinhar o que quer dizer:
      1) Se trata-se de conhecimento da religião universal, pelo menos na América parece que os ateus têm mais conhecimento nessa matéria do que os religiosos. Será que só por ser um crítico da religião, isso significa que é ignorante sobre a religião?
      2) Se é mais na vertente psicológica, neurológica, evolutiva e social, não me parece (claro que posso estar enganado) que os religiosos tenham mais interesse nessas matérias. Pelo menos, em todas as instâncias das quais me deparei, os interessados eram os ateus.
      3) Se trata-se de um fenómeno subjectivo, "alargar o seu horizonte" significaria deixar de ser ateu e ter as mesmas crenças de religiosos. Será como um gay a convencer-te a alargar os teu horizonte (e não só). Além disso, religiosos não vivem os mesmos fenómenos religiosos. Se o que defendes é que existe essa obrigação, você é que é o intolerante.

      E não comentou o post do Ludwig, por isso pergunto-lhe em que é que discorda.
      Acha que devem existir privilégios de uma religião em detrimento de outras religiões, ao ponto de uma teocracia imiscuir-se na política de uma nação secular?

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  17. MAC,

    O "fenómeno religioso" é um termo vago que pode referir duas coisas diferentes. Pode referir o aspecto social do conjunto das religiões, e esse até pode ser compreendido melhor por quem se consiga afastar de qualquer religião individual e olhar para o padrão como um todo. Que características fazem com que umas religiões perdurem e outras não, quais as consequências de uma religião dominar uma sociedade, etc. Ou então pode referir aquilo que o crente religioso sente, individualmente, no seu íntimo. O sentido que as suas crenças têm para si, os seus valores, etc. E isso só cada um é que pode compreender verdadeiramente o seu. Nem o cristão pode compreender realmente o que sente o crente muçulmano, nem o muçulmano compreende o que sente o judeu, nem o judeu o que sente o budista.

    Eu tento largar os meus horizontes e compreender os aspectos sociais da religiosidade. E esses preocupam-me. Por exemplo, esta Concordata, que concede privilégios inadmissíveis a uma religião em detrimento das outras e dos cidadãos de Portugal em geral. Quanto aos aspectos pessoais, íntimos, de cada religião, cada um que fique com os seus.

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    1. Prof. Ludwig Krippahl, perdoe-me a insistência mas penso que o exemplo que dei fala por si. É preocupante que alguém com a responsabilidade intrínseca de representar o mundo académico considere aceitável que se "esqueça" a existência de um determinado fenómeno: O "alargamento de horizontes" que refere toca apenas em aspectos sociológicos (que aceita poderem abordar-se) e psicológicos (que me pareceu considerar impossível de serem estudados?) do fenómeno, mas não no seu aspecto religioso (se assim me posso exprimir). Parece-me no entanto difícil de argumentar a inexistência do fenómeno religioso como tal, sendo o referido termo tão "vago" como qualquer outro, principalmente quando não conhecemos ou compreendemos a matéria.
      Muito mais preocupante é o insulto permanente para com quem não pensa como o Prof. Ludwig Krippahl: não o dignifica, nem à instituição que representa.
      Nota: quanto à Concordata, é evidentemente sempre discutível. Eu também não concordo com a "concordata" entre o CCB e o Sr. Joe Berardo (para dar um exemplo). Mais uma vez, onde o Prof. Ludwig Krippahl erra, é na forma indigna com que se refere à instituição que maior mérito tem no campo da acção social (que é um tema que lhe é certamente caro).

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    2. Ó MAC,

      O Ludwig segue as orientações do seu guru:

      http://neoateismoportugues.blogspot.com.br/2012/04/richard-chicken-dawkins.html

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    3. O fenómeno religioso deve merecer, pelo mundo académico, o mesmo grau de respeito que todas as crenças com igual grau de fundamentação - desde a homeopatia, à astrologia. Deve ser respeitado, enquanto conjunto de crenças colectivas ou individuais que qualquer um deve ser livre de aderir pessoalmente ou defender publicamente, e deve ser criticado de forma livre, franca e frontal por quem as considera um equívoco.

      Preocupante é considerar que esta crítica frontal e descomprometida que deve caracterizar o livre debate de ideias no coração daquilo que deve ser a Academia é um insulto permanente que deveria ser silenciado.

      Os docentes honram a instituição que representam quando exercem aquilo que é próprio da Academia: o debate de ideias verdadeiramente livre, sem medo de afrontar as ideias mais populares ou associadas a instituições mais poderosas.

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    4. Sr. João Vasco, não quero eternizar este tipo de discussão. Fiquemos por aqui com um curto reparo quanto à sua candura relativamente à forma como o Prof. Ludwig Krippahl "critica livremente" a religião. Mas, como referi em comentário anterior, tal não me afecta grandemente. Afecta-o a si e ao Prof. Ludwig Krippahl pelas razões que também já referi.

      Entretanto, se na sua opinião a religião é digna de respeito, agradeço que começe por não comparar um católico à astróloga Maya, da mesma forma que agradecerei que não compare um cientista ao senhor Pons ou Fleischmann. Pôr tudo no mesmo saco é, já de si, um insulto (a menos que seja fruto de uma total ignorância relativamente ao referido fenómeno religioso).

      Já agora uma correcção: a religião católica não se baseia numa crença, baseia-se numa fé.

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    5. A correcção está incorrecta. As proposições baseadas na fé têm algo em comum com as proposições a que chamamos «conhecimento»: são crenças. Enquanto que as crenças a que chamamos conhecimento terão de ser, além de verdadeiras, justificadas, o mesmo não pode ser dito em relação à fé.
      (Um bom texto que expõe essa questão: http://dererummundi.blogspot.pt/2007/04/o-que-f.html )

      De resto, eu não mencionei nunca a astróloga Maya. Existem vários astrólogos e muitos deles afirmarão que é uma falta de respeito e um insulto serem colocados na mesma categoria que a astrólogas Maya.

      Se não acredita que a astrologia merece o mesmo respeito que a religião católica deveria justificar os seus critérios. Nunca encontrei um argumento válido que justificasse a uma dessas crenças uma posição epistemologicamente mais confortável que a outra. Nem um.

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    6. Não vamos eternizar isto, por favor; estamos a andar às voltas sem qualquer resultado. Penitencio-me entretanto pela falta de rigor na minha afirmação anterior. Reformulo-a: A religião católica não se baseia numa simples crença, baseia-se numa fé.

      A astrologia a) é uma superstição, b) com veleidades de ciência.
      O catolicismo a) é uma religião, b) que reconhece que os seus princípios fundamentais (como a existência de Deus) transcendem o campo de aplicabilidade do método científico.

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    7. Quanto ao «A religião católica não se baseia numa simples crença», estamos de acordo que não é necessariamente «simples», mas não creio que a «simplicidade» venha ao caso. Falava de falta de fundamento epistemológico para ser distinguido daquilo a que o MAC chama de «superstição» (obviamente quem crê nas superstições não as considera como tal).

      Isto leva-nos à astrologia, que eu também considero ser uma superstição. Apesar deste acordo entre ambos, ele significa pouco, pois discordamos dos critérios que levam a esta conclusão.
      Tanto quem acredita na astrologia como quem acredita no catolicismo nega que as suas crenças sejam supersticiosas.
      O que acontece é que não há um critério sólido, com validade epistemológica, que permita rejeitar a astrologia e aceitar o catolicismo.
      O MAC ainda afirma que a astrologia tem veleidades de ciência, mas essa é uma afirmação de quem tem uma visão muito superficial sobre a astrologia. Na astrologia, tal como no catolicismo, não existe um mas vários discursos, e se uns são menos sofisticados e mais «milagreiros» (uma faceta que é apresentada sem pudor aos mais crédulos); outros não têm realmente veleidades de ciência, são menos acertivos (a palavra «dúvida» é mais mencionada), e focam mais as limitações da cognição humana, e a incapacidade de se ter certezas seja do que for (esta faceta mais sofisticada tende a ser apresentada aos mais cépticos).

      Quanto aos apelos para terminar a discussão, eu deixarei de responder quando uma de duas condições ocorrer:
      a) não tiver nada a acrescentar, responder, corrigir ou comentar
      b) não tiver tempo, disponibilidade ou vontade para o fazer

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    8. Pois, provavelmente um dos problemas será o facto de eu estar a criticar a astrologia sem a conhecer realmente bem e o João Vasco estar a criticar a religião católica também sem a conhecer realmente bem - e.g. o catolicismo define superstição como um vício contrário à religião, no catolicismo existe mesmo um, e apenas um único discurso (oficial claro está, cada um pode dizer o que lhe apetece), etc.). Falar sobre o que não sabemos acaba por ser um erro que cometemos vezes demais e que deveria ser evitado. Pela minha parte recrimino-me e tentarei não o repetir. Como também considero que o discurso já está a perder alguma objectividade, termino então eu, se não mo levar a mal. Foi um prazer esta breve troca de opiniões.

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    9. Ó MAC,
      O João Vasco e seus gurus, na falta de argumentação, socorrem-se habitualmente de fazer uma pacote bem embrulhadinho com todas as religiões, a astrologia, a homeopatia e o professor Caramba. E também querem ver a não crença tratado toda por igual. Isso coloca o pensamento crítico que dizem utilizar numa ferramenta de compreensão da realidade bem mais próxima da cartomancia do que da ciência. Curiosamente, nos dias que correm, não há semana que não apareça uma nova seita gnóstica usando a palavra ciência no nome. Isto anda tudo ligado.

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    10. Nuno Gaspar,
      Dizes «na sua falta de argumentação» mas é o contrário: tu é que não consegues encontrar argumento que justifique que algumas dessas crenças mereçam a falta de respeito que lhes tens. Por isso, em vez de conversar, desconversas.
      E quanto a «gurus», posso dizer que me apercebi que os critérios que me levavam a descartar a astrologia e outras alegações sobrenaturais levariam também a rejeitar a religião muito antes de conhecer o Ludwig, o Dawkins, ou seja quem for que insinues - sem justificação alguma - que é o meu «guru».


      MAC,
      Existem vários discursos no catolicismo, até mesmo no que diz respeito a várias interpretações que são feitas do discurso oficial. Para dar o exemplo de comentadores deste blogue, o discurso do Bernardo Mota é muito diferente (quase oposto) do discurso do Alfredo Dinis, mas nenhum deles admitirá estar em contradição com o discurso oficial.
      Na verdade o próprio discurso oficial é vago o suficiente para que perspectivas tão diversas (a resposta dos Dominicanos e Jesuítas à questão do significado da Omnisciência é quase oposta) possam alegar estar em sintonia com ele.

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    11. Se se reduzir a discussão da religião à epistemologia, então obviamente que não haverá ponta por onde se lhe pegue, e será difícil de distinguir «religião verdadeira» (o que quer que isso queira dizer) de «meras crendices e superstição» (mais uma vez, independentemente do que isso queira dizer).

      Com certeza que muitos defensores da religião (basta olhar para os vários grupos criacionistas...), seja ela qual for, gostam de acreditar que há na sua religião bases para aquisição de conhecimento sobre o universo (e negam a todas as outras religiões/crenças que essas bases existam).

      Mas isso é uma perspectiva redutora e que parte do princípio de que «religião» é, de alguma forma, um «método alternativo de aquisição de conhecimentos». Se for só isso que «religião» é, então essa afirmação — de que é um método alternativo — carece de substanciação lógica, já que as suas premissas principais de aquisição de conhecimento são dogmas que não podem ser contestados.

      Geertz propõe uma definição muito mais abrangente de religião. Cito da Wikipedia: «Religion is a collection of cultural systems, belief systems, and worldviews that establishes symbols that relate humanity to spirituality and, sometimes, to moral values.[1] Many religions have narratives, symbols, traditions and sacred histories that are intended to give meaning to life or to explain the origin of life or the universe. They tend to derive morality, ethics, religious laws or a preferred lifestyle from their ideas about the cosmos and human nature.»

      Penso que isto transmite uma perspectiva muito mais vasta e que permite igualmente «separar as águas» (se se achar que seja necessário fazê-lo...): a visão de uma religião enquanto sistema cultural que, propondo uma cosmologia, sugere uma conduta ética para a criação de uma comunidade que siga determinados princípios éticos e morais. Nesta definição de Geertz devemos ter em conta a inclusão da palavra «espiritualidade», e mais uma vez faço referência à Wikipedia para uma definição mais abrangente dessa palavra, nomeadamente «[...] ideas on qualities such as love, compassion, patience, tolerance, forgiveness, contentment, responsibility, harmony, and a concern for others, aspects of life and human experience which go beyond a purely materialist view of the world, without necessarily accepting belief in a supernatural reality or divine being». Nesta classificação inclui-se o Humanismo, que considera existirem formas legítimas de promover esse tipo de valores sem precisar de recorrer a uma cosmologia supernatural.

      Na essência de muitas religiões (pelo menos das principais) o objectivo está em demonstrar que a adesão a esses valores espirituais conduz a uma vida melhor e mais feliz não só para quem os pratica como para todos aqueles que estão em contacto com essa pessoa. O Humanismo consegue fazê-lo com argumentação puramente lógica sem recorrer a explicações supernaturais (o budismo também o faz, mas é porque não encontra nada de «supernatural» mas apenas coisas naturais; aquilo a que convencionalmente chamamos de «supernatural» são meramente experiências da mente interpretadas de acordo com convenções culturais, e, como tal, têm tanta existência intrínseca como um sonho). A palavra «religião» (re-ligare; a «voltar a unir») apenas implica, por parte do praticante de qualquer religião, que este se pretende a ligar de novo com esses valores, que por alguma razão (... cuja «explicação» depende da mitologia/cosmologia em questão) se «perdeu».

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    12. Sistemas vulgarmente chamados de «crendice» ou «superstições» raramente têm um sentido tão abrangente, embora também seja difícil de dizer que em todos esse sentido esteja ausente. Regra geral são mecanismos, métodos ou técnicas em que o princípio de causalidade para produzir determinado efeito não têm uma componente física ou material, e, como tal, a ligação entre os dois efeitos não pode ser mensurado ou observado por processos físicos. Obviamente que praticamente todas as religiões «acreditam» em mecanismos deste género; mas eles existem dentro do contexto mais abrangente da criação de uma sociedade ou cultura com determinados valores considerados saudáveis para essa sociedade (ex. rezar a um deus qualquer para que haja paz, pedir-lhe a salvação para todos, etc.). E obviamente que existem modelos de superstições que talvez tenham como intuito a criação de uma sociedade mais saudável, mas pessoalmente conheço poucos (estava a tentar lembrar-me de algum mas não consigo :) ).

      Penso que nestes comentários se está a confundir um pouco estes níveis todos. Por exemplo, o cepticismo não é uma religião, nem um mecanismo espiritual; é apenas um método epistemológico para aquisição (ou rejeição) de conhecimento. Humanismo — que é ateu e céptico — é um método espiritual de auto-desenvolvimento pessoal com o objectivo de construir uma sociedade com determinados valores. Democracia é um modelo de sociedade humanista (que segue esses valores). Em contraste com isto, podemos colocar «fé» como um método de aquisição de conhecimentos baseados em dogmas; cristianismo como um método espiritual para construir uma sociedade de acordo com esses dogmas; e o «Reino de Deus na Terra» é o modelo da sociedade ideal proposto que segue esse método.

      De um ponto de vista da argumentação lógica, não faz sentido empregar argumentos a níveis diferentes. A crítica de que há falta de fundamento epistemológico para a aquisição de conhecimentos, seja via «superstição», seja via «religião», está a misturar os dois níveis. O que devia é ser criticado que não há fundamento epistemológico tanto para a «crença» como para a «fé»; depois pode-se procurar criticar se os conhecimentos adquiridos pela «fé» são ou não válidos para a construção de uma sociedade melhor baseada em valores espirituais para além do materialismo físico. Pessoalmente, vejo-os apenas como métodos mais hábeis para encorajar esses valores, para aqueles que não têm capacidade para usarem outros métodos. Ou seja: é preciso tirar um curso superior em filosofia, sociologia, antropologia e psicologia para compreender a argumentação de como os valores propostos pelo humanismo secular permitem a construção de democracias, e algum traquejo em leitura de artigos científicos que explicam empiricamente porque é que isto é universalmente válido. Em compensação, para criar o «Reino de Deus na Terra» basta fé num deus que quer que isso aconteça. Para a esmagadora maioria da população mundial, este método é muito mais fácil, e pode conduzir ao mesmo resultado, sem requerer muitos conhecimentos e muita argumentação racional.

      [1] Clifford Geertz, Religion as a Cultural System, 1973

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    13. Luís Miguel Sequeira,

      Essa definição é realmente mais abrangente do que aquilo a que me estava a referir com a palavra «religião» neste contexto (aludindo a diferentes crenças em diferentes deuses - crenças cristãs, islâmicas, etc...) e inclui, como bem disse, "religiões" compatíveis com o ateísmo tais como o humanismo. Creio que é isso que explica a suposta confusão dos níveis: «O que devia é ser criticado que não há fundamento epistemológico tanto para a «crença» [num Deus] como para a «fé»;» era isto mesmo que pretendia dizer.

      «depois pode-se procurar criticar se os conhecimentos adquiridos pela «fé» são ou não válidos para a construção de uma sociedade melhor baseada em valores espirituais para além do materialismo físico.»
      Essa é realmente uma questão interessante.
      Eu tendo a aceitar a heurística da «Verdade» que me levaria «a priori» a suspeitar que uma religião baseada numa falsidade teria um efeito pernicioso, i.e. tende a prejudicar a construção de uma sociedade melhor.
      E olhando para a realidade, o que vejo? Parece-me que as religiões incompatíveis com o ateísmo têm geralmente efeitos perniciosos nefastos. Um deles é promover a aceitação das hierarquias, a obediência (Exemplo: http://www.sociology.fsu.edu/people/starks/Who_Values_The_Obedient_Child_Now.pdf), quando acredito que a humanidade deve caminhar no sentido da horizontalidade.
      O outro, prende-se com aquilo que foi aqui apresentado como uma vantagem: a moralidade. É verdade que a religião é uma via «fácil» para o comportamento moral: não é necessária uma reflexão muito aprofundada para acreditar que não se deve roubar ou magoar os outros, para estimular e dar importância aos sentimentos de empatia que existem naturalmente nos seres humanos saudáveis, fazendo com que se reflictam no comportamento diário. Mas esta facilidade tem dois enormes custos: em primeiro lugar torna a moralidade aceite algo profundamente hierárquico e provindo de instituições que são «parte-interessada». Por exemplo: religiões que tenham, ao longo da história, promovido como morais comportamentos natalistas (condenação da homossexualidade, do planeamento familiar, etc...) impuseram-se face às que não o tenham feito. Assim, a moralidade dominante reflecte os interesses das instituições religiosas que deles beneficiaram, e isto aplica-se também ao espírito crítico (a relação entre a supressão espírito crítico e a aceitação de hierarquias está muito bem explorada no 1984).
      Por outro lado, as reflexões éticas que devem estar na base da evolução da moralidade acabam por ser «contaminadas» por considerações associadas a crenças que não estão devidamente fundamentadas.

      O problema apresentado não é um problema que deva ser descartado. Nas últimas décadas muitas pessoas que deixaram de dar valor à religião (mesmo que continuem a identificar-se como crentes) não se viraram para a Filosofia, para fazerem profundas reflexões sobre a ética: foram beber a moralidade à televisão/publicidade, que encorajou o hedonismo e a vaidade sem limites (não é por acaso que nos últimos 10-20 anos deixei de ouvir a palavra «vaidoso/a» como crítica/insulto), e o consumismo desenfreado. O lado positivo deste individualismo egoísta foi também uma maior tolerância a diferentes estilos de vida, cores de pele, orientações sexuais, etc.. Voltar para trás, para uma moralidade hierárquica ao serviço de instituições com raiz em crenças que temos boas razões para rejeitar não parece ser a resposta. É preciso encontrar novas de pensar a moralidade em comum, e fazer a discussão chegar a todos - afinal, (quase) todos têm os instintos de empatia e reciprocidade que estão na base da nossa procura por um bom sistema moral.

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  18. Vais ter muitas saudades da Concordata, Ludwig

    https://docs.google.com/viewer?a=v&pid=gmail&attid=0.1&thid=136eb91f25188d87&mt=application/vnd.ms-powerpoint&url=https://mail.google.com/mail/u/0/?ui%3D2%26ik%3Dcc12267c17%26view%3Datt%26th%3D136eb91f25188d87%26attid%3D0.1%26disp%3Dsafe%26zw&sig=AHIEtbSROceQZWuqsHAfFvBayM7FUsZxJg&pli=1

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    1. Não se consegue ver o documento em causa.

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    2. Obrigado. Experimenta agora, JV

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  19. Continuo sem conseguir ver :s

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    1. E agora?

      http://www.slideshare.net/Robwag/apocalipse-chamado-isl

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  20. Agora dá para ver o documento.

    Mas surpreende-me que coloques isto aqui. No DA foram feitas afirmações do tipo, e todos os que as fizeram foram chamados de intolerantes para baixo.

    Que não, que não era a religião, que não era o Islão, eram os fundamentalistas. Eram aqueles que não interpretavam devidamente os livros sagrados, que o Islão era uma religião de Paz.

    Tudo bem, e o cristianismo também. Porque além das cruzadas, existiu a conversão forçada dos indígenas norte-americanos, existiu a inquisição, existiram inúmeras guerras religiosas. Mas ambas são religiões de Paz, e os fundamentalistas é que fazem as guerras e a violência.

    E realmente não é uma questão simples. Eu - já o disse várias vezes - acredito que a religião tem uma influência perniciosa na moralidade, e não defendo necessariamente que são todas iguais a este respeito - algumas têm uma influência mais perversa que outras. Não atribuo toda essa violência ao Islão, nem de perto, mas acredito que essa religião (como outras) teve uma influência negativa a este respeito, e é parcialmente responsável pela violência em causa. Jerusalém não seria o palco de guerra e morte que é se não existissem religiões.

    Mas tu??? Estás sempre a criticar o discurso que agora promoves!
    Às vezes ficas tão ofendido com associações bem menos graves que as que aqui divulgas. Até me pergunto se de facto acreditas naquilo que colocaste ou é uma espécie de sátira.

    Apresenta isso ao Luís Grave Rodrigues, que ele aproveita 90% do que aí está, e faz um post bombástico no DA.
    Mas não fiques todo ofendido quando ele faz o mesmo por sua própria iniciativa.

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  21. João Vasco,
    Há formulações religiosas baseadas no islamismo, no cristianismo, e até no ateísmo, com interesse e sem interesse. O ponto é que o movimento a que aderes, tratando tudo da mesma maneira, favorece a expansão do que não presta.

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  22. Não me parece que nenhum movimento trate tudo da mesma maneira: nunca vi acusar os Quakers ou Bahá'is de estarem associados à violência no DA ou seja onde for. Mas essa apresentação trata o Islão todo da mesma maneira, como não admites que o Cristianismo seja tratado.

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