Sexta-feira, Maio 23, 2008

Da mediocridade.

A leitora Granada chamou-me a atenção para a conotação pejorativa do “medíocre” com que caracterizei a maioria do que se escreve, lê, ouve e vê na comunicação social e na Web (1). Penso que não é culpa da palavra, pois designa mediano, nem bom nem mau. A culpa é talvez do uso politicamente correcto de “medíocre” para designar o que é mau ou das expectativas pouco realistas das pessoas, a maioria das quais se considera acima da média (2). Se alguém disser que metade dos Portugueses tem uma inteligência abaixo da mediana muitos verão ofensa no que é apenas a definição da palavra.

Não há mal em estar na média e é inevitável que a maioria dos actos esteja lá perto, com metade ligeiramente acima e metade ligeiramente abaixo. Não é uma classificação que eu aplique às pessoas em si. Não vejo critérios razoáveis para decidir quem é melhor, pior, ou calcular a qualidade média das pessoas enquanto pessoas. Mas aplica-se bem à maior parte do que fazemos. E a maior parte do que fazemos é medíocre, perto da média. O excepcional é raro por definição.

Como preferimos fazer o que fazemos melhor, os profissionais tendem a ser pessoas com capacidades inatas acima da média para desempenhar a sua profissão. Mas porque o excepcional é raro a diferença, em média, é pequena. Em média os taxistas não são condutores exímios, os professores não são extraordinariamente cultos e os contabilistas não são génios do cálculo. A diversidade dentro de cada grupo é maior que a diferença média aos outros grupos e, por isso, muitos “amadores” superam muitos profissionais. Até em profissões especializadas é fácil reconhecer que a diferença está principalmente na formação e que o dom pessoal é irrelevante, salvo raras excepções. A média é medíocre por definição.

Mas os meios de comunicação de massas apresentam músicos, jornalistas, escritores e realizadores como imunes a esta lei da probabilidade. Nestas profissões o excepcional é a norma e todos estão acima da média. Impossível, é certo, mas esta indústria vende fantasias e controlava quem dizia o quê e a quem. Foi-lhe fácil criar o mito do Autor. Este ser fantástico supostamente cria do nada coisas tão extraordinárias que merecem legislação especial para que a industria as possa vender enquanto contina com elas em sua posse.

E a ilusão era boa. Ninguém pagaria aulas de Francês se lhe proibissem de falar em público, mas a ideia que quem compra um CD com uma sequência de números está proibido de fazer contas com esses números e dar o resultado a outros não levantou protestos. A ausência de um manguito colectivo imediato testemunha a perfeição da ilusão. Muitos até acreditaram que era por serem bens intelectuais que estas coisas tinham que ser “protegidas”. Nem os anos de escola a aprender línguas e ciência nem a cultura que os rodeava fez duvidar que a produção intelectual humana carecesse de “protecção” jurídica.

Mas a ilusão era frágil. Só controlando a comunicação se podia esconder que autor é uma profissão como outra qualquer, com uma pitada de excepcional numa massa inevitavelmente medíocre. Não no sentido pejorativo mas no verdadeiro sentido da palavra. Faz volume sem ser bom nem mau*. Mas conforme o acesso se vai abrindo torna-se evidente que a maioria dos profissionais pagos para criar não são mais dotados que muitos amadores que criam porque lhes apetece.

A Web não tornou a cultura medíocre. A Web mostrou que sempre foi medíocre a maior parte da treta que nos vendiam como cultura.

Há também, como em todas as profissões, uma minoria verdadeiramente má. Mas chamar a essa medíocre é atentar contra a palavra.
1- O culto de comunicar
2- Wikipedia, Lake Wobegon Effect

Quinta-feira, Maio 22, 2008

Cdesign Proponentsists

Um exemplo eloquente da integridade, competência e incansável luta pela verdade que caracterizam o movimento criacionista.



Via Pharyngula, e mais detalhes na Wikipedia

Quarta-feira, Maio 21, 2008

O culto de comunicar.

Imaginem que pegava a moda de apagar a televisão ao jantar e as famílias passavam o serão a conversar, os miúdos contavam o que tinham feito na escola, alguém lia um livro em voz alta ou simplesmente falavam do que lhes apetecia. Acabava-se o negócio do Big Brother dos Famosos e das novelas, das reportagens sobre a Maddie e sobre o futebol. É esta a tragédia que assola a Internet, segundo «O Culto do Amadorismo» de Andrew Keen e segundo o anúncio da edição portuguesa deste livro no De Rerum Natura*:

«Os mais prestigiados jornais e revistas da actualidade, a indústria musical e cinematográfica são postos em causa por uma avalanche de conteúdos amadores criados pelos utilizadores das redes digitais.[...] Quando bloggers, podcasters ou videógrafos anónimos podem publicar sem os constrangimentos de padrões profissionais ou filtros editoriais, esbatem-se as fronteiras entre o verdadeiro e o imaginário.»(1)

É realmente trágico. Milhões de pessoas preferem a Wikipedia aos “padrões profissionais” do 24 Horas e do Jornal do Incrível. Perde-se a tradicional reportagem científica escrita por um licenciado em jornalismo que, apesar de não perceber nada do que está a escrever, tem uma cartolina plastificada a dizer “Imprensa” e em vez disso restam só os blogs de investigadores que trabalham na área e que falam do que sabem sem “filtros editoriais”. Pior que tudo, agora as pessoas opinam de graça e estragam o negócio a quem opinava por elas.

Sarcasmo à parte, não vejo que isto seja mau. A maior parte do conteúdo dos jornais, TV e cinema é, e sempre foi, treta. Esta indústria cresceu graças à nossa necessidade compulsiva de comunicar aliada ao controlo dos meios de comunicação. Em poucos segundos já temos a informação que houve um incêndio em certo sítio. Os cinco minutos que se seguem de pessoas a descrever as labaredas e a chorar a perda das suas casas é só conversa. É o equivalente jornalístico do “Está? Olha, estou no supermercado mas vou já para casa, está bem?”. A nossa apetência por conversas da treta dá muito dinheiro a quem conseguir cobrar mas só enquanto precisarmos de intermediário.

A facilidade de comunicar não ameaça o jornalismo sério nem a arte. Os melhores filmes rendem milhões, os melhores músicos enriquecem e os melhores jornais fazem negócio. Com centenas de milhões de pessoas e tudo à distância de um click o que tem valor até rende mais dinheiro oferecido de graça (2). O que está ameaçado é o comércio de conversas da treta e banalidades. Não foi a cultura que mudou. Foi a concorrência que aumentou quando ficou tudo à mesma distância. Mas, por ignorância ou desonestidade, insistem na causa errada:

«Confrontado com uma cultura que enaltece o plágio e a pirataria e enfraquece os media e criadores, Andrew Keen tem a coragem de apontar soluções concretas para enfrentar a onda de arbitrariedade e narcisismo que atravessa a Internet actual.»

Esta cultura não enaltece o plágio. Quem achar que sim que experimente, a ver se recebe ovações ou apupos. “Pirataria” põe a partilha de informação no mesmo saco que a venda de bens contrafeitos e chama roubo a tudo, propositadamente confundindo coisas bem diferentes. E nada disto é novidade. A nossa cultura é, e sempre foi, a informação que partilhamos. A língua, os costumes, a arte, as anedotas, as receitas, as fotocópias, os gravadores de cassetes e os telemóveis, tudo isto nasceu da nossa vontade de partilhar. A Web e a Internet têm sucesso por facilitar aquilo que as pessoas sempre quiseram fazer. Partilhar ideias, partilhar opiniões, partilhar informação e partilhar as coisas de que gostam.

Não está em risco a cultura, nem a arte, nem a excelência nem a verdade. Pelo contrário. Estas sempre beneficiaram da partilha livre de ideias e de informação. O que está em risco é apenas o lucro dos monopólios sobre a mediocridade.

*O post está ambíguo e não sei se foi escrito por alguém do De Rerum Natura se é um comunicado da editora. O que é irónico, dada a crítica à alegada “cultura que enaltece o plágio”...

1- De Rerum Natura, 17-5-08, O Culto do Amadorismo
2- Tech.Blorge, 17-9-07, Why the New York Times Is Free

Terça-feira, Maio 20, 2008

Darwin e Deus

já têm blogs.

Charles Darwin's blog, onde ele explica, entre outras coisas, as razões para ter regressado.

E Stuff God Hates, onde Ele nos revela as coisas que Lhe desagradam. Como ser crucificado e uma data de outras coisas.

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Piratarias.

Há uns dias descobri no Pirate Bay um torrent engraçado. Alguém foi ver à Wikipedia a lista das músicas que estiveram em primeiro lugar no top de vendas do Reino Unido entre 1952 e 2007 e juntou estas 1106 músicas numa colecção organizada por datas, artistas e títulos. Que agora partilha de graça (1).

Em muitos países isto é tão ilegal como vender DVDs contrafeitos, mas contradiz a imagem do pirata ganancioso lucrando à custa dos outros. Este tipo (é homem de certeza; as mulheres arranjam melhor que fazer) teve o trabalho de procurar e organizar mais de mil músicas só pelo gozo de as partilhar. E é uma colecção impossível de reunir legalmente. Mesmo que se conseguisse as 1106 licenças de distribuição, um pesadelo legal, ninguém ia pagar as centenas de euros por cópia que isto iria custar só em “direitos”.

Não faz sentido que a lei castigue uma coisa destas. Se por um lado o trabalho não é muito útil, por outro pode ter interesse para algumas pessoas e o seu impacto na criatividade artística pode ser positivo por dar a futuros artistas acesso a músicas que de outra forma não ouviriam. Mas não é razoável punir estes actos principalmente porque o custo moral e social do castigo é muito maior que qualquer efeito negativo que o acto tenha.

Esta campanha para castigar actos inofensivos é que é um mal social. O castigo desproporcional é mais típico dos piratas do que a partilha gratuita a que chamam pirataria. Um anuncio na MTV declara que quem descarrega músicas ilegalmente é «um ladrão vulgar»(2). No Primeiro Congresso sobre Propriedade Intelectual, Valadares Tavares, o presidente do congresso, afirmou ser preciso «estimular os alunos a respeitar a propriedade intelectual» porque «Se um aluno rouba um lápis a outro é condenável, mas se um aluno faz um download ilegal de uma música, por exemplo, então já não é tanto»(3). Estes disparates não convencem ninguém que partilhar música merece castigo mas banalizam o roubo e desvalorizam a lei.

Daqui a uns anos os meus filhos vão andar com leitores portáteis de música e vídeo com milhares de canções e filmes. Vão ligar os aparelhos aos dos amigos e partilhar ficheiros como nós trocávamos cromos ou emprestávamos lápis. Nunca os adolescentes verão isso como um acto criminoso. Mas vão chamar-lhes ladrões e dizer por todo o lado que é crime. Para proteger um negócio obsoleto ensinam a uma geração que a lei é arbitrária, sem sentido e não merece respeito.

1- Every UK Number One (1952 - 2007)
2- Miguel Caetano, 18-5-08, MTV insulta a sua audiência com anúncio antipirataria
3- Propriedade Intelectual: Congresso vai criar Observatório Permanente para acompanhar políticas nesta área, via Remixtures

Domingo, Maio 18, 2008

Treta da Semana: Encontros Imediatos em Alfena.

Joaquim Fernandes criou, a HOP Filmes produziu, a RTP transmite e os nossos impostos pagaram «uma série documental que oferece uma vista imparcial do fenómeno OVNI em Portugal»(1). Joaquim Fernandes investigou os extraterrestres que visitaram Fátima em 1917 (2) e fundou o CTEC (3), que já foi tema desta rubrica semanal (4) e cujos estudos são a base desta série de programas. O primeiro episódio relata o insólito e dramático caso de um balão que passou sobre Alfena em 1990.

Apoiado por uma musica muito X-Files e em tom de por muito banal que isto seja vou contar como se fosse o fim do mundo, o narrador informa que o CTEC guarda «largas centenas de relatos considerados invulgares pelas testemunhas», demonstrando que não são tão invulgares como as testemunhas julgam. E acrescenta que quase todos são explicados «à luz dos conhecimentos científicos», mas «permanece uma pequena percentagem de situações cuja natureza última resta por identificar com total segurança.» E é assim, logo de inicio, que a ovniologia e o bom senso se despedem. Enquanto este não estranha que em centenas de relatos alguns não sejam resolvidos «com total segurança», aquela vê nisso evidência de coisas do outro mundo.

As testemunhas descrevem o objecto. Era parecido com um balão, uma betoneira, metade de uma pipa com janelinhas e uma cuba de aço inox. Acerca das fotografias, Richard Haines («conselheiro da NASA») concluiu que «o fotógrafo não só viu o objecto como apontou deliberadamente a máquina fotográfica». Não parece grande coisa, mas com musiquinha de fundo e voz de caso sério percebe-se a importância de ter amigos na NASA.

Sobe sobe, OVNI sobe...

Raul Berengel, analista informático do CTEC, concluiu que o OVNI teria «quatro metros e meio, era um objecto que se deslocava muito lentamente, quase ao sabor do vento. [...] Não era rígido. Poder-se-á pensar imediatamente então era um balão.» Isso é que era bom. Segundo o meteorologista entrevistado não era possível «fazer uma correspondência [da fotografia] com os balões sonda que utilizamos» nem poderia ser confundido com os balões sonda usados pela estação aerológica de Lisboa. Movia-se como um balão, tinha forma de balão e era flexível como um balão mas como não correspondia aos balões da estação aerológica de Lisboa não podia nunca ser um balão.

Mas não ficaram por aqui. A investigação exaustiva do fenómeno passou por enviar as fotografias para a NORAD, segundo a qual foi «impossível identificar a fotografia anexa; procurámos entre sete mil artefactos criados pelo homem para usar no espaço: satélites, componentes de foguetões, entre outros...». Ficou assim estabelecido que aquela bola flexível que flutuava lentamente como um balão não era nem um satélite nem componente de um foguetão. Faltou contactar o exército e a marinha dos EUA para eliminar a possibilidade de se tratar de um batalhão de tanques ou de um porta-aviões, deixando assim em aberto duas hipóteses para investigação futura.

Concluindo, o investigador do CTEC Mário Neves resume “ainda não sabemos” em 33 palavras:«a explicação à luz dos conhecimentos científicos não nos permite concluir em relação àquilo que efectivamente foi observado e como tal nós continuamos a catalogar este fenómeno como um fenómeno aéreo não identificado». E segundo Raul Berengel é mesmo essa a ideia: «O objectivo de todo este tipo de investigação e só um. É saber se é um ovni ou não é um ovni. Está identificado ou não está identificado. No caso de Alfena não foi identificado.» Ora bem. E quanto dinheiro é que gastaram para dizer isso em treze episódios de meia hora cada um?

Não tenho nada contra a ovniologia. Parece-me um passatempo inofensivo. Nem me oponho a que a RTP gaste dinheiro em programas de entretenimento. O que me chateia é que passem isto por um documentário científico. Científico era relatar as centenas de casos identificados. Que duzentos confundiram Vénus com naves espaciais, cento e cinquenta confundiram balões com naves espaciais, cem inventaram histórias de naves espaciais depois de umas cervejas e assim por diante. No fim mencionava-se a dúzia de casos como este que parecia um balão mas não se conseguiu ler o número de série na fotografia.

A ciência não explica tudo. Explica só aquilo que os dados permitem explicar. É por isso que a ciência se dedica a obter dados fiáveis e formular hipóteses rigorosas em vez de perder tempo com o diz que disse e dados de má qualidade.

1- RTP, Encontros Imediatos
2- Anomalist Books, ”Heavenly Lights” and “Celestial Secrets”
3- Centro Transdiciplinar de Estudos da Consciência.
4- Treta da Semana: Centro Transdiciplinar de Estudos da Consciência.
Os episódios da série estão disponíveis aqui

Sábado, Maio 17, 2008

Bom e barato, III.

O TrueCrypt é uma aplicação open source para encriptar ficheiros ou discos rígidos e pen drives. Um volume encriptado com o TrueCrypt parece um ficheiro de lixo; só com este programa e a palavra chave é que se pode aceder aos ficheiros lá guardados. Os ficheiros comportam-se como quaisquer outros, sendo decifrados pelo TrueCrypt em memória conforme forem usados. Além disso pode-se encriptar um volume com duas chaves diferentes, uma mostrando uns ficheiros e outra revelando outros que são indetectáveis para quem desconhece a segunda chave.

A protecção de dados pessoais é importante porque andamos cada vez com mais coisas. Um pendrive ou um computador portátil são fáceis de perder ou roubar. É escusado dar ao ladrão os nossos emails, extractos bancários e fotografias das férias. Em vários países o segurança do aeroporto ou guarda alfandegário pode revistar o computador e se o deixamos a arranjar o técnico tem acesso a tudo. Mesmo quem não tem nada a esconder não devia deixar tudo à mostra por uma questão de princípio. (Via Schneier on Security).

Entre as conferências TED (Technology, Entertainment, Design) há muita coisa interessante. Deixo aqui como exemplo esta da primatóloga Susan Savage-Rumbaugh, que trabalha com bonobos. Penso que quem não aceita que se dê a animais de outras espécies alguns direitos que reconhecemos aos da nossa deverá pelo menos ficar com algumas dúvidas depois destes 17 minutos. (Obrigado ao leitor que me enviou a dica por email)

Finalmente, para não ser tudo tão sério, um bom site para geeks trintões. (Via Krippart)