Sexta-feira, Julho 17, 2009

O que se testa.

Para tentar compreender a realidade, ou para a descrever, criamos modelos. Podem ser modelos materiais, como maquetas ou mapas. Podem ser modelos matemáticos ou linguísticos, escritos num papel, programados no computador ou guardados nos nossos cérebros, ideias e conceitos. Seja como for, todos estes modelos pretendem representar algum aspecto da realidade. Por isso cada modelo levanta uma hipótese que nos interessa. A hipótese do modelo ser fiel à realidade. Em rigor, é essa hipótese que pode ser verdadeira ou falsa e é essa hipótese que queremos avaliar.

Numa conversa informal não é costume dar importância a estas distinções. Por vezes dizemos que o modelo é verdadeiro ou falso quando só a hipótese pode ter um valor de verdade. Em geral, o modelo não é uma proposição. Ou dizemos que testamos um certo aspecto da realidade, como um medicamento ou ferramenta quando, em rigor, o que queremos dizer é que testamos a hipótese de esse objecto se comportar de acordo com um modelo que esperamos ser correcto. Mas, felizmente, isto não costuma dar confusão. Excepto quando se alguém faz por isso. A pergunta do António Parente, «Já imaginou Deus deixar-se aprisionar num tubo de ensaio para o Ludwig O testar?»(1), é um exemplo extremo desta confusão. Mas, mesmo quando o absurdo não e tão óbvio, confundir a realidade com o modelo e a hipótese deste se adequar àquela é um obstáculo persistente nas conversas acerca da crença religiosa.

Ninguém vai testar Deus. Tal como ninguém testa terremotos, estrelas, tempestades, electrões ou qualquer outro aspecto da realidade. A realidade não é verdadeira, nem falsa, nem se testa. A realidade é o que é. Mas como o nosso acesso à realidade é incompleto e imperfeito, aquilo que julgamos ser nem sempre corresponde ao que é. É essa hipótese que temos sempre de testar. Por isso os geólogos não precisam de enfiar continentes num tubo de ensaio. Têm um modelo segundo o qual os continentes se deslocam lentamente flutuando no magma. Desse modelo pode-se prever os resultados de algumas observações. Não se consegue ver, a olho nu, os continentes a andar. Mas se tivermos um GPS suficientemente preciso ao fim de uns anos vamos notar diferenças. E vemos na forma e geologia dos continentes vestígios de quando estavam encaixados, as bandas de magnetização da rocha no fundo do oceano indicam que esta se foi formando gradualmente, a distribuição de zonas vulcânicas e sísmicas estão de acordo com o esperado e assim por diante. É assim que se testa a hipótese. Comparando os dados que se obtém com aquilo que o modelo prevê.

É claro que podemos conceber um modelo para o qual isto seja impossível. Eu posso propor que todos os objectos ficam amarelos quando estão às escuras. Como o modelo não diz nada acerca da sua cor quando os iluminamos, e como às escuras não se consegue saber a cor dos objectos, não há maneira de decidir se o meu modelo corresponde à realidade. Por isso a hipótese é impossível de testar. O que não é uma virtude. Aquilo que o torna imune à realidade, não dizer nada que a observação possa contradizer, também o torna inútil para descrever ou ajudar a compreender a realidade.

Isto é importante na discussão com crentes religiosos porque não são os deuses que estamos a testar. O que queremos é averiguar se correspondem à realidade aqueles modelos onde os crentes descrevem atributos, actos e vontades dos dos seus deuses. Cada um destes modelos pode, ou não, corresponder à realidade, e essa hipótese tem de ser passível de algum teste empírico sob pena do modelo ser inútil. E os crentes reconhecem-no. Por muito que se refugiem na suposta impossibilidade de falsificar as suas hipóteses, todos afirmam que sofreremos, depois da morte, as consequências da descrença. Seja a vingança mesquinha dos deuses dos evangélicos seja a ameaça vaga dos católicos, de uma eternidade sem “amor”, todos apresentam um teste empírico para determinar se o seu modelo corresponde à realidade.

Por isso essa coisa do deus ser infalsificável é treta. É dos modelos que estamos a falar. E a correspondência entre cada um desses modelos e a realidade é uma hipótese que admite um teste empírico. O problema é que ninguém entre os vivos dispõe dos dados necessários para testar essas hipóteses. À proposta de um modelo antes de ter quaisquer dados relevantes chama-se especulação infundada. Ou fé. Acaba por ser a mesma coisa.

1- Comentário em No olhar de quem crê.

Quinta-feira, Julho 16, 2009

No olhar de quem crê.

O Alfredo Dinis escreveu que eu tenho «um entusiasmo pela difusão do ateísmo que rivaliza com o entusiasmo proselitista dos mais devotados missionários cristãos.»(1) Se rivaliza, é bom sinal. Mas o que me interessa é o diálogo racional acerca de afirmações objectivas. Gosto de apresentar razões que sejam válidas para quem discorda de mim e de pedir, a quem defende a posição contrária, razões que eu também possa aceitar. Se afirmam que uma hipótese corresponde à realidade, justifiquem-no. Não deixo que se safem com a desculpa que a hipótese não é testável e tem de ser aceita pela fé. Ao contrário do missionário, não me motiva a conversão dos outros, mas sim a sensação incómoda de me quererem enfiar um barrete.

O Alfredo explica que a sua hipótese não pode ser «formulada em termos empíricos e espácio-temporais, de forma a poder ser submetida a testes igualmente empíricos» porque isso seria como «pretender apresentar a hipótese da beleza de um quadro de Picasso de tal forma que essa beleza seja posta à prova pela observação empírica do movimento dos electrões dos átomos que constituem a matéria da tinta que o autor utilizou.» É uma analogia interessante. Merece ser explorada mesmo para além do que o Alfredo pretendia.

Revela logo o truque das lacunas. Uma explicação por analogia serve para elucidar um tema difícil com um análogo mais acessível. Por exemplo, explicar a função de onda do electrão com a analogia de uma corda a vibrar. Mas, sistematicamente, os religiosos procuram analogias com coisas que não se compreende. Há uns séculos podiam ter sido as estrelas ou a natureza dos seres vivos. Com o avanço da física e da biologia, agora tem de ser o amor e a beleza. A ideia parece ser criar a ilusão que se explica alguma coisa sem esclarecer coisa nenhuma.

Depois, a hipótese da beleza de um quadro ser função unicamente da configuração dos átomos na tinta é falsa mas é válida. Pode-se testar e é útil na procura de hipóteses melhores. Isto sugere que o problema do Alfredo não é que a sua hipótese não seja formulável de forma mais concreta. Parece que o problema é apenas o receio que se revele falsa. Nem é por causa do «espácio-temporal». Por exemplo, a hipótese de existir uma forma platónica de beleza fora do espaço-tempo pode ser confrontada com a hipótese que a beleza de um quadro resulta da interacção do quadro com o ser humano que o aprecia, ambos compostos por átomos. Apesar da primeira hipótese não ser «espácio-temporal», prevê que haja um critério objectivo de beleza e, por isso, rejeitamo-la em favor da segunda.

Mas o mais interessante nesta analogia é que compara o deus do Alfredo com a beleza. A beleza é um conceito muito diverso entre pessoas e culturas, não há um critério objectivo para determinar o que é belo e é algo que não se pode justificar aos outros. Um quadro do Picasso pode ser belo para uma pessoa e horroroso para outra*, sem nenhuma ter mais razão que a outra nem haver forma de chegarem a um consenso. Isto indica que a beleza é subjectiva, como penso que o Alfredo concorda. Não faz sentido dizer que alguém está enganado ao achar feios os quadros do Picasso.

A crença religiosa tem as mesmas características. É expressa de formas diversas entre pessoas e culturas diferentes, não há um critério objectivo para determinar qual é a religião “correcta” e não parece que os crentes alguma vez cheguem a consenso acerca de quem tem razão. Muitos, como o Alfredo, até excluem essa possibilidade por alegarem que não se pode testar a sua hipótese. Estas são as características esperadas de algo que é subjectivo, e o contrário do que se espera de algo com um fundamento objectivo e universal.

Por isso não me preocupo que o Alfredo ache bonitos os quadros do Picasso ou que goste de adorar um deus. Não partilho essas preferências mas são juízos subjectivos. A cada um o seu. Mas já não é subjectivo se o Alfredo afirma que eu estou enganado porque existe uma Beleza que, por acaso, corresponde aos gostos dele. Ou se me diz que eu devia adorar um certo deus porque existe mesmo um deus e logo calhou ser o do Alfredo. Isso já é preciso justificar com razões concretas e aceitáveis até para quem não tenha os mesmos gostos.

Mas não é por isso que me vou portar como um missionário. Não invoco a autoridade de livros nem fantasmas, não bato à porta do Alfredo nem o ameaço com céus e infernos. Só não deixo que me enfiem o barrete. Se puxam a lã eu ponho o dedo no ar e, na minha vez, digo que é treta. E se isto lhes parece tão agressivo como o proselitismo dos missionários, até compreendo. Mesmo com muita gente a elogiar todos os domingos as magnificas vestes de sua majestade, basta uma voz pequenina lhes apontar a falta de substância para haver logo consternação.

*Em defesa de Picasso, não me parece que a beleza dos quadros fosse uma prioridade para ele.

1- Alfredo Dinis, 10-7-09, ateus missionários?

Quarta-feira, Julho 15, 2009

Miscelânea Criacionista: quem foi o primeiro?

Os criacionistas alegam ser preciso fé para aceitar que os seres vivos tenham surgido por processos naturais. O que é estranho. Todos os dias a natureza cria seres vivos a partir de outros parecidos. E por processos naturais. Como este poder da natureza torna supérfluo qualquer agente sobrenatural, os criacionistas preferem perguntar «De onde surgiu o primeiro ser vivo?»(1), assumindo implicitamente que houve um primeiro e que esse tinha algo de especial. Como resposta propõem que cada um dos primeiros foi criado, segundo a sua espécie, por milagres do filho do carpinteiro, pai de si próprio e nascido de uma virgem, que depois veio fingir que morria para nos perdoar o mal que os nossos antepassados fizeram quando nem sabiam distinguir o que era bem e o que era mal. Esta hipótese é demasiado rebuscada para resolver um problema que, no fundo, é meramente linguístico.

Os criacionistas tratam os “tipos” de organismos como categorias bem definidas e estanques, um erro que o Marcos Sabino demonstra quando aceita a evolução, tal como ela é, para logo a seguir dizer que não pode ser assim: «Se evolução for apenas “descendência com modificação” (que é o mesmo que dizer que os filhos serão diferentes dos pais) então há “evolução”. [...] Mas nós não queremos saber como os filhos são diferentes dos pais. [...] Se “evolução” for o processo que transforma um animal noutro tipo de animal diferente então isso [nunca] foi observado.»(1) A evolução é um processo gradual, como o envelhecimento ou a queda de cabelo. Os filhos herdam características dos pais mas não são sempre iguais aos pais, o que faz as populações mudar com o passar das gerações. E se bem que as mudanças sejam pequenas de geração para geração, acumuladas tornam as populações muito diferentes dos seus ancestrais longínquos.

No sentido usual, entre réptil e mamífero há uma fronteira difusa, tal como entre cabeludo e careca ou entre jovem e idoso. Não se define com precisão os limites destas categorias, ao contrário de outros casos como, por exemplo, os objectos com dois metros de comprimento. Podemos conceber um objecto ao qual falte uma milésima de um milímetro para ter dois metros mas é absurdo falar da pessoa a quem falta uma milésima de um cabelo para ser cabeluda. E é disparate argumentar contra a macro-perda de cabelo alegando que só se observa micro-perdas e ninguém passa de cabeludo a careca só por perder um cabelo.

É a confusão que os criacionistas fazem com os tipos de animal e até com a categoria de ser vivo. As fronteiras destas categorias ou não permitem distinções finas ou, quando permitem, são arbitrárias. É como definir cabeludo especificando o número mínimo de cabelos necessários à categoria. Pela necessidade de classificar fósseis, os paleontólogos fazem algo parecido, distinguindo os mamíferos e os répteis cynodontes por pequenas diferenças na articulação da mandíbula. Levada ao extremo, esta definição até poderia destacar o primeiro mamífero. Mas este iria diferir do seu pai réptil apenas naquele detalhe minúsculo que arbitrariamente se escolhesse para marcar a fronteira. O que importa notar é que estas fronteiras entre categorias, sejam precisas ou difusas, afectam apenas o uso dos termos. O processo em si não depende da definição das palavras. O cabelo vai caindo gradualmente até que o cabeludo fique careca e os filhos nascem ligeiramente diferentes dos pais de tal forma que uma população de répteis pode ter como descendentes, num futuro distante, uma população de mamíferos.

Penso que foi este o golpe de génio de Darwin. Que os filhos são diferentes dos pais já toda a gente sabia. E os agricultores, e criadores de animais, já tiravam partido disso para seleccionar as características mais desejadas. Mas Darwin percebeu que perguntar quem foi o primeiro é irrelevante. Seja o primeiro pombo, o primeiro mamífero ou o primeiro ser vivo, não vale a pena procurá-lo porque estas categorias são imprecisas ou arbitrárias. E não são estes tipos que importam à natureza, porque são apenas invenções linguísticas nossas. O verbo, ao contrário do que alguns defendem, não surgiu no início mas apenas ao fim de milhares de milhões de anos de evolução.

Como alguns criacionistas gostam de apontar, são as gaivotas que dão gaivotas e as moscas que dão moscas. Deus não faz nada aí. E apesar de ninguém se deitar jovem uma noite para acordar velho na manhã seguinte, as coisas mudam. Os filhos não são exactamente iguais aos pais e cada dia que passa deixa-nos um dia mais velhos. Entre esta manhã e a noite sessenta anos antes, ou entre os filhos de hoje e os seus antepassados de milhões de gerações atrás, a diferença pode ser enorme.

Até o início da vida se pode compreender com estes processos graduais, partindo de moléculas orgânicas simples que se acumulavam na superfície de minerais, que reagiam e produziam novas moléculas em sistemas cada vez mais complexos até se replicarem a si próprios e, eventualmente, produzirem algo claramente do lado de cá da fronteira indefinida que separa o que não é vivo e o que vive. Tudo isto de forma natural, sem precisar de deuses, milagres ou outros contos de fadas.

1- Comentário do Mats em O escaravelho bombardeiro e o pulgão suicida.
2- Marcos Sabino, Informando um evolucionista confuso e pouco esclarecido

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Treta da semana (passada): O Mestre Zetor.

No seu curso de Reiki, conta o Mestre Zetor que (sic) «o Reiki original tinha técnicas que pela sua dificuldade não chegaram ao ocidente.. Para se passar para o segundo nível ( Okuden ), as exigências era grandes, possivelmente demorariam longos períodos de treino, ate estarem prontos a deixar o primeiro nível.. Assim o que passou para O Ocidente foi uma forma simplificada de actuação onde o operador é apenas um canal passivo da energia que passe por ele e se encaminha para os locais onde poderá ser necessária.»(1) Mas o Mestre Zetor «resolveu juntar as técnicas preconizadas pelo Dr.Usui e outras igualmente importantes» e agora dá um curso avançado de Reiki em 8 horas por apenas 125€.

E não é só a nível pedagógico que o Mestre Zetor se destaca. Faz magia, caça fantasmas, vende produtos de alquimia, fala com os mortos e até o seu fraco domínio do HTML é mais que compensado pelo entusiasmo com que usa gifs animados. Fundou também o Grupo de Pesquisas Paranormais (2), o «Primeiro grupo profissional de Ghost Hunters em Portugal». Sem canhões de protões mas apetrechados de bússolas e termómetros, investigaram o convento em Monfurado (3). Nesta investigação usaram até um «EMF medidor de electro-frequencias em gauss», que só por si já é um fenómeno sobrenatural. Do relatório sucinto, destaco o trecho abaixo, que me pareceu o ponto mais negativo da investigação.

«Chegados ao antigo refeitorio, sentimos a presença de alguem e entramos em contacto com uma entidade que disse se chamar Domingos e ser um antigo monge [... Revelou-nos] pormenores de muita angústia pessoal e que me abstenho de contar aqui pois considero que ele nao gostaria que se tornassem publicos. Pedida a confirmação fisica da sua presença, por alteração do aparelho de EMF , este que nao detectava nada, começou a tocar e o ponteiro a apontar para o meio da escala»

O GPP devia ter mais tacto com estas coisas. O coitado do fantasma está que tempos sozinho e quando, finalmente, tem alguém a quem contar a sua história, interrompem-no para fazer abanar a agulha a ver se ele existe mesmo. Não se faz. É um duro golpe na auto-estima de qualquer falecido.

Se conseguirem navegar nas páginas do Mestre Zetor encontrarão um verdadeiro tesouro do paranormal (talvez por motivos psíquicos, as ligações estão sempre nas imagens e nunca no texto... muito cliquei eu em vão durante esta expedição). Fotografias em que seres espirituais se manifestam como grãos de pó à frente do flash, chás curandeiros que tratam tudo, do reumatismo à menopausa («Os efeitos da menopausa são atenuados e muitas vezes ultrapassados», fica já o aviso às senhoras, não vá o diabo tecê-las), uma investigação psíquica ao castelo Craig y Nos, de onde destaco a foto do autor «psicometrando foto de Adelina Patti» e as «FOTOS ESPECTACULARES DE UMA MANIFESTAÇÃO PSÍQUICA, COM O APARECIMENTO DE UM ROSTO QUE SE PRESUME SEJA ADELINA PATTI» (peço desculpa pelas maiúsculas, mas não queria abafar o fervor original).

Fica aqui a recomendação, para uns momentos bem passados na companhia do Mestre Zetor:

zetor.homestead.com

(Mas façam intervalos regulares para descansar a vista)

Obrigado ao Mário Miguel pela ligação, entretenimento e gargalhadas.

1- Técnicas avançadas de Reiki e outras.
2- Grupo de Pesquisas Paranormais
3- Investigação do GPP em Monfurado

Sábado, Julho 11, 2009

Burqas, férias, e coisas sérias.

A nossa lei proíbe contractos de trabalho nos quais se abdique do direito às férias. Se a lei permitisse a abdicação contractual deste direito, o empregador podia pressionar um empregado a prescindir das suas férias. O mesmo raciocínio pode justificar a proibição da burqa. Por motivos pessoais ou religiosos, talvez haja quem queira mesmo abdicar das férias ou andar tapado dos pés à cabeça. Mas, havendo perigo de alguém ser forçado a isso, pode ser melhor proibir se a protecção dos direitos de uns compensar o inconveniente causado aos outros. Não é uma imposição gratuita de valores. É a tentativa de proteger, o melhor possível, os direitos de todos.

Acerca disto, o João César das Neves (JCN) baralhou-se com a sua habitual eloquência. «A tolerância só tem significado quando enfrenta algo intolerável. Para aceitar o que consideramos admissível não é preciso esforço. Claro que a tolerância tem limites [...] A discriminação das mulheres e, pior ainda, a sua servidão e abaixamento são evidentemente intoleráveis.» Para o JCN, só é preciso tolerância para o intolerável mas há coisa intoleráveis que não se tolera. Como a discriminação das mulheres que, logo a seguir, já parece tolerar quando diz que proibir a burqa é «precisamente a mesma posição que fez nascer a burka. Se substituirmos "dignidade da mulher" por "decência feminina" e "abaixamento" por "deboche", é fácil imaginar um qualquer responsável afegão a justificar literalmente nos mesmos termos a recusa do traje ocidental.»(1) Esta dicotomia é assimétrica. O “traje ocidental”, neste contexto, inclui tudo que não seja a burqa. Bikini, vestido de noiva, fato de treino, saia e casaco ou calças de ganga. Proibir a burqa restringe muito menos que proibir o resto. Mais importante ainda, o objectivo de proibir a burqa é impedir que obriguem as mulheres a usá-la. Não é por não gostar de burqas, mas por não querer que privem as mulheres do direito de escolher a sua roupa. Se for preciso restringir a escolha apenas a tudo o resto, antes isso que só poder escolher a burqa.

Numa sociedade tolerante ninguém sobrepõe os seus valores aos direitos dos outros. O católico não obriga o judeu a comer a hóstia e o judeu não proíbe o budista de trabalhar ao sábado. Mas se o empregador quer forçar o trabalhador a abdicar das férias, ou se o muçulmano obriga a mulher a andar de burqa, então a situação já é de intolerância e o máximo que se pode fazer é remediar com uma intolerância menor. Por isso proibir a burqa é uma hipótese aceitável, em teoria, se resultar numa imposição menor que deixar que obriguem as mulheres a usá-la.

Em teoria. Na prática, não estou convencido que seja boa ideia. Não me parece que passar multas a quem usa burqa seja uma forma eficaz de combater a discriminação. E desagrada-me soluções ad hoc. O melhor seria uma alteração estrutural. Por exemplo, deixar de tratar a religião como uma vaca sagrada. É fundamental que a sociedade encare as religiões como opções pessoais, que não merecem mais respeito que qualquer outra e que ninguém deve poder impor aos outros. Para isso era preciso abolir as leis, e combater a mentalidade, que ainda protegem de crítica as crenças religiosas. Não castigamos quem troça do futebol, quem goza com a ciência ou aponta o dedo à política. Mais importante, exigimos de quem gosta de futebol, ciência ou qualquer partido que tolere as críticas dos outros. Aos religiosos devemos exigir o mesmo. Que respeitem o direito de criticar. É certo que as religiões são mais vulneráveis à crítica, mas é pelo absurdo das suas crenças e isso não justifica protecção especial.

É grave que obriguem mulheres a usar burqa, é urgente enfrentar o problema e talvez proibir seja melhor que não fazer nada. Mas isto remedeia o sintoma em vez de tratar a doença. Por isso devia-se tirar melhor partido daquela virtude que é comum a todas as religiões. O ridículo. É que além de indecente, obrigar as mulheres a andar tapadas (ou proibir-lhes o sacerdócio, e tantas outras coisas) é idiotice. É disparate. É palhaçada. O JCN remata o seu artigo dizendo dos ditadores que «O mal deles não era cinismo e hipocrisia, nem estava tanto nas finalidades, mas na arrogância e tacanhez que o seu caminho implicava.» Pois é a arrogância e a tacanhez de muitos crentes que torna as suas religiões tão intolerantes. E intoleráveis. E para combater a arrogância e a tacanhez uma boa gargalhada é melhor que muitas proibições.

Não é uma solução a curto prazo. A curto prazo, gozar até pode dar mais tacanhez. Mas, a longo prazo, habituarmo-nos a gozar com os disparates resolveria muitos problemas. A troça não tira liberdade a ninguém, o humor ajuda a mudar de perspectiva e o gozo desmascara esses intolerantes disfarçados que apregoam tolerância mas não toleram críticas. Em qualquer país onde a lei proteja a integridade física de cada um, era remédio santo. Quando um homem inventasse que as mulheres têm de fazer isto ou não podem fazer aquilo, desatava tudo a rir e a gozar com ele. Em poucas semanas acabava-se a burqa, havia mulheres a dar missa e deixava o sexo de ser pecado e as religiões de estorvar tanto.

Cada vez mais me parece que o problema são os homens sérios. Os que franzem o sobrolho, se fazem ofendidos, exigem respeito e cofiam o bigode, tudo para disfarçar o ridículo que, no fundo, reconhecem. Têm tanto medo que se riam deles que inventam tudo, até religiões, só para lixar a vida aos outros.

1- João César das Neves, DN, 'Burka' e tolerância

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Christian Engström no Financial Times.

O Financial Times publicou um artigo de opinião do deputado do Partido Pirata sueco no Parlamento Europeu. Os pontos principais são que esta guerra de coutadas do copyright está a destruir a noção de cultura como uma herança partilhada, e que a única forma de impor o copyright à nova tecnologia é acabando com a comunicação privada.

O primeiro problema é evidente na forma como as empresas e associações de cobrança usam a legislação. Nos EUA, a ASCAP quer cobrar pelo toque do telemóvel a quem já pagou, e bem, pelos segundos de música que tocam quando lhe telefonam. Isto porque dizem que o telemóvel a tocar é uma exibição pública e esse direito não está contemplado quando se compra o toque (1). Na Suécia querem cobrar aos empregadores uma taxa anual para os empregados poderem ouvir música no local de trabalho (2). E, por cá, às estações de rádio que já pagam para difundir a música, a SPA quer cobrar mais três porcento dos rendimentos pela «exploração comercial do site» que cada estação tenha, incluindo «todas as receitas provenientes da cobrança de serviços, publicidade e patrocínios» (3). Claramente, a arte não é cultura. É negócio. Ou extorsão.

E o artigo também aponta que partilhar ficheiros é parte integrante da comunicação moderna. Na Internet troca-se informação. Seja a partilhar ficheiros, enviar email, ler páginas ou qualquer outra coisa. A única forma de impedir que uma pessoa envie uma cópia de um ficheiro a outra é monitorizando cada comunicação. Por isso temos de escolher. Ou restringimos o copyright às licenças de comercialização e o deixamos fora da vida privada, ou abdicamos do direito de trocar informação com outros sem ter alguém a policiar.

O artigo está aqui: Copyright laws threaten our online freedom (via ZeroPaid).

1- ZeroPaid, ASCAP Demands Additional Performance Tax for Ringtones
2- ZeroPaid, Swedish Copyright Group Wants $5,000 p/yr Permit for Workplace Music
3- Remixtures, SPA inicia “caça” às rádios online

Terça-feira, Julho 07, 2009

O escaravelho bombardeiro e o pulgão suicida.

O escaravelho bombardeiro africano, Stenaptinus insignis, armazena uma mistura de hidroquinonas e peróxido de hidrogénio e, quando ameaçado, excreta pequenas porções para uma câmara de reacção no abdómen. Aí, enzimas catalisam uma reacção violenta e o spray tóxico, quase a ferver, persuade o atacante a procurar o almoço noutro lado. Além disso o escaravelho consegue apontar a esguichadela para qualquer direcção orientando o canal de saída. Os criacionistas adoram estas coisas. O vídeo abaixo mostra o escaravelho em acção. Termina com o comentário típico que algo tão sofisticado teria de ser criado de uma só vez, e que era impossível o escaravelho sobreviver com um sistema parecido mas incompleto.



O método criacionista é escolher um exemplo extremo, apresentá-lo como único na natureza e pedir que desliguemos o cérebro e nos prostremos a adorar o senhor deus deles. Mas a realidade é que há meio milhar de espécies de escaravelho com defesas semelhantes, em vários níveis de sofisticação. Alguns excretam uma espuma quente, outros uma névoa tóxica, outros juntam os reagentes fora do corpo em ranhuras nos élitros, e assim por diante. A enorme diversidade destas defesas, das mais simples às mais complexas, refuta a tese que uma coisa destas tem de ser criada de uma vez e segundo um plano exacto.

Os artrópodes segregam quinonas para endurecer a pele e muitos acumulam-nas porque a sua toxicidade os torna menos apetecíveis. Quando os predadores são resistentes às quinonas, uma reacção simples transforma-as em hidroquinonas. O peróxido de hidrogénio é também um produto comum do metabolismo celular, bem como as enzimas que o degradam em oxigénio e água. São estas enzimas que aceleram a oxidação das hidroquinonas pelo peróxido de hidrogénio. Milhares de espécies de insectos aproveitam várias combinações destes compostos e reacções para sua defesa. O escaravelho bombardeiro não é um problema para a evolução. Não é um caso isolado sem explicação. Com tantas combinações possíveis, até seria de estranhar que a evolução não tivesse encontrado algumas tão extraordinárias quanto esta.

O problema é para o criacionismo. Tem a difícil tarefa de explicar a necessidade desse deus criar um sistema de defesa tão sofisticado. Supostamente, na altura da criação não havia morte e o escaravelho não precisava de se defender. E explicar a origem de tantos sistemas de defesa nos insectos, tão diversos, dos mais rudimentares aos mais sofisticados. Se tudo isto resulta da corrupção dos insectos pelo pecado de Eva há imenso espaço para a evolução sem deuses. Um exemplo é o pulgão das couves, Brevicoryne brassicae.

Várias plantas produzem glucosinolatos. São compostos inofensivos enquanto armazenados nas células mas, quando um animal mastiga a planta, estes misturam-se com enzimas que os transformam em substâncias irritantes como o isotiocianato alilo, que dá aquela pungência à mostarda e ao wasabi. O pulgão das couves defende-se de forma semelhante. Acumula no sangue os glucosinolatos que ingere na seiva das plantas onde vive. E produz nos músculos uma enzima análoga à das plantas (myrosinase) que, tal como a destas, parece ter evoluído de uma glucosidase (1). O resultado é que, quando uma larva de joaninha começa a mastigar o pulgão, os glucosinolatos no sangue misturam-se com a myrosinase nos músculos e os produtos da reacção acabam por envenenar a larva.

O pulgão também morre, mas isto não é problema para a evolução. Os pulgões normalmente reproduzem-se assexuadamente e formam colónias de indivíduos geneticamente iguais. Os genes que promovem o sacrifício de um em benefício dos outros propagam-se com sucesso porque estão a salvar cópias idênticas no pulgão do lado. É um fraco consolo para o desgraçado que explode em veneno quando leva uma dentada, mas a evolução não se preocupa com estas coisas que, para o criacionismo, são um problema bicudo. Não admitindo que tal mecanismo possa evoluir, cai na ideia absurda que um deus inteligente criou o pulgão de forma a morrer envenenando a joaninha que o mesmo deus criou para se alimentar de pulgões. Seja antes ou depois da Eva comer a maçã, isto não faz sentido.

A grande diferença é que a ciência tenta encontrar explicações abrangentes que unifiquem o nosso conhecimento e lhe dêem uma estrutura coerente. Por isso interessa-se pelos padrões nos dados, por como as coisas encaixam. Em contraste, a hipótese de uma criação ad hoc para cada bicharoco exclui esta possibilidade logo à partida. É um milagre aqui, outro ali, outro acolá, sem nada que os una, que explique como ou porquê. Para convencer as pessoas que a realidade se assemelha a este disparate, os criacionistas têm de focar apenas exemplos isolados, desprovidos de contexto. Como os ilusionistas, precisam que se olhe só para onde o dedo aponta e não se perceba o truque que está por trás.

Mais informação:
Talk Origins, Bombardier Beetles and the Argument of Design
BBC, Bull's-eye beetle
Wikipedia, Bombardier beetle
Afarensis, Icons of Creationism: The Bombardier Beetle - One from the archives
E este sobre os afídeos, no Not Exactly Rocket Science, Aphids defend themselves with chemical bombs

1- Jones AM, Winge P, Bones AM, Cole R, Rossiter JT. Characterization and evolution of a myrosinase from the cabbage aphid Brevicoryne brassicae., Insect Biochem Mol Biol. 2002 Mar 1;32(3):275-84.