O que se testa.
Para tentar compreender a realidade, ou para a descrever, criamos modelos. Podem ser modelos materiais, como maquetas ou mapas. Podem ser modelos matemáticos ou linguísticos, escritos num papel, programados no computador ou guardados nos nossos cérebros, ideias e conceitos. Seja como for, todos estes modelos pretendem representar algum aspecto da realidade. Por isso cada modelo levanta uma hipótese que nos interessa. A hipótese do modelo ser fiel à realidade. Em rigor, é essa hipótese que pode ser verdadeira ou falsa e é essa hipótese que queremos avaliar.
Numa conversa informal não é costume dar importância a estas distinções. Por vezes dizemos que o modelo é verdadeiro ou falso quando só a hipótese pode ter um valor de verdade. Em geral, o modelo não é uma proposição. Ou dizemos que testamos um certo aspecto da realidade, como um medicamento ou ferramenta quando, em rigor, o que queremos dizer é que testamos a hipótese de esse objecto se comportar de acordo com um modelo que esperamos ser correcto. Mas, felizmente, isto não costuma dar confusão. Excepto quando se alguém faz por isso. A pergunta do António Parente, «Já imaginou Deus deixar-se aprisionar num tubo de ensaio para o Ludwig O testar?»(1), é um exemplo extremo desta confusão. Mas, mesmo quando o absurdo não e tão óbvio, confundir a realidade com o modelo e a hipótese deste se adequar àquela é um obstáculo persistente nas conversas acerca da crença religiosa.
Ninguém vai testar Deus. Tal como ninguém testa terremotos, estrelas, tempestades, electrões ou qualquer outro aspecto da realidade. A realidade não é verdadeira, nem falsa, nem se testa. A realidade é o que é. Mas como o nosso acesso à realidade é incompleto e imperfeito, aquilo que julgamos ser nem sempre corresponde ao que é. É essa hipótese que temos sempre de testar. Por isso os geólogos não precisam de enfiar continentes num tubo de ensaio. Têm um modelo segundo o qual os continentes se deslocam lentamente flutuando no magma. Desse modelo pode-se prever os resultados de algumas observações. Não se consegue ver, a olho nu, os continentes a andar. Mas se tivermos um GPS suficientemente preciso ao fim de uns anos vamos notar diferenças. E vemos na forma e geologia dos continentes vestígios de quando estavam encaixados, as bandas de magnetização da rocha no fundo do oceano indicam que esta se foi formando gradualmente, a distribuição de zonas vulcânicas e sísmicas estão de acordo com o esperado e assim por diante. É assim que se testa a hipótese. Comparando os dados que se obtém com aquilo que o modelo prevê.
É claro que podemos conceber um modelo para o qual isto seja impossível. Eu posso propor que todos os objectos ficam amarelos quando estão às escuras. Como o modelo não diz nada acerca da sua cor quando os iluminamos, e como às escuras não se consegue saber a cor dos objectos, não há maneira de decidir se o meu modelo corresponde à realidade. Por isso a hipótese é impossível de testar. O que não é uma virtude. Aquilo que o torna imune à realidade, não dizer nada que a observação possa contradizer, também o torna inútil para descrever ou ajudar a compreender a realidade.
Isto é importante na discussão com crentes religiosos porque não são os deuses que estamos a testar. O que queremos é averiguar se correspondem à realidade aqueles modelos onde os crentes descrevem atributos, actos e vontades dos dos seus deuses. Cada um destes modelos pode, ou não, corresponder à realidade, e essa hipótese tem de ser passível de algum teste empírico sob pena do modelo ser inútil. E os crentes reconhecem-no. Por muito que se refugiem na suposta impossibilidade de falsificar as suas hipóteses, todos afirmam que sofreremos, depois da morte, as consequências da descrença. Seja a vingança mesquinha dos deuses dos evangélicos seja a ameaça vaga dos católicos, de uma eternidade sem “amor”, todos apresentam um teste empírico para determinar se o seu modelo corresponde à realidade.
Por isso essa coisa do deus ser infalsificável é treta. É dos modelos que estamos a falar. E a correspondência entre cada um desses modelos e a realidade é uma hipótese que admite um teste empírico. O problema é que ninguém entre os vivos dispõe dos dados necessários para testar essas hipóteses. À proposta de um modelo antes de ter quaisquer dados relevantes chama-se especulação infundada. Ou fé. Acaba por ser a mesma coisa.
1- Comentário em No olhar de quem crê.

