quarta-feira, agosto 26, 2015

O chimpanzé.

Orlando Braga quis participar na discussão sobre a relevância ética da definição de pessoa mas, como é costume, disparou ao lado. Grande parte do texto de Braga critica uma alegada tese minha de que o chimpanzé é pessoa porque tem autoconsciência, dissertando sobre o teorema de Gödel, afirmando que «Há uma diferença entre consciência de si, por um lado, e autoconsciência, por outro lado»(1) e que «A autoconsciência é a condição lógica de todo o mundo», entre outras divagações que dariam matéria para vários posts. O que é irrelevante porque eu não defendo uma definição de pessoa. Definir pessoa como ser que está consciente de si próprio – incluindo, por isso, o chimpanzé – é apenas uma de muitas possibilidades que me parecem aceitáveis. Braga alega também que «as pessoas de Esquerda — como é o caso do Ludwig Krippahl — têm horror às definições, porque as definições limitam o poder fáctico da ideologia política.» Mas eu não tenho horror às definições. Até aceito várias definições de pessoa. Definir termos é necessário para comunicar ideias. Mas, desde que a definição seja clara e não crie problemas desnecessários, está cumprido esse objectivo. Essa é uma das razões pelas quais rejeito que se fundamente a ética numa definição de pessoa. Mas há mais, como Braga, inadvertidamente, demonstra.

Uma definição de pessoa que Braga atribui a Kant é a de que «“a pessoa é aquele sujeito cujas acções podem ser imputadas”». Kant não define pessoa assim – isto é uma mera consequência da ética kantiana – e Braga discorda desta definição mas, seja como for, é uma definição legítima. Que não serve de fundamento para a ética porque, para sabermos se algo é pessoa, precisamos de saber primeiro se lhe podemos imputar alguma responsabilidade pelas suas acções. Se ralhamos com uma criança por atirar os brinquedos contra a televisão estamos implicitamente a imputar-lhe a responsabilidade de não agir assim. O mesmo quando ralhamos com o cão por roer as pernas das cadeiras. Se este nível de imputabilidade bastar para ser pessoa, então tanto a criança como o cão serão pessoas, de acordo com esta definição. Por outro lado, se formos mais exigentes e considerarmos que só é verdadeiramente imputável aquele que tiver uma compreensão sólida da ética e dos deveres que daí advêm, então nem a criança nem o cão serão pessoas. Neste caso, também ficará de fora grande parte da humanidade porque pouca gente tem a vida suficientemente despreocupada para estudar e reflectir sobre os fundamentos últimos das regras morais. Mas o ponto importante aqui, que aparentemente escapou a Braga, não é a defesa de uma ou outra definição de pessoa. É que a definição não faz diferença nenhuma. Qualquer que seja o ponto desta escala onde se coloque a fasquia para ser pessoa, continuaremos a ralhar com a criança e com o cão e a exigir dos adultos mais do que exigimos das crianças. Esta definição de pessoa é eticamente irrelevante.

E não é eticamente irrelevante apenas por se basear na ética e, por isso, depender desta. Outra definição que Braga menciona é a da pessoa como ser autoconsciente. O termo “autoconsciência” normalmente refere apenas a consciência de si como um ser à parte daquilo que o rodeia. Braga, no entanto, exige que a autoconsciência inclua também a capacidade de conceber «proposições descritivas, ou seja, a função representativa, segundo Karl Bühler: frases que descrevem um estado de coisas objectivo, que pode, ou não, corresponder aos factos», concluindo que «O chimpanzé não possui a função representativa, e por isso não tem autoconsciência.» Não vejo que vantagem há em chamar autoconsciência à capacidade de criar proposições. Também me parece errada a opinião de Braga de que os chimpanzés não têm esta capacidade. As tentativas de ensinar linguagem a gorilas e chimpanzés sugerem fortemente o contrário. Mas, mais uma vez, chamar pessoa ao ser que tem consciência de si ou só apenas ao que é capaz de formular proposições não muda nada do que é eticamente aceitável fazer a esses seres. A consciência de si e a capacidade de formular proposições são eticamente relevantes, mas são-no por si próprias e independentemente de as considerarmos condição necessária à categoria de “pessoa”.

Em suma, e ao contrário do que Braga alega, não me oponho a que se defina o termo “pessoa” nem exijo que o chimpanzé esteja nesta categoria. Por exemplo, o dicionário online da Priberam define “pessoa” como “criatura humana”. Por mim também serve. Desde que se perceba o que quer dizer, qualquer definição serve porque cumpre o propósito de tornar claro o que o termo refere. O que defendo é que a definição de pessoa não deve fundamentar qualquer juízo ético. Importa saber quais seres têm responsabilidades, quais são livres de decidir, quais sentem, quais são conscientes e quais podem apresentar ou compreender razões. Essas coisas são relevantes. Mas a decisão de usar estes ou aqueles atributos para definir “pessoa” não tem qualquer importância na ética.

1- Orlando Braga, Um chimpanzé não é uma pessoa

domingo, agosto 23, 2015

Treta da semana (passada): enviesamento.

Um artigo do autor cristão J. Warner Wallace argumenta que os ateus são mais enviesados do que os cristãos por dependerem demais da ciência. Segundo Wallace, «a alegação de que “a ciência é a única forma de se saber a verdade” [...] não pode ser confirmada pela ciência»(1) e, por isso, a ciência não pode ser a única forma de saber a verdade. Cheque mate. Wallace defende alguns disparates que dão jeito ao literalismo bíblico mas que são obviamente falsos, como o de que «a ciência não pode determinar o que é historicamente verdadeiro.» As mesmas equações que usamos para determinar onde a Lua vai estar na próxima semana também servem para saber onde esteve na semana passada e todos os dados que a ciência usa são históricos, seja o resultado da experiência de ontem seja a luz que saiu de uma galáxia distante há dez mil milhões de anos. Mas o fundamental da tese de Wallace é interessante porque é um argumento muito usado – a tese de que a ciência é apenas uma crença enviesada dá imenso jeito para propagar tretas – e porque assenta num mal-entendido importante acerca do que é a ciência. Mas primeiro, o problema das “verdades”.

Segundo Wallace, «Existem muitas coisas que podemos saber sem o benefício da ciência. […] Verdades matemáticas e lógicas […] Verdades metafísicas […] Verdades éticas e morais [ e ] Verdades estéticas». Isto confunde três coisas diferentes. O problema de determinar o valor de verdade de uma expressão como “é imoral espetar ferros num toiro” advém da expressão, apesar das aparências, não ser uma proposição enquanto não se especificar o que é ser imoral. Mas, uma vez definido o termo, determinar se a proposição é verdade torna-se um problema científico. Por exemplo, se o imoral é causar sofrimento, então é imoral espetar ferros no toiro se o toiro sofrer com isso. Determinar se o toiro sofre é um problema científico, objectivo, para se resolver com recurso a testes empíricos.

Na matemática, na lógica e na metafísica podemos estipular verdades por definição. Por exemplo, na álgebra da escola primária é verdade que 1+1=2, na álgebra de Boole* a verdade é que 1+1=1 e nada nos impede de inventar uma álgebra na qual 1+1=3. Mas o significado comum de verdade é a correspondência entre uma descrição e a coisa descrita. Neste sentido, se somarmos laranjas a melhor descrição (a verdade) será 1+1=2 mas se juntarmos cardumes 1+1=1 será a descrição mais correcta. Ou seja, 1+1=2, 1+1=1 e 1+1=3 são todas verdadeiras por consistência com os axiomas respectivos. Mas 1+1=2 é verdadeira por correspondência nuns casos, 1+1=1 noutros e, tanto quanto sei, 1+1=3 não serve para nada.

Inventar afirmações que pretendem descrever a realidade, por si só, não nos dá conhecimento. Para a sabedoria é preciso também identificar, entre essas infinitas possibilidades, quais as que melhor correspondem ao que queremos descrever. Isso é o que faz a ciência e é por isso que «“a ciência é a única forma de se saber a verdade”». O problema principal da tese da ciência ser apenas uma crença enviesada é ignorar a diferença fundamental entre a ciência e o resto. Nas religiões, teologias e tretas afins, o procedimento padrão é assentar argumentos dedutivos numas poucas premissas tidas como inquestionáveis. Que Deus existe e inspirou a Bíblia ou que os astros influenciam a nossa vida conforme a sua posição aparente, por exemplo. Se a ciência fosse assim, realmente seria apenas mais uma treta. Mas não é.

A ciência não deduz uma conclusão a partir de um conjunto de premissas. A ciência procura as melhores explicações admitindo todas as premissas. Por exemplo, se admite a premissa de que a Terra é plana, admite também que pode ser cúbica, ou esférica ou esferóide alargada no equador. Admite também várias hipóteses sobre fios de prumo, relógios solares, esquadros e réguas. Depois interpreta a sombra ao meio dia a várias latitudes e os eclipses lunares à luz de cada combinação de premissas – não há dados brutos que possam ser apreendidos sem assumir nada – e nota que, na vasta maioria dos casos, as coisas não encaixam. Eventualmente, isto obriga a concluir que a Terra é aproximadamente esférica, mais uma data de coisas. Que por sua vez levantam novas questões, inspiram novas fornadas de hipóteses e novas iterações do processo. Sem nunca acabar. A ciência não assume à partida que isto ou aquilo é que é verdade. Explora continuamente todas as hipóteses em aberto à procura das melhores explicações.

É também assim que podemos concluír que este método é o único que produz conhecimento de forma fiável. Porque, ao admitir qualquer hipótese, engloba todos os métodos alternativos. Se o criacionismo evangélico, por exemplo, fosse verdade, já faria parte das melhores explicações científicas. Não seria mais estranho do que a relatividade ou a mecânica quântica. Além disso, enquanto métodos de produção de conhecimento, as supostas alternativas não passam de versões amputadas da ciência. Em ciência não há mal nenhum em admitir a hipótese da Bíblia ser o livro de Deus e literalmente verdadeira. O que é preciso é também admitir a possibilidade da Bíblia ser uma obra de ficção, entre outras hipóteses, e avaliar imparcialmente as explicações que resultam de cada uma. Isto o cristianismo evangélico tem dificuldade em fazer. E, finalmente, por não presumir que as coisas são assim e pronto, a ciência está continuamente a encontrar mais detalhes e melhores explicações. Ou seja, mais conhecimento. Enquanto os criacionistas andam a defender narrativas da idade do bronze, a ciência está a revelar como o universo realmente se formou e a mostrar-nos como curar doenças, usar a energia do Sol, comunicar instantaneamente de um lado ao outro da Terra e pousar sondas em cometas.

*Adenda: Em rigor, na álgebra de Boole esta operação é a disjunção e não a soma. Mas muitas vezes simplifica-se a notação representando a disjunção pelo sinal + e o ponto principal aqui é que podemos inventar as regras e a notação que quisermos.

1- Traduzido pelo Mats no seu blog: Os perigos do “Cientificismo”

sexta-feira, agosto 21, 2015

Filosofia não se explica.

Numa troca de comentários com o Pedro Galvão (1), a propósito do aborto, o Pedro recomendou-me que lesse dois textos dele sobre a identidade e persistência da pessoa. Descrevem argumentos interessantes mas não são relevantes neste caso porque a ética visa resolver o problema normativo de avaliar opções enquanto que definir conceitos como identidade e persistência da pessoa se reduz a escolher que descrição associar a cada um. Se “pessoa” for qualquer organismo do género Homo então um chimpanzé não é pessoa. Se for um ser que está consciente de si, então um chimpanzé e um humano são pessoas quando estão acordados e só a partir de certa idade. Se definirmos pessoa pela capacidade de auto-consciência, então cada chimpanzé e humano é pessoa até perder essa capacidade. Seja como for, a ética de caçar chimpanzés, destruir o seu habitat ou usá-los para experiências depende das circunstâncias e dos atributos dos chimpanzés mas não de quão inclusivos ou exclusivos forem os conceitos de identidade ou pessoa. No aborto é o mesmo. Decidir se chamamos pessoa ao feto ou se a sua identidade é persistente é como discutir se o machado do avô ainda é o machado do avô depois de se substituir a lâmina e o cabo. É um problema filosófico interessante mas a ética não deve depender da mera definição dos termos.

Mas o mais interessante no diálogo com o Pedro Galvão foi a forma como ele descartou esta posição, depois de eu ter respondido a várias objecções concretas. Declarou-a um «cientismo primário e desinformado». Aparentemente, cometi o pecado de não classificar o que defendo na taxonomia da argumentação ética e não resumir uma dúzia de argumentos que rejeito. E isto não é só com o Pedro. Tenho observado com frequência esta atitude em alguns filósofos: considerar que omitir o que não importa é sinal de ignorância; aproveitar essas omissões para apontar o que não é novidade nem adianta para o que se discute*; e depois concluir que não vale a pena discutir com cientistas ignorantes das regras da filosofia. O interessante disto é ser mais um efeito de quererem manter filosofia e ciência separadas.

Sem detalhes não se consegue encontrar boas explicações, porque as boas explicações são aquelas que ficam tão entaladas nos detalhes que não se pode alterar nada sem desmanchar tudo. Por exemplo, a explicação moderna para as marés depende da gravidade, da distância entre a Terra, o Sol e a Lua, da rotação da Terra, da rotação conjunta da Terra e da Lua e imensos pormenores encaixados exactamente como são. Nestas condições não vale a pena enumerar argumentos alternativos. Mas, antes de se conhecer estes detalhes, houve muitas propostas como a de que a maré subia porque a Lua soprava vento sobre a água, porque o mar expandia com o calor do Sol, ou que a água das marés vinha de, e escoava para, um remoinho ao largo da Noruega. Quanto menos detalhes há para encontrar boas explicações mais argumentos, e alternativas, se tem de considerar.

Foi por isso que, durante uns dois mil anos, a filosofia consistiu no estudo e criação de grandes conjuntos de argumentos alternativos. Muito trabalho dos filósofos foi, e é, inventariar argumentos antigos, contribuir argumentos novos e organizá-los todos para se perceber a que ramo cada um pertence. Mas, há coisa de cinco séculos, o progresso tecnológico permitiu descobrir muitos detalhes, inicialmente na física, química e astronomia. Isto criou a ilusão de que havia uma forma nova de procurar conhecimento, na qual se podava a maioria dos argumentos e fazia crescer apenas as poucas explicações que encaixavam nos dados. É por isso que os cursos de física não incluem Aristóteles, o calórico, o flogisto ou o éter luminífero.

Mas ciência e filosofia sempre foram o mesmo processo de análise racional, com o mesmo objectivo de esclarecer ideias e obter conhecimento. Só as condições diferem. Por não perceberem isto, muitos cientistas (e políticos) descartam a filosofia como desnecessária, escapando-lhes a importância da exploração argumentativa para desbravar caminho. É verdade que muita argumentação alegadamente filosófica não passa de disparates inúteis mas é um erro desprezar o método só por isso. Da mesma forma, muitos filósofos assumem que os cientistas são ignorantes ou têm a vista estreita só porque podam os ramos estéreis. Também é verdade que a educação científica enfatiza demasiado a linha que conduz ao estado da arte e, por omitir o quanto se teve de especular pelo caminho, forma muita gente de visão estreita. Mas também aqui o problema é não perceberem que a especulação argumentativa a que chamamos filosofia é um passo no caminho que também inclui a triagem de alternativas por inferência à melhor explicação, aquilo a que chamamos ciência. Nenhuma faz grande coisa sem a outra.

O apego indevido às listas e taxonomias de argumentos é evidente na filosofia da mente e na ética, onde muitos filósofos, implícita ou explicitamente, ainda assumem ideias como a da lei natural ou da substância pensante, por exemplo. E é especialmente sério na filosofia da religião, onde quase todos assumem ser possível existir um ser que age e pensa mas que não é composto de matéria, uma hipótese tão contrária ao que sabemos quanto a da Lua soprar vento. Estes erros ficam disfarçados de virtude pela ideia fajuta de que a filosofia têm de ser diferente da ciência e que, por isso, exige que se argumente enumerando e contrapondo outros argumentos. Quantos mais, melhor, com a proficiência intelectual de cada um medida pelo número de argumentos que menciona e rotula correctamente. Isto descura o que se pode fazer quando se olha para os detalhes e se procura a explicação que melhor encaixa nos contornos do problema. Felizmente, muita filosofia e ciência não padece deste preconceito, senão ainda estávamos a discutir qual dos quatro elementos é o mais importante. À luz de velas.

*Por exemplo, acerca de eu avaliar eticamente os actos considerando, entre outras coisas, as consequências, o Pedro escreveu que «Isto é extremamente controverso. Chama-se "consequencialismo de actos" e discute-se há muito tempo se é verdade.» Rotular uma posição é muito diferente de a entender. Muitas vezes é até o contrário. Por exemplo, eu defendo algo parecido com o “proximate subjective act consequencialism”, mas mesmo com um rótulo tão ridiculamente específico ainda restam diferenças fundamentais. E os problemas que tornam o consequencialismo controverso, como a fungibilidade de valores ou a impossibilidade prática de prever todas as consequências de um acto, são irrelevantes para a maioria dos casos de aborto. No fundo, alegar que uma posição se enquadra numa certa categoria controversa só adianta se se explicar porquê e se com isso se apontar algum problema concreto.

1- No blog do Domingos Faria, Discutir o aborto com razões

terça-feira, agosto 11, 2015

Treta da semana (passada): a mulher barbuda.

José António Saraiva escreveu um texto no jornal Sol que intitulou com uma pergunta: «As referências estão a desaparecer?»(1) Felizmente, podemos invocar aqui a lei de Betteridge e responder de imediato (2). Não. Arrumada a questão inicial, passemos à tese de Saraiva: «o cimento de uma comunidade é um conjunto de princípios e de normas, umas escritas, outras não, que toda a gente aceita naturalmente e sem discussão.» Sempre assim foi e sempre deveria ser. Mas, infelizmente, «hoje as calças compram-se manchadas e rotas, as camisas usam-se com a fralda de fora, certos penteados tentam imitar os cabelos despenteados. Há uma vontade notória de desafiar as regras.» Mancha puxa fralda, fralda puxa cabelo despenteado e, sem darmos pela coisa, já andam homens a casar com homens e é tudo uma pouca vergonha: «é precisamente aqui que começa a ficar em perigo o tal conjunto de regras comummente aceites sem as quais a vida em sociedade se torna impossível. Quando começamos a questionar tudo, a pôr tudo em causa, a comunidade fica em perigo [e] inicia-se o processo contrário: a desidentificação com o próximo e a desagregação do grupo.»

Nisto Saraiva tem alguma razão. As regras que todos aceitam sem questionar são importantes para manter o grupo unido pelos ideais que todos se esforçam por atingir. Consideremos um exemplo, entre muitos. Farkhunda Malikzada tinha 27 anos, estudava lei islâmica e ensinava crianças como voluntária em Kabul. Um dia, depois de ter ido rezar, criticou um mulá que vendia papeis com versos do Corão às mulheres que passavam, alegando que davam sorte. O homem desatou a gritar que Farkhunda era uma americana disfarçada e que tinha queimado o Corão e uma multidão espancou-a até à morte, arrastou o seu corpo duzentos metros e atirou-o ao rio (3). É impossível não dar razão a Saraiva. Quando ninguém no grupo questiona as «regras comummente aceites», o cimento que os une é mesmo muito forte. O problema é que, assim, vivem enterrados no cimento.

A sociedade não deve ser uma prisão nem nós brita na argamassa. A sociedade deve ser um conjunto vivo de interacções, evoluindo e contribuindo para a plena realização de cada pessoa. E isto é impossível se vivermos tão colados uns aos outros que ninguém consiga sequer pensar. Questionar é fundamental, porque ninguém encontra respostas se não puser perguntas. Questionando, percebemos que, se obrigamos todos a andar com a fralda de fora, contrariamos os que preferem a camisa enfiada nas calças e, se obrigarmos o contrário, incomodamos os restantes. Mas, se deixarmos cada um usar a sua camisa como entender, toda a gente fica feliz. Não é uma solução que sirva para tudo. Não podemos deixar cada um roubar o que quiser ou violar quem lhe apetecer. Mas podemos deixar que todos troquem bens e serviços livremente ou que tenham sexo com quem quiserem ter, exigindo apenas que o façam com o consentimento informado dos participantes. Há muitas coisas que não é preciso colar com cimento.

Saraiva lamenta que «se está a construir uma sociedade em que já nada é consensual, em que tudo se contesta, em que tudo se permite, em que nenhuma regra é aceite sem polémica.» Ainda não. Infelizmente, ainda há muito que se aceita sem a polémica devida. Mas seria bom que tudo se contestasse, porque contestar exige uma coisa importante que é desencorajada na passividade saudosa dos ideais de Saraiva. Exige pensar. E mesmo que o desuso tenha feito Saraiva esquecer isto, pelo menos deve reconhecer que é graças à contestação e à polémica que pode dizer mal dos rotos e desfraldados sem arriscar que umas centenas deles o espanquem até à morte e o atirem ao rio.

Saraiva começa o texto aludindo à «figura grotesca da mulher com barba [que] baralha-nos todas as referências - e a intenção seria mesmo essa: baralhar-nos, confundir-nos.» Faz-me lembrar a minha bisavó. Duas coisas dela guardo vivamente na memória. Os pêlos pretos do buço e do queixo, e a sua personalidade. Era uma mulher inteligente, calma, tolerante e tão boa que ninguém podia senão gostar dela. Saraiva teve azar em lhe faltar uma mulher barbuda assim. Tinha perdido o medo de correr pela relva e agora não andava a chorar por mais cimento.

1 - Sol, As referências estão a desaparecer?
2 - Wikipedia, Betteridge's law of headlines: «Any headline that ends in a question mark can be answered by the word no
3 - BBC, Farkhunda: The making of a martyr

segunda-feira, agosto 10, 2015

Treta da semana (atrasada): Indignado com a indignação

Alexandre Homem de Cristo julga «impossível de deixar escapar a contradição assente no facto de gerar mais indignação a morte de um leão a milhares de quilómetros de distância do que as atrocidades contra homens, mulheres e crianças com que nos defrontamos frequentemente» (1). Ironicamente, escapa-lhe a contradição entre esta posição e dedicar um post artigo a indignar-se com a indignação nas redes sociais. Alega também que «as redes sociais lincham com total impunidade», quando nelas se critica sem julgamento ou defesa prévia, ao abrigo da opinião pessoal e da liberdade de expressão. O que é completamente diferente daquilo que Cristo faz porque o post artigo dele está num prestigiado jornal e não nessa coisa plebeia das redes sociais.

Uma de várias coisas que Cristo parece não ter percebido é que as pessoas não manifestam a sua indignação apenas para encher uma quota semanal de caracteres. Fazem-no também na tentativa de mudar alguma coisa. E, por isso, fazem-no mais quando a expressão da sua indignação tem algum efeito. Uma grande diferença entre o dentista americano que caça leões e os milhões que mutilam crianças a sangue frio, chacinam vizinhos por serem de etnia diferente ou decepam quem tem outras crenças é que estes últimos não ligam muito aos likes no Facebook. Ao contrário de Cristo, muita gente percebe que não é com comentários sarcásticos na Internet que se vai desmantelar o ISIS ou acabar com a mutilação genital de crianças. Isto não elimina a indignação mas reduz o incentivo para a expressar. Expressar indignação também serve para informar e despertar indignação nos outros. Antes da vaga de indignação pela morte do leão muitos nunca se tinham indignado contra isto simplesmente por nunca terem pensado no assunto. Também por isto é menos útil manifestar indignação para com grupos terroristas. Pouca gente deve haver que precise de presenciar tal indignação para admitir “pois é, nunca me tinha ocorrido, mas isto de decapitar gente e vender crianças para escravatura sexual não é muito decente”.

Outra diferença é que o problema dos dentistas idiotas que matam leões tem soluções evidentes. Pelo menos um desses irá ter dificuldade em financiar o “desporto” depois de ter ficado sem clientes pelo enxovalho que apanhou; várias companhias aéreas deixaram de transportar troféus de caça (2); e até o Zimbabué está a rever a legislação e suspendeu estas actividades (3). Neste tipo de coisas, a indignação nas redes sociais resolve alguns problemas. Combater o Boko Haram é mais difícil, não só porque mandar os filhos para a guerra custa mais do que mandar bitaites na Internet mas também porque muitos destes grupos descendem de tentativas análogas de eliminar grupos semelhantes. Mesmo quando se sentem indignadas, algumas pessoas têm relutância em se manifestar sem ter primeiro ideia do que se deve fazer. É outra coisa que Cristo, aparentemente, não compreende.

Mas o que mais assusta Cristo é que «o caso demonstra como esta cedência às redes sociais, tanto aqui como em outros casos, é errada. E, sobretudo, como é perigosa, pois legitima-as enquanto tribunais populares da modernidade, tão despóticos quanto os originais, e munidos de poder e influência assustadores.» A hipérbole, provavelmente devida à pressão para escrever alguma coisa, seja o que for, impediu-o de perceber mais uma diferença importante. Se comparamos o que aconteceu ao dentista que matou o leão e o que aconteceu, por exemplo, aos cristãos novos de Lisboa em 1506, é possível notar algumas diferenças em detalhes como o número de pessoas espancadas até à morte e queimadas, que foi de zero no primeiro caso e de algumas centenas no segundo. A diferença importante é que o perigo dos “tribunais populares despóticos originais” estava no comportamento de cada indivíduo nessa turba enfurecida, que fazia coisas inadmissíveis como matar, pilhar ou destruir. Nas redes sociais, o que a vasta maioria das pessoas faz é aquilo que todos têm o direito de fazer. Criticar, apontar defeitos, assinar petições, fazer troça e afins. Há sempre uns poucos que exageram, com ameaças e outras atitudes menos aceitáveis, mas são a minoria e mesmo esses ficam muito aquém dos tribunais despóticos que Cristo refere.

Cristo manifesta-se indignado com as manifestações de indignação de quem se indigna com aquilo que Cristo não considera o mais indignante. Está no seu direito. Ninguém é obrigado a ser consistente. Mas ignora que muitos problemas graves não se resolvem com manifestações de indignação, enquanto outros, menos graves, são mais sensíveis a isso. Uma campanha de indignados no Facebook pode acabar com a tourada em Portugal mais facilmente do que com a guerra no médio oriente, e não perceber esta diferença reduz ainda mais a parca relevância que o texto dele poderia ter. Finalmente, alerta-nos para o suposto perigo da «cedência às redes sociais» mas sem explicar quem cede o quê nem onde está o perigo. Diz ser «um mundo estranho aquele que [...] glorifica Dzhokhar Tsarnaev, o bombista da maratona de Boston [...] elevando-o a ícone pop na capa da revista Rolling Stone» e defende que os jornais deviam contrariar isto «detendo a tentação das audiências e não deixando que sejam as redes sociais quem decide o que é a notícia.» Mas não são as redes sociais quem decide. São as pessoas. As redes sociais são apenas uma ferramenta que permite estender a conversa de café por milhões de pessoas ao mesmo tempo. De resto, o que lá se passa é a mesma coisa. Alguns protestos com razão, algumas ideias interessantes, muita coscuvilhice, muitos boatos e uma dose enorme de disparates. Mas, nisso, as redes sociais não são nem mais nem menos perigosas do que os correios, os telefones ou os posts artigos de opinião nos jornais.

1- Observador, O leão Cecil e as redes sociais que também matam
2- Mashable, Airlines ban transporting exotic trophy animals after Cecil the lion's death
3- Sunday Express, Cecil the Lion: Zimbabwe FINALLY bans trophy hunting after 1 million sign petition

sábado, agosto 08, 2015

Demarcação, parte 2.

Para qualquer qualquer lista razoável de características que determinam o que é uma pessoa, seja raciocínio, sensação, afectos, resolução de problemas, aprendizagem ou expectativas, em todas um porco adulto está à frente de um humano recém-nascido. A complexidade do nosso sistema nervoso e a necessidade de combinar uma cabeça enorme com ancas de bípede faz-nos nascer tão prematuros que só meses depois do nascimento é que as capacidades cognitivas de uma criança começam a ultrapassar aquelas de animais que costumamos guardar aos pedaços no frigorífico. Ainda assim, matar um humano recém-nascido é pior do que matar um porco adulto. Não pelo que o recém-nascido é naquele momento mas porque a vida humana, no seu todo, é muito mais rica e preciosa do que a de um porco. É também este critério que nos faz prezar a vida do feto humano com 30 ou 20 semanas. Não pelas características que manifesta nessa altura do seu desenvolvimento, que não são nada de especial, mas pela capacidade de chegar àquela subjectividade que nós temos e que poucos animais aproximam.

Muitos defendem que, às 10 semanas, a situação é completamente diferente. Dizem que não se consegue traçar uma linha exacta mas que é preciso traçá-la algures e, por isso, fica no redondo número 10. Mas mesmo sem saber exactamente quando a criança ultrapassa o porco, sabemos que só começa a fazê-lo bastante depois do nascimento. Por isso, não é possível traçar uma linha que ponha o porco e o feto de dez semanas de um lado e o recém nascido do outro. Pelas capacidades que manifestam naquele momento, o porco fica à frente dos dois. E pelas capacidades que manifestarão no futuro, ambos ficam à frente do porco. Para fazer esta distinção é preciso abandonar qualquer fundamento empírico e inventar uma categoria de “pessoa” da qual os fetos com 10 semanas são excluídos por mera definição. Eu rejeito esta aldrabice por ser demasiado arbitrária, infundada e desnecessária. O critério da capacidade futura, que tão bem distingue o recém-nascido do porco e que também serve para o feto de 20 semanas, serve igualmente para o de 10 ou qualquer outro número.

Um problema que apontam a isto, e a razão deste post, é que sem uma demarcação qualquer que permita ignorar os fetos mais novos também teremos de respeitar os óvulos e os espermatozóides, pois estes também podem criar a tal vida futura preciosa. É um ponto pertinente. Considerando os 43 anos que vivi até agora, é evidente que teria perdido imenso se me tivessem matado à nascença. Ou se me tivessem abortado. Ou se os meus pais não me tivessem concebido. Para mim, estas três possibilidades seriam equivalentes. Teria perdido exactamente o mesmo (tudo). No entanto, o valor subjectivo das consequências para aqueles que as sofrem não é o único factor a considerar quando avaliamos a ética de um acto.

Imaginemos que a Ana põe uma bomba num centro comercial, sabendo que irá matar várias pessoas. E o Bruno aprova a construção de uma auto-estrada, sabendo que irão morrer várias pessoas todos os anos nessa estrada. Apesar de, a longo prazo, a auto-estrada até matar mais pessoas, não precisamos de definir qualquer diferença metafísica entre sinistrados e vítimas do atentado para distinguir o valor ético dos actos da Ana e do Bruno. Cada pessoa que morre trespassada pelos estilhaços da bomba tem a sua morte ligada ao acto da Ana por uma linha clara de causalidades. Outros factores causais, como a pessoa ter ido ao centro comercial a essa hora, são secundários e não a causa principal da morte. Cada vítima morreu por causa da bomba. No caso do Bruno é o contrário. A causa principal daquele despiste terá sido excesso de velocidade, aquela colisão foi por o piso estar molhado ou os travões terem falhado, e em nenhum caso é razoável dizer que a pessoa morreu porque o Bruno assinou a autorização de construção. O acto do Bruno foi apenas mais um factor causal secundário entre muitos.

É esta a diferença entre, por um lado, o infanticídio, homicídio ou aborto, seja a que semanas for e, por outro, a contracepção. No primeiro caso temos actos que são a causa principal da eliminação daquela vida que impedem que exista. O segundo é diferente porque, entre os milhões de milhões (de milhões de milhões... ; é um número enorme) de filhos que cada pessoa poderia ter, correspondendo a todas as combinações de gâmetas com todos os seus potenciais parceiros, cada um desses que não existe deve a sua inexistência a um conjunto enorme de factores. Imensos factores biológicos, fisiológicos, coincidências várias de quem encontra quem e quando e, no meio disto tudo, a decisão de ir jantar fora, ficar até mais tarde no trabalho ou não ter filhos com aquela pessoa não se destacam como particularmente relevantes. Da decisão de não ter filhos resulta que alguns que poderiam ter nascido não nascem. Mas a responsabilidade ética por essa ausência é análoga à responsabilidade ética que Karl Benz tem pelos milhares de pessoas que morrem em acidentes de viação todos os anos. Ter inventado o automóvel é um factor causal nessas mortes mas, para cada uma dessas mortes em particular, é apenas um entre muitos factores causais e está longe de ser o principal.

Não é necessário inventar distinções metafísicas entre pessoas e não pessoas para ter uma ética consistente, fundamentada e prática. E assentar a ética nesta distinção é até perigoso. Para perceber que temos o dever de não prejudicar um ser não precisamos de decidir que é pessoa. Pegar fogo a um gato ou matar os últimos rinocerontes é obviamente errado, seja qual for a definição de pessoa. O único papel prático de definir o que é pessoa tem sido o de fazer algo que, sem essa desculpa, seria obviamente condenável. O touro não é pessoa, os índios americanos não eram pessoas, os escravos africanos não eram pessoas, as mulheres, as crianças, os infiéis. É o que der jeito. Mas isso não é ética. É precisamente o oposto.

1- Demarcação

quinta-feira, agosto 06, 2015

Treta da semana (atrasada): Vampiros energéticos.

Declara o guia kármico Mário Portela que, «Por sermos um complexo energético, estamos sujeitos a interacções com várias dimensões de energias que podem ocasionar assimilação ou perda de energia»(1). Assimilamos estas energias por três vias diferentes. «Uma parte da energia que precisamos, obtemos através da alimentação e respiração (cerca de 10%) [...] Outra parte, através da sono e solarização (cerca de 20%) [...] mas a maior parte de energia que precisamos é aquela que vem através do fluido cósmico universal (cerca de 70%).» É o que eu tenho dito à minha mulher repetidamente. O meu peso não tem nada que ver com os chocolates. É o fluido cósmico universal que me dá cabo da linha.

Nesta troca de fluidos energéticos, «Um Vampiro Energético é uma pessoa que tem necessidade de energia vital cósmica e não consegue absorvê-la naturalmente. Por um mecanismo vibracional, de frequência vibracional, o vampiro aproxima-se de pessoas que têm boa carga de energia vital [… e os vampiros …] assim absorvem a energia do outro e, por estarem debilitados, metabolizam e consomem toda energia absorvida e não sobra nada para retornarem à simbiose com a outra pessoa.» É por isso importante identificar e evitar estas pessoas. O que não é difícil porque são pessoas que, entre outras coisas, «fazem perguntas para sondar o mundo da outra pessoa, com propósito de descobrir alguma coisa errada.» Como os cépticos, por exemplo, que venham dizer que esta treta das energias e dos vampiros é um enorme disparate. Esses são de evitar a todo o custo.

Este é um exemplo de uma treta, entre muitas, para a qual a abordagem tradicional do pensamento crítico adianta pouco. O pensamento crítico de raiz filosófica (2) enfatiza quase exclusivamente a análise de argumentos. A categorização de inferências e conceitos, o esclarecimento de termos, a estrutura lógica do argumento, a qualidade das inferências e assim por diante. Só a avaliação das premissas é que, forçosamente, tem de sair do âmbito do argumento, mas até essa tende a focar-se apenas no que é relevante ao argumento. O problema principal deste tipo de análise é promover a avaliação de narrativas pela sua consistência interna e como algo isolado do resto, o que é mau porque o problema principal em alegações como esta dos vampiros energéticos não está nos detalhes das inferências ou na estrutura lógica do argumento. Está em serem explicações claramente inferiores às alternativas que já temos, como a de que obtemos energia pelos alimentos e o resto são aspectos subjectivos e emocionais das relações entre pessoas e não têm nada que ver com “energias” ou vampirismo.

O problema da ênfase excessiva na argumentação é ainda mais grave quando, até para aproveitar este enviesamento, os argumentos são mais minuciosos e complicados. Um exemplo disso é o argumento ontológico para a existência de Deus (3). Uma versão recente, de Plantinga, apela à lógica modal para enunciar um elaborado argumento. A premissa de que é possível existir um ser “maximamente grande”, definido como sendo algo que é “maximamente excelente” em todos os mundos possíveis. Se é possível então existe num mundo possível e se existe num mundo possível e é “maximamente excelente” em todos então existe em todos os mundos possíveis, incluindo no nosso. Este é um excelente argumento porque qualquer pessoa que queira atacá-lo enquanto argumento irá ver-se a braços com a axiomatização da lógica modal, com os contra-argumentos a várias objecções, com as minudências da definição de cada conceito e uma miríade de detalhes complexos. Qualquer crítica a este argumento que tenha menos de 15 páginas e 30 referências à literatura será imediatamente descartada pelos filósofos da religião como coisa de ignorantes. Mas o problema fundamental do argumento ontológico é o mesmo desde há mil anos, quando Anselmo formulou a primeira versão oficial. Sem qualquer poder explicativo ou entrosamento com a realidade que observamos, nunca foi melhor do que explicações alternativas e, com o passar dos séculos e o melhoramento destas últimas, só foi ficando cada vez mais para trás.

A capacidade de avaliar criticamente estas coisas é muito importante e cada vez mais importante. Mas o pensamento crítico não deve focar a argumentação, a classificação de falácias e a análise minuciosa de conceitos em detrimento da avaliação da adequação do que é proposto enquanto explicação e da sua comparação com as alternativas. Se nos oferecerem uma roda quadrada para o automóvel a nossa preocupação principal não deve ser com a qualidade do material, o brilho do cromado ou os detalhes dos acabamentos.

Se alguém estiver interessado numa versão mais extensa e académica deste desabafo (com referências e tudo), está na página 31 do livro do II Seminário Internacional de Pensamento Crítico.

1- Portugal Místico, Vampiros Energéticos, parte 1
2- Por exemplo, como descrito no influente Delphi report, da American Philosophical Association
3- Wikipedia, Ontological argument