domingo, setembro 06, 2026

IA e engenharia.

Até ao ano passado, a crítica mais comum aos modelos geradores da IA consistia em apontar defeitos. As mãos tinham dedos a mais, não compreendiam problemas simples, davam respostas disparatadas e assim por diante. Entretanto, o desempenho destes modelos melhorou e os críticos precisam de outras objecções. Num artigo de Abril, Luís Caires deu vários exemplos (1). Estes modelos são falíveis e, por isso, piores que qualquer pessoa infalível. O seu treino depende «dos conteúdos criados por humanos ao longo de séculos» como toda a investigação científica e ensino. Caires diz que estes conteúdos são «o “petróleo” dos LLM» e que estão «praticamente todos esgotados» mas o conhecimento não se gasta com o uso e o trabalho de selecção, anotação e organização dos dados torna-os ainda mais úteis para os modelos seguintes. Se bem que concorde que o investimento especulativo nesta tecnologia será um problema quando a bolha rebentar, isto é um problema do mercado. Aconteceu o mesmo com a construção ferroviária no século XIX mas os comboios continuam a ser úteis.

Caires também denuncia como «lunática» a procura por «uma inteligência super-humana omnisciente», critica a adopção rápida destes modelos porque «a intervenção de engenheiros com formação superior continua a ser essencial» e defende que o ensino superior terá de garantir a «sustentabilidade e flexibilidade dos percursos profissionais na era da IA». Apesar de reconhecer que «serão precisos cada vez menos “coders de aviário” (sem ofensa)», parece não compreender porque é que esta tecnologia dispensa esses programadores. É uma dificuldade comum entre informáticos, julgo que por razões históricas.

Desde que surgiram os computadores electrónicos que houve duas abordagens diferentes na informática. A dominante foi a da engenharia, em que os humanos dão aos computadores as instruções exactas para fazer o que é preciso. Isto deu-nos ferramentas importantes como compiladores, linguagens de programação e metodologias para garantir a especificação rigorosa dos algoritmos. Formou também engenheiros capazes de traduzir problemas em soluções que o computador consegue executar. A outra abordagem é mais estatística. Reconhecendo que o computador apenas mapeia sequências de zeros e uns noutras sequências de zeros e uns, reduz todos os problemas ao cálculo de expressões algébricas que façam a correspondência correcta. Esta abordagem é pouco eficiente se sabemos como encontrar a solução e, para problemas mais complexos, exige computadores poderosos, muitos dados e métodos sofisticados de optimização. Por isso durante décadas apenas fez promessas que não conseguia cumprir. Mas tem uma vantagem importante. Não exige saber como resolver o problema; apenas precisa de exemplos.

Isto faz uma grande diferença porque o engenheiro informático só consegue programar soluções se souber como se resolve o problema. É por isso que aprende algoritmos, estruturas de dados, métodos de análise de requisitos e essas coisas. Em muitos casos funciona bem. Mas se lhe pedirmos um programa que traduza Alemão para Português, ou que leia matriculas em fotografias, ou que gere uma conversa já não consegue porque ninguém sabe o procedimento detalhado (o algoritmo) para fazer isso. Para resolver esses problemas temos de ir além das limitações cognitivas dos humanos. Precisamos de modelos grandes, hardware poderoso, e muitos dados mas obtemos um algoritmo que nenhum engenheiro informático conseguiria encontrar. É um algoritmo complicado, com milhares de milhões de operações algébricas, mas funciona. A abordagem estatística resolve problemas que a engenharia humana não consegue resolver.

E um desses problemas é o de traduzir o pedido do cliente para código que faz o que o cliente pediu. Tal como conversar ou ler matrículas, o engenheiro informático sabe fazer isto mas não sabe como em detalhe suficiente para programar este processo no computador. Graças a essa limitação era preciso contratar engenheiros informáticos e tradutores. Mas agora não estamos mais limitados pela capacidade humana de conceber algoritmos e, tal como os tradutores, também os engenheiros informáticos terão dificuldade em vender o seu trabalho.

Isto não tem nada que ver com o valor do conhecimento nem com a importância do ensino superior, ambos independentes do mercado de trabalho. A tradução automática não tira o valor de conhecer outras línguas e culturas. Desde mudar fraldas a programar em assembly no Z80, há muito conhecimento que eu adquiri que tem preço zero no mercado mas tem grande valor para mim. O propósito das universidades é criar e manter vivo o conhecimento pelo seu valor intrínseco e se um jovem quiser tirar um curso de tradução ou de engenharia informática porque quer aprender, recomendo que o faça. Infelizmente, tem sido prática confundir valor com preço e ensino superior com formação profissional e os cursos que se aproveitaram disso para atrair alunos vão sofrer agora as consequências. Mas já não é razoável dizer a um jovem de 18 anos que a licenciatura em informática que concluir aos 21 lhe vai render dinheiro no mercado de trabalho. O conhecimento terá valor mas o preço será, provavelmente, o mesmo da tradução.

Caires critica «o espantalho de uma iminente desvalorização do trabalho intelectual e da educação qualificada». Se é de valor que falamos, concordo que é espantalho. Mas se falamos de preço, então o problema é óbvio. A compra deste tipo de trabalho, seja traduzir uma língua noutra seja traduzir requisitos em código, estava dependente da incapacidade humana de programar computadores para o fazer. Essa limitação foi ultrapassada e se as alternativas forem pagar umas semanas de trabalho ou uns segundos de computação é fácil de antecipar qual o mercado vai preferir.

1- Luís Caires, Público, A insustentável leveza da IA, trabalho e educação

quarta-feira, agosto 12, 2026

Jason Arday e a representatividade forçada.

Há vários aspectos preocupantes no caso de Jason Arday, que aldrabou até ser o professor negro mais novo de Cambridge. Desde ramos académicos de activismo disfarçado de ciência ao silenciamento pela polícia de críticas legítimas. E demonstra também como políticas discriminatórias de integração e representatividade são contraproducentes.

A seriação por mérito é um bocado treta. Por exemplo, muitas vezes ajusta-se as avaliações para ganhar o candidato previamente escolhido. Ainda assim, tende a filtrar falhas demasiado óbvias como um CV cheio de mentiras e uma dissertação plagiada. Mas medidas para favorecer características como raça ou género, além de injustas, contornam esta triagem.

A justificação que tenho encontrado é ser apenas uma medida provisória para eliminar estereótipos contra certas minorias. A ideia é que se aumentar a sua representatividade deixará de haver preconceito contra essas pessoas. E isso parece funcionar. Há poucas gerações era impensável ter mulheres em medicina ou direito mas hoje, por haver tantas médicas, advogadas e juízas, já ninguém estranha. Mas isto foi sem critérios especiais nem quotas.

Um problema de forçar a diversidade com discriminação é facilitar a entrada de aldrabões e incompetentes que, apesar surgirem em todas as raças e géneros, assim ficam sobre-representados nos grupos que se quer favorecer. Esta correlação cria um fundamento objectivo para desconfiar das competências dessas pessoas e acaba por reforçar os estereótipos que se queria eliminar. Por cá, por exemplo, a eleição de Joacine Katar Moreira por ser mulher negra não deve ter ajudado a contrariar preconceitos contra mulheres negras na política. E não me parece coincidência que o racismo esteja a ficar mais assumido e explícito conforme se tenta impor diversidade desta maneira.

O progresso das mulheres no século XX devia servir de molde para estas coisas. Eliminou-se barreiras legais e deixou-se as pessoas mostrarem o que valem. Foi assim que várias profissões antigamente exclusivas para homens passaram a ser dominadas por mulheres e o consenso é que elas estão lá porque são competentes. Sistemas de quotas ou discriminação “positiva” têm o efeito contrário. Não só dão a impressão de incompetência como fundamentam essa impressão com exemplos objectivamente demonstrados.

quinta-feira, julho 16, 2026

Não há nada aqui para ver.

Segundo Carlos Guimarães Pinto, não nos devemos preocupar que a IA tenha muito impacto. Pelo contrário, o preocupante é ter pouco: «Segundo a AMECO, na segunda metade dos anos 80, antes da internet, a produtividade por trabalhador cresceu a uma média de 4,2% ao ano. Nos anos 90 esse crescimento foi de 2,6%. Na primeira década do século, o crescimento viria para os 0,9%. Na década de 2010, o crescimento médio anual foi de uns míseros 0,7%. Nesta década, até ao momento, vamos com 0,5%.»(1) Como a produtividade é «um bom indicador de automação de tarefas [e] a variável que mais se correlaciona com o aumento dos salários», CGP conclui que o problema é a inovação tecnológica estar a abrandar e é por isso que os salários não sobem tanto. Mas «A “boa” notícia para os trabalhadores é que, de facto, não andam a ser substituídos tão rapidamente como alguns temem.».

Um defeito desta explicação, que CGP reconhece, é que "mais produtividade" em economia não quer dizer produzir mais. Quer dizer mexer mais dinheiro por hora de trabalho. Portanto, se uma hora de trabalho de um empregado da Netflix disponibiliza cem vezes mais horas de vídeo que uma hora de trabalho do antigo empregado de clube de vídeo mas o preço é 1% do que era em 1990, a "produtividade" não mudou porque o dinheiro por hora de trabalho é o mesmo. CGP diz que «mesmo descontando todos estes fatores, a realidade é que o melhor indicador de substituição de trabalho por tecnologia indica que essa substituição é cada vez mais lenta» mas não é claro que esse desconto seja bem feito se a diferença pode ser de ordens de grandeza. Isto leva o modelo de CGP à conclusão pouco plausível de que a inovação tecnológica foi muito mais rápida nos anos 80 do século passado do que nesta última década.

Penso que o erro fundamental de CGP é descurar a mudança na relação entre trabalhadores e máquinas. Quando passámos da enxada para o tractor, a produtividade aumentou no sentido comum do termo por se produzir mais alimentos por hora de trabalho. E aumentou no sentido económico porque conduzir um tractor exige mais qualificações, o que permite exigir um salário melhor e mexe mais dinheiro por hora de trabalho. Agora é diferente. Num centro de distribuição os trabalhadores viam os endereços nos pacotes e tinham de os encaminhar correctamente num processo complexo. Separavam os nacionais dos internacionais, depois por diferentes zonas do país, em cada zona separavam por códigos postais e assim. Precisavam de saber o processo e não era trivial substituir um trabalhador. Agora têm um sistema automático que lê os rótulos, identifica as moradas e separa tudo, precisando apenas que o rótulo fique para baixo, virado para o leitor. O trabalho humano passa a ser virar os pacotes conforme passam no tapete rolante. Aumenta o número de encomendas processadas por dia mas não aumenta o dinheiro movimentado por hora de trabalho porque os trabalhadores precisam de menos qualificações, ganham menos e o dono pode baixar os preços mesmo tendo mais lucro. É menos trabalho por encomenda mas menos dinheiro a mexer porque o trabalho, em vez de ficar mais caro, ficou mais barato.

Isto nota-se na prática. No ano 2000, o salário bruto de um informático recém formado era cerca de 200.000$00, o que seria uns 1600€ agora. Hoje ronda os 1200€. Não é por a produtividade ter diminuído. É porque a relação com a tecnologia mudou. O progresso em compiladores, motores de bases de dados, ambientes de desenvolvimento, Internet e afins fizeram com que o informático pudesse produzir cada vez mais usando o conhecimento que tinha. Essa relação entre tecnologia e trabalho aumentava o preço do trabalho e o indicador económico de produtividade. Mas o progresso recente em modelos de linguagem e IA tem outro efeito. Permite produzir o mesmo dispensando muito do conhecimento especializado do informático recém formado. Nestes casos, a maior capacidade de produzir não aumenta o salário nem a "produtividade" económica porque as competências do trabalhador podem ser substituídas por máquinas mais baratas.

É por isto que a IA é uma tecnologia qualitativamente diferente. Na métrica clássica de quanto dinheiro muda de mãos por hora de trabalho a IA tem pouco efeito porque essa métrica depende de mais tecnologia exigir mais competência e aumentar os salários. Sempre houve algumas excepções. Muitos artesãos, por exemplo, foram substituídos por operários fabris menos talentosos, menos qualificados e com salários menores. Mas era um efeito pequeno na economia. O efeito dominante era a tecnologia exigir mais competência. A IA muda esta relação porque substitui competências. Alguns trabalhadores ainda beneficiam dela por terem qualificações difíceis de substituir. Por enquanto. Mas aumenta constantemente o número de trabalhadores com competências dispensáveis. Isto não aparece na métrica do dinheiro movimentado por hora de trabalho porque a competição com máquinas cada vez mais baratas faz baixar esses salários. No entanto, e ao contrário do que CGP defende, este problema é preocupante. Não só para quem é directamente afectado mas também porque a desigualdade económica e a degradação das perspectivas dos jovens são um perigo para a democracia se não houver uma intervenção atempada. Fingir que não se passa nada é a opção mais perigosa.

1- Carlos Guimarães Pinto, Preocupados com o problema errado.

sábado, abril 25, 2026

J. K. Rowling e os activistas woke.

Rowling tem sido acusada de transfobia por considerar o sexo de cada pessoa mais relevante do que a opinião que a pessoa tem de si própria. Este texto de Mia da Graça (1), reiterando esta crítica, exemplifica os três aspectos característicos do movimento woke. Primeiro, o apelo falacioso a emoções para disfarçar a falta de justificação racional. Segundo, o politicamente correcto, um termo do tempo da União Soviética que designa a ideia antiga do poder político forçar cada indivíduo a pensar da forma que se estipula correcta. É o contrário da alternativa mais moderna de deixar que cada um pense por si. E, terceiro, tentar impor esse pensamento correcto controlando o discurso. Pela censura, por obrigações de fala ou deturpando o significado de palavras que possam exprimir ideias impuras.

Graça começa por invocar o «cansaço que só quem é alvo de uma cruzada organizada conhece» e acusar Rowling de dedicar a sua fortuna a «financiar ações legais contra os direitos das pessoas trans». Não deixa explícito que direitos são esses. Em vez disso, refere «as mulheres que o sistema recusou reconhecer como tal», alega que «Quando uma mulher se torna inimiga das mulheres trans, torna-se inimiga da sua própria condição» e usa outras expressões carregadas de emoção para o leitor sentir em vez de pensar. O problema parece ser que, no Reino Unido, o conceito legal de mulher é pessoa adulta do sexo feminino, alegadamente violando um direito da pessoa trans ditar o significado de "mulher".

A necessidade de argumentar pela emoção vem disto não se justificar pela razão. Os direitos da pessoa trans são os direitos de todos por igual, sejam trans, cis, homem ou mulher. Isto não inclui um direito de escolher categorias. As minhas características, qualquer que seja a minha vontade, excluem-me de categorias como negro, natural da China, criança, homem trans e muitas outras sem que isso viole os meus direitos. Categorizar uma pessoa como homem ou mulher em função do seu sexo também não lhe viola direitos. Outro exagero falacioso é o desta categorização fazer com que as pessoas trans «não existam legalmente». Ninguém deixa de existir legalmente por ser categorizado como homem. E se bem que haja países em que a categoria do sexo é legalmente relevante para muitos direitos, o problema não está na categoria. Está em não respeitarem o princípio da igualdade de direitos. Categorizar homens e mulheres pelo sexo, por si só, nem viola direitos nem faz alguém deixar de existir.

O problema de Graça é outro, disfarçado no texto com confusões que suspeito serem propositadas. Graça aponta como sendo contraditório Rowling ter omitido dos livros o seu primeiro nome, Joanne, para deixar o seu sexo ambíguo e, agora, querer «garantir que as fronteiras entre géneros sejam intransponíveis para toda a gente». Isto não só confunde sexo com género, porque a proposta de Rowling é que homem e mulher sejam categorias baseadas no sexo e não no género, como confunde a liberdade individual com exigências a terceiros. Rowling tem o direito de escolher como se apresenta em público tal como Graça tem o direito de escolher o que veste. O que não seria legítimo era Rowling exigir dos seus leitores que pensassem nela como sendo homem. É por isto que também não é legítimo Graça exigir que o conceito que os outros têm de homem ou mulher seja aquele que Graça quer.

Outra confusão é a de que isto faz com que as pessoas trans «sejam tratadas como perturbações a corrigir.» Ser trans ou cis não é uma perturbação. É a maneira de ser da pessoa. Há quem se sinta bem concebendo o seu género conforme o seu sexo e há quem se sinta melhor com outra combinação. As perturbações são outras. Por exemplo, um homem cis que fique furioso ou suicida se questionam a sua masculinidade sofre de uma perturbação. Se Rowling se ofendesse com o «Mr. JK Rowling» que Graça escreveu no título do seu artigo, isso indicaria uma perturbação porque um adulto saudável não dá importância a essas coisas. Mas se bem que ser trans não seja perturbação, a disforia de género é uma doença grave. Leva a tratamentos desnecessários, cirurgias invasivas ou até ao suicídio pela angústia e sofrimento que a doença provoca. Quem padece desta doença também pode ter uma preocupação exagerada com a opinião dos outros. Mas isto é uma patologia. Deve ser tratada como tal porque até pode causar a morte mas não justifica alterar conceitos como homem, mulher, ou categorias de género.

Se for necessário a lei distinguir entre homens e mulheres, faz sentido que o faça pelo sexo. Não só porque é pelo sexo que a maioria das pessoas caracteriza o seu género ou porque é esse o significado tradicional de "homem" e "mulher", mas também porque a alternativa woke de definir cada uma destas categorias de forma circular e subjectiva, em que "homem" é quem se sente homem e "mulher" é quem se sente mulher, priva estes termos da função intersubjectiva de partilhar significado. Seria uma grande confusão no trânsito se definíssemos "verde" como sendo a cor que cada um sente que seja verde. Para estes propósitos precisamos de termos minimamente objectivos para que todos possam entender de que se está a falar.

Graça quer demolir as «fronteiras entre géneros». É fácil porque género não é sexo. Basta reconhecer que os géneros são o que cada um quiser que sejam. Assim cada um será livre de se vestir como quiser, escolher o nome com que se apresenta e, na sua esfera legítima de liberdades, viver como acha que deve viver o seu género. O problema disto para pessoas como Graça é que, se bem que lhes dê liberdade total de conceber o seu género, não lhes dá poder para forçar os outros a concordar. É para isso que precisam das falácias e de controlar o discurso. Para impor aos outros o pensamento que consideram correcto.

1- Mia da Graça, Expresso, Mr. JK Rowling, a única coisa que nós matámos foi um homem

sábado, janeiro 03, 2026

O cartaz.

O tribunal proibiu André Ventura de exibir cartazes onde diga que os ciganos têm de respeitar a lei. Além da publicidade gratuita, espalhando a frase por toda a comunicação social, e da oportunidade de Ventura agora ir esticando o assunto com variantes sobre o tema, esta medida tem vários aspectos preocupantes.

Ao contrário do que muita gente julga, o que protege a democracia e um Estado justo não são as leis. Nem sequer é a Constituição, que são só letras no papel e passível de mudar conforme decida o Parlamento. Quem pode garantir a democracia são os eleitores. Mas para isso precisamos de saber em quem votamos. Quando o tribunal se interpõe entre candidatos e eleitores e filtra mensagens por algum critério arbitrário de higiene, não só viola o nosso direito de saber o que o candidato pensa como cria um risco desnecessário para a democracia. Mais que autorizado a dizer tudo o que pensa, Ventura devia ser encorajado a fazê-lo. Obrigado até, se possível, porque por muito incómodo que seja ouvir o que ele pensa pior será não o soubermos a tempo.

Outro problema do tribunal proibir a alegada ofensa por «necessidade social imperiosa [de] proibição de discriminação em função da raça ou etnia«(1) é quebrar o princípio fundamental da igualdade de direitos. Muita gente celebrou publicando nas redes sociais que os "cheganos" têm de respeitar a lei. Usar um termo depreciativo para estigmatizar ou ofender apoiantes do Chega não tem problema porque não são uma etnia, Só é proibido ofender etnias. Isto discrimina contra rafeiros como eu. Sendo um quarto alemão, um quarto espanhol, e metade alentejano, não tenho etnia que possa invocar para o tribunal castigar quem me ofenda. Eu, e a maioria dos portugueses. Os portugueses descendem de muitas etnias mas, com o passar das gerações, a malta apaixonou-se, teve filhos e ficou tudo misturado. Por isso já não temos quem seja celta, ibero, fenício, lusitano, romano, visigodo, mouro ou germânico. Há portugueses de muitas formas, tons e feitios mas grupos de etnia distinta há poucos. Uns porque chegaram recentemente e outros porque, apesar de estarem cá há quinhentos anos, têm costumes e comportamentos que impedem o cruzamento com os restantes. A maioria não beneficia desta conveniência legal que permite calar quem incomode.

Outro problema é que a proibição de ofender etnias estende-se até a factos. Dizer que os homens têm de ser menos violentos, ainda que possa ofender algum, reflecte uma preocupação legítima porque temos acesso a dados que mostram que os homens cometem a maior parte dos crimes violentos. Nem todos os homens violam a lei mas a correlação é significativa e é legítimo apontá-la. Mas para condenar a frase de Ventura não é preciso, nem possível, averiguar se a taxa de criminalidade nos ciganos é maior ou menor que a média. Nos deputados do Chega sabemos que está muito acima da média mas nos ciganos, em teoria, não fazemos qualquer ideia porque é ofensivo divulgar esses dados. Por força desta lei, desde 2017 que a comunicação social omite informação étnica quando relata crimes. Em vez disso dá notícias como «Tiroteio entre famílias rivais [...] obriga a intervenção da PSP»(2), «Família de doente causa estragos no hospital [...] e agride enfermeiros» (3) ou «os Bombeiros foram recebidos de forma violenta por familiares da vítima»(4). Talvez Ventura possa alterar o cartaz para "As famílias têm de respeitar a lei". Cumpre a lei à letra e já todos sabem o que quer dizer. A censura é a mãe de todas as insinuações.

O racismo e a discriminação podem ser problemas sérios mas têm de ser enfrentados de forma justa e inteligente. Discursos discriminatórios terem acompanhado atrocidades no passado não prova que a censura seja eficaz a impedi-las. Hitler foi censurado antes de subir ao poder e a censura também foi útil aos regimes que cometeram essas atrocidades. A satisfação de ver Ventura condenado deve ser temperada pela compreensão de que isto só o favorece. E mesmo sendo moda sinalizar virtude com indignações e empatia por coitadinhos, esta decisão do tribunal não fez favor nenhum aos ciganos. Foi como o director convocar os alunos e avisar que vai dar um castigo a quem disser que o Joãozinho tem a cabeça grande. Não ajuda.

Em democracia não se consegue combater demagogia com repressão. Quando se bate num lado ela ressurge noutro. É preciso esclarecer, apontar erros e apresentar alternativas. E isso funciona melhor se o que criticamos estiver explícito e se a outra parte puder dizer o que pensa. Quanto mais empurrarmos os demagogos para a insinuação, as entrelinhas e o subentendido, mais difícil é agarrar alguma coisa para criticar. Esta censura, além de violar os nossos direitos e agravar os problemas sociais que pretende resolver, enviesa o debate público a favor do populismo, que não devíamos ajudar ainda mais.

1- Euronews, Tribunal ordena retirada de cartazes do Chega sobre comunidade cigana
2- CNN Portugal, Tiroteio entre famílias rivais no Prior Velho obriga a intervenção da PSP
3-SIC Notícias, Família de doente causa estragos no hospital Curry Cabral e agride enfermeiros
4- SIC, Bombeiros agredidos a murro: “Não temos explicação para o sucedido, é um episódio lamentável”