quinta-feira, novembro 10, 2022

Mais mulheres.

Há menos mulheres que homens nas tecnologias de informação e comunicação (TIC). Assumindo ser um problema, propõe-se coisas como «banir a ideia de “empregos de raparigas” versus “empregos de rapazes”, promover a importância das disciplinas STEM, educar os jovens sobre as possibilidades de carreira dentro destas áreas, chamar a atenção para as mensagens com preconceito de género» (1). Penso que quem defende isto falha no diagnóstico e subestima a dificuldade de convencer as mulheres a fazer o que outros julgam ser melhor para elas.

O gráfico abaixo mostra a distribuição de inscritos pela primeira vez no primeiro ano de um curso superior em 2021, por área de estudo e sexo. Mais esbatidos estão os valores para os anos de 2016 a 2020 (2). As mulheres são minoria em TIC mas são a maioria na saúde, educação, humanidades, artes e direito. E são a maioria no ensino superior, diferença que tem diminuído mas que ainda é de seis porcento a favor das mulheres. Suspeito que não há muitas mulheres à espera que lhes digam que curso tirar. Por isso, trazer mulheres para as TIC implica convencê-las a desistir de outros cursos que tenham escolhido ou então apanhá-las ainda crianças, antes de decidirem por si. E como se tem de atrair mulheres sem atrair os muitos homens de outras áreas, o que iria estragar as estatísticas, é preciso tomar medidas discriminatórias como prémios (3) ou programas de formação (4) que excluem quem não tem os genitais seleccionados.



O primeiro problema desta empreitada é o diagnóstico errado. Muitas mulheres em jornalismo, sociologia, direito e outras profissões alegam que as mulheres não vão para TIC por causa do sexismo e estereótipos como o dos «“empregos de raparigas” versus “empregos de rapazes”». Mas esta alegação nunca vem na primeira pessoa. Refere sempre mulheres hipotéticas e anónimas, sendo difícil encontrar uma advogada, médica ou escritora que lamente não ter sido engenheira informática ou de telecomunicações por culpa do sexismo e estereótipos. Também não é plausível que as jovens universitárias acreditem que as TIC são só para homens. A racionalização é que são enviesamentos inconscientes que, tal como Deus, sabemos que existem porque não os vemos. Mas nada disto é consistente com os dados. As mulheres estão em maioria em direito e medicina, profissões mais conservadoras que as TIC e que foram dominadas por homens durante séculos, enquanto as TIC, disciplinas recentes vindas da matemática, tinham muito mais igualdade de género antes de despertarem o interesse dos homens. A tese de que o sexismo impede as mulheres de irem especificamente para as TIC quando não as impede de dominar outras disciplinas outrora exclusivas para homens não faz sentido.

A distribuição de géneros pelas áreas dos cursos sugere que trabalhar com máquinas atrai mais homens e trabalhar com pessoas atrai mais mulheres. O pequeno número de mulheres em TIC explica-se mais facilmente por estar no extremo desta gama. Há poucos homens que gostam de passar o dia a olhar para linhas de código, e mulheres ainda menos. Mas apesar de se invocar diferenças entre os sexos para justificar que é preciso mais mulheres em TIC, não é politicamente correcto admitir que essas diferenças possam fazer as mulheres preferir outras profissões. É isto que obriga a presumir que as mulheres precisam de ajuda para escolherem o curso certo.

O outro problema de «trazer mais mulheres» (5) para as TIC é ético. Há poucos homens em ensino e enfermagem mas, não sendo impedidos de ingressar nesses cursos, se não há é porque não querem. Ninguém tenta "trazer" os homens para curso nenhum, nem para o seu bem, nem para promover diversidade genital nem para beneficiar a indústria. Cada homem decide por si. As mulheres não. No caso delas não é uma escolha individual; «é uma questão de igualdade de género mas também é uma questão económica e social» (5). E, como são mulheres, não se pode assumir que saibam o que é melhor para elas. Tem de se insistir que «escolham de entre todo o leque de áreas que existem, porque não há áreas exclusivamente femininas ou masculinas» até escolherem opções que garantam a tal igualdade nas estatísticas. É uma perversão do valor ético da igualdade.

A igualdade que devemos promover é a da liberdade de cada um escolher por si em vez da igualdade dos números. E é uma violação grosseira deste dever pressionar as mulheres em função da suposta conveniência da indústria, de igualdades estatísticas ou por presumir saber melhor que elas o que elas querem. Isto é tão óbvio que não se faz com os homens, e muito menos se aceitaria que uma faculdade de direito ou medicina criasse bolsas exclusivas para homens em nome da igualdade e da diversidade. Mas este truque de criar tachos, comissões e publicidade à custa de um falso problema está a trocar o feminismo justo da mulher como pessoa, com a mesma autonomia e responsabilidade de um homem, por uma caricatura da mulher como vítima indefesa que tem de ser protegida de tudo, desde «mensagens com preconceito de género» até às suas próprias preferências.

1- Experis.pt, Atrair as Mulheres Para a Tecnologia e Reduzir a Desigualdade de Género
2- Dados da DGEEC, Vagas e Inscritos. Há dados desde 2013, mas nos primeiros anos a categorização das áreas é diferente e mesmo tentando fazer a correspondência por cursos ficam uns milhares de alunos sem área identificada, por isso usei só os dados de 2016 em diante.
3- Por exemplo, Medalhas de Honra L’Oréal Portugal para as Mulheres na Ciência ou Feedzai Women in Science
4- Technovation Challenge Portugal
5- SAPO Tek, “As mulheres criam valor e reforçam áreas TIC que precisam de talento e diversidade”

domingo, novembro 06, 2022

Conversas.

Muitas divergências nas redes sociais acabam em frustração e ataques pessoais. Algumas até em bloqueio. Mas há outras que estimulam conversas produtivas precisamente por os participantes discordarem. Proponho que o factor determinante é o propósito da conversa. É o que queremos com o diálogo que determina se vamos ter frustração ou proveito.

Para dar um exemplo, há tempos João Vasco Gama propôs ser inconsistente apoiar os ucranianos contra a invasão russa sem apoiar os palestinos contra a ocupação israelita (1). Eu discordei porque, apesar de condenar muito que Israel faz, também não consigo apoiar os palestinos. Os vizinhos de Israel há décadas que tentam obliterar esse país, é constante o ódio e o terrorismo contra os judeus e mesmo antes de Israel existir já os palestinos tentaram aliar-se a Hitler para "resolver o problema" dos judeus naquela região. Discordarmos nisto levou a uma troca interessante (para mim) de comentários sobre guerras, genocídios e ocupações até Gama declarar a conversa terminada porque «já expusemos todos os argumentos que consideramos relevantes» e nenhum ia conseguir convencer o outro. Dizendo-se cansado da conversa, exigiu até que me calasse ou continuasse noutro lado.

Parece-me que a causa desta frustração é tentar convencer. Qualquer opinião minimamente ponderada enquadra-se numa rede de premissas, dados e valores. Esta nossa divergência não se limita à Ucrânia e à Palestina. Inclui diferenças políticas, ideológicas, de ponderação de factores históricos, e até da estimativa do que aconteceria aos judeus se os palestinos tivessem maior poder militar. Para um de nós mudar de opinião tem de refazer toda essa rede que lhe dá contexto e isso leva tempo. É possível, mas não é provável que ocorra numa breve troca de comentários no Facebook. Por isso, quem conversa nas redes sociais com o desejo de lhe darem razão ou só conversa com quem já concorde ou vai ficar frustrado.

Dialogar para convencer também tem o defeito de focar a conversa nas pessoas em vez dos assuntos, o que leva a ataques pessoais, zangas e uma atitude de antagonismo. Até torna difícil terminar o diálogo de forma civilizada, levando a mandar calar o outro ou a bloqueá-lo. Eu prefiro uma abordagem diferente, que não me traz frustração. Dialogar com quem discorda é uma oportunidade para ver um assunto pensado de forma diferente. Mesmo que esse pensamento me pareça errado, o diálogo ajuda a questionar premissas e a tornar ideias mais claras. E numa conversa focada nas ideias em vez dos participantes não importa quem ganha, quem se convence ou quem muda de opinião. Pode-se aproveitar as divergências para ajudar a perceber melhor o assunto em apreço. É por isso que nunca senti esse cansaço que Gama invocou nem a necessidade de mandar calar os meus interlocutores ou de os bloquear.

E isto funciona mesmo que a outra parte não queira colaborar. Há casos, como por exemplo criacionistas, teólogos, anti-vacinas ou aqueles que tentam racionalizar a invasão da Ucrânia, em que o objectivo da outra parte é criar o máximo de confusão para disfarçar os problemas das teses que defende. Mas mesmo assim o diálogo pode ser proveitoso. Por um lado porque a nossa confiança numa posição não deve assentar apenas nas razões a seu favor. Devemos também verificar se não há boas razões para escolher uma alternativa. Por exemplo, quando as melhores justificações que me apresentam para Putin invadir a Ucrânia são dissuadir países de se juntar à NATO ou as «afinidades com as pessoas de língua materna» russa na Ucrânia (2), eu fico mais confiante na minha conclusão de que esta invasão foi um erro trágico motivado por ambição e incompetência. Se o maior ataque à nossa posição equivale a bater latas e atirar poeira ao ar provavelmente estamos no bom caminho.

Por outro lado, a resistência empenhada ajuda a afinar explicações. Por vezes encontro auto-proclamados peritos que escrevem vários parágrafos a dissertar sobre a minha ignorância, e arrogância por discordar deles, mas não conseguem explicar os meus supostos erros. Mesmo não me proclamando perito prefiro não fazer tão triste figura. O diálogo ajuda a tornar as ideias mais claras e, mesmo que aquela pessoa não esteja receptiva a explicações, eventualmente saber explicar será útil. Nunca chegamos à perfeição mas a prática ajuda a ficar mais perto.

Por isso, nas redes sociais, não me preocupo se mudo as ideias dos meus interlocutores. Há muito poucas pessoas cuja opinião individual realmente importa na minha vida e com essas não é nas redes sociais que converso. É verdade que me preocupa a popularidade de algumas opiniões. Vivemos numa democracia e a opinião dominante afecta-nos a todos. Mas isto não se deve a esta ou àquela pessoa em particular. E é também porque a opinião pública importa que é melhor evitar amuos, birras, bloqueios e esses surtos de imaturidade que assolam quem só quer que lhe dêm razão. Dedicar a conversa a explorar os assuntos e a tornar as ideias tão claras quanto possível não só é menos frustrante como também contribui para um debate público mais racional.

1- A conversa estava aqui no Facebook, 7 de Julho de 2022 mas entretanto fui bloqueado portanto não sei se é possível ler sequer o que eu escrevi.
2- Nesta conversa com Paulo Gil no Facebook: 12 de Outubro de 2022
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