quarta-feira, abril 11, 2007

Investigação Científica dos Mafaguinhos.

Muitos ridicularizavam os actos e crenças da Igreja Católica. Até agora. Hoje soube no Random Precision (1) que a Igreja tem um plano engenhoso para acabar com a ridicularia. O Baldrick diria mesmo que é cunning, este plano. Ora vejam o título da notícia na Agência Ecclesia (2):

«Santíssima Trindade... o maior mistério da fé.
Entrevista ao Presidente da Comissão Científica do Congresso sobre o Mistério Trinitário de Deus.»


São três mas é um. Isto é um mistério. Ninguém o compreende. Então faz-se um congresso sobre o mistério que ninguém compreende. Mas há mais. O congresso sobre o mistério que ninguém compreende tem uma comissão científica. E o presidente explica assim o tema do congresso:

«- O que é a Santíssima Trindade?
- Está-me a perguntar o que é o maior mistério da nossa fé … Ele resulta de Jesus Cristo se ter revelado como Filho de Deus, numa comunhão total e única com o Deus a quem chamava Pai e mesmo, em aramaico, Abba (que significa Papá), e com o Espírito Santo que procede simultaneamente do Pai e do Filho. Esta comunhão de Amor é de tal ordem que significa uma única identidade divina em que subsistem o Pai e o Filho e o Espírito Santo.»


Fabulosa explicação. Abba em aramaico é papá. E, quem sabe, talvez em aramaico até as canções dos ABBA façam sentido.

A Igreja Católica está imbatível. Ninguém consegue ridicularizar uma coisa destas. A Igreja confrontou corajosamente os que a ridicularizavam e venceu-os no seu próprio jogo. Rendo-me.

1- Luís Grave Rodrigues, 11-4-07, 1 + 1 + 1 = 1

2- Agência Ecclesia, 30-3-07, Santíssima Trindade...

8 comentários:

  1. Para quem dá a entender que o Ludwig deveria evitar o humor, este blogue está um tanto difícil de abandonar...

    Definitivamente, acrescento, porque de outra forma tenho de admitir que tem sido surpreendentemente fácil...

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  2. Eu cá por mim, pelo que escreve, não noto no autor deste blogue qualquer desejo se abandonar as somas, blomas e companhias. Mas posso estar enganado...

    Quanto aos dogmas (como os da religião), acho que os ridiculariza com competência.

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  3. Não entendi:


    Definitivamente, acrescento, porque de outra forma tenho de admitir que tem sido surpreendentemente fácil...

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  4. António:

    Quando falo em competência não me refiro a enfurecer cristãos, mas sim em escrever bons textos.


    Nesse sentido concordo que a Palmira também é bastante competente, ainda a vou lendo no De Rerum Natura.

    Mas quanto a estes sarcasmos, não encontro sítio melhor que este blogue para os ler.


    Anónimo:
    Era uma brincadeira em relação ao António, aludindo às brincadeiras dele de abandonar "definitivamente" este blogue várias vezes.

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  5. OK! O definitivamente já percebi.
    Mas o "acrescento, porque de outra forma tenho de admitir que tem sido surpreendentemente fácil..." não.

    Sou um bocado loura, é o que é.

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  6. Ludwig,

    Sempre que me debruço sobre esta caixa de comentários, penso sempre se valerá a pena tentar explicar melhor certos conceitos, quando o receptor não parece estar aberto à sua recepção.
    Mas vou tentar, recorrendo a alguns axiomas metafísicos.

    Axioma 1: o finito não pode conter o infinito.
    Nenhuma criatura finita, pelas suas limitações ontológicas intrínsecas, consegue abarcar a infinitude divina (abarcar = conter/conhecer totalmente)

    Axioma 2: a existência do finito é consequência do infinito. Deus é a raiz ontológica do Homem, de todos os seres, de todos os níveis de existência. É a Causa Primeira de que fala Santo Anselmo.

    De 1 e de 2, segue que o Homem, não podendo conhecer plenamente Deus, não está separado existencialmente de Deus. Por isso, o Homem tem acesso gnoseológico à essência da divindade, podendo conhecê-la parcialmente, em maior ou menor grau, desde que se aplique intelectualmente nesse sentido, seja pela observação empírica do mundo, seja pelo raciocínio intelectual abstracto.

    Axioma 3: Deus, pela sua infinitude, não tem partes. Apenas o finito pode ser parcelado. Deus é uno, tudo o resto é múltiplo.

    Entender o conceito de Criação não é simples, mas importa ter algumas ideias bem assentes:

    a) distinção entre Deus e a Criação: o primeiro é infinito, a segunda é finita. A segunda é distinta da primeira, mas no entanto não tem em si a raiz da sua existência: ou seja, a raiz ontológica da Criação está fora dela.

    b) as três pessoas da Santíssima Trindade (cuidado com o termo "pessoa", não é para ser interpretado como se interpreta comumente) não são "partes" da divindade, porque Deus não tem "partes; são aspectos diferentes de um mesmo Deus.

    Deus-Pai é o mesmo Deus, sob um determinado ponto de vista.
    Deus-Filho é o mesmo Deus, sob um determinado ponto de vista.
    Deus-Espírito Santo é o mesmo Deus, sob um determinado ponto de vista.

    Deste modo, e espero estar a ajudar a transmitir algumas noções rudimentares, não há qualquer contradição em afirmar que a Trindade representa o mesmo Deus uno. Sinceramente, irrita-me esta abordagem que consiste em pressupor que o teólogo é pateta, que o teólogo não sabe que 3 é diferente de 1. Evidentemente, para o ateu que tem boa vontade, e uma atitude de respeito, é normal que esse mesmo ateu suponha que há uma boa explicação para esta questão aparentemente contraditória. As pessoas inteligentes gostam de se elevar acima das aparências.

    Se quiseremos enveredar pela sátira, tudo bem. Mas então, se o objectivo é sátira, o meu comentário e o esforço que ele acarreta, está aqui deslocado. Avise-me a tempo, se for esse o caso, para que não prossiga com explicações ulteriores.

    Continuemos...
    Deus-Pai é aquele aspecto da divindade que representa a impassividade divina, de um Deus que "é", independentemente de ter ou não criado o mundo. Deus-Pai representa aquele aspecto de Deus que não precisa da Criação para "ser" Deus.

    Deus-Filho é aquele aspecto da divindade que representa a manifestação divina, de um Deus que "se mostra" de forma empírica. Por isso se diz que tudo existe por acção de Jesus Cristo, porque o Filho é Deus enquanto causador de toda a Criação. Do mesmo modo, Deus manifestou-Se no próprio mundo que Ele criou, sob a forma humana, na figura de Jesus Cristo.

    Deus-Espírito Santo é aquele aspecto da divindade que representa a ligação ontológica entre Deus e a Criação. O Espírito Santo é a força vivificadora de Deus presente em toda a Criação. Por exemplo, não é possível a uma mente humana chegar a um conhecimento verdadeiro (adequado ao real) sem que tal mente tenha sido "iluminada" pelo Espirito Santo, esse "cordão umbilical existencial" que dá ao intelecto humano o sustento divino que é a raiz da sua existência.

    É evidente que esta é a minha forma imperfeita, amadora, sintética de apresentar a Trindade. Mas pode ficar descansado de que se trata de uma visão ortodoxa e coerente com a doutrina duas vezes milenar da Igreja, doutrina essa baseada nos ensinamentos do próprio Jesus Cristo.

    As três "pessoas" da Santíssima Trindade são as três formas complementares de Deus ser Deus.

    Deus-Pai = Deus não manifestado
    Deus-Filho = Deus manifestado (através da Criação e da sua "descida" à forma humana)
    Deus-Espírito Santo = Deus/elo entre o manifestado e o não manifestado

    Deus-Pai "pensou" a Criação.
    Deus-Filho "executou" a Criação.
    Deus-Espírito Santo "mantém" a existência (ontologia) da Criação.

    Por isso se diz que o Espírito Santo "procede do Pai e do Filho", porque tal pessoa representa a complementaridade final de um Deus que cria. Só depois de Deus-Pai/Filho concretizarem a Criação é que faz sentido falar no Deus-Espírito Santo.
    A palavra "procede" é uma importante cautela para melhor se compreender que há um elo causal entre Deus-Pai/Filho e Deus-Espírito Santo.

    Cuidado que sempre que uso termos como "depois" e "antes" é no sentido causal, e não temporal.

    Estas questões são complexas.
    São incompreensíveis, no sentido em que o nosso intelecto nunca as compreenderá (="conterá").
    Não quer dizer que sejam imperceptíveis, absurdas ou inexplicáveis.

    A palavra grega "mystérion" (cujo sinónimo latino é, curiosamente, "sacramentum") representa qualquer realidade infinita cuja total compreensão (leia-se mesmo "total"), por definição, escapa ao intelecto da criatura finita.

    Ou seja, quando se fala no "mistério" da Santíssima Trindade, não é porque se trata de algo "misterioso", no sentido moderno (secreto, privado, supersticioso, confuso, enigmático). É porque se trata de algo cuja natureza não poderá nunca ser totalmente compreendida e captada por um intelecto humano finito.
    O que não quer dizer que esse mesmo intelecto não possa fazer um sério esforço no sentido de entender parcialmente a Santíssima Trindade com todos os seus esforços e aplicando todas as suas faculdades intelectuais.

    Coisa que raros crentes e raros ateus tentam realmente fazer...

    Um abraço,

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  7. Caro Bernardo,

    Se vale a pena ou não, deixo ao seu critério. Por mim, meto-me nestas coisas por gosto, e se não vale a pena não me meto. Não é um meio para um fim, mas um fim em si. Mas adiante.

    Estou aberto aos conceitos que quer transmitir, mas devo dizer que discordo por completo dos seus axiomas, que acho completamente arbitrários e infundados. Mas vou elaborar isso melhor quando tiver mais tempo.

    Por agora queria só dizer que penso que a sua explicação da trindade como três aspectos do mesmo deus contradiz o dogma católico, que afirma claramente tratar-se de três pessoas distintas. Por isso, por ser mesmo 3 e mesmo 1 ao mesmo tempo, é que isto é um mistério impossível de compreender. Não admira, é contraditório.

    E segundo são Gerónimo (?) a fé verdadeira neste mistério é apenas admitir que não se compreende.

    A encyclopédia católica:

    http://www.newadvent.org/cathen/15047a.htm

    esclarece bem este ponto. É um e são três ao mesmo tempo, e pronto.

    Uma nota adicional: o facto de não poder compreender esse deus não permite concluir que é um e três em vez de, por exemplo, dois e cinco ou qualquer outra combinação. Se não compreendemos, não compreendemos, e a fé passa a mera especulação infundada.

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  8. Ludwig,

    Acho óptimo que procure referência num site tão fidedigno em termos de ortodoxia como aquele que cita. O problema, Ludwig, está no grande risco que consiste em citar um trecho conveniente, fora do contexto, sem ter lido todo o artigo.
    Posso estar enganado, mas dá-me a forte impressão de que não leu todo o artigo. E isto porque deixou de fora (consciente ou inconscientmente) uma série de dados que constam nesse artigo, e que são coerentes com o que eu escrevi no meu comentário.

    É possível, através do intelecto, de operações analógicas, alguma compreensão da Trindade. E essa compreensão pode ser, em certa medida, compatibilizada com a filosofia aristotélica e platónica. S. Tomás fê-lo.

    Outra coisa diferente é afirmar que a Trindade pode ser racionalmente compreendida (="abarcada" pela compreensão finita do homem). Ou que a Trindade pode ser demonstrada racionalmente. Ambas as afirmações são anátema.

    A Trindade não violar as leis da lógica e a racionalidade é uma coisa real e demonstrável.
    A Trindade ser capturável na totalidade pelo intelecto humano é outra coisa, irreal e falsa.

    Bento XVI não se tem cansado de o afirmar. A fé católica é racional, mas a Razão não a contém nem pode conter. Porque a razão é uma faculdade de um intelecto finito. E a fé é uma porta aberta para realidades que transcendem a finitude intelectual do homem.

    Um abraço,

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