domingo, fevereiro 18, 2018

Treta da semana (atrasada): a entrevista.

Até recentemente, o meu interesse pelas polémicas da política identitária, igualdade de género, “diversidade” e afins foi um interesse impessoal, fruto de um fascínio genérico por tretas. Em Dezembro isto mudou. Fui convidado por colegas do departamento onde trabalho a participar numa iniciativa pedagógica dirigida exclusivamente a raparigas (1). Recusei, por me parecer imoral organizar uma actividade destas excluindo crianças conforme o seu sexo. E até me senti no dever de alertar para a possibilidade de isto não ser legal. Admito que não sei se a lei permite fazer uma coisa destas numa instituição pública de ensino mas, se permitir, não devia. Não tenho problemas em manifestar discordância acerca destas coisas, porque Portugal ainda está longe da intolerância que há noutros países, mas é sempre desconfortável sentir conflitos entre a ética e o dever profissional. E o episódio mostrou-me que estas políticas já não são algo distante. Chegaram ao meu quintal e receio que isto ainda possa piorar antes de melhorar.

A entrevista de Cathy Newman a Jordan Peterson impressionou-me por coincidir tão bem com várias experiências que tenho tido ao discutir estes temas com defensores da igualdade estatística. Não é vulgar encontrar tudo numa só pessoa, mas Newman conseguiu destilar na perfeição as inconsistências, as deturpações, a cegueira ideológica e a demagogia desonesta que tenho encontrado espalhadas por vários interlocutores. E Peterson foi uma descoberta curiosa. Cristão existencialista de direita, aparentemente fã da psicanálise de Freud e Jung, tem muita coisa que deveria afastar-nos. Na verdade, apesar de gostar das palestras que tenho visto dele, o livro não me parece tão bom. É demasiado místico e metafórico para o meu gosto. Mas ambos vemos a ética como assente na responsabilidade pessoal e no dever de cada um respeitar a liberdade de cada um dos outros. A aplicação consistente deste princípio dá-nos muita coisa em comum, como a compreensão de que o propósito da vida é precisamente a construção de propósito na vida e não tretas como a felicidade; o respeito pelo direito dos outros pensarem e dizerem o que pensam mesmo quando discordamos da sua opinião; o respeito pelo direito de cada um ser único e diferente dos demais; e a rejeição cabal da pseudo-ética identitária que presume avaliar indivíduos pelo grupo e por estatísticas. Não há injustiça nenhuma em haver poucos homens em enfermagem ou poucas mulheres em informática. Injustiça é impedir uma criança de participar num curso de informática só porque nasceu com testículos em vez de ovários. Desconfio que é por isto ser tão óbvio que quem defende o contrário se vê forçado ao contorcionismo demagógico que Newman demonstra.

Já vos deixo com a entrevista, que vale bem a pena. Não é por acaso que tem mais de sete milhões de visualizações quando os restantes vídeos da Channel 4 News andam pelos milhares ou dezenas de milhares. Mas, antes, gostava de chamar a atenção para alguns truques recorrentes. Newman passa grande parte do tempo a dizer “So you’re saying…” seguido de algo completamente diferente do que Peterson está a dizer. Pede a Peterson que justifique a diferença média de salários entre homens e mulheres mas quando ele aponta diferenças médias entre homens e mulheres diz que discorda disso porque as mulheres são todas diferentes. Pois são, mas também não ganham todas o mesmo salário. Passa o tempo a correr com a baliza de um lado para o outro.

É também fascinante a trajectória da conversa sobre a igualdade no trabalho. Newman começa por defender que as mulheres são impedidas de progredir. Peterson aponta que as pessoas que chegam ao topo têm de ser obsessivamente empenhadas na carreira e extremamente competitivas, algo que é menos raro nos homens. Newman acaba por admitir ter chegado ao topo precisamente porque agiu como um homem competitivo e agressivo. Isso parece-me igualdade. Quem quer ganhar o salário do Cristiano Ronaldo tem de jogar como o Cristiano Ronaldo. E dá para ver que Newman percebe isto porque, após algumas tentativas de deturpar o que Peterson disse, vira o assunto ao contrário. O problema deixa de ser o suposto tratamento desigual de homens e mulheres e passa a ser exigirem que as mulheres se comportem como homens, o que não é agradável. Isto não faz sentido nenhum mas mostra bem como se consegue partir do “é mau discriminar” e chegar ao “vamos impor quotas”.

Mas a minha parte preferida começa a meio do minuto 21. Newman pergunta porque é que o direito de Peterson dizer o que pensa há de ter precedência sobre o direito dos outros não se sentirem ofendidos. É delicioso ver a reacção de Newman quando Peterson explica que isso é o que ela está a fazer e porque é bom que o faça. Até se ouve a moeda a cair.

E pronto, deixo-vos em paz para verem a entrevista. Mas fica já a ameaça de voltar a estes assuntos, porque cada vez me parece haver mais para dizer.





1- DI, FCT/NOVA, Technovation Challenge

sábado, fevereiro 17, 2018

Treta da semana (atrasada): os três aquecedores.

Foi recentemente publicada a portaria 45/2018, que «Regula os requisitos gerais [da licenciatura] em Medicina Tradicional Chinesa». Entre outras coisas, estes licenciados em “medicina” terão de dominar «a) Teorias de medicina tradicional chinesa, incluindo [...] Os seis níveis, as quatro camadas, os três aquecedores» (1). Os três aquecedores são órgãos fictícios que os chineses julgavam fazer circular os fluidos pelo corpo (2). São os erros normais em qualquer investigação porque, no fundo, o nosso conhecimento cresce precisamente corrigindo erros anteriores. Na “medicina tradicional” grega, Aristóteles afirmou que as mulheres têm menos dentes que os homens. É falso mas faltavam-lhe as noções de estatística necessárias para perceber que não basta contar os dentes de uma desdentada qualquer para fundamentar uma conclusão destas. Um tratamento para feridas do século XVII era o “pó da simpatia”, um preparado de sulfato de cobre que se aplicava à lâmina que causara o ferimento. Tinha a vantagem de poupar o paciente às porcarias que, de outra forma, lhe iriam pôr na ferida (3).

As “medicinas” tradicionais brotaram da imaginação de pessoas mais ignorantes do que nós. A nossa medicina também não é perfeita. Provavelmente, as gerações vindouras ainda vão corrigir muitos erros. Mas quanto mais se sabe melhores soluções se encontra. É obviamente indesejável optar pelo saneamento tradicional e ter toda a gente despejar os penicos pela janela. Ou o transporte tradicional a partilhar a autoestrada com carros de bois. A medicina tradicional é igualmente absurda. Até 1960, a esperança média de vida na China rondava os 40 anos. Mesmo com antibióticos, vacinas e outras coisas nada tradicionais, hoje ainda é dez anos menor do que em Portugal (4). Quem diz que a medicina tradicional chinesa é melhor do que a medicina moderna portuguesa ou tem algo a ganhar com isso ou tem o barrete enfiado até ao queixo.

Ah, e tal, mas a medicina tradicional até pode ter coisas boas. Com certeza. Eu tenho um relógio parado que também está certo duas vezes por dia. Seja como for, a medicina progride aproveitando o que funciona, melhorando o que dá problemas e procurando alternativas. Quando eu era miúdo tomava aspirina para a febre. Era um risco calculado, porque há quem tenha reacções graves à aspirina (5). Mas antes isso do que ficar com danos cerebrais se a febre fosse muito alta*. Os meus filhos tomaram paracetamol em vez de aspirina, porque hoje sabemos ser mais seguro. Medicina é isto. Não faz sentido inventar uma “medicina da aspirina” em contraponto à “medicina do paracetamol” só para haver complementaridade ou tretas dessas. O mais racional é tratar cada doença com a terapia melhor. Isso de inventar “medicinas” avulsas é só truque para fazer negócio.

A maneira dos praticantes destas “medicinas” responderem a críticas demonstra bem os seus objectivos. Um técnico competente responde a críticas admitindo que errou ou explicando por que tem razão. Mas quando João Cerqueira questionou a eficácia terapêutica dos serviços vendidos no Centro de Cura Corpo Limpo (6) recebeu uma notificação de um advogado solicitando que retratasse a crítica por colocar em causa «a credibilidade, o bom nome e a imagem» dos auto-proclamados terapeutas (7). Ficou de parte a questão mais importante, e mais objectiva, que é a da eficácia e segurança do «método próprio de tratamento Cérebroterapia e Despertar da Consciência» que vendem no tal “Centro de Cura”. O truque da virgem ofendida é muito usado nestas andanças. Há uns anos fui depor a tribunal por causa disso (8). Hoje, por Cerqueira ter dado uma classificação baixa à página “Clínicas Pedro Choy”, Pedro Choy comentou que «Fica mal a um profissional de saúde ( sem grandes provas dadas, diga-se de passagem) criticar o trabalho dos seus concorrentes»(9). No mesmo sítio, Ana Rodrigues, terapeuta holística e facilitadora do método Kiron, concordou: «Fica muito mal a um professional de saúde, seja de que área for, criticar / julgar o trabalho de outro profissional.» Faz sentido. Quem tem pés de barro não dança. Mas a crítica, principalmente entre peritos, é o motor principal do progresso. É à prática de criticar que devemos o conhecimento que temos, incluindo o conhecimento de antibióticos, vacinas, saneamento básico e medicina preventiva que dá tanta saúde a tanta gente que a podem esbanjar em tretas. Ironicamente, foi o enorme sucesso da medicina a sério que permitiu a proliferação das outras “medicinas”. Ana Rodrigues defende que «Cada um é livre de ter a sua experiência! O que funciona para uns às vezes não funciona para outros, faz parte do caminho». Mas se tem mais de quarenta anos, ou se não viu metade dos seus filhos morrer antes dos cinco, é graças à medicina a sério ser muito mais fiável do que o método de Kiron, a acupunctura ou a Cérebroterapia.

Há licenciaturas que abordam temas fictícios. Em literatura, história ou filosofia, por exemplo, é preciso estudar relatos que não correspondem à realidade. Mas, com a teologia fora do ensino público, é invulgar obrigar os alunos a afirmar serem reais coisas tão obviamente fictícias como o sistema dos meridianos, as patologias energéticas ou o “qi”. Também parece pouco útil, ou sequer honesto, licenciar técnicos no tratamento de doenças dos três aquecedores. Dizem que a oposição da Ordem dos Médicos é “sectária” (10) mas parece-me tão razoável que os médicos se oponham a isto quanto seria os químicos protestarem contra uma licenciatura em “química tradicional” que leccionasse o flogisto e a pedra filosofal. O que querem ensinar são erros que a ciência já corrigiu. Mas se a racionalidade continuar a perder terreno, pelo menos deixem-me criar uma licenciatura em caça de gambozinos ou uma pós-graduação em fadas e duendes. Será tradicional e, sem as restrições da realidade, terei muito menos trabalho a preparar as aulas. A quem criticar a matéria, também já sei o que responder: criticar é feio e o caminho é mesmo assim; não serve para todos. Este caminho é bom é para os que ficam servidos.

*Admito que, no meu caso, talvez a aspirina não tenha sido inteiramente eficaz.

1- DRE, Portaria n.º 45/2018
2- Shen-Nong, Triple Burner
3- Wikipedia, Powder of sympathy; e também weapon salve, na RationalWiki.
4- World Bank, Life expectancy at birth, total (years)
5- Wikipedia, Aspirin-induced asthma.
6- Scimed, Clínica Placebo – Centro de Cura Corpo Limpo
7- Scimed (Facebook): 8 Fevereiro, 18:59
8- Processado
9- Facebook, João Júlio Cerqueira reviewed Clínicas Pedro Choy
10- DN, Sociedade de Medicina Chinesa acusa Ordem dos Médicos de sectarismo

segunda-feira, fevereiro 12, 2018

Treta da semana (atrasada): distribuições, igualdades e direitos.

Quando me acusam de não defender a igualdade de género admito que sou culpado. E quando explico que quero igualdade de direitos em vez de igualdade de género, muitas vezes dizem-me que são a mesma coisa. Mas não são. Não são sequer compatíveis.



A figura acima mostra as distribuições de altura de dez mil pessoas, separadas por género (1). Isto ilustra a generalidade dos atributos. Seja a idade a que teve o primeiro filho, o tempo passado a ver desporto, o interesse por informática ou o número de dias de baixa por ano, as distribuições são diferentes para homens e mulheres mas sobrepõem-se e têm grande variação dentro de cada grupo. O primeiro problema da igualdade de género é que, ao contrário da igualdade de direitos, pretende igualar distribuições sem igualar indivíduos. Por exemplo, a igualdade de género nos salários não pretende salários iguais para todos. Mas é difícil defender que é injusto a Jennifer Lawrence ganhar menos que o Mark Wahlberg por causa da distribuição de salários de homens e mulheres que nada têm que ver com Lawrence ou Wahlberg. Ou justificar a preocupação com diferenças salariais entre milionários e milionárias quando se ignora a diferença entre o salário de Lawrence e de uma enfermeira ou de Wahlberg e de um bombeiro. Exigir igualdade nas distribuições não tem justificação ética porque a justiça ou injustiça da desigualdade depende dos indivíduos e não da distribuição. E é suspeito que se preocupem só com a desigualdade entre distribuições quando a maior desigualdade está dentro de cada distribuição.

Outro problema é a selecção dos atributos cujas distribuições querem iguais. Na igualdade de direitos é fácil porque são todos os direitos. Se é direito, deve ser igual para todos. Mas a igualdade de género não quer igualdade na altura, nos balneários, na roupa ou no desporto. É só em algumas coisas. É estranho exigir igualdade de género no salário e ignorar a desigualdade de género nas doenças profissionais, acidentes de trabalho ou esperança de vida. Acontece o mesmo com os grupos que consideram. Enquanto a igualdade de direitos é igualdade para todos, como qualquer igualdade deve ser, quem exige quotas de género em cargos de direcção não quer quotas na construção civil e quem lamenta a falta de mulheres na informática não se importa que faltem homens na enfermagem. São todos iguais, mas uns são mais iguais que outros.

Depois, há as correlações. Para a igualdade de direitos entre indivíduos não faz mal se os doentes forem, em média, mais fracos ou se os doutorados em ciência forem menos religiosos. Os direitos são os mesmos para todos e cada um que faça dos seus o que quiser. Mas quem procura injustiças nas distribuições facilmente se ilude por ignorar correlações. Uma diferença média entre os salários de quem executa tarefas perigosas e quem se recusa a correr riscos não demonstra injustiça ou discriminação. É de esperar melhor remuneração por trabalhos arriscados. Acontece o mesmo com diferenças na força física, tempo de baixa médica, estatura, uso de analgésicos e assim por diante. Estes factores dizem pouco acerca do indivíduo; uma pessoa usar mais analgésicos não implica ter um salário menor. Mas tudo isto contribui para criar diferenças entre distribuições e estatísticas. Por isso, é errado concluir que a diferença de género em distribuições como as dos salários é indicativa de injustiças. Há muitas correlações que contribuem para esta diferença sem nada terem de injusto. Isto não quer dizer que não haja injustiças. Infelizmente, há muitas. Mas não afectam só um género nem vitimam todas as pessoas desse género por igual. E não têm nada que ver com a distribuição. Quando uma pessoa sofre uma injustiça, o que temos de corrigir é essa injustiça e não a média da distribuição.

Finalmente, enquanto a igualdade de direitos é um objectivo meritório, a igualdade de género é um erro factual porque homens e mulheres são diferentes. Basta ver o gráfico ali em cima. Se bem que o género seja uma construção social, não só está fortemente correlacionado com diferenças biológicas como serve para acentuar essas diferenças. Isto é evidente em todas as culturas. Seja qual for a forma de vestir, a maneira de falar, os gestos ou costumes, os géneros enfatizam sempre as diferenças entre homens e mulheres. É absurdo querer igualdade entre os géneros quando o género em si é uma afirmação de diferença. É por isso que segregamos os géneros nos balneários e no desporto ao mesmo tempo que condenaríamos uma segregação por raça, credo ou orientação sexual. É por isso que recusar relações sexuais com parceiros de certa raça é racismo mas recusar relações sexuais com parceiros de certo género é perfeitamente normal. Quem adopta um género fá-lo por, e para, ser diferente de quem adopta o outro.

É claro que ninguém é obrigado a isso. Há pessoas que se identificam com um género diferente do seu sexo, ou com ambos, ou com nenhum. Há pessoas que agem como a média de um género numas coisas mas não noutras. Há pessoas de todos os tipos e têm todo o direito de ser como são. E este é o ponto fundamental: o nosso dever é respeitar essa liberdade de cada indivíduo. Mesmo que isso estrague as estatísticas e gere distribuições diferentes. A doutrina da igualdade de género é incompatível com este dever, atropelando direitos individuais com medidas discriminatórias, como quotas e afins, só para forçar algumas estatísticas escolhidas de forma suspeita. Politicamente, é conveniente. A aceitação acrítica de que a discriminação é a única causa das irredutíveis diferenças entre distribuições garante o tacho a quem quiser inventar injustiças na desigualdade dos géneros. Mas esta doutrina é um cancro. Cresce por todo o lado substituindo-se ao respeito pelos direitos dos indivíduos, incluindo o direito à diferença, que é a peça mais fundamental de qualquer sociedade decente. Por isso, sim, sou contra a igualdade de género. Os géneros são diferentes. Isso é um facto e é mesmo por isso que há géneros. Se fossem iguais só haveria um. A igualdade que devemos garantir é a da liberdade, de todas as pessoas e de cada uma. As distribuições depois que se espalhem por onde calhar.



1- Os dados são do livro “Machine Learning for Hackers” (Conway e White), disponíveis no Github. Não sei de onde é a amostra, ao certo, mas para os efeitos deste post é pouco importante.

domingo, fevereiro 04, 2018

Treta da semana (atrasada): criptomoeda, parte 2.

Na primeira parte, propus que as “criptomoedas”, mesmo não sendo moedas por falta de estatuto legal, são fundamentalmente equivalentes às moedas fiduciárias. Todas valem em função daquilo que especulamos irão valer para os outros no futuro. Se estimamos que ninguém vai querer bolívares, o Bolívar deixa de ter valor. De pouco adianta o governo da Venezuela insistir que é muito bom para pagar impostos. Se as “criptomoedas” funcionam como o dinheiro mas não estão sujeitas a autoridades centrais que as possam controlar, pode parecer que só têm vantagens. Não é bem assim.

Não haver autoridades centrais que controlam o nosso dinheiro protege-nos de ficar sem nada quando o banco vai à falência ou do Estado facilmente restringir o que podemos fazer com o dinheiro. Mas se eu perder o cartão multibanco posso pedir um novo e se me enganar numa transferência ou falsificarem a minha assinatura tenho a quem recorrer. Em contraste, se perder a chave criptográfica de uma “criptomoeda” é impossível recuperá-la e qualquer transacção é irreversível. Posso mitigar o risco distribuindo-o por várias “criptomoedas”, ter cuidados com a segurança e especial atenção a fraudes, mas qualquer distracção pode sair cara.

Outra apregoada vantagem das “criptomoedas” é a segurança criptográfica. Em teoria, a criptografia é a tecnologia mais segura que temos. Mais segura do que qualquer fechadura ou cofre. Mas a teoria e a prática não são a mesma coisa. Na prática, basta um erro de implementação para estragar tudo e o software que usamos faz parte de um ecossistema complexo, com muito que pode correr mal. Pode haver um problema na geração de números aleatórios (1) ou selecção de números primos (2), o computador pode estar infectado com malware ou até haver falhas na arquitectura do CPU (3). Este risco também pode ser mitigado, com algum esforço, mas será sempre significativo. Isto é especialmente importante para quem queira investir a suas poupanças em “criptomoeda”. Basta um bug para perder tudo.

Finalmente, como as “criptomoedas” funcionam sobre sistemas distribuídos, sem controlo central, muita gente julga que são à prova de interferência do Estado. Não é verdade. São sistemas robustos porque estão concebidos para contrariar incentivos económicos à aldrabice. Por exemplo, para controlar a rede Bitcoin e poder reverter transacções e gastar as mesmas bitcoins várias vezes é preciso ter mais de metade do poder de computação da rede. Além de exigir um investimento enorme, isto seria imediatamente visível no registo dos blocos, levando toda a gente a abandonar essa “criptomoeda”. O investidor nesta aldrabice passaria a controlar algo que mais ninguém quereria e que, por isso, não teria qualquer valor. O incentivo económico é apenas para colaborar e ajudar a proteger a rede.

Mas nem todo o incentivo é económico. Se o governo da China decidir que a Bitcoin é um empecilho, facilmente obtém o poder de computação necessário para controlar a rede e destruir a Bitcoin. Ou qualquer outra “criptomoeda”. E, na prática, nem precisa desse investimento. A mera capacidade de o fazer torna suficiente declarar essa intenção para colapsar o preço de qualquer “criptomoeda”. Esta é outra consideração importante para quem quer ganhar dinheiro investindo nestas coisas. Quanto mais peso as “criptomoedas” tiverem na economia, mais provável é serem eliminadas ou sujeitas a regulação do Estado.

É por estas razões, e não pelo valor ser especulativo, que eu não recomendo investir muito nestas “moedas” com o intuito de enriquecer. Na prática, há muita coisa que pode correr mal. Mas faz sentido investir um pouco nesta tecnologia porque é muito mais do que uma aposta para ganhar euros. Estes sistemas distribuídos de registo de transacções podem servir como dinheiro, para registar contratos, para alugar poder de computação ou espaço de armazenamento ou, em teoria, qualquer coisa que se possa fazer com a Internet e serviços digitais. Nós estamos habituados a obter estes serviços de entidades nas quais temos de confiar, seja o banco seja a Google ou a Microsoft. Mas, por um preço um pouco mais alto – um sistema distribuído fiável tem custos – poderemos optar por alternativas que não dependem de confiar em ninguém. Não é claro que fracção do mercado corresponderá a essas alternativas mas é muito provável que seja significativa. As “criptomoedas” são apenas o primeiro exemplo desse potencial.

1- Arstechnica, 2013, Google confirms critical Android crypto flaw used in $5,700 Bitcoin heist
2- Arstechnica, 2017, Flaw crippling millions of crypto keys is worse than first disclosed
3- Meltdownattack.com

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Treta da semana (atrasada): criptomoeda, parte 1.

A popularidade de “criptomoedas” como a Bitcoin tem estimulado muita crítica, proselitismo e opinião. E, como é inevitável, muita treta. Dá para dois posts, pelo menos, começando logo pelo nome.

Uma moeda é um meio de troca com suporte legal. O Euro é moeda porque a lei favorece o seu uso no comércio e no sistema bancário e o Estado aceita, e usa, euros para saldar dívidas. Neste sentido, uma “criptomoeda” não é moeda. Nem sequer é especialmente “cripto”, porque usar criptografia para autenticar agentes e garantir a integridade de registos não é novidade nenhuma. O que distingue as “criptomoedas” é a listagem de transacções ser pública e permitir que qualquer participante acrescente registos. Esta listagem pública – a blockchain – elimina a necessidade de confiar numa autoridade central que decida quem tem o quê. Muitos criticam a Bitcoin pela electricidade gasta a proteger as transacções, mas parece-me ser um preço aceitável para não pôr tudo nas mãos de um Ricardo Salgado ou uma Lehman Brothers.

A crítica mais comum às “criptomoedas” é a de que o seu valor é especulativo, alegadamente ao contrário de uma moeda fiduciária como o Euro. Esta crítica é parcialmente correcta. Se dou 20€ por um bilhete para ver o espectáculo, estou decidir que, para mim, ver o espectáculo vale mais que 20€. Isto não é especulativo porque eu sei o que prefiro. Mas se dou 20€ pelo bilhete contando vendê-lo por 30€ à porta do pavilhão, o valor que dou ao bilhete será parcialmente especulativo porque depende de especular acerca do valor que outros lhe darão. Pode até ser totalmente especulativo se eu não tiver interesse nenhum no espectáculo. Neste sentido, é verdade que o valor das “criptomoedas” é principalmente especulativo.

Onde esta crítica falha é em julgar que o Euro é diferente. Não é. É verdade que, por ser moeda, o Estado garante que o aceita para saldar dívidas, como impostos e taxas. Mas pagar impostos não tem um valor positivo e se fosse essa a única utilidade do Euro ninguém iria querer euros. Apesar de, colectivamente, todos beneficiarmos por todos pagarem impostos, individualmente é sempre preferível deixar os outros pagar. Por isso, só damos valor aos euros porque especulamos que outros irão dar valor a esses euros, no futuro, quando os quisermos trocar por outra coisa. É essa confiança especulativa num valor futuro, e não a mera garantia do Estado, que nos faz dar valor a moedas como o Euro. E a “criptomoedas” como a Bitcoin.

Isto é contra-intuitivo porque a utilização ubíqua de moeda no mercado faz parecer que o valor da moeda está objectivamente ligado aos bens e serviços transaccionados no país. Normalmente, é a proporção entre a quantidade de dinheiro em circulação e o tamanho da economia que determina a inflação. Mas isto só acontece enquanto a maioria especular que os outros continuarão interessados nessa moeda. Quando falha a confiança, o valor da moeda desliga-se do resto da economia. Por exemplo, a Venezuela produz petróleo. Se o preço do Bolívar estivesse preso aos bens que a Venezuela produz, qualquer país aceitaria bolívares porque poderia trocá-los por petróleo na Venezuela. Mas não é isso que acontece. Ninguém quer vender coisas à Venezuela em bolívares porque o valor presente do Bolívar não é função daquilo que a Venezuela tem agora para vender. É função da expectativa – especulativa – de quanto se poderá comprar no futuro com esses bolívares. Neste momento, ninguém especula que seja grande coisa.

É verdade que o Estado tem algum poder para manter os cidadãos presos à sua moeda. Se eu recebo em euros e o supermercado vende em euros, é mais difícil eu desistir do Euro do que da Bitcoin. Mas se bem que isto sirva para pressionar a maioria das pessoas a usar a moeda oficial do país, a maior parte do capital está concentrada numa minoria que facilmente escapa a esta pressão. Um dos primeiros sintomas do desmoronamento de uma moeda é a fuga de capital quando os ricos se descartam dela antecipando – e contribuindo para – o seu colapso. Este é um problema que afecta qualquer “criptomoeda” mas que afecta também qualquer moeda. Há diferenças de grau, tal como há diferenças entre entre o Euro e o Bolívar, mas o valor de uma moeda fiduciária é, fundamentalmente, tão especulativo quanto o de uma “criptomoeda”.

Ou até mais. Para mim, a “criptomoeda” – ou, melhor dizendo, a participação num sistema aberto e descentralizado de registo de transacções – tem algum valor próprio, além do especulativo. Acho interessante a ideia e a implementação. Foi esse interesse que me fez investir nisto há uns anos. Não foi para especular e vender. Era o meu bilhete para o espectáculo. É verdade que, neste momento, esse valor é residual comparado ao seu valor especulativo, ordens de grandeza maior. Mas isso apenas aproxima as “criptomoedas” de moedas como o Euro e o Bolívar, que nem aquele valor próprio residual têm. Além disso, o nosso controlo sobre os euros no banco é bastante menor do que o controlo sobre bitcoins, como ficou demonstrado no Chipre em 2013 e como, suspeito, será ainda mais evidente em breve (1).

No entanto, apesar de achar que muitas das críticas que fazem a este sistema serem treta e de ver algumas vantagens em ter sistemas distribuídos de registo de transacções, não recomendo a ninguém que arrisque nisto dinheiro que lhe vá fazer falta. Porque, do outro lado, também há tretas que merecem consideração. Mas isso fica para a segunda parte.

1- Reuters, 2017-07-28, EU explores account freezes to prevent runs at failing banks

domingo, dezembro 31, 2017

Treta da semana (atrasada): o fácil e o difícil.

Depois do alarme social por causa dos livros de actividades para meninos e meninas, a comissão para a igualdade de género fez a editora reformular os livros, evitando a tragédia dos piratas e das princesas. Luís Aguiar-Conraria confessou ter «alguma dificuldade em perceber por que é este assunto tão difícil» e condenou os livros porque «lá por ler aqueles livros a rapariga não é impedida de ir, por exemplo, para astronomia […] mas é condicionada» e o melhor é «que ninguém os compre.»(1) A igualdade não é um assunto difícil. Mas a dificuldade que LAC confessa ter está em perceber que o assunto é outro.

O argumento de LAC parece partir da premissa de que «a biologia implica diferenciação, mas não discriminação». É razoável, mas é preciso distinguir dois tipos de discriminação. Por exemplo, impedir um homem de entrar no balneário das senhoras por causa do seu sexo é discriminação sexual. Mas é legítima. Nem toda a discriminação merece ser combatida. Ignorando esta distinção, LAC defende «políticas de igualdade de género» tanto para combater a discriminação sexual nos tribunais (e.g. «só por ser homem, sei que, se me divorciar, a probabilidade de ficar eu com as minhas filhas é severamente reduzida») como para combater livros de piratas e princesas ou a proporção dos géneros no ensino superior, casos nos quais não é nada óbvio que se viole algum dever de não discriminar.

A caricatura da natureza humana também esconde uma complexidade importante: «as sociedades humanas há muito que deixaram para trás o determinismo da biologia. Se assim não fosse, seriam os homens a usar saias, para arejar os seus órgãos genitais». Além de dar pouco jeito usar um urinol de saia, as saias e as calças surtiram pouco efeito na nossa evolução. Não foi isso que moldou a gravidez, a menstruação, a perda de fertilidade a idades diferentes, a amamentação ou a diferença de tamanho, força e hormonas entre os sexos. Essa evolução, muito anterior à roupa, moldou também de forma diferente as nossas prioridades e comportamentos, desde a distribuição do tempo entre os filhos e a obtenção de poder e bens materiais até a preocupações como a de estar a criar um filho que não é seu ou de ser violado por alguém do sexo oposto. Descurando esta complexidade, LAC culpa os estereótipos por todas as diferenças que lhe parecem inconvenientes, como a preocupação feminina com o aspecto físico. Mas um estereótipo é uma caricatura cognitiva. Simplifica e exagera mas é mais efeito do que causa. Culpar os estereótipos pelas diferenças de género é como culpar uma caricatura pelo nariz grande. Além destes erros, a luta pela igualdade estatística entre os géneros assenta num juízo de valor errado. E injusto. É um erro crasso mas é difícil de reconhecer quando se está comprometido com a ideologia. Por isso, vou tentar ilustrá-lo com um exemplo mais consensual.

Nuns desenhos animados que a minha filha vê (“Loud em casa”), um personagem é filho adoptivo de dois homens. Se me disserem para não a deixar ver estes desenhos animados porque, com seis anos, isto pode condicioná-la a ser homossexual, eu direi que isso é um disparate. Por um lado porque, mesmo que haja correlação entre a orientação sexual e a exposição a exemplos de homossexualidade, a probabilidade de serem estes desenhos animados a determinar a orientação sexual da minha filha é minúscula. Muito mais influentes serão os amigos que ela vai ter e outras experiências de vida, e eu não vou estar sempre a isolá-la de homossexuais para impedir o “contágio”. Mas esta nem é a razão mais importante. O mais importante é que não sou eu quem deve decidir a melhor orientação sexual para a minha filha. Qualquer que seja, será a dela e é dela que deverá vir, seja da sua biologia seja da sua escolha de desenhos animados, e não a vou impedir de os ver estes só porque retratam positivamente um casal homossexual.

É exactamente por isso que também lhe compro livros de princesas quando são esses que ela quer. E normalmente são. Recentemente, ela até me pediu para lhe instalar jogos para meninas. Quando lhe disse que não percebia o que era isso, porque os jogos são para todos (costumamos jogar Minecraft, por exemplo), ela especificou: com princesas, flores e cor-de-rosa. Talvez se eu contrariar estas preferências ela venha a ser empresária em vez de professora, que é a sua escolha do momento. Talvez eu possa condicioná-la a vender quase todo o seu tempo e a ganhar muito dinheiro, contando assim como uma mulher de sucesso e evitando que se torne numa vítima do patriarcado que perde tempo a jogar Minecraft com os filhos. Mas essa decisão deve ser dela e é isto que torna assunto mais difícil do que LAC parece compreender.

Concordo com LAC que «Quando se educa uma criança o objectivo deve ser aumentar-lhe a liberdade.» Mas isto só parece simples quando assumimos que as crianças são todas iguais e que todas as diferenças são fruto de estereótipos e discriminação. Se fosse verdade – se liberdade equivalesse a igualdade – bastava-me pôr a minha filha a brincar com os brinquedos dos irmãos, a ler os mesmos livros e ver os mesmos desenhos animados. Mas essa premissa é falsa. A minha filha é diferente dos irmãos e se quero que ela seja livre tenho de ter em consideração essa diferença. Isto dificulta a tarefa porque tanto a estou a condicionar comprando livros de princesas como recusando-me a comprá-los. Pior ainda, as “políticas de igualdade” exigem um juízo errado acerca das escolhas dos outros. Por exemplo, exigem assumir que é melhor a minha filha ser engenheira informática do que florista ou mãe a tempo inteiro. Só isto justifica combaterem diferenças estatísticas em vez de combaterem apenas casos concretos de discriminação injusta. Mas fazer juízos de valor acerca da profissão futura da minha filha é tão errado quanto julgarem a sua orientação sexual ou qualquer outro aspecto da sua vida que só ela tem legitimidade para avaliar. Como LAC reconhece, o objectivo mais justo devia ser a liberdade. Infelizmente, esse torna o assunto mais difícil e é por isso que anda tudo a lutar pela igualdade.

1- Luís Aguiar-Conraria, A natureza manda os homens usar saias

domingo, dezembro 24, 2017

Há esperança sem Deus?

Este foi o tema do debate em que participei no programa Agora Nós (1). O formato do programa não permite uma discussão aprofundada. Para evitar que os telespectadores mudem de canal os apresentadores impõem um passo rápido, exigindo respostas curtas e dando pouco tempo para elaborar ideias mais complexas. Ainda assim, penso que deu para contrapor alguns equívocos.

À pergunta que lançou o debate respondi que tenho esperança que sim. Foi uma forma diplomática que encontrei para não dizer que a pergunta é um disparate. A esperança é uma disposição subjectiva e a sua resposta a factores externos depende de como os interpretamos e avaliamos. Deus existir ou não existir é irrelevante para a nossa capacidade de ter esperança. Tiago Veloso, o meu interlocutor, padre católico e membro da Congregação da Paixão de Jesus Cristo, concordou mas avisou que, quando se tem esperança sem Deus «normalmente [...] há tragédias logo a seguir também. Quando confiamos muito em nós, demasiado em nós, nos nossos poderes, mais cedo ou mais tarde algo irá acontecer que nos vai fazer cair por terra.» Esta tese parece-me errada. Não é a fé que impede que o campanário da igreja rebente na próxima trovoada. É o pára-raios. São os nossos poderes e a nossa compreensão da electricidade estática e da condutividade dos metais que previne essas tragédias. O mesmo se passa com os antibióticos e as vacinas, o capacete e o cinto de segurança, as saídas de emergência e as escadas dos bombeiros. Objectivamente, o que realmente nos vai safando é a confiança justificada nas nossas capacidades. Não é Deus quem apaga incêndios, previne doenças ou impede os raios de destruir o campanário da igreja.

Esta esperança em Deus é sintoma de uma maleita da religião moderna. Durante milénios, quando ninguém sabia porque trovejava, de onde vinham as doenças ou como se podia combater as pragas, a ineficácia dos deuses era menos evidente. Mas agora é óbvio que não se pode contar com eles. Se é preciso fazer algo temos de ser nós a fazê-lo. Daí a esperança em Deus. Porque esperança é o que resta – é a última a morrer – quando mais nada justifica ter confiança naquilo em gostaríamos de confiar. Por exemplo, eu tenho esperança que não deixem o Trump fazer asneira com a Coreia do Norte. É esperança porque estou muito aquém de conseguir confiar naquela gente. Quando ando de autocarro é diferente. Nesse caso, não tenho mera esperança de que o motorista não espatife a viatura. Tenho confiança nas suas capacidades, justificada por anos a usar transportes públicos sem acidentes. Como Aleixo apontou, é isso que falta ao crente.

A inutilidade de Deus salta à vista no sofrimento absurdo. Na morte de crianças, por exemplo. A resposta de muitos crentes é, como invoca Miguel Panão, «Onde está Deus diante de uma doença injusta ou catástrofe natural? Já escrevi algo sobre isso, mas o P. Tiago foi excelente na resposta. Está na vítima. Naquele que sofre e morre com essa pessoa. Queres ver o rosto de Deus, olha para a criança com cancro e ama-a.»(2) A fasquia para a excelência de Deus parece estar cada vez mais baixa. Ninguém diria ser um bom médico aquele que, podendo curar a criança, ficava em vez disso a sofrer com ela enquanto a deixava morrer. Mas Deus é infinitamente poderoso e infinitamente bondoso sem fazer nada de jeito. Nem mesmo quando teria a obrigação moral de intervir. Panão fala da «força de um sentido e significado de Deus e da forma como interage com o mundo» mas não é claro que sentido e força isso pode ter se Deus nunca interage com coisa nenhuma, nem sequer quando devia fazê-lo.

Mas Panão aponta um factor importante para compreendermos a crença religiosa moderna, agora que é tão evidente que os deuses não servem para nada. «O Ludwig responde honestamente que não sabe e perante o cenário de estar dentro de um avião a cair opta por gritar de pânico. [Mas] de que serve um grito de pânico se não tem o objectivo de se dirigir a Alguém de quem se sente tão longe que só com um grito “espera” fazer-se ouvir?» Realmente, pode parecer estranho tanta gente se dirigir a Deus quando o efeito é nulo. Mas não é tão estranho se considerarmos que pedir coisas é o que aprendemos primeiro. Antes de uma criança conseguir cuidar de si já sabe pedir para que cuidem dela. E cuidam. Nisto, a nossa espécie é bastante diferente do resto dos animais. Pedir para que nos ajudem funciona muitas vezes e passamos os primeiros anos da nossa vida praticamente sem fazer outra coisa. É por isso que é tão importante incutir a crença religiosa nessa fase da vida. Enquanto faz sentido. Se esperarem que o futuro crente cresça, comece a cuidar de outros, a trabalhar e a tratar da sua vida, e só depois lhe falarem de Deus, irá logo perguntar-lhes para que é que isso serve. E concluir que não serve para nada.

Ter esperança sem Deus é como ter prendas sem o Pai Natal. É o que acontece a todos, mesmo a quem acredita no contrário. E não há mal nenhum em acreditar. Desde que se lembrem que as rabanadas não se fritam sozinhas. Ao contrário do que afirmou Veloso, a desgraça não vem quando temos confiança nas nossas capacidades. Vem quando, em vez disso, confiamos nas nossas fantasias.

Boa jantarada a todos, e a ver se o Pai Natal me traz um pouco mais de tempo para o blog daqui em diante. Tenho esperança.

1- A gravação está disponível No site da RTP-1, Agora Nós (V) 13 Out, 2017. O segmento começa por volta do minuto 40.
2- Miguel Panão, Há esperança sem Deus?

sexta-feira, outubro 13, 2017

Agora Nós e ateísmo.

A produção do programa Agora Nós, da RTP-1, convidou a Associação Ateísta Portuguesa a participar num debate informal sobre a fé e o ateísmo. Eu vou lá estar, em representação do meu ateísmo, com a ressalva de que o meu ateísmo não é necessariamente representativo de mais ateísmo nenhum. O outro convidado será um sacerdote da Igreja Católica e a nossa conversa será hoje, Sexta-feira 13, por volta das 16:20, durante o programa. Penso que a gravação ficará depois disponível no site do Agora Nós.

domingo, outubro 01, 2017

Treta da semana (atrasada): a democracia não presta.

Em todas as eleições há quem declare que a democracia não funciona. E ainda bem. A democracia é muito mais do que o voto e é bom que haja discussão sobre todos os valores que nos orientam. Incluindo a própria democracia. Como dizia Mill, a liberdade de exprimir qualquer opinião é importante porque tanto serve para divulgar ideias boas como para percebermos que algumas ideias são más. Desta vez, as críticas pareceram-me dividir-se em três tipos: os candidatos não prestam; os eleitores são ignorantes; e muita gente vota por interesses menos nobres do que o bem colectivo. Mas nada disto justifica a abstenção nem são, em si, problemas graves para a democracia. A abstenção continua a ser o maior problema.

Para quem sempre votou num partido e agora reconhece que a sua equipa não está a jogar nada, a tentação de não votar é compreensível. Mas é má ideia. Para os candidatos, ganhar a autarquia com 20% de abstenção ou 80% de abstenção vai dar ao mesmo. E quem não vota conta menos. Não estou a dizer que não tenham o direito de se queixarem só porque não votaram. Toda a gente tem o direito de se queixar. Mas os políticos não dão grande importância a quem se abstém. Por um lado, porque é mais proveitoso aliciar eleitores dos outros partidos. Por cada voto que ganham assim é um voto que a concorrência perde, portanto esses valem o dobro. E, por outro lado, é mais fácil perceber como aliciar quem vota. Se um partido ecologista ganha muitos votos, a seguir os outros partidos começam a preocupar-se com o ambiente. Se um austeritário perde votos, os outros começam a opor mais a austeridade. A democracia não é uma eleição. São eleições regulares e cada uma informa os candidatos das seguintes. Quem não vota não diz o que quer e, por isso, ninguém lhe liga. Nem nestas eleições, nem nas próximas.

A ignorância é um problema mas é menos grave do que o pintam. É claro que seria preferível que todos os eleitores se informassem adequadamente acerca dos candidatos e dos seus projectos. Aumentava a probabilidade de obterem o resultado que desejam. Mas a eleição de representantes não é uma decisão técnica que tenha de se restringir a critérios objectivos. Também é legítimo preferir ser representado por uma certa pessoa porque se gosta da sua pinta, porque é simpática ou qualquer outra razão. A escolha do representante menos mau entre os que se candidataram tem um aspecto subjectivo irredutível que lhe dá legitimidade mesmo quando se desconhece quaisquer detalhes técnicos acerca da candidatura.

Finalmente, há o problema dos candidatos aldrabões e dos eleitores interesseiros. Curiosamente, este é um ponto importante a favor da democracia e da participação dos eleitores. Votar por interesse pessoal é racional. Eu votei na candidatura que me pareceu ter os projectos que mais me interessam. É verdade que há interesses menos legítimos, alguns até ilegais, mas a democracia é a melhor forma de conciliar todos os interesses. Qualquer alternativa acabaria simplesmente por impor os interesses da minoria à maioria dos outros. É também por causa dos aldrabões e dos interesseiros que importa que todos votem. Mesmo quem não tenha uma preferência clara por um candidato pode – e deve – contribuir para diluir o poder dos interesseiros e dos aldrabões. Esses vão votar de certeza, e cada abstenção faz contar mais esses votos.

É verdade que a democracia não é um sistema perfeito. Mas é o melhor que se arranja e se não votamos ainda fica pior. É de aproveitar que não estamos na Catalunha.

domingo, setembro 24, 2017

Adenda à rábula da misoginia.

A conversa com Mário Moura durou mais um pouco (1). Segundo Moura, a desigualdade sexual nas profissões «Não tem nada a ver com evolução, com biologia ou o que seja». Isto é pouco plausível. Entre outras coisas, implica acreditar que nenhum homem alteraria o seu projecto de vida perante o prognóstico de ficar estéril aos quarenta anos e que a gravidez e a amamentação têm um impacto exactamente nulo na competição por promoções. Implica também que a cultura humana seja independente da biologia, quando a capacidade de criar culturas como as que temos é a característica biológica mais saliente da nossa espécie. Mas a conversa estava a ser interessante pela admissão de Moura que rejeitar uma explicação biológica «é uma questão de princípio» e pela forma quase explícita como defendeu que a melhor explicação é aquilo que cada um quiser: «nunca te expliquei porquê... de uma maneira que tu achasses plausível. Porque já te expliquei porquê uma dúzia de vezes ou até talvez mais.» O relativismo é comum nas humanidades. Mas aquelas pessoas cuja disciplina tem “ciências” no nome tendem a disfarçá-lo melhor. Moura, que é designer, tem menos receio em admitir que mistura o que é com o que gostaria que fosse, exibindo às claras um tipo de raciocínio que sempre me fascinou.

Foi uma conversa penosa. Quando algo me interessa, sou muito melga e não respeito a convenção para este tipo de diálogo. Manda a tradição que se comece com arrogância, se passe logo ao insulto, que o interlocutor depois responde à altura e a conversa detona em indignação catártica para gáudio da assistência. Como eu não alinho nisto, a conversa costuma arrastar-se por várias tentativas de me picar até que a outra parte se farta. Pode parecer fútil, mas só perseverando é que se percebe como pensa quem diverge tanto de nós que nos detesta visceralmente. O normal é a conversa acabar quando o outro diz que já chega mas, desta vez, Moura também me bloqueou. E isto tem uns efeitos engraçados.

Bloquear podia ser uma forma razoável de filtrar comentários indesejados. Há tempos, quando o spam criacionista neste blog estava a ser excessivo, criei um script que permitia cada visitante filtrar os comentários como quisesse no seu computador. Mas, no Facebook, o bloqueio é mais radical. O bloqueado fica isolado de tudo o que esteja relacionado com o bloqueador. Por exemplo, quando Moura me bloqueou, fiquei sem acesso a toda a conversa, incluindo tudo o que eu escrevi e os diálogos que tive com outros interlocutores. Este bloqueio faz também com que eu não possa ler o que Moura escreve sobre mim no seu perfil público, acessível a todos os outros utilizadores do Facebook. Faz-me lembrar os segredos e os bilhetinhos passados às escondidas na escola primária. Sempre discordei de chamar “redes sociais” a estas plataformas. A rede são as pessoas e não a tecnologia. Mas talvez o Facebook mereça a designação de rede anti-social pela forma como aproveita os piores impulsos dos seus utilizadores para vender mais anúncios.

Obviamente, só usa o Facebook quem quer e Moura tem todo o direito de o usar como entender. Quem bloqueia ou não bloqueia é consigo. Mas esta pirraça é parte de um padrão preocupante nos guerreiros da justiça social. Não é um padrão novo, mas repete erros antigos que sabemos serem nefastos. Seitas e religiões sempre impuseram preceitos para isolar os seus seguidores de ideias que os pudessem tresmalhar. O que comer, como rezar, o que vestir, ler ou dizer, e até com quem se podiam casar, contribuíam para manter fiéis separados de infiéis. Hoje, nestas novas seitas, cumpre-se o sagrado dever de bloquear, “desamigar” ou limpar das listas de contactos qualquer fonte de impureza ideológica. É a doutrina do sou tão contra a discriminação que nem sequer falo com essa gente. Isto é preocupante porque mostra que não estão interessados em promover as suas ideias pelo diálogo. O que querem é impô-las à força.

Outro aspecto preocupante deste padrão é a convicção de que as explicações certas só podem interpretar os dados de acordo com a ideologia adoptada. É claro que homens e mulheres são muito diferentes. Mas essa diferença não pode influenciar a progressão numa carreira porque, se influenciasse, a realidade estaria a contradizer o princípio sagrado de que a culpa tem de ser do sexismo. No tempo de Galileu era a heresia. Agora é o politicamente incorrecto. O nome difere mas a ideia é a mesma. E, como podemos ver no exemplo do aquecimento global, quando a ideologia se interpõe entre nós e a realidade quem se lixa somos nós porque a realidade está-se nas tintas para o que pensamos dela.

Os gregos adorariam isto. Nas trevas da ignorância e da superstição fizemos luz. Inventámos métodos para compreender a realidade, criámos tecnologia que permite partilhar informação globalmente e construímos sociedades livres partilhando poder e responsabilidade entre todos. Há uns anos, a Internet aberta parecia anunciar uma sociedade global ainda mais esclarecida. Mas os deuses devem ter ficado com inveja, ou essas coisas que acontecem nas tragédias, e agora o negócio aduba novamente a mesquinhez intelectual que começara a definhar. As coutadas isoladas pela ideologia são alvo fácil de manipulação, comercial por intenção e eleitoral por efeito secundário. O discurso racional não consegue competir com a indignação irracional, que cabe no ecrã do telemóvel e dá mais likes. E a facilidade com que se cria uma bolha na qual todos concordam faz parecer que a realidade, afinal, obedece mesmo à ideologia. Algures pelo Facebook, apoiantes incondicionais da igualdade de género aplaudem com antecipação os autocarros exclusivos para mulheres, expurgando dos seus contactos qualquer machista que desconfie da contradição. É uma questão de princípio, dirão. Esperemos é que não seja o princípio do fim.

1- Nelson Zagalo, (Facebook). Ver também o post anterior, Treta da semana (atrasada): diz que sou misógino.

sexta-feira, setembro 22, 2017

Treta da semana (atrasada): diz que sou misógino.

O Facebook é um meio de comunicação peculiar. Nelson Zagalo mencionou que a sua filha o questionara acerca de haver tão poucas mulheres realizadoras. Vários comentadores apontaram o dedo ao sexismo e ao “patriarcado”. Este patriarcado está para as humanidades como o éter luminífero esteve para a física; um fluido invisível, sem massa nem viscosidade, mas milhões de vezes mais rígido do que o aço. O patriarcado também tem de ser tão poderoso que impede as raparigas de ir para informática, barra o acesso das mulheres a cargos eleitos e não as deixa fundar empresas mas, ao mesmo tempo, não se consegue vislumbrar como é que obriga as mulheres a fazer o contrário do que querem. O sexo que dantes marchou contra os cassetetes da polícia para ganhar o direito ao voto agora é subjugado pelo poder misterioso dos brinquedos cor-de-rosa e dos micromachismos.

Eu propus uma explicação alternativa. Há países onde a lei discrimina as mulheres e, nesses, o sexismo é obviamente o factor dominante. Mas nos países que garantem igualdade de direitos, a vontade individual tem mais poder do que essas pressões. O sexismo não desapareceu mas também não consegue impedir uma rapariga de ser engenheira ou um rapaz de ser enfermeiro se for isso que querem ser. As pessoas não são tão frágeis quanto a tese do patriarcado exige. A explicação mais plausível é a de que há diferenças médias nas preferências de homens e mulheres. Em particular, em quanto querem sacrificar para serem melhores que os outros.

Vamos imaginar que só existiam homens e, por só haver um sexo, não havia sexismo nem patriarcado. Mas metade dos homens engravidava, dava à luz, amamentava, só podia ter filhos em segurança até aos 40 anos de idade e, da puberdade aos 50 anos, tinha hemorragias e dores dois ou três dias por mês todos os meses. É óbvio que estes homens, mesmo sem sexismo, teriam de fazer um sacrifício maior para competir com os outros. É o que acontece às mulheres. Não é um impedimento. Não é impossível uma mulher superar os homens e há mulheres que o fazem, como Angela Merkel demonstra. Mas sai-lhes mais caro. Aos 63 anos, se Merkel fosse homem ainda podia ter filhos. Ou, não tendo de engravidar nem amamentar, até podia tê-los tido mais cedo. Mas, sendo mulher, seria muito difícil chegar onde chegou se tivesse tido filhos e agora já não os pode ter. Diferenças como estas afectam, em média, as escolhas das pessoas.

Além de ter custos menores, investir no sucesso profissional tem benefícios maiores para homens do que para mulheres. Woody Allen é um bom exemplo disso. Casou três vezes, a terceira com uma mulher com metade da sua idade, e teve relações com Diane Keaton e Mia Farrow. Eu não sei como ele é na cama, mas suspeito que, sem o sucesso profissional que teve, o seu sucesso com as senhoras seria também menor. Donald Trump, Richard Branson e Mick Jagger são outros exemplos de como o sucesso traz mais benefícios aos homens do que traz às mulheres.

Assim, a melhor explicação para haver mais homens que mulheres no topo de muitas carreiras é que a fossanguice para ser o melhor custa menos aos homens e dá-lhes mais proveito do que dá às mulheres. É uma explicação melhor do que a do tal “patriarcado”, não só porque se percebe de onde vem – não exige postular factores ad hoc para explicar cada caso – como também explica porque é que muitas desigualdades sexuais se agravam quanto mais liberdade, legal e económica, as pessoas têm para viver as suas vidas como preferem.

Mas este post é mais sobre o Facebook. Enquanto estava a ter esta discussão com Mário Moura no post de Nelson Zagalo (1), Moura deturpava a minha posição no seu perfil, escrevendo que eu defendia que «o facto de uma mulher ter dores menstruais a incapacita para realizar filmes» e que «A UP está cheia de grunhos mas desta vez» o grunho é da NOVA (2). É perfeitamente legítimo mas, graças à magia do Facebook, toda a gente pode ver esses comentários mas eu não posso comentar lá. Como Moura também não dá a ligação para o que eu escrevi, é fácil mostrar o espantalho que lhe aprouver sem enfrentar contraditório. Não é por isso de estranhar que passasse a ideia de que eu sou misógino (3). O que é falso e até irónico.

Apesar de perceber a correlação entre a fossanguice masculina e o sucesso reprodutivo, e como isso fez evoluir estas disposições típicas dos homens, parece-me que as mulheres é que têm razão. Allen, Branson, Jagger e Trump podem ter muito sucesso mas uma vida bem vivida não se mede por isso. Exige um equilíbrio razoável entre carreira, família e vida pessoal. Foi um revés infeliz do feminismo moderno ter adoptado uma métrica machista para avaliar a vida das pessoas. Moura, por exemplo, escreveu que numa sociedade igualitária as mulheres não se vão «dedicar a ser sopeiras ou qualquer actividade adequadamente feminina»(1). É como se fosse degradante investir menos na carreira para ter uma vida familiar melhor. Eu acho que é precisamente o contrário. Seria um disparate abdicar de brincar com os meus filhos e de os ajudar com os trabalhos de casa, ou abandonar interesses pessoais como a agricultura e discussões sobre religião, só para ser chefe ou para ser o melhor investigador do departamento. A ânsia de ultrapassar os outros é um impulso tipicamente masculino, e que suspeito estar relacionado com a maior taxa de suicídios neste sexo, mas não é receita para uma vida boa. Nisto, ao contrário de ser misógino, até sou mais mulher que homem. E tenho alguma pena daqueles, principalmente homens, que não conseguem perceber isto.

PS: tenho de me lembrar de discutir menos no Facebook e, em vez disso, trazer a discussão para aqui onde o direito ao contraditório incentiva mais honestidade.

1- Nelson Zagalo, (Facebook)
2- Mário Moura, (Facebook)
3- Mário Moura, mais comentários aqui, e aqui, por exemplo.

domingo, setembro 17, 2017

CETA.

Amanhã, dia 18, o Parlamento debaterá o Comprehensive Economic and Trade Agreement. Especificamente, uma proposta do governo para aprovar o acordo e quatro projectos para a sua rejeição (BE, PAN, PCP e PEV). As votações regimentais serão no dia 20.

Já escrevi sobre este tratado, há uns tempos (1). Agarrado ao objectivo de facilitar o comércio, o CETA inclui cláusulas que obrigam a alterar a legislação dos países signatários de formas que afectam directamente os cidadãos, como mais legislação criminal para proteger os monopólio sobre as cópias de obras, enfraquecer a protecção legal da privacidade e facilitar o comércio e exportação de dados pessoais. Inclui também um mecanismo que permite empresas estrangeiras processarem Estados cuja legislação lhes frustre a expectativa de lucro, condicionando ainda mais o processo legislativo e pondo em risco medidas de protecção do património, do ambiente ou dos direitos dos cidadãos. E tudo isto resulta de uma negociação à porta fechada entre grupos interessados, sem debate público nem qualquer legitimidade democrática.

A Plataforma Não aos Tratados TTIP/CETA/TISA organizou para amanhã uma concentração, em frente ao Parlamento, contra a aprovação do CETA (2). Eu não vou poder ir, mas vou escrever aos deputados do PS que foram eleitos por Lisboa e pedir que votem contra. Escolhi os do PS porque à esquerda está tudo contra o CETA e à direita é mais difícil persuadir a fazer o que está certo quando a alternativa pode dar mais dinheiro a quem já tem muito. Para escolher os deputados podem ir ao site da Assembleia da República, à página dos Deputados e Grupos Parlamentares. Na maioria dos casos, a página do deputado tem uma ligação para enviar um email.

Há uma carta-tipo no site da Plataforma contra o CETA, nesta página. Deixo também a minha aqui abaixo, se preferirem. O efeito individual será pequeno mas, se formos muitos, pode ser que eles façam contas aos votos e a democracia funcione.

1- Treta da semana (atrasada): CETA.
2- Contagem Final contra o CETA



Cara(o) Deputada(o) [...]

Eu, Ludwig Krippahl, cidadão e eleitor no círculo eleitoral de Lisboa, venho por este meio pedir que vote contra a Proposta de Resolução n.º 49/XIII/2.ª, que pretende aprovar o Acordo Económico e Comercial Global (CETA).

Este acordo, fruto de negociações secretas, pretende ter efeitos muito além da mera facilitação do comércio. Introduz novos mecanismos de resolução judicial que permitem a empresas processarem Estados à margem das leis de cada país, condicionando o processo legislativo, e exige alterações legais que põem em causa direitos dos cidadãos em vários aspectos da sua vida pessoal, desde o acesso à cultura aos direitos de privacidade e à protecção de dados pessoais.

Um tratado com um impacto tão grande na vida de todos os cidadãos não pode ser aprovado sem uma análise cuidada das suas consequências e sem um debate público que permita aos eleitores compreender o que se está a aprovar e decidir se é desejável. Este tratado, sendo muito mais abrangente do que um mero tratado comercial, não deve ser ratificado enquanto essas condições não se cumprirem.

Saudações cordiais,
Ludwig Krippahl

quinta-feira, agosto 31, 2017

Treta da semana (atrasada): igualdades e confusões.

Aproveitando o final de Agosto, vou coçar esta borbulha mais uma vez. O debate à volta dos livros que a Comissão para a Igualdade de Género (CIG) recomendou que se retirasse do mercado trouxe à superfície muita confusão acerca da igualdade de género. Por sorte, Fernanda Câncio escreveu um bom catálogo dos erros principais nesta luta por uma igualdade mal definida.

Câncio começa pelas leis discriminatórias que havia há umas décadas. As mulheres tinham de pedir autorização aos maridos para viajar, os maridos geriam os seus bens, podiam ler a sua correspondência e assim por diante. É prova cabal de como o feminismo foi necessário. Mas parece confundir leis com opiniões. Eu tenho o direito legal de viajar sem pedir autorização à minha mulher. Mas a minha mulher tem também o direito de se divorciar de mim se não gostar da brincadeira. Câncio pergunta «Então o que é aquilo no artigo 13º da Constituição, sobre a interdição da discriminação com base no sexo, orientação sexual, etc?»(1). É apenas para impedir o Estado de legislar de forma discriminatória. Não é para impedir a minha mulher de se divorciar de mim se achar que os homens têm a obrigação de pedir autorização para viajar e eu não cumprir essa restrição. Desde que o feminismo ganhou a luta contra as leis discriminatórias tem andado a lutar contra opiniões discriminatórias. Essa confusão tira-lhe legitimidade porque quem não pode discriminar é o Estado. O indivíduo tem muito mais liberdade para o fazer.

Outra confusão é acerca da igualdade de género. Não faz sentido querer que os géneros sejam iguais porque o propósito dos géneros, enquanto identidade e construção social, é precisamente distinguir umas pessoas de outras. O que faz sentido é apenas a igualdade de direitos, e mesmo essa tem um significado restrito. Um direito é apenas um dever que outros têm para connosco. Como todos temos os mesmos deveres para com os outros independentemente de atributos como sexo, credo, raça ou orientação sexual, então todos temos direitos iguais. Mas no contexto desses deveres. Fora disso, a igualdade nem está garantida nem é expectável. Fora dessas obrigações, ninguém tem de me tratar como trataria a Sara Sampaio ou o Cristiano Ronaldo. Nem tem de me conceder as mesmas oportunidades, benesses ou favores que concederia à Sara Sampaio ou ao Cristiano Ronaldo. Desde que não viole as suas obrigações, pode discriminar pelo critério que quiser, seja pelos conhecimentos de bioinformática, pela beleza, pelo sexo, pela raça ou pela pontaria do remate. Discriminar é um direito sempre que não haja um dever de tratar todos por igual.

Outra confusão muito comum é entre normas e factos. Câncio menciona que a Constituição de 1932 discriminava contra as mulheres pelas «diferenças da sua natureza». Muita gente rejeita com veemência a possibilidade de haver diferenças biológicas entre homens e mulheres – apesar das evidências claras de que as há – com medo que essas diferenças “de natureza” justifiquem impor regras diferentes a homens e mulheres. É um medo disparatado. Ser diferente, mesmo por natureza, não implica ter menos direitos. Perante a lei, e apesar das nossas diferenças, eu, a Sara Sampaio e o Cristiano Ronaldo devemos ter exactamente os mesmos direitos. Câncio não parece cometer este erro de julgar que naturezas diferentes justificariam direitos diferentes. Mas a situação é outra quando Câncio defende que diferenças biológicas entre homens e mulheres não «justificam materiais didáticos diferentes para crianças entre quatro e seis anos, conforme sejam meninas ou meninos». Neste caso, não se está a inferir normas diferentes a partir de diferenças factuais. O que se está a fazer é a inferir que, se meninos e meninas têm preferências diferentes, quem vender brinquedos diferenciados vai ter mais lucro. Isto é perfeitamente justificado e deve ser o que acontece a menos que as empresas de artigos para crianças sejam todas geridas por parvos.

Outra confusão de Câncio é acerca das críticas à recomendação da CIG para que a Porto Editora não deixasse ninguém ter acesso a estes livros. Se bem que seja uma recomendação à editora, uma vez cumprida torna-se numa imposição a todos os potenciais leitores. Para ser realmente apenas uma recomendação, a CIG teria de recomendar às pessoas que não comprassem os livros. Dessa forma, cada um poderia decidir por si se seguia ou não seguia a recomendação. Mas se são retirados do mercado por recomendação do governo, o efeito é de censura: o leitor fica impedido de ler os livros que o governo julgou impróprios, quer concorde ou não com a recomendação. Ao contrário do que Câncio sugere, a crítica não é motivada pelo medo de que as crianças mudem de género por não terem livros azuis ou cor-de-rosa, que não me parece ser um medo muito comum. A crítica é motivada pela pretensão do governo de impedir a compra desses livros, uma ingerência ilegítima em decisões do foro pessoal.

O propósito da recomendação da CIG era mesmo impedir o acesso a esses livros para evitar “perpetuar estereótipos” que a CIG não aprova. O que nos traz ao maior defeito do politicamente correcto. Realmente, há ideias erradas. Há ideias más e prejudiciais. Há ideias que seria bom que todos rejeitassem. São muitas. Criacionismo, astrologia, que as vacinas causam autismo, quase tudo o que tem que ver com religião e carradas de outras coisas. Mas numa sociedade livre e justa, que respeite a liberdade de pensamento, só é admissível combater ideias pelo confronto com ideias melhores. Pela crítica aberta, pelo humor, pela ofensa livre e despudorada. Pelo diálogo. O politicamente correcto é um movimento autoritarista que não respeita o direito a uma opinião diferente e prefere mandar calar os outros em vez de persuadir pela razão. Mas este é um problema maior do que os livrinhos de passatempos e transversal a muitas outras lutas. Fica para outra oportunidade.

1- Fernanda Câncio, DN, Isto só lá vai com educação

quarta-feira, agosto 30, 2017

Treta da semana (atrasada): acreditar, mas em quê?

Daniel Dennett pediu uma vez a um colega turco que lhe escrevesse uma frase verdadeira em Turco mas sem lhe dizer o que significava. Dennett usa esta frase como um exemplo de uma crença peculiar: Dennett acredita que a frase é verdadeira, porque confia no colega, mas não acredita na frase em si porque nem sequer sabe o que lá está escrito. Por estranho que este tipo de crença pareça, é cada vez mais comum entre os crentes religiosos.

Acreditar em algo inteligível é mais satisfatório e, por isso, as crendices inteligíveis são mais populares. Há quem acredite em vidas passadas, que a personalidade de cada um depende da posição dos planetas, que os santinhos intercedem por nós, que temos energias positivas e podemos ver o futuro nas cartas e carradas de coisas assim. Sempre foi assim. Quem acreditava que um deus escaravelho fazia rolar o Sol pelo céu acreditava num disparate. Mas era um disparate que se percebia, tal como o disparate de acreditar que andar de joelhos em Fátima convence a mãe do criador do universo a meter uma cunha pelo fiel que assim se sacrifica.

No entanto, a crença inteligível não é ideal para a religião. Nunca foi, e agora ainda é menos. Primeiro, porque perceber uma ideia permite interpretá-la e preencher os detalhes com a imaginação de cada um. Daqui brotam muitas variantes como se nota, por exemplo, nas várias formas de venerar santinhos e na diversidade de santinhos venerados. Formalmente, a Nossa Senhora de Fátima é a Nossa Senhora de Lourdes e de muitos outros sítios. Mas, na imaginação dos crentes, são diferentes. Quem faz promessas à de Fátima é a Fátima que as vai pagar. Assim, as crenças inteligíveis tendem a fragmentar as religiões, por vezes de forma violenta. No século XVI, alguns cristãos dizerem que os homens só se salvam pela fé e que só a Bíblia é fonte de dogmas acabou por matar oito milhões de pessoas em século e meio de guerras*.

A outra desvantagem das crenças inteligíveis é serem vulneráveis aos factos. Isto é menos problemático quando abunda a ignorância. Quando ninguém sabia o que era a trovoada ou que existiam bactérias não era estranho acreditar que as doenças e os raios fossem castigo de Deus. Sem perceber de estatística também não se estranha a crença no poder da oração. Muitas crendices ainda sobrevivem em buracos no conhecimento. Mas esses buracos são cada vez menores e cada vez mais gente os vai tapando. Por isso, especialmente entre os crentes mais esclarecidos, as crenças inteligíveis tornaram-se indefensáveis. Deus passou de um ser poderoso a quem se podia pedir favores a um conceito abstracto e paradoxal.

Miguel Panão dá bons exemplos das dificuldades de ser um crente erudito. O conhecimento que tem obriga-o a trocar crenças inteligíveis por alegações incompreensíveis: «Eu estou cada vez mais convicto de que Deus não existe como todas as outras coisas neste universo existem, mas sim que Deus é existência. Ou seja, onde assenta todo e qualquer processo passível de existir, seja ele racional ou relacional.»(1) Não se percebe como Deus pode ser existência, problema que Panão admite logo a seguir: «Paradoxal. Falar de Deus é querer atingir o inatingível. O confronto com os paradoxos quando nos referimos a Deus podem ser uma causa para alguém iniciar um processo que acaba no ateísmo. Não porque Deus não exista, mas por ser difícil lidar racionalmente com os paradoxos que encontramos em Deus». Não é apenas difícil. É mesmo impossível. Não é por acaso que lhe chamam o mistério da fé. É que uma hipótese acerca de um deus, para não ser obviamente inconsistente com a realidade que conhecemos, tem de ser uma hipótese que ninguém possa compreender. Tem de ser uma frase em Turco que ninguém pode compreender. E nem há turco que a traduza.

Esta característica curiosa da fé erudita mostra que ninguém acredita em Deus. A maioria dos adeptos de cada religião tem uma crença menos sofisticada, menos reflectida, e acredita em deuses primitivos, daqueles que se zangam, que respondem a orações, a quem se pede favores e de quem se teme castigos. São crenças inteligíveis mas incompatíveis com o que sabemos da realidade. Não são o Deus dos crentes eruditos. E os crentes eruditos não acreditam em Deus porque, como Panão demonstra, acreditam que é verdade algo que não se compreende.

Este processo de perda de inteligibilidade da crença religiosa também contrasta com o que tem acontecido na ciência. A ciência aproveita a acumulação de informação acerca da realidade para aperfeiçoar teorias e tornar-se cada vez mais esclarecedora. As religiões ou ignoram essa informação e insistem em crenças inteligíveis mas obviamente disparatadas, ou então fogem dessa informação e refugiam-se em demagogia incompreensível. A tese de que ciência e religião se complementam como vias para o conhecimento é obviamente falsa. A primeira procura a compreensão. A segunda procura precisamente o contrário.

* Ou então foi por causa da manteiga. Mas vai tudo dar ao mesmo.

1- Miguel Panão, Única resposta à possibilidade de Deus

sexta-feira, agosto 25, 2017

Treta da semana (atrasada): mais do mesmo...

Eu ando a tentar escrever sobre outras coisas. Mas não me deixam.

A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) recomendou que a Porto Editora retirasse do mercado dois livros de passatempos para crianças entre os quatro e os seis anos de idade. Um é azul, tem piratas e robôs e é vendido para meninos. O outro é cor-de-rosa, tem princesas e culinária e é vendido para meninas. A CIG recomendou retirá-los do mercado porque «Esta editora, ao optar por lançar duas publicações com atividades que diferenciam cores, temas e grau de dificuldade para rapazes e raparigas, acentua estereótipos de género que estão na base de desigualdades profundas dos papéis sociais das mulheres e dos homens.»(1)

Nas competições desportivas segrega-se atletas pelo sexo e os estereótipos de género associam às mulheres menor desempenho na maioria dos desportos. E, nestas competições desportivas, nota-se que o desempenho das mulheres é inferior. A metodologia da CIG recomendaria terminar a segregação sexual no desporto para não perpetuar este estereótipos que “estão na base” das diferenças de desempenho, para as mulheres finalmente se revelarem iguais aos homens no desporto. A imbecilidade disto é óbvia porque não é a segregação sexual e os estereótipos que causam as diferenças de desempenho. Pelo contrário, são consequência dessas diferenças.

Imaginemos que recuávamos 3.5 milhões de anos e observávamos uma família de Australopithecus afarensis, nossos antepassados ou perto disso, para perceber a origem destas diferenças. Julgando pelo seu dimorfismo sexual e pelo comportamento de outros primatas, machos e fêmeas teriam papeis sociais diferentes e evidentes logo na infância. Os jovens machos passariam mais tempo em brincadeiras agressivas de dominância e competição, e as jovens fêmeas mais tempo a aprender a cuidar dos mais pequenos imitando as fêmeas adultas. Os machos adultos teriam o papel de defender o grupo, especialmente contra machos de outros grupos, e as fêmeas adultas cuidariam das crias. Isto não teria “por base” estereótipos de género mas resultaria de especializações biológicas seleccionadas por optimizarem o sucesso reprodutivo. Ao fim de 3.5 milhões de anos disto não é surpreendente que homens e mulheres não tenham o mesmo desempenho desportivo.

Estas diferenças físicas não são dissociáveis das diferenças de preferências e comportamento. Não era por pressão cultural que as jovens fêmeas de Australopithecus afarensis aprendiam a cuidar das crias e os jovens machos lutavam uns com os outros. Era porque sentiam diferente afinidade por actividades diferentes, fruto de pressões selectivas que favoreceram esses comportamentos. Hoje, também essas preferências se manifestam no desporto. Mesmo com as mulheres só competindo com mulheres, ainda assim há mais homens a praticar desporto e a diferença é maior nos desportos mais competitivos. E começa logo na infância, com os rapazes muito mais predispostos a organizar competições desportivas (2).

Muita gente rejeita a explicação evolucionária alegando que as diferenças não podem ser só biológicas. É uma falsa dicotomia. Num animal como nós, o cultural e o biológico interagem e reforçam-se mutuamente. Por exemplo, o tamanho dos nossos maxilares e os problemas com os dentes do ciso são efeitos biológicos da inovação cultural que foi usar o fogo para processar alimentos. As diferenças biológicas entre os sexos também causam pressões sociais diferentes. Milhões de anos de vantagem reprodutiva para as fêmeas que escolhiam os machos vencedores resultou em preferências femininas que motivam os homens a competir e vencer, reforçando a tendência masculina para a competição. Daqui vem o estereótipo do homem valer pelo seu sucesso no desporto, nas artes ou na acumulação de dinheiro e poder. Por outro lado, o sucesso reprodutivo dos nossos antepassados masculinos dependeu mais de investir em mulheres férteis, capazes de criar filhos e que lhes dessem confiança na paternidade. O resultado é que os homens não se sentem especialmente atraídos por campeãs nem é provável que considerem a directora da empresa mais atraente do que a secretária trinta anos mais nova. O estereótipo da mulher ideal como jovem, bonita, maternal e fiel é apenas um esboço grosseiro destas preferências e não a sua causa.

As «desigualdades profundas dos papéis sociais das mulheres e dos homens» resultam da interacção de factores biológicos e culturais que se influenciam mutuamente há muitas gerações. É um sistema adaptável mas, nos países mais desenvolvidos, estas desigualdades são cada vez mais reflexo de escolhas diferentes e não de imposições injustas. Por exemplo, enquanto na Nigéria 41% dos empreendedores são mulheres, nos EUA só 10% são mulheres e no Reino Unido são apenas 5.7% (3). Enquanto que nos EUA, onde nem sequer há licença de maternidade obrigatória, a probabilidade das mulheres chegarem a lugares de direcção nas empresas é apenas 15% menor que a dos homens, nos países nórdicos essa diferença chega aos 63%. Quanto melhores as condições oferecidas às mulheres, e melhor a segurança social, menos do seu tempo as mulheres querem vender (4). Os estereótipos não são a causa disto. São apenas um reflexo destas correlações. Querer reduzir estas diferenças retirando de circulação livros que “acentuam estereótipos de género” é como combater a obesidade eliminando livros com receitas de doces.

NOTA EXTRA: Foi muito criticada a diferença de dificuldade entre os livros por reforçar o estereótipo de que as meninas são menos inteligentes. Isto é parvoíce por duas razões. Primeiro, esse alegado estereótipo é fictício. Não há uma crença generalizada de que as meninas entre os 4 e os 6 anos são menos inteligentes do que os rapazes entre os 4 e os 6 anos. E, em segundo lugar, «No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no livro dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas.»(5). Se alguma coisa esta diferença pequena demonstra é que tiveram o cuidado de equilibrar a dificuldade das actividades entre os dois livros que, sendo para crianças dos 4 aos 6 anos, têm de cobrir uma gama bastante grande de capacidades.

1- CIG, NOTA À COMUNICAÇÃO SOCIAL
2- Time, The Scientific Reason Men Like Sports More Than Women
3- How we made it in Africa, African female entrepreneurs fighting their way to the top
4-Epicenter, The Swedish Gender Equality Paradox
5- Público, Livros de exercícios diferentes para meninos e meninas. Serão elas mais limitadas?

quarta-feira, agosto 16, 2017

Treta da semana (atrasada): politicamente correcto.

Há uns anos, muitos muçulmanos manifestaram-se contra as caricaturas de Maomé. Apregoavam o castigo divino, e exigiam o castigo terreno, dos hereges que fizeram esses bonecos. Há uns anos um grupo de terroristas muçulmanos assassinou desenhadores por causa dos tais bonecos. O politicamente correcto condena o terrorismo islâmico mas não condena o discurso de ódio dos muçulmanos. E acho bem. Não é justo punir alguém por sentir o que sente ou por dizer que o sente. Condenar o terrorismo não implica condenar pessoas pelos seus sentimentos ou discurso.

Mas a liberdade de expressão não isenta ninguém de críticas e odiar quem faz caricaturas não é mais legítimo do que odiar quem odeia caricaturas. A liberdade de sentir e falar deve ser igual para todos e inclui a liberdade de criticar as crenças hediondas do Islão e até de odiar essas crenças e quem as adopta. Mas isto o politicamente correcto proíbe, apesar da “islamofobia” ser o mesmo que as crenças e ódios dos muçulmanos. É inconsistente, arbitrário e hipócrita defender umas liberdades condenando outras equivalentes; proteger sensibilidades de uns desprezando as de outros; e condenar uns ódios, permitir outros e até promover alguns com orgulho, como o ódio aos fascistas. O critério do politicamente correcto não deve nada à justiça nem à decência: se lhes afaga os gostos é permitido; se lhes corre contra o pêlo tem de ser proibido.

A preocupação principal do politicamente correcto também é absurda. A reacção à violência em Charlottesville é um bom exemplo. Manifestantes armados de extrema direita intimidaram as pessoas. Houve violência, terrorismo e mortes. Mas, para Isabel Moreira, o problema é terem permitido uma manifestação nazi por «uma "liberdade de expressão" nova, a que ganhando nos mata»(1). Parecem julgar que as ditaduras fascistas, nazis e comunistas do século XX surgiram por um excesso de liberdade de expressão. Obcecado com o discurso, o politicamente correcto é cego à causa principal do autoritarismo. A economia. Para perder a democracia basta repartir a riqueza de forma injusta e tirar aos que estão pior qualquer possibilidade de justiça sem rebentar tudo. Foi isto que deu vitória ao Trump e ao Brexit e faz crescer os nacionalismos que ameaçam a União Europeia. Mas o politicamente correcto não quer saber de políticas fiscais, da gestão financeira ou do desemprego causado pela automatização. O que importa ao politicamente correcto é calar quem diz coisas feias.

Além disso, o politicamente correcto é racista, sexista e xenófobo. Não segue linhas tradicionais, mas o fundamental está lá. Quem não é politicamente correcto tem de ser silenciado. Veja-se o caso recente na Google. Não é a xenofobia corriqueira da nacionalidade ou da cor de pele mas é a mesma ideia de que “os outros” têm menos direitos que “nós” porque são diferentes. Não têm sequer o direito de falar. E o politicamente correcto está sempre contra o homem branco pelo seu sexo e pela sua cor, quaisquer que sejam as circunstâncias. Fernanda Câncio escreveu que «o que torna o acontecimento de Charlottesville tão aterrador não é o acontecimento em si. É o contexto. E o contexto é o de um discurso, cada vez mais insistente - incluindo em Portugal -, que garante que o "politicamente correto" e a luta pelos direitos das minorias constituem um ataque à liberdade e aos direitos "da maioria branca".»(2) O problema não é respeitar os direitos das minorias. O problema é a desigualdade de direitos. Um negro pode dizer nigga; um branco não. Ao branco é proibido “apropriar-se” da cultura dos outros mas qualquer um pode usar fato e gravata. Uma mulher pode dizer que não gosta de homens baixos mas se um homem diz que não gosta de mulheres gordas é culpado de “body shaming”. E assim por diante, tudo com a desculpa de que o homem branco é sempre privilegiado e por isso merece menos direitos que os outros.

Eu sou homem, sou branco e, admito, sou privilegiado. Se tivesse nascido cigano ou descendesse de africanos provavelmente não estaria onde estou. Mas a razão principal é económica. A minha família sustentou-me enquanto eu estudava, um privilégio que muitos não têm. Muitos ciganos, muitos imigrantes, mas muitos brancos também. Há muitos pastores, jornaleiros, desempregados e sem abrigo a quem ser homem branco não deu qualquer privilégio que se compare ao privilégio económico dos defensores do politicamente correcto. Não é mandando calar essa gente pelo seu alegado privilégio que os vamos convencer a receber refugiados, a promover a igualdade e a respeitar os direitos das minorias. O politicamente correcto quer apagar o populismo inflamatório da extrema direita com mangueiradas de gasolina.

Temos de combater o racismo, o sexismo, o nacionalismo e a xenofobia. Temos de acabar com a discriminação injusta que rouba liberdades a muita gente. Temos também de lutar contra as superstições absurdas e malévolas que muitas religiões propagam. Mas esta luta tem de admitir sempre o diálogo. Não pode admitir a violência, incluindo a violência contra nazis ou fascistas, que o politicamente correcto aplaude. O terrorismo islâmico é culpa dos terroristas muçulmanos e não dos muçulmanos todos, tal como o terrorismo na Irlanda era culpa dos terroristas católicos e não dos católicos todos. Da mesma forma, o terrorismo dos racistas e nacionalistas é culpa dos terroristas e não dos racistas e nacionalistas todos. Uma opinião não se transforma em terrorismo só porque nos mete nojo. O diálogo tem de estar aberto a todos. Todos devem poder criticar, satirizar, ridicularizar e até ofender e todos temos de saber lidar com opiniões que nos desagradam (3). O politicamente correcto é o contrário disto. O politicamente correcto quer ser ditador do discurso, proibindo e autorizando opiniões em função de caprichos infantis e excluindo muita gente do diálogo. Mas a única alternativa ao diálogo é a violência. Se não aprendermos a conversar como adultos isto vai dar para o torto e o maior obstáculo a essa maturidade é a birra constante do politicamente correcto.

1- (Facebook) 13 de Agosto, 3:12
2- DN, A casa dos nazis
3- Um bom exemplo aqui: German town tricks neo-Nazis into raising thousands of euros for anti-extremist charity

quinta-feira, agosto 10, 2017

Treta da semana (atrasada): a premissa.

James Damore, um engenheiro da Google, partilhou internamente com os colegas a sua opinião de que, apesar de existir sexismo e de ser contra o uso de estereótipos, «Quando abordamos o problema da desigualdade de representação numa população, temos de considerar diferenças nas distribuições ao nível da população» e propôs que parte das diferenças na distribuição de homens e mulheres em diferentes cargos se deve a diferenças biológicas entre os sexos (1). Por isso, defendeu que é errado tomar medidas discriminatórias para aumentar a representatividade feminina em certas áreas e que deve haver uma discussão aberta acerca das causas das diferenças sem moralizar a “diversidade” como um fim em si mesmo e sem reprimir opiniões contrárias. Confirmando pelo menos parte do problema, pouco depois foi despedido (2).

Uma alegação bastante criticada foi a de que as mulheres têm menos capacidade para resolver problemas de informática ou liderar projectos de engenharia. Também duvido disso. Damore aponta que as mulheres são mais colaborativas e «demonstram mais interesse em pessoas» enquanto os homens se interessam mais por coisas. É uma simplificação grosseira, mas aproximadamente correcta (3). No entanto, esta diferença pode ser até uma vantagem na organização de equipas, um aspecto fundamental de qualquer projecto de engenharia. Além disso, até aos anos 80 a proporção de mulheres na informática cresceu a par com as outras áreas, chegando aos 35% antes de começar a cair conforme a informática deixou de ser uma disciplina académica para se tornar numa profissão de engenharia bem remunerada (4). Isto sugere que a diferença não está na capacidade das mulheres. Em geral, exceptuando tarefas fisicamente exigentes, ou tarefas que já existam há milhões de anos, como cuidar de crianças pequenas, o trabalho remunerado é demasiado diferentes daquilo para o qual evoluímos para esperar diferenças de capacidade entre homens e mulheres. Onde é de esperar diferenças significativas é nas preferências. Homens e mulheres não querem as mesmas coisas.

Mesmo que não houvesse qualquer outra diferença biológica, uns terem útero, engravidarem e amamentarem enquanto outros só têm espermatozóides torna muito assimétrica a relação entre pessoas destes grupos. Os que têm menos para contribuir estão sob uma pressão maior para competir por recursos que os tornem mais atraentes. Prolongue-se isto por muitos milhões de anos e o resultado é o dimorfismo sexual evidente na nossa espécie. Os homens não são maiores e mais musculados só porque calhou. Esta diferença resulta de milhões de anos de competição violenta entre machos por causa das fêmeas e é irracional assumir que isto não tenha causado diferenças de comportamento e preferências. Irracional, mas conveniente.

A premissa fundamental dos “estudos de género”, e que é heresia questionar, é a de que todas as diferenças entre sexos se devem à cultura*. Ponto. Isto permite isolar esta disciplina e ignorar a neurologia, a evolução, a fisiologia ou qualquer coisa que possa cheirar a biológico. O desinteresse em explicar a origem desses factores culturais (é cultural e pronto) permite também especular à vontade e escolher facilmente os alvos de indignação. Ao contrário da ciência, motivada pela curiosidade acerca da realidade, os “estudos de género” são motivados pela indignação perante a injustiça discriminatória. Com esta compartimentalização é fácil encontrar injustiças. Basta procurar estatísticas politicamente interessantes ignorando qualquer informação inconveniente. Por exemplo, os empregados da BBC com maiores salários serem maioritariamente homens (5) implica que a BBC está a discriminar (6). O facto de acontecer o mesmo no YouTube, sem salários nem empregados e onde cada um ganha conforme a popularidade dos seus vídeos (7), não é considerado relevante. Talvez seja prova de outra injustiça qualquer acerca da socialização das raparigas, da auto-confiança, do machismo ou o que calhe, mas tem de ficar separado da tese da discriminação salarial na BBC. Cortar a realidade e as explicações em pedacinhos independentes permite postular, caso a caso, os factores culturais que melhor correspondam às expectativas dos praticantes desta arte.

No entanto, por muito conveniente que esta premissa seja para os “estudos de género” e para as pessoas pagas para promover a “diversidade”, a premissa é falsa. A biologia também é importante. Entre muitos outros exemplos, isto é evidente em diferenças comportamentais em recém-nascidos (8), na diferente expressão e incidência de doenças mentais como o autismo (9) ou a depressão (10), e até na identidade de género. Muitas pessoas rejeitam o género em que foram socializadas, demonstrando cabalmente que a socialização e a “cultura” não explicam totalmente as diferenças comportamentais entre géneros. E a biologia sabemos de onde vem. Os homens têm mais motivação para competir por recursos e estatuto porque estes factores têm mais peso no seu sucesso reprodutivo do que no sucesso reprodutivo das mulheres. Isto explica porque é que os homens são maiores e fisicamente mais fortes, em média. E explica porque é que a desigualdade sexual em carreiras como construção civil ou engenharia é maior em países mais ricos, onde há mais liberdade de escolha. Explica porque é que há menos mulheres em certos cursos, em cargos de direcção, em trabalhos perigosos e porque é que as mulheres vendem menos horas do seu trabalho (11) e dedicam mais tempo à família. Até explica porque é que no YouTube há a mesma desigualdade de rendimentos que na BBC.

Os factores culturais também são importantes e há injustiças a combater. Mas é preciso reconhecer que, em média, homens e mulheres não querem as mesmas coisas. Temos de aceitar que há diferenças médias no equilíbrio entre o esforço que cada pessoa quer dedicar a competir por recursos e o tempo que quer reservar para si, para os amigos e familiares. Não podemos combater a injustiça obrigando as pessoas a comportar-se como se fossem todas iguais.

* Excepto órgãos sexuais, tamanho do corpo, forma do esqueleto, musculatura, mamas, barba e coisas igualmente irrelevantes. Mas de resto, é tudo 100% igual.

1- Gizmodo, Exclusive: Here's The Full 10-Page Anti-Diversity Screed Circulating Internally at Google [Updated]
2- Bloomberg, Google Fires Author of Divisive Memo on Gender Differences
3- Su, Rong, James Rounds, and Patrick Ian Armstrong. "Men and things, women and people: a meta-analysis of sex differences in interests." (2009): 859; e também Debra Soh, No, the Google manifesto isn’t sexist or anti-diversity. It’s science
4- Planet Money, http://www.npr.org/sections/money/2014/10/21/357629765/when-women-stopped-coding
5- BBC, BBC pay: Male stars earn more than female talent
6- Guardian, BBC accused of discrimination as salaries reveal gender pay gap - as it happened
7- Business Insider, These are the 18 most popular YouTube stars in the world — and some are making millions
8- Psychology Today, Sex-Specific Toy Preferences: Learned or Innate?
9- The National Autistic Society, Gender and autism
10 – Picinelli e Wilkinson, Gender differences in depression, The British Journal of Psychiatry Dec 2000, 177 (6) 486-492; DOI: 10.1192/bjp.177.6.486
11- Forbes, New Report: Men Work Longer Hours Than Women

quinta-feira, julho 27, 2017

The Happy Film.

A convite do João Che Geada, vou hoje à estreia do The Happy Film, do designer Stefan Sagmeister, e vou participar no debate sobre a criatividade e a felicidade que decorrerá logo a seguir. Vou tentar portar-me bem. Os debates em que costumo participar têm mais antagonismo e tenho pouca prática de conversar sem divergências claras à partida. Se começar a discordar e dar secas peço já que me desculpem; será por hábito e, confesso, por gosto, mas não por maldade. Vou estar fora da minha zona de conforto mas tenho curiosidade em ver se percebo alguma coisa do filme, do que vamos conversar e do que vá dizer. Obrigado, João, pelo amável convite.

O filme começará às 21:00, na sala 2 do cinema São Jorge. Há mais informações sobre o filme, o debate e os bilhetes no site da academia The Creative Humanity.

terça-feira, julho 25, 2017

Treta da semana (atrasada): o protesto.

Paco Bandeira destruiu cinquenta mil CD num protesto contra os downloads, a rádio e as finanças (1). O protesto foi filmado em 2010 pela Saloia TV, foi noticiado pela comunicação social em 2015 (2) e agora foi notícia novamente. É o que dá só contratarem estagiários; ficam sem gente nas redacções quem se lembre de mais do que um ou dois anos do passado. À conta disto, Vasco Granja tem morrido bastante mais vezes do que seria de esperar, mesmo para quem deixa tanta saudade.

Um protesto demonstra o empenho na luta contra uma injustiça ou indignidade. Como a imolação dos monges vietnamitas em 1963, ou do tunisino Mohamed Bouazizi em 2011, ou a greve de fome dos membros do IRA em 1981, por exemplo. Bandeira destruiu discos que não conseguia vender e que optou por nem dar por causa dos impostos. Na escala de empenho do protesto, foi como fazer greve de fome entre o almoço e o jantar com um breve intervalo para o lanche.

Quanto ao alvo do protesto, a explicação prometida no vídeo ainda está para chegar mas, numa entrevista recente, Bandeira esclarece que o material destruído foi «um trabalho único, inédito, feito por Joaquim Pessoa (todos os textos) e as canções por Carlos Mendes, Fernando Tordo, Joaquim Pessoa, Jorge Palma, José Mário Branco. Produzi e paguei aos autores todos e paguei tudo na Sociedade Portuguesa de Autores»(3). Era uma «retrospectiva dos Descobrimentos», a propósito da Expo 98, que Bandeira aparentemente contava vender à Caixa Geral de Depósitos. Além de protestar contra a cobrança de impostos por doações, estava a protestar porque «agora toda a gente tira da Internet, toda a gente faz cópias piratas» e porque as estações de rádio também estão a «passar a música a cilindro». Segundo o narrador, Guilherme Leite, foi «um protesto contra aqueles que roubam os autores portugueses ao fazerem download da Internet em vez de comprarem o trabalho de quem trabalha».

Neste contexto, o protesto é estranho. Este álbum não parece ter sido partilhado na Internet ou sequer ter estado à venda. Também não parece ter interesse para estações de rádio. Além disso, Bandeira diz que pagou a todos os autores, pelo que não lhes podem ter roubado o trabalho. Foi um negócio que correu mal e foi só por isso que Bandeira destruiu tudo. O que diz muito acerca da mentalidade de quem quer vender música às rodelas.

A remuneração pelo trabalho segue um processo comum e familiar. As partes interessadas celebram um contrato e aquela que vende o seu trabalho recebe dinheiro da outra que o compra. É assim que quase todos os profissionais trabalham, incluindo muitos artistas que são contratados para dançar, tocar, cantar ou compor. Pelo que Bandeira relata, foi assim que pagou aos artistas que criaram as músicas daqueles CD. Não é esta relação laboral que suscita protestos. O que está a falhar é um tipo diferente de relação laboral que se estabeleceu, em alguns sectores, graças ao monopólio sobre a distribuição, inicialmente por limitações tecnológicas e hoje mantido apenas pela lei. O controlo da distribuição dá uma alternativa aos investidores que compram trabalho artístico. Em vez de pagar o trabalho e arcar com o risco do investimento, como é normal noutras actividades, passam o risco para os trabalhadores pagando-lhes apenas conforme o sucesso comercial da empreitada. Ironicamente, chamam “direitos de autor” a este direito de trabalhar primeiro e só receber mais tarde se o negócio correr bem ao patrão.

Já em 1998 era de prever que este modelo fosse deixar de funcionar. Talvez por isso os colegas de Bandeira, experientes, tivessem preferido receber dinheiro em vez de promessas de lucro futuro. E foi por isso que Bandeira ficou a arder com “vinte mil contos”, mais o aluguer do cilindro. Os hábitos dos ouvintes não mudaram muito. Ouviam rádio à borla; agora é pelo YouTube no telemóvel. Gravavam discos e programas da rádio para cassetes; agora fazem download. Compravam discos; agora subscrevem o Spotify. Para os artistas o fundamental também não mudou. Os que são mesmo bons arranjam quem lhes pague o trabalho. Os outros não, mas nem toda a gente pode ser artista de profissão. O que mudou muito foi o negócio da distribuição. Foi isso que tramou Bandeira. Ele estava a contar com a rádio e as lojas para ir ganhando renda durante anos a vender aqueles CD mas a distribuição tornou-se demasiado rápida e descontrolada para esse negócio funcionar.

É isto que explica o desfasamento entre a visão apocalíptica dos Bandeiras e a explosão de criatividade artística na Internet. A revolução digital foi boa para os profissionais que se adaptaram, foi boa para os amadores e foi excelente para o público em geral. Quem estava a contar com o dinheiro das portagens é que fica a ver o pessoal a passar ao lado da cancela.

1- Observador, Paco Bandeira destrói 50 mil CDs seus em protesto e grava momento em vídeo
2- YouTube, Saloia TV, PACO BANDEIRA DESTROI 50 MIL DISCOS... há 6 anos.
3- Move, Paco Bandeira sobre a destruição de discos: “É um jet lag com sete anos de atraso”