Factos, hipóteses e tretas.
Numa conversa recente com o Miguel Panão, eu apontei que a religião dele depende da verdade de hipóteses científicas, ao contrário do que alguns católicos afirmam. Por exemplo, depende de ser verdade que Jesus foi crucificado – se não foi, o cristianismo está em maus lençóis – e esta questão é científica, empírica e sem ponta de metafísica. O Miguel discordou, alegando que a «morte de Jesus na cruz, é um dado, não hipótese», que o «[Catolicismo] depende do facto Cristo e esse é anterior à verdade histórica», e que «diferimos apenas num caso concreto - a crucificação de Jesus - que eu considero com um dado histórico, um facto e tu como uma hipótese.»(1) Isto é uma confusão.
O facto é o estado da realidade. Se chove em Lisboa, é esse chover em Lisboa é que é o facto. Mas quando eu digo que chove em Lisboa apenas profiro palavras e não chuva em Lisboa. O que eu estou a fazer é enunciar uma proposição acerca dos factos. Ou seja, uma hipótese. Por vezes fala-se em “afirmar factos”, mas, à letra, isso faz tão pouco sentido como “afirmar zebras”. Pode-se afirmar algo acerca dos factos (ou das zebras) mas não se pode afirmar o facto em si. Esta é uma distinção fundamental: os factos são o que acontece na realidade e as proposições acerca dos factos são hipóteses.
Para qualquer modelo – qualquer representação de um aspecto da realidade, seja um conceito, um sistema de equações, um diagrama, um mapa, ou qualquer outra descrição de factos – podemos sempre considerar duas hipóteses. Ou esse modelo corresponde aos factos que pretende representar, ou então não corresponde. Para determinar qual das hipóteses é verdadeira temos de considerar o encaixe entre aquilo que se prevê do modelo e os dados que se obtém observando os factos que o modelo refere. À primeira vista, os dados parecem ser factos. Mas não são.
Galileu olhou pelo telescópio e viu as luas de Júpiter a orbitar esse planeta, um dado que o fez rejeitar o modelo geocêntrico. Mas a ideia na mente de Galileu, das luas de Júpiter e da sua órbita, não era o facto a que se referia. Galileu não tinha luas de Júpiter na cabeça. Essa ideia era também um modelo, e Galileu assumiu ser verdadeira a hipótese desse modelo corresponder à realidade. Os dados são modelos que, por hipótese, assumimos corresponder à realidade.
É útil distinguir dados, hipótese e modelo quando testamos a hipótese de um modelo corresponder à realidade porque a nossa capacidade cognitiva e o nosso tempo são finitos. Precisamos de focar um aspecto de cada vez e não podemos estar constantemente a testar o que já foi testado, senão não fazemos mais nada. Por isso, Galileu teve razão em considerar a órbita das luas de Júpiter como um dado após ter decidido, por repetidas observações, que o telescópio não distorcia o que ele observava, que aqueles pontos luminosos eram os mesmos dia após dia, que passavam de um lado de para o outro porque orbitavam à volta de Júpiter e assim por diante. Tudo isto era uma rede de modelos e hipóteses. Não eram os factos em si. O telescópio podia estar a distorcer a imagem, os pontos luminosos podiam ser outra coisa, o movimento lateral podia não corresponder a uma órbita, e assim por diante.
Para focar uma hipótese é útil confiar no que nos diz o telescópio, o relógio ou a balança, mas sem esquecer que todos os dados são modelos e não a realidade em si. Importa perceber porque é que o número na balança corresponde ao peso. Não é magia. E importa saber o que fazer se o número na balança for disparatado, que pode indicar a descoberta da anti-gravidade mas também pode ser que a balança se tenha avariado.
Assim, o equívoco do Miguel quando afirma que a «morte de Jesus na cruz, é um dado, não hipótese» é não notar que os dados são hipóteses. Apenas lhes chamamos dados para indicar que, de momento, consideramos essas hipóteses suficientemente validadas. O equívoco em afirmar que o «[Catolicismo] depende do facto Cristo e esse é anterior à verdade histórica» está em julgar que o Miguel tem algum acesso magicamente directo aos factos. Não tem. Tudo o que julga saber acerca de Jesus resulta de uma rede de modelos e hipóteses acerca dos relatos bíblicos, tradições, testemunhos e afins. E quando o Miguel diz que discordamos porque ele considera a crucificação de Jesus «um facto» em vez de propor hipóteses, o Miguel equivoca-se porque uma hipótese é precisamente essa consideração acerca de factos. Ao dizer que a crucificação de Jesus é um facto o Miguel não faz mais que enunciar uma hipótese.
O ponto importante é este: não é por o Miguel alegar que a crucificação de Jesus é um facto que essa alegação deixa de ser uma hipótese científica. E qualquer hipótese científica é provisória e sujeita a revisão se surgirem dados contraditórios. Portanto, quem acreditar que a crucificação de Jesus é um dogma irrefutável, em vez de apenas uma hipótese provisoriamente plausível, está a ir contra a ciência. Pior do que isto só o que o Miguel faz quando a hipótese nem sequer é plausível, como a de hipótese de Jesus ter ressuscitado três dias depois de ter morrido. A essa o Miguel chama «facto de fé». Isto já não é confusão. É treta mesmo.
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